N/A1: Pessoas, faz muito tempo que eu não atualizo os meus fics e eu sei que sempre prometo fazê-lo logo. Mas eu tenho uma explicação, eu não escrevo rápido, realmente demoro, um capítulo leva muito tempo para sair, escrevo um pouco hoje, mais daqui a uma semana e assim vai, de forma que sempre demora. também não gosto de capítulos curtos, daqueles ´que só existem pra vc dizer que atualizou, se é pra fazer capítulo assim, nem escrevo. então, explicado o motivo da demora, aqui segue um capítulo longo, mas longo mesmo..enorme. levou um mês pra ficar pronto, mas não por falta de idéias, quando idealizei essa fic, esse foi o capítulo do qual parti, então fiz ele com muito carinho e espero que leiam com carinho também. um grande beijo.
N/A2: Cavaleiros do Zodiaco não me pertence. Só a Helena, o Nicola, o Basil, o Joaquim, o Dário... vixi... como tem gente citada nesse capítulo
NÉVOAS
CAPÍTULO IX
Helena ficou completamente sem reação. Por um instante sua mente tornou-se um vácuo sem fim, incapaz de elaborar qualquer pensamento mais complexo além da ordem para manter seu corpo respirando. O torpor levou alguns segundos para passar até que fosse capaz de pronunciar alguma palavra. Tudo o que conseguiu dizer foi:
- Desculpa... Do que me chamou?
Milo não conseguiu evitar o divertimento com o estado catatônico que provocara na moça, vendo-a sem reação diante de sua investida, aproveitou para torturá-la ainda mais:
- Te chamei de Helena, afinal de contas, esse é o seu nome. Do que mais deveria chama - lá?
-Suas amantes podem tolerar que confunda seus nomes, Milo. Mas eu não! Meu nome é Alice, Alice Williams! Você sabe muito bem disso. – a resposta saiu muito mais agressiva do que a moça esperava, mas nas atuais condições, era tudo o que poderia fazer, lutar com tudo o que tinha. Fechar os olhos e se atirar no precipício com a esperança de que viesse a sobreviver.
Em pleno controle daquele jogo, Milo decidiu-se por não perder mais tempo e dar logo a cartada final. Aproximou-se ainda mais de Helena e num movimento extremamente rápido, sem qualquer chance de defesa para a jovem, posicionou-se atrás da mesma.
Com o braço esquerdo, Milo aplicou um "mata-leão", aprisionando o pescoço da garota entre o braço e antebraço. Com a mão direita conteve os braços de Helena presos às suas costas e por fim, usando o seu próprio peso, empurrou-a contra a pilastra mais próxima, sendo possível ouvir o som do corpo da jovem chocando-se com certa violência contra o mármore.
Helena mal pode conter a expressão de dor, acompanhada de um grito quase surdo e a sensação de esmagamento que sentia. Estava completamente aprisionada, mal conseguia respirar, ofegava tentando capturar um pouco de ar enquanto sua garganta era quase esmagada pelos músculos de Milo.
Sem perda de tempo, o Escorpião disparou em seu ouvido:
-Acabou a brincadeira Helena! Eu não sou o Mu que engole as suas mentiras e finge que tá tudo bem. É melhor você começar a se explicar agora ou vai acabar do mesmo jeito que o seu amigo Angolano, só que eu não vou ser tão bonzinho quanto os homens do Nicola foram com ele!
Com a adrenalina invadindo cada célula do seu corpo, mal raciocinando, Helena debatia-se desesperadamente, na tentativa de se livrar da imobilização que Milo lhe aplicava. As palavras do cavaleiro pareceram desestabilizá-la mentalmente. Agora a jovem chutava para todos os lados e tentava inutilmente empurrá-lo com o próprio corpo enquanto gritava pelo amigo:
-DÁRIO! NÃO! O QUE FEZ COM ELE! SEU MALDITO! ME SOLTA! SEU FILHO DA PUTA! CRE...
Impedindo que a gritaria aumentasse e acordasse o Santuário inteiro, Milo moveu a mão do pescoço para a boca da moça, tapando-a e pressionando o suficiente para deitar a cabeça dela em seu ombro. Feito isso, novamente falou-lhe ao ouvido, dessa vez ofegante pelo trabalho que a prisioneira estava lhe dando:
-Eu não fiz nada com ele! Nem cheguei a vê-lo vivo! Quando o encontramos, tinha acabado de levar um tiro na cabeça. Conseguimos pegar o assassino antes que sumisse, era um dos homens do Nicola! Como explica isso!?
