Yuki POV
Este sol a
bater-me nos olhos está a incomodar-me. Sinto a respiração do
corpo por baixo do meu, estiquei preguiçosamente o meu corpo sentido
o corpo dele, sei que o meu rosto ficou corado. Sei também que vai
ser necessário contar o que se passou comigo. Eu quero mesmo, estou
apaixonado por ele e quero que ele saiba tudo sobre mim. Na realidade
eu já não me importo se ele me vai rejeitar ou não , única coisa
que eu quero é deixar de estar com está dúvida que me está a
corroer o peito. Mais vale contar tudo de uma vez do que continuar a
viver com estas dúvidas. Ergui-me apoiado no cotovele e olhei para o
homem que dormia estiquei-me até os lábios dele tocado-os com os
meus, por mais receios que eu tenha, este homem tão lindo e tão
meigo faz-me pensar em loucuras. Senti a língua dele passar nos meus
lábios e isso fez com que eu me arrepiasse por completo. Abri os
olhos e vi os olhos castanhos mel dele a olharem-me. Afastei-em um
pouco e vi um sorriso nos lábios que acabei de beijar.
- Bom dia
Uru…
- Bom dia Yuki
A voz dele adoravelmente ensonada, os
olhos meio fechados, tão lindo. Ele sorria para mim tão adorável.
- Vamos tomar banho?
Ao ouvir a pergunta eu engasguei
completamente, sei que fiquei imensamente vermelho. Ele percebeu que
eu estava atrapalhado.
- Eu não estava a dizer juntos. Quero
dizer eu até queria mas, eu sei que tu não. E eu não quero que te
assustes, não foi de propósito.
Eu desatei a rir, ele enrolou
as palavras todas. Na realidade eu bem queria meter-me no banho com
ele. Podia tentar, sempre seria uma forma de me ajudar a superar os
meus medos.
- Eu quero…
A minha voz saiu baixinha, num
sussurro. Ele olhou-me sério, percebeu que aquilo era um passo
importante para mim. Vi-o olhar para mim sério e depois abrir um
sorriso. Pegou-me pela mão e fomos até a casa de banho. Eu tirei a
roupa e meti-me no chuveiro o mais rápido possível, estava a morrer
de vergonha, minutos depois senti o corpo mais alto a entrar para o
box também. As mão compridas tocaram levemente as minhas costas com
uma esponja, eu fechei os olhos e concentrei-me no toque que eu sabia
ser de Uruha, ele não fez mais nada a não ser ensaboar as minhas
costas e lavar os meus cabelos. Eu virei-me para ele.
- Deixas eu
lavar as tuas costas?
Ele sorriu e acenou-me com a cabeça, a
água que corria pelo seu corpo dava-lhe uma ar surreal. Pousei a mão
nas costas amplas dele peguei na esponja cheia de gel de banho e
comecei a passa-la pela pele dele, costas e peito, quando passei pelo
umbigo dele ouvi um gemido baixo dele. Ele ficou atrapalhado.
-
Desculpa Yuki.
Eu sorri, e repeti o gesto com a mão que não
segurava a esponja. Um novo gemido saiu da boca dele, desta vez um
pouco mais alto. Eu estava tão vermelho.
- Yuki… Para com
isso!
Fiz asneira, pronto eu já fiz asneira. Sou mesmo estúpido
por achar que alguma vez eu ia conseguir agradar a um homem como ele.
Afastei-me dele e peguei na toalha, saí do chuveiro e sentei-me na
cama. Não passaram dois minutos até ele aparecer na minha frente.
- O que se passa Yuki?
Ele sentou-se do meu lado também
enrolado na toalha.
- Desculpa se eu fiz asneira, eu sou um
atrapalhado…
Ele sorriu-me doce.
De maneira nenhuma, tu não
fizeste nada mal. O problema foi mesmo esse foi tudo bom demais e eu
não queria fazer nada que tu não quisesses.
A resposta dele
fez-me abrir um enorme sorriso. Eu realmente estou a ama-lo. Abracei
a cintura dele com força.
- Uru podemos passar o dia juntos?
-
Mas nós temos ensaios, além disso amanhã temos o dia de folga.
-
Por favor, eu falo com o Ruki, mas é importante eu tenho de te
contar algumas coisas sobre mim.
Ele pareceu ponderar o que eu
lhe tinha dito. Era agora ou nunca, eu hoje ia contar tudo o que
aconteceu comigo. Tem de ser eu não posso adiar mais isto. Eu sei
que o amo, sei que comecei a ama-lo desde o primeiro dia em que o vi,
e agora tenho de dizer-lhe tudo. Tudo o que eu quis esquecer, os
acontecimentos de que eu fugi, agora voltam para me assombrar.
