Depois de alguns anos, nunca imaginou se sentir entediada e desanimada. Certo, a sua vida não era das piores, ao contrário, sequer tinha do que reclamar. Mas ainda assim, algo faltava na sua vida, e pedia desesperadamente por ação. Bem, seu desejo foi atendido... agora, será que ela agüenta?

Disclaimer: Sakura Card Captors e todos os outros personagens são da Clamp®, eu só sou mais uma doida varrida que vou fazer todos eles sofrerem (Mas todos os personagens da Hierarquia - tirando a Angelita - são meus. Vamos ver o que eu farei com eles...).

Capítulo 15 - Conhecendo o outro lado

Tomoyo estava sentada, tentando digerir tudo que estava acontecendo. Olhou ao redor dela, vendo na cara de seus amigos expressões tão atônitas quanto a dela. Perguntou-se como Sakura e Shaoran estavam se sentindo naquele momento. Mas os dois estavam apenas paralisados, olhando fixamente para Eriol. Sakura parecia estar começando a se acostumar com a novidade, mas Shaoran... bem, esse ainda estava em estado de choque.

Vendo que ninguém se pronunciava, o inglês se levantou e começou a andar pelo quarto. Os controladores da Hierarquia que estavam presentes olhavam a reencarnação de Clow divagar pelo recinto, pensando nas próximas palavras. Esperavam ansiosamente por uma reação de alguém, algo que os tirasse daquele silêncio maldito. Até mesmo para eles, a situação estava tensa, mais do que estavam acostumados. Lembravam-se perfeitamente do dia em que as cartas de Sakura haviam sido roubadas. Quase uma hora depois, todos os Controladores haviam sido convocados por Sara para uma reunião extraordinária, e mais do que imediatamente pessoas do mundo todo pediam licença de seus trabalhos e viajavam às pressas para Paris, pressentindo algo muito grave no ar. Os Kimura foram os que mais ousaram: mudaram-se de vez para a França, vendo que finalmente chegava a hora em que Sara precisaria de ajuda para controlar a Hierarquia.

E durante muito tempo, os Controladores ficaram reunidos na Mansão que servia de sede para a Hierarquia, e também onde Sara morava desde que ficara viúva. Lá, ficaram dias após dias em reunião, discutindo o assunto mais delicado que já tiveram que discutir. A questão era, ao mesmo tempo, simples e complicada. Contar ou não a Sakura e Shaoran toda a verdade.

Segundo as regras da Hierarquia, um novo membro só poderia assumir um cargo quando se tornasse maior de idade na sua terra natal. Essa exceção só poderia ser quebrada em casos extremos, que geralmente envolviam a morte de algum controlador. Com Eriol havia acontecido dessa maneira: assim que o antigo controlador morreu, a necessidade de se ter um controlador da Escuridão falou mais alto, e foi aberta uma exceção para que a reencarnação de Clow assumisse. Mas o caso de Sakura e Shaoran era totalmente diferente. Há muitos anos que a Hierarquia sofria da ausência de seu Regente e Sub-Regente, mas Sara era uma boa líder, e estava decidido, de forma unânime, que Kinomoto e Li só assumiriam os cargos quando se tornassem maiores. Tudo estava preparado para esse momento: sabiam como iriam contar, em que local, em quais circunstâncias... tudo minuciosamente calculado para a grande hora. Mas Rytwild voltou.

Foi um momento um tanto quanto interessante, quando a ex - sub-regente reapareceu de repente. A presença de sua magia era tão intensa que pôde ser sentida de diversas partes do mundo. Alguém que pudesse ver o mundo de cima presenciaria pessoas de todos os cantos parando o que estavam fazendo, e mais do que imediatamente correndo para usar o telefone. Um operador de telefonia mais atento perceberia que, naquele instante, houve um fluxo de ligações internacionais um pouco mais intenso do que o normal.

Mas ninguém prestou atenção nesses pequenos detalhes, de forma que a Conferência passou despercebida. Menos pra eles, claro. Pra todos os integrantes da Hierarquia, aquela havia sido, sem sombra de dúvidas, a Conferência mais tensa de todas. E o motivo era óbvio: Rytwild estava viva. Quando não devia estar. E isso era preocupante. Demais.

Por isso Eriol estava tão nervoso naquele dia. Sabia que Sakura e Shaoran estavam assustados, e isso era ruim, pois eles ainda não tinham a real noção do problema. Isso eles apenas saberiam com o tempo, conforme fossem conhecendo o inimigo que tinham. O inglês temia que eles não dessem conta do problema... eles ainda eram tão novos.

O jovem mago olhou as estrelas por um tempo. Momentos começaram a ser lembrados, flashes de sua vida passada. Mesmo tão jovem, o inglês carregava na alma o peso da experiência, e a que possuía não era nada irrelevante. Tinha medo do que poderia acontecer agora. Tanta pressão sobre os dois... só esperava conseguir evitar o pior. Seu consolo é que, até nesse ponto, a Hierarquia estava unida. Tinha certeza que todos fariam de tudo para evitar que seus futuros líderes sofressem.

Suspirou, tentando buscar forças. Olhou para os amigos, em especial para os Controladores presentes. Eles sorriam para Eriol, passando uma sensação de confiança e apoio. Muito ainda tinha que ser resolvido, e eles não tinham tempo. O inglês passou a encarar Li, já que esse era, ainda, o mais atormentado com toda a situação. Suspirando fundo mais uma vez, botou no rosto o costumeiro sorriso zombeteiro:

"Eu bem queria ter uma câmera fotográfica agora" - ele disse, bastante sarcástico - "Nunca imaginei ver Shaoran Li tão atormentado".

A frase parece ter surtido o efeito esperado, pois no mesmo instante Shaoran levantou os olhos para o inglês, o rosto voltando a ficar bravo e sério. Tomoyo não pôde conter um risinho, Eriol sabia mesmo tirar o chinês do sério.

"Eu não preciso do seu humor negro pra me animar, Hiiragizawa" - Li retrucou, emburrado - "Por hoje, já me basta as 'novidades', obrigado!".

"Eu imagino como se sente, mas acredite, não é tão ruim assim" - o inglês o encarou firmemente - "Você também não precisa aceitar a proposta. O que se aplica a Sakura, também se aplica a você".

"Isso não consola muito, sabia?".

"Como isso foi acontecer?" - Sakura se manifestou, chamando a atenção de todos - "Quer dizer, as nossas vidas andavam tão calmas, e de repente tudo vira de ponta cabeça...".

"Você não queria aventura, Sakura?" - Eriol respondeu, bastante sério ainda - "Pois então, alguém ouviu seu pedido. Só sinto que ele tenha vindo em uma carga tão grande".

"Eriol, acho que está ficando bastante tarde" - Alice alertou, olhando o relógio - "Não devemos abusar da boa vontade de Daidouji".

"Tem razão!" - o inglês voltou-se para o casal de amigos - "Só há mais duas coisas que gostaria de dizer. Seja qual for a decisão que tomarão, quero muito que tomem cuidado. Agora vocês sabem o que está acontecendo, e possuem uma certa noção do perigo que correm. Sei que possuem muitas perguntas, e acreditem, responderemos a todas, mas em outra hora. Temo que hoje muita coisa já tenha sido dita".

"Temos que aceitar o cargo logo? Quero dizer, o de Regente e Sub-Regente?" - Sakura perguntou, aflita.

"Ah não!" - Akio respondeu, bastante calmo - "Levem todo o tempo que precisar. Esse é um tipo de decisão que deve ser tomada com extremo cuidado, e com muita reflexão".

"Sabemos que isso é difícil, devido aos últimos conflitos!" - Sally comentou - "Mas, como Controladores, entendemos a responsabilidade dessa decisão, e por isso não temos pressa".

"E o que vão fazer enquanto isso?" - Yue perguntou - "Não acredito que a Hierarquia veio até o Japão só para esperar uma resposta".

