Capítulo VI – O Renascer

Eu tive a parca sensação de estar recobrando a consciência novamente e, malogrado, percebi que não havia morrido ainda; aquela não seria a primeira vez que isso ocorria, mas eu esperava que fosse a última. Eu lutei contra o fato com todas as forças que julgava ter, ansiando mergulhar novamente naquele breu que a febre alta proporcionava. Eu não desejava mais dor; não desejava ter novos desvarios e ser atormentado pelos constantes pesadelos que povoavam meu sono; não desejava mais ofegar em busca de ar e perceber que o caminho que o levaria até os pulmões estava cada vez mais obstruído; não desejava mais implorar mentalmente por algo capaz de aquecer-me ou esfriar-me. Eu preferia morrer a ter que passar por aquilo novamente. Queria que Deus selasse minha existência naquele maldito corpo carnal e julgasse logo se eu era merecedor do paraíso ou do inferno.

Mas apenas tudo ao meu redor revoluteou e, aos poucos, eu retomei a sensibilidade em meu corpo. Esperei pelo inevitável sofrimento e surpreendi-me num breve lapso ao constatar que as dores que me consumiam haviam diminuído de forma considerável e a frio mordaz que antes sentia parecia ter cessado. A queima interna também. Por uma espécie de milagre, eu estava melhor; talvez até curado, eu cria.

Permaneci de olhos fechados, incapaz de acreditar que estava restabelecido, julgando apenas ser aquele um bom desvario. Talvez a doença tivesse atingido proporções tão intensas que me deixava incapaz de sentir mais dores. Ou, talvez, quem sabe, eu estivesse mesmo morrendo. A mente se mantém sólida quando as pessoas estão para morrer? Seria essa sensação de estranho alívio, um sinal de que minha alma está se desligando do corpo? Eu esperava que sim.

Ele está acordando. Foi o que obtive em resposta aos meus questionamentos, vinda de uma voz gentil que ecoou dentro de minha mente. Espero que ele esteja bem. Ela falou novamente, ao mesmo tempo em que meus ouvidos passaram a captar uma súbita movimentação ao meu lado. Eu forcei minhas pálpebras pesadas a se abrirem num suspiro.

O recinto estava mal-iluminado, mas isso não impediu meus olhos de protestarem pela recente falta de uso. Eu pisquei até que um teto branco que não me era familiar entrasse em foco, fazendo-me chegar à conclusão de que não estava em casa. Eu deveria estar no hospital, pensei enquanto a mesma voz continuava a falar comigo. Espero que ele lide com isso melhor do que eu; que eu consiga fazê-lo ver o lado melhor de ser o que é agora e...

"Mamãe...?", murmurei de forma rouca e involuntária, mesmo que o timbre daquela voz que falava comigo me fosse desconhecida. O ruído de passos cessou e aquela voz, subitamente, silenciou. Eu, de alguma forma, podia perceber pelos meus sentidos que havia alguém ao meu lado. Eu virei o rosto para encará-la, mas não encontrei as esmeraldas de minha mãe a me observarem com seu peculiar modo doce e preocupado; em lugar delas, havia um homem, que me mirava com uma expressão compenetrada. Os traços finos e singulares do seu rosto, além de seus cabelos loiros e olhos tão durados e puros, faziam-me associá-lo à figura de um anjo.

"Lamento, Edward, mas Elisabeth não está mais entre nós. Eu sou Carlisle Cullen, médico do hospital em que esteve internado, se não se recorda", ele respondeu com a voz aveludada e ela, de alguma forma, me pareceu familiar. Ela me inspirava confiança. "Sua mãe ficou ao seu lado no leito o quanto pôde, mas acabou sucumbindo à doença", ele fez uma breve pausa antes de prosseguir. "Ela me pediu para que o salvasse, de qualquer maneira. Eu fiz o que estava a meu alcance".

Eu assenti, num gesto mudo de agradecimento. Primeiro meu pai e, agora, minha mãe... Uma outra espécie de dor me consumiu por dentro ao ter ciência de que um dos meus inúmeros pesadelos era real, mas eu me mostrei incapaz de transformá-la em lágrimas; era como se eu estivesse seco por dentro. Suspirei fundo, percebendo só agora que o respirar já não me era tão difícil. Desviei o olhar do Dr. Cullen e voltei a fitar o teto.

