Tsuki estava sentada diante de Kouji, em silêncio. Tinha acabado de lhe revelar o que descobrira na escola e a impressão que teve ao falar com Amaya, agora esperando pela resposta do patriarca. Kouji parecia refletir um pouco sobre o que tinha acabado de escutar, escolhendo bem as palavras. Cada membro da família tinha um papel importante no frágil equilíbrio em que viviam, então ele não podia simplesmente falar o que lhe ocorresse.

- Amaya-san… Então ela conheceu um deles, como era de se esperar… Sem perceber, ela está seguindo exatamente os passos que planejei para ela… Será que ela ficará muito brava quando descobrir…? – Kouji lançou um olhar indefinível para a janela. Falava mais para si do que para Tsuki – Bom, de qualquer forma, gostaria que você e Hikaru continuassem de olho nela. E muito obrigada por vir me relatar sobre esse fato interessante, Tsuki-san. – Kouji sorriu para a garota ao acrescentar a última frase.

- Era mais do que minha obrigação, Kouji-sama. – Tsuki sorriu gentilmente de volta – Avisarei a Hikaru sobre sua decisão assim que o encontrar. Há algo mais que gostaria de me dizer?

- Apenas chame a Amaya-san para mim… Quero falar com ela sobre Shaoran e Kotori. – Kouji tornou a olhar pela janela.

- Sim, senhor. – dito isso, Tsuki se levantou e se retirou. Não demorou muito para que Amaya entrasse no cômodo.

- Veio bem rápido, Amaya. – Kouji sorriu satisfeito ao ver a garota.

- Encontrei Tsuki no meio do caminho e ela me disse para vir o quanto antes. O senhor gostaria de falar comigo sobre as crianças? – Amaya parecia aflita ao perguntar.

- Já disse para ser menos formal quando estivermos sozinhos, Amaya… Senão eu fico triste. – Kouji se levantou e foi até a garota.

- Desculpe, Kouji-sa… Kouji-kun. – Amaya achava estranho não tratá-lo de forma polida, mas não comentou. Era possível ler em seus olhos o que ela pensava sobre aquela "intimidade".

- Sabe… Hoje as mães de Kotori e Shaoran vieram me procurar… Elas pareciam desesperadas – ele ajeitou uma mecha do cabelo de Amaya e fez uma breve pausa antes de continuar –, mas eu me recusei a vê-las. – ao ver o olhar de reprovação que recebeu, Kouji suspirou – Eu sei o que elas queriam me pedir… É algo impossível e não cabe a mim mudar o destino daquelas crianças…

Amaya entendeu do que se tratava.

- A maldição se manifestou por completo hoje, não foi…? – ao receber a confirmação do patriarca, a garota continuou – Elas queriam que o senhor a retirasse das crianças… Como não puderam chegar a pedi-lo isso… – a ideia fez com que um forte desespero tomasse conta de Amaya – Onde estão Shaoran e Kotori agora…?

- Acalme-se. As crianças estão dormindo em um quarto próximo ao seu agora. Poderá vê-las em breve. Por ora, quero que fique aqui comigo. – Kouji deu um sorriso gentil para a garota e se dirigiu para seu lugar costumeiro no cômodo.

Amaya foi atrás, sentando-se de frente para ele a uma distância respeitável.

- Sabe… Eu pude vê-los sob o efeito da maldição… Shaoran tem uma cor meio bronze, enquanto Kotori é mais marrom-terra. São realmente agradáveis aos olhos, você gostará. – Kouji sorriu de canto.

Amaya pareceu se tranqüilizar ao ouvir os comentários do patriarca. Ela se importava demais com as crianças da família, talvez mais do que devesse, mas era apenas um detalhe. Aquelas como Shaoran e Kotori eram, como alguns diziam, suas "favoritas". Costumavam receber mais atenção para compensar o descaso dos pais. Amaya não ligava. Queria cuidar das crianças como sua mãe fizera com ela.

- Eu estava pensando, Kouji-kun… – Amaya olhou o patriarca da família nos olhos – A sua forma… É a única que nunca foi revelada para ninguém, não é?

Kouji suspirou.

- Se ao menos eu pudesse sair desse lugar para poder experimentar a sensação de ser descoberto… Sakura-san não me deixa adoecer, ninguém me permite sair… Eu me sinto sufocado com essa atenção extrema.

- Essa é a razão para ter mentido para Sakura-san sobre sua saúde? – Amaya ficou séria.

Kouji sorriu, parecendo satisfeito com algo.

- Você realmente não deixa escapar nada, não é? Talvez seja por isso que gosto tanto de sua presença… – ele se levantou e foi até ela.

Amaya não respondeu, apenas ficando em pé.

- Amaya… Há mais algum motivo para você ter aceitado morar aqui tão facilmente…? - o patriarca parecia estar realmente preocupado ao perguntar.

- Kouji-kun, alguém já lhe disse que você se preocupa demais? Isso pode ser prejudicial a sua saúde. Especialmente no estado em que se encontra. Você deveria estar repousando em vez de estar se questionando sobre minhas razões. – a garota franziu o cenho ao terminar de falar, sinal que desaprovava as atitudes do parente.

Kouji sorriu de canto, concordando com a cabeça. Mas o que ele podia fazer? Ela era como um quebra-cabeça ainda não resolvido para ele. Um quebra-cabeça que deveria ser montado logo ou ele enlouqueceria. Sem pressa, ele se dirigiu à porta, saindo do cômodo. Intrigada, a garota foi atrás, seguindo o patriarca em silêncio.

O rapaz parou diante de uma porta qualquer, igual a todas as outras. A única diferença era a pequena marca no chão logo em frente. Amaya analisou com calma o local, percebendo onde estavam. Instintivamente, ela recuou alguns passos. Depois de tanto tempo, estava de volta àquele lugar, que achou não precisar visitar tão cedo.

- Creio que ainda se lembra… Daqueles dias escuros, em que ficava quase sempre sozinha… Quando ninguém lhe dava atenção… Amaya-san. – conforme falava, o rapaz abria a porta – Quero que me diga algo com toda a sinceridade que puder. Quem você acha que está aqui agora?

A garota engoliu em seco.

- Kotori e Shaoran… São eles, não são…?

Kouji não respondeu, adentrando no cômodo. Amaya se viu obrigada a fazer o mesmo se quisesse uma resposta. Ao notar que nada acontecera com o patriarca, a garota franziu o cenho. Mas não teve muito tempo para pensar, pois alguma coisa absurdamente grande avançou sobre ela. Por reflexo, acabou protegendo o rosto com os braços, sentindo algo quente lhe escorrer pela pele pouco depois e ouvindo um grito agudo praticamente em seguida.

- Shaoran! O que você fez…? – era a voz de Kotori e parecia desesperada.

Amaya prendeu a respiração.

Eles estavam lá. Sozinhos. Sem ninguém disposto a ajudar.