Depois de alguns anos, nunca imaginou se sentir entediada e desanimada. Certo, a sua vida não era das piores, ao contrário, sequer tinha do que reclamar. Mas ainda assim, algo faltava na sua vida, e pedia desesperadamente por ação. Bem, seu desejo foi atendido... agora, será que ela agüenta?
Disclaimer: Sakura Card Captors e todos os outros personagens são da Clamp®, eu só sou mais uma doida varrida que vou fazer todos eles sofrerem (fico pensando, será que alguém lê isso aqui?)
Comentários extras: estou colocando os comentários extras antes porque quero pedir desculpas por ter atrasado a fic mais uma vez! Mas, dessa vez, o motivo foi muito mais forte e bem mais sério. O capítulo já está pronto há duas semanas, mas nesses últimos dias o meu avô ficou muito mal de saúde, até que no dia 25/12 (no natal) ele veio a falecer. Como ele morava na Bahia, tive que sair às pressas pra lá, para chegar a tempo do velório. Voltei na quinta-feira, dia 29/12, e depois da missa de sétimo dia, viajei para a praia, para passar o ano novo. Por isso, não tive tempo de postar a fic, mas GARANTO que não acontecerá de novo, a não ser que eu realmente tenha um bom motivo. Bem, dedico esse capítulo ao meu querido avôzinho (e espero que ele esteja em um lugar bem melhor, onde não sofra como sofreu na sua morte) e a Tamires, que fez aniversário no dia 17/12. O capítulo era pra ser só dela, como presente de aniversário, mas por motivos de força maior, dedico a outra pessoa. Beijos e curtam o capítulo!
Capítulo 10 – Dores de Cabeça
Sakura chegou ofegante em casa. Havia voado tão rápido que, por um momento, achou que não conseguiria parar de voar. Mas descobriu que todo o seu esforço havia sido em vão: Shaoran ainda não tinha chegado na sua casa, e tampouco estava a esperando. Aliviada, ela entrou em casa e estava subindo para o seu quarto quando Touya e Yukito a pararam no corredor. Os dois estavam sérios:
"Eu acertei, não foi mesmo?" – perguntou Touya, encarando a irmã com preocupação – "Algo realmente aconteceu!"
"É, aconteceu. Mas nada de mais, já resolvi o problema."
"E por que não nos chamou?" – perguntou Yukito, levemente triste – "Achei que estávamos juntos nessa!"
"Foi tudo tão rápido que nem deu tempo de chamar alguém." – ela respondeu, baixando a cabeça – "Kero já foi me arrastando pra fora junto com a Nakata, e acabamos fazendo tudo sozinhos!"
"Eu não pedi para você me chamar quando precisasse de ajuda?" – perguntou Touya, agora com seu tom de voz aborrecido
"Desculpe, Touya, mas realmente não deu tempo. Na próxima, eu te chamo!"
"Claro que irá me chamar! Vou garantir isso pessoalmente."
"Sakura, você sabe que não pode sair sozinha sem a gente." – disse Yukito, se abaixando para encará-la nos olhos – "Sou seu guardião, preciso te ajudar."
"Não se preocupe, Yukito, no fim acabou tudo bem." – ela respondeu, dando um leve sorriso – "Além disso, Kero e Nakata estavam comigo, não houve problemas."
"Nakata?" – ele levantou a sobrancelha – "Você a levou para ajudar?"
"Levei. Por que, algum problema?"
"Nenhum, mas... ela está em treinamento!" – Yukito parecia meio exasperado
"Pois ela se saiu muito bem!" – Sakura riu, estava imaginando Yue se contorcendo de raiva, e Yukito fazendo ao máximo para não deixar a raiva da sua outra metade extravasar – "Deveria ter visto a luta, ela conseguiu ótimos avanços no treinamento!"
"É, eu imagino. Bom, se vocês me derem licença, eu preciso conversar com a Nakata, antes que eu fique maluco com essa raiva inexplicável que estou sentindo." – ele se levantou e saiu, indo à casa vizinha
"Eles ainda não conseguem se entender muito, né?" – perguntou Sakura
"Já foi bem pior!" – respondeu Touya, dando de ombros – "Pelo menos agora os dois concordam em algumas coisas."
"Bom, se você não se importa, eu vou subir. Shaoran daqui a pouco chega e olha só o meu estado."
Dito e feito. Foi Sakura dizer e a campainha tocou, anunciando a chegada do namorado. Após deixar Touya falando sozinho no corredor (que estava aos berros porque ela o mandara abrir a porta, e ele simplesmente não queria ficar sozinho com o Espanador Ambulante), ela subiu as escadas correndo e entrou em seu quarto de supetão, assustando Kero. Ele parecia estar falando com uma carta:
"Nossa, pra que essa pressa?" – perguntou o pequeno guardião, depois de se recompor
"Shaoran chegou e eu ainda não me arrumei!" – ela dizia, enquanto jogava roupas para tudo quando era lado – "Ai meu Deus, perdi tanto tempo lá no Templo que nem me arrumei! Qual dessas você acha melhor, Kero?" – ela perguntou, mostrando duas camisetas ao bichinho de pelúcia
"A da esquerda!" – respondeu – "Se bem que eu acho um tremendo desperdício você se arrumar pra esse moleque, se quer saber minha opinião."
"Não, não quero! Já não disse pra você não o chamar assim?"
"Pois pra mim ele continua sendo um moleque chato e impertinente." – o guardião virou a cara – "Não importa que ele seja seu namorado."
"Ah Kero, volta pro que você estava fazendo, por favor!" – ela resmungou, enquanto terminava de abotoar a calça jeans e se sentava para prender o cabelo – "Falando nisso, o que era, hein?"
"Estava perguntando à carta Tempestade porque ela não se rebelou."
"E o que ela disse?"
"Disse que estava cansada demais pra ficar aprontando." – ele deu de ombros, enquanto Sakura caía da cadeira – "Além disso, pareceu gostar de você!"
"Ainda bem! Mais uma confusão como a de hoje, e acho que me mudo pro Himalaia!"
Ela acabou de dizer isso e ouviu uma grande algazarra no andar de baixo da casa. As vozes até pareciam ser de...
"Ai meu Deus. OS ANCIÕES!" – ela resmungou – "Eu realmente não mereço mais essa."
"Desce logo, vai!" – recomendou Kero, dando tapinhas nas costas dela – "Pelo jeito, o Touya está pra bater em algum deles."
Ela concordou, deu uma última ajeitada no rabo de cavalo e desceu. O guardião apenas riu e voltou a conversar com as cartas.
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Aquela última semana de aulas parecia interminável. Certo, ainda era segunda-feira, e a semana havia apenas começado, mas para os alunos, já estava tão insuportável como se já fosse sábado. E estava ainda pior para uma certa jovem de olhos verdes, que estava mal-humorada desde o dia anterior, quando o almoço feito na sua casa havia se tornado um fiasco a partir do momento que seu irmão mais velho quase havia socado a cara do tio-avô do seu namorado, que por sinal, havia dito que sua casa mais parecia um barraco. Isso depois de impedir três cartas mágicas de destruir a cidade, e o pior: escapar de ser morta! A semana havia começado mal para Sakura. Ela deu graças a Deus quando o sinal para o intervalo tocou e ela finalmente pôde se livrar da chata aula de química e descer para descansar.
"O que aconteceu, Sakura?" – perguntou Tomoyo, vendo que a amiga não falara nada durante o dia todo – "Você me parece mal-humorada!"
"E o que você esperava, Daidouji?" – perguntou Meilin, exasperada – "Depois da confusão que aqueles velhos malucos armaram na casa dela, eu até acho que ela está calma demais. Se fosse comigo, já teria quebrado a cara de um deles!"
"Não foi por falta de vontade." – respondeu Shaoran, que andava mais atrás – "Se o senhor Fujitaka não tivesse me segurado, juro que teria acabado com o tio Chen na hora em que chamou a casa da Sakura de barraco."
"É sério, o que há de errado comigo?" – perguntou Sakura, finalmente falando – "Eu simplesmente não entendo por que aqueles dois não gostam de mim."
"Não é nada com você, Sakura!" – respondeu ele de forma carinhosa, enquanto a abraçava – "Eles que são dois velhos caducos, que não sabem o que fazem."
"Eu diria que eles são mais do que caducos." – comentou Yamato, que andava ao lado de Meilin – "Até agora não entendi o que eles foram fazer na casa da Sakura ontem!"
"Disseram que queriam avaliar onde a 'futura matriarca do clã' morava." – respondeu Meilin, fazendo uma careta – "Mas, pra mim, eles queriam mesmo era pegar no pé dela, e aproveitaram que o Shaoran foi lá para irem junto."
"Não tinha como impedir, não?" – perguntou Tomoyo
"Tentamos de tudo!" – respondeu Shaoran, infeliz – "Minha mãe e minhas irmãs disseram todos os argumentos possíveis, e até tia Hyang tentou, mas eles estavam irredutíveis."
"Seus tios podiam dar as mãos para o Yue e saírem andando." – comentou Yamato, dando uma risada infeliz – "Ele também estava irredutível ontem!"
"Ele brigou muito com a Nakata?" – perguntou Sakura, preocupada
"Apenas o básico de sempre. Que sempre é uma grande discussão, obviamente."
"Mas ela não melhorou no treinamento?" – perguntou Tomoyo, enquanto todos se sentavam embaixo de uma grande árvore – "Quer dizer, segundo a Sakura, ela até conseguiu deter Corrente por alguns momentos."
"Não é essa a questão. Yue sempre foi muito protetor, e não gosta que Nakata participe das missões. Tem medo que ela se machuque."
"Por isso consegue viver com o Touya." – comentou Sakura – "Os Super-Protetores."
Todos riram enquanto começavam a comer. Estava realmente muito quente e a sombra da árvore era ótima para passar o intervalo. Estavam quase terminando quando Chiraru, Yamazaki, Rika e Naoko apareceram para conversar com eles:
"Finalmente achamos vocês!" – comentou Rika, enquanto os outros se aproximavam – "Estávamos nos perguntando onde vocês estariam."
"Como vai a cabeça, Yamazaki?" – perguntou Meilin, apontando para a faixa que tinha na cabeça do amigo
"Ainda sinto algumas dores de vez em quando, mas está bem melhor!" – respondeu o garoto, enquanto coçava a cabeça – "Sabem que até hoje eu não entendi direito o que aconteceu naquele dia? A última coisa que me lembro era de estar no Parque do Rei Pingüim e de repente estava na minha casa, com a cabeça doendo."
"Aquela chuva foi muito esquisita." – comentou Naoko, empolgada – "Até agora acho que foi algo sobrenatural."
Sakura, Shaoran, Tomoyo, Meilin e Yamato tiveram o cuidado de não se olharem.
"E então, o que vocês vão fazer nas férias?" – perguntou Chiraru, para mudar de assunto
"Ainda não sabemos." – respondeu Tomoyo – "Pelo menos eu não planejei nada."
"Eu também não!" – comentou Meilin – "Planejava fazer uns passeios com a Sakura lá em Hong-Kong, mas já que nos mudamos para cá..."
"Então por que não planejamos alguma coisa para fazermos juntos?" – perguntou Sakura, se animando
"Você tem alguma idéia?" – perguntou Shaoran, olhando para a namorada
"Bom, não... mas podemos ter, não é mesmo?"
"Por que não acampamos?" – sugeriu Yamato, encostando as costas na árvore – "Uma semana na floresta seria bem interessante."
