Depois de alguns anos, nunca imaginou se sentir entediada e desanimada. Certo, a sua vida não era das piores, ao contrário, sequer tinha do que reclamar. Mas ainda assim, algo faltava na sua vida, e pedia desesperadamente por ação. Bem, seu desejo foi atendido... agora, será que ela agüenta?
Disclaimer: Sakura Card Captors e todos os outros personagens são da Clamp®, eu só sou mais uma doida varrida que vou fazer todos eles sofrerem (se preparem, hoje o capítulo vai ser BEM LONGO!).
No capítulo anterior
Enquanto Tomoyo e Eriol ainda aproveitavam para matar a saudade naquele aconchegante e reconfortante abraço, Sakura observava a quantidade de pessoas em sua volta. Além de Mick, havia em torno de vinte pessoas a mais, das mais variadas idades. E todos olhavam para ela, olhares curiosos e admirados.
"Desculpa se estou sendo intrometida..." – Meilin começou, tendo todos os olhares voltados para ela – "mas o que está acontecendo aqui? Que monte de gente é esse?".
"Perdão por nossa indelicadeza, querida descendente de Clow" – aquela que parecia ser a pessoa mais velha dentre todas falou pelos colegas – "Muito prazer, somos a Hierarquia da Magia Natural".
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Capítulo 14 – A Hierarquia da Magia Natural
Sakura sentiu seu coração parar por alguns instantes, e uma leve tontura dominou a sua mente naquele momento. Meilin, que antes mantinha uma pose imponente e decidida, agora estava de boca aberta e seu rosto mostrava impotência e surpresa. Os guardiões se olharam surpresos, se perguntando com o olhar se haviam ouvido direito. Tomoyo soltou o abraço e olhou primeiro para o grande número de pessoas ao redor, para depois se voltar para Eriol e perguntar, com um olhar, se aquilo era verdade. Shiefa e Yamato soltaram uma exclamação, mostrando espanto. Touya não apresentava reação, estava estático. Todos estavam em estado de choque com as palavras da velha senhora, que sorria ternamente. Todos exceto Shaoran, que apenas encarou cada um dos presentes com um olhar desconfiado e muito sério.
Vendo que ninguém se manifestava, Eriol tomou a liberdade de se afastar de Tomoyo e se dirigir para onde a velha senhora estava. Pegou-lhe a mão e lhe sorriu, sendo retribuído:
"Acho que deve ir descansar agora, Sara" – ele disse, recebendo um aceno afirmativo da senhora – "Você já teve aventuras demais por hoje".
"Concordo com você, Eriol" – ela aumentou o sorriso – "Já não tenho mais idade para ficar na rua até essa hora. Mick, acompanha-me até o hotel?".
"Claro, senhora Whitman" – Mick segurou uma das mãos dela, para lhe dar apoio – "Vamos, segure-se em mim".
"Alto lá!" – Shaoran se pronunciou pela primeira vez, chamando a atenção de todos e fazendo Sara e Mick pararem – "Precisamos de algumas explicações por aqui; e sinto lhe dizer, senhora Whitman, que não permitirei que saia daqui sem que esclareça o que acabou de dizer".
"Shaoran!" – Shiefa repreendeu o irmão – "Isso é jeito de tratar uma senhora?".
"Deixe, menina" – a velha sorriu para Shiefa, e em seguida voltou-se para Shaoran – "Eu adoraria lhe explicar algumas coisas, senhor Li, mas acredite, não é saudável para a minha saúde ficar acordada até tarde. Por isso, deixarei as explicações aos cuidados de Eriol. Tenho certeza de que ele esclarecerá todas as suas dúvidas".
Shaoran olhou feio para Eriol, que apenas sorriu de volta. A senhora Whitman deu risada, achando graça da situação:
"Bom, pelo jeito estamos entendidos" – ela comentou, voltando-se em seguida para uma mulher de longos cabelos negros e pele levemente morena – "Acho melhor vocês o acompanharem, assim Eriol já os apresenta".
"E quanto aos outros, Sara?" – a mulher indicou com um olhar as outras pessoas – "Vão conosco?".
"Melhor não. Será muita informação para uma noite só. Prefiro apresentá-los amanhã".
"Como quiser, Sara".
"Ótimo. Vamos Mick, ainda preciso desarrumar minhas malas. Boa noite, Alice. Até amanhã".
A senhora saiu acompanhada por Mick, que olhou para trás para acenar um adeus à Sakura e aos outros. Assim que sumiram de vista, Shaoran encarou Eriol seriamente, pedindo com o olhar explicações. O inglês apenas sorriu:
"Você continua impaciente, não?" – ele aumentou o sorriso, o que deixou o chinês apenas mais irritado; em seguida, olhou carinhosamente para Tomoyo, o que deixou a garota levemente ruborizada – "Escute, Tomoyo, será que sua mãe se importa se formos conversar na sua casa? O hotel não é um lugar muito apropriado, e precisaremos de espaço".
"Claro que não, pode usar a minha casa à vontade" – ela sorriu gentilmente para o amigo.
"Muito obrigado, Tomoyo, serei eternamente grato" – ele voltou para um jovem de aproximadamente vinte anos, de cabelos castanhos, olhos da mesma cor e pele bronzeada, porte físico bem trabalhado – "Daniel, poderia levar os outros Controladores ao hotel? Imagino que você tenha o endereço".
"Claro, Eriol, deixe comigo" – o jovem respondeu, voltando-se para os outros em seguida e batendo palmas – "Vamos lá, cambada, não tem mais nada pra ver aqui. Vamos, vamos, o show acabou".
Pouco a pouco as pessoas foram se retirando, restando apenas Eriol; a mulher de longos cabelos negros; um senhor de pele negra e cabelos levemente brancos, que tinha rosto sereno e vestia uma grande túnica; um homem japonês de cabelos castanhos e bem curtos; e uma mulher de cabelo loiro-escuro e cacheado, com olhos cor-de-mel e rosto fino. O inglês voltou-se para Sakura, que ainda estava em estado de choque, e lhe disse com um sorriso no rosto:
"Acalme-se, daqui a pouco você irá entender tudo. Vou lhe explicar o que está acontecendo".
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Já era quase dez da noite quando todos chegaram à casa de Tomoyo. Nakata, Yamato e Kero voltaram à identidade falsa, enquanto Yue, para evitar confusões, voltou a ser Yukito para entrar na casa, voltando à forma verdadeira quando todos se acomodaram no gigante quarto de Tomoyo. Cada um se acomodou em um lugar, ficando em pé apenas Eriol e os outros quatro desconhecidos.
Por alguns minutos, o ambiente ficou no mais absoluto e incômodo silêncio. Os desconhecidos olhavam atentamente para Eriol, como se esperassem que ele falasse alguma coisa. Os guardiões observavam os estranhos com um olhar desconfiado, assim como Shaoran fazia desde que se encontraram no parque. Shiefa, Meilin, Touya e Yamato olhavam o teto, como se procurassem uma distração. E Sakura brincava nervosamente com as mãos, mostrando não só inquietude, mas também nervoso, e por que não dizer? Medo também.
Tomoyo, percebendo que nada seria esclarecido com aquele clima, resolveu tomar uma atitude. Levantou-se bruscamente de sua cama, onde estava sentada, e seguiu com passos firmes para porta. Atitude que foi percebida por Sakura:
"Tomoyo, aonde você vai?".
"Vou buscar um chá para nós" – ela sorriu para a amiga, tentando-lhe passar calma – "Volto em alguns instantes".
"Não vá, Tomoyo!" – Eriol ordenou, fazendo a garota parar – "Quero que você também ouça o que tenho a dizer".
"Eriol..." – a mulher loira, de aparentemente trinta anos, falou o mais baixo possível, para não chamar atenção – "Você tem certeza? Ela sequer possui magia".
"Confio plenamente em Tomoyo, assim como em todos os outros aqui" – ele respondeu no mesmo tom, dando um sorrisinho meio desanimado em seguida – "Além disso, não poderia esconder nada dela. Tem um senso de observação inacreditável".
"Ah, então é ela?" – o senhor de túnica sorriu sarcasticamente – "Kaho nos falou dela, parece que você nunca a conseguiu enganar...".
Eriol, para a surpresa de todos, pareceu incomodado com o que o senhor disse. Ficou sério e o ignorou, mostrando leve irritação. Tomoyo, mesmo não sabendo o que havia feito Eriol tomar aquela atitude um pouco incomum, deu uma risada baixa. Ela sabia qual era a única coisa que irritava Eriol, e sabia que, de certa forma, ela tinha a ver com isso.
"Muito bem, já enrolamos demais" – Yue se levantou, visivelmente irritado, e encarou Eriol com raiva – "Explique o que está acontecendo, Clow, ou vamos embora agora mesmo".
"Acalme-se Yue, tudo ao seu tempo" – Eriol levantou a mão, e esse simples gesto já foi capaz de fazer o guardião se sentar novamente – "Antes, quero fazer as devidas apresentações" – ele colocou a mão no ombro do homem japonês – "Este é Tomio Kimura, e essa linda senhora..." – ele pegou a mão da mulher de longos cabelos negros – "é Alice Kimura, sua esposa".
