Descemos as escadas quase correndo, sem nos importamos com o barulho. Lílian carregava uma mochila nas costas e a Capa na mão, eu seguia na frente constatando que estávamos no pior lugar que poderíamos estar: A Travessa do Tranco.

Atravessamos uma sala cheia de objetos feitos de madeira, com rostos esculpidos. Lílian tentou tocar em um, mas eu a afastei. Sabe Deus o que poderia acontecer.

-Não toque em nada aqui, entendeu?

Ela apenas assentiu, vendo que eu não estava brincando.

-Onde estamos? –ela perguntou preocupada- Por que não saímos no Beco Diagonal?

-Estamos na Travessa do Tranco, ela faz esquina com o Beco Diagonal.

-Travessa...

Ouvi vozes se aproximando e a empurrei para a parede, puxando a Capa e jogando sobre nós dois.

O mesmo homem que minutos antes estava no porão, agora passava quase relando nas minhas costas. Foi em direção á sala que acabamos de sair, isso nos deu a chance de caminharmos mais um pouco debaixo da capa, dessa vez sem tentar fazer barulho.

-Precisava descer a escada igual á um elefante?

Mas que garota implicante! Resolvi não responder dessa vez, mantendo a minha atenção no caminho com pouca claridade.

Finalmente chegamos á porta da loja, depois de passarmos por objetos extremamente medonhos.

-Finalmente –sussurrei e peguei na maçaneta. Ao abrir, a porta fez um tilintar, eu e Lílian nos encaramos assustados e olhamos para trás, esperando sermos descobertos. Nada, nem um pio. Saímos quase correndo, esquecendo por um momento que estávamos com a Capa.

Ao chegarmos a um local seguro, digam-se uns trezentos metros longe da tal loja, pudemos nos sentar em um banco terrivelmente destruído em uma das calçadas. Lílian arfava e suas bochechas estavam coradas por causa da corrida e eu achei aquilo lindo. Não falamos nada por alguns minutos, recuperando o fôlego e tentando imaginar como sairíamos dali. Eu nunca tinha estado na Travessa do Tranco, era um dos poucos lugares que eu nunca havia tido curiosidade de conhecer e, tendo em vista a situação precária do lugar, não me arrependo nem um pouco. Fato é que ali só se vendiam coisas ilegais, com relação á magia negra e eu não sou nem um pouco interessado nisso. Olhei para Lílian esperando notar um ar de surpresa ou até mesmo medo, mas ela apenas observava o lugar com uma calma extraordinária.

-Onde estamos mesmo? –ela perguntou, levantando-se.

-Na Travessa do Tranco.

Ela olhou em volta, imagino que estivesse surpresa por não ver ninguém nas ruas e algumas lojas fechadas naquela hora da manhã. Álias, que horas seriam? Fiz menção de olhar o meu relógio, mas lembrei que havia saído sem ele. Não me lembro de ter visto Lílian com um então estávamos perdidos, literalmente.

-E como saímos daqui?

-Não faço idéia.

-O que é aqui, afinal?

Eu hesitei antes de responder, não queria assustá-la. Mas seu olhar curioso me convenceu e eu me ajeitei no banco semi-destruído, tentando ficar um pouco mais confortável.

-Essa é a parte perigosa do Beco Diagonal, coisas ilegais e relacionadas á magia negra são vendidas aqui.

-Só aqui?

-Pelo menos na Grã-Bretanha.

Ela assentiu, parecendo entender. Tentei explicar melhor.

-É como se aqui fosse a Sonserina e o Beco Diagonal fossem as outras casas.

Ela pareceu não gostar muito da minha comparação. Ficou em silêncio por alguns segundos.

-Por que toda essa rivalidade, afinal?

Eu revirei os olhos. Não era óbvio?

-Sonserinos são cobras, Evas. Não se pode confiar em nenhum deles, estão sempre ligados com algo errado.

-Isso não é totalmente verdade –ela disse, mas sua voz pareceu diminuir, sem ter tanta certeza. Eu nada respondi, estava pensando em como sair dali. Ela sentou-se novamente ao meu lado.

-Não gosto disso.

-Disso o quê?

-Dessa maldição dos Sonserinos.

-Como assim? –não estava entendendo onde ela queria chegar, mas tempo era o que não nos faltava.

Ela ajeitou o rabo-de-cavalo antes de responder.

