Amaya entendeu rapidamente o que se passava. Shaoran tinha se transformado e avançado sobre ela, mesmo que não quisesse fazer isso. Ele não tinha culpa. Kotori também não era culpada por não impedi-lo. Afinal, eles estavam "naquela fase". Demoraria um pouco até que aprendessem a controlar a transformação. Os únicos momentos em que não conseguiriam seriam quando adoecessem ou fossem abraçados por alguém do sexo oposto não afetado por alguma maldição. Isso significava que poderiam abraçar e serem abraçados pelos Sohma sem serem "revelados", "expostos" ao mundo.
Amaya abraçou o garoto, agora inconsciente em seu colo. Não se importava com o sangue que lhe escorria pelo braço, logo a ferida estaria curada. Felizmente seus instintos tinham agido e mudado sua pele para as escamas. Dessa forma, o ferimento acabou sendo menos grave do que seria. A garota cantarolava algo baixinho, acariciando o cabelo do primo. Kotori se aproximou devagar, evitando os fachos de luz que entravam pela porta. Aquele quarto não tinha iluminação alguma para que ninguém conseguisse se ver sob o efeito da transformação. Quando esse cuidado não era tomado, era rotineiro que as pessoas aparecessem com graves ferimentos causados pelo desespero.
- Kouji-sama, há quanto tempo eles estão aqui…?
O patriarca não respondeu.
- Kouji-sama… – Amaya se voltou para ele, se assustando ao vê-lo cair inconsciente no chão – Kouji-sama…!
Com cuidado, a garota tirou Shaoran do colo e o pôs perto de Kotori. Então arrastou como conseguiu o patriarca para fora do cômodo e fechou a porta. O desespero crescia dentro dela. Cada vez mais afobada, ela pegou o telefone de dentro do bolso e discou o número da única médica capaz de fazer alguma coisa naquele momento.
- Oh, Amaya-san! Que raro você me ligar! O que houve? – Sakura parecia despreocupada do outro lado da linha.
- Sakura-san…! O Kouji-sama…! – pelo tom de voz da colegial, a médica entendeu que algo sério tinha acontecido.
- Estou indo para casa. Deixe-o no quarto. – então Sakura desligou. Amaya logo fez o mesmo.
Quando Sakura saiu do quarto do patriarca, Amaya continuava esperando no corredor. A médica suspirou ao ver a adolescente dormindo sentada no caminho, a acordando calmamente. Quando os orbes verdes a fitaram, a médica sorriu de canto. Estava tudo bem agora. O patriarca apenas precisava descansar. Amaya sorriu de canto com a notícia.
- Eu sei que ele não tem estado bem. – Sakura se sentou ao lado da prima – Mas ando tão atarefada que tudo que posso fazer é fingir que acredito no que ele diz.
Amaya fitava o chão, ouvindo as palavras da médica em silêncio.
- Amanhã não vou ter nada, pelo menos… Então poderei receitar os remédios de que ele tanto precisa. Acha que poderá sair para comprá-los? – Sakura se virou para a morena, sorrindo de canto.
A colegial concordou brevemente com a cabeça.
- Se algo acontecer com ele… Será um problema para todos nós, não é? – Amaya se virou para a médica, que concordou com a cabeça.
- Somos realmente diferentes… Se ele morrer, nós morreremos com ele. – Sakura encostou a cabeça na parede atrás de si, fitando o teto – Por isso nos preocupamos tanto com ele… Por ele e por nós… É muito egoísmo, não acha…? – ela tinha um sorriso triste ao falar.
Amaya respirou fundo antes de responder.
- Egoísmo é abandonar os filhos por eles não serem como se queria. – dito isso, a morena se levantou, se retirando para o próprio quarto.
Sakura ficou mais um tempo lá, olhando o teto, se deixando perder em pensamentos.
"Todos estamos fadados a sermos abandonados… Sendo apenas aceitos pelos que odiamos ou não desejamos… Se não aprendermos a amá-los, como poderemos nos amar…?"
Raiden voltava para a casa, que um dia ele dividira com Amaya, após um longo dia repleto de aulas. Ele detestava dias como aquele, em que se tinham aulas desde o primeiro até o último período. Mas o que ele poderia fazer? Alguém tinha que ser um bom exemplo na família. Ou pelo menos um exemplo aceitável. Assim que abriu a porta, jogou a mochila em qualquer lugar, indo direto para a cozinha pegar alguma coisa para beber. Tinha uma latinha de cerveja sobrando que estava para vencer, de forma que optou por ela. Geralmente não bebia álcool, mas de vez em quando era bom.