Helena ouviu tudo em silêncio, não poderia falar mesmo se quisesse, já que Milo mantinha sua boca coberta. Respirava ofegante graças ao esforço anterior para tentar se livrar dos braços do cavaleiro. Ao mesmo tempo, enquanto sabia sobre a morte de Dário, lágrimas começaram a rolar sobre sua face. Já sem forças, seu corpo amoleceu por completo, como se entrasse num estado de dormência.
Sentindo que sua prisioneira não ofereceria mais resistência, o rapaz de cabelos azuis libertou-a aos poucos, observando enquanto ela deslizava pela pilastra até ajoelhar-se no chão.
Numa posição de nítida rendição, Helena novamente se entregara às lágrimas, com a cabeça baixa e os olhos fechados, soluçava sem parar, mal conseguindo respirar, enquanto murmurava o nome do grande amigo que pagara com a vida por tentar ajudá-la. Lentamente, a jovem jogou o corpo ao chão, sentando-se encolhida, abraçada aos joelhos e escorada na pilastra, sem interromper nenhum instante o choro e os soluços.
Em pé, Milo não passava de um espectador do declínio da misteriosa mulher que colocara o Santuário aos seus pés. Com as costas da mão, limpou um pouco do suor que escorria pelo rosto, formado em parte pelo calor da Grécia, em parte pela intensidade da cena que presenciava.
Internamente, a visão da mulher que outrora o desafiara de igual para igual, agora naquele estado lastimável, fez com que a mente do cavaleiro desse voltas. Começou a sentir-se perdido em suas ações, essa não era exatamente a reação que esperava dela. De acordo com seus planos, abordaria Helena, a pressionaria até que a víbora começasse a falar sobre seus verdadeiros planos. Realmente não esperava que ela desmoronasse diante de seus olhos assim.
-Me mate...
Milo foi arrancado de seus pensamentos pelo delicado murmúrio que saia dos lábios de Helena. Fitando-a, encarou com sofreguidão aqueles olhos, antes apenas cinzas, tornarem-se uma tempestade de desespero.
Reunindo forças para levantar-se, a garota agarrou-se à roupa do cavaleiro, escalando-o como se fosse uma parede, até encontrar-se inteiramente em pé. Ainda era mais baixa que Milo, ergueu a cabeça, obrigando-o a sentir sua respiração fraca sobre a pele do rosto do cavaleiro. Segurando-se firme na gola da camisa do Escorpião, Helena sussurrou:
-Me mate... Cumpra a ameaça que me fez agora a pouco... Dário era minha última esperança, mesmo que remota... Não há mais sentido em continuar fugindo...
-Eu... Eu não... – Agora quem estava em choque era Milo, aquele pedido era realmente inesperado, não sabia o que fazer ou como reagir. Sentiu as mãos de Helena soltarem aos poucos sua camisa, podia vê-la tremendo e amolecendo, sem mais nenhuma força. Tudo o que pode fazer foi abraçá-la para que não desabasse no chão novamente.
Deixando-se envolver por aquele suporte repentino, aninhando-se inconscientemente nos braços daquele que até poucos minutos atrás era seu inimigo, Helena continuou sua prece:
-Não fará diferença... Morrerei de uma forma ou de outra. Se não o fizer agora, Nicola terminará comigo lá fora. Prefiro morrer sem dar a ele o prazer de ter colocado suas mãos sujas em mim. É a única coisa que ainda me resta... – o último resquício de força que ainda havia em seu corpo se foi. Sem resistência, a jovem de cabelos castanhos entregou-se à inconsciência, protegida pelo mais improvável dos guardiões.
Ela bem que tentou abrir os olhos, mas até esse movimento simples fazia com que sua cabeça explodisse em dor. Permaneceu com as pálpebras cerradas enquanto o cérebro saía do torpor sonolento e aos poucos a consciência retornava. Quando se sentiu capacitada, arriscou abrir os olhos e verificar onde estava.
