The Son of Mists

DISCLAIMER:

História baseada em um RPG. Fazendo parte da cronologia de Tiger's Daughter.

Parte 3: O Vento e a Espada.

Betado por Casty Maat.

O tempo passou na Ilha de Milos.

Sephir não era mais um menino tímido e retraído desde aquele encontro com a discípula de Milo outro dia. Tornou-se um hábito os dois treinarem juntos longe dos olhos dos demais e de seus mestres, sempre ao fim do dia.

Shura acreditava que isso havia fortalecido a determinação de seu pupilo, mais que os treinos ao lado dos demais garotos. E o desenvolvimento de Sephir agradou Shura. Ele logo dominou as técnicas mais complexas de artes marciais e o conceito do Cosmo, conseguia manipulá-lo e até desenvolveu sua própria técnica. Mas ainda sim, ele não tinha dominado por completo a Excalibur e nem despertado o Sétimo Sentido, essencial para isso.

Não poderia continuar o treinamento na Espanha, como planejava, se Sephir não tivesse conseguido compreender e usar a Excalibur, ou simplesmente parecia não querer isso.

E Shura há muitos anos já havia determinado que aquele menino fosse seu sucessor algum dia. Além do que, acreditava que se despertasse o Sétimo Sentido poderia se defender sozinho daqueles que queriam seu mal.

Decidiu que ele precisava de um incentivo maior para despertar seu Cosmo em definitivo.

Em seu décimo quarto aniversário, após dispensar os demais garotos para diversos pontos do planeta onde continuariam seu treinamento e busca por uma armadura, o levou até uma vila pequena existente na cidade. Era pouco habitada, a maioria eram idosos e crianças, mas recebiam alguns turistas em busca da boa culinária local e da paz diante da praia. Mas não foi para visitar aquele bucólico lugar que o Cavaleiro o levou, mas sim por ser afastado e quase deserto.

-Aqui está bom. –observando a mudança no tempo, logo cairia uma chuva bem forte. –Sephir, porque está hesitante em usar totalmente seu poder?

O rapazinho engasgou, não esperava que ele notasse isso. Depois se repreendeu, claro que um cavaleiro com a experiência de seu mestre notaria isso.

-Disse que iriamos partir para a Espanha...

-Sim, faz parte de seu treinamento.

-Eu não sei se quero partir. Gosto daqui e...

Shura o cala com um tapa em seu rosto. Sephir olha surpreso para o mestre. Nunca havia sido agredido dessa maneira, era bem diferente de receber golpes durante seus treinos, foi mais doloroso em sua alma.

-Não diga tolices! –o cavaleiro o repreendeu. – Um cavaleiro tem que colocar seu dever acima de seus interesses pessoais.

O rapaz nada disse, apenas fitando-o, segurando a raiva que estava nascendo dentro dele.

-Quer dizer que eu perdi meu tempo esses anos todos? Estou criando um fraco que deixa de lado seu futuro por causa de uma garota insignificante? Até mesmo aquela magrela da sua amiga tem mais força de vontade que você para alcançar o posto máximo entre os cavaleiros de Athena.

-EU NUNCA PEDI PARA SER UM CAVALEIRO! –o menino explodiu, os olhos marejados, cerrando os punhos. –Foi você quem decidiu isso por mim! Decidiu aonde eu ia, com quem conversar! Você diz que me protegia, mas isso não é vida!

-Oh, uma reação finalmente? –Shura sorri de lado, colocando o braço diante do corpo como se preparasse um golpe. –O fato é que querendo ou não está sendo preparado para ser um cavaleiro. E uma vez que entra no Santuário só há dois modos de sair dele. Como um cavaleiro ou como um cadáver!

Sephir recua um passo.

-O...o que disse?

Shura ergue o braço e em seguida o desce, fazendo um arco cortando o ar, Sephir salta de lado evitando ser atingindo. O golpe deixa um rastro de destruição por onde passa, deixando o chão da praia marcado. Ele olha para o mestre, não entendendo a sua reação, porque estava fazendo isso. No rosto frio do Cavaleiro não conseguia mais reconhecer o homem que o criou desde pequeno.

-Pensei que queria ser forte para trazer justiça à sua família, a sua irmã! –Shura falava dando outros golpes, forçando Sephir a recuar tentando evitar que um golpe direto o atingisse. Ele estava com cortes e escoriações pelo corpo, ficando cansado. –Ela deve estar envergonhada no outro mundo, por ter dado a vida para salvar um derrotado!

