Capítulo I – A Família Masen
A música era a única capaz de me acalentar quando tudo parecia difícil de ser suportado. A cada acorde executado, eu vertia de mim todo o fluxo de pensamentos que me corroia por dentro e me sentia um pouco mais liberto dos grilhões nos quais acorrentava a minha própria alma. E, naqueles tempos taciturnos, eu passava a maior parte do meu tempo livre tocando. Harmonizava dores e tristezas; alegrias, amores e pesares. E mais dores. As que eram minhas, e as que não eram. Principalmente, as dores dela.
E naquela tarde sombria de agosto, eu vertia o silêncio de suas palavras.
Os meus dedos corriam suaves pelas teclas do piano; o tom da melodia que delas retirava era lúgubre. Uma sucessão rítmica de sons que eu não saberia tocar de modo análogo se desejasse produzi-la novamente. Aquela não era uma composição, eram sentimentos. Toda a carga de sentimentos que provinha dos pensamentos dela naquele momento transformada em música.
A maioridade civil passava a ser de 18 anos; o alistamento militar era obrigatório e Edward já possuía 17 anos. Eu podia ver, mesmo estando de olhos fechados, todas as linhas de aflição que ela buscava ocultar de mim em seu rosto. Meu puro e cortês Edward, tendo que portar armas e matar pessoas por uma causa que não era dele. Eu sentia o medo e a angústia dela ao pensar que eu teria que macular minhas mãos com sangue de semelhantes por causa da guerra. Em algum lugar da Europa, civis e militares morriam. E em menos de um ano, meu filho pode ser um deles. Eu podia imaginar meu corpo mutilado, em estágio de decomposição, em algum campo de batalha. Meu túmulo em Chicago seria meramente simbólico e eu seria enterrado em solo europeu, junto à centena de outros homens. Meus pais talvez recebessem méritos pela minha morte honrada, em defesa dos interesses da pátria.
As teclas afundaram de modo ríspido com o peso das minhas mãos e um uníssono grave e desacorde ecoou pelo recinto. Eu abri os olhos e inspirei fundo, retirando meus dedos do teclado. Uma paz desvirtuada se alastrou por todo o meu exterior, dando uma vazão maior ao suplício interno dos meus pensamentos. E a minha frente, sob o vão de entrada da sala de música, percebi que os orbes verdes de Elisabeth Masen me estudavam atentamente.
"Edward",ela murmurou, tão logo notou que eu também a observava, forçando-se a esboçar um sorriso pacífico, que eu não retribui.
"Meu pai já chegou?", questionei, desviando do seu olhar padecido, e mirei as teclas de marfim do piano, inexpressivo. Sabia o motivo pelo qual ela viera até ali e estava cansado de refletir sobre ele comigo mesmo. E, muito menos, desejava retratá-lo a fundo com ela por agora. Ainda tínhamos tempo até que a hora derradeira chegasse.
"Não ainda, mas eu creio que ele estará conosco em breve", ela me respondeu, solícita. "Ele deve saber...", ela completou, esperando certa reciprocidade da minha parte. Eu permaneci impassível, ainda a mirar o teclado do piano; mas eu sabia que minha mãe não desistiria tão facilmente.
Instantes depois, os passos dela ecoaram em meus ouvidos enquanto vinha até mim. Eu a aguardei, inerte, e senti suas mãos delicadas pousarem em meus ombros.
"Querido, juntos, nós podemos pensar numa forma de...", ela começou, num timbre meio incerto, silenciando quando notou minhas mãos se sobreporem às dela. Eu observei seu rosto apurado por um breve período e, gentilmente, eu as retirei dos meus ombros e me ergui da cadeira em que estava sentado. Ela não se manifestou quanto à minha reação. Calado, caminhei até a janela, enunciando implicitamente que não gostaria de falar sobre aquele assunto. Pus as mãos no bolso e recostei a cabeça no vidro da janela. Observei o começo do entardecer na cidade, como se nada mais no mundo me fosse mais agradável do que desfrutar daquele breve momento.
As pessoas lá fora transitavam calmamente pelas ruas, passando uma tranqüilidade e uma falsa idéia de rotina que eu sabia que não era compartilhada entre todos. Eu procurei me focar nelas, esquecendo as minhas próprias preocupações e as da Sra. Masen.
"Edward...", ela insistiu num ar meio angustiado, tornando a se aproximar de mim a passos calculados; eu senti suas mãos em meus ombros mais uma vez, apertando-os fortemente. "Nós poderíamos; eu sei que poderíamos. Seu pai possui certa influência e...".
"Não, não poderíamos. A senhora sabe que não, mãe. Idealizar algo impossível de ser concretizado só vai tornar a situação ainda mais difícil", eu a interrompi de forma suave, procurando trazê-la de volta à realidade. "E eu posso não ir para a guerra. É desnecessário ficar remoendo isso agora; não temos certeza dos fatos ainda".