"Realmente não viemos!" - Tomio respondeu, enquanto brincava com uma carta de baralho que ainda estava em suas mãos - "Já dissemos, viemos ajudar vocês na luta contra Rytwild. Independente da decisão que vocês dois tomarem" - disse isso olhando para Sakura e Shaoran.

"Tirou as palavras de minha boca, Tomio" - Eriol comentou - "E por falar no assunto, quero dizer uma última coisa. Será que vocês todos poderiam ir amanhã, ao nosso hotel, para falar com Sara? Há coisas que ela quer dizer pessoalmente".

"O quê, ainda não acabou?" - Kero perguntou, abismado.

"O de hoje, sim!" - o inglês sorriu - "Mas ainda há certos assuntos pendentes. Yamato, quero que você compareça também. É de vital importância".

"Eu?" - o treinador pareceu assustado.

"Há outro por aqui?" - Shiefa retrucou, dando um sorriso travesso.

"Sim, Yamato, você!" - Eriol ignorou o comentário da jovem Li - "Deixarei o endereço da pousada com Tomoyo, por via das dúvidas. Mas creio que não teremos problemas".

"E como pode ter tanta certeza assim, Hiiragizawa?" - Touya perguntou, desconfiado. Eriol apenas sorriu.

"Acho que já abusamos demais por hoje" - ele se voltou para Tomoyo, abaixou-se, pegou-lhe a mão e a beijou delicadamente, um olhar significativo se estabelecendo entre os dois - "Muito obrigado pela paciência, querida Tomoyo. Não sabe como estamos agradecidos".

"Disponha sempre, Eriol" - ela respondeu, também olhando para ele fixamente, uma mensagem sendo trocada.

Os controladores se levantaram, assim como os outros presentes no recinto. Todos se despediram e começaram a se dirigir para a saída da casa. E enquanto Tomoyo, discretamente, puxava Nakata para outro canto, Shiefa ficou sentada no quarto, pensando: "Ei, e o jogo de truco?".

-------------------------------------------------------------------------------------------------

Era um dia de sábado ensolarado, com uma leve brisa soprando ao horizonte, o outono dando seus primeiros sinais. No Colégio Seijyo, uma certa garota estava, porém, alheia aos sinais climáticos da estação. Aliás, estava alheia a tudo que ocorria a sua volta. Sua cabeça estava mais preocupada em latejar fortemente, pensando em certas coisas que ouvira na noite anterior. Tentava entender como a vida podia mudar tanto daquela maneira.

Ela já devia estar acostumada, é claro. Afinal, pra quem teve que sair à procura de cartas mágicas quando tinha somente dez anos, uma organização de magos não deveria parecer grande coisa. Mas quem estava querendo enganar? A situação era bem mais grave agora. Na época das cartas, não havia ninguém querendo matá-la (embora ela não soubesse disso). Agora, a intenção era bem clara, e o inimigo extremamente mais poderoso, pra não dizer perigoso. E o pior de tudo era que não era só ela que estava em perigo, mas todos que amava também. E tudo por causa de uma maldita organização de magos... sim, a Hierarquia era grande coisa!

Tentava encarar as coisas como seus amigos. Tomoyo e Meilin pareceram gostar da idéia dela ter sido escolhida como nova Regente, até Shiefa estava empolgada com a posição da "cunhada". Os guardiões estavam um pouco receosos, é verdade, mas a curiosidade sobre a história de Rytwild parecia falar mais alto, de forma que eles ficavam mais ocupados formulando perguntas sobre o assunto do que se preocupando com a segurança dos outros. Isso era compreensível, afinal eles nunca ouviram falar da inimiga quando Clow ainda era vivo, e de certa forma isso os atiçava. Os únicos que pareciam tão atormentados quanto ela eram Shaoran e Touya. O primeiro, por um motivo óbvio: estava na mesma situação, se não em uma pior, afinal havia sido escolhido para ocupar o cargo de alguém que traiu a Hierarquia. Se bem o conhecia, esse pequeno fato devia estar corroendo-o por dentro, ser o sucessor de uma traidora.

Já Touya... bom, ele via as coisas por um ângulo bem diferente dos demais. De todos os presentes na casa de Tomoyo, o irmão era o único que estava de fora do conflito, e o pouco que sabia era porque ouvira um ou outro comentário de Yukito ou de Yue. E isso o preocupava profundamente. Touya sempre estivera ao lado da irmã, mesmo que ela não soubesse disso. Mas, agora, estava longe, de todas as formas possíveis. Saber o perigo que Sakura corria só o deixava pior. As palavras que ele dissera ainda ecoavam na sua cabeça...

"Sakura, a gente precisa conversar" - o irmão adentrava no seu quarto, enquanto ela, totalmente sem sono, olhava fixamente para a janela, tentando absorver algumas informações.

"Não sabia que ia dormir aqui hoje" - retrucou, desviando a atenção para ele.

"Está tarde para voltar, além do que queria ficar com você hoje".

"Touya, não é para tanto. Você não precisa se preocupar comigo".

"E como não irei me preocupar?" - ele se sentou na cama - "Eu ouço que há uma louca atrás de você - que já devia estar morta, aliás - e você me diz para não me preocupar? Não acha que está querendo demais de mim, não?".

"Eu sei que assusta" - ela confessou, se jogando no chão - "E acredite, eu também estou preocupada. Acha que gosto da idéia de ter uma maluca atrás de mim e dos meus amigos? A última foi a Meilin, quem será da próxima vez?".

"É, eu fiquei sabendo dessa história" - Touya baixou o olhar - "Yukito contou que, por causa disso, você e o moleque brigaram".

"Eu não diria uma briga" - Sakura também desviou o olhar - "Mas também não estamos bem".

"Eu não gosto de assumir isso..." - ele começou, baixando ainda mais o rosto, como se estivesse se escondendo - "Mas vocês precisam se acertar. E urgentemente".

"Eu ouvi direito?" - Kero saiu de seu quarto-gaveta, os grandes olhos arregalados, dando um susto nos dois irmãos - "Você apoiando o moleque?".

"Eu não estou dando apoio a ele" - Touya resmungou, o rosto ficando emburrado - "Eu só... estou avaliando os fatos. Ninguém pode ficar nesse impasse pra vida inteira".

"E por que você se preocupa com isso, Touya?" - Sakura não pôde deixar um risinho escapar - "Achei que queria o fim do meu namoro com todas as suas forças".

"E quero!" - Touya ficou vermelho - "Mas... convenhamos, vocês dois são melhores juntos. E não é nada legal te ver com essa cara de bunda por causa dele. Prefiro ver vocês juntos a te agüentar assim".

"Pode deixar que, com o Shaoran, eu me acerto" - ela suspirou - "Pelo menos, eu espero".

"Está vendo? É disso que estou falando!" - Touya se exasperou - "Como espera derrotar essa bruxa maldita se nem consegue se acertar com a besta do seu namorado?".

"Isso não compete a você, Touya" - ela o encarou nos olhos - "A luta com Rytwild é somente minha. Nem você, nem Shaoran e nem ninguém pode lutá-la por mim. Eu preciso fazer isso sozinha".

"Isso não é justo" - o moreno cruzou os braços - "Você não pediu para ser dona das cartas, e muito menos para ser Regente ou sei lá o quê dessa tal Hierarquia. Por que tudo tem que cair sobre você?".

"Estou me convencendo que pessoas como eu não podem fazer muitas escolhas" - ela suspirou - "Poderes mágicos trazem responsabilidades, Touya. Cabe a nós saber o que fazer com elas".

"Você vai aceitar o cargo?" - ele perguntou, mais sério do que o normal.

"Não sei. Não é uma decisão muito fácil... seja lá como for, eu já estou envolvida demais com tudo isso. De Rytwild eu já não posso escapar... não sei se quero me envolver ainda mais".

"Eu só espero que você tome a decisão certa, seja ela qual for" - o irmão se levantou, e parou na frente dela - "Eu só não quero que se machuque, Sakura".

