Três da manhã.
Assim que ouviram os primeiros gritos de Andrew, Maggie saiu correndo gritando o nome do amado, seguida de perto por Sophia e Dean. Este último, antes de sair pelo corredor atrás das duas, gritou para que Josh e Betty ficassem onde estavam, e gritarem se precisassem de alguma coisa.
Chegaram e viram Sam tentando arrombar a porta de tudo quanto é jeito, sem sucesso, e então ouviram o grito abafado de Andrew, do outro lado da porta. Ouviram o baque que seu corpo fez quando caiu no chão, provavelmente sem consciência, e ele sendo arrastado pelo chão do banheiro.
Quando a movimentação do outro lado acabou, a porta se abriu sozinha, sem esforço nenhum, e eles puderam ver os sinais da cena grotesca que ali acontecera: o sangue de Andrew espalhado pelo chão, manchas vermelhas também na pia de mármore branco.
Sam e Dean se olharam, enquanto Sophia abraçava Maggie bem forte, encarando os dois, com olhos cheios de angústia. Maggie chorava, todo o desespero saindo em lágrimas e soluços pelos olhos e garganta.
Nada mais tinham a fazer, então voltaram para a sala. Josh e Betty não mais estavam ali, e os quatro começaram a gritar por eles. Sophia correu escadas acima, seguida de perto por Dean, em um silêncio aflito.
Uma porta estava entreaberta, no final do corredor, e ela abriu um pouco mais, cautelosa. Não estava nem um pouco preparada para o que viu: Josh e Betty transando feito coelhos na parede do quarto, Josh com a calça abaixada, sua bunda branca de fora. Betty com um dos seios à mostra, gemendo loucamente, os olhos fechados. Cada estocada que Josh dava dentro de Betty era uma facada no coração de Sophia.
Betty finalmente abriu os olhos e empurrou Josh bruscamente quando os viu parados à porta. Josh olhou, envergonhado, para ela e Dean, enquanto tentava fechar a calça, desajeitado, e pensava em algo para balbuciar em desculpas.
- Legal. – Sophia disse, ácido corroendo seu coração, e o veneno querendo ser transferido de sua boca para o sistema circulatório do casalzinho à sua frente. – Muito legal.
Ela sai, desabalada. Dean lança um olhar de desprezo para os dois, e corre atrás da moça, que desce as escadas furiosamente, e passa pela porta, em direção ao carro. Lá, sem saber exatamente o que fazer, dá um chute na roda dianteira, e encosta no bichinho prateado, observando Dean, que chega em seguida.
- Você está bem?
- Maravilhosa! Pego meu noivo com a noiva do meu melhor amigo, que morreu há poucas horas, transando como se não houvesse amanhã. – ela riu, histérica – Simplesmente, fabulosa!
- Soph... – Josh chega com a sua melhor cara de cachorro abandonado.
- Não me venha com essa, Josh! Saia da minha frente, ou eu mesma mato você.
- Docinho, seja razoável...
- Razoável? – ela incendeia, e Dean sai até de perto para não se queimar. – Que tal você ser um pouco razoável? Andrew acaba de morrer, e você que não tem um pingo de consideração ou de vergonha na cara, sai correndo para um quarto com essa vagabunda – aponta furiosamente para a loira logo atrás dele.
- Hey! Não fale assim de mim!
- Falo sim, e sabe por que? – ela se aproxima da loira, que se encolhe toda – Porque seu noivo nem esfriou ainda, e você já está se jogando nos braços de outra pessoa, que por sinal era comprometida!
- Era? Como assim era? – Josh pergunta, um tanto lento.
- Depois dessa, você realmente pensa que eu vou continuar com você, Josh? – ele olha sem entender quando ela tira a aliança e a arremessa nele – Se você pensou na possibilidade de eu fingir que tudo está bem, você realmente não tem cérebro nenhum. Já desconfiava, mas obrigada pela confirmação formal.
Ela sai batendo o pé, pega a chave do carro e tenta arrastar a amiga até lá, para poderem dar o fora dali o mais rápido possível.
- Soph... – Maggie sussurra. – Eu não vou.
- O que?
- Eu preciso saber... se tem algum jeito de... não posso deixá-lo aqui, se ele estiver...
- Mas Maggie...
- Pode ir, se quiser, mas eu vou ficar. Preciso achar o que sobrou...
Sophia abraça a amiga, e então a conduz de volta para a casa. Dean e Sam logo atrás.
- Hey, se vocês não vão cair fora... – Betty começa. – Então deixe que a gente vá pelo menos.
- Pode ir, são adoráveis duzentos quilômetros naquela direção – Sophia apontou. – Se vocês começarem a caminhar agora, quem sabe chegam perto do amanhecer, e pegam carona com algum caminhoneiro.
- Você não pode estar falando sério... – Betty começa a falar, avançando na direção de Sophia. Esta se vira bruscamente, os olhos soltando faíscas.