"Gostei da idéia!" – comentou Meilin – "Há muito tempo que não acampo. Acho que será bem divertido."
"Podemos alugar uma van e irmos para o interior!" – sugeriu Tomoyo, com os olhos já brilhando – "Ai, vai ser tão emocionante poder filmar a Sakura no meio da floresta, enfrentando todos os perigos da natureza."
"Menos, Tomoyo, menos!" – pediram Sakura e Shaoran, totalmente envergonhados com a mania de Tomoyo de sair filmando todos os movimentos da amiga.
"E quando vocês pretendem viajar?" – perguntou Rika, enquanto todos os outros riam da vergonha de Sakura e Shaoran
"Eu não sei." – respondeu Meilin, colocando a mão no queixo e fazendo pose de pensativa – "Até arrumarmos tudo, vai levar mais de uma semana. Talvez no meio da semana que vem. Aí ficamos uma semana e meia lá e voltamos duas semanas antes do reinício das aulas."
"Pra mim parece ótimo!" – respondeu Yamato – "Mesmo porque, nas últimas duas semanas de férias, tenho alguns problemas a resolver em Tóquio. Tenho que renovar o contrato de aluguel da minha casa."
"Também acho que tenho alguns ensaios do coral nas duas últimas semanas de férias." – lembrou Tomoyo – "Pra mim está perfeito."
"Que pena, pra mim não dá!" – disse Chiraru – "Tenho um festival de ballet nessas duas primeiras semanas, e não posso faltar. Será o meu teste de finalização do curso."
"Também tenho um recital de piano que irei participar nessas duas primeiras semanas, pra mim também não dá!" – comentou Rika
"Já confirmei presença em um festival literário na semana que vem, também não posso ir." – disse Naoko, triste – "É uma pena."
"Duvido muito que minha mãe me deixe ir!" – comentou Yamazaki – "Pra mim não vai dar."
"Ah, que pena." – comentou Sakura, triste – "Não vai ser a mesma coisa sem vocês."
"Sakura tem razão, sem vocês não podemos ir." – disse Shaoran
"Não por isso!" – disse Rika na hora, balançando as mãos – "Vocês não devem deixar de se divertirem por nossa causa."
"Rika está certa, vocês devem ir, sim!" – disse Chiraru – "No verão do ano que vem, todo mundo vai junto."
"Já que é assim..." – disse Meilin, se voltando para falar com os outros – "Pra vocês, tudo bem?"
"Tudo bem não está, mas já que não tem outro jeito, está combinado." – respondeu Sakura – "Vai ser bem divertido."
"Eu tenho certeza que vai!" – comentou Shaoran, a abraçando e dando um beijinho no rosto dela.
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Era uma sexta-feira quente de verão, e todos sentiam as conseqüências do calor na pele, enquanto estavam em suas casas, deitados naquela noite estrelada e abafada. Para Sakura, o calor só piorava sua situação: estava sozinha em casa (sozinha em termos, porque Kero dormia em seu quarto – gaveta), nervosa e ansiosa pela ligação de Tomoyo. Faltavam apenas alguns dias para eles partirem para o interior do país, mas o transporte ainda não havia sido confirmado. Tomoyo prometera ligar para todos dizendo se havia conseguido alugar a van até o final da tarde, mas até aquele momento, nada! Sakura rodava de um lado para outro da cama, esperando o seu telefone tocar, mas os intermináveis minutos passavam e nem sinal da amiga. Todas as suas coisas já estavam arrumadas (e não importava se Kero achara que ela se precipitara, dessa vez ela não deixaria pra última hora), a barraca comprada, a lista de comida feita. Seria muito ruim se, agora, cancelassem tudo.
Foi então que ele tocou. Sakura se levantou num pulo e saiu em disparada pelos corredores para atendê-lo. Pegou o fone e o colocou no ouvido, enquanto dizia com voz ofegante:
"Kinomoto falando!"
"Caramba, não sabia que monstrengas corriam." – disse a voz debochada de Touya, do outro lado da linha – "O que foi, interrompi o seu ritual de sonecas?"
"Ah, é você, Touya." – respondeu Sakura, meio desanimada, meio irritada – "O que você quer?"
"Isso é jeito de falar com o seu irmão mais velho, Sakura? Ligo porque estou preocupado com você e olha só como sou tratado!"
"Estou esperando uma ligação importante da Tomoyo, então se puder ser rápido, eu vou ficar agradecida."
"E que ligação tão importante é essa que está te deixando tão agoniada, posso saber?"
"Estou esperando para saber se a Tomoyo conseguiu alugar a van que vai nos levar para acampar." – ela deu um suspiro – "Mas, pelo jeito, ela não conseguiu!"
"Van? Acampar? Que história é essa?"
Foi aí que Sakura percebeu a mancada que tinha dado. Contar para Touya que iria acampar com Shaoran e os amigos era a mesma coisa que pedir para ser torturada. Ela bateu na mão na testa, se xingando internamente por ser tão ingênua, e se preparando para ser bombardeada de perguntas.
"Então, que história de acampamento é essa?" – perguntou Touya, ficando levemente aborrecido
"Decidimos que iremos acampar nessas férias, durante uma semana e meia. Iremos na quarta-feira que vem."
"E quem irá nesse acampamento?"
Sakura hesitou na hora de dar a resposta, mas achou melhor soltar de uma vez a bomba, antes que o irmão descobrisse por outra pessoa e ficasse ainda mais irado. Além disso, ele não poderia fazer nada a respeito: ela iria e ponto final.
"Sakura, estou esperando a resposta!" – Touya quase gritou, mostrando que estava ficando sem paciência
"Irão Tomoyo, Meilin, Yamato, Shaoran e eu! Talvez a Nakata vá também, afinal Yamato não a quer deixar sozinha em casa e..."
"COMO É QUE É? O MOLEQUE TAMBÉM VAI?"
"Vai, qual é o problema?" – agora a voz de Sakura estava desafiadora, embora ela não estivesse muito segura de si – "Até onde eu saiba, ele também é amigo dos outros."
"E o seu namorado de quebra, não é mesmo? Vamos lá, Sakura, você realmente acha que eu vou permitir que você viaje sozinha com esse Rascunho Mal Feito de Homem?"
"NÃO O CHAME ASSIM, TOUYA!" – Sakura gritou, começando a ficar exaltada – "E QUEM VOCÊ PENSA QUE É PARA PERMITIR O QUE EU FAÇO E NÃO FAÇO COM O MEU NAMORADO, HEIN?"
"Sou seu irmão mais velho, é minha missão te manter longe desses adolescentes pervertidos que nem o seu 'namorado'." – ele afinou a voz para dizer a última palavra, deixando Sakura furiosa – "Por essa e por outras razões é que você não vai acampar."
"Você não manda na minha vida, Touya! Papai já deixou, e você não pode fazer NADA pra impedir, porque de qualquer maneira eu vou!"
"E se a Tomoyo não conseguir a van, hein?"
Sakura parou, se lembrando de que havia essa possibilidade. Do outro lado da linha, Touya sorria: se havia uma maneira de impedir essa viagem maluca, ele faria de tudo para detê-la!
"Se a Tomoyo não conseguir a van..." – começou Sakura, respirando fundo – "a gente vai a pé mesmo, nem que seja pra acampar no Parque do Rei Pingüim!"
Touya voltou a fazer carranca. Pelo jeito, não havia jeito de deter aquela pestinha da sua irmã mais nova. Bom, só havia uma solução...
"Muito bem, você venceu!" – disse Touya, mostrando ar de derrotado
"Isso quer dizer que você não vai mais encher o saco?" – perguntou Sakura, esperançosa
"É como dizem: se você não consegue derrotar o inimigo, junte-se a ele!"
"Finalmente você entendeu!" – disse Sakura, toda feliz – "Não se preocupe, tudo dará certo."
"É, eu sei que vai."
Os dois continuaram conversando por algum tempo. Sakura estava convencida de que Touya finalmente havia entendido que ela já não era mais uma garotinha, e que sabia se virar. O que ela não sabia era do sorriso malicioso que ele mantinha no rosto enquanto ligava para uma outra pessoa...
Tomoyo finalmente ligou, uma hora mais tarde, dizendo que finalmente havia conseguido arranjar um meio de transporte. Com tudo combinado, só faltou mesmo confirmar quem iria. No sábado, todos se reuniram na escola e ficou decidido: iriam Sakura, Shaoran, Meilin, Tomoyo, Yamato e Nakata – que ele não queria que ficasse sozinha por uma semana e meia. À tarde, Kero decidiu ir também: já que ninguém estranho iria, ele não precisaria se esconder. No domingo, Shaoran avisou que Shiefa também queria ir, e perguntou se os outros autorizavam. Para o desespero de Yamato, a autorização foi concedida.
"Pense pelo lado bom, Yamato." – dizia Nakata, enquanto Sakura ria da expressão de raiva do vizinho – "Pelo menos você agora pode fazer com que ela se perca no meio do mato!"
Quarta-feira finalmente chegou, e todos estavam esperando o transporte na casa de Sakura. Shaoran e Meilin eram os únicos que faltavam chegar, e nesse meio tempo Tomoyo aproveitava para mostrar todas as novas roupas que havia preparado para Sakura:
"E essa aqui é perfeita pra usar durante a noite!" – ela dizia, enquanto mostrava um longo vestido amarelo, de algodão e com renda – "Principalmente quando formos fazer as caminhadas ao luar."
"Alguém já disse que você deveria era fazer moda, Tomoyo?" – perguntou Nakata, analisando as outras roupas – "Você tem muito talento!"
"Você não estava pensando em fazer música, Daidouji?" – perguntou Yamato, enquanto ajudava Sakura a fechar uma mala de comida
"E continuo pensando. Embora eu adore o ramo da moda, minha verdadeira paixão é música, por isso é a faculdade de música que eu vou fazer!"
"E você Sakura, já se decidiu?" – perguntou Nakata, agora olhando para a mestra
"Ela? Sempre foi e sempre será Educação Física." – respondeu Kero, saindo da pequena mochila que Sakura carregava nas costas – "É a única coisa boa que ela sabe fazer."
"Diz isso mais uma vez e te deixo em casa!" – ameaçou a garota, pegando o guardião pelas asas – "E sem comida!"
Mas antes de Kero pudesse choramingar ou puxar o saco de Sakura (como ele sempre faz), um Rolls-Royce parou na frente da casa amarela, e (para a surpresa da turma) Meilin, Shaoran, Shiefa, Fai e o ancião Hyu desceram. Sakura fechou a cara, não só porque estava de saco cheio dos anciões, como também não gostava da presença de Fai. E ela percebeu que não era a única: Tomoyo havia ficado extremamente séria, enquanto Yamato olhava para cima e Nakata fazia careta.
"Então os jovens irão se aventurar na floresta?" – perguntou o velho Hyu, nem cumprimentando os outros – "Só espero que não volte muito machucada, Kinomoto. Odiaria ter que ver a Mestra das Cartas acabada porque não conseguiu viver no mundo selvagem."
"Ela sabe se virar melhor do que muita gente." – respondeu Meilin, fechando a cara – "Certo que é um pouco distraída, mas sabe escapar de roubadas como ninguém."
