CAPÍTULO II

A névoa encobria a estrada sinuosa e a lama dificultava a travessia do trajeto, mesmo assim, o carro transitava com segurança no seu caminho rumo ao Santuário. Dentro do veículo, os olhos acinzentados da jovem pareciam refletir as brumas da paisagem, enquanto a observavam de forma vaga. O mistério na face escondia a explosão de pensamentos em sua mente.

Como chegara a este ponto? O que faria agora? Levaria a farsa adiante? E se descobrissem? Como reagiriam? Para onde a levavam? Era um lugar seguro? Estaria correndo um perigo maior do que se não estivesse ali?

Não encontrava resposta para nada, mal conseguia pensar, sentia-se tão cansada, era como se estivesse num enorme deserto, cercada por uma tribo de assassinos, completamente perdida e sem forças para lutar. Tinha vontade de atirar-se nas areias e dormir, talvez, quando acordasse, os assassinos, o deserto e sua mentira, tudo desaparecesse.

- Senhora Williams! - A voz de Saori lhe arrancou de sua pequena fantasia, fazendo-a perceber que ainda estava no seu deserto particular e os assassinos continuavam com suas armas apontadas.

- Pois não Senhorita Kido? - Respondeu num tom cordial.

Virando-se para encará-la frente à frente, Saori começou a falar:

- Sei que deve estar muito cansada então não vou ocupá-la com os assuntos do Santuário por enquanto. Assim que chegarmos lá, poderá descansar e tirar o tempo que for necessário para se recuperar do acidente. Não se preocupe com o seu trabalho, terá tempo para realizá-lo.

Alice limitou-se a um aceno com a cabeça, demonstrando que concordava com Saori. Tinha medo de falar demais e acabar se entregando. Aquela mulher, embora fosse muito jovem, tinha o olhar de uma águia, astuta e visionária. Cada vez que encarava os olhos de Saori, sentia como se sua alma fosse revirada por todos os ângulos.

A estrada continuou subindo o precipício em direção a um lugar desconhecido. A jovem de cabelos castanhos conhecia muito bem a Grécia, principalmente aquela região próxima ao Mar Mediterrâneo(1), no entanto nunca passara por ali. O caminho que seguiam era completamente estranho para ela, nunca ouvira falar que houvesse algo além de Piraievs a não ser o mar.

Há uma certa altura do caminho, a paisagem mudou radicalmente, de repente surgiram casas e mais casas, uma praça, pequenas ruas com várias pessoas andando de um lado para o outro. O lugar parecia-se com uma pequena vila. No centro havia uma estátua de alguma Santa vestida com uma indumentária estranha, mais parecia uma daquelas estátuas dos antigos deuses do período clássico grego. A jovem concluiu que ali deveria ser o vilarejo do qual Alice falara, a tal vila próxima ao "resort". Mesmo assim, aquelas pessoas não pareciam trabalhadores de um hotel de luxo, mais pareciam pessoas comuns, trabalhadores rurais, donas de casa, um ou outro poderia ser considerado camareiro, mas duvidava que o maior de todos os hotéis fosse ter tantos camareiros assim.

Um frio percorreu a espinha de Alice. Todas as suas preocupações voltaram à tona como num piscar de olhos. A leve sensação de segurança que Saori lhe passara quando estavam no Hospital esvaiu-se por completo. Não sabia mais para onde estavam levando-a, era claro e nítido que a verdadeira Alice lhe mentira ao dizer que trabalharia num "Resort". Aquela vila não era de funcionários coisa nenhuma.

- Senhora Williams? - Saori chamou a atenção da moça mais uma vez, arrancando-a de suas divagações. - Já estamos chegando. Esta é a vila que rodeia o Santuário. Como eu lhe disse, boa parte dos servos que trabalham conosco vêm daqui. É mais fácil para nós, pois a população desse local tem contato e sabe sobre o Santuário desde que ele surgiu, trata-se de uma questão de segurança evitar pessoas de outras nacionalidades. Abrimos poucas excessões como no seu caso.

- Claro. Eu me recordo que conversamos sobre isso. - A jovem imediatamente recuperou-se de seu torpor, respondendo como se realmente tivesse conversado com Saori a respeito disso. Internamente, tentava unir as palavras de Alice com a realidade.

Já percebera que naquele quebra-cabeças, precisaria escolher as peças certas e colocá-las em seus lugares adequados ou então perderia o jogo. Alice lhe contara uma história recheada de verdades e mentiras, caberia à ela medir até onde os fatos condiziam com a realidade e não escorregar nas falsas afirmações da governanta.

