Depois de alguns anos, nunca imaginou se sentir entediada e desanimada. Certo, a sua vida não era das piores, ao contrário, sequer tinha do que reclamar. Mas ainda assim, algo faltava na sua vida, e pedia desesperadamente por ação. Bem, seu desejo foi atendido... agora, será que ela agüenta?
Disclaimer: Sakura Card Captors e todos os outros personagens são da Clamp®, eu só sou mais uma doida varrida que vou fazer todos eles sofrerem (falando assim, até parece que eu torturo os coitados. Se bem que eu já fiz uma árvore cair em cima da cabeça do Yamazaki, mas essa é outra história).
Capítulo 13 – O que machuca um coração
"Agora é a vez de Matsumoto e Nakashima".
Dois garotinhos sorriram e, animados, entraram na improvisada quadra de tênis, esporte escolhido para a aula de educação física daquele dia. O professor Terada adorava alternar os esportes, de forma que as aulas de Educação Física da Escola Tomoeda eram conhecidas pela grande diversidade e alegria. Sem sombra de dúvidas, era a favorita da maioria dos alunos. Dela também era, mas por razões um pouco diferentes...
"Nakata... volta aqui, menina!" – uma garotinha de cabelos pretos na altura do ombro, rostinho redondo e bochechas rosadas seguia atrás de outra com longos cabelos loiros e olhos tão azuis que impressionavam. A segunda saía de fininho da aula de Educação Física e ia ao Colégio Seijyo, que ficava bem ao lado.
"Fala mais baixo, Chihiro!" – Nakata olhou para a amiga com certa raiva – "Já disse que é coisa rápida... além disso, a minha vez de jogar está longe".
"Mas Nakata, você não pode! Alunos daqui não podem ir pro Colégio Seijyo assim, do nada. E se pegarem a gente?".
"Eu vou lá quase todos os dias há uns dois anos e ninguém nunca me pegou" – ela pegou na mão da amiga – "Vamos logo, Chihiro, o Shaoran está me esperando".
"Shaoran? Aquele namorado da sua vizinha?" – Chihiro, de repente, pareceu mais feliz do que o normal.
"Ele mesmo. Mas se a gente não for logo, o intervalo deles vai acabar e não vamos conseguir falar com ele...".
Como um passe de mágica, Chihiro saiu em disparada pela escola, e em poucos segundos já estava na quadra do colégio vizinho. Nakata apenas riu da situação: Chihiro tinha mesmo uma queda por Shaoran.
"Bom... quem não tem, né?" – ela concluiu, antes de também sair em direção à grade que separavam as escolas.
As duas garotas, tomando o cuidado de não serem vistas, saíram andando entre os grandes alunos do Colégio Seijyo. Encontraram o que procuravam sentado na entrada da escola, a cabeça baixa e a expressão séria. Estava sozinho.
"Pelo visto, vocês ainda não conversaram" – Nakata o surpreendeu, fazendo-o dar um leve pulo – "Com essa cara...".
"Achei que você não viria mais!" – ele tentou sorrir para ela, mas não teve muito sucesso. Olhou para a garota ao lado – "Como vai, Chihiro?".
"Be... bem, obrigada!" – o rosado das bochechas se espalhou por todo o rosto de Chihiro, e ela baixou a cabeça, envergonhada.
"Ah... tudo bem então" – ele olhou para Nakata com uma sobrancelha levantada; a garota deu de ombros. Decidiu deixar para lá – "E aí, Nakata, o que você me conta de novo?".
"Infelizmente, nada" – Nakata ficou estranhamente séria – "A Sakura continua naquele estado deprimente de antes. Não fala com ninguém, não comenta, não chora. Só fica séria".
"Era o que eu temia!" – ele se jogou para trás – "Deus, ela nunca vai me perdoar!".
"Credo, Shaoran, vira essa boca pra lá!" - Nakata fez cara feia – "Você não queria que ela te perdoasse em uma semana, né? Você beijou outra garota!".
"Quê?????" – Chiharu pareceu espantada, mas nenhum dos dois prestou muita atenção.
"Você sabe que eu não queria fazer aquilo, Nakata" – Shaoran parecia estar desesperado – "A Sakura tem que saber isso!".
"E ela sabe" – Nakata falou com tom de voz cansado – "E, se você quer saber minha opinião, eu acho que ela já te perdoou".
Shaoran levantou a sobrancelha, totalmente incrédulo. Não conseguiu segurar um risinho sarcástico, que também trazia toda a tristeza que ele próprio estava sentindo:
"Eu bem queria acreditar em você, Nakata" – ele voltou a ficar sério – "Mas eu posso garantir que ela não me perdoou".
"Pois eu acho que sim" – a garota foi categórica – "Dá pra ver que ela já te perdoou... na verdade, dá pra ver que ela NUNCA te culpou por tudo isso".
"E o que te faz achar isso?".
"Simples. Como você me pediu, eu fiquei de olho nela nessa última semana, depois do que aconteceu. E eu notei que, toda vez que se fala de você, ela não fica com raiva ou ódio. Ela só parece... triste. Sem mágoas, sem amargura, só triste. Como se estivesse sentindo uma dor muito forte, mas só isso".
"Você viu tudo isso só em olhar para a Sakura?" – a garotinha confirmou com a cabeça – "Caramba, você está andando muito com a Tomoyo ultimamente".
"Não é isso! Tomoyo tem um senso incrível de observação e consegue identificar coisas que nem a pessoa sabe que sente. Eu consigo ver as almas delas, o que é muito diferente" – ela abaixou o tom de voz – "É um dos meus dons mágicos".
"Você está brincando!".
"Não. Por que você acha que eu tenho esses olhos?" – ela arregalou os já grandes olhos azuis – "Claro que nem o Mago Clow sabia que eu tinha esse poder... mas eu confesso que ele é bem útil".
"Por que você nunca me contou?".
"Porque você nunca perguntou" – ela deu de ombros – "Além disso, não é isso que está em discussão agora, e sim essa sua 'briga' com a Sakura. Quando você pretende conversar com ela, hein? Porque, claro, é óbvio que vocês ainda não se falaram depois daquilo...".
"Eu não quis forçá-la" – ele encolheu os ombros – "Não queria conversar sobre isso com ela tão machucada desse jeito".
"Você acha que ela fugiria?".