O quarto era simples, uma cama de casal comum, mas confortável, janelas largas, proporcionando uma boa iluminação ao espaço, o quarto padrão das doze casas zodiacais. Encarando a dor, sentou-se na cama e novamente vistoriou o recinto em busca de suas coisas. Ainda estava vestida, mas suas sandálias residiam sobre um criado mudo, assim como sua bolsa.
Levantou-se finalmente e foi até o banheiro da suíte, onde se recompôs diante do espelho e respirou fundo, era hora de sair daquele quarto e encarar a realidade, teria explicações a dar e respostas a receber. Assim que calçou as sandálias e pegou a bolsa, saiu do quarto em direção à cozinha, de onde vinham sons de alguém cozinhando, mas antes que atingisse o local, ouviu um estrondo de panelas caindo e um xingamento incontido:
-Puta que pariu! Caralho de uma figa!
-A culpa não é do leite e sim do cozinheiro, Milo. – ao se aproximar do batente da porta, Helena encontrou o cavaleiro ajoelhado no chão, secando a bebida esparramada.
O cavaleiro levantou o olhar para encará-la e um tanto quanto irritado respondeu:
-Eu faço o que posso.
A jovem de cabelos castanhos adentrou a cozinha, recolhendo a leiteira, no caminho e colocando-a na pia, então serviu numa pequena jarra de vidro, o resto do leite que estava na caixa sobre o balcão, para finalmente leva-lo ao microondas:
-É só acionar a função aquecer bebida. O leite fica numa temperatura adequada e sem sujeira. O que aconteceu com Toula?
-Eu a dispensei por hoje, achei melhor que ela não estivesse aqui quando você acordasse. – Milo desligou a cafeteira e colocou o bule de vidro desta, na mesa, sentando-se em seguida e fazendo um gesto para que Helena o acompanhasse.
-Eu não ficarei para o café. – A governanta respondeu, encolhida num canto próximo ao balcão, sem saber direito o que fazer.
Milo largou o pão que estava cortando para encará-la e num tom sério rebateu:
-Não estou pedindo para você ficar, estou mandando. Você está sob minha responsabilidade, não tem autorização para sair dessa casa e muito menos do Santuário. Mu já se encarregou de espalhar a notícia de que precisou viajar em razão de uma emergência familiar.
-Como assim?! Desde quando sou prisioneira de vocês e quem disse que têm o direito de me manter aqui? – A moça reagiu com raiva à notícia, não entendia como a situação se invertera tão rapidamente.
Levantando-se da cadeira, Milo foi até a garota e com uma calma inédita para o seu caráter, explicou:
-São ordens de Atena. Ela retorna hoje ao Santuário para resolver a sua situação.
-E por que tenho que ser tratada como uma prisioneira?! – Helena só conseguia ficar mais irritada e misturava-se a isso certa confusão com o que estava acontecendo.
A reação da moça fez com que Milo esquecesse a civilidade e voltasse a ser ele mesmo. Sem mais nenhuma paciência, jogou as palavras sobre ela:
-Você está sendo tratada como uma criminosa porque é uma! E devia ser muito grata à Saori por não te entregar logo pra polícia. Não faz idéia dos problemas que a sua identidade falsa estão causando a ela! Agora sente ai e toma essa porra de café!
Helena não podia argumentar com o seu carcereiro, daquela forma, preferiu obedecer à ordem dada pelo Escorpião. Depois de alguns minutos em silêncio e sem tocar em uma gota de seu café, a moça ousou perguntar o que havia acontecido enquanto estava adormecida:
-O que aconteceu? Por que Saori está retornando antes do previsto?
-O corpo da verdadeira Alice foi identificado. A família desconfiou que algo tivesse acontecido e vieram atrás dela aqui na Grécia. Agora a polícia está investigando quem assumiu a identidade do cadáver e querem explicações da Saori sobre a sua contratação, já que o contrato da Williams está no nome dela. Entraram em contato com Atena na primeira hora da manhã de hoje, ela está retornando para prestar esclarecimentos.
-Isso não é nada bom. – a notícia caiu como uma bomba sobre o colo de Helena, rapidamente a jovem começou a pensar numa possibilidade. – Primeiro Dário, agora a Saori, isso tem um dedo do Nicola no meio. Ele não sabe onde estou, mas sabe que Saori me protege, e pressiona-la é uma forma de me obrigar a aparecer.
