Rabicho estava na nossa frente, esperando pelo sinal de Aluado, o qual fora investigar as passagens que usaríamos para chegarmos até o Salgueiro Lutador.
Aluado voltou uma hora depois, já estávamos injuriados de ficar ali. Rabicho estava sentado no chão brincando com alguns Snap's Explosivos, Lílian e eu discutíamos sobre as vantagens e desvantagens de ser um nascido trouxa enquanto Almofadinhas apenas escutava. Havia vários dias em que eu percebia que Sirius estava mais quieto, mais pensativo. Estranhei, mas nunca comentei. Talvez eu devesse perguntar depois que voltássemos do Beco Diagonal. É, talvez.
-Onde estão eles? –ouvi Aluado perguntar. Rabicho apontou para onde estávamos e ele entendeu- Certo. As passagens do terceiro andar estão bloqueadas.
-Ah, não acredito. Vamos ter que usar a do quinto andar então.
-Também está bloqueada. Álias, todas estão.
-O quê?! Impossível, até mesmo a que nos leva até o Salgueiro?
-Todas, sem exceção. Demorei um tempão até encontrar a saída de uma delas.
Tiramos a Capa, Lílian nos olhava preocupada. Nos encaramos, pensativos. Talvez Dumbledore tivesse percebido que íamos aprontar. Não, impossível. Ele é Dumbledore, mas não é Deus. Eu acho, apesar de muitos motivos comprovarem o contrário.
-Podemos tentar chegar ao Salgueiro sem a passagem.
-Não dá, são muitos alunos. Se eu for pega tentando fugir do Castelo... –Lílian sentou-se no sofá.
Eram quase dez da manhã e ainda estávamos ali. Se não pensássemos em algo rápido, voltaríamos à noite e ia ser mais perigoso ainda (mais divertido, eu quis dizer). Olhei para Almofadinhas e ele pareceu entender o que eu estava pensando. Não era certeza, mas poderia funcionar.
-O que vocês acham...
-Da Sala Precisa? –Eu e Sirius tínhamos uma ligação estranha. Ele sempre sabia o que eu estava pensando ou o que eu queria dizer, e vice-versa.
-O que é a Sala Precisa?
Lílian nos olhou, curiosa.
-É uma sala invisível. Apenas quem conhece seu local sabe como e onde encontrá-la –eu respondi, me animando ao ver o olhar desconfiado dela.
-E o que essa sala invisível pode fazer para nos ajudar?
-Ela não é apenas uma sala invisível, Evans. Essa sala consegue nos dar tudo o que desejamos.
-Tipo... Dinheiro?
-Não, não. Por exemplo, se você estiver com muita sede e passar por ali naquele momento, a sala irá aparecer.
-E o que vai ter lá dentro? Um hidrante?
-O que é um hidrante?
-Um utilitário trouxa, serve para reserva de água, quando chegarmos em Londres eu mostro para vocês. Mas é isso o que acontece?
-Ela fornece tudo o que você precisar –Aluado confirmou.
- Não temos certeza se a Sala irá funcionar nunca a utilizamos para algo desse tipo.
-Podemos desejar uma passagem que levem vocês até Hogsmeade –Rabicho comentou- Talvez funcione, não é uma má idéia.
Eu concordei, Lílian também. Aluado e Almofadinhas se entreolharam.
-E se ao invés de desejar uma passagem para Hogsmeade, nós não desejamos uma passagem para Londres? De lá nós podemos ir até o Beco Diagonal...
-Todos podem ir –concluí- Não tinha pensado nisso. O que vocês acham?
Sinceramente? Eu estava quase dando pulinhos de alegria. Se tudo desse certo, aquilo ia ser uma das marotagens mais divertidas do século. E com Lílian Evans de penetra. Todos concordaram dessa vez, menos Evans. Ela parecia preocupada.
-Estou com um mau pressentimento. E se nos pegarem?
Meus amigos me olharam intimidados e eu sabia exatamente o que significavam aqueles olhares: "te vira homem, agora você vai ter que convencê-la!".
Muy amigos vocês, camaradas.
-Lili –eu me sentei ao seu lado e peguei na sua mão- Você precisa do dinheiro, não pode passar o resto do ano sem comprar o meu presente de Natal!
Todos riram e ela pareceu relaxar um pouco. Fiz carinho em sua mão e sorri quando ela me olhou. Ficamos assim alguns segundos até ela se decidir.
-Ok, nós vamos.
-Isso!
-Mas eu não vou te dar nenhum presente de Natal se alguma coisa der errada.
-Eu já ganhei o meu presente, Lílian –eu sabia perfeitamente que ela havia entendido sobre o que eu estava falando- Vamos?
Ela se levantou e eu estendi a Capa sobre nós três, Aluado e Rabicho iriam mais à frente.
E lá vamos nós!