"Eu não vou me machucar" - a garota sorriu para ele - "Mas também não vou fugir das minhas obrigações. Quero que entenda isso".

Numa atitude totalmente inesperada, Touya pegou a cabeça de Sakura e a inclinou levemente, dando-lhe um beijo na testa. A garota sorriu com o ato de carinho do irmão. Era tão raro que deveria aproveitar.

"Se cuida, tá legal?" - ele deu um pequeno sorriso - "E vê se dorme, monstrengas ficam horríveis quando não dormem direito".

"Estava demorando" - ela comentou para si mesma, enquanto o irmão se retirava do quarto.

Sakura não pôde deixar de sorrir com a lembrança. Mesmo com aquele jeito durão, Touya era o melhor irmão que poderia ter. Era por ele e por todos os outros que ainda tinha forças para lutar, para seguir em frente, mesmo sabendo dos perigos que correria. Olhou discretamente para trás, tentando ver a pessoa pelo qual daria até sua vida, se fosse preciso. E lá estava ele, olhando para a janela, tão distraído quanto ela estava. Seu coração se partiu ao ver aquela cena... Shaoran deveria estar tão confuso quanto ela nesse momento. Agradecia aos céus por Rytwild ainda não saber quem havia sido escolhido para ocupar seu antigo cargo. Tudo o que menos queria era que ele se envolvesse mais... aliás, se pudesse, faria de tudo para tirá-lo do problema, mas já não podia fazer isso... o namorado também estava envolvido demais.

Suspirou, resignada. Céus, como estava sendo difícil ficar longe dele. Ao mesmo tempo em que sua cabeça rodava violentamente ao se lembrar de Meilin, seu coração mandava parar com toda aquela bobagem antes que fosse tarde demais. Nesse momento mesmo, como ela gostaria de poder conversar com ele. Mas havia prometido a si mesma dar um tempo aos dois... sentia que não só ela precisava, mas ele também. Só esperava que não houvesse nenhuma conseqüência grave depois.

Enquanto isso, Tomoyo analisava essa reflexão de Sakura. Se antes era observadora, agora tinha que ser mais ainda. Na sua cabeça ainda refletia as palavras de Eriol, dirigidas a ela e à Nakata. E pensava como, diabos, ia cumprir com a palavra. Havia prometido que ajudaria os amigos, mas analisando a situação agora... seria bastante complicado, não com Sakura tão decidida como estava. Apenas se perguntava o que poderia fazer com aqueles dois teimosos. Tinha que bolar um plano muito bom, se quisesse um trabalho bem feito. Ainda bem que Nakata ia ajudar.

"Tomoyo?" - uma voz chamou a morena, tirando-a de seus pensamentos.

"Sim, Naoko?" - ela respondeu, sorridente. O rosto de Naoko estava confuso.

"Algum problema? Você ficou tão aérea de repente...".

"Nada demais, Naoko. Estava apenas pensando nas coisas que tenho que fazer".

"Bom, se é assim... estava achando que você ia completar o time dos distraídos" - Naoko indicou Sakura e Shaoran com a cabeça - "Eles ainda não se acertaram?".

"Eu acho que não. Mas espero que se acertem logo" - Tomoyo murchou - "Você vai ficar me devendo essa, Eriol Hiiragizawa" - concluiu em pensamento.

"Muito bem, pessoal, a aula acabou" - o professor de matemática anunciou, liberando os alunos para, enfim, aproveitarem o final de semana. Pouco a pouco, os jovens foram se levantando e saindo da escola, alguns parando no corredor para conversar com os amigos. Na sala de aula, ficaram apenas Sakura, Shaoran, Tomoyo, Meilin e Yamato, todos no mais completo silêncio. Palavras não precisavam ser ditas, eles sabiam o que ia acontecer depois.

"Hã... bom, nós iremos até o hotel?" - Meilin perguntou, não agüentando o silêncio - "Assim como Hiiragizawa pediu?".

"Bom, creio que eu não tenho muita escolha" - Yamato resmungou - "Eu praticamente fui intimado a ir".

"O que será que eles querem dizer?" - a chinesa olhou para o teto, um olhar curioso no rosto - "Mal imagino o que mais pode haver nessa história maluca".

"Quem dera não haver mais nada" - Shaoran resmungou. Sakura apenas olhou para ele, por um instante os olhares se encontraram, mas nada foi dito. E isso só deixou Tomoyo mais exasperada.

Eles já estavam indo embora quando notaram uma pequena multidão se formando no corredor. Curiosos, se aproximaram das pessoas, e se surpreenderam ao ver quem estava no centro da roda.

"Kimura?" - sussurrou Sakura, vendo o rosto da garota se abrir num sorriso enquanto abraçava uma velha amiga do colégio.

"O que está fazendo aqui, Kimura?" - a voz de Chiharu soou no ambiente - "Você não deveria estar na França?".

"Bom, eu realmente deveria, mas surgiu um pequeno problema aqui no Japão e tive que voltar" - a expressão dela ficou levemente séria, mas depois voltou a sorrir - "Além disso, eu estou estudando em casa nesse ano. Pelo menos com escola eu não me preocupo!".

"E resolveu vir nos visitar de quebra, não?" - a garota que abraçava Mick apertou o abraço.

"É... pode-se dizer que sim!" - Mick se soltou do sufocado abraço - "Também estava com saudades, Azume".

De repente, Mick pareceu perceber que Sakura e os outros estavam ali, e no mesmo instante o corpo ficou tenso. Azume, percebendo a mudança de estado da amiga, olhou-a, desconfiada. Mick apenas respondeu com um sorriso.

"Não se preocupe, não aconteceu nada" - a garota respondeu, deixando Azume um pouco mais aliviada - "Mas é que agora eu tenho que resolver um assunto pendente".

"Agora?" - outra garota perguntou, sua cara triste - "Mas você mal chegou!".

"Ainda teremos tempo para colocarmos as fofocas em dia, meninas" - Mick sorriu, confiante - "Marcaremos um dia para conversarmos direito".

"Se é assim... então nós vamos indo, está ficando tarde!" - Azume voltou a abraçar Mick fortemente, e saiu acompanhada da outra amiga. Os outros presentes, vendo o tardar da hora, também se despediram, ficando apenas Sakura e os outros. Algo dizia que eles não deveriam ir embora.

Ficaram todos encarando Mick por algum tempo. A garota apenas sorriu, um sorriso travesso e divertido.

"Achei que vocês não sairiam da sala de aula!" - ela comentou, alegre - "Demoraram tanto que me descobriram".

"O que você está fazendo aqui, Kimura?" - Yamato perguntou, desconfiado.

"Na verdade, eu não vinha" - ela respondeu, faceira - "Mas Eriol insistiu tanto...".

"Eriol está aqui?" - Tomoyo perguntou, ansiosa. Meilin apenas olhou para ela, abafando um risinho.

"Está sim!" - Mick ficou séria - "Ele fez questão de fazer a matrícula comigo ao lado. Desgraçado, sabe que eu daria tudo pra voltar a estudar aqui".

"Espera aí!" - Shaoran interrompeu, não gostando nada do que estava pensando - "Como assim 'matrícula'?".

"É exatamente o que você está pensando, caro Shaoran!" - a voz de Eriol ecoou atrás deles, fazendo todos se virarem - "Como vai, pessoal?".

"Estávamos melhor antes de você aparecer" - o chinês resmungou, recebendo como resposta o olhar bravo de Sakura.

"Vou levar isso como algo positivo, Shaoran" - Eriol apenas sorriu - "Pelo visto, você reencontrou velhos amigos, Mick".

"Você sabia que isso ia acontecer, Eriol" - Mick retrucou, levemente chateada - "Parece que gosta de me ver com saudades".

"Você bem que gostou de ter vindo" - ele olhou para os outros - "Ela acha que só quis irritá-la".

"Afinal, o que você está fazendo aqui, Hiiragizawa?" - Meilin perguntou, impaciente - "Kimura disse algo sobre se matricular".

