Capítulo III – O Indício

Andando pelas ruas de Chicago aquela tarde, eu percebi que uma atmosfera mórbida rondava a cidade. Essa sensação me perseguiu durante toda a minha caminhada, e, de certo modo, percebi que a razão estava na maneira diversa que as pessoas choravam pelos seus mortos na guerra. Havia algo maior do que canhões e armas; algo que estava oculto por uma lona branca de uma carroça que rapidamente passara por mim, poucos minutos antes.

Foi perceptível o cheiro de putrefação que dela se desprendia e eu me senti completamente nauseado. Olhei para trás e observei o veículo se afastando, levando o odor de morte para outras localidades. Antes que eu o perdesse de vista, porém, tive a impressão de ter visto um braço roxo se sobressaindo da proteção, após uma brusca chacoalhada da carroça.

Meus olhos se prenderam por alguns instantes na esquina em que o coche havia dobrado. Eu não era o único que a observara; outros com pele assimétrica à minha também a acompanharam com pesar; seus rostos estavam molhados por lágrimas. Alguns deles, ao me notarem ali, parado, substituíram o sofrimento por ódio, como se eu estivesse difamando-os por haver compartilhado aquele momento com eles. Eu não me importei com o fato de estar muito próximo a um dos bairros negros da cidade, a receber olhares de repulsa dos ex-escravos. Eles choravam por aqueles corpos arroxeados e sem vida; eu entendia a dor deles, e esperava não chorar por um dos meus, pela mesma razão.

Meu pai ainda estava no hospital, inconsciente. Os médicos não sabiam informar ao certo o que ele tinha para nós e, por prevenção, não nos era permitido visitá-lo. Debatemos com os médicos sobre a proibição várias vezes, mas eles apenas diziam que estavam dando o máximo de si para reanimá-lo; porém eu sabia que, por trás, falavam uns para os outros que não havia muito a se fazer, a não ser com que a morte dele seja a menos dolorosa possível. Isso me deixava mais frustrado e irritado do que insatisfeito, e uma aflitiva sensação de impotência se alastrava em mim por saber que não podia fazer nada quanto ao fato.

O Sr. Masen, meu pai, não era o único caso daquela estranha doença e a imprensa já começava a espalhar rumores de que a Influenza Espanhola havia chegado aos EUA; rumores estes que o governo constantemente procurava abafar, mas que os médicos já comprovavam ser verdadeiros. Eu já ouvira falar coisas atrozes sobre a moléstia, contudo não saberia informar se todas elas possuíam algum teor de seriedade. Tudo o que tinha plena convicção sobre ela fora que já causara um número alarmante de mortes na Europa e que, não raro os casos, levava o paciente a óbito. Fora isso restava somente alguns cuidados preventivos informados pelo jornal de três dias antes como zelar pela sua higiene; evitar aglomerações, principalmente à noite; evitar excessos físicos e causas de resfriamento; e não fazer visitas. A matéria havia falado parcialmente sobre alguns sintomas da "tal doença desconhecida", alertando que o doente, aos primeiros sintomas, deveria ser mantido em repouso e não receber visitas (no hospital ou em casa); dizia que o fato afastava as complicações e o contágio... Para mim, isso implicitamente significava dizer "abandone o doente e espere que ele morra".

Respirando fundo, voltei a caminhar e cheguei à minha casa, sentindo a cabeça meio pesada. O aroma de morte ainda estava impregnado em minhas narinas e meu estômago embrulhava. Eu notei que minha mãe não estava, e deduzi que ela ainda estivesse no hospital, tentando ter notícias sobre meu pai. Eu estive lá pela manhã, mas a resposta que obtive ainda era a mesma dos quatro últimos dias.

O banho que tomei relaxou o meu corpo, mas não conseguiu afastar a imagem do braço arroxeado e a lembrança daquele odor fétido da minha mente. A cabeça doía de forma branda e irritante, e eu tentei me manter ocupado até que o jantar fosse servido.

Eu castigava as teclas do piano com meus ágeis dedos, num implícito e ansioso desejo de repelir aquele insalubre silêncio. Como que por um conluio sem índole e previsibilidade, os poucos criados da casa estavam quietos. Eles não deslocavam móveis; eles não comentavam sobre o cotidiano; eles não riam ou choravam; eles nem ao menos chegaram a me incomodar, questionando sobre o estado de saúde do Dr. Masen... Cheguei a pensar que nem mesmo eles tivessem alguma esperança; talvez nem mesmo eu desejasse persistir na idéia de ainda tê-la e me repreendia constantemente por isso.

Uma chuva suave que começou a cair ruidosamente sobre os telhados não contribuiu para melhorar o meu estado de soturnidade. Subsistiu uma desamornia manifesta entre a minha música e a da natureza, como se fosse desejo delas que eu prezasse somente a presença da última.

Minha cabeça latejava e os pensamentos que a povoavam tornavam-se suplícios internos. Eu só desejava esquecer tudo o que acontecia, pelo menos por um momento; ansiava esquecer que aquele braço arroxeado iria pertencer a meu pai, muito em breve. Deveria me sentir culpado pela sensação torpe e prematura de luto por meu pai, como se inconscientemente desejasse a sua morte? Eu não saberia informar.

Minhas mãos pararam de correr sobre o teclado e o ruído dos pingos de chuva ficou ainda mais evidente. Eu o apreciei por um período, porém fui consternado por uma incomum soledade. Eu estava solitário naquela casa e o pensamento me atemorizou. A própria idéia da morte havia me atemorizado.