"Kimura?" – Yamato estranhou a coincidência – "Por acaso são alguma coisa da Mick?".
"Na verdade somos pais dela" – respondeu Tomio – "Muito prazer".
"Esse senhor muito sábio é Akon Jotan, grande amigo meu" – Eriol continuou com as apresentações, indicando o senhor vestido com a túnica – "E esta linda dama é a senhorita Sally Callaway, também grande amiga minha" – ele apontou para a mulher loira.
"Muito prazer" – disse os dois recém-apresentados.
"Hiiragizawa... quem eles realmente são?" – perguntou Shaoran, ainda bastante desconfiado.
Eriol hesitou em responder. Sabia o que o chinês queria saber, mas algo o impedia de falar. Permaneceu em silêncio, procurando as palavras certas a serem ditas. Sakura, pela primeira vez desde que vira o amigo, encarou-o nos olhos, esperando também a resposta. O inglês olhou para o grupo que o acompanhava, e todos lhe sorriam, tentando passar coragem. Em seguida, ele olhou para Tomoyo, que lhe passou o mesmo sorriso. Suspirou, procurando coragem:
"Eles..." – começou, encarando Sakura nos olhos – "Eles são Controladores da Hierarquia".
Sakura sentiu a respiração ficar falha. Desde que suas cartas haviam sido roubadas, ela procurou saber que Hierarquia era aquela que Rytwild tanto falava, que organização tão misteriosa era essa que motivava uma pessoa a fazer atos tão baixos como a bruxa praticava. E, de repente, depois de tanto pesquisar, de tanto especular, lá estava ela, na sua frente. E, pelo o que Eriol havia dito antes de saírem do parque, estavam dispostos a darem explicações.
"Então, aquela senhora estava dizendo a verdade" – Touya concluiu, chamando a atenção de todos – "Vocês são mesmo da tal Hierarquia".
"O que sabe sobre a Hierarquia, Touya?" – Eriol perguntou, olhando seriamente o rapaz.
"Pouca coisa, apenas o que Yue me contou. Provavelmente o que todos aqui já devem saber".
"Você também faz parte dela, Clow?" – Yue perguntou.
Novamente Eriol ficou silêncio. Aquilo estava sendo mais difícil para ele do que imaginara. Era tantas coisas a serem reveladas em apenas uma noite que ficava com medo de assustar os amigos. Vendo que o amigo estava em um impasse, Sally Callaway resolveu ajudar.
"Vamos lá, Eriol. Viemos até aqui para isso".
"Tem razão, Sally" – ele sorriu para a mulher – "Sim, Yue, eu faço parte da Hierarquia. Sou o atual Controlador da Escuridão".
"Você é Controlador?" – Sakura se manifestou, sentindo que já não conseguia mais ficar quieta – "Você faz parte da Hierarquia e NUNCA nos contou?".
"Tecnicamente, ele não poderia contar" – Tomio saiu em defesa do inglês – "Além disso, ele assumiu o cargo há pouco tempo, e desde então não teve tempo para nada".
"Há quanto tempo é Controlador, Eriol?" – perguntou Tomoyo, olhando para o amigo.
"Há quase um ano, um pouco menos" – ele respondeu, sem olhar para a garota – "Assumi quando o último Controlador morreu".
"E por que não podia nos contar?" – perguntou Nakata, visivelmente confusa.
"Porque nenhum Controlador pode falar sobre a Hierarquia, nem mesmo ao seu melhor amigo" – respondeu Akon Jotan, seu tom de voz bem mais calmo do que o de Eriol – "Juramos manter segredo".
"Mas vocês estão falando para nós agora!" – Nakata ficou ainda mais confusa – "Se não podem falar, por que estão falando agora?".
"Essa é uma situação à parte, Nakateri" – Eriol tentava manter a calma no recinto, mas ele próprio parecia agitado – "Dessa vez é especial".
"Eu não estou vendo nada de especial aqui" – Sakura se exaltou, levantando-se do sofá onde estava – "Muito ao contrário, tudo que estou vendo é uma situação MUITO mal explicada".
"Kinomoto, acalme-se, por favor!" – Alice tentou acalmar os ânimos, mas só contribuiu para piorar.
"Co... como a senhora sabe o meu nome?" – Sakura olhou para a mulher com leve medo, não se lembrava de ter se apresentado a ela em nenhum momento. Alice na hora percebeu o que havia feito, e tapou a boca com as mãos. Tomio suspirou com pesar, percebendo que a situação estava saindo do controle, enquanto Sally balançou a cabeça levemente.
"A senhora Kimura já a conhece de longa data, senhorita Kinomoto" – respondeu Akon, ainda com o tom de voz calmo – "Assim como todos nós".
"E de onde vocês me conhecem?" – agora sim Sakura estava assustada, como quatro estranhos poderiam conhecê-la, e ainda por cima de longa data?
"Nós vamos lhe explicar tudo, Sakura, mas, por favor, acalme-se!" – Eriol já estava perdendo o controle, tinha que acalmar a situação antes que colocasse tudo a perder – "Se você se sentar, prometo que lhe conto tudo, mas eu preciso que você se acalme!".
Sakura respirou fundo, procurando paciência. Sentou-se lentamente no sofá, disposta a ouvir tudo que Eriol tinha a lhe contar. Olhou para o lado, onde Shaoran estava sentado. Ele estava quieto até aquele instante, mas ela sentia que ele estava tão agitado quanto ela. Não só sua presença, mas sua expressão também dizia isso.
Eriol respirou diversas vezes, também tentando manter a calma. Sabia que não poderia contar com a ajuda de Sara, então teria que tomar muito cuidado com o que diria. Fechou os olhos, num ato de concentração, e se sentou na cama de Tomoyo, que estava mais próxima dele. Ainda com os olhos fechados, começou:
"Eu sei que vocês já devem saber algumas coisas do que eu vou dizer, mas eu irei contar todos os detalhes para que não fique nenhuma dúvida. Antes de qualquer coisa, quero explicar o que é a Hierarquia e como ela funciona".
"Pode falar, Eriol, nós estamos escutando" – Tomoyo o encorajou. O inglês lhe sorriu, realmente agradecido, e em seguida se dirigiu à grande janela do quarto. Olhando o jardim de Tomoyo, começou a falar:
"A Hierarquia é uma organização composta por diversos feiticeiros e feiticeiras do mundo, que tem como único objetivo manter o equilíbrio natural do planeta. Não temos nenhuma intenção de obter poder, de controlar o mundo ou de qualquer objetivo semelhante. Em palavras mais grosseiras, nossa única missão é garantir que o mundo funcione da forma correta, e impedir que nenhum colapso aconteça".
"Colapso?" – Meilin se interessou pela expressão – "Tipo o mundo explodir ou algo assim?".
"Mais ou menos isso" – Eriol respondeu – "Claro que é uma missão bem mais complexa, mas basicamente é essa a idéia. Manter o mundo sob controle. Para tanto, nós, membros da Hierarquia, utilizamos a magia para garantir que essa missão seja cumprida, por isso a organização se chama 'Hierarquia da Magia Natural'. Alguma pergunta?" – ele olhou para todos e viu que estavam entendendo, portanto pôde continuar – "Bom, como todo conjunto, é necessário que se haja uma certa ordem para que as coisas funcionem, e a Hierarquia não foge a essa regra... Cada pessoa tem uma missão específica a ser feita, e pessoas com missões em comuns são reunidas em grupos, que nós chamamos de Classes. Na Hierarquia, cada Classe tem uma função, sendo que existe uma 'ordem' de poder entre elas".
"Uma 'ordem'?" – Shiefa ficou meio confusa.
"É, uma ordem" – Eriol tratou de se explicar – "As Classes, de acordo com a influência e com a quantidade de poder, são classificadas entre si. É como no Exército, onde um cargo é maior do que o outro".
"Isso quer dizer que há Classes mais importantes do que outras?" – Touya perguntou, curioso.
"Não! Embora as Classes sejam divididas dessa maneira, nenhuma é mais importante do que a outra, mesmo porque uma depende da outra para todas cumprirem sua missão. Mas mesmo que uma seja mais forte do que a outra, todas têm a mesma importância".
"E como elas são classificadas?" – Meilin perguntou, interessada no assunto.
"Se não tivesse saído mais cedo nos últimos encontros, saberia a classificação" – Kero provocou a garota.
"O que disse?" – ela gritou, mostrando irritação.
"Chega, Kero!" – Sakura fez o guardião se calar – "Continue, Eriol!".
"Obrigado, Sakura!" – o mago agradeceu – "A Classe mais 'fraca', por assim dizer, é a Classe dos Espíritos, composta por dois membros: o Controlador dos Fantasmas e o Controlador dos Anjos".
Sakura sentiu um arrepio só de ouvir a palavra fantasma, perturbação que não passou despercebida por Shaoran. Mas o garoto resolveu não dizer nada. Ainda não era momento.
