Hermione abriu os olhos, mirando a janela, podendo constatar que finalmente parara de nevar. A noite passada tinha sido coberta pelos flocos de gelo. Tanto lá fora quanto dentro de si. Pensava que não devia ter dito tudo aquilo para Ron, não devia ter se precipitado, poderia ter tido mais um pouco de paciência. Ser paciente sempre fora o seu forte, mas quando se tratava do ruivo, aquilo se dissipava, ia embora junto com seu auto controle, e tudo que ela queria era fazê-lo perder a cabeça também. Enlouquecer por sua causa.
Despertou, sentando-se na cama, sem muita coragem para sair do quarto e encarar pai e filha, os dois unidos contra ela. Isa havia dormido com ele de novo. Na segunda noite, sabia que era para evitá-la. Naquele dia, imaginava que a pequena estivesse corroendo-se de raiva por ter seus maiores segredos descobertos. Porém, quando ergueu novamente os olhos para a rua lá fora, viu que a loura estava lá, empilhando um monte de neve sobre outro, tentando montar um boneco. Isabela sentiu-se vigiada, e encarou o vidro da pensão, onde Hermione a observava. A menina fez um gesto com a mão, convidando-a para brincar também. Não poderia recusar.
Ainda que não soubesse o que ela poderia querer, quando deu por si, a morena já estava vestida com muitos agasalhos, caminhando a passos largos na rua. Isa ainda estava tentando juntar a cabeça do boneco no resto do corpo, mas caía sempre.
- Acho que preciso de ajuda. – A pequena comentou, quando Hermione se aproximou. – Alguém mais alto.
- Sim, você precisa. – Disse, tirando as luvas pegando um punhado de neve. Moldou-o em cima do monte já feito pela menina. – E precisa ter mais calma.
- Sabe, Herm? Acho que preciso de uma mãe... – A loura completou, amaciando a cabeça do boneco. A jovem fitou-a, a cabeça de lado, uma expressão clara de confusão.
- Pensei que me odiasse e quisesse fazer seu pai me odiar também! – Declarou, sem medo de magoá-la.
- Eu também pensei isso. Mas acho que já mudei de idéia. – Isa respondeu, olhando ao longe e desviando novamente o olhar para o boneco. Hermione seguiu seu olhar e enxergou, em outro ponto da rua coberta de gelo, o garoto que a menina tanto reparava nos últimos dias. – Você faz meu pai feliz. Isso é importante, não é? Além disso, sei que posso confiar em você.
- Mas eu contei para o seu pai sobre o garoto que você gosta. – Ela lembrou, não sabendo como aquela criança poderia confiar nela depois da noite anterior.
- E não contou do pacote de balas que eu ia roubar para incriminar você. – A loura admitiu, finalizando o homem de neve.
- Imaginei que você tinha feito isso. – A jovem constatou, com um sorriso leve nos lábios. – Mas não achei que valeria a pena estragar o Natal por causa de um erro, certo? – Vendo a outra concordar com a cabeça, mudou de assunto. – Por que você não vai falar com ele? – Perguntou, apontando discretamente o garoto no outro lado da rua.
- Ficou maluca? – Isabela horrorizou-se, olhando exasperada para a futura mãe. – Nós nem nos conhecemos, ele nem olha para mim! Seria loucura demais simplesmente chegar ali e falar com ele!
- Loucura? Posso te contar uma história, Isa? – Perguntou e, como a menina afirmou, começou a narrativa. – Eu e seu pai conhecemos um homem que tinha muitos amigos, e que lutava contra o mal sempre. Mas a família inteira desse homem era aliada a um poderoso bruxo das trevas. E ele, com quinze anos, fugiu de casa, para lutar por seus ideais. Um dia eu perguntei para ele como ele teve coragem de largar sua família, a vida confortável que tinha, tudo que o dinheiro lhe proporcionava, sem hesitar ou pensar duas vezes. Ele respondeu exatamente assim: "Porque eu amava demais os meus amigos e os meus ideais. E quando o amor quer falar, a razão deve calar-se".– Finalizou, ouvindo ao longe a voz de Sirius Black confirmando aquelas palavras. – E é nisso que eu acredito. Que se você ama alguém, não importa o que terá que fazer por ela. – Isa pareceu ponderar por um tempo, até sorrir e comentar:
- Então acho que é hora de nós duas acreditarmos mesmo nisso, não é? – Perguntou. – Nós duas deixarmos de pensar um pouco.
Terminou, rindo baixo para Hermione e saindo dali, indo de encontro ao menino. A morena sorriu tão alegre quanto a pequena, sabendo que a outra estava certa e que deveria ir em frente, lutar pelo que acreditava. E, acima de tudo, acreditava que seu amor por Ron era real, e válido.
