Capítulo 2:
New Moon
As lágrimas, quentes e furiosas a escorriam-lhe pela face, esborratando-lhe a maquilhagem e fazendo-a sentir ainda mais irritada por se mostrar tão fraca perante os seus sentimentos. Que idiota pensar que, anos depois, ele ainda se importava com ela como antes. Que faria um esforço para estar na companhia de antigos amigos, apenas para a ver sorrir. Claro que não. Ele mesmo afirmara que as coisas tinham mudado. Pansy apenas não imaginara que isso significava um ponto final na larga amizade dos dois. Sentou-se num banco de jardim, algures no meio de Londres, com a mala no colo e os olhos castanhos pregados no chão. A noite cobria a cidade, apagando as réstias de calor que o sol deixara durante o dia, afastando as nuvens da tempestade para longe e revelando um céu negro, sem lua nem estrelas.
Negro, deveria ser essa a cor da sua alma naquele momento. Negra, despedaçada em mil bocados espalhados pela sua corrente sanguínea. Sentia-se estúpida, idiota, insignificante. Deixava New York, cidade onde estudara durante cinco anos, para regressar a Londres, rever os amigos, revê-lo a ele... Era apenas isso que ela queria, rever Draco, estar com ele, ouvi-lo falar, sentir o calor dele perto de si. E o que tinha conseguido? Nada! Um encontro forçado, com frases curtas e insensíveis, uma distância estranha entre eles, um frio arrepiante quando olhava para aquelas íris cinza.
Pedira-lhe, tal como fazia antigamente, que ele aparecesse no seu aniversário. Esperou por ele toda a tarde, ansiosa, sentido o estômago contorcer-se sempre que tocavam à campainha e o desapontamento assim que via que não era ele. Pensou que estivesse a preparar alguma surpresa, tal como fizera outras vezes, quando eram mais novos, mas, ao fim do dia, todos deixaram a sua casa e Draco ainda não se encontrava lá. Seria possível que ele estivesse realmente mudado como Blaise dizia? Seria possível que ele tivesse esquecido os longos anos juntos na escola?
Tinha de tirar essas dúvidas, esclarecer as coisas. Foi por esse motivo que se dirigiu ao apartamento dele, esperando, no seu íntimo, que ele tivesse uma desculpa, por muito má que fosse, para lhe dar. Percebeu que Malfoy se encontrava em casa quando viu, ainda da rua, as cortinas da sala corridas. Draco nunca saía de casa sem correr as cortinas - já Narcissa era igual. Bateu à porta vezes sem conta, chamou por ele, gritou o seu nome. Nada! Ele limitava-se a fingir que não a ouvia, a ignorar os seus apelos. Triste, recorreu a um ultimato o qual também não resultou. As lágrimas vinham-lhe aos olhos, mesmo que ela se esforçasse para as conter, enquando caminhava, dando-se por vencida, para longe daquele que ela pensava ser mais que seu amigo.
Ali, naquele banco de jardim frio, numa noite particularmente escura, Pansy parecia ter perdido o sentido que a sua vida levava. Sabia que, dali a algumas horas, levantar-se-ia, ajeitaria as calças pardas, sacudiria os cabelos e regressaria a casa, como se nada se tivesse passado, retocaria a maquilhagem desfeita, telefonaria a Blaise para se despedir, faria a mala e regressaria a New York. Mas, por enquanto, precisava de sentir a dor e o sofrimento para que, mais tarde, o nome Draco Malfoy já não significasse nada mais que uma triste e velha memória.
O vento frio e cortante arrepiava-lhe a pele pálida, mas Pansy parecia não se importar. Contudo, uma sensação estranha correu-lhe as costas. Sentia-se observada, como se alguém a tentasse contactar à distância. Levou uma mão fria ao pescoço e ainda com essa sensação presente, olhou para trás. Qual não foi o seu espanto quando, mesmo no fim desse jardim, a mais de vinte metros de distância, os cabelos platinados de Malfoy esvoaçavam livremente, enquanto os seus olhos brilhantes, se limitavam a fixar os movimentos da morena.
