Sábado, primeiro de Novembro de 2008.
Meia noite.
O medo ainda impede os amigos de se mexerem. Ninguém se atreve a olhar para o lado, nem sequer a respirar. Betty abraça Josh de lado, que apóia sua mão no ombro dela. Andrew parece ter dificuldade em respirar, enquanto Maggie olha vidrada a rachadura que não estava ali antes. Sophia simplesmente começa a caminhar em direção a ela, encostando levemente a ponta dos dedos na fissura, para ver se é de verdade.
- Mas que diabos...?
- Sophia, se afaste daí. – Josh larga Betty, e arrasta Sophia pra longe da parede. – Vai saber o que diabos aconteceu, essa parede pode desabar a qualquer momento na sua cabeça.
- Devia ter pensado nisso antes de escolher essa casa, não é Josh? – Maggie destila seu veneno.
- Escute aqui, Maggie, as fotos que nós achamos da casa sugeria que ela estava em perfeitas condições – replica Betty – Então não venha com esse tom acusatório para cima de nós.
- Ah, e nem resolveram checar, para ver se a informação conferia? Além da falta de bom senso, vocês também estão em falta de cérebro?
- Escute aqui, sua vadia... – Josh diz, perdendo as estribeiras.
- Não fale assim da minha noiva! – Andrew dá um passo a frente, pronto para se estapear com Josh.
- PAREM JÁ, TODOS VOCÊS! – Sophia grita.
A sala fica inesperadamente em silêncio. Todos olham para a garota de cabelos cor de chocolate, que outrora fora a pessoa mais equilibrada do grupo, assustados.
- Soph...? – Josh balbucia.
- Vocês ficam aí discutindo sobre coisas estúpidas, em vez de se preocuparem com o Matt. A gente não sabe onde ele está, e nem se esse abalo causou algum acidente. Matt pode estar machucado!
Betty de repente parece ciente da questão de que seu namorado não está no recinto, e começa a chamar o nome dele. Os outros começam a imitá-la, enquanto se separam para procurar pela casa inteira. Sophia sobe as escadas, juntamente com Josh, para procurar nos cômodos lá de cima. Nenhum sinal de Matt, em nenhum dos quartos.
Descem as escadas novamente, e dão de cara com dois desconhecidos, apontando armas e lanternas para as paredes. Os feixes de luz se voltam para os rostos dos dois jovens na escada, e então pigarreiam.
- Vocês têm que sair daqui, agora. – diz o mais baixo, loiro e de olhos bem claros.
- O que? Quem são vocês? – Josh pergunta, descendo as escadas, seguido por uma cautelosa Sophia.
- Bem... isso não importa, realmente. Só precisamos que vocês caiam fora daqui, agora.
- Ele não está em nenhum... – Maggie acaba de entrar, seguida por Andrew e uma chorosa Betty. – lugar.
- Quem são vocês? – pergunta Andrew.
- O que vocês fizeram com Matt? – diz Sophia, enquanto avança para o mais alto, de cabelos compridos e brilhantes. – Onde ele está?
- Quem? – ele pergunta, olhando sem-graça para ela.
- Vocês pegaram o Matt? – Betty avança em direção ao loiro, e começa a bater em seu peito. – O que vocês fizeram? Onde ele está?
- Calma ai, moça. Não fizemos nada com esse cara. Acabamos de chegar, e vocês precisam sair.
- Por que? – Josh, pela primeira vez na noite, fala alguma coisa inteligente.
- Porque vocês estão correndo perigo. – responde o maior.
- Que tipo de perigo? – Maggie abraça o próprio corpo.
- Ahn... – os dois se olham. – Um perigo... meio que... sobrenatural.
- Sobrenatural? Quer dizer, do tipo fantasmas? – Andrew, o intelectual, fala.
- É, exatamente.
- O que? – Sophia repete, incrédula.
Betty e Josh de repente caem na gargalhada. Riem com tanto gosto, que os outros três são contaminados por essas risadas e começam a rir também. Os dois caras armados não sabem como reagir.
- Muito engraçado. De verdade. – Josh começou.
- Vocês realmente assustaram a gente. – Andrew disse, enxugando os olhos com o indicador.
- O filho da mãe do Matt pediu para que vocês fizessem isso, hã? Sempre brincalhão. – Sophia completou, enquanto abraçava Maggie pelos ombros, tentando parar de rir.
- Não estamos brincando. Estamos aqui para caçar um fantasma. E não sabemos quem é esse Matt.
- Sim, muito engraçado, mas já podem parar. Não caímos mais nessa. – Josh fala, ainda sorrindo. – Belo efeito especial o barulho lá em cima e a rachadura na parede. – ele aponta para o lado oposto em que estão.
- É, como é que fizeram isso, a propósito? – pergunta Andrew.