-Por isso mesmo acho que é hora de você explicar algumas coisas. Por que o Nicola está atrás de você? O que ele quer? Ou melhor, ainda, o que você aprontou? – A última pergunta derramava todo o cinismo do cavaleiro.
Na noite anterior, Milo chegou a sentir pena de Helena, a mulher estava sendo perseguida por um dos maiores traficantes da Europa, até entendia porque Atena a estava protegendo, fora do Santuário, ela não teria qualquer chance de vida e a Deusa sempre foi benevolente, acreditando que todos mereciam uma segunda chance. Mas no momento em que justo Atena se tornou o alvo de Nicola e tudo por causa daquela mulher, Milo não via mais razão para protegê-la, por ele, entregaria a tratante para a polícia e eles que se virassem com o problema.
Infelizmente as coisas nunca eram como ele queria, então, obedecendo às ordens de Mu, cuidaria para que Helena não fugisse do santuário, muito menos para que Nicola não se aproximasse dela, mas isso não o impediria de descobrir quem era e o que fez para acabar desse jeito.
Do outro lado da mesa, Helena sentia-se no fundo do poço, que tudo o que poderia fazer era subir, descobriu que ainda poderia cavar mais e mais. Os problemas vinham um atrás do outro, em vinte e quatro horas comprometera as duas únicas pessoas que ainda poderiam ajudá-la. Respirou fundo para conter o choro e com a voz embargada, resolveu que era hora de desabafar com alguém, mesmo que esse alguém fosse à pessoa mais escrota do mundo:
-Como você deve saber, o Nicola não atuava sozinho, a mais ou menos um ano e meio atrás, ele não era o único chefe da organização. A liderança era dividida com outra pessoa.
-Sim, eu sei. O outro chefão da quadrilha era Basil Zaharoff(1), o sobrenome russo era apenas um caprixo, mas ele morreu, à exatamente um ano e meio.
-Basil comandava boa parte das operações da quadrilha, especialmente as grandes negociações. Era ele quem tinha o contato com os melhores clientes, conhecia bons fornecedores, especialmente os de armas e drogas.
-E quanto ao Nicola?
-Tráfico internacional de mulheres. Antes de conhecer Basil, Nicola era só mais um gigolô viciado que andava pelas ruas de Athenas. Os dois começaram o negócio juntos, mas Basil sempre foi... Podemos dizer que... Melhor relacionado do que Nicola. – Helena buscava meios de explicar o funcionamento da organização, e encontrara um ouvinte atento:
-O que fazia com que Basil pegasse as melhores fatias dos negócios. Então foi o Nicola que o apagou, assumindo a liderança isolada de tudo. Mas onde você entra nessa história?
Novamente Helena precisou tomar ar, a parte mais difícil vinha agora:
-Basil era meu pai.
Milo chegou a abrir a boca para pronunciar algo, mas não conseguiu aquela pequena frase já era mais informação do que o seu cérebro seria capaz de processar. Ela era filha do traficante mor?! A coisa era pior do que ele poderia imaginar:
-Filha dele?
O choque de Milo já era esperado por Helena, com base no que se sabia sobre Basil, era impossível de se acreditar que ele tivesse família. A moça continuou com a narrativa:
-Eu não sou o fruto de uma relação estruturada. Minha mãe era uma das prostitutas a serviço do grupo. Ela era macedônia e veio pra Grécia por vontade própria, sabendo muito bem o que ia encontrar por aqui. Mas ela também era esperta, logo se tornou a preferida de Basil e quando conseguiu engravidar, foi o mesmo que tirar a sorte grande. – um sorriso cínico surgiu nos lábios de Helena, quando se referiu à mãe. – Por muito tempo, eu fui a galinha dos ovos de ouro dela. Basil nunca economizou dinheiro comigo, pagou as melhores escolas, viagens, cursos de idioma, roupas, carros, era a forma dele de dizer que era o meu pai.
-E como retribuição por tudo isso, você trabalhava pra ele. – Milo começava a entendê-la um pouco. Helena nascera naquele meio, não havia muitas opções para alguém como ela a não ser o crime.