Foi mais difícil do que eu pensei que deveria ter sido, mas ele me parece em boas condições. Talvez não fosse assim tão necessário repetir com ele o que eles haviam feito comigo. Uma teria sido o bastante...?

"Onde eu estou?", eu questionei, o interrompendo. Espantei-me com o fato de ele estar falando com outra pessoa e eu sequer ter notado a aproximação dela, mas não me preocupei em olhá-lo novamente.

"Em minha casa", ele respondeu brandamente.

"Sua casa?", eu o observei de forma meio intrigada. Lentamente, ergui o tronco e me recostei na cabeceira da cama, convicto de que não sentia mais dores. Fiquei aliviado ao comprovar que era verdade. "Por que me traria até a sua casa, se nem me conhece, Dr. Cullen?", inquiri num murmúrio.

Vai ser difícil contar a ele... "Como eu lhe informei antes, Edward, eu realizei o último pedido da sua mãe". Mais ainda acreditar em minhas palavras. Eu dificilmente acreditaria, se estivesse no lugar dele... "Eu o salvei". Deve ser só uma lenda para ele... Mas é necessário que ele saiba...

Eu senti minha cabeça latejar, meio confuso com o que tinha acabado de ser perceptível para mim. Carlisle Cullen estava falando comigo e, ao mesmo tempo, aquela mesma voz dizia algo completamente diferente em minha mente. Pressionei a testa com força e contorci meu rosto numa careta.

"Como você faz isso?", sussurrei de modo transtornado, quase não ouvindo minha voz. "Como você faz essas coisas?", repeti num tom mais firme, pressionando a testa com mais força.

"O que você está sentindo, Edward?", ele questionou em seguida. E em minha mente a mesma voz dizia o quanto estava preocupada e o quanto não esperava por aquela reação. O tom apressado de sua voz fizeram meus ouvidos zunirem e tudo revolutear novamente. Eu queria expulsá-la de lá, mas parecia impossível; ela parecia cada vez mais alta; mais intensa; mais onipresente; mais...

"Pare!", ordenei, cerrando os olhos e retraindo meu corpo contra a cabeceira da cama. Algo se estilhaçou próximo a mim, mas eu não me importei. Parar? "Pare", repeti entre dentes. A minha voz me soou longínqua; a dele, ainda mais próxima. Parar? Com o quê? Com o que ele quer que eu pare? "Pare com isso!", insisti, percebendo que minha voz estava rouca. O que está acontecendo...? Será que deu algo errado... Mas... "EU MANDEI PARAR!", esbravejei, cerrando os olhos com força e comprimindo ainda mais a cabeça com minhas mãos. O ruído de algo se despedaçando se tornou ainda mais alto; ele também ecoava em minha mente, assim como a voz do Dr. Cullen e meus próprios pensamentos. Por um momento, acreditei que o que estava se partindo era o meu crânio e o comprimi ainda mais com as mãos; eu queria fazer isso, se o fato fosse capaz de expulsar a outra voz do Dr. Cullen de lá.

"Edward, escute-me!" a voz dele soou de forma moderada, se sobrepondo à outra em minha mente, até que ambas silenciaram. Eu permaneci a segurar a minha cabeça e passei a esconder o rosto nos joelhos, apreciando apenas ouvir o som forte da minha respiração alterada. Logo depois, eu notei as mãos dele se fecharem sobre os meus pulsos e permiti que o Dr. Cullen as afastasse da minha cabeça. Gradativamente, ergui o rosto e abri os olhos, encontrando-o a me encarar com uma expressão condolente. "Diga-me o que está acontecendo com você", ele pediu de forma branda.

"Diga-me o senhor o que está acontecendo comigo, Dr. Cullen", eu retorqui num ar arrastado, observando-o com desconfiança. Ele retirou as mãos do meu pulso e esperou. O silêncio de sua mente me fez suspirar, aliviado. "O que é essa voz em minha cabeça? Como faz isso?".