"Não! Ela não faria mais isso... Sakura mudou muito de uns tempos pra cá, ela agora encara os problemas de frente. Basta ver como ela anda me tratando nos últimos dias... não me ignora, não foge de mim nem por um minuto. A única diferença é que agora ela anda meio fria comigo, como você bem sabe".
"Pelo visto, é você quem está fugindo, então".
"Acho que sim" – ele suspirou pesadamente – "Não quero machucá-la mais do que já machuquei. Não suportaria vê-la ainda mais triste".
"Mas vocês precisam conversar" – havia desespero no tom de voz de Nakata – "E vocês precisam fazer isso rápido. Vai saber quando ela vai melhorar... pode ser que isso nunca aconteça! Você vai esperar ela dar um sinal?".
"Nakata, acredite em mim: quando chegar a hora de conversamos, a própria Sakura fará isso. Eu já disse, ela mudou muito" – ele olhou para cima, um leve e sincero sorriso surgindo no seu rosto – "Eu lembro de quando tínhamos onze anos e eu me declarei a ela. Ela fugiu de mim até o dia da minha partida... ah, você não tem noção da mulher forte que a Sakura está se tornando, Nakata. Nenhuma outra agüentaria esse pesadelo".
"Eu tenho noção do quanto vocês se gostam" – a pequena guardiã sorriu – "E odeio ver vocês dois afastados".
"Acredite, eu também odeio. Ah, se arrependimento matasse...".
"Você não teve culpa, Shaoran. Era a única maneira de acordar a Meilin! Ou era beijá-la, ou era espancá-la".
"Pode até ser, Nakata... mas eu devia ter tentado outra coisa. Não queria machucar a Meilin, e acabei machucando a Sakura".
"Nakata, vamos logo!" – Chihiro mostrava sinal de desespero – "Sua vez deve estar próxima!".
"Tem razão!" – Nakata se levantou e deu um sorriso encorajador ao amigo – "Não se preocupe, Shaoran. Eu tenho certeza de que, mais cedo ou mais tarde, você e a Sakura irão se acertar".
"Enquanto isso, você continua cuidando dela?".
"Pode deixar. Eu venho trazer todas as informações" – ela sorriu e deu as costas para Shaoran; sentiu sua mão se agarrada por ele, voltou-se de novo – "Que foi?".
"Só queria dizer 'obrigado'. Nem sei como te agradecer".
"Acerte-se com a Sakura!" – ela sorriu de novo – "Eu gosto muito de vocês, e quero que sejam felizes".
"Também gosto de muito de você, Nakata" – foi a vez dele sorrir – "Você sabe que é minha irmãzinha, né?".
"Mas é claro!" – ela fez cara de convencida.
"Nakata!" – Chihiro estava à beira do pânico.
"Agora eu tenho que ir. Tchau!".
As duas garotinhas se afastaram correndo, mas ainda tomando extremo cuidado para não serem vistas. Quando chegaram ofegantes à quadra da Escola Tomoeda, viram, com certo alívio, que ainda faltava uma dupla para jogar antes de Nakata. Exaustas, elas se sentaram com tudo no chão:
"Eu ouvi direito, Nakata?" – Chihiro começou, respirando fundo para recuperar o fôlego perdido na corrida – "Aquele menino lindo traiu a sua vizinha?".
"Sim e não!" – Nakata deitou no chão, também tentando recuperar o fôlego.
"Como 'sim e não'? Ou você trai ou você não trai!".
"O caso dele é diferente" – a guardiã olhou para a amiga – "Ele traiu sem querer!".
"Traiu sem querer?" – Chihiro levantou uma sobrancelha, em sinal de descrença.
"É, sem querer. É que ele não queria trair, mas teve que trair. Entende?".
"Não!" – a face descrente de Chihiro apenas aumentou.
"Ah, então deixa pra lá!" – Nakata deu de ombros – "Se eu te contasse, você não acreditaria mesmo. Agora me deixe descansar, ainda tenho um jogo pela frente".
Chihiro ficou emburrada, mas não perguntou mais. Se Nakata não queria dizer, ela que não insistiria.
Sakura ia andando pelas ruas quase vazias da cidade. Tomoyo ia andando ao seu lado, ambas no mais absoluto silêncio. A morena havia decidido passear com a amiga, ver se conseguia tirá-la daquele estado tão deprimente. Já havia se passado uma semana desde que ela capturara Hipnose, mas nada tinha mudado desde então. Ela ficara sabendo do ocorrido através da própria Meilin, que também não andava muito alegre. Ela se sentia culpada por tudo, e agora estava totalmente dedicada a arrumar a confusão. Mas Tomoyo sabia que aquele era um problema que apenas Sakura e Shaoran poderiam resolver. O máximo que os amigos podiam fazer, agora, era dar uma força para eles se animarem. Sabia que Nakata estava encarregada de Shaoran, agora era a vez dela cuidar de Sakura.
As duas se sentaram no balanço do Parque do Rei Pingüim, o lugar preferido de Sakura para desabafar. Durante vários minutos, as duas ficaram apenas em silêncio, isoladas em seus próprios pensamentos. Tomoyo sabia que Sakura queria conversar com alguém, chorar, mas seu mais novo orgulho não a deixava. Por isso, a chamara para sair. Agora, sentadas ali, não demoraria muito para a amiga começar a falar. E não estava enganada:
"Sabe, Tomoyo..." – Sakura começou, meio sem graça – "Você acha que eu... que eu... estou sendo idiota?".
"Por que eu acharia uma coisa absurda dessas de você, Sakura?".
"Bem... você sabe. Por eu estar brigada com o Shaoran... ou quase brigada!".
Tomoyo deu um discreto sorriso. Incrível como Sakura não conseguia disfarçar... pelo menos não para ela:
"Você está se sentindo uma idiota, Sakura?" – Tomoyo perguntou para a amiga, seu tom de voz sereno.
"Não sei" – ela abaixou a cabeça – "Às vezes acho que sim, mas...".
"Mas...".
"Mas, no fundo, eu não me sinto uma idiota, entende? Ah, Tomoyo, é tão complicado".
"Eu sei que é, amiga! Entendo totalmente como você se sente".