-Desde os dezesseis anos de idade, eu o acompanhava em viagens, jantares, festas...
-Não consigo imaginar isso como o ambiente ideal para uma adolescente.
-Eu não disse que era. – Helena respondeu com um sorriso triste. Basil nunca fora um grande pai, mas fez o que pode, à sua maneira. Tira-la do convívio com a mãe e torna-la um membro importante da quadrilha fora uma forma eficiente de protegê-la do futuro que a maioria das meninas teria na organização.
O cavaleiro manteve o interesse na narrativa. Até ali, Helena tivera sorte, a Grécia era conhecida pela prostituição infantil e traficantes faturavam alto vendendo as meninas do país e muitas estrangeiras aos turistas:
-Pelo que eu investiguei você era uma espécie de contadora do grupo.
-Isso foi nos últimos anos, mas a minha principal função era outra. – A jovem de cabelos castanhos precisou engolir a vontade de chorar e tomar coragem para prosseguir, sentia vergonha demais por tudo o que fizera. – Eu aliciava meninas e mulheres para a quadrilha. Viajava por países da América latina, África, Oriente Médio.
-Ah! O sonho de ser modelo na Europa. – O cavaleiro retomou sua ironia, aquele era o truque mais usado.
-Nem sempre. – Helena o encarou séria. Não havia espaço para brincadeiras naquele momento. – Muitas meninas aceitavam sabendo o porquê da viagem, mas a condição em que viviam em seus países é tão miserável que elas preferem se prostituir aqui a viver lá. Nesses casos eu só providenciava a documentação.
-Passaportes falsos, procurações forjadas...
-Por ai.
-E para as outras? – O cavaleiro já sabia a resposta, mesmo assim, preferiu ouvir dela.
-Eu me passava por agente de alguma agência de modelos, ou por vezes como modelo. – O que não era difícil, o cavaleiro pensou, além de inteligência, Helena também possuía beleza.
-E quando você assumiu as finanças do grupo?
-Uns dois anos antes da morte de Basil. Para se manter nesse meio você precisa desconfiar até da própria sombra e ele sempre desconfiou do Nicola. Então quis ter certeza de que uma parte do dinheiro não passasse pelas mãos do sócio. Os lucros de negócios feitos por Basil começaram a ser controlados por mim e não pelo homem do Nicola.
-Isso deve ter irritado muito ele. O suficiente para apagar o sócio. – pela primeira vez, as palavras do cavaleiro pareceram afetar a jovem, naquela conversa.
Helena fechou os olhos e as lágrimas rolaram silenciosas pela face mediterrânea. Por pior que fosse, Basil era seu pai, seu protetor e sua morte transformou a vida da filha por inteiro.
Recompondo-se, a mulher prosseguiu:
-Não foi só Basil que morreu. Foi uma faxina quase completa qualquer um ligado a ele estava sentenciado à morte, especialmente eu.
-Foi aí que você fugiu. Você tinha o dinheiro do Basil à sua disposição, tinha contatos por todo o mundo. Foi corajosa. – Milo não conteve o sorriso. De fato, ela era muito esperta. Não é a toa que Nicola não conseguira pega-la até hoje, sem contar que Helena manteve-se na Grécia, por um mês inteiro, com uma identidade falsa, sem ser percebida pelo traficante.
A ex-traficante não conteve o choro novamente, balançando a cabeça em negativa, corrigiu o cavaleiro:
-Eu tive ajuda.
Pela reação da moça, Milo sentiu que havia algo a mais, ou melhor, alguém. Esperou até que ela resolvesse contar:
-Eu tinha um parceiro... Companheiro... – Helena titubeou ao lembrar-se de Joaquim. Sua relação com o angolano foi muito além da amizade. Conheceram-se quando ele foi recrutado pelo grupo como facilitador. Tornaram-se próximos quando ele precisou de um favor. Seu irmão havia assassinado um membro do exército em Angola e precisava de proteção. Helena cuidou para que Dário saísse do país em segurança e servisse ao esquema trabalhando no porto com o embarque e desembarque de mercadorias.
Desde então, uma parceria nasceu e aos poucos, caminhou em direção à cama. Quando o Rei caiu e Nicola estava pronto para dar o cheque-mate, Joaquim foi o peão que salvou a Rainha.