Mais dois golpes seguidos dados pelo cavaleiro e Sephir por pouco não consegue evitar ser cortado. Então percebe que se não reagisse poderia morrer. Ele não queria morrer agora. Sephir então reage, segurando o braço de Shura com ambas as mãos, sentindo na carne o corte que esse gesto causara, e vendo o sangue escorrer.

O deslocamento do ar, no entanto foi tão forte que cortou seu ombro e braço esquerdo superficialmente, cortando até mesmo a fita que segurava seus cabelos longos.

-NÃO DESCONTE EM MIM O FATO DE TER MATADO ELA! –e o empurra com força e lhe dá um chute no estômago.

Shura sente o chute e toca o local atingindo e sorri.

-Bom... Muito bom! –Shura relaxa a postura e Sephir continua encará-lo com cautela, ofegante. –Por um instante você despertou o cosmo máximo, apenas para se defender de minha Excalibur. Outra pessoa teria sido cortada ao meio.

Sephir olha para os cortes profundos em suas mãos e somente agora sente a dor desses ferimentos.

-Eu não o culpo... –murmurou o menino, de cabeça baixa.

-O que disse?

-Eu não o culpo pelo o que houve com minha irmã... –o fitou.

Houve um silêncio incomodo após essa declaração. O vento aumenta sua força, anunciando que a chuva logo cairia.

-Eu já me culpo o suficiente sozinho, Sephir. –respondeu passando pelo menino. –Vamos cuidar desses cortes.

Sephir ainda ficou parado, observando as próprias mãos, depois seguiu Shura. Enquanto observava seu mestre enrolar algumas bandagens em suas mãos perguntou:

-Se eu não me tornar Cavaleiro, o que vai acontecer?

-Nada. Eu o deixo viver sua vida por aí. - terminando uma das mãos. –Já é forte o suficiente para se cuidar sozinho.

-E aquela história de que se eu não me tornasse um iria ser morto? –exasperou-se.

-Se fosse há uns quinze ano atrás seria sim. –riu da expressão contrariada do discípulo. –Hoje não. Mas se não poderia trazer justiça à sua família se simplesmente desistir. E nem veria sua amiga novamente.

-Como?

-Ela quer ser uma amazona dourada. Vocês seguiriam caminhos bem opostos e certamente não iriam mais se ver. -terminando o curativo. –Mas pensando melhor no tipo de vida que teria, com batalhas e manchando suas mãos com sangue, talvez seja melhor que tenha uma vida normal.

-Mestre...

-Você é muito mais forte do que imagina, Sephir. Tem dentro de você um Cosmo poderoso, mas se recusa a libera-lo. Seria um desperdício tanto talento desaparecer, mas a decisão final será sua. Depois de amanhã partirei para os Montes Pirineus, seja para torná-lo um cavaleiro de ouro, seja para procurar outro discípulo...

-Eu vou me tornar um cavaleiro de ouro.

-Tem certeza?

-Sim!

Shura não escondeu o alívio em ouvir aquelas palavras. E depois foram para casa. No caminho, Shura o mandou ficar em casa enquanto ia se despedir de Milo, certamente não se viriam tão cedo. O mesmo pensamento veio à mente de Sephir, demoraria muito tempo para rever Kian, queria ao menos despedir-se dela.

Amarrou firme os cabelos com uma fita nova e saiu de casa, mesmo contra as ordens de seu mestre e correu para o local onde Kian costumava treinar. Não a avistou no lugar de sempre, e então a chuva começou a cair. Percorreu vários lugares usado pelo Cavaleiro de Escorpião no treinamento de Kian, até que finalmente a viu de longe, socando uma enorme pedra insistentemente.

Ao aproximar-se dela, pode testemunhar admirado ela finalmente despertar seu cosmo e quebrar a pedra, bem como a alegria dela por essa vitória.

-Eu... Consegui... Aiiii...

-Foi fantástico! Parabéns, Kian!-a saudou com legítima admiração. A viu pegar a máscara, mas a menina nem se importou em coloca-la, sorrindo ao vê-lo.

-Obrigada, Sephir! –esfregava suas mãos. -Soube que vai para a Espanha com seu mestre. Ouvi um dos pirralhos que treinava com você dizendo. Parabéns, você merece!