Sakura ficou calada por um tempo, apenas olhando para o chão. Tomoyo esperou pacientemente pelo momento que a amiga se sentiria à vontade para falar. Mais uma vez, não demorou:
"Eu não estou brava com ele, Tomoyo" – Sakura novamente começou – "Quer dizer, estou levemente magoada, é verdade, mas... sei lá. Eu não consigo ver culpa nele por aquele beijo... ele estava tentando me proteger, de alguma forma. Ele não queria que eu lutasse com a Meilin, e achou essa solução. Ah, Tomoyo, é tão confuso!" – ela começou a chorar.
"Eu sei, querida. Eu sei..." – Tomoyo dava leves tapinhas no ombro da amiga.
"Eu fiquei pensando nessa semana... eu acho que tudo isso é culpa minha!".
"O quê?" – agora Tomoyo estava realmente espantada; não esperava aquilo.
"É verdade. Olha só... desde que minhas cartas foram roubadas, eu não faço muita coisa. Eu só sei ficar estressada, gritar e chorar. Lutar mesmo, que é bom, encarar a situação de frente... até agora eu não fiz isso. Digo que não quero que me protejam, mas no fim eu nunca consigo me virar sozinha, sempre preciso de ajuda".
"Isso não é verdade, Sakura" – a morena parecia estar brava – "Você está lutando bravamente".
"Não estou, Tomoyo. Há muito tempo que eu encaro os meus problemas de frente. Não entendo porque, toda vez que eu me encontro com a Rytwild, eu me desespero tanto".
"O que você queria, hein Sakura? Ela está com suas cartas! Você está sem algo muito especial para você. Não dá para se manter calma nessas situações".
"Mas eu preciso me manter calma, Tomoyo. Não posso sacrificar a segurança dos que eu amo por causa de algo tão bobo quanto medo ou desespero".
"Algo bobo? E desde quando sentir medo ou desespero é sentir algo bobo?".
"Desde o momento em que eu envolvo as pessoas que eu amo" – as lágrimas aumentaram – "Pensa comigo, Tomoyo. Se eu não tivesse sido tão negligente, aquelas três crianças não teriam morrido, o Yamazaki não teria se machucado, a Meilin não teria sido hipnotizada, e o Shaoran não precisaria... ter feito aquilo!".
"Sakura, pára com isso!" – agora Tomoyo era quem estava chorando – "Ninguém poderia evitar o que aconteceu, nem mesmo a pessoa mais poderosa do mundo. Você está lutando bravamente, dia após dia luta contra esse vazio no seu peito, e tem de aturar todas as provas psicológicas que essa doida te faz passar. Já pensou quantas pessoas não resistem a pressões? E ninguém está lutando por você, querida. Estamos apenas te ajudando, porque te amamos demais. E te ajudamos porque você é digna disso, bote isso na sua cabeça!" – ela abraçou a amiga fortemente – "Não pense que fazemos isso porque você não é capaz; pelo contrário: fazemos isso porque acreditamos que você é a melhor pessoa para enfrentar tudo isso".
"Será mesmo? Às vezes acho que não sou tão forte quanto achava".
"Claro que é! Se não fosse, como estaria aqui, agora? Outra garota no seu lugar já teria mandando tudo pro inferno e desistido de lutar... outra pessoa nem perdoaria o Shaoran, e você sequer o culpa! Ao contrário, você continua falando com ele. Claro que não como antes, mas você não foge dele, não ignora. Sabe quantas garotas da nossa idade tem essa maturidade?" – Sakura foi se acalmando – "Você está passando por uma fase difícil, é normal que saia um pouco do controle. Mas a mulher forte que você está se tornando não sumiu, a cada dia você dá mais prova que ela só cresce. Pense tudo nisso, Sakura. Pense no quanto você já recuperou: só com a carta Hipnose, você recuperou quatro cartas Sakura. Ah, Sakura... você se mostrou tão forte nessa última semana".
Elas voltaram a ficar em silêncio. Pouco a pouco, Sakura foi se acalmando, e Tomoyo seguiu no mesmo ritmo. Quando sentiu que estava melhor, a card captor ergueu novamente o rosto, um leve sorriso nos lábios:
"Obrigada, Tomoyo" – ela agradeceu – "Você não sabe como me ajudou".
"Estou aqui para isso, amiga. Você sabe que pode contar comigo".
"Eu sei, Tomoyo. E é por isso que eu queria te pedir um favor".
"Peça".
"Você pode pedir para o Shaoran vir me encontrar aqui? Preciso conversar com ele".
Tomoyo se surpreendeu com o pedido. Sabia que depois da conversa, Sakura ia querer conversar com Shaoran, mas não esperava que ela quisesse que a conversa fosse tão depressa:
"Você quer dizer... agora?" – ela perguntou, tentando entender a decisão da amiga.
"Sim, Tomoyo, agora" – Sakura sorriu – "Preciso acertar algumas coisas na minha vida, e quero começar por ele. Pode fazer isso por mim?".
"Cla... claro! Irei chamá-lo! Você pode ficar aqui sozinha?".
"Claro que sim. Diga a ele que estarei esperando aqui".
Tomoyo confirmou com um aceno de cabeça, e saiu andando. Quando estava no meio do caminho da casa de Li, pegou o seu celular e fez uma ligação:
"Alô, Nakata? Oi, é a Tomoyo. Será que você poderia me fazer um favor? Poderia pegar minha filmadora na minha casa e trazer aqui no Parque do Rei Pingüim?".
A noite já estava caindo quando Shaoran chegou no parque. Assim como Tomoyo havia dito, Sakura estava lá, sentada no balanço. Lembrava-se de quando a garota chegara na sua casa.
-M-
"Senhora Li" – uma empregada da casa se aproximou da mesa no jardim – "Uma jovem chamada Daidouji está aqui. Quer falar com o senhor Li".
"Daidouji?" – Meilin, que estava junto com Yelan e Fai no jardim, estranhou – "Mande-a entrar, eu mesma a levo até o Shaoran. O que ela está fazendo aqui?".
"Sim, senhorita" – a empregada saiu, e instantes depois uma Tomoyo ofegante chegou ao jardim.
"Ah Meilin, que bom que você está aqui" – a morena pegou a mão da amiga – "Preciso falar com o Shaoran, ele está?".
"Está lá em cima, daquele jeito. Mas por que tanta pressa?".
"Eu não queria falar aqui" – ela disse isso em tom de voz estranhamente baixo.