"E se você for, filho?", ela retorquiu num tom rouco. "Você não pode simplesmente pedir para que eu não me preocupe com isso. Eu não suporto sequer pensar na idéia de perdê-lo, Edward, você é meu único filho. E o seu pai, como ficaria?".
Eu me virei para encará-la e ela, instintivamente, recuou alguns passos para me observar melhor. Seus olhos verdes estavam vazios de desalento, mas ela ainda sustentava em si seu porte forte e altivo. Respirei fundo e retribui o seu olhar com uma expressão serena.
"Eu só não quero que sofra por antecipação, mãe", eu falei pausadamente, tentando amenizar um pouco da sua preocupação. "Para mim, essa guerra chegou ao limite; a Europa está devastada e eu creio que os países envolvidos não agüentarão por muito tempo. Eu não me surpreenderia se ela acabasse daqui a alguns meses; cedo ou tarde, eles entrarão num acordo".
"Espero que cedo" ela ressaltou num sussurro rouco, sorrindo de modo tênue para mim. Eu assenti com um meneio de cabeça, voltando a olhar para a janela. Era minha esperança também. Podia não admitir para os outros, mas eu também não queria ir à guerra. Receber méritos por forrar o chão de cadáveres não era o que eu considerava uma atitude nobre. Matar alguém, mesmo que por obediência, não me deixava menos resignado. Aceitar isso era contrariar meus próprios princípios, mesmo tendo amor à minha pátria; ao mesmo tempo em que não aceitar faria com que uma desgraça caísse sobre a minha família e sobre mim mesmo.
Permanecemos assim por tempo indeterminado, até que minha mãe se afastou lentamente. Eu olhei para ela, apenas para observá-la dar as costas para mim e se retirar da sala em profundo silêncio, fechando a porta atrás de si. Suspirei e voltei a dedilhar no piano, sabendo que meu comentário não serviu em nada para diminuir a intranqüilidade de minha mãe.
Mas, naquela vez em especial, eu não cheguei a tocar por muito tempo. Cerca de meia hora depois, selei as teclas do piano e caminhei para fora do cômodo. Do corredor, eu já podia ouvir minha mãe a cuidar dos seus afazeres com esmero; seus pés movimentando-se graciosamente pelo piso de madeira de lei enquanto despejava ordens para os poucos criados que tínhamos. Eu sabia que a casa era para minha mãe o que o piano agora era para mim; ela era a sua válvula de escape particular, e não havia como fazê-la pensar de forma diferente.
Respirei fundo e me enclausurei no meu quarto. Deitei na cama num gesto cansado e permaneci a fitar o teto, um tanto quanto entediado. Queria evitar encará-la para que não precisasse ver novamente em suas feições o quanto ela ainda se prostrava por causa daquela maldita notícia. Era importuno aquele comportamento dela assim como o fato de não conseguir parar de pensar sobre isso nem que eu desejasse.
As horas correram morosas até que meu pai finalmente estivesse em casa. Não soube ao certo se em algum momento eu cheguei a dormir, mas me mostrei insatisfeito por isso não ter ocorrido quando minha mãe entrou no meu quarto e disse que o jantar já ia ser servido. Cogitei a possibilidade de alegar que estava um pouco indisposto e preferia ficar deitado, mas apenas me ergui da cama e a acompanhei lentamente, contrafeito.
Eu não poderia dizer que éramos uma das famílias mais ricas da cidade, mas nós vivíamos financeiramente bem. Meu pai era um excelente advogado, o que fazia dele um indivíduo bem prestigiado no meio jurídico local. Isso, é claro, não fazia dele alguém menos ocupado e era certo dizer que eu e minha mãe não o víamos com muita freqüência. Por isso, para os Masen, era praticamente indiscutível o fato de que todos deveriam sentar-se à mesa juntos para a realização das refeições, excetuando momentos excepcionais (a maioria irrefutável deles consistia num julgamento que durava um tempo maior do que necessário e meu pai não podendo comparecer por conta disso). Eu sabia que não havia alegria maior para a Sra. Masen do que ocupar o lado esquerdo de meu pai à mesa enquanto me via a sua frente; no entanto, enquanto avançava pelo corredor, peguei-me desejando que meu pai não tivesse comparecido ao jantar aquela noite, pois deduzia que o assunto recairia na redução da maioridade novamente.
Para meu alívio, meu pai sequer mencionara que gostaria de tratar sobre a questão, mas seu olhar cansado me dizia que ele procuraria saber o que eu pensava a respeito, em outra ocasião. Minha mãe, para minha intensa surpresa, pareceu querer respeitar o nosso mutismo e o jantar sucedeu de forma solenemente silenciosa. Mal sabíamos nós que, quase um mês depois, o alistamento militar seria um dos nossos menores problemas.
Afinal, de uma forma ou de outra, eu jamais chegaria aos meus 18 anos.