-O que aconteceu com ele? – Uma pergunta infeliz, sem dúvidas. Helena soluçava como uma criança. Rapidamente o cavaleiro foi até a geladeira e serviu um copo com água, trazendo-o para a jovem.
Quando a crise passou, Helena esclareceu:
-Nós conseguimos fugir por um bom tempo... Nosso plano inicial era despistar Nicola, percorrendo vários países da Europa, enrola-lo até conseguir sair do continente, mas quando estávamos para ir à África, ele nos interceptou em Chipre... Foi tão rápido... Quando dei por mim, ele estava caído no chão, morto e eu nem vi de onde o tiro veio. – ela precisou parar a narrativa por um instante. Relembrar aquela cena era doloroso demais.
-Você tinha um plano B. – Milo tentou ao menos dissipar a imagem que provavelmente vinha à mente dela.
-Tinha, era arriscado, mas eu tinha. Voltar para a Grécia sem ser identificada e sair por Piraievs. E tudo estava dando certo até eu entrar naquele ônibus... O resto você já sabe.
Enquanto Helena permaneceu sentada, com a cabeça baixa e as lágrimas rolando, Milo levantou-se e foi até a janela, tomar um pouco de ar, ainda estava zonzo com a narrativa da governanta. Também sentia uma pontada de culpa, de fato, ela não era santa, cometera muitos crimes, mas não era de todo culpada e ele não titubeou em acusá-la ou julga-la. Parecia que nunca aprendia a lição, fizera o mesmo com Kanon, primeiro quase o matou, para só depois confiar.
Tentando afastar a auto-censura, o cavaleiro deu espaço à curiosidade e não se conteve ao perguntar:
-Quanto você levou?
Não era uma questão agradável de se responder, mas já não importava mais, tinha se despedaçado inteira diante de Milo, conhecer esse fato seria o de menos:
-Vinte e vinte.
-Como assim?
Antes de explicar, Helena precisou tomar fôlego:
-Vinte milhões de Basil... E vinte milhões... De Nicola.
-O que?! – O Escorpião quase caiu no chão ao ouvir aquilo. Vinte milhões já era dinheiro e se fosse só do pai dela, estaria tudo bem, mas ela levou o dinheiro do outro! – Como você pode?! Não é a toa que ele está te caçando pelo mundo inteiro! – O cavaleiro caminhava agora de um lado para o outro, queria não ter ouvido aquilo. Não por ele, era um servo de Atena, tinha poder suficiente para varrer Nicola do mapa, mas haviam outras pessoas envolvidas, inocentes que caíram na teia da organização e que não poderiam pagar pelo erro de uma única pessoa.
Num rompante, Milo sentou-se à mesa e encarou Helena:
-Você tentou a polícia?
-É claro que não! – ela não acreditava que ele estivesse fazendo uma pergunta tão estúpida como aquela. – Estamos falando da polícia grega! Acha que Nicola não tem gente trabalhando pra ele lá dentro? Me jogariam numa cela e eu estaria morta no dia seguinte!
-Ta bom! Ta bom! Eu já entendi. E o que você fez com o dinheiro? Onde o escondeu?
A mulher o encarou com um olhar sério, então se tornou cínica, para finalmente responder:
-Eu doei à caridade.
-Porra Helena! – Milo golpeou a mesa com força suficiente para abrir um buraco no móvel. – Não é hora pra brincadeiras, é melhor dizer a verdade, você tem que se livrar desse dinheiro. É dinheiro sujo!
-É o meu dinheiro! E não interessa a você o que eu fiz com ele! – A moça rebateu os argumentos a base de gritos.
-O seu companheiro morreu graças a esse dinheiro! Será que você não entende isso?! – Milo já havia perdido as estribeiras. Levantara-se do assento e segurava Helena pelos braços, chacoalhando-a.
-Eu sei! Eu sei... Eu sei... E eu pago por isso todos os dias! – ela não se conteve. Começou a chorar compulsivamente e a soluçar.
Milo abraçou a figura trêmula. Acalma-la era o mínimo que poderia fazer depois de deixá-la naquele estado:
-Está tudo bem... Tudo bem.
