Capítulo IV – O Outono Sombrio
Àquela manhã, eu não acordei melhor do que quando eu havia dormido. Eu raramente tive momentos agradáveis de sono e havia passado a maior parte do tempo acordado, a fitar o teto escuro do meu quarto e a refletir sobre assuntos que não desejava. Meus olhos ardiam e a cabeça doía ainda mais do que eu imaginava; eu afundei a palma das minhas mãos nos olhos por alguns instantes, como se o fato fosse capaz de cessar a dor evidente.
Respirando fundo, forcei-me a sair da cama e seguir para a sala de refeições, não desejando ser uma preocupação a mais para minha mãe, e também para tentar ocupar minha mente para me impedir ter novos e constantes pensamentos nocivos. Um calafrio percorreu o meu corpo quando me vi livre das cobertas. Outro se seguiu ao primeiro e eu não sei ao certo se foi pelo fato de me sentir um pouco quente, ou se pela parca idéia que havia se passado pela minha cabeça de que eu também havia contraído a influenza.
"É só um resfriado comum, Edward, é só um resfriado comum", murmurei para mim mesmo, tentando esquecer o segundo pensamento, e me ergui da cama lentamente.
O Edward que me encarou do espelho de corpo estava mais pálido do que o normal e havia visíveis olheiras ao redor dos seus olhos, deixando evidente que o sono não foi suficiente para repor suas energias. Os orbes esverdeados parecerem estranhamente brilhantes, como percebi estarem o de meu pai, dias atrás. Aquela era uma das evidências, além das outras duas ou três que já sentia. Eu automaticamente trinquei o maxilar, contendo a vontade de pôr a minha língua para fora e verificar se ela estava "branca, ligeiramente azulada", como dizia o jornal.
"É só um resfriado comum, Edward, e você está ficando paranóico", acusei entre dentes e desviei o olhar do espelho, seguindo logo o caminho que me levaria à sala de refeições.
Pelo já habitual silêncio e pela mesa vazia, deduzi que minha mãe não estava em casa mais uma vez. Agradeci mentalmente ao fato, pois assim evitaria perguntas quanto ao meu estado. Um novo calafrio percorreu o meu corpo e eu, instintivamente, abracei a mim mesmo para me aquecer. Eu estava assim porque a temperatura havia caído um pouco, pensei lentamente. Talvez eu devesse vestir algo mais quente.
Como ontem, eu não sentia fome e, a passos arrastados, voltei para o quarto. Os músculos também incomodavam, como se no dia anterior eu tivesse me esforçado demais fisicamente; sentia-me fatigado. Eu rapidamente descartei a idéia de vestir um casaco, forçar algum alimento garganta abaixo e resolver alguns assuntos pendentes que teria que solucionar no dia. Suspirando de satisfação, escorreguei dentro das cobertas e fechei os olhos ardentes.
Os calafrios não cessaram, como anteriormente havia pensado que ocorreria. Eles pareciam piorar a cada instante, e eu encolhi o corpo, numa vã tentativa de aquecê-lo e fazer com que os pequenos e constantes tremores diminuíssem. O repouso afastava as complicações e o contágio, eu murmurei em pensamento a frase da matéria, o repouso afastava as complicações e o contágio...
"Eu estou ficando paranóico", tornei a repetir, abrindo os olhos calmamente, piscando algumas vezes devido ao ardor que sentira aumentar neles.
A janela a minha frente mostrava um céu nublado e uma suntuosa árvore, com suas folhas alternando entre o mais intenso tom avermelhado e o mais simples dourado. Algumas eram jogadas ao solo pela leve brisa que soprava, outras lutavam silenciosamente e para permanecer nos galhos, ainda dependuradas neles e balançando lentamente. Eu me recordei de que, quando muito mais novo, gostava de observar as gradativas mudanças que nela ocorriam no decorrer das estações.
Num breve lapso, eu me comparei a uma daquelas folhas fragilmente unidas aos galhos e observei a mais escura delas atentamente. Como ela, eu aguardava. Como ela, eu soube que não viveria mais para ver outro inverno. Eu permaneceria nesse quarto e esperaria pela minha morte, assim como a folha esperava ser arrancada da árvore pelo vento.
Eu permaneci na cama na mesma posição, ainda a fitar aquela folha avermelhada, apenas sentindo cada um dos calafrios que me assolavam e a dor em minha cabeça. Talvez minha língua estivesse mesmo branca ou azulada. Por mais que recusasse a admitir para mim mesmo, eu estava com a doença que tantas vezes chamei de maldita. Eu havia contraído a Influenza Espanhola.
Enterrei parcialmente o rosto no travesseiro e suspirei. Sem perceber, acabei adormecendo, e despertei devido a uma leve agitação na casa. Ainda cansado e a sentir calafrios, permaneci inerte, tentando escutar o que ocorria.
Percebi que eram passos apressados e firmes, que se aproximavam cada vez mais. Eu já previ o que aconteceria e aguardei em silêncio. Segundos depois, a porta do meu quarto se abria num ruído brusco. Com certo esforço, observei o vão e encontrei minha mãe a me encarar com os olhos marejados; uma expressão de temor e desespero contorcia a sua face.
"Não me diga que... Você também...", ela falou num murmúrio desconexo. Eu respirei fundo e desviei o olhar, voltando a fitar a janela.
"Sim", respondi numa voz rouca e a ouvi reprimi um soluço. Cerrei os olhos e me encolhi ainda mais nas cobertas.
Ainda aquela tarde, eu seria levado para o hospital, ainda plenamente consciente, e ardendo em febre. Ainda aquela tarde, receberíamos a notícia de que meu pai havia morrido. E, dias depois, minha existência como Edward Masen seria selada para sempre.