"E ela disse o certo" - ele sorriu - "Vim me matricular para cursar o Ensino Médio, junto com vocês".

"Estudar?" - Sakura exclamou - "Isso quer dizer que você vai fixar residência aqui em Tomoeda?".

"É a intenção" - o inglês apenas sorriu ainda mais - "Estou cuidando disso".

"E ele faz questão de dizer isso para todos" - Mick disse, logo atrás deles - "Principalmente quando eu estou por perto... não é mesmo, Eriol?".

"Não seja tão estressada, Mick. Causa rugas, sabia?" - o inglês se voltou para Sakura - "Estão prontos?".

"Prontos para quê?" - a card captor perguntou, sem entender.

"Para nos acompanhar até o hotel, é claro!" - Mick respondeu, automaticamente - "Foi para isso que esse aí me chamou, para encontrar vocês enquanto ele fazia a matrícula".

"Nossa, não precisava vir até aqui, nós iríamos sozinhos!" - Sakura acrescentou, sem graça.

"Nós sabemos disso..." - Eriol deu um meio sorriso - "Mas fizeram questão de virem buscá-los... já que não daria trabalho mesmo!".

"Fizeram questão? Quem fez questão?".

"Você já vai ver, querida Sakura" - o inglês começou a andar, com Mick na cola - "Vamos, eles já devem estar chegando. Só espero que ninguém a veja... imagine a confusão que causaria".

Os outros não disseram nada. A curiosidade aflorou, mas Eriol não responderia mesmo.

Eles foram andando até o portão da escola, e lá viram uma cena engraçada. Assim como uma roda se formou ao redor de Mick há pouco tempo atrás, uma outra se formava na porta do Colégio Tomoeda, porém muito maior, e muito mais agitada. As crianças da escola se amontoavam, histéricas, principalmente as garotas. Os garotos se limitavam a admirar algo que Sakura não podia ver. Aliás, a única coisa que a garota via era um grande carro negro, parado na frente de toda aquela multidão.

"É... pelo visto a criançada descobriu!" - Mick comentou, abafando um riso.

"Quem está ali?" - Tomoyo perguntou, ao que Eriol apenas sorriu. Ele foi andando em direção ao carro, sendo seguido pelos outros. Quando estavam próximos, Sakura pôde reconhecer a pessoa cercada pelas crianças... e quase desmaiou quando percebeu quem era.

Uma mulher loira, alta, de uma feição extremamente suave de anjo, e de olhos incrivelmente azuis, estava ali, falando e dando autógrafos para as crianças. O sorriso dela era tão gentil e suave, acalentando a todos que olhassem. Era conhecido no mundo como "o sorriso de anjo". E agora Sakura via por que diziam isso.

"Eu não acredito!" - Tomoyo sussurrou - "Angelita Gowdak!".

"Quem?" - Yamato perguntou, alheio ao assunto.

"Angelita Gowdak, a mais famosa modelo da atualidade!" - Meilin respondeu, abobada - "A Modelo do Sorriso Angelical. Vai dizer que nunca ouviu falar dela?".

"Sinceramente, não!" - o treinador deu de ombros - "Não ligo muito para o mundo da Moda".

"Mas o que uma modelo tão famosa está fazendo aqui, em Tomoeda?" - Shaoran perguntou, desconfiado - "Não vão dizer que ela também é..."

"Controladora, exatamente" - Mick respondeu, faceira - "Dos Anjos, para ser mais exata. O que combina muito com ela, convenhamos".

Mick mal falou isso, e a loira olhou para eles. Como se fosse possível, o sorriso dela aumentou, deixando-a extremamente bela. Pedindo licença às crianças com quem conversava, ela se retirou da roda e passou a andar em direção ao grupo. Tomoyo e Meilin ficaram levemente rígidas, mostrando a ansiedade que estavam sentindo. Yamato apenas balançou a cabeça, inconformado.

"Achei que queria ser discreta, Angelita" - Eriol comentou, sorridente.

"E quem pode com as crianças, querido?" - ela respondeu, a voz suave e calma de alguém que parecia cantar uma canção - "Assim que o carro estacionou, elas me viram. Não tive como escapar".

"O avião de Monique chegou depressa, não?" - Mick disse, olhando para o carro - "Achei que vocês só chegariam mais tarde".

"Pois é, eu também achava. Mas, felizmente, não houve contratempos" - a loira olhou para os outros jovens - "Não vai nos apresentar, Eriol? Se bem me recordo, não houve tempo para isso ontem".

"Ah sim, claro!" - o inglês pareceu acordar de um tipo de transe - "Angelita, como bem sabe, estes são Sakura Kinomoto, Shaoran Li, Tomoyo Daidouji, Meilin Li e Yamato Yuninoyo. Pessoal, essa bela senhorita é Angelita Gowdak, famosa modelo internacional e, para nossa sorte, Controladora dos Anjos".

"Muito prazer" - ela se inclinou levemente, em sinal de respeito - "Eriol me falou muito a respeito de vocês. Espero nos darmos muito bem".

"Acho que podemos ir, não?" - Mick perguntou, a expressão cansada - "A senhora Whitman não pode dormir muito tarde".

"Creio que ainda falta um membro do grupo para chegar" - Eriol respondeu, olhando para a multidão de crianças que ainda se espremia para ver Angelita melhor - "Mas ela já está chegando".

Todos olharam para os portões do colégio, de onde uma garotinha loira e de olhos tão azuis quanto aos da modelo vinha correndo na direção deles. Parecia apressada.

"Alguém pode me dizer o que está acontecendo?" - Nakata perguntou ao se aproximar do grupo, ofegando por causa da corrida - "Não vejo uma multidão dessas desde...".

A garota parou de falar, olhos azuis encontrando outros da mesma cor e intensidade que os dela. A voz da pequena guardiã sumiu assim que percebeu o motivo da aglomeração formada na frente de sua escola.

"E eis que o último membro da gangue aparece" - Eriol comentou - "Angelita, essa é Nakata Yuninoyo, a Guardiã Suplente das Cartas Sakura".

"Muito prazer, Nakata!" - disse a modelo, deixando a garota ainda mais admirada.

"Acho que agora podemos ir!" - Mick resmungou, andando até o carro e batendo na porta do banco da frente - "Daniel, abre a porta pra gente! Eu quero chegar logo no hotel".

A porta do carro se abriu, e dela saiu um garoto que Sakura imediatamente reconheceu como aquele que Eriol havia mandado levar os outros Controladores na noite passada. A mesma pele levemente morena, os cabelos castanhos e os olhos tendendo a uma coloração de mel, o porte físico muito bem trabalhado. A noite, como a card captor pôde verificar, não era muito grata com ele, pois a luz do sol o deixava bem mais bonito. Shaoran percebeu a admiração da namorada pelo desconhecido, e involuntariamente não gostou do jovem. O que ele não viu foi que outra pessoa olhava para o garoto, tão ou mais admirada do que Sakura.

"Você podia ser mais delicada, Mick!" - o jovem resmungou, o sotaque demonstrando que ele ainda não sabia falar muito bem o japonês - "Pelo menos dizer 'por favor', não?".

"Ah Dani, você sabe que não precisamos dessas formalidades" - Mick olhou para dentro do carro - "Como vai, senhora Cnar?".

"Acho que agora podemos ir" - Angelita comentou, sorrindo - "Vamos, há espaço para todos no carro".

Todos foram andando até o carro no mais absoluto silêncio. Ao chegarem perto da porta, Sakura viu com quem Mick conversava tão animadamente. Era uma mulher de aproximadamente trinta e cinco anos, expressão séria e decidida, os cabelos negros e lisos batendo na altura do queixo em um corte chanel. Algumas rugas começavam a aparecer no rosto, mas nada que tirasse o charme de dama que possuía. Assim que viu os jovens a encarando, a mulher os encarou fixamente por alguns segundos, antes de se virar para Eriol:

"Quando nos disse que eles eram novinhos, não imaginei que eram tanto!" - ela retrucou.