Aos poucos ela voltou a si, o tremor diminuiu e Helena relaxou um pouco nos braços do cavaleiro. Era estranho como ele conseguia leva-la ao extremo e depois traze-la ao juízo normal apenas com um toque. Agora ela entendia porquê Milo fazia tanto sucesso com as mulheres. Ele era reconfortante, ainda mais num momento como aquele.
-Estou interrompendo algo? – a voz de Mu cortou o ar da casa de Escorpião rompeu pela casa de Escorpião como um vendaval, trazendo os dois jovens à realidade. Recompondo-se, Milo cumprimentou o amigo:
-Mu! Eu não o vi chegar.
-Percebe-se. Senhorita, Atena retornou ao Santuário e gostaria de ter uma conversa convosco. – O ariano foi um tanto quanto ríspido com ambos e Helena imaginou se seria em razão da cena que presenciara ou da crise que ela provocara no Santuário.
-Claro! Eu vou até ela.
-Não precisa. Estou aqui e trouxe algumas roupas pra você. O vestido é lindo, mas vesti-lo o dia inteiro é desconfortável. – Saori entrou na casa com o mesmo sorriso caloroso de sempre.
Ao vê-la, Helena sentiu o mesmo conforto e paz da primeira vez em que se conheceram, naquele hospital em Piraievs. Recordando-se disso, lembrou também o porque de Saori estar ali e tratou de se desculpar:
-Saori... Eu imagino o que deve estar pensando agora... Eu...
-Não precisa se explicar. Eu sabia muito bem quem você era quando a trouxe para cá. E sei como está sendo difícil agora, mas quero que saiba que te protegerei, não importa como. – Atena tinha as mãos de sua governanta entre as suas nesse momento, o que passou uma sensação de tranqüilidade que Helena nunca sentira antes.
Atena era de fato um ser maravilhoso, agora a mulher entendia a razão de tanta devoção daquelas pessoas que davam suas vidas para protegê-la e proteger àquilo que ela ama.
-Eu soube que foi requisitada pela polícia. Eu lamento muito Saori, certamente foi obra do Nicola. – Helena tentou desculpar-se novamente, mas a jovem de cabelos lavanda balançou a cabeça em sinal de negativa e com um sorriso colocou a bolsa com as roupas sobre a mesa:
-É, eu sei que isso tem o dedo dele e eu já fui à polícia, mas eles não ousaram me fazer uma pergunta se quer. Os meus advogados e o meu segurança os assustaram um pouco. Aldebaran causa impacto. – Atena não parou de sorrir por nenhum instante e pareceu divertir-se ao lembrar da cara do delegado ao se deparar com o cavaleiro de touro logo na entrada do distrito. – Helena, eu gostaria de falar com você a sós. Posso usar sua sala Milo?
-Claro Atena, fique a vontade. – os dois cavaleiros ali presentes retiraram-se da casa. Já as duas jovens encaminharam-se para a sala, onde Saori começou a falar:
-Eu prefiro esperar até amanhã para desmentir a história da sua ausência. Primeiro eu quero resolver a questão do corpo. Já despachei Shun para fazer uma proposta à família Williams. Eles levarão o corpo para enterrar na Inglaterra e não abrirão qualquer processo.
-Quanto isso custará? – A jovem de olhos cinza ousou perguntar, não deixaria Saori arcar com essa despesa sozinha.
-Não se preocupe quanto a isso.
-Eu insisto em pagar. – Não seria correto Atena pagar uma dívida que Helena causou e a moça não deixaria isso acontecer.
Entretanto Saori era irredutível:
-Eu não quero você pensando nisso. Eu disse que vou resolver e assim será. Agora quanto ao Nicola. Ele sabe que eu estou lhe protegendo, mesmo dizendo a policia que você fugiu, ele não acreditará. A vantagem é que ele não sabe onde você está, e mesmo que descubra, não poderá atingi-la aqui. Ele não a seguirá a vida inteira, então, enquanto permanecer no Santuário, estará segura.
Helena deslizou as mãos pelo cabelo. Nicola não desistiria resgatar o dinheiro era o de menos. Mata-la era questão de honra, o que faria com que ela nunca mais conseguisse sair do Santuário. Seu refúgio pacífico se tornaria sua prisão.