"Não precisava defender tanto, Meilin!" – retrucou Shaoran, baixinho, enquanto cumprimentava Sakura com um beijo
"Não se preocupe com eles, Sakura." – disse Shiefa, a abraçando – "Mamãe garantiu que fará de tudo para esses dois velhos irem embora junto com as meninas semana que vem, embora eu ache difícil eles quererem ir."
"Podiam ir embora mesmo, não sentiríamos falta!" – retrucou Nakata, aumentando a careta – "E não só eles, se vocês querem saber minha opinião."
"Fique quieta." – recomendou Yamato – "Melhor não fazermos nenhum comentário."
"Como sempre mandando na menina." – Shiefa se aproximou dele, enquanto o garoto recuava discretamente para trás – "Você não muda, Yamatozinho!" – e conseguiu apertar a bochecha dele
"Yamatozinho?" – ele perguntou, levantando a sobrancelha (enquanto todos os outros se seguravam para não rir) – "Além de tudo, também vai me apelidar?"
"Credo, que mal-humorado." – Shiefa fez uma leve careta – "Certo, não falo mais nada."
"Será?" – perguntou Tomoyo para Meilin, que ainda se matava para não rir
"Bom, deixarei vocês aqui, preciso resolver uns assuntos lá em casa." – disse Fai, fazendo todos se calarem – "Espero que se divirtam!"
"Ah, iremos sim." – disse Meilin, empolgada – "Pena que a senhora não irá conosco."
Sakura e Nakata se olharam, mostrando claramente que estavam bem felizes por Fai não ir.
"Bom, estou indo então. Divirtam-se." – Fai deu um frio beijo na testa de Meilin e encarou Sakura – "Espero que vocês possam arejar suas mentes."
Sakura sentiu aquele conhecido arrepio na espinha, e percebeu que Tomoyo também não estava se sentindo muito confortável. Ela realmente queria saber por que se sentia assim.
Fai entrou com Hyu no carro e os dois seguiram. Todos começaram a conversar, animados com a viagem que se aproximava. Agora, a única coisa que faltava era a van chegar para levá-los ao local combinado, e qual foi a surpresa deles quando dois carros pararam em frente a casa amarela. Sakura reconheceu o Toyota prata na hora, era o carro de Touya. Ela deu uma olhada no outro carro, e viu Yukito sentado no banco do motorista. Ué, por que os dois não haviam vindo no mesmo carro?
"Touya? Yukito? O que vocês dois estão fazendo aqui?" – perguntou a garota – "Por que vieram em carros separados?"
"Ora, temos que levar todo mundo, não é mesmo?" – respondeu Yukito, sorridente – "Não caberia todos em um carro só!"
"Do que vocês estão falando?" – perguntou Meilin, levantando uma sobrancelha – "Levar quem?"
"Vocês, oras!" – Yukito desfez o sorriso e olhou intrigado para todos – "Já se esqueceram que nós iremos levar vocês para o acampamento?"
"Vocês vão levar a gente?" – perguntou Nakata – "Achei que íamos de van."
"E vamos!" – respondeu Tomoyo, confusa – "Liguei para a companhia de transporte, e combinei tudo para hoje..."
"Não se preocupe, Tomoyo!" – disse Touya, abrindo a porta malas – "Depois que te liguei no domingo, liguei lá na companhia de transporte que você disse que contratou e cancelei a viagem. Afinal, para quê pagar se podemos levar todos?"
"Vocês?" – perguntou Sakura, semicerrando os olhos – "Você não está querendo dizer que..."
"Exatamente, eu e o Yukito iremos junto com vocês!" – Touya colocou a mala de Sakura no carro e se aproximou da irmã – "Foi como eu disse, se não podia te convencer a desistir da viagem, tinha que me juntar a você. Pelo menos assim posso controlar tudo."
"Você está querendo dizer que irá à NOSSA viagem pra ficar de olho em mim e na Sakura?" – perguntou Shaoran, ficando mais sério do que era de costume – "Você só pode estar brincando."
"Pense como quiser, Moleque." – Touya encarou Shaoran com olhar de fogo, que foi retribuído na mesma intensidade – "Só sei que eu vou garantir que minha irmã vai ficar em segurança, de preferência bem longe de você!"
"Como ousa...?"
"CHEGA!" – Sakura gritou, espantando a todos, e depois enfiando o dedo indicador no rosto de Touya – "Eu não sei como você fez isso, mas já que não tem outro jeito, acho bom te avisar que você não vai estragar a nossa viagem, entendeu?"
"Eles não sabiam que íamos levá-los, Touya?" – perguntou Yukito, totalmente confuso – "Você me disse que eles sabiam!"
"Que tal irmos logo?" – perguntou Yamato, já sentindo pela troca de olhares entre Touya e Shaoran que logo iria rolar briga – "Não quero chegar ao anoitecer."
"Sempre tão certinho!" – comentou Shiefa, e dessa vez foi Yamato quem fez olhar de morte
"Concordo com o Yamato, vamos logo!" – disse Meilin, já enfiando a mala no carro de Touya – "Estou ficando cansada."
Vendo que não havia mais saídas, Sakura concordou e todos partiram. Depois de Touya obrigá-la a ir no seu carro, enquanto empurrava Shaoran pro carro de Yukito, todos se arrumaram e começaram a viagem. Eles seguiram pela estrada que levava ao interior do país, passaram por Kioto e entraram na rodovia. Depois de quase três horas, eles finalmente chegaram em uma reserva ecológica, especial para acampamentos. Retiraram toda a bagagem dos carros e montaram as barracas rapidamente, pois o dia já estava escurecendo.
"Certo, agora é só decidirmos quem vai dormir com quem!" – comentou Shiefa, passando a mão na testa para retirar o suor – "Eu trouxe uma barraca de duas pessoas!"
"A gente também trouxe." – respondeu Yukito, terminando de firmar uma barraca – "Espero que alguém tenha trazido uma de três, porque estamos em número ímpar."
"Nós trouxemos uma de três." – responde Tomoyo, enquanto arrumava a bateria de sua câmera – "Combinei com a Meilin e com a Nakata, e combinamos que deveria ser melhor dormimos juntas."
"Tomoyo disse que vai fazer pipoca caramelada, e não quero perder essa oportunidade!" – disse Meilin, dando um sorrisinho maldoso – "Adoro pipocas!"
"Bom, eu servirei de cobaia da mais nova coleção de roupas de batalha que a Tomoyo está fazendo!" – comentou Nakata, dando um sorrisinho triste – "Pra mim, vai tudo ficar na mesma."
"Então por que você não dorme com a Shiefa, Nakata?" – perguntou Touya, fazendo todos, inclusive Sakura e Shaoran (que sequer estavam ouvindo a conversa, estavam entretidos em se beijarem) o olharem – "Pelo o que eu sei, vocês duas são muito amigas, não é mesmo?"
Nakata e Shiefa se entreolharam:
"Já conversamos por mais de cinco minutos?" – a garotinha perguntou, levantando a sobrancelha
"Não que eu me lembre. Yamato nunca me deixou me aproximar muito de você!"
"Não me metam nessa história, pelo amor de Deus!" – replicou o garoto, que tentava em vão acender a fogueira – "Já tenho problemas demais. E não agüento mais essa fogueira, poderia fazer o favor de me ajudar, Kerberus! Não vou conseguir fazer fogo aqui, nunca!"
"Belo treinador, você! Sequer consegue acender uma fogueira!" – replicou Kero, indo até o garoto com o rosto emburrado, e falando baixo no ouvido dele, mas alto o suficiente para todos ouvirem – "Precisava me chamar agora? Estou sentindo que vai ter briga do Touya com o Moleque."
"Por isso mesmo." – respondeu Yamato, se afastando – "A única coisa que precisa de lenha por aqui é a fogueira, e não a relação familiar entre esses dois. Agora, acende logo isso aí, vai!"
"Pois então está decidido!" – anunciou Touya – "Nakata dorme com a Shiefa. Acho que Yamato e Yue também devem querer conversar, então melhor os dois dormirem juntos também!"
Yukito e Yamato se entreolharam, enquanto Sakura levantava a sobrancelha, começando a entender a intenção de Touya.
"Deixe-ver se adivinho: eu vou dormir com você, e assim garantir a minha segurança. Acertei?" – ela perguntou, com um tom meio raivoso na fala
"Na verdade, estava pensando em outra coisa!" – respondeu Touya, dando um sorriso ao ver a cara de espanto de Sakura – "Estava pensando em te deixar dormir com a Tomoyo e a Meilin. Afinal, você merece passar um tempinho com as suas amigas..."
"E assim eu durmo com você e fico sendo vigiado dia e noite." – concluiu Shaoran, colocando as mãos atrás da cabeça e encarando Touya seriamente – "Sinceramente, Kinomoto, isso já está se tornando ridículo!"
"Mas pelo menos eu vou garantir que você vai deixar essas mãos imundas bem longe da minha irmãzinha!" – Touya o encarou com olhos de fogo, enquanto Shaoran retribuía o olhar
"Agora sim está ficando interessante!" – murmurou Kero, enquanto tentava acender a fogueira
"Cala a boca, Kerberus. Não piora a situação!" – pediu Yukito, com calma
"Que tal começarmos a fazer o nosso jantar?" – pediu Tomoyo, tentando evitar uma briga entre cunhados – "Para ser sincera, estou com fome."
"Eu também, Tomoyo." – disse Shiefa, colocando uma mão no ombro do irmão mais novo – "Venha Shaoran, vamos buscar a comida no carro."
Shaoran deu uma última encarada em Touya antes de se retirar com Shiefa. Sakura se sentou no chão, suspirando, enquanto Nakata se aproximava dela:
"Esses dois dormindo na mesma barraca não vai dar certo." – disse a garota, se sentando ao lado de Sakura – "Vão brigar a noite inteira."
"Pior que não vai dar certo mesmo. Vai ser um longo passeio."
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Rytwild olhava para o teto, enquanto tomava o seu comum cálice de vinho tinto de toda noite. Estava quente naquele quarto, mais do que o comum. O verão estava especialmente abafado naquele ano, o que intrigava muitos cientistas do país. Mas ela pouco se importava com esses míseros detalhes. Queria mesmo que o planeta entrasse em colapso, que a natureza ficasse em total desequilíbrio, para que assim ela pudesse se vingar de todos aqueles que duvidaram de sua capacidade, que a impediram de ocupar o seu verdadeiro lugar. Tolos aqueles que achavam que o futuro de um mundo poderia ser confiado a uma garotinha nojenta, fraca e inocente. Ela tinha mais experiência, mais poder, mais classe. Então, por que não havia conseguido o que almejara durante tantos anos?
"Deseja mais alguma coisa, senhora?" – perguntou Kim, enquanto terminava de encher o cálice de vinho pela sexta vez
"Sim Kim, quero se suma daqui! Não estou disposta a ver essa sua cara de idiota na minha frente."
"Sim senhora. Tenha uma boa noite!"
O subordinado se retirou. A bruxa se ajeitou no sofá, procurando conforto. Precisava das melhores condições para pensar em uma nova maneira de atacar Sakura. Ela, agora, deveria estar se divertindo com os amigos enquanto curtiam as belezas da natureza. Ah, essa maldita natureza: ao mesmo tempo em que era sua maldição, era o seu tesouro, a sua jóia tão cobiçada e tão distante. Tomou um gole de vinho pensando em suas últimas investidas e conquistas. Sakura já havia recuperado muitas cartas, embora a grande maioria ainda estivesse com ela. Teria que pensar com mais cautela sobre a forma de atacar a garota.