O fato foi perceptível para mim por um breve momento, mas eu percebi que o homem a minha frente pareceu estar um tanto quanto surpreso com o meu questionamento. Porém, tão logo essa impressão passara, vi o Dr. Cullen me mirando da mesma forma calma de antes, ao mesmo tempo em que aquela voz em minha mente dizia, meio admirada, que eu era como Aro. E que tudo estava explicado agora.

"Não, não está, Dr. Cullen", eu rosnei, impaciente.

"Você se acostumará com o tempo", ele me disse, no mesmo tom aveludado de antes, e um sorriso solene cortou o seu rosto. Eu não retribuí o sorriso e ele prosseguiu. "Você possui o dom de Aro, um velho amigo meu. Não o mesmo, mas muito parecido; até melhor, atrevo-me a acrescentar... Você lê pensamentos, Edward".

A afirmação do Dr. Cullen foi absurda, porém eu não podia negar que era fundamentada. Mesmo que fosse humanamente impossível alguém ter o dom de ler a mente das pessoas, aquela era a única explicação para o fato de eu, supostamente, estar tendo acesso ao que ele pensava. Então, só me restaria aceitar que a mente das pessoas agora me era como um livro aberto e diáfano, como se fosse um acontecimento trivial...Gargalhei em ludíbrio ao deduzir que aquela era a minha quimera mais insensata e duradoura.

"Acredite em mim, você não está devaneando, Edward", o Dr. Cullen disse pausadamente, sobrepondo-se, com facilidade, aos meus risos, mesmo que sua voz tenha soado levemente baixa.

"Oh, não?", eu parei de rir e retorqui com sarcasmo. "Interessante saber que em toda a minha vida, eu nunca cheguei a reparar que possuía tal dom", avaliei, ainda mais irritado do que antes. "Por que agora o teria?".

"Porque você é como eu agora... Você é um vampiro, Edward", ele respondeu de forma diligente.

"Eu sou um vampiro?", eu tornei a rir. "Desculpe-me a indelicadeza, Dr. Cullen, mas o senhor tem certeza de que está perfeitamente bem das faculdades mentais?", questionei num tom levemente trocista. Supunha que aquilo talvez não pudesse ser um sonho; era provável que a influenza espanhola tenha levado com ela parte da minha racionalidade e agora eu estava internado num manicômio, com alguém igualmente insano que pensa ser um vampiro. É a verdade. Acredite em mim. E a voz que eu achava ser a do pensamento de Carlisle Cullen certamente era fruto da minha mente já doentia.

"Vampiros não existem; é só uma lenda estúpida", eu rebati num grunhido.

"Em toda lenda há um fundo de verdade", ele disse simplesmente.

"Oh, sim, certo, eu sou um vampiro. Devo tomar cuidado com estacas de madeira, água benta e crucifixos?", ironizei num arquear de sobrancelha, ao que ele sorriu de forma tênue para mim.

"Não é necessário", ele explicou calmamente.

"Não é necessário", repeti no mesmo tom. "Bem, e o que eu vou fazer agora? Sair correndo daqui e atacar o pescoço de donzelas inocentes?", disse num ar carregado e ele tornou a sorrir.

"Não só de donzelas inocentes. De qualquer humano, para ser mais preciso", ele respondeu no mesmo tom solícito de antes. Eu sorri meio de lado, deixando transparecer toda a incredulidade em minhas expressões. "Sei que é algo difícil de acreditar, Edward. Mas eu posso lhe provar que o fato de sermos vampiros é algo bem real".

"Mesmo? Então, Dr. Cullen, prove-me que é um vampiro", desafiei. E Carlisle Cullen sorriu novamente, se dispondo a provar que era um vampiro. Minha incredulidade, aparentemente, servia-lhe como uma singela distração.

Minha cabeça latejou e, parcamente, algumas imagens surgiram em minha mente. Sua mente se abriu para mim e eu tive acesso às suas lembranças mais obscuras. Eu inspirei fundo quando elas começaram a correr velozes em meus pensamentos. De forma impetuosa, as recordações e as sensações dele pareceram ser minhas também. Eu pude ver o suplício de sua transformação e o tomei por meu; eu a senti também, pois havia passado por ela algum tempo atrás e entendido como um sintoma da moléstia que me abatera. Eu vi suas tentativas de suicídio e percebi que ele saíra intacto de todas elas. Eu vi suas tentativas de comer algo mais tradicional e a cena grotesca que era expulsá-la involuntariamente de dentro de si. Era torvo notar que havia em mim todo aquele irreprimível desejo por sangue que ele tivera no período em que se prostrou devido ao esforço de se manter abstinente.