-É... Mestre Shura disse que iremos depois de amanhã. Estou ansioso!

-Isso significa que ele quer que você se torne cavaleiro de ouro.

Nesse momento percebeu que possuía um motivo a mais para querer ser um cavaleiro de ouro. Queria ficar perto dela.

-Isso! Machucou a mão!-pegou sua faixa e envolveu a mão da menina, que ficou corada. –Isso deve dar um jeito.

-Obrigada.

-Guarde a faixa. Devolve-me depois, quando nos reencontrarmos.

-Está bem.

Sorrindo caminharam de volta por uma trilha que se dividiria mais a frente, cada caminho levando para um ponto extremo da ilha. Parou um instante achando que havia ouvido outras vozes, pensou ter ouvido seu mestre, mas achou que era imaginação.

-Vamos ficar algum tempo sem nos ver. – a voz de Kian chamou sua atenção.

-Sem problemas! Em dois anos meu mestre disse que eu estaria no Santuário como cavaleiro, se eu provasse meu valor. Em dois anos nos vemos no Salão do Grande Mestre!

-Tem razão!

Ela parecia bem animada com essa possibilidade e sentiu sua vontade renovada. Caminharam com a chuva tornando-se mais fraca e chegaram ao fim da trilha e antes que cada um seguisse seu caminho, menino reunião coragem para fazer mais uma coisa.

-Kian...espera! Eu...queria perguntar...quer dizer, pedir uma coisa...

Ela o olhou sem entender.

-Será que... Eu posso pedir um...bem...-engasga e fica vermelho. –Será que...tipo...não é algo que se pede assim...mas se eu não pedir posso ir sem saber como é...tipo, você não é obrigada a me atender se não quiser... Só se você estiver preparada...por que se não estiver eu...

Ela sorri, como se entendesse o que queria perguntar. Ela fica na ponta dos pés e dá um selinho demorado nele, em seguida coloca algo em sua mão e sai correndo na direção de sua cabana.

-É BOM SE TORNAR UM CAVALEIRO, OU EU NÃO VOU TE PERDOAR!-ela gritou de longe, acenando.

Ele ficou ali parado em choque, apenas vendo-a sumir de vista. Olhou para a mão e viu uma flor amarela silvestre, igual a muitas que por ali floresciam e morriam logo por causa do clima nada amistoso da ilha. Suspirou e sorriu, pegando o caminho oposto ao dela.

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Três Dias depois. Huesca, Espanha.

Para chegar à belíssima cordilheira que eram os Montes Pirineus, localizada no sudoeste da Europa, a fronteira natural entre a França e a Espanha, chegaram à cidade de Huesca, na Espanha. Sephir ainda estava admirado com a bela paisagem que avistou por toda a viagem de trem que realizou com Shura, ainda mais com a cidade e sua movimentação. Anos preso numa Ilha causavam essa empolgação no rapaz.

Enquanto Shura analisava pelo mapa o caminho mais rápido para chegarem ao local onde treinariam e acampariam, Sephir observava os turistas e viajantes que subiam e desciam pela rua da milenar cidade.

-Que lindo!

-Deve ser mochileiro também!

-Mas é gatinho!

Diziam um grupo de adolescentes em espanhol, rindo e que não tiravam os olhos dele, deixando-o corado. Quase agradeceu quando seu mestre chegou, dizendo para segui-lo rápido.

-Já providenciei tudo. Vamos.

-Já era sem tempo. –Sephir estranhou o sorriso do mestre, ele havia escutado as meninas falando do rapaz.- Que foi?

-Não vai cortar esse cabelo comprido antes? Vamos ficar meses sem aparecer na cidade mais próxima! Parece uma menina!

-Não! –por instinto tocou o cabelo amarrado com uma fita. –Não vou cortar para ficar parecido com o seu porco-espinho!

Nesse ambiente descontraído partiram, sem notar que eram observados de longe por uma ave negra de mau agouro.

Atravessaram vales e estradas antigas até chegarem ao seu destino um longo tempo depois. Teriam Teria chegado mais rápido se utilizassem um carro, mas Shura insistiu em fazer o trajeto a pé, para a tristeza do rapaz.

Os dois anos seguintes foram tomados por longos dias de treino, em dias de chuva, sol ou neve não havia descanso. E Sephir finalmente estava quase atingindo o ponto máximo de seu treino. Quase.