"São mais maduros do que Pierre, isso eu posso garantir!" - o inglês comentou, risonho, e em seguida olhou para os amigos - "Essa é Monique Cnar, importante empresária alemã e Controladora dos Raios".

"E eu, inglês?" - o garoto que estava no banco da frente se manifestou - "Não vai me apresentar, não?".

"Ia chegar nessa parte, brasileiro!" - o inglês pareceu se divertir - "Esse afobado aqui é Daniel Santos, nosso Controlador dos Maremotos. Creio que saiba quem é quem, não?".

"Prazer!" - Daniel respondeu, balançando levemente a cabeça, e mantendo o olhar fixo para uma certa pessoa em particular, que também não conseguia tirar os olhos dele um instante sequer. Tomoyo riu, pelo visto uma atração à primeira vista havia surgido ali entre uma certa chinesa e o brasileiro presente.

Feita as devidas apresentações, todos entraram no carro, Angelita tendo uma certa dificuldade de desviar das crianças. Quando Daniel deu partida no carro, um silêncio incômodo voltou a se instalar entre eles, sendo quebrado apenas pelo som do rádio que o brasileiro havia ligado. Sakura estava se sentindo desconfortável, principalmente por saber que tanto Angelita quanto Monique estavam a encarando todo o tempo. Na verdade, estava incomodada com o trabalho que estava dando aos controladores. Haviam vindo buscá-la na escola, especialmente para poder conversar com eles...

"Não foi nenhum incômodo para nós, Kinomoto!" - Angelita comentou, do banco da frente - "Tínhamos que ir buscar Monique no aeroporto, de qualquer forma. Seu colégio ficava no caminho, então achamos bom ir buscá-los, já que iriam ao hotel como nós".

"Como... como a senhora...?".

"Eu leio pensamentos" - ela respondeu, sorrindo - "Percebi que você estava se sentindo incomodada, e tive uma intuição de que era sobre isso. Espero que não se incomode por eu ter invadido sua mente!".

"Não se preocupe. Eu só estava preocupada por vocês terem todo esse trabalho por nossa causa...".

"É o mínimo que poderíamos fazer, não?" - Monique respondeu - "Depois de todo esse pandemônio que estamos causando...".

"Você encara as coisas de uma maneira tão pessimista, Monique!" - Daniel comentou - "Pandemônio, a gente?".

"E não é? Não deve ser muito agradável ter a vida invadida por umas trinta pessoas que você nunca viu na vida, e que, ainda por cima, parecem te conhecer muito bem. Acreditem, eu passei por isso quando entrei pra Hierarquia".

"Bom, chegamos!" - Mick anunciou, quando Daniel parou o carro na frente de um grande prédio azul-escuro.

Todos desceram do carro rapidamente e, sem cerimônia, entraram no simples, porém aconchegante hotel. Sakura ficou admirada com o conforto que a recepção mostrava oferecer: almofadas e sofás para todos os lados, assim como uma linda vista para um jardim muito bem cuidado. Os recepcionistas também pareciam ser muito amigáveis, o que podia se ver na calma com que eles atendiam aos telefonemas. Perto da recepção, havia duas mulheres sentadas em um sofá, e ambas liam revistas que Sakura reconheceu como sendo do Ocidente. Uma delas era ruiva, longos cabelos ondulados e grossos, o rosto fino e pálido. A outra tinha cabelos na altura dos ombros, prateados, rosto levemente redondo e olhos castanhos. Ambas pareciam ter a mesma faixa de idade, em torno dos trinta anos.

Como leitura de pensamentos, a ruiva levantou o olhar, sorrindo quando viu o grupo entrando no hotel. Cutucou a companheira de leituras e as duas se levantaram. Com sorrisos nos lábios, dirigiram-se até eles, fazendo Sakura concluir que elas também deveriam ser da Hierarquia.

"Chegarram rápido!" - a de cabelos prateados disse, o sotaque arrastado mostrando que era francesa - "Sarra estava esperrando focês parra mais tarde!".

"Nós sabemos disso, Gabrielle!" - Angelita respondeu - "Mas tudo pareceu nos ajudar hoje. Onde estão os outros?".

"Fausto está nos jardins, com aquela coisa!" - a ruiva resmungou, seu sotaque quase imperceptível - "Pierre se escondeu em algum canto desconhecido, e os outros estão no quarto de Sara".

"Quando Pierre vai crescer?" - Eriol comentou, inconformado. Mas em seguida sorriu, lembrando-se de algo - "Onde foi parar minha educação? Amigos, essas duas senhores são Gabrielle Neveu e Layla Korkovich. Controladoras da Neve e dos Eclipses, respectivamente".

"É um prazerr conhecê-los" - Gabrielle se curvou, em sinal de respeito - "Erriol fala muito de focês. Principalmente de focês dois!" - ela olhou para Sakura e Shaoran.

"Pelo visto você gosta bastante da gente, não?" - o chinês retrucou, olhando feio para o inglês - "Quem mais nos conhece bem, Eriol?".

"Isso é algo que vocês irão conferir por conta própria" - o inglês sorriu - "Além disso, eu tenho outros planos em...".

"AHHHHHH!" - um grito ecoou no ambiente, assustando a todos. Meilin apontava desesperadamente para a porta de vidro que dava para os jardins, desviando o olhar de todos para o mesmo lugar. As garotas gritaram como a chinesa, Nakata se agarrando ao braço do "irmão". Este, juntamente com Shaoran, não teve muita reação, a não ser se espantar e se colocar em posição de defesa. Aqueles que estavam em volta, com exceção de Layla, riram divertidos. Meilin olhou inconformada para os anfitriões:

"O que há de tão engraçado?" - ela retrucou, raivosa - "Caso vocês não estejam vendo, há um LEÃO do lado de fora".

"Nós sabemos disso, senhorita Li" - Layla respondeu, séria - "Essa coisa é o animal de estimação do nosso Controlador dos Felinos, Fausto Huger. E quando digo que ele passou dos limites, ninguém presta atenção...".

"Deixe o cara em paz, Layla!" - Daniel resmungou, embora o sorriso ainda estivesse no rosto; dirigiu-se à chinesa - "Fausto é um biólogo, que cuida de animais feridos. Esse leão foi encontrado quase morto em um safári que ele fez, e desde então foi adotado como animal de estimação".

"E como permitem uma coisa dessas em um hotel?" - Shaoran perguntou, raivoso.

"Na verdade, não permitem" - uma voz soou, vinda das escadas, chamando a atenção de todos; uma senhora bastante idosa vinha descendo, diversas pessoas logo atrás - "Tivemos que hipnotizar os atendentes do hotel, assim como todos os hóspedes. Apenas assim para deixarem Hilbert ficar".

"Hilbert?" - Nakata gritou, revoltada - "Aquilo tem nome?".

"Todo ser vivo possui um nome, não?" - a senhora respondeu, em um tom de voz bastante calmo - "Além disso, não precisam se preocupar, Fausto consegue controlar esse leão como ninguém. Tenho plena confiança nos controladores" - ela parou na frente dos convidados - "Fico feliz que tenham aceitado o convite de Eriol para virem falar comigo".

"Tínhamos outra escolha?" - Shaoran sussurrou, emburrado, o que não passou despercebido pela anciã.

"Eu sei que não é muito fácil, senhor Li, mas creio que sua mãe lhe deu uma ótima educação. Portanto, use-a sempre, sim?" - o garoto arregalou os olhos, enquanto seus amigos, em especial Eriol, riam baixinho. Ele cruzou os braços e ficou ainda mais bravo - "E falando em educação, tenho que usar a minha também. Layla, poderia chamar Fausto para mim? Creio que ele gostará de estar aqui. Se conseguir encontrar Pierre, chame-o também. Embora eu tenha certeza que ele deve estar em algum barzinho por aí".