-Eles não têm oportunidade de escolha, já percebeu?

Eu não respondi apenas a olhava surpreso. Ela falava com uma bondade que eu nunca havia visto antes em ninguém. Ela continuou:

-Eles seguem aquilo que já foi escolhido para eles, aquele caminho cheio de coisas ruins e maldade. Quando... –ela parou de falar de repente- Nada, esquece.

-Fala Lílian –eu estava curioso e interessado.

Ela suspirou e continuou:

-Quando eu coloquei o Chapéu Seletor, ele perguntou se eu gostaria de ir para a Sonserina.

-E o que você disse?

Ela me encarou com os bonitos olhos verdes, pensativos.

-Eu disse que sim. Isso me faz menos Grifinória?

Aquilo não era uma pergunta, era um desafio. E me pegou de surpresa. Lílian nunca poderia ter ido para a Sonserina, ela é... Tão bonita e corajosa. Então por que o Chapéu lhe dera essa chance? E por que ela aceitara? Eu sei que o Chapéu Seletor leva muito em conta a opinião do aluno, então...

-Por que você quis ir para a Sonserina?

Ela sorriu, colocando um fio de cabelo que se soltou atrás da orelha.

-Meu melhor amigo disse que a Sonserina era a melhor casa de Hogwarts.

Antes que eu pudesse perguntar quem era, senti algo no meu bolso se mexer.

-O que é isso? –ela perguntou se aproximando.

Tirei do bolso o espelho que eu usava para me comunicar com Sirius, me sentindo um idiota. Fiquei conversando tanto tempo com Lílian que havia me esquecido!

Ouvi a voz de Rabicho, esganiçada:

-Pontas? Ta aí?

Eu podia ouvir a voz do Aluado irritado ao fundo.

-A gente quase morreu Almofadinhas!

-Relaxa Aluado, foi só uma brincadeirinha...

-Brincadeirinha?! Rabicho, devolve a minha varinha, eu vou transformar esse cachorro numa pulga de circo!

-Isso você tem de monte, né sua bola de pêlos?

Eu e Lílian ríamos ao ouvir tudo aquilo, podíamos ouvir os dois correndo mais ao fundo. Rabicho apenas revirava os olhos e tentava conversar com nós dois.

-Dá para as duas maricotas irem discutir pra lá? Estou tentando conversar aqui!

As vozes irritadas e risadas foram se afastando. Rabicho se virou e fez uma cara de "finalmente!".

-Onde vocês estão? –ele perguntou.

-Na Travessa do Tranco, e vocês?

-Você não vai acreditar.

Que lugar seria pior que a Travessa do Tranco?

-Sirius, aquele saco de pulgas, quis fazer mais uma das suas brincadeiras e invés de pensar no Beco Diagonal, ele pensou em "um lugar escuro e assombrado". Dá pra acreditar?

-Então é por isso que viemos parar na Travessa, é o local mais perto do Beco Diagonal. Mas, por que vocês não vieram parar aqui também?

-Sei lá, só sei que estamos ferrados se alguém nos pegar onde estamos. E eu digo muito ferrado.

-Onde vocês estão? –Lílian perguntou, se debruçando sobre mim, pude sentir o cheiro do seu perfume doce de novo. Aquilo me deu um rebuliço enorme no estômago, mas mantive a calma: tudo no seu tempo.

-Nós...

-Mas o que está acontecendo aqui? –uma voz conhecida pode ser ouvida mais ao fundo- Black?

-Ora, mas que surpresa desagradável prima!

A imagem no espelho desapareceu, Rabicho com certeza o escondera.

-Onde será que eles estão?

-Só Deus sabe. Depois descobrimos, vamos sair daqui?

Lílian se levantou e me puxou pela mão, sorrindo. Parecia estar se divertindo com aquilo e eu acabei esquecendo os meus amigos por alguns minutos, perdido naquele sorriso.

-Por onde? –ela perguntou.

-Por aqui –eu respondi, sem ter certeza.

Ela começou a andar na minha frente, cantarolando.

Ah, Lílian...


Andamos por uns quinze minutos até a minha mente brilhante lembrar que podíamos aparatar.

-É mesmo, onde eu estava com a cabeça? –Lílian puxou sua varinha do bolso e eu fico me perguntando como uma varinha cabe ali? Parecia não passar nem vento naquela calça.