Depois de explicar a situação, Saori pediu a Helena que permanecesse na casa de Escorpião até que Shun retornasse, no dia seguinte, depois disso não haveria problemas em andar livremente pelo Santuário, exercendo sua função de governanta. Dito isso, despediu-se da moça e seguiu em direção ao décimo terceiro templo, não sem antes passar por um Mu sério e um Milo carrancudo.
Após a visita de Saori, Helena passou o dia trancada no quarto de visitas da casa de Escorpião. Não saiu para almoçar e Milo não insistiu no convite, entendia como ela estava se sentindo, ele próprio não estava muito confortável com a presença da moça ali. Estava impressionado consigo mesmo, em vinte e quatro horas, o que pensava a respeito da governanta mudara pelo menos umas dez vezes e agora já não sabia mais o que sentia.
Helena era completamente diferente de qualquer outra mulher que conhecera, já havia passado por muita coisa, era independente e auto-suficiente. Certamente aprendeu cedo como se defender, só a empreitada na qual se envolvera, fugindo por toda a Europa com quarenta milhões de euros no bolso... Isso era suicídio!
Não a culpava pelos crimes que cometera aquela era a vida que conhecia desde a infância e nunca lhe foi oferecido um outro caminho, por outro lado, a história do dinheiro não descia. O que essa mulher, sozinha, faria com quarenta milhões?! É muito dinheiro para uma pessoa só.
-Com licença? – Helena despertou Milo de seus pensamentos. O cavaleiro estava deitado no sofá, com a televisão ligada em um canal qualquer, isso não importava porque ele não estava assistindo mesmo.
Já era noite, lá fora só havia silêncio, o santuário recolhia-se cedo, para acordar cedo. A governanta sentou-se no espaço que o cavaleiro cedeu e passou a encarar a televisão:
-Eu deixei um sanduíche na geladeira.
-Eu agradeço, mas vendo como você cozinha, hoje de manhã, eu prefiro não comer nada que tenha preparado. – A mulher de cabelos castanhos provocou o cavaleiro, sabendo que ele teria uma resposta na ponta da língua.
De fato, Milo tinha:
-Ei! Eu não sou seu empregado não! E saiba que os meus sanduíches são uma iguaria muito apreciada por aqui.
-Ah! Claro. São o premio de consolação para as suas amiguinhas. Tudo o que elas levam de você no final das contas. – Helena rebateu o cavaleiro com outra brincadeira, entretanto ele não viu como tal.
Milo ficou sério e encarando a moça, falou:
-Eu sei o que pensa de mim Helena. Você me vê como aqueles homens que visitavam a casa do seu pai a procura de mulheres. Mas eu não sou assim. Eu jamais a trataria daquela forma.
-É difícil de acreditar. – ela respondeu no mesmo tom sério. Milo não sabia o que ela passava para fugir daqueles olhares nojentos e desejosos. Quando era obrigada a conversar com um dos clientes, por qualquer razão que fosse sempre ia armada, jamais deixaria qualquer um daqueles homens toca-la.
O cavaleiro não se abalou com a resposta negativa, ainda tinha um argumento:
-Eu posso provar.
-Então prova.
Esse foi o sinal de que precisava. Milo aproximou-se cautelosamente da jovem e tomando a face da mesma em uma das mãos, beijou-a calorosamente. Um beijo romântico e apaixonado, de uma maneira que jamais fizera antes, com nenhuma outra mulher.
Continua...
(1) Basil Zaharoff: Um verdadeiro mafioso grego que viveu no início do século XX. Na infância, Basil foi guia turístico e gigolô no bairro grego de Istambul, na adolescência entrou para a marinha mercante e se tornou vendedor de armas. Diz sua biografia que, durante a 1ª guerra mundial, ele vendia armas para os dois lados. Por fim, tornou-se banqueiro bem como mantinha uma fábrica de armas e era ainda conselheiro governamental, sendo o responsável por envolver a Grécia em conflitos menores do pós guerra, apenas para vender armas. O Sobrenome russo foi adotado por Basil devido a um exílio temporário na Rússia, seu verdadeiro nome era Zacharias Basileios. Eu estava pesquisando por nomes gregos atuais, para usar na fic e me deparei com essa biografia, eu jamais imaginei que existisse alguém assim, achei esse perfil perfeito para ser o pai da Helena. (fic também é cultura)!