"Controlador é a denominação que os membros da Hierarquia recebem, não é mesmo?" – Yamato perguntou.
"Exatamente" – Eriol confirmou – "Todos os membros que pertencem a uma Classe são chamados de Controladores. Na classe superior a dos Espíritos, por exemplo, há tantos Controladores que não se sabe o número exato".
"A Classe dos Seres Vivos, suponho" – Tomoyo comentou, recebendo um aceno afirmativo de Eriol.
"Essa mesma, Tomoyo. Não vou dizer quem são os Controladores, mesmo porque, como já disse, não se sabe o número exato. Mas há alguns mais conhecidos, inclusive quatro deles vieram conosco para o Japão".
"Estavam naquele grupo que apareceu no parque?" – perguntou Shaoran.
"Estavam sim. Vieram os Controladores dos Felinos, dos Primatas, das Rapinas e dos Caninos".
"E a classe superior à dos Seres Vivos, qual é?" – foi a vez de Nakata perguntar.
"É a Classe dos Fenômenos, composta por nove membros" – Eriol olhou para Sally – "Se eu não bem me engano, vieram todos para cá, não?".
"Monique chega amanhã" – a loira respondeu – "Teve que levar o filho de volta à Alemanha".
"Espera aí!" – Sakura interrompeu, uma pergunta martelando na sua cabeça – "Quantos membros da Hierarquia vieram para o Japão?".
"Vieram os dois Controladores dos Espíritos, quatro dos Seres Vivos, oito dos Fenômenos – sendo que o nono chega amanhã – e os seis dos Elementos Naturais" – respondeu Tomio, fazendo as contas – "Contando a Mick, que é nossa assistente, teremos vinte e dois membros".
"Espera aí" – foi a vez de Shaoran fazer sua colocação – "Isso quer dizer que praticamente a Hierarquia toda veio?".
Eriol novamente ficou em silêncio. Não era uma pergunta que não pudesse ser respondida, mas ele sabia muito bem o rumo que aquela conversa tomaria se ele respondesse. E ainda não era momento, queria terminar de explicar sobre a Hierarquia antes. Era importante que tudo ficasse muito claro, por isso ele tinha que fugir da questão colocada por Li. Olhou para Tomoyo, orando internamente para que ela o entendesse.
"Tomoyo... acho que irei aceitar aquele chá agora!" – ele olhava fixamente para ela, pedindo para sair dali – "Creio que nos fará muito bem agora".
"Eu concordo com Eriol" – Akon percebeu que Eriol queria fugir da pergunta de Shaoran, e resolveu ajudá-lo – "Um chá seria excelente agora".
"Eu também queria um" – Alice pediu. Não entendia porque Eriol e Akon haviam tomado aquela atitude, mas pressentiu que deveria ajudá-los – "E aposto como Tomio também aceita".
"Quê?" – Tomio olhou confuso para a esposa, e recebeu como resposta uma bela pisadela no pé, tendo que esconder a exclamação de dor quando percebeu que deveria entrar no jogo – "Ah sim, claro, um chá seria ótimo".
"Eu também quero, Tomoyo!" – Sally resolveu seguir os outros, sabia que algo estava acontecendo, só não sabia o que era.
"Bom... acho que vou precisar de ajuda para trazer os chás" – Tomoyo, vendo o olhar de Eriol direcionado para si, entendeu perfeitamente o que ele queria, e tratou de ajudá-lo – "Pode me ajudar a trazer, Eriol?".
"Claro, será um prazer".
Os dois saíram correndo dali, antes mesmo que Shaoran pudesse protestar. Acelerando ainda mais o passo, eles chegaram à cozinha, ambos sentando em alguma cadeira e relaxando o corpo depois da corrida.
"Pronto, Eriol, você já está em segurança agora" – Tomoyo comentou, abrindo um sorriso – "Sabe, você me deixou bastante curiosa".
"Deixei?" – Eriol olhou para ela, meio confuso – "Por quê?".
"Fiquei imaginando que resposta era essa que você não quis dar ao Shaoran. Aposto que é algo que levará a conversa a outro rumo, não é?".
"Você me pegou mais uma vez" – ele suspirou, endireitando o corpo – "Como sempre".
"Parece que isso o incomoda, não?".
"Não me incomoda, só... me deixa intrigado".
"Intrigado?" – agora ela estava confusa.
"É. Às vezes fico pensando como você não me descobriu na época em que a Sakura estava transformando as cartas. Naquela época consegui passar despercebido por você, mas hoje eu não consigo esconder mais nada!".
"Naquela época não éramos tão amigos como hoje" – ela sorriu para ele – "Além disso, tive muitos anos para te conhecer como o conheço agora".
"Tem razão" – ele sorriu, enquanto pegava uma bandeja para Tomoyo colocar as xícaras de chá – "Mais uma vez".
"Estive pensando..." – o tom de voz dela ficou mais sério – "quando as cartas da Sakura foram roubadas, você me disse que havia coisas que não poderia contar. Lembra-se disso?".
"Lembro sim" – Eriol também ficou mais sério; ajeitou os óculos - "Não era o momento adequado".
"A resposta da pergunta de Shaoran tem alguma coisa a ver com isso?".
Eriol encarou Tomoyo por alguns instantes. Ela sorria ternamente para ele, seu olhar transmitia carinho e compreensão. Era incrível como o olhar da garota tinha um efeito confortador, e mais incrível ainda era como ele estava descobrindo gostar daquele olhar.
"De certa forma sim" – ele respondeu, sorrindo também – "Você vai entender, daqui a pouco. Assim que eu terminar de explicar sobre a Hierarquia".
"Por que faz tanta questão de nos contar os detalhes?".
"Ué, vocês não queriam saber? Ficaram procurando informações durante semanas".
"Sim, mas porque queríamos saber as verdadeiras intenções de Rytwild, e não porque tínhamos alguma curiosidade maior sobre a Hierarquia".
"E é exatamente por isso que estou contando todos os detalhes" – Eriol suspirou pesadamente – "Para vocês entenderem o que está acontecendo".
"Acho que entendo" – ela olhou para as xícaras de chá, desviando do olhar do amigo – "E tem alguma outra razão?".
"Por que diz isso?".
"Porque o seu tom de voz está dizendo".
Eriol sorriu, pensando que não havia escapatória mesmo. Pegou a bandeja com as xícaras da mão de Tomoyo, o que fez a menina olhar surpresa para ele:
"Carregue o açúcar, eu levo a bandeja!" – ele ainda sorria, o que a fez sorrir também.
"Não vai responder a minha pergunta?".
"Para quê? Você já sabe a resposta" – ambos começaram a caminhar para o quarto dela.
"E a do Shaoran? Como você vai escapar dela?".
"Você vai ver".
Em alguns minutos eles chegaram ao quarto. Eriol respirou fundo, tentando buscar coragem para terminar o que tinha que fazer. Sabia que ainda teria que fugir de certas perguntas que certamente viriam, algumas delas ele sequer saberia responder. Mas tinha que ir até o fim, não só pela gravidade do problema que tinham, mas também pela necessidade de dar um pouco de conforto à sua amiga Sakura, que estava tão confusa graças a algo que ela, definitivamente, não tinha culpa.
Tomoyo visivelmente percebeu o estado inquieto do amigo. Nunca, em tantos anos, havia visto Eriol tão perturbado. Mas não o culpava, ela também estava nervosa com a situação. Até o dia do roubo das cartas, o mundo parecia mergulhar em uma calma que chegava a ser chata. Assim como Sakura, ela também desejava um pouco de aventura, mas não daquele tipo. De repente tudo havia virado de cabeça pra baixo, Sakura mergulhara em um estado de confusão tão grande que sequer parecia ela mesma. Pensou quanto tempo a amiga ainda agüentaria. Por enquanto, ela ainda estava reagindo de maneira incrivelmente madura, mas será que ela reagiria assim para sempre?
"Vou abrir a porta" – ela anunciou, mas antes que pudesse cumprir a palavra, sentiu uma mão forte a segurando. Virou-se para trás: Eriol segurava a bandeja apenas com a mão esquerda; a direita a segurava. Sentiu um leve calor subir - "Algum problema, Eriol?".
"Queria te pedir mais um favor" - ele apertava o braço dela fortemente - "Quando eu terminar aqui, poderia falar com você em particular? Há algo que quero te pedir".
"E por que não fala agora?".
"Porque eu preciso que você ouça o que tenho a dizer à Sakura. Só depois disso poderei pedir o favor. Pode vir conversar comigo?".
"Claro! Não precisava nem pedir".
"Outra coisa: traga Nakata também. Sinto que ela poderá ajudar" - ele soltou o braço dela e sorriu - "Agora você abrir a porta".