- Eu estou falando muito sério. A minha vontade neste momento é enfiar você dentro daquela casa e te servir de isca para o fantasma. Ou então pegar uma arma das mochilas daqueles dois e atirar ou enfiar a faca em você eu mesma. Mas eu tenho uma amiga em estado de desespero aqui, e quero poupar minhas energias para consolá-la e ajudá-la a passar por esse momento difícil. Então, não me tente a procurar forças extras de dentro do meu ser para acabar com sua raça, porque não vai ser nenhum sacrifício da minha parte.
Betty fica de boca aberta do lado de fora, juntamente com Josh, enquanto os outros entram na casa. Dean faz uma cara de aprovação na direção de Sammy, e Sophia senta sua amiga no sofá, tentando fazer com que ela se acalme. Pega sua mochila e tira uma garrafa de tequila de lá de dentro, que estende para a amiga.
Maggie dá um longo gole, e passa para Sophia, que a imita. Depois, estende a garrafa a Dean, e este para Sam, que recusa.
- Você é o santo dos dois, hã? – Sophia diz, enquanto deposita a garrafa em cima da mesa.
- Praticamente um monge – responde Dean, por Sam. – Não é, Sammy?
- Há há. Engraçado.
Sophia ainda tira alguns sanduíches de dentro da bolsa, e obriga Maggie a comê-lo, mesmo a garota não querendo. Depois ela mesma começa a mastigar um, enquanto joga os outros para os irmãos.
- E então? Como é que paramos essa coisa? E achamos nossos amigos?
- Bom, sabemos que a tal da Jane era irmã dos Lloyd. Se casou com Alfred Pulmann, por isso não tem o nome deles. Assim que ficou viúva, veio para cá, para a casa da família. Cremou os dois irmãos, para que eles pudessem viver juntos pela eternidade.
- Muito romântico. – Sophia resmungou, enquanto bebia mais um gole de tequila.
- Sim, muito. – Dean a olhou curioso. – Então, o delegado ficou sabendo da profanação dos túmulos improvisados dos pecadores, e veio atrás de Jane. Jane era uma mulher bonita, e o delegado tentou fazer um acordo amigável, para que ela não fosse presa.
- Que porco! – Maggie fez uma careta.
- Pois é. – Sam continuou. – Isso tudo ele contou para um dos funcionários dele, antes de vir pra cá, se gabando de poder "traçar" a viúva bonitona que veio da cidade. Agora, o que aconteceu chegando aqui, ninguém sabe. Só se sabe que o delegado voltou e disse que a mulher havia abandonado a cidade, e que não encontrou ninguém por aqui. Depois disso, o delegado morreu estranhamente, com uma facada no estômago e pendurado por uma corda. Tinha muitos inimigos, então ninguém estranhou muito o fato. Investigaram, mas não havia nada que pudessem fazer, e nenhum suspeito para prenderem. O caso foi arquivado.
- Então, ele a matou com uma facada no estômago? – Sophia perguntou, olhando para longe.
- É um bom palpite, mas não podemos saber com certeza.
- Eu posso. – ela disse, Maggie endireitou-se no sofá, olhando na mesma direção de Sophia.
- Como? – Dean perguntou.
Sophia apontou para frente, e eles viraram a cabeça para ver a mulher misteriosa, vestida em preto, com uma faca alojada no estômago. Ela sorria para Sophia, e apontava com o dedo trêmulo para a escada de madeira. Dean atirou, e ela se desmanchou em uma nuvem de fumaça. Sophia sentia o coração pular no peito, mas não conseguia desviar os olhos. E também não tinha pleno controle de seus movimentos, porque levantou e seguiu os dedos do fantasma.
Ela subiu os degraus devagar, acompanhada de perto pelos outros três. No final do corredor, a fantasma apontava para cima. Sophia chegou mais perto, mantendo certa distância, e então a mulher desapareceu.
Sophia chegou até onde ela estava e olhou: a porta do sótão estava ali, o puxador já enferrujado, pelos anos passados sem manuseio. Ela puxou-o, devagar, e a escada desceu a seus pés. Sophia olhou para Dean, que lhe estendeu uma arma.
Ela pegou o revólver nas mãos, engatilhou, e subiu, cautelosa, a arma sempre mirando qualquer coisa que pudesse pular contra ela. Colocou sua cabeça pela abertura e olhou rapidamente o cômodo: vazio, exceto por um aparelho velho de ventilação mais ao fundo e alguns móveis cobertos por poeira e teias de aranha.
Ela fez sinal para que os outros subissem, e entrou no aposento, que era alto o suficiente para que todos ficassem de pé. Quando Sam chegou lá em cima, avistaram novamente a fantasma. Ela apontava para o aparelho antigo de ventilação, e Dean e Sophia, juntos, chegaram até ele, a arma ainda mirando para qualquer movimento brusco da mulher.