-Talvez estivesse pensando na melhor forma de se declarar para a minha pessoa –arrisquei, esperando pela patada.

-Não seja idiota, Potter –e ela veio como um beliscão na bochecha. Tudo bem, já estou acostumado, uma patada a mais ou a menos não faz muita diferença.

Aparatamos em frente á sorveteria que eu e Sirius sempre vínhamos nos dias de compras. Tive que insistir muito para que ela aceitasse tomar um sorvete comigo depois que pegássemos seu dinheiro, mas Lílian acabou cedendo. Minha cara de pobre coitado nunca falha.

As ruas estavam bem mais vazias naquela quarta-feira de manhã, podíamos observar crianças brincando na rua, despreocupadas.

Caminhamos em direção ao Gringotes e fui obrigado a parar em frente á loja de artefatos para Quadribol, estava namorando a nova vassoura já fazia quase um ano.

-Por que você não compra? –ela perguntou, provavelmente sabia que a minha família não era nem um pouco pobre. Pensei por alguns instantes antes de responder:

-Se eu comprar perde a graça. Fica muito fácil, entende?

Ela assentiu, sem realmente prestar muita atenção no que eu dizia. Ela estava olhando algumas roupas na outra vitrine. Mulheres...

Para falar a verdade, ela nunca presta muita atenção no que eu digo e isso é uma das coisas que me deixam irritado. Eu praticamente bebo tudo o que ela diz, desde o "Bom dia" até o "Não seja idiota, Potter" habitual e ela apenas finge escutar o que eu falo.

Chegamos ao Gringotes e logo fomos recebidos pelo duende mais feio que eu já havia visto em toda a minha vida.

-Você vai ficar aí? –ela perguntou. Eu apenas assenti- Já volto.

-Vê se não fica papeando com o duende, temos que ir embora antes de escurecer.

-Não são nem meio-dia Tiago, me poupe.

Ela entrou no banco e eu fiquei observando as pessoas que passavam em frente. Me apoiei na grande pilastra branca, com as mãos no bolso e me pergunto onde estarão aqueles malucos? Peguei o espelho do bolso e encarei o meu reflexo no vidro. Meus cabelos arrepiados pareciam estar se divertindo com o vento e eu precisava urgentemente de óculos novos, aqueles já estavam piores que as meias do Almofadinhas.

-Almofadinhas? –tentei.

Ninguém respondeu.

-Aluado? Rabicho?

-Tem alguém ai? –tentei pela última vez antes de guardar o espelho novamente.

Sabe lá Deus onde aqueles três tinham ido parar, mas devia estar sendo hilário. Não que estar com a Lílian seja ruim. Tudo bem, não é a coisa mais agradável do mundo ter alguém implicando com você o tempo todo, mas com ela tudo ficava diferente.

Me sentei nas escadarias, com as mãos apoiadas no queixo, Lílian com certeza estaria contando a vida dela para o duende e eu teria que esperar sentado.

Eu já estava quase me deitando na escada quando ela voltou. Estava com os cabelos soltos e com uma bolsinha de pano na mão, onde estava o seu dinheiro, provavelmente.

-Você foi fazer um café para o duende?

-Você é muito impaciente Tiago, vai criar uma úlcera desse jeito.

-Uma o quê?

-Vamos logo, nós ainda temos um sorvete para tomar antes de irmos salvar os seus amigos!

Ela me empurrou, mas eu a segurei pelo pulso. Algo dentro de mim dizia que eu ia levar a patada do século, mesmo assim continuei:

-É impressão minha ou você está me convidando para tomar um sorvete?

Ela revirou os olhos e eu quase a beijei ali mesmo. Adoro essa revirada dos olhos.

-Você me chamou hoje quando passamos em frente à sorveteria!

Subi um degrau. Ela também. Pelo menos ela não saiu correndo.

-É, mas achei que você fosse esquecer.

-Bom, eu não esqueci.

Ela me encarou, esperando que eu me aproximasse. Ao invés disso, me afastei.

-Então vamos logo, tenho treino de Quadribol hoje à noite.

Minha vontade era a de olhar para trás e ver o seu rosto perplexo, mas me contive. Tudo aquilo fazia parte do jogo.

-Vai ficar aí ou...

-Já estou indo, Potter! –ela respondeu grossa, colocando-se ao meu lado.