O carro seguiu por uma estrada de chão que subia o enorme morro à frente, parando diante de um grande portão de ferro, protegido por dois guardas trajando uma roupa azul-clara esquisita. Shun desceu do veículo, dirigindo-se até a porta de Saori e abrindo-a para que a mesma descesse, depois abriu a de Alice, também ajudando-a a sair do carro.

Quando finalmente vislumbrou toda a paisagem, a moça praticamente entrou em choque! O que era aquilo? Que lugar bizarro era aquele? Sentia-se como se tivesse viajado uns quatro mil anos na história, à sua frente estendiam-se construções semelhantes aos templos antigos, mas ao contrário destes, estavam inteiras, intactas, como se tivessem sido construídas ontem. Conseguiu visualizar uma escadaria pela qual estendiam-se alguns templos, cada um com formato próprio, ao fim desse trajeto, estendia-se um verdadeiro palácio de mármore, digno de um Deus do Olimpo.

Saori divertiu-se com a cara de espanto de sua nova governanta, comentando:

- Eu lhe disse que se surpreenderia quando chegasse aqui. É lindo não é?

- Magnifico! - Foi tudo o que Alice conseguiu dizer. Então aquele era o Santuário?

Um sorriso cínico brotou em seu rosto e um pensamento cruzou em sua mente:

- "Quem diria! Aquela senhora simpática era uma bela mentirosa! Se isso é um Resort, eu sou uma santa!"

- Então? Vamos subir? A senhora deve estar louca para chegar ao seu quarto.

- Senhorita. - Alice interrompeu Saori, contudo sem desviar o olhar da vista à sua frente.

- Como?

- Pode me chamar de Senhorita. - A jovem continuou, analisando cada construção que se antecipava ao grande templo no topo do morro.

Assumindo um ar sério, Saori pediu educadamente que Shun levasse a bolsa de Alice para o Templo maior. Quando o cavaleiro afastou-se Saori deu sua resposta:

- Eu não pretendia tocar nesse assunto tão cedo, achei que não fosse o momento adequado, levando-se em consideração que você acabou de sofrer um acidente seríssimo. Mas já que citou a questão, creio que não precisamos ser hipócritas quanto a isso. Está claro que mentiu para mim.

Alice desviou instantaneamente a atenção para a Deusa Atena. Naquele momento sua respiração cessou, podia sentir seu coração parar de bater, sabia que poderia ser descoberta mais cedo ou mais tarde, mas desde que saíra do hospital acreditava veementemente que estava e saindo bem eu sua mentira. Como aquela mulher poderia ser tão esperta assim? Descobrir tão rápido? Ficara óbvio, quando conheceu Saori, que a mesma nunca encontrara-se pessoalmente com a verdadeira Alice e até então isso tinha sido o trunfo da jovem, mas parece que Saori era mais esperta do que ela imaginara.

- Eu não...

- Não há o que explicar. - Saori a interrompeu antes que conseguisse formular uma defesa. - Confesso que se soubesse que era tão jovem desde o princípio não a teria contratado. Se não tivesse verificado todo o seu curriculum, conferindo todas as referências que me passou, poderia dizer que é uma farsante. Alguém tão jovem não tem tanta experiência assim. Mas todas as pessoas com quem falei me garantiram que você é excepcional no que faz e em razão disso vou relevar essa sua mentirinha. Ninguém contrataria uma governanta tão nova, mas uma de 40 anos, com certeza. Por isso mentiu quanto à sua idade,não é mesmo?

- Sim! É isso, mesmo. Eu peço desculpas por isso. - Mesmo que Saori tenha referido-se apenas à questão da idade, Alice não respirava aliviada. Sua intuição lhe dizia para ficar atenta quanto àquela mulher. Parecia que Saori estava apenas tentando deixá-la mais calma, não querendo tocar na mentira maior, mas ao mesmo tempo lhe enchia de indiretas, esperando que a própria moça falasse à respeito. Tinha quase certeza, Saori sabia que ela não era a verdadeira Alice. Mas então porque não à entregou? Por que seguia com a farsa?

Após explicar-se com sua futura patroa quanto à questão da idade, alegando que estivera o tempo todo preocupada com o que esta poderia pensar de uma governanta com apenas 25 anos, ambas seguiram pelas escadarias, em direção ao templo.