Havia um último teste a ser feito, se ele passasse era por direito o sucessor da armadura de Capricórnio. Mas não seria um teste fácil. E se falhasse certamente Sephir perderia a vida. Com isso em mente observava seu escolhido concentrado em seu mais recente treinamento.

O rapaz mantinha a concentração, olhos vendados por um lenço. Ele sentia o vento balançando seus longos cabelos negros, soltos, que agora chegavam a sua cintura, sentia-o nas copas das árvores derrubando suas folhas suavemente, e com movimentos firmes e sem hesitação partia todas as folhas com sua mão. Cortes em um fio perfeito, sem deixar que nenhuma escapasse. Logo aos seus pés, montes de folhas cortadas em duas cobriam a grama.

-Sephir!

A voz do mestre o alertou. O rapaz retira o lenço de um dos olhos e fita o cavaleiro, que parecia bem sério.

-Chegou a hora. Vamos para o alto do Monte Aneto.

O rapaz engoliu em seco, ciente do que isso significaria. Finalmente teria a honra de usar a armadura de Capricórnio, ou morreria tentando.

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Em outro lugar, além do tempo.

O lobo negro ergueu o focinho e farejou o ar. A criatura não era filho a natureza, mas nascido das Trevas, era bem maior que um corcel e parecia estar à caça de algum pobre ser. Ele ouviu para a lua prateada, frustrado por não conseguir perceber sua presa.

Foi quando ouviu um ruído. Alguém inadvertidamente pisou em algum ramo seco e o quebrou. O som era quase imperceptível aos ouvidos humanos normais, mas não para ele. Ele sentia a presença de suas presas. Cheiro de gente.

Os olhos prateados reluziram quando disparou floresta adentro, seguindo o cheiro, enquanto uma necessidade mais antiga que o tempo esquentava lhe o sangue: sangue... matar...

Não longe dali, uma bela mulher de longos cabelos ruivos e vestido azul turquesa caminhava por uma trilha, trazendo a mão uma tocha. Atrás dela outra jovem de longas madeixas negras e vestido cinza a seguia como uma sombra, assustando-se com todo e qualquer som que a floresta produzia.

Ela havia escutado o uivo do Lobo Gigante e sua alma parecia gelar, o medo estava nítido em seus olhos azuis. Sabia que a fera estava próxima e caçando. Apertou a bolsa que carregava nos braços contra o peito, tentando controlar o medo.

- Duwies!(Deusa!)

-Apresse-se Meredith!-dizia a ruiva a sua frente, seus olhos cor de esmeraldas fixos na irmã por sobre o ombro.-As ruínas estão a nossa frente.

-Rianne...sinto a presença dele atrás de nós.

-O Cão de Caça de Agravain não nos pegará nas ruínas.

Assim que terminou de falar avistaram as ruínas que vagamente lembravam as de Stonehenge em seus melhores anos. A jovem ruiva pegou um frasco escondido em um bolso de suas vestes e derrubou o conteúdo no chão, como se tivesse vida própria, o liquido correu ao redor das ruínas criando um círculo perfeito. E no instante seguinte, o enorme Lobo apareceu.

Meredith sufocou um grito colocando as mãos na boca, deixando a sacola cair. Rianne a olhou com censura, mas não podia negar que a criatura abalaria qualquer um com sua presença. Ele farejou o ar, não parecia sentir ou ver as duas mulheres. Andou de um lado para outro, tentando em vão atravessar o círculo de proteção. Por fim desistiu e voltou para as sombras da floresta.

-Isso não vai detê-lo por muito tempo. -disse Rianne pegando a sacola e se direcionando para o centro das ruínas. -Não podemos nos demorar.

-Acho isso um erro. -Disse Meredith, ajudando a irmã com os preparativos, retirando de dentro da sacola cristais e frascos. -Reerguer os Portões, para que?

-Nosso irmão está a salvo no mundo mortal. É um deles agora. –dizia Rianne com paciência. -Mas não deixa de ter o sangue de nosso pai em suas veias e o inimigo um dia o encontrará. Seu lugar é conosco! É nosso dever protegê-lo!

Ela acendia três velas e suas chamas bruxulearam debilmente. Rianne ergueu os olhos para o monólito a sua frente.

-O pai não quer que ele volte. É um bachgen (menino) ainda! Está melhor no mundo mortal!