"Mais respeito comigo, Sara" - um senhor de aproximadamente cinqüenta anos entrou no hotel, os cabelos grisalhos revoltos e a roupa formal bastante amassada; tinha uma expressão irritada - "Estou cansado dessas suas indiretas sobre minha pessoa".

"Comporte-se como um adulto e tratarei sua pessoa melhor" - ela lhe dirigiu um olhar raivoso - "Mandei que ficasse aqui hoje, e não vou tolerar mais uma desobediência dessas".

Sakura se assustou com a ferocidade e firmeza da senhora. Na noite anterior, ela parecia tão calma e gentil, uma pessoa que contrastava totalmente com essa que via agora. Na verdade, parecia mais com uma jovem que havia visto em um certo sonho...

Enquanto a briga se desenrolava, Shaoran se sentou em um sofá e passou a observar, a expressão tão irritada quando estava sua alma. Incrível como as coisas pareciam a não querer dar certo para ele ultimamente. Como se não bastasse ter que agüentar aqueles dois anciões chatos no seu pé durante todos os dias, agora vinha o irritante do Eriol, acompanhado de um bando de malucos que queriam colocá-lo numa organização mais maluca ainda. Sim, porque num grupo onde os membros possuem leões como animais de estimação e dois senhores discutiam como duas crianças, só podia haver malucos. Isso sem mencionar a "briga" que estava tendo com Sakura. De tudo, era o pior para se agüentar.

Perguntou-se como havia parado naquela encrenca sem tamanho. E a resposta era bem óbvia: Rytwild. A bruxa parecia querer atrapalhar a vida de todos que conhecessem, mesmo que ele não tivesse nada a ver com sua história ou com seus supostos traumas. Não importava o que dissessem, nem os argumentos que Eriol colocara na noite anterior, para ele a feiticeira era uma verdadeira desequilibrada, que merecia parar no hospício. Envolver Sakura e ele na história não era justo, sob nenhuma circunstância. Se soubesse que a Hierarquia significasse tantos problemas, sequer teria procurado informações sobre ela. Em certas horas, é melhor não ficar sabendo do que ocorre ao redor.

Separar sua flor dele era, sem sombra de dúvidas, algo que ele não poderia aceitar, em nenhuma hipótese. Havia prometido, era bem verdade, mas estava sendo muito mais difícil do que imaginara. Estava acostumado a confortá-la, a ficar ao lado dela, a ser o seu maior companheiro. Mas o principal: estava acostumado a tê-la do seu lado também. Sakura era a única que o conhecia por completo, que sabia como fazer se sentir melhor. Que o fazia ser melhor, era essa a expressão. E tirar isso dele era quase como matá-lo. Rytwild ainda não sabia que ele havia sido escolhido para ser o novo Sub-Regente, e esperava que ela não o fizesse. A situação já estava muito ruim, obrigado!

E por isso ele estava tão bravo. As coisas aconteciam sem ele poder controlar, e isso o deixava nervoso, pra não dizer assustado. Eriol agora havia entrado na sua vida, como todos os seus amigos controladores, e esperava dele uma posição. A vontade que tinha era de mandar tudo para o inferno. Mas não podia. Sabia que não podia.

"E eu espero que isso tenha ficado bem claro, senhor Saniére!" - Sara exclamou, calando o homem à sua frente.

"Claro como água, Sara" - ele retrucou, emburrado como uma criança mimada.

"Ótimo. E acho que, agora, podemos ir ao que importa" - ela olhou todos os outros - "Estão todos aqui?".

"Eu cheguei, Sara!" - um homem loiro, de olhos verdes e cabelos compridos, barba comprida, entrou no recinto acompanhado de Layla - "Algum problema?".

"Os mesmos de sempre, Fausto" - a senhora sorriu - "Pelo visto, deixou Hilbert à mostra, não?".

"Quis ver os nossos convidados, creio eu" - o homem retribuiu o sorriso.

"Controle-o, por favor. Mas não foi por isso que os chamei!" - ela encarou os controladores - "Como vocês bem sabem, todos nós possuímos missões aqui, que foram designadas aos senhores na nossa última reunião. Quero que as comecem agora".

"Agora?" - Daniel exclamou, assustado - "Mas chegamos ontem".

"Não temos tempo, Dani! Você sabe a gravidade do problema, portanto temos de ser rápidos. No fim da noite, quero resultados concretos sobre o progresso dos senhores, entendido?";

"Sim" - foi a resposta em uníssono de todos.

"Muito bem. Ao final da noite, também compareçam ao meu quarto. Quero fazer as apresentações oficiais" - ela se voltou para Mick - "Tenho também uma missão para você, mocinha. Leve as senhoritas Daidouji, Li e Yuninoyo para conhecer o jardim do hotel, e lhes conte tudo o que lhe disse ontem de manhã. Leve o senhor Yuninoyo também, mas quero que ele volte daqui a uma hora. Entendido?"

"Sim senhora!" - Mick concordou, pegando no braço de Tomoyo e Meilin - "Vamos, senhoritas, temos muito que conversar".

Tomoyo e Meilin saíram resmungando, mas ainda assim obedeceram. Nakata e Yamato, vendo que não deveriam discutir, seguiram-nas, indo todos para o jardim. Pouco a pouco os outros controladores também foram saindo, Angelita e Gabrielle cumprimentando Sakura e Shaoran, assim como Eriol e Daniel. Em pouco tempo, ficaram apenas os dois, junto com Sara.

Os três se encararam durante algum tempo, aquele silêncio incômodo se estabelecendo novamente. A senhora sorriu para os dois jovens, benevolente:

"Vamos lá, rapazes, eu não mordo!" - ela comentou, faceira - "Que tal irmos tomar um chá no meu quarto? Creio que lá é mais confortável do que o saguão".

Os dois concordam em silêncio, e os três seguiram pelas escadas. Em seguida, chegaram rapidamente à grande suíte em que Sara estava hospedada. Ela abriu a porta, dando passagem aos jovens, que sem fazer cerimônia entraram, sentando-se na grande cama presente.

Com alguma dificuldade, a senhora se sentou numa cadeira estofada que havia por perto, suspirando de cansaço ao cumprir a dolorosa tarefa. Sakura percebeu que ela deveria ser bem mais velha do que imaginava. Se ela já vivia na época de Clow...

"Tem certeza que foi uma boa idéia pedir aos controladores para virem aqui no fim da noite?" - a garota perguntou, aflita - "Mick disse que a senhora não pode dormir muito tarde".

"Ah, não se preocupe, querida" - Sara sorriu para a feiticeira - "Descansei bastante por hoje, exatamente para ficar acordada até mais tarde. Meu médico irá me matar quando souber, mas ele que se dane!".

"Desculpe-me a pergunta, mas quantos anos a senhora tem?" - Shaoran questionou, curioso.

"Cento e dezenove, com muito orgulho" - ela sorriu ao ver a face de espanto dos dois - "Uma pena que tive de fazer disso um segredo. A imprensa cairia em cima se soubessem a minha verdadeira idade. Para todos os efeitos, eu tenho somente noventa anos. Claro que tive que adulterar alguns documentos para omitir esse pequeno dado. Mas isso não vem ao caso".

"Isso é impossível... um ser humano não pode viver tanto!" - Sakura exclamou, levemente assustada.

"Ora, já vi casos de pessoas chegando aos cento e trinta, por que eu não poderia? Além disso, eu estou longe de ser a pessoa mais velha que vocês conhecem. Infelizmente, há alguém com idade bem mais avançada do que a minha".

"Rytwild, eu suponho" - Shaoran comentou.

"Pois é, garoto, ela mesma" - ela suspirou, cansada - "Estava me perguntando sobre esse assunto hoje à tarde... Eriol me disse que vocês não fizeram nenhuma pergunta sobre a idade dela. Achei estranho".

"Pensei muito no assunto" - o chinês se remexeu, inquieto - "Pensei em como ela pode ser tão velha e ainda estar viva. Pior, parecendo ter bem um cem anos a menos".