Nós nascemos para morrermos um dia; esse é o dogma dos seres vivos. Todos sabem; todos acreditam; e todos dificilmente aceitam. Eu não aceitava. Senti algo pingar nas costas da minha mão e limpei o rastro da lágrima que escorreu pelo meu rosto com certa ira.

"Moléstia maldita...", murmurei para mim mesmo antes de respirar profundamente. Uma parca movimentação na casa anunciou a volta de minha mãe e eu fui ter com ela, esperando obter alguma notícia animadora sobre o estado de saúde de meu pai.

Inconsciente, sem mostrar melhoras. Minha mãe repetira a resposta que obtive pela manhã e eu tornei a suspirar.

Meus olhos ardiam e minha cabeça pesava, mas eu me mantive indiferente a isso boa parte do tempo. No horário do jantar, forcei-me a consumir a refeição, tentando não observara cabeceira que meu pai sempre ocupava agora vazia e imaginar que permaneceria daquele modo. A recordação do odor podre voltou a me abater e eu afastei o prato de mim, repulsivamente.

Minha mãe me encarou, intrigada. Eu me ergui da cadeira e apenas mencionei que estava cansado e ia me retirar, e que eu não sentia fome. Ela me olhou por alguns instantes e apenas murmurou um simples "Está bem, filho, descanse". Eu assenti e segui o trajeto até meu quarto.

Eu deitei em minha cama com a roupa do corpo e fechei os olhos calmamente. Amanhã estaria melhor... Eu só precisava repousar um pouco.Precisava parar de pensar em tudo o que acontecia e o sono profundo era o bálsamo que eu necessitava no momento.

"Moléstia maldita...", repeti involuntariamente, já um pouco sonolento. "Eu queria esquecer que você existe", completei num sussurro rouco, pouco antes de adormecer.

Mal sabia eu que já a havia contraído e que, muito em breve, passaria a ser mais uma vítima dela.


N/A: Er... Bem, abusando da minha liberdade poética, eu acabei criando "algumas" suposições. Eu penso que a Influenza Espanhola tenha atingido primeiro as camadas mais pobres da população (lê-se aqui ex-escravos, em sua maioria esmagadora e praticamente absoluta) e que o caso só se tornou realmente preocupante quando começou a atingir os mais ricos, o que deixou a pandemia mais pública, por assim dizer.

Eu também supus – e em quase todos os casos, isso, infelizmente, não é só uma suposição – que os pobres dessa época não tinham tanto – ou quase nenhum – acesso a uma assistência médica digna, então, procuravam se curar dessa gripe por conta própria, pensando ser alguma comum. De qualquer forma, os médicos inicialmente pensavam que se tratava de uma gripe comum e receitavam o tratamento, mas com o tempo ficou evidente que era não se curava de forma tão simples.

Eu juntei isso a uma outra informação que obtive em minhas pesquisas "internêuticas", que dizia que, na época em que a doença se alastrou no Brasil, as pessoas, desesperadas, depositavam os corpos dos familiares nas ruas, com medo de contraírem a doença também (e o Governo recolhia, em comboios).

E, para finalizar, corpo de quem morre vítima da doença adquire um aspecto arroxeado.

N/A 2: E como a própria Stephenie (a autora) informou, a Influenza Espanhola – ou Gripe Espanhola –, atingiu os Eua a partir do mês de Setembro de 1918. Eu não sou a maior entendedora do assunto e confesso que foi meio suado descobrir um pouco mais sobre a doença, mas vou falar o pouco que sei sobre ela... Hehehehehe.

A Influenza Espanhola é conhecida como uma das maiores pandemias do mundo, pela "simples" razão de ter matado cerca de vinte a quarenta milhões de pessoas em um período maior do que um ano. Entre março de 1918 e maio de 1919, ela teve três ciclos mundiais. O segundo – e considerado mais terrível período, devido ao registro de intenso número de mortes – começou em setembro de 1918 e terminou em janeiro de 1919.

Havia duas formas de manifestações da doença. A primeira, considerada benigna, não levava o paciente a óbito se tratada de forma adequada (ela poderia, também, evoluir para o quadro mais letal da doença). Os sintomas eram temperatura elevada; falta de apetite; debilidade; catarro nasal e traqueobrônquico; sensação de mal-estar; urinas escuras; olhos brilhantes e língua branca, ligeiramente azulada (esses eram os principais sintomas que ocorreram no primeiro período da manifestação da doença). A outra, mais letal, tinha como suas principais manifestações as que acarretavam congestão pulmonar e complicação gastrintestinal, a pneumônica, a broncopneumônica e a toxêmica (intoxicação relativa à presença de substâncias nocivas na corrente sanguínea, produzidas por microorganismos).

Agora, uma informação que é minha, especificamente (é, gente, mais uma suposição... rs). Para a fic, eu me baseei na idéia de que, como a fase mais letal da pandemia só surgiu no mês de setembro de 1918, os primeiros pacientes a contraíram em sua forma mais benigna, e esta evoluiu para a mais letal com o tempo, passando a ser espalhada sob essa "nova" forma. Não sei se é algo certo de se pensar, mas, bem, como eu disse antes – acho que estou ficando repetitiva demais... risos –, eu tenho todo direito de usar de forma plena a linda e maravilhosa e salvadora liberdade poética (como um amigo meu sempre diz... Rs.) e vocês vão entender se eu tiver feito alguma besteira, não é mesmo? Rs.