"Ué, por que não?" – Meilin levantou a sobrancelha – "Vamos lá, Tomoyo, aqui só tem gente de confiança".
Tomoyo suspirou. Não seria legal contrariar Meilin, ainda mais ela gostando tanto da mãe...
"Sakura pediu pra eu vir chamá-lo. Ela quer conversar".
Nessa hora, não só Meilin, mas também Yelan e Fai se interessaram muito no assunto, principalmente as duas senhoras. A jovem Li ficou quieta por um instante, e em seguida soltou um berro:
"AHHHHHHHHH! ESPERA AÍ, EU VOU LÁ CHAMÁ-LO!" – Meilin saiu em disparada pela casa, toda destrambelhada. Logo em seguida trazia Shaoran, o garoto sendo puxado pelo braço.
"Meilin... dá pra explicar o que está acontecendo?" – ele retrucou, irritado.
"Você já vai ver" – ela o puxou ainda mais, segurando o braço dele até chegarem no jardim, onde Tomoyo esperava. O garoto se surpreendeu com a presença de Daidouji ali, àquela hora da noite:
"Tomoyo? O que está fazendo aqui?".
"Conta pra ele, Tomoyo!" – Meilin dava pulinhos frenéticos, tamanha a sua alegria – "Conta logo!".
"Contar o quê?" – Shaoran estava estranhando a alegria da prima – "O que está acontecendo?".
"A Sakura" – Tomoyo finalmente se pronunciou, um leve sorriso no seu rosto – "Ela quer conversar com você. Está te esperando naquele balanço do Parque do Rei Pingüim".
Os olhos de Shaoran se arregalaram e, sem dizer nada, saiu em disparada para a rua, quase atropelando Meilin. As duas garotas sorriram, felizes com a possível reconciliação. Yelan também sorria, feliz pelo filho. Já Fai estava séria, seu rosto não mostrava expressão.
-M-
E lá estava ele, olhando para ela, totalmente petrificado. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, ela ia querer conversar. Só não esperava que fosse tão rápido, e isso o deixava meio apreensivo. Era muito pouco tempo para Sakura ter se recuperado. Suspirou. Resolveu parar de pensar e ir logo conversar com ela. O que tinha de ser, seria.
Em silêncio, ele se aproximou dela. Sakura levantou a cabeça e olhou nos olhos dele. Durante alguns segundos eles ficaram naquele estado, um apenas encarando os olhos do outro. Querendo sair daquele clima nada agradável, Sakura indicou o balanço com a cabeça, silenciosamente convidando Shaoran a se sentar. E assim ele o fez. Durante mais algum tempo, eles voltaram a ficar em silêncio. E, dessa vez, foi ele quem quebrou:
"Eu gosto bastante daqui" – disse, como se nada quisesse – "Esse lugar me traz lembranças muito boas".
"Realmente, é um lugar especial" – ela sorriu – "Muitas coisas aconteceram aqui, não?".
"Aconteceram, sim. Passamos muito tempo aqui, principalmente na época da captura das cartas".
"E depois também" – ela voltou a abaixar a cabeça – "Foi nesse balanço que eu desabafei com você, lembra?".
"Ah, que lindo!" – Tomoyo, escondida em uma moita, gravava a conversa dos dois, seus olhinhos brilhando de felicidade – "Estão relembrando os bons momentos".
"Sério?" – Nakata, que estava logo atrás da morena, esticou um pouco a cabeça – "Eu quero ver!".
"Fica quieta, Nakata!" – Shiefa retrucou, empurrando a menina pro lado – "Desse jeito você atrapalha minha visão!".
"Será que vocês duas podem ficar quietas?" – Touya resmungou, bravo - "Desse jeito eu não ouço!".
"A gente precisava mesmo ter vindo, Touya?" – perguntou Yukito, que estava sentado e encostado numa árvore próxima, e que também era escondido pela moita – "Não acho legal ficar espionando a conversa dos dois".
"É claro que precisávamos! Quero ter a certeza de que esse projeto de gente não vai machucar a minha irmã de novo".
"Meu Deus, como falam!" – Meilin comentou, impaciente – "Desse jeito, eles vão nos pegar! Precisava ter trazido eles, Nakata?".
"Eu não os trouxe" – Nakata se defendeu – "Quando eu saí pra pegar a filmadora da Tomoyo, o Yamato contou pra eles o que estava acontecendo e eles vieram por vontade própria".
"Eu só fui educado, Nakata!" – Yamato também se defendeu, ele também sentado próximo à árvore, Kero nas suas mãos – "Quando me fazem uma pergunta, eu respondo".
"Você é um chato, isso sim!" – Shiefa retrucou, e Yamato fingiu que não ouviu.
"Vocês querem se calar?" – Kero reclamou – "Eu quero ouvir os dois!".
"É, eu lembro sim!" – Shaoran respondeu – "Foi um dia atípico, não?".
"No fim, acabou sendo um dos melhores dias da minha vida" – ela sorriu – "Acho que foi naquele dia que comecei a gostar de você".
"Você está brincando!" – ele olhou para ela com surpresa – "Você nunca me disse isso".
"Nem pra mim" – Tomoyo, ainda escondida na moita, resmungou baixinho – "Ah, mas depois dessa ela vai ter que me contar tudo".
"Nunca parei para pensar nisso" – Sakura o encarou – "Foi um sentimento que surgiu tão de repente... um dia, eu olhei pra mim mesma e me descobri apaixonada por você. Naquele momento, simplesmente pareceu que o sentimento sempre esteve dentro de mim. Mas analisando direito agora... é, eu acho que começou naquele dia" – ela olhou o céu – "Embora ainda pareça que sempre esteve lá".
"Será que ainda está?" – ele perguntou, um leve tom de medo na sua voz. Sakura o encarou com um leve sorriso, mas algumas lágrimas se formavam nos olhos:
"Não tenha dúvidas de que está" – ela encarou o chão, não queria que ele a visse chorar – "E pra ser sincera, está muito mais forte do que naquela época".
"E isso é um bom sinal?".
Sakura se calou por alguns instantes, um tenso silêncio instalado entre os dois. Todos que estavam escondidos levantaram um pouco as cabeças, sinal da curiosidade que sentiam em saber a resposta dela. Até mesmo Yukito e Yamato, os menos interessados na conversa, espicharam um pouco o pescoço.
