Capítulo II – O Escritório
Um calor morno e uma brisa suave prenunciavam um outono singularmente agradável aquele ano. As janelas abertas do escritório aliviavam um pouco o calor que sentia e eu apreciei aquele leve frescor por alguns instantes enquanto ajudava meu pai a organizar alguns dos seus papéis nos arquivos. Eu sabia que intimamente ele só fazia isso para que eu, assim como ele, optasse por seguir a carreira jurídica na Universidade de Chicago. No entanto, eu não tinha tanta certeza se essa era a minha verdadeira vocação. Para falar a verdade, nem sabia ao certo para o quê especificamente desejava estudar em uma faculdade.
Eu gostava de tocar piano; as pessoas comentavam que eu era bom nisso. Eu estava convicto de que tocava bem o suficiente, e até compunha minhas próprias sinfonias. Talvez, quem sabe, eu pudesse seguir a carreira de músico. Talvez meu pai ficasse, no mínimo, decepcionado, eu cria. Ou talvez, quem sabe, muito provavelmente, meu pai ameaçasse me deserdar se eu não tirasse aquela idéia estúpida da cabeça.
Observei o Sr. Edward Masen e ri com o pensamento. Ele apenas arqueou a sobrancelha para mim, certamente perguntando-me o que era tão engraçado.
"Ah, não, o senhor não ia querer saber...", eu mencionei num meio sorriso. "E não é nada tão importante assim, eu só lembrei de algo engraçado".
"Algo engraçado... Também vou acha muito engraçado ver você correndo atrás dos meus papéis se deixar algum escapar pela janela...", ele murmurou, risonho. Eu entendi perfeitamente a implícita mensagem no tom zombeteiro dele e voltei a atenção para os documentos que estavam em minha mão.
"Eu, honestamente, não vejo necessidade do senhor guardar tantas coisas, meu pai", eu mencionei serenamente, depois de um tempo. "E como tem a estranha capacidade de desorganizá-los quase sempre".
"Não são coisas, são documentos. O que significa dizer que eles são importantes para alguma coisa", ele retorquiu, sem tirar os olhos dos que estavam sobre a mesa do escritório. Percebi, com uma careta, que ele me deixou a fazer o trabalho sozinho, mas não disse nada. "E eu não sou tão organizado como você", ele ergueu o olhar e me encarou por alguns instantes. "Espero que o senhor acabe com isso antes do jantar".
"Por ano, tipos, ordem numérica e alfabética?", questionei sem muito entusiasmo. Não era a primeira vez que eu lia os processos mais antigos, quando ele me pedia para separar os casos por "assunto". Agradeço por ele ter um arquivo particularmente grande agora e me poupar de ter que ler boa parte deles novamente.
Ele concordou com um murmúrio e eu suspirei, voltando a organizar os tais documentos. O meu trabalho e o dele sucedeu de forma silenciosa por um longo período, a não ser pelo ruído de papéis sendo folheados e gavetas de madeira se fechando. Em um determinado momento, meu pai soltou um longo suspiro e eu voltei o olhar para ele calmamente.
"Algum caso muito difícil?", perguntei de modo involuntário, esperando que ele não achasse que eu estava muito interessado, porque eu particularmente não estava. Meu pai suspirou novamente e desviou o olhar para mim.
"Nem tanto... Só estou um pouco cansado", ele falou, esfregando a nuca lentamente com uma das mãos antes de prosseguir. "E como anda a organização?".
"Não é melhor o senhor descansar um pouco?", eu rebati, observando-o de forma séria. Os olhos de meu pai estavam brilhantes demais para alguém em seu estado normal.
"Não, eu já estou terminando", ele respondeu e voltou a atenção para o que fazia novamente. Eu o estudei por alguns instantes e, inspirando profundamente, prossegui no meu serviço.
Cerca de uma hora depois, minha mãe entrou no escritório, perguntando se nós dois gostaríamos de um lanche. Eu respondi que não e observei-a de soslaio, perguntando-me mentalmente se seria perceptível para ela como foi para mim a pequena suposição de meu pai estar querendo ficar doente. Ela analisou meu pai por alguns instantes, após ele ter respondido que também não queria nada, e eu vi suas expressões mudarem para uma preocupada.
"Edward, amor, você está se sentindo bem?", ela questionou com o cenho franzido, aproximando-se dele calmamente. Eu vi meu pai se aprumar na cadeira e, revirando os olhos, imaginei que ele iria dizer que sim.
"Eu estou...", ele começou, no tom evidentemente convincente e eu respirei fundo.
"Querendo ficar resfriado", eu o interrompi de modo meio entediado, folheando um processo como quem não quer nada. Eu senti o olhar de meu pai sobre mim e esperei pelo sermão iminente por tê-lo interrompido, mas o comentário da minha mãe foi mais ágil. Suspirei, aliviado.
"Resfriado?", ela questionou, observando meu pai calmamente.
"Não estou querendo ficar resfriado, Lizzy, é só uma pequena...", ele retorquiu, teimoso.
"Indisposição", eu e minha mãe completamos, de imediato. Não era a primeira vez que ele usava essa desculpa quando percebia que não estava bem e nós, assim como ele, tínhamos plena consciência disso. "É; nós sabemos", eu completei, divertido, e nós três rimos um pouco.
"E também sabem que eu preciso acabar isso ainda hoje", ele argumentou depois de um tempo, agora um pouco mais sério.
"É melhor o senhor descansar um pouco, pai; se quiser, eu posso tentar resolver para o senhor... O que quer que seja", disse, num suspiro.
"Não é necessário Edward, acho que eu posso terminar amanhã", ele murmurou num ar cansado, enquanto se erguia da poltrona calmamente. Ele e minha mãe se retiraram do escritório, mas eu permaneci no recinto, voltando a mexer nos processos de meu pai.
Aquela seria a última conversa que teríamos. Na manhã seguinte, ele seria levado para o hospital, quase inconsciente, e lá morreria dias depois, sem jamais ter recobrado a consciência novamente.