"Eu tinha que arranjar um jeito de atacar o seu ponto fraco, mas como posso fazer isso? Aquele moleque maldito é astucioso demais! Ah, por que tudo não é mais fácil? Por que as cartas não foram entregues a mim, assim como a Regência da Hierarquia?"
Ela se levantou e andou em direção à caixa de papelão, onde estava todas as Cartas Sakura e as Cartas Negras que ainda sobravam. Abriu-a e pegou algumas delas. A cada vez que as pegava, frases desconexas vinham à sua mente; lembranças que o tempo não apagou. "Não posso deixá-las com você", "Não é seu destino", "Muitas responsabilidades", "Você não as merece", "Você me decepciona a cada dia"... besteiras que a fizeram ser o que era hoje: uma mulher sem alma, amargurada e obrigada a viver da energia vital dos outros. Tudo por culpa do ingrato do Clow e dos Controladores idiotas.
Ela guardou algumas cartas e nas suas mãos ficaram apenas três Cartas Sakura e uma Carta Negra. Esperava a oportunidade perfeita para usá-las, o momento ideal. Infelizmente, não era hoje; Sakura ainda estava estressada e, pelo o que acabara de ver no seu espelho-portal, ela não descansaria tão facilmente. Mas uma semana e meia era o suficiente para ela descansar a mente e deixá-la vulnerável a qualquer invasão. Era só esperar que o clima no acampamento melhorasse um pouco, e aí poderia entrar em ação. Só esperava que aquele idiota do irmão de Sakura não atrapalhasse os seus planos por causa do seu ciúme excessivo da irmã e do seu namoradinho.
"Ainda bem que nunca tive irmãos!" – ela comentou, antes de se preparar para dormir.
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Os primeiros dias de acampamento foram um pouco tumultuados, principalmente durante a noite, quando Shaoran e Touya passavam horas discutindo por coisas tolas. Quem estava realmente se divertindo era Kero, que quando não se intrometia a favor de Touya, ficava atiçando os dois a brigarem mais, até a hora em que Sakura dava um cascudo na sua cabeça e interrompia a briga, mandando todos irem dormir.
De resto, tudo estava indo bem. Tomoyo e Meilin haviam preparado um ótimo roteiro, de forma que todo dia havia algo diferente a se fazer. No primeiro dia, eles fizeram uma trilha realmente desgastante, mas que tinha como recompensa uma linda cachoeira, onde todos se divertiram. No segundo dia, eles visitaram uma parte da reserva ecológica, onde havia diversos tipos de árvores e pássaros que encantaram a todos. No terceiro dia, eles visitaram uma pequena aldeia que havia por perto. Era bem aconchegante, e por lá haviam diversos restaurantes de comida caseira, que fizeram a alegria de Yukito. No final do dia, Sakura comprou diversos doces para Kero, fazendo com que o guardião ficasse tão ocupado à noite a ponto de nem interferir na já constante briga entre Touya e Shaoran.
O tempo ia passando rápido, e logo já faltava apenas três dias para todos irem embora. A noite era de lua cheia, e todos estavam tão cansados que a única coisa que conseguiam fazer era ficar em volta da fogueira esquentando marshmallows. Tomoyo testava em Nakata o seu novo modelo de batalha para guardiões, enquanto Shiefa passava pasta de dente no rosto de Yamato, que cochilava em sua barraca. Meilin, Touya e Yukito jogavam baralho, e Kero tomava conta da fogueira (e namorava os marshmallows). Aproveitando a distração de todos, Shaoran pegou Sakura pela mão e os dois saíram dali:
"Posso saber onde estamos indo?" – perguntou Sakura, enquanto era puxada por Shaoran
"Não se preocupe, não iremos muito longe. Só quero me livrar do seu irmão por alguns minutos."
"Ele está te enchendo muito? Porque se estiver..."
"Não se preocupe, já estou me acostumando!" – ele sorriu, enquanto Sakura fazia uma expressão desconfiada – "Mas confesso que aturá-lo na mesma barraca está sendo um sacrifício. Da próxima vez, a gente dá um jeito de fazer ele se perder na floresta!"
"Você não teria coragem de fazer isso!"
"Eu não teria coragem? Ora Sakura, quero fazer isso desde o dia em que o conheci!"
Sakura riu do comentário, enquanto era puxada pela mão floresta adentro. Shaoran tinha razão ao dizer que não iriam muito longe, pois em menos de três minutos tinham chegado ao seu destino: uma vasta e iluminada clareira, onde as árvores cessavam para dar lugar a um rio que corria por ali. O lugar era iluminado pela luz da lua e das estrelas.
"Que lindo!" – exclamou Sakura, enquanto admirava o lugar
"Descobri esse lugar quando fomos àquela reserva ecológica de pássaros, lembra-se? Estávamos voltando quando perdi meu relógio. Na hora que o achei, acabei pegando um atalho por aqui, para alcançar vocês mais depressa."
"E não se perdeu?"
"Não tem como me perder de vocês!" – ele se sentou, encostando as costas em uma árvore – "Basta sentir a presença de alguém e ser guiado por ela."
"É verdade." – Sakura também se sentou, encostando as costas no peito do namorado e sendo abraçada por ele – "Mas eu nunca pensaria numa coisa dessas, para ser sincera."
Os dois ficaram apenas abraçados em silêncio. Estavam tão cansados que não tinham nem pique para ficar conversando. Além disso, a constante vigilância de Touya havia tornado a viagem mais desgastante: Shaoran não dormia direito há dias, enquanto Sakura estava sempre preocupada em apartar alguma possível (e sempre iminente) briga dos dois. Agora, sozinhos ali, poderiam descansar à vontade.
"A noite está tão bonita." – ela disse, para quebrar o silêncio que estava começando a tornar-se incômodo
"Verdade." - Shaoran apertou o abraço – "E fica ainda mais bonita ao seu lado, Sakura."
Sakura deu um grande sorriso e virou-se para encarar Shaoran. Ele a olhava também com um sorriso no rosto, e seus olhos mostravam todo o carinho, respeito e amor que tinha por ela. Ela se inclinou para beijá-lo com paixão, e quando sentiu seu beijo sendo correspondido, sentiu um calor muito gostoso dentro dela, um calor que jamais havia sentindo antes. Com ele, vinha um misto de felicidade e vontade de ficar no meio daqueles braços pra sempre, uma vontade quase louca! O beijo foi se aprofundando ainda mais e mais, e Sakura foi sentindo seu corpo sendo levemente deitado no chão. Mas ela não se importava com o que estava acontecendo: ela só queria sentir aquela segurança, aquele calor que aumentava e a deixava mais e mais feliz.
Desde que entrara na adolescência, pensava nesse momento em especial. Conversara muito com seu pai sobre isso, sobre suas expectativas, seus sonhos. Sonhara muito com o grande dia: o lugar, o ambiente, as condições... levara tudo em conta. Mas naquele momento havia percebido que a única coisa importante era que seria com Shaoran, a pessoa que mais amava na vida. Não se importava que estava no meio do mato, no chão duro, sendo observada apenas pela aquela linda noite. Estava com ele, e nada mais importava. Estava segura naqueles braços, naqueles beijos, naquelas carícias...
"SAKURA, ONDE VOCÊ ESTÁ?".
Sakura e Shaoran se largaram assim que ouviram a voz de Touya ecoando na floresta, tentando se recompor mais do que depressa. Ele estava com o cabelo mais rebelde do que nunca, e a camiseta dela estava amassada. A voz de Touya voltou a ecoar na floresta, e os dois se encararam com expressões frustradas.
"Vamos logo, já devem estar preocupados conosco." – disse Shaoran, segurando Sakura pela mão
Os dois foram fazendo o caminho de volta em silêncio, demasiados constrangidos pelo o que quase aconteceu. Levaram um susto quando se encontraram Touya e Yukito indo até eles. O irmão de Sakura não estava muito contente: muito ao contrário, parecia bem zangado.
"Bonito, hein?" – ele dizia, enquanto extravasava sua raiva em seguidos bufos – "É só nos distrairmos por alguns segundos e você já some com a minha irmã, não é mesmo?"
"Touya, ele não sumiu comigo!" – retrucou Sakura, tentando fazer o irmão se acalmar – "Nós dois estávamos sem nada para fazer e resolvemos passear um pouco, o que há de errado nisso?"
"Passear nesse meio do nada? Oras Sakura, nem mesmo uma criança de cinco anos acreditaria nessa história!"
"Pois acredite se quiser." – retrucou Shaoran, apertando a mão da namorada – "Vamos, Sakura. Já está tarde e seria bom se dormíssemos um pouco."
Os dois caminharam um pouco, mas Shaoran foi segurado pela camisa por alguém. Quando se virou para olhar, encontrou o olhar frio de Touya o encarando:
"Escuta aqui, Moleque!" – disse Touya, cerrando os dentes – "Se eu descobrir que fez algo com a minha irmãzinha, eu juro que te mato, entendeu?"
"Touya, quer parar?" – pediu Sakura, se pondo entre os dois – "Não aconteceu nada aqui, e mesmo se tivesse acontecido, Shaoran não teria feito nada sozinho."
"Sakura tem razão, Touya." – disse Yukito, puxando Touya para ele largar Shaoran – "Vamos embora, não há motivos para ficar mais tempo aqui."
"Tudo bem. De qualquer forma, acho que cheguei na hora." – Touya foi se afastando com Yukito – "Já pensou no que poderia ter acontecido se tivesse chegado um pouco mais tarde?"
Sakura e Shaoran ficaram vermelhos- escarlate ao ouvirem esse comentário. E tomando o devido cuidado, foram para o acampamento sem se encararem.
Sakura entrou na barraca rapidamente. Tomoyo e Meilin conversavam animadamente enquanto liam uma revista juvenil, de forma que nem perceberam a amiga trocar de roupa e se deitar. Kero já dormia, espatifado no colchonete da mestra. Apenas quando terminaram de ler a parte dos horóscopos (comentário indiscreto da autora no meio da história – é a minha parte favorita!) foi que Tomoyo percebeu a presença de Sakura.
"Ah, você chegou!" – disse, toda animada – "Onde você e Shaoran se meteram? Vocês de repente sumiram!"
"Fomos passear um pouco." – ela respondeu, virando o rosto para nenhuma das duas perceber que ela estava mais vermelha que um pimentão – "Queríamos descansar!"
Agora pensava no que estava fazendo. Se Touya não tivesse aparecido, ela teria ido até o fim. Teria se entregado de corpo e alma ao namorado, sem se importar com as possíveis conseqüências. Mas algo dentro de si ainda dizia que ela não estava errada, que o que ia fazer era a coisa certa. Um sentimento de frustração invadia seu peito, por não ter conseguido ir até o fim.
"Sakura, o que diabos está acontecendo com você?" – perguntou Meilin, com tom de impaciência na voz – "Está tão estranha!"
"Não é nada, de verdade. Não se preocupem, estou bem."
"Você sabe que pode falar com a gente, não sabe?" – perguntou Tomoyo, enquanto se arrastava para guardar a revista na sua bola – "Não queremos que você se sinta mal, afinal nós somos... Sakura, você está vermelha!"
Sakura levantou o rosto e viu Tomoyo e Meilin olhando para a sua cara, ambas preocupadas. Droga, deveria ter se enfiado nas cobertas!
"Será que ela está com febre?" – perguntou Meilin
"Não, ela está normal." – respondeu Tomoyo, depois de conferir a testa da amiga – "Parece é que está envergonhada."