Tomoyo retribuiu o sorriso e abriu lentamente a porta. Assim que teve total visão do seu quarto, levou um leve susto. Viu um aglomerado de pessoas rodeando um único elemento, e todos estavam em um silêncio tão compenetrado que a garota até estranhou. Colocou o açúcar na mesa, assim como Eriol deixou a bandeja de chá. Ele mantinha um sorriso bem discreto no rosto. Tomoyo se aproximou bem lentamente da roda, Eriol logo atrás dela. Quando estava conseguindo ver quem estava ao centro...
"TRUCO!".
Um grito alto e grave se fez ouvir, junto com uma forte batida na mesa. Logo em seguida, Tomoyo soltou um grito alto e agudo, pulando longe da roda e se agarrando a Eriol, que apenas aumentou o sorrisinho que tinha no rosto. Todos que estavam na roda olharam para trás, a fim de ver quem havia se assustado tanto. Quando a morena percebeu todos os olhares voltados para ela, sentiu seu rosto ficar vermelho e rapidamente se soltou dos braços do amigo.
"Nossa, Tomoyo!" - Meilin comentou, vendo o estado em que a morena havia ficado - "Você está com uma cara péssima".
"Acho que ela não está acostumada a ver um jogo de truco" - a senhora Kimura comentou, virando para o centro da roda - "Eu disse que não seria uma boa idéia você entrar nessa, Tomio".
"Ah, querida, a garota não sabia o que estava acontecendo" - Tomoyo percebeu que o senhor Kimura era uma das pessoas que estavam no centro do círculo - "Além disso, eu não dei o grito!".
"Então quem deu esse grito horroroso?" - a morena viu a roda se abrir, mostrando quem era a outra pessoa que estava lá; abriu a boca em espanto.
"Desculpa, Tomoyo, eu gritei!" - Shaoran se encolheu levemente, envergonhado - "Acho que passei dos limites".
"Será que alguém poderia me explicar o que está acontecendo?" - Tomoyo colocou as mãos na cintura, sinal de que estava levemente furiosa; aquela não era uma situação muito normal.
"Acho que a culpa foi minha!" - Shiefa se manifestou - "Como vocês estavam demorando muito com o chá, e a situação aqui estava meio... 'chata', eu propus jogarmos truco. Sabe, pra ver se aliviava o ambiente" - o rosto dela ficou levemente vermelho - "Como o senhor Kimura topou, eu não vi nenhum problema. Mas quando eu perdi, esse tapado do meu irmão assumiu meu lugar e só faltou derrubar a casa".
"Espera aí!" - Tomoyo agitou as mãos, exasperada - "Que eu saiba, eu não tenho baralho aqui em casa. De onde vocês tiraram um?".
"Eu trouxe!" - Shiefa deu de ombros - "Sempre levo um comigo".
"Você carrega um baralho no bolso?" - Tomoyo esbugalhou os olhos, meio espantada, e recebeu um aceno afirmativo de Shiefa.
"Desculpe-nos pela bagunça, Tomoyo" - o senhor Kimura se levantou, acompanhado de Shaoran - "Vamos parar agora mesmo".
"Na verdade" - começou Eriol, um sorriso travesso no rosto - "Acho que deveriam continuar com o jogo".
"Acha?" - Tomoyo olhou para Eriol, tentando entender o que ele pretendia.
"Acho. Isso, claro, se você permitir, Tomoyo!".
"Bom... por mim, não há problema. Só não façam muito barulho, sim?".
"Pode deixar, querida Tomoyo" - Eriol se sentou no centro da roda, pegando o baralho que estava na mesinha - "Muito bem, quem será meu parceiro?".
"Você também vai jogar, Eriol?" - o senhor Jotan levantou uma sobrancelha, desconfiado.
"Creio que sim, Akon" - o inglês olhou para ele - "Aceita ser meu parceiro?".
"Melhor não" - o senhor sorriu - "Prefiro ficar olhando".
"Então eu entro no jogo" - Shiefa se sentou ao lado do irmão - "Quero ver se a reencarnação de Clow sabe jogar".
"Isso tudo é para fugir da minha pergunta, Hiiragizawa?" - Shaoran perguntou, fuzilando o inglês com os olhos.
"Pergunta? Que pergunta?" - Eriol fez cara de inocente - "Não me lembro de você ter me perguntado algo".
Tomoyo fez esforço para não rir. Então essa seria a tática de Eriol... como ele podia ser cínico às vezes!
"Você está brincando comigo, Hiiragizawa" - Shaoran voltava a se exaltar - "Eu te fiz uma pergunta antes de você sair correndo daqui, e quero respostas!".
"Desse jeito ele vai acabar quebrando a mesa da Tomoyo!" - Nakata comentou para Kero - "Não seria melhor deixar ele de fora da partida? Vá que ele se empolga de novo...".
"Eu adoraria responder à sua pergunta, Shaoran, isso se eu soubesse qual é ela" - Eriol sorriu - "Além disso, agora devemos nos concentrar no jogo. E, enquanto isso, continuo falando sobre a Hierarquia" - ele olhou para a senhora Kimura - "Onde parei, Alice?".
"Elementos Naturais" - ela respondeu, em tom de voz baixo.
"Ah sim" - Eriol embaralhou as cartas e logo em seguida passou a distribuir - "A Classe dos Elementos Naturais é a que possui a maior quantidade de poder na Hierarquia. Todos os membros são feiticeiros extremamente poderosos, de uma habilidade incrível. É formada pelos Controladores do Fogo, da Água, da Terra, do Vento, da Luz e da Escuridão".
"E desde quando Luz e Escuridão são elementos naturais?" - Touya perguntou, estranhando a classificação.
"Embora não sejam considerados elementos naturais pelos homens, Luz e Escuridão são tão essenciais à vida quanto fogo ou água, por exemplo. Shiefa, cuidado com suas cartas" - ele olhou para a parceira de jogo - "Tomio é ótimo para ver as cartas dos outros".
A jovem Li olhou feio para o homem à sua frente e escondeu o máximo que pôde as suas cartas. Eriol sorriu:
"Terá de ser mais esperta, Shiefa! Senão, vai acabar sendo enganada pelo Controlador do Fogo!" - o inglês comentou, jogando a primeira carta.
"Controlador do Fogo?" - Sakura perguntou, atraindo todas as atenções para ela - "O senhor é Controlador do Fogo?".
"Sou sim" - Tomio respondeu, também descartando sua carta - "Todos nós aqui somos Controladores... e todos da Classe dos Elementos Naturais, diga-se de passagem".
"Uau!" - Nakata deixou escapar a exclamação - "Todos dos Elementos Naturais... que poderosos".
"Nem tanto assim, querida!" - Sally, enquanto se servia de uma xícara de chá, comentou com um sorriso - "Nesse mundo há bruxos bem mais poderosos do que nós. Isso sem dizer que a controladora mais forte da Classe sequer está aqui".
"E quem seria?" - perguntou Kero, olhando atentamente os convidados.
"A senhora Whitman, Controladora do Vento" - respondeu Akio - "Ou Sara, como costumamos chamá-la".
"E vocês?" - foi a vez de Yue questionar - "Que funções desempenham?".
"Eu sou Controladora da Água" - Alice respondeu, também se servindo do chá de Tomoyo - "Akio é Controlador da Terra, e Sally é a Controladora da Luz. As funções de Eriol e Tomio vocês já conhecem".
"Isso quer dizer que a Classe dos Elementos Naturais está toda aqui?" - Yamato perguntou, meio incrédulo - "Ou quase toda, acho eu...".
"Exatamente!" - Eriol respondeu, sorrindo por ele e Shiefa terem ganhado a primeira rodada, o que deixou Shaoran muito bravo - "Mas não viemos falar sobre a nossa Classe, viemos falar da Hierarquia em geral. E ainda há dois cargos dos quais eu quero falar, e que não se encaixam em nenhuma classe" - ele olhou para o rosto de Shaoran, e em seguida para o de Sakura - "Sub-Regente e Regente".
Todos os presentes prenderam a respiração, até mesmo os convidados de Eriol. Havia algo naquele dois cargos que interessava a todos, até mesmo àqueles que já sabiam do que a conversa se tratava. Sakura sentiu o coração apertar, sua ansiedade correndo por todo o corpo. Será que finalmente descobriria os segredos de Rytwild, que indiretamente a envolviam? Um soco na mesa foi ouvido: Shaoran acabara de descartar uma carta.
"Como se sabe, toda organização precisa de alguém que a lidere, para que um certo equilíbrio seja mantido" - Eriol começou, enquanto via, com certa decepção, que Shaoran e Tomio ganharam a segunda rodada - "Na Hierarquia, não podia ser diferente. Então, para nossa sorte, surgiu aquele que costumamos chamar de Regente. Como todos devem saber, ele é o membro mais poderoso da Hierarquia, superando, inclusive, o poder dos seis Controladores dos Elementos Naturais juntos. Para auxiliá-lo, também surgiu o Sub-Regente, que é quase tão poderoso quanto o Regente, isso quando o poder dos dois não é igual. Juntos, ele tem a função de cuidar da Hierarquia, distribuindo as missões e resolvendo os problemas"
"Se eles possuem a mesma função, por que há diferenciação de cargos?" - Meilin perguntou, interessada.