No caminho Saori explicava o que significava cada casa e falava sobre o cavaleiro que ali residia, lembrando à Alice que não deveria preocupar-se pois teria tempo para conhecer à todos. Aproveitou também para falar-lhe da hierarquia dentro do Santuário, lembrando-a que seu cargo à colocaria ao lado do Grande Mestre, mas apenas em questões relativas à administração do Santuário, ficando assim, até mesmo os cavaleiros de ouro submetidos às suas ordens:

- Os cavaleiros são divididos em três níveis começando pelos cavaleiros de Bronze, em seguida temos os cavaleiros de Prata e por último os cavaleiros de Ouro. As amazonas dividem-se apenas nos 2 níveis mais baixos, não há amazonas de Ouro. Os demais moradores do Santuário são alunos que estão treinando para tornarem-se cavaleiros ou soldados comuns que cuidam da guarda do Santuário. Quanto aos servos, poucos residem aqui e mesmo assim,a apenas durante a semana. Nos fins de semana praticamente todos voltam para o vilarejo.

Alice ouvia atenta às palavras de Saori, nada poderia escapar, precisava inteirar-se de tudo para não deslizar em sua farsa. Mas não era fácil, tinha que admitir, era surreal. Cavaleiros? Armaduras? Amazonas? Onde estava? Na idade média?

Finalmente as duas alcançaram o grande templo. Entrando pelo enorme salão, dois homens caminharam em sua direção e foi então que Alice pode vislumbrar uma das armaduras das quais Saori tanto falava.

O homem de cabelos lilases trajava uma proteção dourada, resplandecente e maravilhosa. O brilho daquela armadura era intenso. Não tinha dúvidas, aquilo era ouro puro, com certeza. A primeira coisa que passou pela cabeça de Alice foi quanto não valeria uma única peça daquele traje!

Caminhando até os dois homens, Saori tratou de apresentá-los à jovem:

- Senhores, esta é Alice Williams, a nova governanta do Santuário. Senhorita Williams, estes são Tatsumi, meu braço direito e Mu, cavaleiro de Aries e Mestre do Santuário.

Todos cumprimentaram-se cordialmente, embora Tatsumi tenha demonstrado claramente uma certa desconfiança com relação à moça, logo percebida por essa. Quanto a Mu, este parecia ser indiferente, demonstrou-se simpático, mas limitando-se apenas a cumprimentá-la, o que também não agradou à jovem. Precisava estudar detalhadamente as pessoas que estariam ao seu redor e a atitude do Mestre pouco revelava sobre seu caráter, o que significava mais uma pessoa com quem Alice deveria tomar cuidado.

Quanto a Tatsumi, seu caráter fora facilmente desvendado. Não passava de um bobalhão covarde, sua inteligência era comparável à de uma ameba e sua língua era do tamanho do seu corpo, mas nada preocupante. Estava acostumada a lidar com pessoas como ele.

Após as devidas apresentações, Saori acompanhou Alice até seus aposentos, onde a bolsa de couro já a aguardava. Da porta, a deusa despediu-se:

- Descanse senhorita Williams, quando estiver recuperada, iniciaremos os trabalhos. Agora, se me der licença, tenho alguns assuntos a resolver.

- Obrigada por tudo Senhorita Kido e fique a vontade.

Fechando a porta, a jovem pode focar-se no aposento. A suite não era muito luxuosa, mas parecia muito confortável e aconchegante. Um banho de espuma na banheira e um sono reconfortante naquela cama de casal pareciam tentadores, levando-se em consideração o estado em que se encontrava. Passando os olhos mais uma vez pelo lugar, viu a mala da verdadeira Alice próxima à uma escrivaninha.

Abrindo a bolsa, retirou dela uma das apostilas. Estava lá, tudo de que precisava. Alice preparara tudo. Aquele material continha informações sobre o que de fato era o Santuário, como o seu trabalho se realizaria, tudo. Lendo aleatoriamente as informações, a jovem de olhos acinzentado falou num tom cínico:

- Alice... Alice... Ou você salvou a minha vida... Ou cavou a minha cova.

1- A Grécia é rodeada por 3 mares, sendo estes o Mar Jônico (entre a Itália e a Grécia), o Mar Mediterrâneo e o Mar Egeu (entre Grécia e Turquia).

N/A: Segundo capítulo! Gente, eu sei que eu prometi que as atualizações seriam mais rápidas... Mas infelizmente não tá dando...esse capítulo saiu a forceps...sabe quando as idéias estão todas formuladas mas vc não tem tempo pra passar pro micro? Comigo está acontecendo assim... esse fic, o "casamento de kamus" e o do Shaka, estão todinhos aqui, mas quem disse que eu arranjo tempo pra passar? Ai;;ai...ai...mas vou fazer um esforço, prometo... E quero aproveitar e pedir desculpas à Margarida, disse à ela que enviaria esse capítulo pra ela revisar, mas fiquei muito ansiosa por publicá-lo logo...quando to com um capítulo mão, não agüento vê-lo parado. Então. Por favor..me perdoe! Gente, B-jão e reviews please!