-Nosso pai está velho e não sabe o que diz. Sephir será um homem adulto em breve! O que ele teme é que Sephir queira seu direito de sucessão agora. –Rianne olhou duramente para a irmã, notadamente era possível a dor das recentes perdas em seu olhar.- Ele tem o dever de ficar aqui e nos ajudar nessa guerra!

Meredith olha preocupada para a sua irmã mais velha e se pergunta quando ela perdeu a fé em seu pai? Será que foi desde que Alanna se perdeu e Sephir foi exilado ainda criança para o mundo mortal? Ou a morte de seu marido e filho nublara sua razão? Todos tinham perdas irreparáveis causados pela guerra, mas cada um lidava com sua dor de modo diferente, e Rianne parecia sofrer muito.

Como a deixou convencer a reerguer os Portões e reabrir o caminho para o outro mundo? Diante da guerra que seu povo está travando, o que o pai menos se preocupa agora é com a sucessão.

-Meredith... –ela segurava firme em sua mão. –Só você tem o dom para esse tipo de encanto. Só a você nosso pai mostrou como refazer o que foi destruído. Reconstrua os Portões.

Meredith tinha esse dom, mas havia um preço a pagar.

-Eu não sei... –parecia incerta. – Blodeuwedd disse que jamais deveria usar esse poder para reconstruir os Portões. Brienne também disse que...

- Blodeuwedd teme seu dom, irmã. E Brienne ainda é uma criança perto de nós. Nada sabe do verdadeiro poder que temos. – Rianne apertou a mão de Meredith com força. -Iremos ao mundo mortal para protegermos nosso irmão. Juntos, traremos a paz a Avalon novamente. Não percebe? Onde está sua coragem, Meredith?

Pensou em dizer que a deixou no Solar, o pequeno palácio que era seu lar há alguns anos. O local protegido pelo poder de seu pai e que nunca pareceu tão seguro quanto agora.

-Faça. –insistiu Rianne. –Por todos que deram sua vida...

-Mas... o pai disse...

-A cada estação estamos mais fracas... nosso pai também... logo não poderemos mais lutar, ou ajudar aqueles que erguem suas espadas e lanças por nós.- suspirou. -Lembra-se da profecia que a Senhora do Lago cantou quando Sephir nasceu, Meredith?

-A profecia?

-Quando perguntamos a Dama como seria o futuro de nosso irmãozinho. O quanto temíamos sua sorte de ter nascido ao custo da vida de sua mãe?

-Sim, eu lembro.

-Diga as palavras, Meredith...

Meredith fechou os olhos e em seguida começou a entoar os versos cantados pela Dama em galês, idioma comum naquele lugar:

-"O, plentyn melys

Mae ei gri o fywyd rhagflaenu marwolaeth

Bydd hynny'n fuan cwmpasu'r meysydd bytholwyrdd

Gwneud eu blodau rhuddgoch.

Tywyllwch ar gyfer un ar bymtheg o orsafoedd dominyddu

Ac nid yw bellach yn clywed y gân y Telor

Neu mae'r fflapio adenydd Mwyalchen.

A thrist yn dod yn llygaid y doe,

Dominyddir gan Wolf uffernol a'r Ddraig yn farwol.

Ond bydd y galar yn dod i ben ar y dyddiad y

Ar ddiwedd y tymor ar bymtheg

Pan fydd y gwynt cyfiawnder

Chwifio cleddyf y Brenin

Torri oddi ar y pennaeth y Ddraig

Ac yn taming dan eu hesgidiau aur,

Fychanu y Blaidd uffernol.

A mil tymor heddwch yn dychwelyd

Mae Sacred Cleddyf y Brenin."

-Ef yw gwynt a'r Cleddyf!(Ele é o Vento e a Espada!) -Rianne falava com convicção

-E-está bem... –suspirou convencida e caminhou para frente do monólito.

Rianne sorriu, depois se afastou da irmã mais nova, dando-lhe o devido espaço e observando o local para ver se ainda estavam seguros.

Ela ergueu os braços entoando palavras em um dialeto esquecido, Meredith parecia mergulhar em um tipo de transe. Os céus sempre escuros desde que as trevas dominaram a maior parte da ilha se iluminavam com relâmpagos. Um deles cortou os céus e atingiu o monólito. Rianne protegeu o rosto com os braços, Meredith não se moveu.