"Eu já nem sei mais, Shaoran" – ela respondeu, fazendo força para segurar o choro – "Nessa última semana as coisas se tornaram tão confusas... eu mesma não me reconheci nesses últimos dias. Pra dizer a verdade, nem nos últimos meses eu estou me reconhecendo. O roubo das cartas, as crianças mortas, o machucado do Yamazaki... tantas coisas saíram do meu controle ultimamente, que eu mesma saí de mim. Eu não consigo mais pensar, ou agir... sempre me desespero, nunca sei o que fazer. E eu não sou assim, não mais. Eu não consigo mais me controlar, e quando eu vejo sempre é tarde demais".
"As coisas já não são mais as mesmas, Sakura. Te roubaram algo muito precioso, é normal que você se sinta perdida" – ele tentou consolá-la; viu que ela estava a ponto de chorar, mas não se sentia a vontade para abraçá-la e confortá-la, embora fosse essa a sua vontade.
"É, a Tomoyo já me disse isso. E pensando bem agora, concordo com ela" – ela ficou séria – "Mas isso não justifica o fato de que não estou lutando como deveria".
"Sakura, você sabe muito bem que isso não é verdade!".
"Claro que é, Shaoran. Se eu estivesse lutando corretamente, muitas coisas não teriam acontecido" – ela deixou a primeira lágrima cair – "Principalmente aquele beijo maldito".
"Sakura...".
"Eu sei que você não teve culpa!" – ela o interrompeu, precisava dizer tudo depressa, senão não conseguiria, e ela queria fazer aquilo – "E você sabe que eu não estou com raiva de você, porque, se estivesse, nós dois não estaríamos aqui. Mas não somos mais crianças, Shaoran, e temos que encarar a realidade".
"Que realidade? Do que você está falando?".
"Eu não gostei do que vi, Shaoran. E ainda não estou me sentindo à vontade com tudo isso, nem sei se um dia vou conseguir passar uma borracha nessa história".
"Pelo amor de Deus, Sakura, não me diz uma coisa dessas" – o tom de voz dele era desesperado, porque era assim que ele estava.
"Mas é a pura verdade. E não pense que você é o culpado por me fazer sentir assim; o problema é comigo mesmo. Ah Shaoran..." – ela passou a mão no rosto dele, em sinal de carinho, ao mesmo tempo em que as lágrimas rolavam pelo seu delicado rosto – "Como você poderia me machucar, hein? Eu te amo tanto...".
"Então esqueça essa história!" – o tom de desespero aumentou – "Se há algo do qual eu me arrependa é de ter tomado aquela atitude. Por favor, não faça uma coisa dessas comigo".
"Não seria justo se eu ficasse com você, não nesse estado" – ela tentou sorrir, em vão – "Você já se sacrificou demais por minha causa, tomou uma atitude que não queria tomar, isso sem contar todas as vezes que se machucou por minha causa. E não estou me referindo só a machucados físicos. Você sempre tentou me proteger, e sempre acabou ferido de alguma forma. Eu não quero que você sofra mais... eu te amo demais pra continuar permitindo que você me proteja assim. E é por isso que, agora, eu quero seguir sozinha nessa estrada, sem a sua ajuda".
"Você não pode evitar isso, Sakura" – Shaoran sentiu um vazio no seu peito, ela estava terminando? – "Eu sempre vou te ajudar, queira você ou não. Você não pode impedir".
"Eu sei que não. Mas essa luta é MINHA, Shaoran. E por mais que você me ajude, quero que você saiba que a luta final será minha, sempre. Não quero que você faça isso por mim. Não quero mais" – ela colocou a outra mão no rosto dele – "Por favor, não fique bravo comigo. Se estou dizendo tudo isso, é porque eu não quero perdê-lo. Eu te quero demais, mas não posso permitir que nosso relacionamento continue como estava indo. E para que ele mude, a gente precisa dar um tempo. Pra eu poder me livrar dessas mágoas todas... e pra você também aprender a lidar com essa nova situação".
"Eu não sei... parece que estamos terminando...".
"Só se termina um namoro quando uma das partes já não o quer. E eu não quero terminar" – ela o encarou nos olhos – "Você quer?".
"Claro que não. Pra falar a verdade, nem esse tempo eu quero. Mas irei respeitá-la!" – ele acrescentou, assim que viu que ela diria algo – "Se isso te fizer sentir melhor, é assim que será. Mas não pense você que eu vou desistir. Eu vou fazer de tudo para fazê-la esquecer esse sofrimento, você pode apostar".
"Obrigada, Shaoran. Eu precisava muito do seu apoio".
"E você sempre o terá" – foi a vez dele acariciar a face dela, secando algumas lágrimas – "É isso mesmo que você quer?".
Sakura não respondeu. Abaixou a cabeça e ficou pensativa, sua face mostrando toda a angústia que sentia. Nesse momento, Shaoran percebeu que ela não tinha certeza do que estava fazendo. Se ele tentasse mais um pouco, talvez se reconciliassem de vez...
"Eu não quero, mas eu preciso fazer isso" – ela respondeu, tentando parecer forte; pegou a mão dele que estava em seu rosto – "Apesar disso, eu também vou fazer de tudo para dar certo. Acredite em mim!".
"Sakura...".
Ele ia tentar convencê-la do contrário, estava disposto a lutar até o fim, mas uma rajada de vento poderosa os atacou, fazendo quase voar para trás. Os dois se seguraram fortemente no balanço, fechando os olhos para suportar aquela espécie de furacão. Os que estavam escondidos também fizeram o máximo para se segurar, mas para eles era extremamente mais difícil, já que os únicos apoios que tinham era a moita e a árvore. Mas uma coisa todos tinham em comum: estavam se perguntando o que estava acontecendo.
Não demorou muito para a resposta aparecer. Assim que a ventania acabou e eles puderam abrir seus olhos, viram uma figura pálida os olhando com verdadeiros olhos de fogo.
Rytwild
"Mas será possível?" – Nakata soltava bufos de raiva – "Essa bruxa velha aparece até nessas horas? Só pra atrapalhar mesmo!".
"Você não desiste mesmo, não é?" – Shaoran resmungou, vendo a mulher o olhar com extrema raiva - "O que quer agora? Mostrar mais uma dessas suas cartinhas negras?".