"A senhora sabe por quê?" - Sakura perguntou, aflita.

"Eu tenho uma suposição, mas ainda não é certeza. Encarreguei Pierre e Angelita de confirmarem a minha suspeita, e espero que eles me tragam respostas" - ela juntou as mãos, como Eriol costumava fazer, em sinal de reflexão - "Mas, infelizmente, creio que minhas suposições sejam mais certas do que eu queria".

"E quais seriam essas suposições?" - Shaoran questionou, impaciente.

"A mesma que explica o fato dela estar muito mais forte do que Sakura" - Sara encarou os dois fixamente - "Yue e Kerberus já devem ter comentado que apenas Sakura e Eriol podem derrotá-los, não?".

"Muitas vezes" - respondeu Sakura - "Mas, pelo visto, isso não é mais verdade".

"Está enganada, senhorita Kinomoto. Creio que Yue já deve ter pensando nessa hipótese, se é que já não a comentou. A única maneira de se derrotar os guardiões é ser dono deles, ou então ser o criador. Como Rytwild não é nenhum dos dois, só há uma explicação plausível".

"Que seria..." - Shaoran incitou a senhora a falar.

"Há uma magia muito antiga e perigosa, que permite uma pessoa absorver os poderes mágicos de outra pessoa. O próprio Yue já utilizou essa técnica, quando absorveu os poderes de seu irmão, Sakura. Creio que Rytwild esteja usando essa técnica para ficar mais forte. E a pessoa de quem está absorvendo os poderes deve ser bem poderosa, pois os poderes dela aumentaram consideravelmente".

"Você acha que ela roubou todos os poderes de alguém?" - Sakura questionou, o peito se apertando fortemente.

"Todos não. Eu convivi com Rytwild por muito tempo, e sei que, para ela, não seria muito divertido fazer isso. Não... ela deve estar retirando pouco a pouco, conforme vai necessitando ficar mais forte. A essa altura, ela já deve ter retirado muito, mas ainda deve ter uma reserva... como uma carta na manga".

"E o que isso tem a ver com o fato dela ainda estar viva?" - o garoto retrucou, batendo o pé de tanta impaciência.

"Há uma magia muito parecida com essa, só que bem mais danosa e muito mais sombria" - a senhora fechou os olhos - "Todos nós possuímos, em nossas almas, uma espécie de essência que nos garante a vida. Alguns dizem que é essa essência que garante que um ser vivo não possa ser criado artificialmente, por mais tecnologia que o ser humano possua. Nós, feiticeiros, chamamos de essência de vida. Conforme ficamos mais velhos, ela vai diminuindo de quantidade, até que um dia acaba, e nesse dia morremos. Uma vida que é interrompida antes do tempo libera essa essência na natureza, e ela é usada em outros seres vivos que dela precise".

"Cada pessoa possui uma certa quantidade dessa essência, e quanto mais ativa for a pessoa, mais ela a possui. A essência de vida é o que o ser vivo possui de mais sagrado, ela que garante que possamos viver nesse mundo. Porém, há uma magia que permite que essa essência seja roubada de outra pessoa, assim como os poderes mágicos podem ser absorvidos. O único problema dessa magia é que, ao contrário da outra, seus efeitos são temporários. Enquanto a magia fica eternamente com você, a essência de vida se esgota mais rápido do que deveria, e logo você tem que procurar outra pessoa de quem possa retirar essa essência tão valiosa. Você fica vivo por mais tempo, mas o preço é horrível. Ao roubar a vida que não é sua, seu organismo continua funcionando, mas sua alma não. Você perde totalmente as características".

"Por isso Rytwild tem aquele olhar tão horrível?" - Sakura concluiu, enojada - "Isso é algo absurdo. Cruel".

"O pior é o destino das vítimas desse feitiço" - Sara pareceu derramar uma lágrima - "Essas pessoas não agüentam muito tempo sem a essência de vida, e acabam morrendo rapidamente. Fico imaginando quantas vidas Rytwild sacrificou para sobreviver durante todos esses anos... é algo que me enoja só de pensar".

"Você acha que ela pode estar absorvendo a magia e a essência de vida de uma mesma pessoa?".

"Eu duvido, senhor Li. A pessoa não resistiria por muito tempo, e creio que Rytwild não queira isso. Mas de todo modo, essa é só uma teoria, que eu espero que esteja errada" - ela suspirou mais uma vez, e abriu os olhos - "Porque, se estiver certa, aí sim estaremos em maiores problemas. Eu já tive a oportunidade de lutar com Rytwild uma vez, sei o quanto ela é habilidosa. Temos que estar prontos para tudo, até mesmo para esse... homicídio".

"Acha que não estamos prontos para lutar contra ela?" - Shaoran questionou, fazendo cara feia.

"Sinceramente, não estão!" - Sara respondeu com tanta firmeza que até assustou os dois - "Não estou dizendo que não são fortes. Isso vocês os são, sem sombra de dúvidas. Mas, em uma luta, não é preciso só força. É preciso agilidade, equilíbrio, sabedoria. E isso Rytwild tem de sobra".

"Não me parece que ela seja muito equilibrada".

"Pode ser que não, senhor Li. Mas, numa luta, Rytwild sabe se controlar, e muito bem. Os seus conhecimentos em artes marciais a tornam uma oponente muito forte, e ela sabe usar esse artifício como ninguém. O que a deixa um passo a frente de você, querida Sakura" - ela olhou a garota com carinho.

"É, eu tive a chance de lutar com ela, corpo a corpo" - Sakura se lembrou do acampamento - "Ela realmente é muito boa".

"E isso me leva aonde queria chegar" - Sara se levantou, com um pouco de dificuldade, e passou a andar pelo quarto - "Sakura, você é o principal alvo de Rytwild, isso é fato. Ela não vai sossegar até ter retirado todas as suas cartas, e ter a chance de ser vingar da Hierarquia".

"Como sempre, a Hierarquia é o problema" - Shaoran resmungou.

Sara olhou para o garoto seriamente, Sakura querendo dar uns tapas no namorado (se é que ainda podia considerar namorada dele), devido à forma como ele estava se comportando. A anciã andou até o garoto, e o encarou nos olhos:

"Eu acho que estamos indo pelo caminho errado, senhor Li" - ela estreitou os olhos, mas o garoto não se intimidou - "Creio que já está na hora de acertamos alguns ponteiros por aqui. Diga-me, o que o senhor está achando de tudo isso, afinal?".

"Quer saber mesmo?" - ele respondeu, irritado - "Eu acho que tanto Rytwild quanto a Hierarquia estão nos usando, a mim e à Sakura. Não temos nada a ver com essa briga, não vejo razão para nos envolvermos da forma como estamos".

"Uma opinião interessante, senhor Li. Pena que não há fundamento nela" - o garoto arregalou os olhos - "Acho que Eriol não passou as informações como deveria. Em algum momento ele disse que nós os escolhemos como os sucessores de Lead e Hina?".

"Não...".

"Em algum momento ele citou que queremos que vocês assumam os cargos, mesmo contra a vontade?".

"Não...".

"Em algum momento ele citou que estamos atrás de suas habilidades, ou algo parecido?".

"Não...".

"Então ele passou a informação correta" - Sara fingiu pensar - "Então, o que temos aqui? Acho que já sei... talvez seja medo, não acha senhor Li?".

"EU NÃO TENHO MEDO!".

"Não grite comigo, garoto. Estou falando com educação!" - ela o encarou com fogo nos olhos - "Vou lhe dizer uma coisa: eu entendo perfeitamente como se sente; acredite, eu já passei por isso. Quando entrei para a Hierarquia, tinha somente dezesseis anos, e nunca tinha ouvido falar em magia" - ela suspirou, e voltou a se sentar - "Realmente as coisas por aqui não são fáceis, não irei enganá-los. Mas há diversas vantagens em ser um líder. Acho que a principal delas é o fato de poder ajudar pessoas com todos os métodos possíveis. Ter a chance de lutar por um ideal pelo qual acredita, e fazer acontecer. Sabem, é algo para se pensar" - um sorriso fraco apareceu em seu rosto - "Há muitos problemas que nos cercam, perigos que nos perseguem a maior parte do tempo... mas há também amigos que estão nos acompanhando, uma equipe que sempre está pronta para ajudar, e a constante oportunidade de se fazer justiça. Sabe, eu queria realmente mostrar a vocês como nós da Hierarquia trabalhamos... isso, é claro, se vocês quiserem nos dar essa chance".