"EU? ENVERGONHADA? E POR QUE ESTARIA?" – Sakura disparou com uma voz tão esganiçada que Tomoyo e Meilin se olharam.
"Senhorita Sakura Kinomoto." – começou Meilin, em um tom meio sério, meio brincalhão – "O que você andou aprontando com o meu primo nessa rápida saidinha?"
Ao verem o rosto de Sakura ficar mais vermelho do que já estava, as duas garotas arregalaram os olhos e ficaram de boca aberta. Sakura cobriu o seu rosto com o lençol e não conseguiu encarar nenhuma das duas.
"Sakura..." – agora o tom de voz de Meilin era desesperado – "não me diga que você e o Shaoran fizeram... vocês não dois não fizeram aquilo, fizeram?"
"NÃO!" – Sakura tirou o lençol do rosto, e via as duas ficarem aliviadas – "Mas foi por muito pouco."
Novamente as duas se espantaram e encararam Sakura com incredulidade. A garota sentiu seu rosto arder ainda mais e novamente escondeu o rosto com o lençol.
"Mas... como isso aconteceu?" – perguntou Tomoyo, se sentindo meio perdida – "Ou quase aconteceu, no caso."
"EU NÃO SEI!" – Sakura balançou a cabeça – "Só sei que, quando dei por mim, já estávamos deitados no chão."
"No meio do mato?" – perguntou Meilin, sem acreditar – "Não tinha um lugar melhor, não?"
"A gente nem pensou nisso na hora. Começamos a nos beijar, e a coisa foi indo sem a gente querer. Quer dizer, não importava muito o lugar naquele momento, pra falar a verdade, isso nem passou pela minha cabeça!"
"Nossa, eu sempre sonhei tanto com esse momento especial." – disse Tomoyo, sonhadora – "Sempre pensei em como seria o lugar, o momento, o dia..."
"Eu também sonhei." – Sakura tirou o lençol do rosto e ficou encarando o teto – "Sempre quis que fosse em um lugar especial, com pétalas ao meu redor, ouvindo músicas românticas... mas naquele momento, isso tudo me pareceu tão fútil! Não importava as condições do lugar, só me importava que estava sendo com o Shaoran. Só de ser com ele, já fazia o momento ser maravilhoso."
Tomoyo e Meilin sorriram com a confissão de Sakura. Tomoyo discretamente pegou sua câmera e começou a filmar a cara de apaixonada de Sakura, enquanto Meilin ficava apenas sonhando com o seu próprio momento.
"Sakura, como você se sentiu naquela hora?" – perguntou Tomoyo, feliz da vida por filmar uma cena tão linda como aquela – "Quer dizer, o que veio na sua cabeça na hora?"
Sakura piscou os olhos diversas vezes, tentando lembrar do momento em que estava na clareira com Shaoran. Um sorriso invadiu o seu rosto:
"Não me veio nada na cabeça. Eu só conseguia me sentir muito feliz!" – ela aumentou o sorriso e olhou para as amigas, mas logo o desfez ao ver Tomoyo com a filmadora – "Tomoyo, você gravou isso?"
"Claro! Você acha que eu ia perder esse momento tão maravilhoso?" – os olhos da garota brilharam – "Não poderia deixar de filmar esse seu rostinho apaixonado, estava tão fotogênico."
"Daidouji, você não muda mesmo." – comentou Meilin, balançando a cabeça – "Vamos dormir logo. Além de eu estar morrendo de sono, Sakura deve estar querendo sonhar com o quase- grande- momento da vida dela."
"MEILIN!" – repreendeu Sakura, voltando a ficar vermelha
A garota deu risadas, e foi acompanhada pelas outras. Elas ficaram conversando por mais alguns momentos, até que acabaram dormindo.
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Sem sombra de dúvidas, era um lugar assustador. Era escuro, imundo e silencioso, dando um ar muito fantasmagórico. Sakura tentava sair dali, mas quanto mais andava, mais a escuridão ia ficando densa. Era um lugar enorme, de forma que ela se sentia uma formiga lá dentro. Já não sabia mais onde estava, era mais uma perdida ali.
"Engraçado... até parece que estou em um labirinto gigante!"
Ela ia andando devagar, com muita cautela para não tropeçar ou cair em algo. Prestava tanta atenção que sua vista doía, e a cabeça latejava. Foi então que ela viu a sombra de alguém passando. Entre ficar perdida naquele lugar assustador e sozinha e ficar perdida naquele lugar assustador acompanhada, ela preferia a segunda opção. Saiu correndo o mais rápido que podia e não demorou muito para encontrar a sombra. Foi se aproximando dela e quando estava bem perto, tocou a mão no seu ombro:
"Com licença, será que o senhor poderia..."
Mas ela parou de falar quando viu que a pessoa era nada mais nada menos do que o seu próprio pai. Não poderia ter pedido benção melhor: com seu pai ali, tudo ficaria bem.
"Papai!" – ela pulou em cima dele e o abraçou com toda força – "Que bom que encontrei o senhor, estava morrendo de medo de ficar sozinha nesse lugar..."
"Ei, sai de mim, garota!" – ele a empurrou, de forma que ela caiu no chão – "O que pensa que está fazendo? Por acaso enlouqueceu?"
Sakura piscou os olhos e tentou ver o rosto dos pais. E o que viu lhe partiu o coração: os olhos de Fujitaka não eram mais bondosos e carinhosos, como ela sempre viu; mas eram frios e insensíveis.
"Papai, o que foi?" – ela se levantou e tentou se aproximar – "Não está me reconhecendo? Sou eu, sua filha Sakura."
"Filha? Você só pode ser maluca mesmo! Eu não tenho filhos."
"Como não? E quanto a mim? E ao Touya? Nós somos seus filhos."
"Garota, será possível que você não entendeu? Eu não tenho filhos!" – ele se afastou de Sakura – "Sou ocupado demais para me preocupar com crianças, ainda mais com garotas chatas e insistentes como você. Faça-me o favor..."
Ele empurrou Sakura novamente e saiu andando, sem olhar para trás. Ela se levantou, totalmente confusa: tinha certeza que aquele era seu pai, mas por que ele estava agindo tão estranhamente assim? Por que ele dizia que não tinha filhos? E o pior: por que não a reconheceu?
"Garota, dá licença? Eu quero passar!"
Sakura se virou e arregalou os olhos ao ver quem estava na sua frente. Tomoyo batia o pé e encarava a garota com um olhar mais gélido do que o de Fujitaka. Ela parecia estar com... raiva!
"Tomoyo? O que aconteceu, por que está com essa cara?"
"Estou com essa cara porque uma idiota não quer sair do meu caminho. Será que dá pra desempacar ou está difícil?"
A voz de Tomoyo continha tanto ódio e raiva que Sakura até se assustou. Ela olhava a garota com um olhar tão gélido que parecia querer matar alguém. Onde estava a Tomoyo doce e gentil que ela conhecia?
"Então, vai demorar muito ou será que terei que te tirar daí a força?" – perguntou Tomoyo, batendo seu pé freneticamente.
Sakura estava tão espantada que a única coisa que fez foi dar espaço àquela Tomoyo tão fria e rabugenta, que saiu andando sem olhar na sua cara. Ainda estava digerindo as palavras raivosas e duras de Tomoyo, que sequer se importava com ela. Aquelas palavras, por alguma razão, a deixaram triste. Resolveu continuar andando naquele lugar onde nada era normal. Era a única definição que ela poderia dar para aquele lugar cheio de teias de aranhas, ratos e baratas. Ou o que mais explicaria as ações tão esquisitas de seu pai e de sua amiga?
Continuou andando por horas e horas. A cada passo que dava, sentia que se perdia mais. Parecia que o lugar ia ficando maior e ela menor. A sua cabeça latejava fortemente, e tudo que ela mais queria era sair dali. Dava tudo pra ver uma luz no fim do túnel, ou pelo encontrar um remédio para aquela dor de cabeça insuportável.
"O que será que está acontecendo? Como eu não consigo sair daqui?"
"Porque você é burra!"
Sakura sentiu um tremendo calafrio ao ouvir aquela voz. Virou-se devagar, ainda se perguntando se havia lavado os ouvidos direito, mas seu coração se partiu ao conferir que não se enganara. Shaoran a encarava com um olhar tão indiferente que ela não sabia dizer o que ele estava sentindo. Ele a encarava como da primeira vez que se viram... como no dia em que ele a atacou e desde já se declarou inimigo dela. Como ela desejou nunca mais ver aquele olhar de novo... ou pelo menos nunca mais o ver direcionado a ela.
"O que foi? É tão estúpida que nem consegue retrucar a um xingamento?"
"E por que eu faria isso?" – ela respondeu, na defensiva
Shaoran suspirou e deu as costas. Sakura viu o namorado se afastar e saiu correndo atrás dele.
"SHAORAN, ESPERA AÍ, NÃO ME DEIXA AQUI SOZINHA!"
Ele parou de andar, e disse ainda sem olhar para trás.
"E por que eu deveria me preocupar com alguém como você?"
Sakura sentiu por um momento o seu coração parar. Sua cabeça latejava mais do que nunca, e Shaoran se afastando com aquele olhar gélido ainda lhe partia o coração. Ela se sentou no chão e lágrimas grossas começaram a cair no seu rosto. Aquela dor de cabeça não parava...
"SAKURA... SAKURA! ACORDA!"
Sakura abriu os olhos e viu Kero voando em frente a ela. Ao lado dele estavam Nakata, Yamato, Yukito, Shaoran, Shiefa, Tomoyo e Meilin, todos apertados na barraca. E pareciam preocupados.
"Kero? O que está acontecendo?"
"A gente é quem pergunta!" – Shaoran empurrou Meilin (que ficou xingando) e se ajoelhou na frente da Sakura – "Por que estava tão nervosa?"
"Eu? Nervosa? Do que está falando?"
"Percebemos uma presença mágica rondando a sua cabana." – respondeu Nakata, se aproximando de Sakura também – "Depois, a sua presença começou a desaparecer."
"É, se não fosse o Kero começar a te sacudir, acho que algo pior poderia ter acontecido." – comentou Yamato, pondo uma mão no queixo – "Foi uma baixa de magia surpreendente, todo mundo sentiu."
"Eu não senti!" – resmungou Meilin, ainda jogada no chão – "Acordei com os gritos histéricos desse bicho de pelúcia maldito."
"Bicho de pelúcia uma ova, encrenqueira!" – Kero desviou o olhar de Sakura e passou a encarar Meilin furiosamente – "Eu já te falei que sou o..."
"O Grande Kerberus." – completou Meilin, com voz de tédio – "Que, aliás, de grande não tem nada!"
"Ora sua..."
"O que o Yamato quis dizer, Meilin..." – interrompeu Shiefa, tirando Kero do caminho pelas asas e encarando a prima – "é que as pessoas que possuem magia perceberam. E como somos a maioria, é normal que ele tenha deixado isso passar despercebido. Distraído do jeito que é..."
"Shiefa, não começa!" – resmungou Yamato, fechando a cara
"Talvez você tenha sonhado com alguma coisa desagradável." – continuou Shaoran, sem dar atenção para a briga que se iniciava entre a irmã e o amigo – "Por acaso se lembra de alguma coisa?"
Sakura até tentou se lembrar, mas por mais que se esforçasse, nada vinha à cabeça. Além disso, estava com uma dor de cabeça de matar.