Rytwild nada respondeu. Ainda com olhar de extremo ódio, ela se pôs em posição de luta, e encarou Sakura, a desafiando silenciosamente. Shaoran percebeu o olhar de desafio, e já estava para conjurar a sua espada, quando uma mão cutucou o seu ombro. Era Sakura:
"A luta é minha, Shaoran, esqueceu?" – ela disse, seu tom de voz sério – "Eu cuido dela".
"Mas Sakura...".
"Eu não vou tomar atitudes precipitadas, se é disso que você tem medo. Confie em mim".
Shaoran ficou indeciso por alguns instantes. Não queria deixar Sakura sozinha, mas havia prometido que faria as coisas do jeito dela. Então, derrotado, ele apenas fez um sinal positivo com a cabeça:
"Obrigada, Shaoran" – ela agradeceu, de certa forma aliviada por ele ter cedido – "Por favor, fique com a Tomoyo e os outros, e os ajude, caso seja necessário. Eles estão...".
"Atrás daquela moita, eu sei! Por favor, cuide-se!".
"Eu vou!".
Com um olhar, os dois se despediram, ele indo para onde os outros estavam. Tomoyo estava chocada: como Sakura havia descoberto que eles estavam ali? Já os outros estavam mais preocupados com a luta iminente, os guardiões já haviam voltado às verdadeiras formas, prontos para ajudar a Mestra quando fosse necessário. Yamato também havia voltado à verdadeira forma, enquanto Meilin e Shiefa estavam em posição de alerta, prontas para atacar. Meilin estava esperando ansiosamente para ter uma oportunidade de se acertar com Rytwild, não havia engolido a história da hipnose. Mas nenhum deles se atreveu a se mexer... Sakura queria lutar sozinha.
"Eu não sei o que você quer de mim, ou por que está fazendo isso, mas não vou perguntar mais!" – Sakura a encarou firmemente – "Agora a luta vai ser pra valer".
Novamente, Rytwild nada respondeu. Com a mão, ela fez um sinal, mandando Sakura se aproximar. A card captor conjurou o báculo, e também se posicionou.
Diferente do que Sakura pensava, Rytwild não a atacou com magia, e sim com golpes de artes marciais, parecidos com os que Shaoran e Meilin costumavam usar, mas extremamente mais habilidosos. Por pouco conseguiu desviar do soco direto que a bruxa lhe lançou, e teve que se esforçar para não ser atingida pela rasteira que ela aplicou em seguida. Não era a primeira vez que Rytwild usava golpes físicos nela, mas da última vez ela estava sendo guiada por Shaoran, e estava de olhos fechados. Não sabia da velocidade e perfeição que ela tinha nas artes marciais.
Rytwild lhe dava golpes sucessivos e fortes, e Sakura ficava cada vez mais encurralada. Não podia continuar na defensiva, tinha que atacar logo. Mas, para tanto, precisava conjurar sua magia, pois nas artes marciais ela perderia feio. Habilidosa, ela foi dando cambalhotas para trás, de forma bastante rápida, até atingir uma considerável distância da adversária. Mais do que imediatamente, ela invocou os poderes da carta Água, mas Rytwild, para sua surpresa, os bloqueou com uma rajada de fogo que do nada apareceu. A mulher, percebendo o leve estado de choque de Sakura, aproveitou e lhe deu um chute na boca do estômago, tirando o fôlego da jovem. Porém, Sakura não desistiu: com força de vontade, se levantou a tempo de aparar um outro golpe e jogar a adversária longe. Rytwild, facilmente, se levantou e voltou a atacar Sakura, e essa se defendeu utilizando a Carta Corrente.
Durante vários minutos, a luta se manteve constante, mas depois Sakura começou a levar desvantagem. Rytwild tinha uma excelente técnica de luta, e em níveis mágicos, as duas empatavam. Sakura fez de tudo para se manter na luta, mas assim que viu que não agüentaria, começou a pensar em uma maneira de se retirar. Não gostava da idéia de fugir, mas não estava em condições de lutar. Tinha que ser esperta, ia esperar. Só que seus planos foram frustrados quando a mulher, extremamente veloz, a pegou pelo pé e a encurralou, subindo em cima de seu corpo.
Sakura tentou, a todo custo, escapar, mas Rytwild a mantinha bem presa. Com o olhar totalmente em chamas, a bruxa se aproximou bem do rosto dela, e sussurrou em um tom quase inaudível:
"Não vou deixar vocês se unirem, Kinomoto... não agora que consegui essa vitória".
Sakura arregalou os olhos, pensando no que ela queria dizer com aquilo. Mas, preferindo pensar naquilo depois, ela juntou todas as suas forças e empurrou a mulher, fazendo-a cair para o lado. Levantou-se rapidamente, e logo em seguida se colocou em posição. Rytwild se levantou e também se colocou em posição de batalha. Já ia atacar quando tudo aconteceu.
De repente, uma estrondosa e notável presença se fez sentir. Ambas se surpreenderam, deixando a luta levemente de lado. No olhar de Rytwild, a raiva substitui por algo parecido com o medo, e logo em seguida apareceu o choque. Sakura estava espantada também, mas era por outra razão.
E então uma grande escuridão tomou conta do lugar. Um breu que não permitia que a vista de qualquer ser humano visse coisa alguma. Rytwild procurava desesperadamente pelo dono da presença que causara aquela escuridão, enquanto Sakura apenas se surpreendia mais e mais:
"Eu não acredito!" – ela pensava, um misto de preocupação e felicidade – "Eriol!".
Uma rajada de fogo cortou o ambiente, clareando, por alguns instantes, a visão de ambas. Nesse intervalo, uma visão deixou Sakura intrigada: logo atrás de Rytwild apareceram diversas pessoas, todas dos mais diferentes estilos. Eriol vinha à frente delas, junto com uma senhora de longos cabelos brancos e rosto sereno. Mas o que mais intrigou Sakura era que todas elas começavam a emanar presenças poderosíssimas, que só cresciam mais e mais.
Quando o breu voltou a tomar conta, Sakura não soube mais o que aconteceu. Antes de tudo se apagar, viu que Rytwild também se virou, e o olhar dela se arregalou. Depois disso, ouviu ela murmurar algo parecido com "vocês!" e imediatamente a presença mágica dela aumentou. Então, vários barulhos se seguiram. Sakura podia sentir que diversos ataques mágicos estavam sendo lançados, só não sabia quem os lançavam, tanto eram as presenças que lá estavam. Algumas vezes uma rajada de fogo era solta, e ela conseguia ver Rytwild lutando contra alguém do grupo, cada hora com uma pessoa diferente. Uma vez, ela até teve a impressão de ter visto um leão, mas achou que tinha sido imaginação. O fato era que aquela luta a deixava estática, sem condições de se mexer. O que Eriol estava fazendo ali? E quem eram todas aquelas pessoas?