Quando a luz finalmente cessou, Rianne aproximou-se cautelosa da irmã. Ela não aparentava mais ser aquela menina de antes. O preço foi tomado para aquele tipo de encanto. Alguns anos de sua vida em troca dos deuses refazerem o portão místico que unia os mundos, era uma mulher madura diante dela agora.

-Está feito. –Meredith murmurou antes de cair ao chão exaurida de suas forças.

Rianne ajoelhou ao seu lado, apoiando sua cabeça com uma das mãos e ergueu o olhar sentindo uma presença maligna, e apertou contra seu peito sua irmã desacordada. Das trevas da floresta surgiu um homem enorme de armadura negra com o elmo de dragão, estava acompanhado por outros soldados com armas e espadas em punho e tendo o Lobo Gigante logo atrás.

Sem esforço algum, ele quebra o círculo de proteção com um gesto. Rianne estreita o olhar, a fera que o acompanhava passa a frente de seu mestre na direção das mulheres.

-Agravain...-murmurou com temor o nome daquele homem.

-Não imagina, milady...o quanto eu lhe agradeço por seu sacrifício. Por unir novamente os mundos... y marwol a'r anfarwol...(o mortal e o imortal)-dizia o homem com voz grave. -Abriu o caminho para retorno de minha senhora e a janela que me levará ao predestinado.

Rianne estremeceu.

-C-como sabia?

Foi quando notou ao lado de Agravain os soldados carregando o corpo de um dos criados do Solar. O homem que as ajudou a burlar a vigilância de seu pai para que pudessem chegar a Floresta Proibida e realizar o encanto. Foi quando se deu conta que tudo estava fácil demais. Era praticamente impossível chegar a Floresta, território que agora pertencia a Agravain despercebidas.

Foi tudo um engodo. Fechou os olhos, tentando segurar as lágrimas. O que havia feito?

- Mae'r dduwies fam! (-Pela deusa mãe!)-gemeu, ciente de que cometera um grave erro.

Rianne fitou Agravain, reunindo suas últimas forças e gritou aos deuses que não lhe faltassem, antes de invocar um último encanto. Uma luz cegante cortou o ar, obrigando os soldados a cobrirem os olhos e o lobo incomodou-se com ela. Quando a luz cessou, Rianne estava a sós e Meredith não estava mais em seus braços.

-Onde?-Agravain indagou.

-Longe... Só uma de nós poderia retornar em segurança com o meu poder fraco como estava... Tinha que ser a doce Meredith. Não poderia encarar minha família no outro mundo se a abonasse diante de meu erro. –Rianne sorriu, fitando o assassino de seu marido e filho. Não havia medo em seu olhar, mas a certeza que a dor da separação e da dor que a consumiu por anos logo terminaria. Logo estaria com seu amado e seu filho. Isso e a crença nas palavras da Dama do Lago. Ela sorria. –Em trinta dias a Décima Sexta estação vai acabar... como se sente vendo que seu tempo está findando?

Agravain nada respondeu, dando as costas à mulher. Rianne olhou para o lado e ali estava o Lobo Gigante, este lhe mostrava os dentes afiados, gotejando saliva e sangue fresco de alguma presa infeliz.

A boca cheia de dentes afiados se abrindo contra seu rosto foi à última visão que teve. E mesmo assim, Rianne continuava sorrindo.

Continua...

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Fim da Parte 3

Nota:

Monte Aneto é o ponto culminante da cordilheira que forma os Pirineus, no maciço da Maladeta, com 3404 m de altitude.

O Galês é o idioma falado pelos personagens de Avalon nessa fic. (liberdade artística da autora no uso do idioma).

Tradução da profecia:

Ó, doce criança

Seu choro de vida precede a morte

Que logo cobrirá os campos sempre verdes

Tornando rubras suas flores.

As trevas por dezesseis estações dominarão,

E não mais ouvirão o canto do toutinegra

Nem o bater das asas do melro.

E triste se tornarão os olhos da Corça,

Dominada pelo Lobo infernal e pelo Dragão mortal.

Mas o pesar findará no dia de

Ao final da décima sexta estação

Quando o Vento da justiça

Brandirá a espada do Rei

Decepando a cabeça do Dragão

E domando sob suas botas de ouro,

Humilhará o Lobo infernal.

E mil estações de paz retornarão

Pela Espada Sagrada do Rei.