-
Está bem, acho que não vai ser por estes dois dias que mundo vai
acabar. Além disso parece-me muito importante para ti portanto eu
falo com os rapazes.
Ele levantou-se da cama e pegou no telemóvel
e esperou alguém atender enquanto me mandava beijinhos e me fazia
rir.
- Estou, Aoi…
- Sim sou eu o Uru. Olha amigo, eu estou
com uns problemas para resolver, será que dava para não haver
ensaio hoje?
- Sim eu sei que é em cima da hora, mas é mesmo
urgente.
- Eu sei que amanhã é dia de folga. Aoi eu sei mas
puxa dá para uma vez na vida não reclamares comigo??
- Vá
lá...
- Ok. Obrigado mesmo amigo, falas com os outros não é?
- Mais uma vez obrigado. Vá até logo.
Ele pousou o aparelho
e sorriu-me.
- Pronto temos o dia só para nós.
- Óptimo
então vamos comer qualquer coisa e vamos sair. Podemos ir até um
parque, não queria estar em casa.
Sei que ele não está a
entender nada, mas mesmo assim ele está a aceitar o que eu peço.
Não questiona. Parece-me que ele entende perfeitamente o meu
nervosismo. Levantei-me e vesti uns jeans e uma t-shirt preta.
Enquanto fui lavar os dentes e arranjar-me o loiro trocou-se. Depois
desci para a cozinha e fui fazer o pequeno almoço. Vinte minutos
depois estávamos prontos para sair. Ambos de jeans eu com uma
t-shirt negra ele roxa. Fomos de moto até um parque um pouco longe
da cidade, queríamos privacidade. O parque estava quase vazio apenas
uns miúdos jogavam futebol, fomos andando até encontrarmos um sítio
agradável. Sentamos na sombra de uma arvore, eu fiquei ao lado dele.
A mão dele entrelaçou a minha.
- Uru, o que tenho para te
contar é sério, e eu entendo perfeitamente se tu não quiseres mais
olhar para mim depois disso.
Ele olhava para mim assustado.
-
O que é isso Yuki? Estas a assustar-me!
- Bem é melhor começar.
Como tu já sabes eu vivia em Londres. Vivia sozinho, perdi os meus
pais quando tinha dezassete anos, e comecei a tratar de mim.
Continuei a estudar mas resolvi arranjar um emprego como violinista
num bar. Com o tempo fui-me acostumando, com o dinheiro que ganhava
consegui arranjar um apartamento e fiz a realidade tudo
estava a ir bem, mas o dono do bar um dia ouviu-me a cantar e
resolveu que seria uma boa ideia eu começar a cantar também. A
ideia foi boa, o dinheiro que ganhava aumentou, principalmente pelas
gorjetas das pessoas que ouviam a minha voz. O problema acho que eram
mesmo as minhas roupas, vestia umas roupas andrógenas, a ideia era
ninguém descodificar se eu era homem ou mulher. Acho que foi isso
que despoletou todos os meus problemas…
Suspirei. Ergui os
olhos do chão e olhei os castanhos que me fitavam. A mão dele
apertou levemente a minha como se para me dar confiança. Ele parecia
entender que vinha aí bomba, só espero que ele entenda.
-
Continuando, passei um ano a cantar no clube. Já com 21 anos todos
os dias actuava durante a noite e de dia fazia faculdade de História
da Arte. Era cansativo mas compensador. Até aquela maldita noite.
Respirei fundo ele passou a mão nos meus cabelos.
- Eu
passei a noite a cantar e pediram para que eu também tocasse piano,
fiz um bom dinheiro nessa noite. Quando o clube fechou, fui para
casa, não era longe na realidade um quarteirão de distancia, por
isso ia sempre a pé. Devia ter ido de carro, passo a vida a dizer
isto a mim mesmo. Bem, eu saí nessa noite para casa, vinha a cantar
pelo caminho, até que esbarrei com um vulto, na realidade eram dois
vultos. Eles foram-se chegando para mim dizendo que eu era muito
linda. Eu fiquei tão assustado não sabia o que fazer era de noite e
a iluminação não ajudava muito, não conseguía ver os rostos
deles. Um deles tentou agarrar-me e eu fugi tentei correr mas fui
agarrado. Taparam a minha boca e arrastaram-me para um beco. Eu
consegui vê-los um deles eu não conhecia, mas o outro era um colega
meu da faculdade o Robert. Ele também me reconheceu, pensei que ele
ia deixar-me fugir mas ele sorriu quando viu quem eu era. Ele disse
ao outro que eu era um rapaz e o outro chamou-me de gay e de
travesti.