Uma mão, de repente, tocou no seu ombro. Em um ato reflexo, Sakura virou-se rapidamente para trás e tentou golpear a pessoa com o báculo, mas essa se desviou. Ela continuou caçando o dono da mão, até que uma pequena luz brilhou nos seus olhos, fazendo-a ficar cega por alguns instantes:
"O que foi, Kinomoto? Quer me matar de susto?" – uma vez levemente familiar para Sakura soou – "Quase que você me acerta com essa coisa".
"Quem... quem está aí?" – Sakura perguntou, a visão voltando lentamente.
"Ora, vai dizer que você não lembra mais de mim?" – pouco a pouco, Sakura pôde identificar o dono, ou melhor, a dona da voz; essa segurava um pequeno cristal que iluminava levemente as coisas ao redor e que cegara Sakura por instantes – "Não faz tanto tempo que eu fui embora".
"Meu Deus" – Sakura se surpreendeu quando finalmente reconheceu a pessoa à sua frente – "Kimura?".
"Finalmente, hein?" – Mick parecia impaciente, e sem fazer cerimônia, pegou na mão de Sakura – "Vamos logo, você precisa sair daqui!".
"Sair? Sair pra onde? E o que você está fazendo aqui? Não deveria estar na França?".
"Perguntas serão respondidas mais tarde, Kinomoto! Agora eu preciso tirar você daqui, esse feitiço da Sally não vai durar muito tempo!" – a garota começou a puxar Sakura para uma direção qualquer, seu caminho sendo iluminado pelo pequeno cristal.
"Ei, pra onde você está me levando, Kimura? O que está acontecendo?".
"Estou te levando para onde estão os outros. Vamos rápido, eles não vão resistir muito tempo!".
Elas andaram por alguns minutos até que, graças à luminosidade do cristal, Sakura viu Tomoyo. A garota estava aflita, e assim que viu Sakura, a abraçou fortemente. Os outros fizeram o mesmo, visivelmente aliviados por vê-la sã e salva.
"Pronto, aí está ela!" – Mick disse, um leve sorriso no rosto – "Missão cumprida".
"Agora que a Sakura está bem, será que poderia explicar o que está fazendo aqui, Kimura?" – Yamato perguntou, seu tom de voz bem alterado.
"Eu já disse que explicações só virão mais tarde, Yuninoyo!" – ela respondeu, calma – "Não fique nervoso".
"Não fique nervoso?" – ele agora parecia incrédulo – "Uma escuridão aparece do nada, você surge de repente, nos traz pra cá, some e depois volta trazendo a Sakura. Como você quer que eu não fique nervoso?".
"Tudo já vai se esclarecer, tenha paciência" – ela deu de ombros – "A luta já vai acabar!".
"O que está acontecendo ali, Kimura?" – Sakura se pronunciou – "Quem eram aquelas pessoas todas?".
Mick não teve tempo de responder. Assim que Sakura havia acabado de falar, a presença de Rytwild desapareceu, mostrando que ela havia ido embora. Pouco a pouco, uma outra presença, de energia bem mais positiva, se fez notar, e logo tudo voltou a ficar claro. Sakura viu que estava quase na saída do Parque do Rei Pingüim, e que todos os seus amigos estavam ao seu lado. Ela se surpreendeu: sabia que tinha vindo muita gente ver sua conversa com Shaoran, mas não sabia que tinham vindo tantos. Até Touya estava lá!
Mas sua surpresa passou assim que viu o estranho grupo de pessoas se aproximar. Na frente deles ainda estava Eriol, com seu sorriso simpático e enigmático de sempre. Todos pararam quando os dois grupos de pessoas estavam bem próximos. Shaoran olhou desconfiado para todos, enquanto os outros apenas encaravam os estranhos de maneira bem curiosa.
"Como é bom vê-los de novo!" – Eriol se pronunciou, seu sorriso aumentando – "É excelente poder estar de volta, depois de tanto tempo. Confesso que sentia falta de vocês" - Tomoyo olhou para o inglês, um brilho no seu olhar que ninguém jamais havia visto antes, e se aproximou dele; Eriol a encarou sorrindo – "Como vai, Tomoyo?".
A garota sorriu e, num ato surpreendente, abraçou Eriol com força, seu rosto mostrando alegria e alívio ao mesmo tempo. Enquanto Tomoyo e Eriol ainda aproveitavam para matar a saudade naquele aconchegante e reconfortante abraço, Sakura observava a quantidade de pessoas em sua volta. Além de Mick, havia em torno de vinte pessoas a mais, das mais variadas idades. E todos olhavam para ela, olhares curiosos e admirados.
"Desculpa se estou sendo intrometida..." – Meilin começou, tendo todos os olhares voltados para ela – "mas o que está acontecendo aqui? Que monte de gente é esse?".
"Perdão por nossa indelicadeza, querida descendente de Clow" – aquela que parecia ser a pessoa mais velha dentre todas falou pelos colegas – "Muito prazer, somos a Hierarquia da Magia Natural".
Continua
Notinha (ou devo dizer "notona"?): pessoal, aí está o capítulo 13! E desculpa pelo atraso (de novo, eu sei, sou uma garota muito má!), mas nesses últimos tempos, com toda a história do vestibular, eu não tive tempo pra nada. E quando finalmente passou essa fase INSUPORTÁVEL, eu comecei a me dedicar totalmente à minha festa de formatura. Mas agora estou livre de novo, finalmente!
Como eu havia prometido, o Eriol finalmente voltou de vez para a história. E com ele muitas outras pessoas, todas elas desconhecidas para a nossa amiguinha Sakura (e para nós também, diga-se de passagem). É a Hierarquia finalmente dando as suas caras, depois de tanto tempo aparecendo apenas em citações e em pequenas cenas. E eles já chegaram causando impacto. Gostaram da cena em que eles param a Bruxa? Confesso que foi difícil colocar toda a emoção e adrenalina que eu queria que a cena tivesse, mas fiz o melhor que pude. Conto com a opinião de vocês para saber no que preciso melhorar.