"Por que não deixamos ela descansar?" – sugeriu Tomoyo, vendo que Sakura não estava muito bem – "Acho que é o melhor."
"Não sei... ela pode ter baixa de magia de novo." – Shaoran parecia preocupado, e aquilo emocionou Sakura de uma tal maneira que nem ela soube direito por quê – "E dessa vez ela pode não... Sakura, o que está acontecendo?"
Todos (inclusive Yamato e Shiefa, que até então estavam compenetrados no que parecia ser uma longa discussão) pararam e se espantaram quando viram Sakura com a cabeça no joelho de Shaoran e chorando como uma condenada (que apelativo!). Shaoran simplesmente estava sem reação, e a única coisa que pensou em fazer foi passar a mão na cabeça da garota. Pouco a pouco ela foi se acalmando, e em seguida adormeceu.
"O que foi isso?" – perguntou Nakata, ainda meio espantada
"Não sei." – respondeu Shaoran, a deitando no colchonete – "Juro que, às vezes, eu não entendo a Sakura. Kerberus, por favor, cuide dela. Qualquer coisa, nos chame."
"Nem precisa pedir, moleque. Sei das minhas obrigações."
"Ótimo!" – ele se abaixou e deu um beijo na testa de Sakura – "Boa noite."
Ele saiu da cabana, acompanhado por Shiefa e Yamato (que voltaram a discutir). Yukito e Nakata se deixaram ficar para trás. Assim que os outros já estavam fora da barraca, os dois olharam discretamente para Kero e também saíram. Kero virou-se para Tomoyo:
"Tomoyo, pode cuidar um pouco da Sakura, por favor? Preciso resolver um assunto!"
"Pode deixar, Kero." – ela cobriu a amiga – "Meilin e eu cuidaremos dela."
"Obrigado."
Ele saiu da cabana e encontrou Yukito e Nakata o esperando. Os três se olharam por alguns segundos, e o clima começou a ficar tenso.
"Que tal irmos conversar ali?" – Kero indicou a floresta – "Teremos mais privacidade."
Os dois concordaram. Kero foi indo à frente, com Nakata na sua cola. Mas a garotinha mal começou a andar e sentiu seu ombro sendo puxado por uma mão. Ela encarou Yukito por alguns instantes, suspirou e balançou a cabeça:
"Yue não quer que eu vá, não é mesmo?"
Yukito afirmou com a cabeça.
"Não importa, porque eu vou de qualquer maneira." – ela desviou da mão dele – "Querendo ele ou não, eu também sou guardiã."
"Tudo bem, mas não se queixe se ele vier te dar uma bronca depois." – Yukito a seguiu para onde Kero havia ido, com um sorriso simpático e maroto no rosto – "Ele está ficando bravo!"
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Sakura acordou no outro dia levemente atordoada. Tivera um sono pesado e sem sonhos, mas sua cabeça ainda latejava fortemente. Mais do que nunca ela desejava um remédio. Será que Tomoyo havia trazido alguns?
Ela esfregou os olhos, e assim que os abriu, teve um grande choque. Ela estava em um lugar escuro, nojento e frio, que lhe era muito familiar. Ela fechou os olhos e balançou a cabeça fortemente, e quando voltou a abri-los, estava na sua barraca de novo. Ela estava sozinha, todos já tinham se levantado.
"Deve ter sido só impressão." – ela comentou consigo mesma, enquanto saía da cabana – "Está tudo tão confuso na minha cabeça... talvez seja essa dor. Tomara que alguém tenha um remédio por aí."
Ela se arrumou e saiu da cabana. E outra vez levou um grande susto: seria impressão dela ou a floresta estava maior? Ou ela talvez tivesse ficado menor?
"Sakura, tudo bem?"
A garota olhou para a dona da voz ao seu lado e quase desmaiou quando viu aquele olhar tão cheio de desinteresse. Balançou a cabeça novamente e viu Nakata a encarando com dúvida, mas também com a admiração com que sempre a olhou:
"Tudo bem sim. Só a dor de cabeça que ainda não passou."
"Por que não toma um remédio?"
"Acho que a Tomoyo trouxe algum, irei falar com ela!"
Sakura saiu andando e encontrou todos sentados em volta da fogueira apagada. Assim que parou, viu todos os olhares voltados para ela. Por um instante, ela teve a ligeira impressão de todos a olharem com raiva.
"Algum problema, Sakura?" – perguntou Touya, verdadeiramente preocupado
"Só um pouco de dor de cabeça."
"Ainda?" – perguntou Meilin, em tom inconformado
"Pois é, ainda!"
Sakura se sentou, fechando seus olhos enquanto sentia uma forte pontada na cabeça. Kero e Yukito, que estavam de frente à Sakura, olharam discretamente para Nakata, que se sentava ao lado de Yamato. E essa troca de olhares não passou despercebida por Tomoyo. Mas ninguém comentou nada.
"Onde está o Shaoran?" – Sakura perguntou, dando pela falta do namorado
"Saiu com a Shiefa para procurar algumas frutas." – respondeu Touya, de cara feia – "Ele me disse que você passou mal ontem à noite."
"É, foi mais ou menos isso." – ela deu uma risadinha forçada, mas o irmão continuou de cara feia. – "Não se preocupe, eu já estou bem!"
"Espero." – Touya voltou o seu olhar para o pão que comia até um pouco antes – "Estava pensando... não seria melhor cancelarmos nosso passeio de hoje?"
"O QUÊ?" – ele viu a irmã levantar o olhar cheio de indignação para ele – "Cancelar o programa de hoje? Não mesmo!"
"Dessa vez tenho que concordar com o Touya, Sakura." – disse Yukito, olhando com apreensão para a amiga – "Você ainda não está bem, seria melhor que ficássemos com você aqui."
"Tsukishiro está certo." – disse Meilin, com ar de imponência – "Enquanto você estiver mal, ninguém sai daqui!"
Sakura ia protestar contra aquela superproteção que todos lhe dedicavam. Já não bastasse o irmão, o namorado e os guardiões, agora seus amigos também insistiam em protegê-la como se fosse um bebê recém-nascido. Estava preste a explodir quando uma leve brisa bateu em seu rosto, lhe dando um leve, porém conhecido arrepio. A alguns, foi apenas uma brisa gostosa da manhã de verão, mas ela sabia, melhor do que ninguém, o que aquilo significava.
Desafio.
Ela se levantou e saiu andando em direção à floresta, exatamente para o mesmo lugar onde estivera com Shaoran no outro dia. Touya, Tomoyo e Meilin ficaram sem entender, mas Yamato, Nakata, Yukito e Kero não precisaram de outra atitude para entender o que eles imaginavam estar acontecendo. Em menos de um segundo, todos se transformaram e seguiram Sakura pela floresta, como se algo os levasse. Raiva? Cansaço? Revolta? Ninguém sabia. A única coisa que todos eles sabiam era que uma nova luta se iniciaria, porque a megera, como Nakata gostava de chamar, estava ali mais uma vez para acabar com a alegria deles.
"Ei... aonde vocês vão?"
Mas a pergunta de Touya não foi respondida, porque eles estavam tão concentrados em seguirem em frente que nem escutaram. O jovem olhou exasperado para Tomoyo e Meilin. A chinesa parecia tão confusa quanto ele, mas a prima olhava para o pequeno grupo que desaparecia na floresta. Como se os analisasse.
"Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?" – perguntou Meilin, já mostrando a raiva que começava a sentir
"Pela cara deles, e pelo simples fato de todos terem se transformado, eu só consigo pensar numa coisa." – Tomoyo olhou para os amigos, seu olhar dizendo tudo que eles precisavam saber.
"Rytwild." – suspirou Touya, antes de levantar e sair na direção dos outros, acompanhado pelas duas garotas.
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Sakura chegou na clareira perto do rio, que conhecera no dia anterior, procurando pela pessoa que (mais uma vez) estragara o seu dia. Certo, ela já não estava muito bem, e a superproteção dos amigos a deixara com um pouco de raiva, mas o desafio que a brisa trouxe só lhe irritara ainda mais do que imaginara. Seria Rytwild tão baixa e chata a ponto de ficar insistindo em batalhas seqüenciais, como se quisesse apenas cansar Sakura? Ou seria ela muito boba pra ficar aparecendo a toda hora, unicamente para "encher o saco"? Bom, seja lá o que fosse, a bruxa já estava irritando. E muito.
Foi então que ela percebeu uma coisa que não tinha percebido. Quatro presenças mágicas a seguiam, com tão forte decisão e teimosia que ela própria possuía. Voltou-se para seus três guardiões e para o treinador, pronta para dispensá-los. Aquela era uma luta dela, pela suas cartas. Rytwild era sua rival.
"Nem adianta olhar pra gente com essa cara, Sakura." – disse Kerberus, adivinhando o que a mestra estava pensando – "Vamos te ajudar, querendo você ou não."
"Concordo com tio Kerberus." - disse a pequena Nakateri Yue, em um tom de voz decidido que Sakura nunca havia ouvido – "Eu sei que essa megera velha está te irritando e você quer acabar com ela logo, mas não podemos te deixar na mão. Mesmo porque ela já estragou nossas férias."
Yue soltou um suspiro resignado, como se dissesse que não podia esperar atitude mais infantil da pequena guardiã. Yamato, porém, ouvia tudo calado. Ele, mais do que ninguém, sabia que Nakateri Yue estava se desenvolvendo em uma velocidade inimaginável. E que ela era muito capaz de fazer qualquer coisa que quisesse, ou que fosse necessária. E isso lhe dava muito medo... principalmente naquele momento tão crítico na vida da pequena.
Todos pararam com seus pensamentos quando sentiram uma grande explosão de energia surgindo. Bem na frente dos seus olhos, viram uma pessoa surgindo da terra, surgindo com um sorriso mais do que maligno no rosto. Um sorriso de deboche.
"Sakurinha, pelo jeito entendeu a minha mensagem." – o rosto frio e cruel daquela que Nakata já apelidara de "megera" surgiu – "Finalmente veio terminar nossa batalha."
"Você não sossega enquanto não acabarmos com isso." – Sakura conjurou seu báculo, embora sua cabeça ainda estivesse latejando fortemente – "Parece uma criança de cinco anos quando quer um brinquedo."
"Confesso que os meus anseios são muito parecidos, porém muito mais sérios." – a bruxa encarou Sakura daquela maneira que causava arrepios na menina – "E irei sossegar apenas quando tiver todas as minhas cartas comigo."
Ela se colocou em uma posição de luta, que Sakura, embora não tivesse muito conhecimento da área, soube de cara que era posição de artes marciais. Ela estava levantando o báculo quando quatro figuras aladas apareceram na sua frente.
"Para batalhar com ela, precisa passar por nós, megera!" – disse a pequena guardiã, sendo apoiada pelos outros. Mas, para suas surpresas, a bruxa pareceu não se abalar.
"É, eu imaginei que isso fosse acontecer." – ela olhou para todos, antes de soltar um malicioso sorriso.
Ela começou a erguer os braços lentamente, recitando palavras indistintas e desconhecidas. Sua presença mágica começou a aumentar, e logo um intenso brilho surgiu na clareira, fechando os olhos de todos. Quando voltaram a abrir, diversas "pessoas" de água estavam diante deles, em posição de luta.
"Ataquem!" – ordenou Rytwild. E não foi preciso mais: os soldados aquáticos avançaram para cima dos guardiões e de Yamato, os atacando de todos os modos, e os afastando de Sakura. Esta permanecia intocada.