"Porque há coisas que o Regente pode fazer que o Sub-Regente não pode" - Eriol ficou sério - "A pessoa que é escolhida como Regente tem o incrível poder de controlar toda a natureza, isso sem contar que pode manipular os poderes de todos os membros. É, sem sombra de dúvidas, um poder muito grande, e nem todos podem tê-lo. Por isso o cargo de Regente é extremamente cobiçado, e se o próprio não tomar cuidado, pode se corromper com tamanha força".
"E o Sub-Regente?" - Nakata perguntou, admirada com o que Eriol contava - "Ele também pode fazer essas coisas?".
"De maneira alguma" - Eriol baixou a cabeça, parecia se lembrar de alguma coisa - "O Sub-Regente, nesse quesito, é igual a todos os outros membros. Na verdade, a única coisa que o diferencia é que é bem mais poderoso, e também possui uma missão em particular. O Sub-Regente é aquele que, automaticamente, tomará conta da Hierarquia quando o Regente estiver ausente, cuidando de todos os problemas e missões".
"Ele vira Regente, então?" - Sakura perguntou, e viu o rosto de Eriol ser tomado de um extremo espanto.
"NÃO!" - havia certo desespero na voz dele - "De forma alguma isso pode acontecer. Mesmo que o Regente morra, o Sub-Regente nunca assume o seu lugar. Ao assumir a Hierarquia, sua função é apenas administrativa, o que significa que nunca poderá ter o poderio que o Regente possui".
"E por que não?" - Tomoyo perguntou, sentindo que a conversa finalmente tinha atingido o ponto máximo.
"Todos os membros da Hierarquia nascem destinados aos seus cargos, e seus poderes se desenvolvem de acordo com a necessidade que lhes é exigida. Eu, por exemplo: embora saiba controlar todos os elementos da Natureza e criar os mais diversos fenômenos, minha maior especialidade é lidar com a Escuridão, que é o elemento com o qual trabalho. O que estou querendo dizer é que apenas o Regente é capaz de desenvolver os seus poderes até tão extremo ponto, pois ele foi o escolhido para isso, e somente dele será exigido tanta força. Mesmo que o Sub-Regente treine, seu corpo não foi feito para suportar tal poder, e só por causa disso ele não pode assumir a Regência" - em silêncio, Eriol descartou a última carta daquela rodada, um zap, o que deu a ele e Shiefa a vitória do jogo - "E é aqui que começo a minha história".
"História?" - Sakura perguntou, seu coração batendo estranhamente rápido.
"Sim, Sakura, história" - Eriol se levantou para pegar a sua xícara de chá, e em seguida se sentou novamente - "Agora que vocês sabem o funcionamento básico da Hierarquia, posso explicar algumas coisas que estão acontecendo por aqui. Coisas que estão envolvendo vocês".
"Você quer dizer Rytwild?" - Shaoran perguntou, encarando o inglês seriamente.
"Ela e outras coisas, mas principalmente ela" - Eriol encarou Sakura - "Rytwild, ou Hina, como era comumente chamada, foi, há muito anos, Sub-Regente da Hierarquia".
"O quê?" - Sakura sentiu o choque tomar conta de seu corpo - "Ela, Sub-Regente? Mas... como?".
"Nem sempre Hina foi desse jeito que é hoje" - Eriol tomou um gole de chá, antes de continuar - "Quando o Mago Clow a conheceu, era uma garota doce e carismática, mas que, infelizmente, nem sempre encontrou o carinho necessário a qualquer ser humano".
"Então, ele realmente a conheceu?" - o coração da Card Captor se apertou; a bruxa havia dito a verdade.
"Sim, ele a conheceu. E é exatamente por esse ponto que quero começar. Contando sobre como os dois se conheceram" - ele colocou a xícara de chá, já vazia, na mesa - "Quando o Mago Clow tinha em torno dos seus vinte e cinco anos, ele fez uma viagem até as montanhas do Monte Fuji, sendo essa a primeira vez que vinha ao Japão. Lá, ele conheceu uma jovem de apenas catorze anos, habitante da região, e que era extremamente bela. Hina Rytwild, esse era o seu nome. Uma jovem órfã, que morava em um orfanato das redondezas, já que seus pais haviam morrido devido a uma doença que se espalhava na época, quando ela ainda era criança".
"Isso é triste" - Nakata comentou - "Até mesmo pra aquela megera velha".
"Tão triste que foi um dos fatores para ela ser hoje assim" - Eriol juntou as mãos, o que lhe dava um ar de inteligência bastante característico - "Mas eu já chego lá. Estava falando do dia em que Clow conheceu Hina. Sem sombra de dúvidas, um dia que ele jamais esqueceu. Hina se mostrara, desde o começo, uma pessoa decidida e inteligente, e tinha uma beleza realmente singular. A sua personalidade forte foi algo que o impressionou muito, pois naquela época era muito raro ver mulheres tão decididas quanto ela. Isso sem falar na imensa paciência que ela possuía".
"Paciência?" - Shiefa levantou uma sobrancelha, enquanto embaralhava as cartas - "Isso é algo bastante difícil de imaginar".
"Era uma pessoa boa" - Eriol suspirou - "Por ser uma das mais velhas do orfanato, ela cuidava das outras crianças, e fazia isso com um afeto inigualável. Mas, como eu já disse, ela nem sempre recebeu o carinho necessário, e isso acarretou na amargura que ela possui hoje. Quando somos ignorados, principalmente nessa época da adolescência, a raiva e tristeza se acumulam dentro de nós, e na idade adulta somos obrigados a lidar com elas de alguma forma. No caso de Hina, os fatores e a própria personalidade levaram-na a tomar uma decisão errada".
"Que tipo de decisão ela tomou?" - Sakura perguntou, sua ansiedade aumentando a cada instante.
Eriol a olhou seriamente por alguns instantes. Sentiu que o amigo a analisava, pensando nas palavras que deveria falar. Ele estava indeciso, ela percebia isso. O motivo, no entanto, ela desconhecia.
"Um pouco antes de Clow retornar à sua casa, ele prometeu à Hina que voltaria para tirá-la daquela vida. Ele havia se afeiçoado a ela, seu carisma e a forma como enfrentava as dificuldades o deixaram maravilhado. Ele conheceu a vida dela, e queria, sinceramente, ajudá-la. Mas, durante esse tempo em que esteve fora, Hina passou pela pior provação que poderia. O diretor do orfanato, em um ato de covardia, abusou de sua inocência" - ele olhou para todos os presentes, que estavam confusos com suas palavras; resolveu se explicar melhor - "Ele tentou estuprá-la".
As bocas das garotas se abriram em um grito silencioso, enquanto os garotos se limitavam a arregalar os olhos em um ato de espanto e raiva. Apenas os controladores da Hierarquia não alteraram suas expressões. Eles já deviam conhecer a história.
"Meu Deus..." - Tomoyo foi a única que conseguiu se pronunciar entre todos - "E ele conseguiu?".
"Não" - Eriol abaixou levemente a cabeça - "Por alguma razão que os habitantes locais desconheciam, Hina conseguiu deixá-lo desacordado e, aproveitando a oportunidade, fugiu no meio da noite, para um lugar que ninguém conhecia. Quando Clow retornou ao Japão para reencontrá-la, ficou sabendo da história e se magoou profundamente. Sua afeição por Hina era sincera, e ele sentia que não podia desistir de ajudá-la. Decidido, andou por todo o Japão, procurando por ela em cada cidade".
"Falando desse jeito, até parece que ele havia se apaixonado por ela" - Meilin comentou casualmente, mas ao perceber a expressão que Eriol fez ao ouvir a frase, seu queixo caiu levemente - "Espera aí... não vai dizer que...".
"Isso mesmo, Meilin" - Eriol encolheu os ombros - "Clow havia se apaixonado por Hina".
Novamente, um silêncio se espalhou no ambiente, mas dessa vez carregava consigo um ar de incredulidade. Os rostos dos jovens presentes estavam sem expressão, mostrando o choque que haviam tido. O único que apresentava alguma reação era o de Nakata, que depois de alguns segundos se contorceu em uma careta antes dela gritar:
"QUE NOJO!".
"Eu sei que para vocês parece estranho, mas quando Clow conheceu Rytwild, ela era muito diferente do que é hoje. Ela respeitava as pessoas e a natureza, e tinha esperanças de ter uma vida feliz" - Eriol suspirou, lembranças vindo à sua mente - "Apesar da pouca idade, Hina era uma mulher já, admirável e bela. E essa mulher ele buscou por todos os cantos do Japão. Claro que, durante essa jornada, ele aprendeu muitas coisas, e conheceu diversas pessoas interessantes. Foi quando que, dois anos depois que havia voltado ao país, ele a encontrou, em Okinawa. Linda como ele lembrava, mas, pra sua tristeza, já totalmente transformada" - ele olhou para os presentes, e sentindo que ninguém o interromperia, continuou - "Como vocês devem imaginar, uma criança condenada a viver em um orfanato daquela época não recebia condições para viver sozinha no mundo, e essa foi a desgraça de Hina. Logo após ter fugido de seu povoado, ela se encontrou perdida e faminta, sem ter a quem recorrer. Sua beleza e personalidade atraíram os olhares masculinos por onde passava, e as mulheres de Okinawa perceberam isso quando Hina lá chegou. Foi então que ela foi convidada a ser uma prostituta na cidade. Totalmente sozinha e faminta, ela não viu opção, e resolveu aceitar".