Era engraçado andar com a Lílian junto de mim. Ela não tinha muita prática e nem muita agilidade, sendo assim ela tropeçava á cada cinco ou seis passos que dava e eu e Almofadinhas tentávamos abafar os risos, mas era impossível. Na quinta vez em que ela tropeçara, tive que segurá-la para ela não esbarrar em um garoto do terceiro ano que passeava solitariamente pelos corredores.
-Onde é a sala?
-Sua curiosidade ainda te mata ruiva.
-Eu não vou entrar em uma sala com quatro garotos, sem saber ao menos para onde eu vou.
-Pode ficar tranqüila, eu prefiro as loiras e, não se sinta ofendida, mas o único que baba por você aqui é o Pontas.
Eu dei um tapa na cabeça do Almofadinhas e o desgraçado começou a rir. Senti um calor subindo pelas minhas bochechas e não olhei Evans até chegarmos á parede de tom pastel.
-Ainda bem que fica no mesmo andar que a torre da Grifinória.
-Se sua vida dependesse da sua vontade de andar, você estaria ferrado querido amigo rato.
Encarei Sirius assustado.
-Rato? –Lílian piscou confusa.
-É que eu sou muito covarde, por isso eles me chamam de rato.
Santa agilidade, Rabicho.
Nós cinco encaramos a parede lisa á nossa frente: eu podia ver o rosto incrédulo dela.
-É aqui? Mas cadê a porta?
-Se a sala é invisível você não espera que a porta esteja visível, não é?
Ficamos parados alguns segundos, imaginando como pedir por aquilo. Algo como "Nos leve para Londres" não é muito seguro, pois podíamos sair em qualquer lugar. Tínhamos que ser específicos.
-Dá para algum de vocês falarem alguma coisa? Estou ficando nervosa com esse silêncio!
-Não sabemos como pedir –eu disse sem graça.
-Pedir? Tem que pedir para a sala?
-Desejar, ele quis dizer –Aluado disse com bom senso. Eu já estava quase pulando no pescoço daquela maluca. Ela é irritante!
Ela olhou para a parede e fechou os olhos. Nos encaramos, estranhando aquela atitude. Ouvi Rabicho sussurrando.
-Ela dormiu?
-Acho que ela está desejando.
-Ah.
-Já sei!
-Meu Deus mulher, quer me matar de susto? –Sirius segurava a mão no peito.!
-Quem é a maricota agora, Black?
-Touchè ruiva.
Eu dei risada. Sirius não imaginava o quanto a língua daquela garota era afiada.
-Nós vamos desejar ir ao Beco Diagonal. Se sairmos em um local perigoso... –ela revirou os olhos- Bom, todos possuem uma varinha e são uns marmanjos.
Eu sorri marotamente e encarei os meus três amigos espantados. Ela foi à frente, pegando a Capa que estava no chão.
-Eu disse que ela era diferente das outras.
-Até demais.
-Vamos logo, estou ficando com sono.
-São dez e meia da manhã Rabicho, por Merlin –Aluado resmungou.
-Isso é hora de eu estar indo para a cama e não indo para o Beco Diagonal!
-Vocês vão ficar aí fofocando ou vão vir comigo?!
-Eu vou azarar essa garota, Pontas.
-Relaxa Almofadinhas, ela mal começou o dia. Evans, quer parar de rebolar?
-Eu vou é REBOCAR A SUA CARA!
-Viu?
Ah, o bom humor matinal.
Fizemos a bendita cerimônia de passar três vezes em frente á parede, desejando ir ao Beco Diagonal. Eu começo a pensar que tudo está sendo fácil demais. Aquela sensação de que alguma merda ia acontecer estava iminente no ar.
-Ei Evans, fiquei sabendo que o Whornign te convidou para ser o par dele no baile de formatura.
-É ele me convidou.
-E você aceitou?
-Acho que isso não é da sua conta.
A porta finalmente se materializou na nossa frente e entramos por ela. Estava um breu. Puxei a varinha.
-Lumus!
Pisquei algumas vezes para entender o que estava acontecendo, mas a única coisa que consegui enxergar foram os olhos extremamente verdes de Lílian. Ela estava tão próxima que eu podia beijá-la sem que ela reagisse.
-Onde estamos?
-Não sei –eu respondi- Você consegue se mover?
-Não!
Tentei olhar em volta, mas tudo o que eu vi foi uma parede de mogno. Estávamos em uma caixa? O que era aquilo afinal?
-Onde estão os outros?
-Não estão aí?
-Tem uma parede aqui, Evans.
-Ah. Espera aí.
Ela tentou puxar a varinha e, com uma certa dificuldade, eu enfiei a mão em seu bolso e a tirei de lá.
-Toma.
-Obrigada. Lumus!
-Quer me cegar?!
-Desculpa!
Pisquei algumas vezes e demorei algum tempo até que tudo entrasse em foco novamente. "Tudo" é forma de expressão, não havia o que olhar ali. Eram eu, Evans e as paredes de mogno. O que raios era aquilo?
-Onde estamos?
-Não sei.
-Como não sabe?
-Não sei Evans, não sei aonde viemos parar! Ta difícil de entender?
