Depois de achar o ele me mostra onde fica meu quarto(ou devo dizer cela?), tomo um banho e coloco uma calça jeans, um blusa preta e um all star. Sento na cama, refaço meu dia em minha cabeça e sinto as lágrimas escorrerem involuntariamente pelo meu rosto.

"Como pude ser tão idiota? Como não imaginei que teriam seguranças naquela praça?"

Se não fosse pelo fato de não ter comido nada o dia todo, eu prolongaria meu choro por toda noite. Porém, logo me lembro do Kurt e sinto que pelo menos agora tenho algo com o que me animar nesse maldito reformatório. Desço dois andares até a sala de jantar e me deparo com um grupo de adolescentes conversando e rindo, como se aqui fosse um acampamento de verão. "Bando de idiotas". Vou em direção a uma mesa sem tirar os olhos do chão quando sinto uma mão segurando meu braço e como reflexo, puxo meu braço com toda a força que tenho e quando olho para ver quem estava me segurando me deparo com lindos olhos azuis. Aqueles olhos azuis.

-Desculpe, Blaine. Não queria te assustar mas estava te chamando e você não me ouviu.

-Não, tá tudo bem. Eu... Você não me assustou.

-Eu só queria te avisar que os lugares são marcados e você vai sentar com mais dois garotos que chegaram hoje também. É uma tática para facilitar novas amizades.

-Ou forçar uma amizade..

-Blaine, não torne sua estadia pior. Se já está aqui, aproveite. Tire o melhor dessa experiência.

-O melhor dessa experiência vai ser quando eu for embora.

Kurt suspira e lança um olhar por cima do meu ombro.

-Vem, vou te apresentar aos meninos.

Ele me leva a dois garotos da minha idade. Um é muito grande e está usando uma camisa de futebol americano e o outro é menor que o primeiro, mas ainda sim maior que eu, e com um estranho moicano como corte de cabelo. Eles dois me fazem me sentir pequeno e eu não gosto nem um pouco disso.

-Blaine, estes são Karofsky e Puck. Como eu já disse, eles também chegaram hoje e acho que estão tão animados quanto você. Bom, vou deixar vocês um pouco sozinhos para se conhecerem mas eu já volto para ver como vocês estão.

Kurt se afasta e logo o maior deles, acho que Korofsky é o nome, dá uma gargalhada sarcástica.

-Dá para acreditar no ? Tenho certeza que é gay! Acho que eu e ele teremos grandes problemas já que eu não recebo ordens de ninguém! Especialmente de gays.

Mal consigo acreditar no que acabo de ouvir! Olho para ele e ele ainda tem aquele sorriso idiota no rosto. Sem pensar duas vezes, falo a primeira coisa que vem à minha mente.

-Olha só Korofsky, eu sou gay e não gosto nem um pouco de ouvir você falando assim. Além do mais, o nome dele é Kurt e eu quero que o trate com o devido respeito.

-Eu o trato do jeito que eu quiser e se a senhorita não gosta acho bom você não cruzar meu caminho.. Ah, meu nome é Karofsky.

-Quando você merecer que eu aprenda o seu nome, eu te aviso. Estou falando sério, se você fizer alguma coisa com o Kurt e eu ficar sabendo eu-

-Você o que senhorita?

Sem nem pensar duas vezes vou para cima dele e dou um soco no nariz dele. Ele cai e sei que o nariz dele quebrou porque está sangrando muito e também porque está torto. Não tenho nem tempo de pensar em dar meu segundo golpe quando o outro garoto me afasta e começa a gritar:

-Você está louco? Está em um reformatório e já arruma briga no seu primeiro dia?

Reparo que ele também usou a palavra "reformatório" e me esforço para não dar um sorriso. Quando tiro os olhos do Korofsky, todos estão de olho em mim. Kurt sai do meio da multidão com um olhar furioso e agarra meu braço como fez antes, mas dessa vez de uma forma dura, e me leva a sua sala. Ele manda eu me sentar enquanto dá a volta na sua mesa. Sem nem se sentar ele começa o sermão...

-O que você está querendo, Blaine? Acha mesmo que se rebelar vai te tirar daqui? Pois aqui vai uma novidade: Não vai! Só vai fazer as coisas piores e aqui tempos tolerância zero com brigas! Fui claro?

"Se ele soubesse..."

-Eu perguntei se fui claro!

-Claro como a água, Kurt.