"Isso é triste, Eriol" - Shiefa comentou, com sinceridade - "Nenhuma mulher merece esse destino".
"Eu sei disso" - ele concordou, um leve tom de tristeza na sua voz - "Mas o mais triste não é o que o destino reservou para Hina, e sim a forma como ela o encarou. Eu disse várias vezes, mas repito: falta de carinho pode ser fatal a uma pessoa, principalmente se isso a leva a escolher o caminho errado. E a partir do momento em que Hina iniciou sua nova vida, ela deixou que a raiva e a amargura que se acumularam dentro dela durante toda a adolescência a controlassem. O afeto que ela sentia pelos outros se transformou em ódio, e a esperança que tinha de uma vida melhor deu lugar ao desejo de vingança".
"E quando você a encontrou?" - Yamato perguntou - "Ela já era assim?".
"Já. Quando Clow a reencontrou, Hina já estava consumida pelo próprio ódio, e as poucas lembranças boas da sua vida haviam sido apagadas de sua memória. Ele percebeu isso no momento em que se falaram pela primeira vez. A frieza e desdém dela mostraram que a Hina que ele conhecera já não existia mais. Mesmo assim, ele não desistiu de querer ajudá-la. Achava que, se mostrasse um mundo melhor, ela voltaria a ser a pessoa esperançosa e bondosa que um dia fora. Coisas de apaixonado" - o inglês ajeitou os óculos - "Porém, quando uma pessoa toma uma decisão na vida, nada nem ninguém podem fazê-la mudar de idéia. E Hina já havia escolhido o seu caminho, e estava decidida a segui-lo até o fim".
"Certo... e o que isso tem a ver com a Hierarquia?" - Kero perguntou, impaciente - "Como ela se tornou Sub-Regente?".
"Eu já ia chegar nessa parte" - Eriol sorriu com a impaciência do guardião - "Clow havia encontrado Rytwild em Okinawa, e mais do que imediatamente tratou de tirá-la daquela vida triste em que vivia. Durante muitas noites, ele freqüentou a casa onde ela trabalhava, tentando convencê-la a ir embora com ele. Numa dessas noites, ele teve a maior surpresa da sua vida. Um dos fregueses da casa havia bebido demais, e tentou fazer com que Hina satisfizesse suas vontades, mas ela não queria se deitar com ele. Revoltado, ele tentou forçá-la e, para sua surpresa, recebeu dela um golpe nada comum. Um golpe de magia do vento" - ele parou por um momento, as memórias vinham à tona na sua cabeça - "Foi a primeira vez que Clow viu Hina usando magia. No dia seguinte, ele tratou de descobrir como ela havia feito aquilo, e para sua surpresa, ela lhe contou que sempre usava magia quando precisava se defender, inclusive havia usado contra o diretor do orfanato para fugir. Com essa revelação, Clow viu uma oportunidade de finalmente levá-la dali. Prometeu que, caso ela fosse embora com ele, ensinaria tudo que ele sabia de magia e também de artes marciais, dois conhecimentos que ele dominava bem na época. Com um brilho nos olhos, Hina aceitou e os dois partiram de Okinawa. Clow ensinou a ela tudo o que sabia, e ela retribuía sendo uma excelente aluna. Em poucos anos, Rytwild já era quase tão poderosa quanto ele. A diferença estava apenas na forma como ambos usavam seus poderes".
"Como assim?" - Nakata se interessou pelo assunto.
"Clow usava sua magia com cuidado, apenas em casos especiais. Hina já a usava para satisfazer seus desejos de vingança, sendo tirânica muitas vezes. E isso o machucava muito, ver que ela tinha tanto ódio pelo mundo. Mas estava apaixonado, e um apaixonado nunca desiste de lutar pela pessoa que ama. Foi quando a Hierarquia apareceu" - Eriol sorriu para Shiefa, que ainda embaralhava as cartas - "Fico me perguntando quando você irá distribuir as cartas, querida Shiefa. Creio que Tomio e Shaoran querem uma revanche".
"Ah, claro!" - a garota pareceu acordar de um transe e passou a distribuir as cartas. Shaoran olhou para Eriol, desconfiado, mas resolveu ficar calado, enquanto o inglês continuava a história:
"A Hierarquia, na época, estava aos cuidados do Sub-Regente, mas este já estava muito velho, e precisava que o novo Regente assumisse logo seu posto, assim como o Sub-Regente que o substituiria. Então ele nos procurou, a fim de cumprir essa missão, e nos convidou para fazer parte da Hierarquia. Assim que ele morreu, Hina assumiu como Sub-Regente; e Clow, como Regente".
"Clow era Regente?" - Sakura se espantou.
"Era sim" - Eriol sorriu - "Quando a oportunidade apareceu, Hina ficou extremamente feliz, pois pensava que finalmente teria poderes plenos sobre magia, algo que ela sempre buscou durante os treinamentos. Mas, como eu já contei a vocês, o Sub-Regente não possui essa capacidade, e com o tempo ela percebeu. Foi então que começou a cobiçar o posto de Regente, começando a torcer pela morte de Clow para que ela, então, pudesse assumir" - ele suspirou pesadamente - "A coisa só piorou quando as cartas foram criadas" - ele se voltou para Tomio - "Eu peço truco, amigo".
"Eu caio fora!" - Tomio jogou as cartas que segurava na mesa, deixando Shaoran irritado - "Desculpe, mas eu estava com cartas péssimas. Se quiser continuar, é por sua conta".
"Eu continuo" - Shaoran olhou Eriol desafiadoramente - "E você, Eriol? Continua ou não com a história?".
"Mas é claro!" - Eriol sorriu, enquanto jogava uma de suas cartas - "O que vou contar agora nunca foi contado a ninguém, a não ser para uma pessoa que hoje não pôde comparecer. Como todos sabem, o poder mágico de Clow era incalculável, e isso o incomodava muito. Ele precisava de algo para canalizar sua magia, e decidiu criar as cartas para isso. Porém, ele sentiu que Hina se revoltaria se ele fizesse isso longe dela, e para não magoá-la, decidiu chamá-la para ajudar. Foi então que as primeiras cartas foram criadas, que são exatamente essas que Rytwild usa hoje. Metade da magia posta na criação era de Clow, e a outra metade era dela. Com isso, ela criou laços sentimentais mágicos com as cartas, já que participou da criação".
"É, ela me disse isso" - Sakura ponderou por um momento, e uma pergunta veio à sua cabeça - "Por que você inutilizou essas cartas depois, Eriol?".
"Não foi Clow quem as inutilizou" - Eriol respondeu, deixando a todos, principalmente os guardiões, espantados - "As cartas eram alimentadas pela magia de Clow e de Rytwild ao mesmo tempo, mas a magia dela estava começando a sair do controle, a cada dia se tornava mais e mais negativa. Isso fez com que as cartas ficassem problemáticas, como vocês já puderam perceber. Percebendo que a razão desse descontrole era a magia de Hina, Clow decidiu continuar a criar as cartas sozinho, somente com sua magia. Mas isso irritou Hina de tal maneira que ela parou de alimentar as outras cartas, até que chegou o momento em que elas foram inutilizadas. Clow fez de tudo para que isso não acontecesse, mas as cartas precisavam da magia dos dois criadores, e a minha, por mais forte que fosse, não dava conta". - ele voltou a suspirar - "Para voltar à vida, só sendo transformadas ou parasitando as outras cartas. Claro que Hina não sabia disso, ela descobriu esse fato há pouco tempo, como pude constatar".
"E o que aconteceu depois que Clow criou as outras cartas?" - Tomoyo perguntou - "Ela brigou por elas?".
"Ah não. Clow já estava ficando velho, seria mais fácil para Hina esperar pela morte dele para pegar as cartas. Mas, para garantir que ficaria com elas, ela decidiu usar uma artimanha. Sabendo da paixão que Clow nutria por ela, Hina o seduziu e a partir desse dia os dois se tornaram amantes" - Eriol sorriu ao ver o rosto de Nakata se contorcer de novo, e dessa vez sendo acompanhada por Sakura e (para sua surpresa), por Tomoyo também - "Foi uma época de calmaria, mas tudo se acabou quando ele anunciou que Sakura seria a nova dona. Hina ficou possessa, na sua cabeça as cartas deveriam ser delas, principalmente depois da história que tiveram. Mas ele já sabia que Hina não era capaz de tamanha responsabilidade, sua personalidade forte misturada à raiva a fazia perigosa. Embora poderosa, não era a pessoa que ele queria para cuidar das cartas".