E quanto ao nosso casalzinho, hein? Pelo jeito os acontecimentos do capítulo passado mexeram com os nossos protagonistas... como será que essa história irá terminar? Bom, a única coisa que posso dizer é que esse será um momento importante para a história. No começo da fic, havia dito que Sakura havia passado por algumas mudanças de personalidade, como, por exemplo, ser mais discreta e independente; porém, até agora vimos nossa heroína recebendo a ajuda de todos e de certa forma com o mesmo comportamento meio histérico da infância. Mas não pensem que eu enganei vocês, ela realmente mudou. Como puderam ver, havia um motivo para ela estar se comportando assim, e agora que ela está passando por um momento difícil, é a hora dela mostrar o quanto amadureceu. E ela vai mostrar!
Mudando um pouco de assunto, há algo que me intriga. Até agora, ninguém comentou nada sobre um personagem dessa história. Quer dizer, ninguém exceto a Nanda-chan (falando nisso, como vai amiga? Imagino que você também esteja passando pela mesma fase terrível que eu, né? Estou com saudades!). Ela percebeu há muito tempo, assim que essa personagem apareceu pela primeira vez, e olha que isso já foi há muitos capítulos. Achei que muitas pessoas iriam matar, mas pelo jeito... bom, vou deixar para ver se alguém ainda fala. No próximo capítulo digo quem é a personagem e falo mais sobre ela.
Pra acabar, a segunda parte da história "Como Senhores da Natureza surgiu".
Depois que ficou decidido que meu amigo Gustavo e eu escreveríamos a história juntos, comecei a pensar mais sobre a vilã Rytwild que ele queria tanto que existisse. Fiquei pensando em um motivo forte o suficiente para fazer com que ela roubasse as cartas de Sakura e "criasse" outras que a Card Captors deveria capturar. Por que as cartas eram tão importantes para ela? Foi então que, depois de observar um pouco as pessoas, cheguei na primeira característica da personagem: alguém que sempre desejou uma forma de se destacar no mundo, e através das cartas poderia fazer isso. Mas não era uma característica forte o bastante para o que meu amigo e eu queríamos. Eu tinha que pensar mais, muito mais.
Deixando a Rytwild um pouco de lado, decidi criar as características de outros personagens. Para isso, comecei a rever os episódios de CCS e pensar no que mudaria nos personagens e o que manteria. Foi aí que eu percebi um ponto da história que poderia explorar: Yue, até o dia em que Touya lhe deu seus poderes, era um guardião totalmente suscetível às fraquezas de seu dono, devido à fonte de seus poderes. Era algo de que Kero, Eriol e ele próprio tinham consciência, mas não faziam nada para mudar. A segurança das cartas e de Sakura vinham acima de tudo, até mesmo de suas próprias vidas. A partir daí comecei a pensar em como o Mago Clow lidava com essa situação, saber que um dia seu guardião tão querido poderia sucumbir graças às fraquezas que o novo dono das cartas, escolhido por ele, teria ao ser tornar dono de Kero e Yue. Algo me dizia que Clow não deixaria sua sucessora e as cartas desamparadas por causa de uma fraqueza que Yue tinha, uma fraqueza que ele não pôde evitar. Algo me dizia que ele havia tomado alguma precaução quanto a isso, algo que apenas ele (e Eriol, conseqüentemente), Kero e Yue tinham conhecimento. Foi então que a pequena Nakata surgiu na minha cabeça. Uma guardiã da Lua, que tivesse um poder extra que a fizesse independente dos poderes de seu dono, portanto não teria a fraqueza de Yue. Uma guardiã que, caso Yue sucumbisse, viria a substituí-lo. No começo, a idéia de inserir a Nakata na história me empolgou bastante, mas assim que contei ao Gustavo sobre a idéia, ele me alertou que, no final do anime, Yue já não possui essa dependência do dono e que a Nakata seria um "personagem flutuante" na história. Mas eu queria inserir a pequena, ela já tinha me conquistado. Então fiz questão de criar um enredo para a história em que ela tivesse um papel importante. Por algum tempo, esse enredo ficou indefinido.
Enquanto tudo isso acontecia, Gustavo e eu criávamos a história. Começamos com as cartas que Rytwild "criaria" e o que elas fariam. Foi um momento bastante engraçado, pois passava idéias absurdas por nossas cabeças. Em um dia, conseguimos descartar umas dez cartas totalmente malucas, de usos mais doidos ainda (Parede, por exemplo, acabou sendo descartada). Mas também chegamos a outras bastante interessantes, que ainda serão usadas. Teríamos criado mais se o final do ano não tivesse chegado e, com ele, as férias. Ficamos mais ou menos dois meses com a história parada, e isso foi tempo suficiente para que acabássemos desanimando. Até tentamos recomeçar, mas as pressões da oitava série (série terminal do Ensino Fundamental, pelo menos na época) e também o fato de que eu tinha começado a fazer cursinho preparatório para entrar em uma escola de ensino médio da região (que exige o que chamamos de vestibulinho para entrar) só ajudou para que desistíssemos de continuar. Eu andava muito ocupada e ele também. Talvez um dia continuássemos, pelo menos essa era a nossa esperança. Mas terminamos a oitava série, fomos para escolas diferentes e passamos a nos ver cada vez menos. Ali parecia ser o fim da nossa fic. Mas o ano passado começou, e com ele a faxina de começo de ano da minha mãe. E então tudo mudou.
Bom, por hoje eu vou parar aqui. Queria contar nesse capítulo como surgiu o Yamato e a Hierarquia, mas se eu for contar, a história vai ficar comprida demais, e de comprido basta o capítulo. Mas no próximo eu conto, e tento também detalhar mais sobre como eu finalmente "defini" a Rytwild. Quem sabe eu consigo? Bom, a todos vocês um beijo enorme, principalmente para todos que deixaram review (vou mandar recadinhos pra todos vocês por e-mail, viu? Não esqueci de vocês). Abraços e até a próxima!
Ps: eu não cheguei a mencionar no capítulo passado, mas Sakura recuperou mais quatro cartas: Sonho, Sono, Ilusão e Criatividade. Só pra constar...
Pps: Maki... valeu! Adorei a dica dos nomes.