Ele me observa por alguns segundos, se vira e encara a janela que fica atrás de sua mesa. Ele suspira e penso se ele ainda lembra que estou aqui e sem tirar os olhos da janela, começa a falar.

-Está uma noite linda, não é mesmo?

-Hã?

-Está uma noite linda, eu falei.. O céu está estrelado e não tem nenhuma nuvem.

Ele se vira para mim com aquele olhar acolhedor de quando nos conhecemos e completa:

-Venha ver.

Me levanto sem pensar duas vezes e dou a volta em sua mesa, usando sua mesma trajetória Olho para a janela e observo. Ele tem razão... Está uma noite linda. Mas não tão linda quanto ele. Eu fico observando seu perfil quando ele se vira e me pega praticamente babando por ele. Olho rápido para frente com esperança de ter sido rápido o suficiente. Com o canto do olho vejo que ele sorriu antes de se virar também.

-Porque você bateu nele?

-Ele... falou uma coisa que eu não gostei.

-Tipo..

-Ele falou que não recebe ordens de gays.

-E porque ele falou isso?

-Ele estava falando de você, ou melhor, fazendo graça.

Me afasto da janela e vou em direção a porta pronto para ir embora mas ele me impede, mais uma vez segurando meu braço.

-Você sabe que não precisava fazer isso, não é?

-Sim, eu sei. Mas não foi só por você. Foi por mim também. Eu... Eu sou gay.

Ele dá um pequeno sorriso e solta meu braço. "Ele ainda estava me segurando!"

-Obrigada por confiar e por compartilhar isso comigo, Blaine.

-De nada. Posso te fazer uma pergunta?

-Claro, Blaine. Vá em frente.

-Você é gay também? É que... Não, desculpa. Não é da minha conta.

-Está tudo bem, Blaine. E sim, eu sou gay. É quem eu sou e acho que terei que trabalhar esse ponto com o Karofsky. E quanto a você: sem brigas, ok?

-Ok.

-Está ficando tarde e você ainda não jantou. Vamos, eu te acompanho.

Kurt vai na minha frente se assegurando de que Karofsky já tenha ido para o hospital. Nem faço idéia quanto tempo se passou desde que eu bati nele.. Mas levando em conta que a sala de jantar já está metade vazia, deve ter se passado meia hora no mínimo.

-Blaine!

Me viro e dou de cara com o.. Puck. Ele ficou aqui esse tempo todo?

-Puck, oi.

-Está tudo bem com a sua mão? Sei por experiência própria que depois de um soco daqueles sua mão pode ficar até dolorida.

Kurt lança um olhar de reprovação para o Puck mas não consegue mantê-lo por muito tempo e dá um sorriso.

-Espero que vocês se comportem! Vou ver como Karofsky ficou..

Sinto que meu coração se acelerou e estou prestes a falar alguma coisa quando Kurt se antecipa.

-E não precisa se preocupar. Eu vou ficar bem. Vejo vocês depois.

Kurt vai embora e quando me viro para o Puck ele está fazendo uma cara de estar prendendo uma gargalhada.

-O que?

-Tem certeza que vocês se conheceram hoje? Parecem melhores amigos!

-Sim, eu tenho certeza.

-Eu estava esperando você para jantar... Belo soco, aliás! Se precisar de ajuda numa futura briga, pode me chamar.

-Pode ter certeza que eu vou!

Rimos e fazemos comentários idiotas durante todo o jantar. Puck parece ser um cara legal e ele também é gay, o que faz tudo ficar mais fácil. Depois de jantar nos despedimos e vamos para o nosso quarto... Estamos no mesmo andar, já que chegamos no mesmo dia. Acho que era para o Karofsky ficar no quarto ao lado do meu mas Kurt já deve ter mudado ele de lugar antes mesmo de percebermos. Entro no meu quarto, tomo outro banho, coloco um short e vou direto dormir.

Minha primeira noite no reformatório... Sem Sebastian batendo bêbado às três da manhã, como fez inúmeras vezes. É, vou sentir falta dele. Lembro quando contei para ele que iria para um reformatório. "Vai que você encontra um deus do sexo lá?" Rio porque sei que se ele conhecesse o Kurt, ele o colocaria nessa categoria. Sebastian o aprovaria como meu namorado. Imagino os olhos do Kurt e sentindo a tranquilidade que eles fornecem, caio em um sono profundo.