- Que tipo de barulho? – pergunta o que parece ser o mais novo, o alto.
Sophia pára de rir e olha bem no fundo dos olhos dos dois. Seu coração começa a bater mais depressa. Alguma coisa está errada, pensa.
- Quem são vocês? – ela pergunta, séria. Todos olham para ela.
- São amigos do Matt, não são? – Betty pergunta, esperançosa.
- Não. Sou Sam – o mais alto aponta para si mesmo e depois para o do lado – E este é meu irmão, Dean.
- Matt nunca mencionou vocês para mim. – Betty comenta, quase alegre.
- É porque provavelmente ele não conhece, moça.
Uma da manhã.
- Então, vocês são caça-fantasmas? – diz Josh, incrédulo.
- Fantasmas, bruxas, lobisomens, entre outras coisas. – Dean começa a carregar a arma.
- E acham que tem um fantasma à solta nesta casa?
- Yep.
- E é por isso que precisamos saber o que ouviram. – Sam fala, calmamente.
Todos estavam sentados na sala de estar, incrédulos, olhando para os dois irmãos como se eles fossem de outro planeta. Claro que, a esta altura, já estavam acostumados, mas ainda assim era desconcertante.
- E então? – Dean balança a cabeça na direção de Sophia. – Por que você não começa a dizer o que houve?
- Bem... – ela parece meio sem jeito. – Estávamos aqui na sala, íamos procurar Matt, que tinha sumido, quando de repente escutamos um barulho lá em cima.
- Parecia alguma coisa se arrastando. – Betty disse.
– Ou sendo arrastada – Maggie estremeceu. – Aí essa coisa parece que passou rapidamente pela parede, e deixou um rastro para trás. – apontou com o polegar para trás, na direção da parede.
Dean pegou um pote de sal de dentro da bolsa, fez um grande círculo em volta dos sofás, e ordenou que ficassem ali, e não saíssem sob nenhuma circunstância, enquanto ele e o irmão subiram pela escada.
Sophia apertou os olhos. Pôs o dedo nos lábios, pedindo silêncio, e disse que ia subir para ver e que eles deviam ficar ali embaixo, esperando por ela. Todos balançaram a cabeça afirmativamente; estavam muito assustados para se oporem ou seguirem-na.
Ela subiu nas pontas dos pés a escada de madeira, rezando para que ela não rangesse sob seus pés. Alcançou a ponta da escada rapidamente, e observou os irmãos mais adiante no corredor, passando a mão por alguma coisa pegajosa.
- É, é sangue. – Dean disse, esfregando os dedos. – Como é que ta aí?
- Detectando atividade. – ele tinha um aparelhinho diferente nas mãos, que piscava e fazia um barulho estranho, todas as luzes de um lado acesas.
- Coitado do cara.
- Coitados dos amigos.
- Vocês estão falando do Matt? – ela chegou perguntando.
- Eu não disse para você ficar lá embaixo? – Dean disse, entre dentes.
- É, claro. Até parece que eu ia obedecer a um estranho totalmente maluco, que diz que caça fantasmas e manda a gente ficar dentro de um círculo de sal, como se nossas vidas dependessem disso.
- E depende. Aquele círculo afasta maus espíritos. Fantasmas. E lá, você estava segura.
- Estou muito bem, obrigada. – ela cruzou os braços. – Agora alguém pode me dizer o que está acontecendo aqui?
Sam olhou para Dean e para Sophia, vendo os dois travando uma batalha silenciosa, através de olhares. Ele querendo que ela descesse as escadas e se juntasse ao grupo; ela querendo que ele lhe desse explicações.
- Olha – começou Dean. – Achamos que tem um fantasma com espírito vingativo aqui, e vocês são os prováveis brinquedinhos dele, atualmente. Seu amigo, - Dean apontou o rastro de sangue que dava na parede – com certeza foi. Então, ao menos que queira ter o mesmo destino dele, sugiro que volte para o círculo.
Os olhos de Sophia seguiram o rastro de sangue que dava para um tubo de ventilação. Primeiro eles se arregalaram de espanto por uma pessoa poder passar por ali, e segundo por saber que, seja lá o que tivesse acontecido, Matt jamais poderia estar vivo, depois de tanto sangue perdido, e de ter sido espremido naquele espaço mínimo.
Seus olhos se encheram de lágrimas, que logo começaram a cair. Nunca mais veria seu amigo de novo, nunca mais falariam sobre futebol, cinema, música, ou qualquer outro assunto. Não relembrariam mais fatos do passado, ou zombariam dos penteados dos colegas de escola quando pegassem as fotos antigas para darem uma olhada.
Sam aproximou-se dela, e pôs a mão no seu ombro. Ela encostou o rosto em seu peito, e desabou a chorar. Dean rolou os olhos para o irmão, que simplesmente apertou os lábios e indicou com a cabeça a sala. Desceram os três, Josh levantou-se e foi até a noiva quando a viu em prantos.