Foi para o quarto, estranhando a luz acesa. Deu mais um gole na cerveja antes de sentar na cama e começar a tirar os sapatos. Então ouviu alguém abrindo a porta do banheiro. De repente estava em estado de alerta. Seus sentidos sensíveis estavam extremamente aguçados, relaxando apenas quando Amaya apareceu diante de seus olhos. Sorriu calmamente, se esparramando na cama.
- Achei que tinha voltado para aquele lugar. – ele tinha um tom zombeteiro.
- E voltei. Mas precisava de um pouco de ar, sem pessoas fazendo perguntas.
- O que houve? – ele indicou para que a prima se sentasse na cama.
Foi o que a morena fez, enquanto respondia à pergunta.
- As crianças. Elas estão "naquela" fase. Shaoran avançou em mim. Kouji-sama desmaiou. Sakura confessou que sabia desde o começo da condição do patriarca e disse que vai receitar os remédios necessários logo mais, mas sei lá… De qualquer forma, eu fiquei encarregada de comprá-los. E acabei sendo meio rude quando ela falou de egoísmo…
Raiden se sentou ao ouvir a última parte.
- O que tem o egoísmo?
Amaya explicou o que houve, a breve conversa com a médica da família. O loiro ouviu tudo pacientemente, parecendo pensativo. Era verdade sobre Kouji. Era uma relação meio egoísta, ninguém poderia negar. Mas era a relação que eles tinham. Não era culpa deles se o egoísmo surgiu no relacionamento. Afinal, quando crianças, nenhum deles tinha consciência disso. Nenhum deles achava que sua morte poderia ser determinada pela morte do patriarca.
- E veio para cá por ter se irritado com o comentário dela? – Raiden olhava com curiosidade para Amaya ao perguntar.
- E porque o quarto em que as crianças estão é quase ao lado do meu. Não suportaria passar a noite lá.
Antes que algum deles pudesse dizer mais alguma coisa, o telefone da garota tocou. Era Tsuki.
- Amaya-chan… Eu e o Hikaru estávamos pensando em dar uma bela festa de aniversário para o Aoki-kun, já que o aniversário dele está chegando… O que acha?
- Vou ver o que o Raiden acha, só um instante.
O loiro franziu o cenho ao ouvir o próprio nome, mas Amaya não teve tempo de explicar. Tsuki se empolgou do outro lado da linha.
- Põe no viva-voz então! Eu explico tudo para vocês dois já! Vai ser tão mais fácil! Ia ligar para ele depois de falar com você!
Amaya parecia achar graça da animação da mais nova, fazendo o que ela pedira.
- Tudo bem, Tsuki, diga. – a morena sorria.
- Então, o aniversário do Aoki-kun é em uma semana, ne. Aí eu e o Hikaru pensamos em fazer uma festa para ele! E chamar os colegas de sala dele, além da família, claro. E como temos que começar a ser suuuuper simpáticos com os Sohma por causa do acordo do Kouji-sama, poderíamos chamá-los também! – Tsuki fez uma pausa para respirar – O que vocês acham? Aí vocês poderiam nos ajudar a arrecadar o dinheiro também!
Raiden pareceu pensativo. Olhava sério para Amaya, como se tentando analisar e prever suas reações à ideia de chamar a família Sohma em peso para um aniversário do primo. A morena, por sua vez, apenas sorriu, logo concordando com a mais nova. À exceção da regra, Aoki se dava bem com os Sohma. Impressionantemente bem. Até gostava deles. Mas Aoki vivia em sua própria bolha. Em seu mundo, havia apenas o bem das pessoas. E nada mais importava. Amaya realmente admirava aquilo no rapaz.
Quando desligaram, o loiro continuou fitando a prima, mais sério do que ela gostaria, mas, para ele, de acordo com o que a situação exigia. Amaya sabia o motivo daquele olhar. Sabia que devia explicações. Mas não sentia a menor vontade de dá-las. A morena percorreu o olhar pelo quarto, achando a latinha de cerveja. Seria uma boa desculpa para mudar de assunto. A garota apontou para a lata ao falar.
- Você não devia beber assim que chega. Tem que comer primeiro.
- Amaya. – Raiden estava sério demais e não parecia que se desviaria do assunto.
- Já comeu? Aposto que não. – ela se levantou da cama antes de continuar – O que quer comer? Posso cozinhar já que estou aqui.
- Amaya, sente.
- Quer carne? Posso fazer um pouco de carne. Ainda tem carne?
- Amaya, estou falando sério.
A garota suspirou, cedendo.