Abriram a porta, e Sophia quase vomitou. Andrew, Matt, Josh e Betty estavam ali, mortos, todos com uma ferida na barriga. Ao fundo, um esqueleto antigo, já totalmente decomposto, encarava os dois. Ali estavam os restos mortais da viúva.
- Sam, leva a Maggie lá pra baixo, por favor?
- Andrew está aí?
- Está, querida. – Maggie deu um passo para frente – É melhor que você não veja... ta meio lotado aqui.
- Soph, eu...
- Eu sei, querida. Vamos dar um jeito para que ele tenha um enterro decente. Agora, desça um pouquinho enquanto a gente vê o que pode fazer, ok? Sam? – ela indica a porta do sótão.
Sam balança a cabeça e desce, junto com Maggie. Sophia olha para o rosto dos quatro amigos. Matt, amigo desde infância, sua primeira paixonite de adolescência. Andrew, noivo de sua melhor amiga, que tanto a aconselhava quando Josh dava seus pitis. Betty, que Matt sempre dizia ser uma pessoa de difícil convivência, mas quem amava de verdade. Ele a fazia parecer outra pessoa diferente da que Sophia conhecia. E Josh, seu noivo, que compartilhou tantos momentos de sua vida, sua promoção, a compra do apartamento, do carro, a formatura, mas de uma forma um tanto distante. E finalmente, o fantasma, que apesar de levar seus amigos, fez justiça com suas próprias mãos.
- Por que você acha que ela indicou o caminho para gente? Por que não nos matou? – Sophia perguntou.
- Talvez esteja cansada de matar.
- Isso é possível? – encarou Dean.
- Não sei. Talvez. Ou talvez só esteja querendo mostrar o que ela fez por você, matando as duas pessoas que fizeram você sofrer nas últimas horas.
- Eu prefiro acreditar na primeira, muito obrigada.
- É melhor você descer e chamar o Sam pra me ajudar aqui.
- Não, eu ajudo você. Sou forte o suficiente pra carregar os corpos.
- Acho melhor você não...
- Dean, eles eram meus amigos.
Dean encarou a mulher determinada que estava bem à sua frente, e balançou a cabeça. Lentamente, eles carregaram os corpos para fora da máquina. Tiraram também os ossos da viúva, que colocaram numa sacola verde de lona.
Dean gritou por Sam, e ele veio para debaixo da escada e ajudou os dois a levar os corpos para fora, um a um. Sophia carregou a sacola, e a jogou no buraco que os irmãos cavaram. Os corpos foram envolvidos em gaze, jogaram gasolina por cima e atearam fogo neles.
Observaram os corpos de seus amigos queimando, as cinzas espalhando-se pelo mato em volta, carregadas pelo vento. O dia já ia clareando, e o céu se tingia de cores mistas, deixando o cenário com uma aparência mais surreal ainda.
Sete da manhã.
Sophia e Maggie ajudaram os garotos a limparem a casa. Não deixaram vestígios nenhum para trás. Pegaram suas coisas e colocaram no carro de Sophia. Maggie voltaria com ela. Assim que fechou o porta-malas, Maggie acenou para os garotos e entrou no lado do passageiro.
- Tem certeza de que pode dirigir? – perguntou Dean, preocupado.
- Sim. Estou ótima. O pior já passou agora. – ela sorriu, um sorriso fraco. Sabia que não seria tão fácil sorrir pelos próximos meses.
- E a Maggie, ela...
- Ela vai ficar bem. Sempre foi forte. Vai superar, vou fazer com que isso aconteça, pode deixar.
- E se alguém perguntar...
- Nunca saímos da cidade, nem eu, nem Maggie.
- Isso aí. – Dean sorriu.
- Se cuida, Sophia. – disse Sam, e foi para o Impala, estacionado logo adiante.
- Você também, Sam. – ela olhou para Dean, sorridente. – Vida difícil essa, hein, amigo?
- Você não sabe de nada. – ele suspira e tira um papel do bolso. – Se precisar de alguma coisa, me liga, ok?
- Tudo bem, eu ligarei. – ela o abraça. – Obrigada, Dean. Se cuida.
Sophia entra no carro e dá a partida. O rádio, mais uma vez ganha vida própria, e enche o carro com o som de AC/DC.
Don't need reason, don't need rhyme
Ain't nothing I would rather do
Going down, party time
My friends are gonna be there too
I'm on the highway to hell
- Isso sim é apropriado!
Eles riem e ela sai em direção à estrada, se afastando daquele lugar sombrio, daquelas lembranças que a acompanharão para sempre, e daquelas pessoas que, heroicamente, arriscam suas vidas todos os dias, para livrar o mundo do mal, amém!
Fim.
N/A: Queria agradecer à minha prima, que teve a paciência de ler isso aqui pela primeira vez, e corrigir. Obrigada pelo incentivo, Jaque. E se alguém chegou a ler até o fim, obrigada, e por favor, deixe reviews! Sua opinião é muito importante para mim. Até a próxima. =)