Senti as lágrimas a molharem o meu rosto, tudo tão
doloroso. O medo, a raiva, o ódio, tantos sentimentos a fervilhar
dentro de mim. Não me atrevia a olhar para o loiro. Mas a mão dele
ainda não tinha abandonado a minha.
- Eu pedi ao Robert para me
deixar ir embora, mas ele respondeu que já há muito tempo que me
queria, que eu era lindo demais e que a culpa era minha por nunca
ligar para ele. Eu chorei tanto, acho que nunca chorei assim na minha
vida. Aquele maldito agarrou-me e rasgou a minha roupa, eu comecei a
gritar e o outro bateu-me. Bateu tanto que senti os ossos a
estalarem, as minhas costelas a partirem. Depois o Robert, ele…-
odeio dizer esta palavra – ele violou-me. Ele deixou-me num estado
deplorável quase inconsciente no meio daquele beco, dorido coberto
de sangue e daquele filho da puta, e não contente com isso ele
cortou-me, fez o corte que eu tenho no abdómen, segundo o que ele
disse para eu não me esquecer nunca dele. Antes de desaparecerem ele
disse que um dia voltava para ficar comigo de novo, e que se eu
contasse para alguém eu morria. Eu consegui chamar uma ambulância
pelo telemóvel, mas nunca o denunciei, fiquei com medo e depois de
passar dois meses no hospital eu fechei-me em casa foi assim que
fiquei, até contar tudo ao Ruki e ele resolver trazer-me para aqui.
Assim que terminei de falar senti a mão do loiro a pousar no meu
rosto, encolhi-me pensei que ele ia me bater ou rejeitar. Mas o que
vi quando levantei os olhos deixou-me incrédulo. Ele estava com a
boca ligeiramente aberta, e dos olhos castanhos escorriam lágrimas.
Ele estava a chorar.
- Como é que esse filho de uma puta foi
capaz de te fazer isso. Eu mato-o. Ele que não se atreva sequer a
pensar em ti ou eu mato-o. Como é que foram capazes de te fazer isto
meu anjo.
- Tu vais querer continuar comigo? Depois de saberes o
que aconteceu?
- Meu amor. Eu amo-te eu nunca iria deixar-te por
isso. Tu não tiveste culpa. Eu amo-te não te esqueças disso.
Eu
não sabia se ria ou chorava. Vê-lo a chorar partia-me o coração ,
mas saber que ele não me condenava deixava-me tão aliviado.
Abracei-o forte e ficamos ali no chão abraçados. Libertando as
magoas.
- Uru, eu quero ficar para sempre contigo!
- E vais
ficar meu anjo, prometo que vais ficar.
Eu sorri para ele, este
anjo que caiu na minha vida e faz com que eu não pense em mais nada.
- Eu quero-te, eu quero fazer amor contigo…
Eu sussurrei
perto do ouvido dele. Ele engasgou-se.
- Está bem amor, nós
temos todo o tempo do mundo.
- Hoje, eu quero que seja hoje Uru.
Pode ser?
Ele olhava-me de boca aberta.
- Tens a certeza?
Eu
sorri e acenei afirmativamente.
- Então vamos almoçar e depois
deixo-te em tua casa para pegares algumas roupas. Acho melhor
passarmos a noite em minha casa.
Eu concordei. Saímos do parque,
de novo com as mãos dadas, fomos almoçar num restaurante e depois
ele deixou-me em casa disse que tinha algo para fazer e que voltava
em duas horas. Eu fui arrumar umas roupas. Onde raio é que eu deixei
o meu anel com o pentagrama?? Bem não importa, peguei na mochila e
desci as escadas. O Ruki tinha acabado de entrar em casa.
-Yukiiiii…
Abraçou-me de imediato.
- Ruki eu falei com o Uruha, eu
contei tudo.
- E???
- Ele foi um amor, ele chorou com o que
aconteceu. Ruki eu amo-o.
O pequeno abriu um sorriso radiante.
-
Que bom, depois de tanto sofrimento tu mereces é ser feliz.
- É
verdade Ruki eu não vou dormir cá hoje.
Ele abriu a boca para
falar em seguida ficou corado.
- Bem, ainda bem. É que hoje vem
cá dormir o Reita, bem nós os dois começamos a namorar.