Sakura e Shaoran se entreolharam, como há algum tempo não faziam. A confusão de ambos era clara e transparente, partilhavam do mesmo sentimento. Deveriam dar uma chance?

"Mas não foi sobre isso que os chamei!" - Sara pareceu sair de um leve transe - "Eu sou a líder da Hierarquia atualmente, e tenho uma missão mais importante para cumprir. Nosso objetivo agora é ajudá-los com Rytwild, e não convencê-los a assumir o cargo".

"E o que a senhora pretende fazer para nos ajudar?" - Sakura perguntou, cautelosa.

"Bom, primeiro precisamos que você não esteja em desvantagem em relação àquela bruxa asquerosa" - Sakura controlou o riso ao ver a cara de nojo da senhora - "Estive analisando a sua vida por um tempo. A escola, os amigos, os hábitos... e não se preocupe, não vi nenhum momento íntimo seu!" - ela acrescentou, ao ver o rosto de Sakura se contorcer de raiva - "Apenas quis avaliar sua rotina... e percebi que, no quesito luta, você tem muita força, muita prática, mas pouca técnica. Precisamos aprimorar esse lado, urgentemente".

"Isso explica como a senhorita Gowdak sabia onde ficava nosso colégio" - a garota concluiu, pensativa - "Estiveram me observando o tempo todo".

"Como pretende fazer isso, senhora Whitman?" - indagou Shaoran, levantando uma sobrancelha.

"Tenho um plano, mas vou precisar de sua ajuda, senhor Li" - ela sorriu - "E do senhor Yuninoyo também, creio eu".

Continua

Notas finais: ALELUIA! ALELUIA! ALELUIA, ALELUIA, ALELUIA!!!!! Enfim, senhor, terminei!!!!! Esse demorou, e olha que eu escrevi na maior velocidade que pude. Mas o cursinho ocupa minha vida ao extremo... e agora que emendei o ensaio da peça... ai, me ajudem!!!! Mas acabei, enfim! Desculpem pelo atraso!

Enfim, é outro capítulo longo e teórico. Mas prometo que é o último. Apresentação de novos personagens, do Hilbert (nosso mascotinho... ele já apareceu antes, será que alguém notou nele?)... e do Dani! Não foi muito, mas esse personagem... tirando o olho, meninas, ele é meu! Hehehehe!

Mas acho que o ponto crucial, pra mim, é a Sara. Vocês vão começar a conhecer um pouco agora da líder que ela é... estão pensando o quê? Ela até enfrentou o Shaoran (e como fez isso bem, hahaha).

Pra terminar (não tô muito inspirada hoje pra escrever notas), queria agradecer a todos que estão lendo e deixando reviews. E também agradeço aos que lêem e não deixam review. Valeu por TUDO, galera, por agüentar essa autora maluca que eu sou (como diria a Tamy, uma figura ambulante).

Também queria agradecer a Tamy e a Maki, que me deram uma senhora força nesse capítulo. Valeu, garotas. Estamos ficando chiques, não?

E agora, a próxima parte da história: "Como Senhores da Natureza surgiu".

No meio da faxina, encontrei no meio dos meus livros o caderno do Gustavo, aquele em que ele tinha rabiscado os primeiros planos da história. Antes de desistirmos, ele havia me emprestado o caderno para eu escrever tudo que eu fosse pensando, de forma que também tinha uns rabiscos meus. No fim, o caderno havia ficado comigo, e estava no meio dos meus livros todo aquele tempo. Quando comecei a folheá-lo, bateu uma vontade imensa de continuar a história, pois ali havia idéias boas. Mas para eu fazer isso, eu tinha que voltar à forma, ou seja, voltar a ler fics de CCS, que há muito eu não lia. Então eu comecei a procurar a primeira fic que eu havia lido, uma fic que tinha um poema que, na época, eu tinha amado. Aquele seria um bom ponto para começar! Mas, pra minha infelicidade, eu nunca achei essa fic. Procurei em todos os sites possíveis, e por causa disso acabei parando no FF. Não li a fic que eu queria, mas li outras tão boas quanto. E elas foram contribuindo para surgir mais idéias na minha cabeça doida. No fim, já tinha definido toda a história dos casais e também a grande maioria das personalidades dos personagens. Faltava apenas duas pessoas para serem trabalhadas: Rytwild e Nakata. E então me concentrei nelas.

Primeiro, trabalhei com a Nakata. Pensei nas circunstâncias em que ela havia sido criada, e na forma como Kero e Yue a viam. Também pensei o que teria acontecido com ela depois da morte de Clow, já que no livro ela não poderia entrar, mas também não poderia ficar muito longe, já que a qualquer momento Yue poderia desaparecer. Pouco a pouco, fui formando as respostas na minha cabeça. Decidi fazer dela uma criança, pois para mim a criança representa esperança de salvação, de nova vida, e é isso que a Nakata, em sua essência, é: uma espécie de esperança para o grande problema de Yue, uma nova vida que virá no lugar daquela que um dia pode desaparecer. Sendo ela uma criança, imaginei uma relação de carinho entre ela e os guardiões, onde Kero, o guardião mais "atrevido", seria como um tio divertido e que não chama muita atenção; e Yue, o guardião sério e responsável, seria como um irmão mais velho tentando proteger a irmãzinha, ao mesmo tempo em que implica com ela quase a todo instante. Para mim já era o suficiente, mas sem nenhuma razão uma pergunta surgiu na minha cabeça: ela seria tão poderosa quanto Yue, ou seria mais? Decidi que ela seria mais poderosa, mas seus poderes não seriam desenvolvidos como os de Yue, e por uma razão: Nakata seria criada pelo Mago Clow, em um momento em que o próprio estivesse em um mau momento de sua vida, onde além de outros problemas, estivesse pensando em como consertar a fraqueza de Yue, já que esse fator poderia pôr suas cartas em risco. Alguém que nasce em um momento como esse, por mais poderoso que seja, nunca se desenvolve ao máximo, sempre possui um problema. E o problema da Nakata seria esse: seus poderes, realmente poderosos, estariam em um baixo patamar de desenvolvimento, e para ela chegar ao nível necessário, precisaria de um treinamento. Aí o Yamato entrou na história.

Yamato, para ser sincera, já existia há muito tempo. Ele surgiu na mesma época que a Nakata, e desde o começo era para ele ser um treinador, de preferência da guardiã. Mas em um primeiro momento ela não precisaria de treinamento, pois seria uma guardiã normal, com todos os seus poderes ao máximo. Graças a isso, ele acabou ficando "de canto", e eu não pensei nele por um bom tempo. Mas quando eu defini a personalidade e a vida da Nakata, ele veio bem a calhar. Além de ser o treinador da guardiã, ele seria de grande importância para quando ela fosse viver entre os humanos. Como Nakata é uma "criança", sua identidade falsa só poderia ser uma criança também, no máximo uma pré-adolescente. E como crianças não vivem sozinhas no mundo, Yamato seria, na identidade falsa, uma espécie de tutor da pequena, se passando por seu irmão mais velho. Desse ponto, só faltava a personalidade dele, que não foi difícil de definir. Uma pessoa séria, treinador rígido, bastante racional e organizado, mas que ODEIA quando brincam com ele (o que explica a sua relação com Shiefa). Relaciona-se facilmente com as pessoas, e geralmente é amigo de todos.

Mais no próximo capítulo, pessoas. A ação voltará à nossa história, não percam!

Beijos