Não sentia mais medo. Qualquer fim que fosse, seria trágico. Seria feio e injusto. E eu ainda seria apenas mais uma peça no jogo deles. Gantz estava certo, afinal.
No início, cheguei a pensar que talvez não seria correto explodir a comida dos carreiristas, mas decidi pensar nisso apenas como uma brincadeirinha infantil. Temia por Katniss. Mas sabia que ela não me deixaria. Gostaria de tê-la conhecido fora daqui. Seríamos boas amigas. Ela me lembra mamãe. Gostaria de ter dito que a amava antes de partir.
Gostaria de ter dado mais um beijo em Gantz. E lhe dito que ele era a pessoa que eu mais amava no mundo inteiro. Gostaria de agradecer meu pai pelas canções e histórias. Gostaria de pedir mamãe para ser forte por nós agora, e agradecê-la por ter me ensinado tudo. Gostaria de brincar mais uma vez com meus irmãos e beijar o topo de suas cabeças. Gostaria de comer mais um morango fresquinho. De cantar para os tordos. Apenas mais uma vez.
Vi o garoto loiro do distrito 1 se aproximar com um sorriso doentio no rosto. E senti-me triste. Solidária. Vazia. Era isso que nos tornávamos, então? Todo nosso ser, todos nossos sonhos, todas as nossas oportunidades eram tomadas por pessoas que sequer saberiam nossos nomes se não nos obrigassem a matarmos uns aos outros como animais.
Ouvi os tordos antes de sua lança atingir meu estômago. E eu soube que estava tudo bem.
Rue!
Foi reconfortante ouvir a voz de Katniss e quando sua flecha atingiu Marvel senti muito por seus pais. Mas logo a dor invadiu meu corpo e respirar se tornou difícil demais. A consciência do fim umedeceu meu rosto com lágrimas quentes.
Cante.
Pedi a Katniss. É tudo que eu preciso.
A canção de ninar do distrito 12 encheu meus lábios de uma doçura que eu nunca havia experimentado antes.
Aqui seus sonhos são doces e amanhã serão sem lei
Aqui é o local onde eu sempre te amarei
Meu corpo estava leve e havia luz em todos os lugares. Então eu voei.