Pansy levantou-se, preparando-se para correr até ele, lançar-se-lhe nos braços, gritando desmensuradamente que o odiava, mesmo que ele soubesse que não era verdade. Foi quando, do nada, a voz grave e alarmada de Draco soou perfeitamente nos seus ouvidos, apesar dele não ter mexido os lábios, apesar do vento forte e da distância que os separava. Pára! dissera ele. Não te aproximes de mim! Ela obedeceu, ficando estática ao lado do banco, ignorando a bolsa caída no chão ou as tímidas gotas de chuva que começava, novamente, a cair. As nuvens deveriam ter regressado sem que ela se apercebesse.
Não desviava os olhos dele, temia que, se o fizesse, ele se arrependesse de ali estar e se fosse embora. Poderia não entender a atitude dele ao permanecer longe e pedir-lhe para não se aproximar, mas, pelo menos, não a estava a ignorar. Viu-o sacudir levemente a cabeça e virar-se de perfil. Olhar, em seguida, para o céu negro, sem estrelas, sem calor, e dele novamente para si.
- Perdoa-me, Pansy - pediu a voz de Malfoy na sua mente. Não sabia como reagir, o que dizer, o que fazer. Limitou-se, então, a esperar que ele fizesse algo. - Eu não queria que te sentisses assim. Não queria que sofresses, não queria ver-te chorar.
Nada disse, que poderia responder àquelas afirmações? Continuava com as íris castanhas fixas na figura alta e esbelta que ele representava, esperando, implorando, por uma aproximação. Desejava tê-lo perto de si, mais uma vez.
- Eu disse-te que as coisas tinham mudado - afirmou a voz dele. - E é verdade. Mudaram e nem tu sabes o quanto. Coisas más aconteceram nestes cinco anos, Pansy, e, infelizmente... não poderei continuar a conviver contigo.
O coração dela apertou-se, como se lhe tivessem extraído em vácuo todo o sangue. Novamente, as malditas lágrimas teimavam em brotar-lhe dos olhos, escurecendo ao arrastarem a maquilhagem pelo seu rosto, fazendo-a sentir fraca e estupidamente indefesa. Ele continuava com os olhos fixos nos dela, contraindo os lábios um contra o outro, como se estivesse a se preparar para algo ainda mais doloroso.
- Por isso, minha querida, - continuou ele no mesmo tom de voz. - É desta forma estranha e impessoal que me despeço de t-
- Não! - guinchou Pansy perdendo o controlo e deixando a voz soar na noite. - Eu não o vou permitir, Draco, não sem saber porquê!
- Não tornes as coisas mais complicadas - pediu ele rapidamente, mais uma vez, sem usar a voz. - Por favor, Pansy.
- Eu recuso-me! - declarou ela tentando limpar as lágrimas e ousando dar um passo na direcção do loiro. - Recuso-me a perder-te sem saber porquê, sem um motivo que-
- Pára! - ordenou bruscamente. - Acredita que me dói mais a mim que a ti, não sabes a luta interna que me obrigas a manter só para estar aqui. Eu tornei-me algo que não me orgulho, tornei-me num monstro capaz de cometer as mais temíveis atrocidades e... por tudo o que passamos juntos, por tudo o que sempre senti por ti, recuso-me a fazer-te o mesmo que fiz a já muitas outras almas.
- De que estás a falar, Draco? - perguntou a morena escondendo um soluço. - Eu confio em ti, sempre confiei, sei que nunca me magoarias se-
- As coisas mudaram, Pansy, já não sou o mesmo Draco que conheceste! - exclamou o loiro levemente irritado.
- Eu não acredito nisso! - gritou ela abanando a cabeça e tapando os ouvidos com as mãos. - Não quero ouvir isso, Draco, não quero ouvir-te dizer que eu-
- Então vê! - rosnou ele forçando a entrada na mente dela e projectando-lhe as suas memórias. - Vê aquilo que sou agora.