- O que vocês fizeram? – ele disse, nervoso.
- Não fizeram nada, Josh. Só que... o Matt...
- O que tem ele? – Betty levanta do sofá, os olhos angustiados.
- Sinto dizer, mas não tem muita chance de seu amigo estar vivo agora. Há muito sangue lá em cima.
- E muito pouco espaço na tubulação. – completa Sophia. Ela corre até Maggie e a abraça fortemente, enquanto as lágrimas das duas descem pelos rostos e as angústias se misturam em uma só.
Duas e meia da manhã.
Depois de tanto chorar, Betty acaba adormecendo no colo de Josh. Sophia lança um olhar desconfiado sob ele, enquanto parece tão perdido no rosto delicado de Betty. Eles são tão parecidos, pensou ela.
Maggie ainda estava abraçada a Sophia, e Andrew segurava a mão da noiva, olhando atentamente para o chão. Sam e Dean liam relatórios e discutiam teorias. As armas com bala de sal, conforme explicaram, espantavam os espíritos momentaneamente, mas o que eles precisavam realmente fazer era achar os ossos do fantasma e queimá-los.
- E quem, exatamente, estamos procurando? – Sophia perguntou.
- O nome é Jane Pulmann. Assim que se mudou para cá, várias pessoas começaram a morrer. Todas a ver com o assassinato dos irmãos, Christopher e Christine.
- Morreram de que? – Josh sussurra, não querendo acordar Betty.
- De corda. – Dean fala, olhando-o nos olhos. – Descobriram que os dois irmãos andavam se atracando pela casa, e os enforcaram. Em 1850, aquilo era pecado e digno de pena de morte.
- Foram enforcados porque se amavam. Ótimo jeito de se morrer.
- Um amor proibido. Quase me sinto numa trama de Shakespeare. – Sophia reclamou, olhando para a mesa.
- Sophia! O assunto é sério! – Andrew disse, os olhos apertados.
- Não estou dizendo que não é, Andrew. Só estou dizendo que me deixa enjoada.
- Eu vou ao banheiro. – ele disse, levantando-se.
- É melhor não, amigo. Não se sabe quando ela vai atacar de novo. – Dean disse.
- E o que eu devo fazer? Mijar no chão? Não, eu vou e volto, rapidinho.
- Andrew, por favor, fique aqui. – Maggie pediu, apreensiva.
- Eu já volto, amor.
- Eu vou com ele, tudo bem, Maggie? Fica calma, vai dar tudo certo.
Sam e Andrew saíram do círculo e sumiram no corredor escuro. Maggie se apertou ainda mais nos braços de Sophia, e ela lhe fez carinho na cabeleira escura. Dean e Sophia se encararam, e Josh só lanceava os olhos de um para outro.
Andrew só encostou a porta, instruído por Sam, e levantou a tampa da privada para se aliviar. Pensava em como aquela situação era ridícula. Fantasmas! Era só o que faltava! Como podia realmente ser verdade? Ele era um historiador, sabia das inúmeras lendas espalhadas ao redor do mundo, mas não havia nenhum registro de que alguma pudesse ser verdadeira.
Mas, afinal, se soubessem que era verdade, quem escreveria sobre isso? Provavelmente, seria tachado de louco, e internado num hospício, pensou ele. Eu deveria ser internado num hospício por cogitar a possibilidade de aqueles dois dizerem a verdade.
Fechou a calça e deu descarga. Foi até a pia, e deu uma olhada no espelho: seus olhos estavam vermelhos, por não ter dormido, estava com olheiras e um pouco pálido também. Aquela experiência não estava fazendo bem para nenhuma pessoa daquela casa. Apenas os dois irmãos caçadores pareciam estar à vontade com aquilo.
Abriu a torneira e começou a lavar as mãos, a água fria dava uma sensação de dormência a elas, o que lhe dava certo prazer por ainda estar vivo e poder sentir essas sutis modificações.
Foi quando levantou os olhos novamente para o espelho que seu corpo estremeceu. Um fantasma de uma mulher, com uma grande ferida no estômago olhava-o, divertida. Ele gritou e foi até a porta, tentando abrir, mas ela estava trancada. Tentou girar a chave, mas não conseguiu.
Ouviu Sam gritar do outro lado da porta. Virou-se para o fantasma, que se aproximava cada vez mais. Ela finalmente chegou até ele, puxou um punhal de dentro da manga, e o esfaqueou, exatamente onde a ferida dela se mostrava. Deu um grito abafado, e ouviu Sam esmurrar a porta com mais força ainda.
Em segundos perdia a consciência, bem antes de ser arrastado pela tubulação de ar que havia em frente à privada.
