Capítulo V – A Influenza

Eu estava enfastiado de tudo; daquele impertinente e maldito silêncio no qual se resguardava todas as vezes que nossos olhares, tão iguais em tons e realces, se encontravam. Eu sabia que, assim como o meu pai, havia contraído a Influenza Espanhola, afinal, aquele era o assunto mais abordado na cidade nos últimos dias e não tinha como eu não estar ciente dos seus sintomas. Sabia que nada me levaria a crer que minha mãe não estava ciente dos riscos que corria ao permanecer no meu leito, a zelar por mim. E sentia dentro de mim mesmo que havia algo de errado com ela e ela se recusava a falar sobre ele comigo.

Elisabeth Masen também estava doente. No entanto, lá estava ela envolta em sua assistência para comigo, um tanto quanto calada, mórbida e túrgida, procurando esquecer algo que constantemente ia a seus pensamentos. Mártires internos transformados em vozes de sua mente, que constantemente diziam que minha morte estava próxima. Não importava para ela o fato de estar do mesmo modo; para minha mãe, bastaria que eu estivesse bem e a salvo.

Ela não sabia o quanto isso era doloroso para mim, vê-la acabar com sua própria vida, gradativamente, por causa de um caminho que não tinha mais volta. Num futuro iminente, eu iria morrer; e não havia nada com o que ela pudesse fazer quanto a isso.

Eu lutava para me manter lúcido, mas obter sucesso estava cada vez mais difícil. Meus músculos estavam moídos de dor e o tremor inexorável do meu corpo não cessava. Eu não sabia mais se meu corpo queimava de febre, ou estava gelado como o de um cadáver; tudo o que eu poderia informar era que eu sentia muito frio.

Eu lamuriava em gemidos entrecortados por tosses ruidosas e, em algum ponto do que restava da minha consciência, eu sabia que o meu quadro piorava cada vez mais.

Ouvia gritos, gemidos e choros; alguns deles vinham de mim mesmo, outros tantos, dos leitos ao meu redor. Eram frutos da minha mente, ou sombras da realidade...? Era impossível discernir. Também havia aquela voz rouca, penosa, distante, que eu sabia pertencer a Elisabeth. Seu tom suave dizia que eu estava melhorando, que eu ficaria bem... Palavras vãs de consolo para alguém sem esperança.

Eu queria pedir para que ela fosse embora, mas tudo o que consegui foi transformar involuntariamente palavras em tosses. Então, eu me forçava a abrir os olhos, tentando passar para ela um conforto que não possuía, mas não conseguia ver a sua face nitidamente. As pessoas para mim não tinham mais rostos; elas não passavam de vultos promíscuos, carregando em suas feições fantasmagóricas sorrisos macabros. Elas sussurravam para mim, prenunciando ansiosamente minha morte; e eu gritava de volta, dizendo ser esse o meu maior desejo enquanto silenciosamente ordenava para que sumissem e me deixassem em paz.

A voz de minha mãe afastava esses devaneios, pelo menos por alguns instantes. Havia outra também, mais grave e aveludada, que eu não conhecia, mas me transmitia calma e certa segurança. Ela aliviava parcialmente a dor e penso que ele deveria ser o médico que me tratava. Apesar de achar inútil prolongar ainda mais o sofrimento de alguém com morte certa, eu tentava agradecer a ele por isso, mesmo que todas as tentativas não fossem satisfatórias. Aquelas duas vozes eram as mais próximas, então, eu constantemente procurava me centrar nelas, apesar de já não entender o que elas falavam; elas eram as únicas que sustentavam a perca parcela de consciência que ainda me restava.

Eu tentava esquecer o sofrimento pelo qual passava, mesmo sabendo que não era possível. A dor ainda estava ali; o frio ainda estava ali; e elas ainda estavam ali, à espreita, esperando. A cada vez que eu abria os olhos, elas olhavam para mim e gargalhavam. Suas faces se tornavam cada vez mais vis, como se o agravamento da minha moléstia as alimentasse. Quando eu não abri mais os olhos, temendo vê-las mais uma vez, elas invadiram o refúgio do meu consciente.

As vozes diziam que iriam me levar para o inferno. Eu não saberia dizer se pequei o suficiente para merecê-lo, mas elas estavam obstinadas o suficiente para eu dar credibilidade às suas palavras. Elas calaram as que me mantinham presos à realidade e eu passei a oscilar entre um estado de semi-consciência e inconsciência plena.

Eu me via na guerra, matando pessoas... Eu me via conversando com meu pai no escritório... Eu me via no cemitério, olhando para a lápide dos meus pais, lado a lado... Eu me via rindo com colegas de universidade... Eu me via olhando para os rostos arroxeados de meu pai e de minha mãe, que me encaravam com seus olhos arregalados e inertes... Eu me via observando aqueles rostos cadavéricos novamente... Delírios; sonhos; lembranças. As cenas se misturavam, cada vez mais intensas e funestas, depois tudo escurecia. As vozes voltavam e o ciclo recomeçava. Incansável. Agonizante. Elas diziam que iam me levar para o inferno, mas eu sentia que já estava nele. A Influenza Espanhola era o meu inferno.

Inferno... Inferno... Inferno...

Meu pescoço começou a queimar; sua dor se sobrepôs às outras que eu sentia. Depois os ombros, os braços... Eu não sentia mais frio, eu queimava. Cada parte do meu corpo queimava, como se partículas de fogo estivessem me consumindo, aos poucos. A dor era lancinante e eu busquei por ar, com a pouca capacidade pulmonar que me restava. Eu estava numa fogueira; as vozes ainda zombavam de mim, rindo sarcasticamente. Eu comecei a lamuriar e a tentar mover o corpo, para afastar aquelas chamas de mim, mas elas só pioraram.

Elas não vinham de fora, vinham de dentro. De dentro de mim; elas estavam sob a minha pele. Elas estavam destruindo o meu interior, para depois atingir o exterior. A dor piorou e eu desejei arrancá-las de lá; aquelas brasas malditas que consumiam o meu corpo. Tentei cravar minhas unhas no meu braço e arranhar a minha pele, mas isso só fez o ardor piorar ainda mais.

Em algum ponto da minha tenra decadência, eu pude ouvir os gritos surdos que inconscientemente escapavam da minha garganta. Eu dobrava e contorcia meu corpo, tentando, de alguma forma, abrandar aquele sofrimento. E eu voltava a tentar me arranhar, numa muda súplica para aqueles seres tirarem aquilo de mim. Eu pedia a morte rápida e indolor, mas ela não vinha. Eu pedia a Deus misericórdia, mas Seus ouvidos se fecharam para mim. Era como se eu estivesse fadado a passar o resto dos meus dias naquele sofrimento.

Algo eterno; pungente. Eu gritei novamente, pedindo para isso parar; pedindo para que alguém inexistente me ajudasse. Eu já não agüentava mais. As vozes não mais gargalhavam; elas pareciam se deliciar silenciosamente com o meu infortúnio.

O ar começou a faltar dos meus pulmões e eu senti as batidas do meu coração ficarem cada vez mais pesadas. Alguma parte de mim sabia que eu estava perdendo o que me restava de lucidez, aos poucos... E alguma parte de mim se sentia imensamente grato e aliviado pela doença ter atingido seu estágio derradeiro.

Eu iria morrer, finalmente.