Entrou na pensão, e logo viu que Ron estava ali, cortando tomates no balcão da pia, preparando o almoço para os três. Sorriu, imaginando por quanto tempo assistiria aquela cena: Seu amado cuidando da família, cuidando dela e de sua filha. Seus filhos, quem sabe. Muitas crianças ruivas e sardentas correndo pela casa. Riu alto, repleta de felicidade só ao pensar nisso. O ruivo ouviu e virou-se para ela, e quando ia abrir a boca e perguntar do que estava rindo, não pôde. Hermione jogou-se em seus braços, enlaçando seu pescoço e cobrindo seus lábios com um beijo. No princípio, pego pela surpresa, ele ficou de olhos arregalados, as mãos suspensas no ar, uma segurando a faca com que cozinhava e a outra com um tomate descascado pela metade. Logo que notou o que estava acontecendo, virou-se e levou o corpo da morena junto com o seu, encostando-a no balcão da pia, esvaziando as suas mãos e segurando sua cintura, finalmente correspondendo o beijo, deixando que seus lábios esquentassem os dela, que estavam frios graças à neve lá fora. Deixou-se conduzir pelas emoções que sempre estiveram dentro de si e há tempos não podiam ser libertas, aprofundando o beijo, pedindo à ela que aquilo nunca mais acabasse, que pudessem ficar juntos pelo resto da vida, como sempre desejaram. Mas tudo que é bom, dura pouco.
- Vocês não vão acredit.. Opa. – Isa entrara na sala, ficando parada na porta, totalmente sem jeito. – Desculpa, eu volto outra... Ah, agora já interrompi mesmo!
- No que não vamos acreditar, querida? – Ron perguntou, visivelmente decepcionado, vendo a menina sentar-se no sofá. Caminhou quase deprimido até ela e sentou-se ao seu lado.
- Eu fui conversar com o Kevin, e...
- Com quem? – O jovem perguntou, confuso.
- É o garoto do restaurante! – A pequena explicou, e continuou. – E ele perguntou se você era minha mãe. – Disse, apontando para Hermione. – E eu disse que era, daí ele perguntou qual era o seu nome e eu respondi "Hermione Granger" – Ela falava rápido, como se quisesse logo chegar ao ponto principal da questão. – Então ele falou " Engraçado, nunca vi uma família de bruxos de sobrenome Granger", e eu disse "É por que ela é filha de trouxas", e ele fez cara de nojo e disse "Sua mãe é sangue-ruim?" – Ela terminou, tomando ar.
Os dois jovens não reagiram. Estavam bestificados demais com o fato de Isa ter assumido Hermione como mãe, e mais ainda porque ela resolveu falar com o menino.
- Ei! Estou dizendo que ele te chamou de sangue-ruim! – Ela exclamou para a morena.
- E o que você fez? – Herm perguntou, já tendo quase certeza da resposta.
- Joguei a cabeça do boneco de neve na cabeça dele! – A loura respondeu, como se fosse óbvio o que tinha feito. Os adultos começaram a rir, e ela ficou mais pasma ainda. – O que tem de engraçado nisso?
- Você é igualzinha a sua mãe! – Ron explicou, e vendo que Hermione estranhou a colocação, explicou. – Oras, você socou o Malfoy quando ele falou mal do Hagrid! – As bochechas da jovem tomaram um tom rosado, que fez o auror rir mais ainda.
- É, tive a quem puxar... – Isa comentou, suspirando.
- Parece que estamos todos bem agora, não é? – A jovem comentou, puxando a pequena para mais perto de si. A loura encostou a cabeça no ombro dela.
- Milagres acontecem, então? – Ron perguntou, deitando no colo da filha e apoiando os pés no encosto do sofá. – Pensei que era mentira. Nunca fez sentido para mim que existissem milagres, sabe? Parecia loucura, mas...
- Quando o amor quer falar, a razão deve calar-se. – Isabela completou, piscando para Hermione. – Mas ainda tem uma coisinha errada... – Comentou, fazendo cara de pensativa, enquanto tirava o pai de cima de si.
Quando estavam sentados, ela pegou a mão coberta de sardas de Ron e a mão morena da jovem. Juntou-as, no ar, fazendo com que ficassem coladas uma na outra, os dedos dele muito maiores que os dela. Foi trançando seus dedos, um por um, deixando-os entrelaçados. Os dois sorriram para a garota, o olhar interrogativo.
- Façam-me um favor? Nunca mais se larguem! – Ela disse, dando um beijo na bochecha de cada um e saindo por baixo das suas mãos unidas. – E continuem o que estavam fazendo! – Completou, saindo pela porta e indo brincar na neve lá fora. Era um dia lindo, afinal. Miraculoso.
N/A: Me perdoem. Eu sei que eu demorei demais pra postar esse final! Ainda tem epílogo, viu? Muito obrigada pelos reviews, vocês são lindos!