"Acho que esqueci de te contar, Sakurinha." – a bruxa parecia se divertir – "Como as cartas foram tiradas injustamente de mim, tive que aprender a controlar a natureza de outra forma. Vou lhe mostrar..."
E voltando à mesma posição de antes, ela começou a dizer diversas palavras estranhas, e vários ataques de terra começaram a atingir Sakura. Ela conseguiu deter todos os golpes usando Bosque, mas enquanto se concentrava em acertar as "bolas" de terra, nem percebeu que Rytwild sumira de seu posto inicial e se dirigia a ela, pelas costas. Quando percebeu, era tarde demais: a mulher já tinha lhe dado um chute, que a jogou longe, quase no rio. Ela ficou vários segundos de olhos fechados, sentindo a dor do chute e pensando em como não sentira o rápido deslocamento da inimiga.
"Acho que também esqueci de contar que tenho um excelente conhecimento de artes marciais, Kinomoto." – disse a mulher, logo atrás dela – "Mas, só para não perder o costume..."
Sakura esperou que ela atacasse, que usasse alguma magia, mas não foi isso que aconteceu. Ao contrário do que parecia, ela apenas estalou o dedo, silenciando-se logo em seguida. A garota, estranhando aquela atitude, resolveu se levantar e abrir os olhos. E o que viu já a fez entender o que a bruxa fizera.
Estava tudo fora de foco. A floresta estava muito maior do que o normal, e tudo que Sakura sabia estar perto – o rio, as árvores e a própria Rytwild – agora pareciam pequenos pontos no horizonte. Ela balançou a cabeça, mas dessa vez a visão não voltou ao normal como das outras vezes. Muito ao contrário, parecia até que tinha caído novamente em seu sonho. Ou seria melhor dizer pesadelo?
Entretida em seus pensamentos, Sakura nem percebeu que Rytwild estava vindo em sua direção, e quando percebeu, já tinha sido atingida novamente nas costas, caindo no rio. Ela nadou às cegas, porque a margem que parecia tão longe, ela alcançou rapidamente, quase se chocando violentamente. Assim que conseguiu se estabilizar e ficar de pé em terra firme, Sakura viu um ponto avançando para cima dela, mas que estava tão longe que nem deu muita bola. Dois segundos depois, ela sentiu um murro no seu estômago, que a jogou de volta na água. Ficara tão sem ar que sequer conseguiu respirar dentro da água. Sentiu seu corpo sendo arrastado pela correnteza como uma folha, e água entrando por suas narinas e...
Ela não teve tempo de pensar em mais nada. Assim que começava a se afogar, ela sentiu dois braços envolvendo a sua cintura e a puxando de volta para a superfície. Ela começou a tossir e a cuspir água enquanto era arrastada para a margem e deitada em terra firme.
"Sakura, você está bem?"
A garota agradeceu aos céus ao ouvir a voz do namorado perto dela. Mas ao abrir os olhos para dizer algo, teve outra surpresa chocante. Assim que o viu, a primeira coisa que encontrou foi um par de olhos castanhos a olhando com tanto ódio e desprezo que até lhe dava fraquezas. Era um olhar tão frio e distante que só de vê-lo dava uma imensa vontade de chorar. Não era primeira vez que o via, mas sonhara tanto em nunca mais vê-lo de novo! Era como se tivesse feito alguma coisa a ele, e tinha que pagar com aquele cruel castigo.
"Ora, o pirralho apareceu!" – a voz de Rytwild soava sarcasticamente na clareira, atraindo a atenção de Shaoran – "Demorou dessa vez."
"Sua bruxa maldita." – ele simplesmente cuspia as palavras – "Como teve coragem de atacar Sakura pelas costas?"
"Da mesma maneira que irei te atacar!" – ela voltou a recitar algumas palavras estranhas e três "soldados" de água apareceram, atacando Shaoran de todas as maneiras. O garoto desviava com muita facilidade, mas conforme ia desferindo os seus golpes, iam se afastando de onde Sakura estava.
Essa estava alheia aos acontecimentos. Na sua cabeça, apenas se via imagens de seus amigos a ignorando, a odiando, a desprezando. Pouco a pouco eles a deixavam sozinha em um lugar muito escuro e nojento, pouco a pouco eles a abandonavam. Seu pai, Touya, Kero, Tomoyo, Meilin, Yukito, Yue, Yamato, Nakata, Shaoran...
"Você me paga!" – Shaoran disse, enquanto desviava de dois soldados que tentavam lhe dar um chute no abdômen.
Mas, para Sakura, aquilo soou como palavras de vingança, dirigidas a ela. Ela sentia cada vibração da presença dele, e elas continham raiva. Ela sentiu as lágrimas caindo no seu rosto, enquanto via todos os seus amigos indo embora, Shaoran indo para longe...
"NÃO!"
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Não muito longe dali, os guardiões continuavam lutando contra os soldados que não paravam de aparecer. Não eram poderosos, mas eram chatos e inacabáveis, de forma que os prendiam. Yue lutava com cinco ao mesmo tempo, enquanto Kero desviava de outros três, e Yamato cuidava de mais um. Nakata tentava atacar um, mas sua atenção em Sakura era tanta que ela não conseguia sequer raspar o inimigo com suas flechas. Por que a garota estava tão parada? Ela parecia a beira de um ataque de nervos, principalmente depois que Shaoran a resgatou da água. Mas por quê?
"NÃO!"
O coração da guardiã simplesmente parou quando ouviu o grito de desespero da mestra. Não era só por ver a amiga daquele jeito, mas também por sentir algo que tirou todas as suas dúvidas. Ela desviou a atenção totalmente para ela, e foi o suficiente para receber um jato poderoso do seu inimigo. Caída no chão, ela apenas viu o soldado aquático pronto para lhe dar o ataque de misericórdia, mas algo a defendeu antes disso. Melhor, alguém a defendeu.
"Precisa prestar mais atenção, guria!" – a voz de Shiefa soou nos seus ouvidos, enquanto ela ajudava a guardiã a se levantar – "Numa luta, você nunca..."
"Eu sei!" – a garotinha esfregou a cabeça – "Nunca devo desviar a atenção do meu inimigo. Yamato me fala isso todo dia."
"O que diabos estava fazendo, Li?" – falando no garoto, ele apareceu ao lado das duas, nocauteando mais um soldado – "Nós todos lutando como um bando de idiotas e você nem pra ajudar."
"Já tinha gente demais." – a garota deu de ombros, enquanto começava a lutar com mais um soldado, mostrando que também conhecia as artes marciais e tinha um leve treinamento em magia – "E só entrei porque tive que defender a Nakata."
"E você tinha que a defender do quê, posso saber?"
"Eu desviei minha atenção quando a Sakura gritou." – respondeu a garota, voltando a atirar suas flechas nos inimigos – "Eu senti a presença de uma carta nela."
"Como?" – Yamato teve que desviar rapidamente de um soco, dando uma rasteira no homem de água à sua frente – "Uma carta?"
"Estava sentindo desde ontem à noite, quando ela teve aquela baixa de energia. Tio Kerberus e Yue também perceberam, e nós chegamos à conclusão de que era uma carta negra que havia feito aquilo nela. Hoje, tirei a certeza na hora em que ela gritou."
"E que carta é essa?" – perguntou Shiefa, dando uma chave de cabeça no seu oponente, jogando-o contra outro
"Eu não sei. Não chegamos a nenhuma conclusão quanto a isso!"
Cansados de lutar, Yamato, Nakata e Shiefa concentraram o máximo de energia que tinham e a lançaram contra os soldados de água, enquanto Yue e Kero faziam o mesmo. Agora, só restava Shaoran lutando.
"Caras chatos!" – resmungou Kero, enquanto limpava suas patas
"Acho que descobri qual é a carta que está atacando Sakura." – comentou Yue, não dando a mínima para o parceiro – "Isso me parece coisa de Confusão."
"Confusão?" – perguntou Shiefa, sem entender
"Uma carta que faz a pessoa ver tudo ao seu redor de forma distorcida. Rytwild deve ter usado a carta enquanto Sakura dormia ontem. Isso explicaria a baixa de energia dela: com certeza estava tendo um pesadelo desgastante."
"Como ela se deixou dominar por uma carta?" – perguntou Yamato, intrigado – "Por mais inocente que ela seja, a sua mente não é tão fácil de dominar."
"Ela estava muito feliz ontem." – comentou Kero, com certo ar de contrariedade – "Depois que sumiu com o Moleque, voltou feliz da vida."
"A mente dela devia estar descansada." – ponderou Yamato – "Não existe hora melhor para invadir uma."
"Mas o que faremos?" – perguntou Nakata, enquanto Sakura ainda gritava de desespero, e Shaoran tentava ao máximo chegar até ela, mas era impedido por diversos soldados que resistiam a todos os seus golpes
"Acho que tenho um plano." – comentou Shiefa, enquanto observava a luta do irmão – "Venham comigo."
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Shaoran estava desesperado. Além de aqueles caras chatos estarem enchendo a sua paciência, Sakura gritava em um desespero que lhe cortava o coração. Fora que ver a cara de vitoriosa de Rytwild, bem a sua frente, era mais do que humilhante. O que ela estava fazendo, afinal de contas? O que fazia Sakura gritar daquela maneira tão agonizante?
"Droga... preciso acabar com isso aqui, e logo!"
Ele desviou de dois homens de água e pulou no galho da árvore mais próxima, com rapidez de gato (outro comentário indiscreto da autora: e que gato!). Concentrou toda a sua energia, pronto para usar uma magia de fogo capaz de acabar com aquilo, quando sentiu seu corpo sendo empurrado pra baixo, enquanto quatro fortes presenças mágicas acabavam com seus inimigos indesejáveis. Quando pousaram no chão, em segurança, ele encarou o seu "atacante" e viu a irmã o segurando.
"Shiefa, o que você está fazendo?"
"Pedindo sua ajuda para ajudar sua namorada. E não me interrompa!" – ela acrescentou, ao ver que ele ia dizer algo – "Yue acha que ela está sob o efeito de uma carta, que confunde a cabeça dela e distorce a realidade. Pelo jeito, ela está tendo um 'pesadelo'."
"Explique-se direito!"
"Calma, eu ainda não acabei. O fato é que há algo que impede a Sakura de lutar, algo que a incomoda, já que tudo que ela vê está fora da realidade. Queremos que você vá lá, feche os olhos dela e a guie na luta contra Rytwild."
"E por que eu tenho que fazer isso?"
"Porque ela confia em você mais do que ninguém, até de olhos fechados, se é que me entende. Se ela ficar de olhos fechados, ela não verá a realidade distorcida, logo Confusão não agirá. Está entendendo o que estou dizendo?"
"Acho que sim. Você quer que eu diga a ela o que fazer durante a luta?"
Shiefa deu um sorriso triunfante e acenou afirmativamente com a cabeça. Shaoran também sorriu e rapidamente se deslocou para onde Sakura se mantinha com a cabeça baixa e olhos arregalados, enquanto gritava de desespero. Ele se posicionou na frente dela, se controlando enquanto a via daquele jeito.
"Sakura, olha pra mim! Por favor, olha aqui."
A garota parou de gritar e o encarou. A visão fez o coração de Shaoran parar de bater por alguns segundos. Os olhos dela, sempre tão cheios de alegria e vida, estavam triste e úmidos, prestes a chorar. Era como se ela pedisse piedade.