"E o que ela fez quando soube?" - perguntou Sakura, não se agüentando de ansiedade.
"O óbvio: saiu de controle. Mostrou toda a raiva e ódio que segurou durante os anos, e começou a atacar. Foi uma luta intensa, mas no fim Clow saiu vencedor. Hina ficou inconsciente durante dois meses inteiros, sem poder se comunicar com ninguém. Sabendo que a morte estava próxima, Clow resolveu que era hora de deixar tudo arrumado, mas percebeu que, se contasse à Hierarquia o que acontecera entre os dois, os outros controladores tomariam uma atitude impensada. Era uma geração esquentada aquela, sempre agiam por impulso. Então os deixou avisados que havia um traidor, e ficaria ao cargo deles se preparar corretamente para enfrentar Rytwild. Apenas uma pessoa soube quem era o traidor, a única pessoa que Clow sabia que tinha condições de sobreviver à guerra iminente. Estou me referindo à Sara, aquela que vocês se conheceram como senhora Whitman".
"O quê?" - Meilin se espantou - "Naquela época ela já era viva? E ainda por cima Controladora?".
"Ela tinha dezessete anos na época, e era a mais nova da Hierarquia" - Eriol respondeu - "Ela foi a única avisada do que realmente ia acontecer, e à ela Clow deu uma missão. Ela deveria cuidar para que o próximo Regente tomasse o seu lugar de direito, assim como o próximo Sub-Regente também. Deveria cuidar para que Rytwild não interferisse nesse processo, nem que pra isso tivesse que travar uma guerra" - ele ficou mais sério do que já estava - "E é por isso que estamos aqui. Rytwild quer impedir a posse do novo Regente, para que ela assuma o lugar. E agora respondendo à sua pergunta, Shaoran: sim, quase todos os membros da Hierarquia vieram para o Japão" - ele viu o rosto do chinês se contorcer de raiva, com certeza indignado por só agora Eriol responder à sua pergunta, mas o inglês continuou antes que ele pudesse interromper - "Rytwild está extremamente poderosa, e decidimos unir nossas forças para ajudar vocês. Não podemos permitir que ela tente tomar a Hierarquia de novo, como ela tentou fazer quando Clow morreu. Naquela época, Sara conseguiu derrotá-la, mas Hina conseguiu escapar. Dessa vez, ela está mais forte e vocês sozinhos não serão capazes".
"Espera aí" - Sakura interrompeu, sua cabeça girando em dúvidas - "Como ela está tentando impedir a posse do novo Regente se ela está empenhada em pegar as minhas cartas? O que uma coisa tem a ver com a outra?".
Eriol sorriu, aquele sorriso enigmático que todos conheciam muito bem. E então Tomoyo entendeu o que ele estava tentando contar. Agora, tudo fazia sentido: as atitudes de Rytwild, o roubo das cartas, os segredos. Era tudo muito claro agora.
"Há alguns anos, Rytwild descobriu quem seria o novo Regente" - o inglês aumentou o sorriso - "E, para o seu desespero, era a mesma pessoa que, na sua cabeça, havia lhe tomado as cartas. A pessoa que, por obra do destino, foi escolhida por Clow para ser o novo Mestre das Cartas, e foi escolhida pela Natureza para ser Regente. A pessoa que ela deveria enfrentar, se quisesse tomar o controle de ambos. Imagino que vocês já saibam de quem estou falando".
Todos os presentes, até mesmo os convidados, se voltaram para Sakura. A única diferença entre eles era que os controladores estavam com expressões curiosas, enquanto os outros jovens olhavam chocados para a garota.
Ela, de primeiro momento, não entendeu o que estava acontecendo, mas alguns segundos depois soube o que Eriol queria dizer. Sentiu seu coração parar mais uma vez, e o ar faltar aos seus pulmões. Rytwild não dizia coisas sem nexo quando dizia que ela havia roubado a Hierarquia, tudo agora fazia bastante sentido... mas ainda assim era desesperador. Não poderia estar acontecendo, não com ela.
"Não!" - ela exclamou, balançando levemente a cabeça - "Não, Eriol, você está enganado. Eu não posso... não eu... eu não sou a Regente".
"Realmente, você não é!" - Sakura teria ficado aliviada com essas palavras, se o sádico sorrisinho de Eriol não estivesse tomando conta do rosto dele; sua suspeita se confirmou quando ele concluiu - "Ainda não".
"Chega, Hiiragizawa" - Shaoran jogou as cartas que segurava na mesa com tanta força que todos se assustaram - "Cansei desse seu ar misterioso, e fiz de tudo para me segurar, mas minha paciência acabou!" - ele pegou o inglês pelo colarinho - "Pare de brincadeiras e diga o que está acontecendo de uma vez!".
"Você acha que eu brincaria com uma coisa dessas?" - Eriol tirou as mãos do amigo da sua camisa, seu tom se tornando levemente agressivo - "Nunca falei tão seriamente na minha vida, nem mesmo quando enfrentei a Sakura. Vocês queriam respostas, e eu dei. Rytwild quer as cartas e a Hierarquia, e para tanto tenta derrotar Sakura, que é a mestra E a Regente!".
"Não!" - Sakura exclamou, fazendo a atenção de todos voltarem-se novamente para ela - "Isso não faz sentido... não tem o menos cabimento... Clow era o Regente, portanto VOCÊ que deve ser o novo Regente" - ela apontou para Eriol, sua mão tremendo e sua voz entrecortada por soluços - "Eu não tenho nada a ver com isso, não tenho".
"Eu sou a reencarnação de Clow, é verdade" - Eriol se levantou, seu tom de voz voltando a ficar calmo - "Mas isso não quer dizer que nós dois somos a mesma pessoa. Muito ao contrário, sou bastante diferente dele. Além disso, a Hierarquia já me escolheu para outro cargo nessa vida. Mesmo que eu quisesse, eu não poderia ser o Regente".
Aquilo soou como um estrondo nos ouvidos de Sakura. Tentando se manter calma, ela respirou fundo, antes de começar a assimilar as informações. Sua cabeça girava, muita coisa havia sido dita, e pouco tempo havia sido dado para ela digerir tudo. Mas tinha que admitir que a história de Eriol fazia total sentido. Rytwild a odiava, não só por ela ter ganhado o direito de ficar com as cartas, mas por também ter sido escolhida para ocupar o cargo que ela sempre cobiçara. Mas, como enfrentaria essa situação agora? Já estava sendo bastante difícil lutar pelas cartas, como seria lutar pela Regência também?
Percebendo o conflito interno da garota, Akio Jotan tomou uma atitude inesperada. Passando por todos os presentes, ele se aproximou da garota, ajoelhando-se à frente dela. Com a mão esquerda, ele a pegou pelo queixo e a fez levantar a cabeça. Sakura olhou para aquele senhor de rosto tão sereno, que a encarava com um olhar tão terno. Aquele gesto a fez se sentir melhor, embora ainda houvesse uma pequena dor no seu coração.
"Você não precisa aceitar o cargo, se quiser" - ele disse, fazendo-a arregalar os olhos - "Ser escolhida para o cargo não significa que você tem que ocupá-lo. Se você não quiser, outro Regente será escolhido, e ele entrará no seu lugar".
"Mas Rytwild..." - ela começou, mas foi interrompida quando o senhor colocou um dedo em seus lábios.
"Rytwild já está fora da realidade há muito tempo, ela não sabe que você ainda não assumiu o posto" - ele sorriu - "Eu adoraria que você aceitasse, mas se isso for contra a sua vontade, diga não. Não queremos que se sinta pressionada. Hoje, acompanhamos Eriol apenas para que você nos conhecesse, nada mais. Não ache que estamos exigindo uma resposta agora".
"Akio tem razão, você não precisa responder neste exato momento" - a senhora Kimura sorriu para ela - "Na verdade, não tínhamos sequer a intenção de te fazer esse convite agora. Estávamos esperando você se tornar maior de idade, para então lhe contar tudo. Mas as circunstâncias nos obrigaram a adiantar esse momento... ou era falar, ou era deixá-los nessa luta insana, sem saber o que estavam enfrentando".
"Não pensem que foi uma decisão fácil" - Eriol voltou a se pronunciar - "Assim que descobrimos o retorno de Hina, convocamos uma Conferência de emergência. Ficamos semanas discutindo se iríamos te contar ou não, até que decidimos que já era hora de revelar a verdade".
"É, e pelo visto você adorou fazer isso!" - Shaoran bufou, voltando a se sentar pesadamente - "É típico de você, Hiiragizawa; esconder o jogo até se cansar de nos deixar aflitos dessa maneira".
"Você realmente acha isso?" - Eriol deu um meio sorriso, o que deixou o garoto mais irritado ainda - "É, confesso que essa atitude me agrada até certo ponto, mas dessa vez não dependia só de mim a decisão de contar. Mas acho que deve ser melhor parar por aqui. Afinal, se eu revelar todos os segredos, não terei com o que me divertir...".
"O que, tem mais?" - Touya perguntou, espantado, sua cabeça doendo com tantas revelações.