-Eu só estou perguntando, não precisa ficar estressado.
Garota irritante.
Ela tentou se virar, mas outra parede de mogno se encontrava ás suas costas. Estávamos colados um ao outro. Impressão minha ou meu presente de aniversário chegara mais cedo?
-Potter.
-O que é?
-Isso é um armário?
Olhei em volta. Como fomos parar num armário? Foi o que eu perguntei, mas ela não soube responder.
-A Sra. Eu-Sei-Tudo não sabe a resposta? Merlin, temos que comemorar!
-Não seja idiota e comece a procurar pela porta.
-Se isso é realmente um armário, então a porta deve estar...
Empurrei com força um vão á minha frente e acabamos caindo em um chão empoeirado, cheirando á mofo.
-Lílian? Você está bem?
-Bati o meu nariz...
-Ninguém mandou nascer com um nariz desse tamanho.
Eu a ajudei a se levantar e, para a minha surpresa e espanto, ela riu da minha piada. Um bilhão de piadas engraçadas durante seis anos e ela ri da única sem graça, vai entender.
Olhamos em volta, procurando entender como havíamos chegado ali. Estávamos em um aposento cheirando á mofo, cheio de objetos e móveis cobertos por lençóis. Parecia um porão ou qualquer outro lugar em que se guardavam coisas velhas. Muito parecido com a casa da minha avó Angelina.
-Onde estamos?
-Acho que em um porão ou algo assim.
Ela assentiu, concordando. Andamos alguns metros, observando os móveis. Era um lugar amplo, com um piso de madeira velha o qual rangia enquanto andávamos. As paredes eram brancas, com rachaduras por todos os cantos e, no teto alto, havia uma viga que segurava toda a extensão da casa. Destruindo a viga, a casa desmoronava. O armário de onde havíamos saído estava em um canto afastado e, com as portas abertas parecia um desolado móvel velho. Era uma peça bonita, afinal de contas. Me aproximei para observá-lo melhor e notei ranhuras em todo o seu contorno.
-Lílian?
Ela não respondeu e eu me virei. Onde raios ela se metera? Era só o que me faltava, perder essa garota!
-Lílian?
-Psiu!
Senti algo me cobrir e Lílian tapou a minha boca, sussurrando em meu ouvido.
-Quieto. Eu ouvi vozes.
Ela me soltou e eu continuei imóvel, apenas esperando por algum ruído. Ela também não se moveu. Aquilo era estranho: estar em um lugar totalmente desconhecido (pelo menos por hora) com a garota com quem você sonha todas as noites. Não é tão romântico quanto parece. É até um pouco assustador.
-Lílian, não estou ouvindo...
-Psiu!
Me calei e continuamos atentos. Finalmente após alguns minutos ouvimos algo.
-O que é isso?
-Não tenho certeza –ela sussurrou- Parece um latido.
Senti um frio na espinha percorrer todo o meu corpo. E se fosse Sirius transformado? Apurei os ouvidos e ouvimos os latidos de novo.
-Será que acabamos caindo na casa de alguém por engano?
-Eu não conheço ninguém que more no Beco Diagonal.
Mais latidos. E agora vozes vindas do andar de baixo. Nos movemos até o armário, prontos para pularmos dentro se alguém aparecesse.
-Lílian...
-O que foi?
-Acho que eu sei onde estamos.
Antes que eu pudesse falar ouvimos passos subindo as escadas. Lílian se jogou para dentro do armário e eu me escondi embaixo de um lençol, rezando para que se me vissem, acreditassem que fosse um cabide.
Ouvimos a porta se abrir violentamente e o chão rangeu ainda mais. A porta bateu com força na parede. Cacete, quase tropecei.
A pessoa que entrou resmungava. Era um homem, de estatura baixa e começando a ficar careca. Eu apenas conseguia ver suas costas, mas já imagino que não seja a pessoa mais bonita desse mundo. Remexeu em algumas coisas e senti a brisa fria quando ele passou relando ao meu lado. Virei um pouco a cabeça, tentando encontrar Lílian. O armário estava aberto, mas não havia ninguém lá dentro. Será que ela está com a Capa lá dentro? Meu Deus, eu perdi a Lílian pela terceira vez naquele dia. O homem passou novamente ao meu lado e senti meu sangue gelar. Desceu as escadas, sem fechar a porta. Após ter certeza de que ele havia ido embora, tirei o lençol de cima de mim.
-Onde você está?
-Aqui –ela apareceu, vinda do armário com a Capa na mão- Isso é muito útil. Me pergunto quantas vezes vocês já escaparam das minhas vigias noturnas com essa Capa.
-Você nem imagina. Vamos.
E no próximo Capítulo...
Eu podia ouvir a voz do Aluado irritado ao fundo:
-A gente quase morreu Almofadinhas!
-Relaxa Aluado, foi só uma brincadeirinha...
-Brincadeirinha? Rabicho, devolve a minha varinha, eu vou transformar esse cachorro numa pulga de circo!