Para Sakura, aquela visão foi o fim do mundo. Shaoran estava parado bem à frente dela, a encarando friamente, seus olhos cheios de raiva e ódio. Ela não precisava que ele dissesse algo, o próprio olhar dele indicava que a culpava de algo imperdoável. Ela não sabia por quanto tempo agüentaria ver aquilo: seus amigos já tinham partido, ela estava sozinha no meio daquele lugar escuro e fora de foco, e agora o seu namorado – a pessoa que ela mais amava no mundo – a encarava assim. Por que ele fazia aquilo? O que ela tinha feito?
"Por que você está me olhando assim?" – ela perguntou, já sem forças, buscando esclarecer um pouco aquela confusão na sua cabeça – "O que eu fiz? Por que está com tanta raiva de mim?"
"O quê?" – perguntou Shaoran sem entender, afinal não estava com raiva dela
"Ela está tendo visões distorcidas da realidade, moleque." – respondeu Rytwild, aparecendo atrás deles com um sorriso vitorioso – "Na cabecinha dela, ela está vendo que você está morrendo de ódio e raiva. Pensa que você a culpa de algo."
"Desgraçada." – murmurou Kero, rangendo os dentes – "Por isso Sakura estava gritando com tanto desespero. Ela usou o ponto fraco dela para enfraquecê-la."
Mas Shaoran não deu atenção, embora sua vontade fosse de partir pra cima daquela megera. Ele tinha coisas mais importantes para fazer naquele momento, e quanto mais rápido ajudasse Sakura, mais rápido poderia acabar com o pesadelo dela. Claro que isso seria mais difícil do que parecia, porque a garota agora chorava a plenos pulmões:
"Sakura, preste atenção em mim. Não se desespere." – ele se ajoelhou na frente dela, tentando acalmá-la, mas em vão
"Como eu não vou me desesperar? Você está com ódio mortal de mim, e sequer me fala o motivo! Se pelo menos eu soubesse onde eu errei, pra conseguir me redimir, talvez assim eu poderia..."
Mas ela não teve tempo de terminar. Antes que continuasse, Shaoran deu um jeito de calá-la, dando um leve beijo em seus lábios. A garota não soube mais o que dizer, naquele momento parecia que até a dor de cabeça tinha passado. Assim que se largaram, ele fechou os seus olhos e pegou na sua mão.
"Sakura, escuta." – ele dizia em voz baixa, para acalmá-la – "Você está sob o efeito de uma carta, tudo que está vendo não é verdade. Você precisa expulsar essa carta de você, precisa lutar contra Rytwild. Precisa acabar com essa magia."
"Mas como eu faço isso? Está tudo tão fora de foco..."
"Eu vou te guiar. Você vai fazer tudo o que eu mandar, e ficará de olhos fechados o tempo todo, para não dar oportunidades da carta agir."
"E você acha mesmo que ela vai acreditar em você?" – Rytwild gritou, embora sua voz não tivesse muita segurança do que dizia – "Você está com raiva dela, e ela sabe disso. Acha mesmo que ela vai acreditar em alguém que quer acabar com ela?"
"Eu sou um guerreiro decente, ao contrário de você!" – ele não agüentou e soltou sua raiva – "E ela sabe disso. Sabe que eu nunca enganaria uma pessoa para me vingar. Eu jogo limpo." – ele apertou a mão de Sakura de uma forma carinhosa – "Sakura, você me conhece melhor do que ninguém, não só lutou comigo como já lutou do meu lado. Você precisa confiar em mim."
Sakura se viu indecisa. Os olhos de Shaoran, até poucos momentos atrás, mostravam ódio e raiva. Mas ela o conhecia bem, e sabia que, por mais raiva que ele tivesse, ele nunca enganaria para ganhar algo. Além disso, a voz dele não continha ressentimento, e aquele aperto de mão, o beijo...
"Você confia em mim, Sakura?" – ele perguntou, com voz hesitante
Era a hora dela decidir. Uma vida toda ou um momento...
"Eu confio!" – disse por fim.
"Isso!" – comemorava Nakata, um pouco mais longe dali, junto com os outros
"Maldição" – Rytwild voltou à posição de batalha, enquanto Shaoran ajudava Sakura a se levantar – "Vou ter que resolver isso da forma mais difícil."
Ela voltou a dizer as mesmas palavras de antes, e novos soldados de água apareceram, assim como os de terra. Eles todos avançaram para cima de Sakura, mas Yue, Kero, Yamato, Nakata e Shiefa a protegeram, voltando a lutar com eles. Shaoran saltou com Sakura para longe dali, e pararam na frente de Rytwild. Ela os encarou com um sorriso maldoso:
"Está na hora da diversão. Venha Kinomoto... quero ver se você pode comigo."
Shaoran se afastou e começou a dar ordens para Sakura. Ela continuou de olhos fechados, e seguia a todos os comandos do namorado com incrível rapidez. Rytwild apelava mais para as artes marciais, por isso era mais fácil para o garoto pensar no que mandar a namorada fazer. Claro que, no começo, ela não conseguiu acompanhá-lo, mas conforme o tempo foi passando, ela foi pegando o jeito.
Depois de uns dez minutos, Sakura conseguiu desestabilizar a rival, jogando-a no chão. Enquanto ela se recuperava, a garota sentiu algo saindo de si. Algo MUITO negativo.
"Sakura, é a carta!" – Shaoran gritou – "Capture-a!"
"Volte à forma humilde que merece, Carta Clow!"
Pouco a pouco a carta foi voltando ao normal, e Sakura sentiu sua cabeça muito mais leve sem a dor de cabeça. Sentiu-se confiante para abrir os olhos, e se aliviou ao ver tudo voltando ao normal. Nas suas mãos se posicionaram as cartas Labirinto, Pequeno e Grande, junto com a carta negra Confusão, que tinha como símbolo um palhaço muito demoníaco.
"Você conseguiu!" – Shaoran se aproximou e a parabenizou
"Mas não por muito tempo." – Rytwild se levantou e encarou os dois com olhares de fogo, fazendo com que Shaoran se colocasse à frente de Sakura – "Vocês dois vão me pagar... escrevam o que eu digo!"
E tão rápido como apareceu, desapareceu, sumindo na terra. Todos os soldados criados se desfizeram e todos puderam descansar daquele dia cansativo e estressante.
"Graças a Deus ela conseguiu superar mais essa!" – resmungou Touya, escondido atrás de uma moita
"Adorei essa luta, vai ser a jóia da coleção!" – comentou Tomoyo, com seus olhos brilhando com sua mais nova gravação
"Pois eu achei uma porcaria." – resmungou Meilin, que estava escondida na mesma moita que Tomoyo – "Sakura não tem a mínima técnica de luta. Estava vendo ela perder..."
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"Mas isso vai melhorar, Meilin. Você verá como!"
Numa sala iluminada apenas pela luz da clareira e pela luz de um portal conjurado por magia, encontravam-se três pessoas. Duas delas pareciam ter a mesma idade, jovens de aproximadamente quinze anos. A outra já era uma senhora idosa, que carregava em seu semblante o peso da sabedoria e da experiência.
"O que você pretende fazer, hein?" – perguntou a garota mais nova para o seu colega, que tinha sua idade
"Você verá, Mick. Na hora certa, você verá."
"Dessa vez Rytwild pegou pesado." – disse a senhora idosa – "Imagino o quanto Sakura sofreu."
"Ela é uma garota forte." – a menina mais jovem falou – "Além disso, com um namorado desses ela nem tem o que temer. Os dois trabalham tão bem juntos..."
"Os dois nasceram para lutar juntos." – a senhora suspirou, e murmurou algo para si mesma – "E talvez essa seja a diferença..."
Uma leve batida na porta tirou a atenção de todos. Na porta, apareceu uma mulher de aproximadamente 40 anos, cabelos negros e olhos amendoados. Ela sorria:
"Interrompo alguma coisa?"
"Ah não." – respondeu o jovem – "A nossa diversão já acabou."
"Ainda bem, pois está na hora da reunião." – ela se virou para a garota mais jovem – "O que me lembra que você tem que ir dormir, mocinha."
"Ah mamãe..." – a garota fez biquinho.
"Obedeça a sua mãe, Mick." – disse a senhora idosa – "Além disso, amanhã você acordará cedo. Lembre-se da sua missão."
"Sim, senhora." – a garota se levantou e fez reverência – "Boa noite, senhora Sara; boa noite, Eriol."
A garota se retirou com a mãe do recinto, deixando Eriol e Sara sozinhos, contemplando Sakura pelo portal. Ficaram em silêncio durante um bom tempo, até que Sara resolveu falar:
"Quanto tempo mais ficaremos aqui em Paris, Eriol? Não acha que já está na hora de irmos ajudá-la?"
"Precisamos de Pierre e Angelita conosco, e eles já avisaram que estão chegando. Assim que os inteirarmos da situação, partiremos."
"Espero que não demore muito!" – ela suspirou – "Sabe, há anos que venho esperando por esse momento. Só descansarei quando colocar Kinomoto no seu lugar de direito."
"Sei como se sente. Afinal, foi uma missão que ele te deu, não é mesmo?"
"É verdade. Mas nem só por isso, mais do que nunca a natureza precisa de equilíbrio. Sinto que, se demorarmos, não conseguiremos."
"Não se preocupe, Sara. Garanto que, em duas semanas, estaremos desembarcando no Japão."
"Assim espero, Eriol." – Sara suspirou mais uma vez, enquanto olhava Sakura abraçando Shaoran – "Assim espero."
ContinuaObs: acho que estou vendo alguns de vocês pegando umas pedras ou qualquer outro objeto mortal pra atirar na cara do Touya, ou estou enganada? Mas calma pessoal, não o culpem, ele só é um irmãozinho ciumento que quer manter sua querida irmã no convento pra sempre, bem longe de um certo moleque (que, aliás, é o sonho de consumo de toda garota solteira). Além disso, lugarzinho meio ingrato esse que os dois pombinhos escolheram, não acham? Sabendo que havia uma legião inteira de curiosos (incluindo a dona Tomoyo, que daria tudo para filmar uma cena interessante como essa) em volta para atrapalhar o grande momento, e eles não ficam nem aí! Mas não se preocupem, a grande hora chega. Eu prometo!
Bom, como vocês já sabem, os agradecimentos estão todos no site (o endereço está no meu perfil, mas por via das dúvidas, é esse: http (/) geocities (ponto) yahoo (ponto) com (ponto) br (/) missofdarknessff), e o resumo do próximo capítulo também. Gostei muito de saber que todos gostaram do plano da Sakura, sempre achei legal a iniciativa dos outros contra qualquer tipo de violência. Não tenho vergonha de dizer que sou adepta absoluta da paz, e que realmente acredito que violência não leva a lugar nenhum, a não ser ao mundo com mais violência. Adorei saber que vocês também pensam dessa forma. Bom, era só isso que eu queria dizer. Confesso que vou sentir falta de postar os agradecimentos aqui, faziam o capítulo ficar mais alegre, sei lá! Mas já que não posso mais, vamos continuar do jeito que está agora. Beijos e até o capítulo 11 de Os Senhores da Natureza (onde, finalmente, vamos descobrir por que Rytwild quer tanto as cartas). Ah, detalhe: me desculpem pela bíblia de hoje, mas não consegui reduzir o capítulo. Cada parte é muito importante!