"Na verdade, há mais um" - Eriol parecia estar se divertindo, vendo Shaoran o encarar mortalmente, com certeza irritado com a brincadeira que o inglês fazia com as palavras que ele tinha dito - "Mas Shaoran tem razão, eu adoro esconder o jogo... acho que vou me divertir mais um pouco...".
"Eriol, chega de brincadeiras!" - Sally retrucou, levemente aborrecida - "Você sabe que não é momento disso".
"Tudo bem, se você está dizendo" - o inglês deu de ombros, aproveitando para uma discreta risada do rosto do chinês. Em seguida, ele voltou a ficar sério, principalmente porque sabia que, depois que falasse, aí que não poderia mais irritar o amigo. Suspirou, antes de começar - "Vocês devem se lembrar que Clow deu uma missão à Sara, um pouco antes de morrer. Era dever dela fazer com que os futuros Regente e Sub-Regente assumissem seu lugar de direito sem que ninguém interferisse - se eles assim quisessem, claro. O Regente, como vocês bem sabem, é a Sakura".
"E o Sub-Regente, quem é?" - Shaoran perguntou, querendo acabar com o assunto de uma vez. Eriol lhe sorriu, o mesmo sorriso misterioso que havia dirigido à Sakura momentos atrás...
"É você, Li!" - ele respondeu, fazendo o garoto endurecer, de repente - "Você é o novo Sub-Regente".
Continua
Notinhas finais!
Deus, que bíblia! Capítulo chatinho esse, né? Mas eu não tinha como mudar o ritmo dele, e nem tinha como encurtar. Eram informações necessárias, de que precisarei para os próximos capítulos. Eu até tentei quebrar o ritmo algumas vezes, fazendo o Eriol e a Tomoyo saírem sozinhos (alguém percebeu um certo climinha no ar? Eu sim... hehehe) e também instalando o jogo de truco (alguém aí gosta tanto desse jogo quanto eu? Gente, eu amo jogar truco!). Mas, ainda assim, senti que ele ficou meio pesado. Por isso pessoal, desculpa mesmo, mas eu preciso de todas essas informações. Mas pelo menos a fic foi atualizada rápido!
Enfim, parte dos mistérios foram resolvidos! Eriol finalmente explicou o que está acontecendo e de quebra ainda contou o que é a Hierarquia e como ela funciona. Vejo carinhas espantadas com as revelações? Sim pessoal, Rytwild já foi da Hierarquia. Megera Velha já lutou ao lado do Clow... e com ele também, diga-se de passagem. Claro que ainda há muitos mistérios no ar, e muitas perguntas devem estar surgindo nesse exato momento. Mas acalmem-se, agora todas as perguntas serão respondidas pouco a pouco, no desenrolar da história. A luta apenas começou, rapaziada, e enquanto nossa Sakurinha procura as respostas, muitas coisas irão acontecer.
Falando em Sakura, alguém aí percebeu a distância entre elas e o Shaoran? Ih, esse casal... outra história que vai render muito, eu garanto. Mas o que acontecerá agora que os dois descobriram que são os novos Regente e Sub-Regente? Alguém aí faz alguma aposta?
Bom, pra terminar, eu só gostaria de dizer que, mesmo sendo um capítulo imenso, eu adorei escrever. Eram informações que eu estava necessitada de falar, estava quase explodindo. Que Sakura era Regente, muitos já suspeitavam... mas que Shaoran era Sub-Regente, essa ninguém falou. Como ele reagirá com a notícia? Irritado ele já está (quase quebrou a mesa da Tomoyo jogando truco, olha só! Também assustou a coitada, fazendo-a se jogar pra cima do Eriol... se bem que isso não deve ter sido tão ruim, hehehe)... no próximo capítulo, veremos como ele lida com a novidade.
No próximo capítulo, também apresentarei outros membros da Hierarquia, inclusive um que eu amo DEMAIS. Mas vamos falar nisso na próxima nota... ah, mencionando o assunto, deixei no capítulo passado eu disse que havia uma personagem que havia citada no começo da fic, mas apenas uma pessoa percebeu algo estranho nela. Com prazer, lhes apresento Mick Kimura, a aluna que saiu da escola na mesma época em que Shaoran e Meilin chegaram. Acho que já deu pra perceber porque ela saiu da escola, não?
Agora, a terceira parte da história de como a Hierarquia surgiu. Hoje, eu vou falar um pouco do Yamato, e mais sobre a Nakata.
No meio da faxina, encontrei no meio dos meus livros o caderno do Gustavo, aquele em que ele tinha rabiscado os primeiros planos da história. Antes de desistirmos, ele havia me emprestado o caderno para eu escrever tudo que eu fosse pensando, de forma que também tinha uns rabiscos meus. No fim, o caderno havia ficado comigo, e estava no meio dos meus livros todo aquele tempo. Quando comecei a folheá-lo, bateu uma vontade imensa de continuar a história, pois ali havia idéias boas. Mas para eu fazer isso, eu tinha que voltar à forma, ou seja, voltar a ler fics de CCS, que há muito eu não lia. Então eu comecei a procurar a primeira fic que eu havia lido, uma fic que tinha um poema que, na época, eu tinha amado. Aquele seria um bom ponto para começar! Mas, pra minha infelicidade, eu nunca achei essa fic. Procurei em todos os sites possíveis, e por causa disso acabei parando no FF. Não li a fic que eu queria, mas li outras tão boas quanto. E elas foram contribuindo para surgir mais idéias na minha cabeça doida. No fim, já tinha definido toda a história dos casais e também a grande maioria das personalidades dos personagens. Faltavam apenas duas pessoas para serem trabalhadas: Rytwild e Nakata. E então me concentrei nelas.
Primeiro, trabalhei com a Nakata. Pensei nas circunstâncias em que ela havia sido criada, e na forma como Kero e Yue a viam. Também pensei o que teria acontecido com ela depois da morte de Clow, já que no livro ela não poderia entrar, mas também não poderia ficar muito longe, já que a qualquer momento Yue poderia desaparecer. Pouco a pouco, fui formando as respostas na minha cabeça. Decidi fazer dela uma criança, pois para mim a criança representa esperança de salvação, de nova vida, e é isso que a Nakata, em sua essência, é: uma espécie de esperança para o grande problema de Yue, uma nova vida que virá no lugar daquela que um dia pode desaparecer. Sendo ela uma criança, imaginei uma relação de carinho entre ela e os guardiões, onde Kero, o guardião mais "atrevido", seria como um tio divertido e que não chama muita atenção; e Yue, o guardião sério e responsável, seria como um irmão mais velho tentando proteger a irmãzinha, ao mesmo tempo em que implica com ela quase a todo instante. Para mim já era o suficiente, mas sem nenhuma razão uma pergunta surgiu na minha cabeça: ela seria tão poderosa quanto Yue, ou seria mais? Decidi que ela seria mais poderosa, mas seus poderes não seriam desenvolvidos como os de Yue, e por uma razão: Nakata seria criada pelo Mago Clow, em um momento em que o próprio estivesse em um mau momento de sua vida, onde além de outros problemas, estivesse pensando em como consertar a fraqueza de Yue, já que esse fator poderia pôr suas cartas em risco. Alguém que nasce em um momento como esse, por mais poderoso que seja, nunca se desenvolve ao máximo, sempre possui um problema. E o problema da Nakata seria esse: seus poderes, realmente poderosos, estariam em um baixo patamar de desenvolvimento, e para ela chegar ao nível necessário, precisaria de um treinamento. Aí o Yamato entrou na história.
Yamato, para ser sincera, já existia há muito tempo. Ele surgiu na mesma época que a Nakata, e desde o começo era para ele ser um treinador, de preferência da guardiã. Mas em um primeiro momento ela não precisaria de treinamento, pois seria uma guardiã normal, com todos os seus poderes ao máximo. Graças a isso, ele acabou ficando "de canto", e eu não pensei nele por um bom tempo. Mas quando eu defini a personalidade e a vida da Nakata, ele veio bem a calhar. Além de ser o treinador da guardiã, ele seria de grande importância para quando ela fosse viver entre os humanos. Como Nakata é uma "criança", sua identidade falsa só poderia ser uma criança também, no máximo uma pré-adolescente. E como crianças não vivem sozinhas no mundo, Yamato seria, na identidade falsa, uma espécie de tutor da pequena, se passando por seu irmão mais velho. Desse ponto, só faltava a personalidade dele, que não foi difícil de definir. Uma pessoa séria, treinador rígido, bastante racional e organizado, mas que ODEIA quando brincam com ele (o que explica a sua relação com Shiefa). Relaciona-se facilmente com as pessoas, e geralmente é amigo de todos.
E é isso por hoje, pessoal. Valeu a todos que leram o capítulo 13, espero que tenham gostado desse. Também queria agradecer a Maki, por ter me ajudado com a cena do truco. Beijos, pessoal, e até a próxima! (E dessa vez, eu quero reviews! Vamos lá pessoa, não custa!).