Sangue. Dor. Sofrimento. Gritos. Desespero. Medo. Um turbilhão de sensações, de sentimentos, uma confusão de sentidos, odores múltiplos e sempre, sempre, o doce sabor do sangue. Olhos arregalados, sem brilho, sem vida, corpos inertes, pálidos e frios, sem qualquer vestígio de calor, tal como aquela noite sem estrelas. Gritos de desespero, implorando pela salvação, de dor... e, no fim, a sensação do seu próprio aroma. O conflito de desejos, a necessidade urgente de a ter das duas maneiras. A imagem fictícia das suas presas a rasgarem a pele sedosa, perfurando uma artéria e, finalmente, o gosto daquele sangue único, que tanto o tentava. Seria o mais doce de sempre, o mais quente, o mais perfeito!
- PÁRA! - guinchou Pansy, caída no chão, com as mãos sobre a cabeça, de olhos fechados, com as lágrimas brilhantes no rosto. - NÃO O FARIAS, NÃO SERIAS CAPAZ, NÃO A MIM!
Malfoy não lhe respondeu, parecia ter medo de falar, como se as forças desaparecessem se ele proferisse alguma palavra. Continuou a encará-la, esperando algum movimento, alguma acção da parte dela.
- Disseste... disseste que eu seria sempre especial para ti, não importava o resto - sussurrou Pansy sem o olhar. - Disseste, quando retiraste a nossa fotografia do porta retratos dos teus pais, que apenas outra fotografia nossa a iria substituir. Uma fotografia na qual estivéssemos juntos, felizes, sorridentes. Como pensas cumprir essa promessa se te queres afastar de mim?
- Apenas quero salvar-te a vida! - bufou Malfoy, com os olhos marejados. - De que me interessa essa promessa se estiveres morta? E se eu for o responsável por isso?
Longos e silenciosos segundos passaram e ambos permaneciam imóveis. A chuva fraca tinha dado lugar a mais uma tempestade e o ribombar dos trovões já se encontrava muito próximo. Draco fechou os olhos, saboreando o impacto da chuva sobre a sua pele fria e preparando-se para o derradeiro adeus. Trancou a sua respiração, caminhou lentamente até onde Pansy se encontrava, fê-la levantar-se, olhou-a fixamente nos olhos e, tão rápido como a luz de um relâmpago, encostou os lábios aos dela, marcando aquele beijo com o leve sabor salgado das suas lágrimas.
Tentou afastar-se, mas a morena segurou-lhe o braço com a mão esquerda. Olhava para baixo, não o permitindo ver a tonalidade dos seus olhos, mas logo um sorriso enviesado e maldoso se lhe esboçou na face. Sorriso esse que fez Malfoy tremer.
- Eu jurei que te faria feliz, Draco. - confessou ela. - Jurei que cometeria a mais insana das loucuras, se isso te fizesse sorrir. E é exactamente isso que farei.
Perante o olhar admirado de Draco, Pansy levou a mão direita, agora com um pequeno canivete - que anteriormente se encontrava na mala da morena - seguro entre os dedos, até ao pulso exposto e, num movimento rápido e brusco, um fino corte surgiu na pele dela, sendo seguido por um tímido fio de sangue. Levado pelos seus instintos selvagens, completamente descontrolados perante o vislumbre do fruto do seu desejo mais mortífero, Draco não conseguiu se controlar em levar as presas àquele corte, aumentando o seu tamanho, fazendo o sangue de Pansy espalhar-se pela sua pele, tingindo os lábios dele de vermelho e saciando o seu incontrolável desejo.
A morena sentiu-se sem forças, quase caindo no chão, tendo sido suportada pelo braço de Malfoy que lhe envolvia a fina cintura. Ela olhava os céus negros, desprovidos de estrelas e de lua, lamentando-se por a sua alma deixar o mundo numa noite tão fria como aquela, mas agradecendo por ver o sorriso inconsciente de Draco nos seus lábios. Apenas o queria ver feliz, esperando que, assim como a Lua Nova marca o início de um novo ciclo, a morte dela fosse a marca do início de um novo período feliz na vida do loiro.
Continua...
N.A.:
Obrigada, mais uma vez, a quem comentou Eu tenho estado a responder aos comentários, mas não sei se aquilo relmente entrega alguma coisa xD
Ora bem, a fic está a chegar ao fim (sim, é apenas uma short). O epílogo será postado assim que o resultado do chall de vampiros sair.
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