Os músculos estavam rígidos e minha garganta queimava; minha boca ficara subitamente seca e meu estômago se contraiu de fome. Um líquido estranho com um gosto metálico fluiu até meus lábios e eu prendi a respiração. Eu me vi desejando atacar aquelas pessoas de sua memória; eu me imaginei atacando-as e apreciando, por breves instantes, o sangue escorrer sobre a pele delas antes de sugá-lo com ardor. As imagens se foram novamente e, piscando várias vezes, notei o rosto sisudo do Dr. Cullen a me encarar.

"Você...", murmurei, ainda inebriado por aquele excêntrico instinto que se apoderava de mim. "Isso não é real. Você não é real. É apenas um sonho...", completei num sussurro rouco; mesmo que intrinsecamente acreditasse que tudo aquilo que sentia não podia ser simplesmente fruto da minha mórbida imaginação.

É real. Você não pode ignorar o fato de que também sente o mesmo. Você sabe que sim, Edward. O pensamento dele respondeu antes mesmo que ele se dirigisse a mim verbalmente. "Eu não quis acreditar quando o mesmo ocorreu comigo e isso não contribuiu para melhorar a minha própria situação. Retrair essa vontade só vai lhe trazer mais sofrimentos. Não queira cometer o erro que cometi". Havia compaixão naquelas palavras e eu, de alguma forma, senti-me tocado por elas... Mas não completamente.

"Você repugnou o ser no qual foi forçosamente transformado durante anos; no entanto, fez o mesmo comigo... Por quê?", questionei de modo meticuloso, encarando-o num ar incisivo. Não sabia ao certo o que pensar a respeito. Eu não queria pensar a respeito. Aquela era uma situação absurda; e eu simplesmente me impedia de analisá-la de forma mais racionalizada. Talvez ficasse realmente louco se tentasse.

Era um pensamento constante em minha mente, ter alguém como eu ao meu lado. Em seu leito de morte, sua mãe pediu para que o salvasse. E ela parecia saber que eu não era como os outros... Eu olhei para você e, simplesmente, não pude negar-lhe o pedido. Mesmo que, por um instante, não entendesse ao certo como uma mãe podia desejar algo assim para um filho. Ele me falou em pensamentos, mais uma vez. Por detrás dele, de algum modo, eu revivia o momento derradeiro de minha mãe através dos seus olhos. Suspirei. "Talvez você entenda minha motivação, um dia", ele completou de modo calmo.

"E o que motivaria alguém a transformar outro em um monstro?", perguntei com a voz contida e os olhos meio estreitados, não sabendo ao certo se o que sentia pelo Dr. Cullen era afeto ou repulsa.

"Há uma escolha, Edward. Você pode ou não ser o monstro que diz ser", ele me disse, não aparentando ter se subvertido às minhas palavras. A calma que dele emanava chegava a ser perturbadora. "Sendo fruto do acaso ou não, eu acabei por descobrir um modo alternativo para suprir o anseio por sangue humano. Não é algo que o substitui por completo, mas é o suficiente para manter a nossa subsistência e nos deixa fortes o suficiente para sermos capazes de resistir a ele", ele me observou por alguns instantes antes de prosseguir. "Eu me alimento com o sangue de animais. Não é algo relativamente fácil, pois isso contraria a real natureza da nossa espécie, mas espero que faça o que achar melhor para você. Seria compreensível se você optar por não seguir a minha forma de vida, Edward".

Eu sustentei o olhar afetuoso e sério do Dr. Cullen por um longo período. Ele apenas esperou por uma resposta minha, paciente, com sua mente e sua voz intricadas num silêncio solene. Respirei fundo.

"Ensine-me a ser como você, Carlisle", eu murmurei de forma impassível e ele assentiu com um meneio de cabeça em resposta.

E foi assim que eu despertei para minha nova existência.