Depois de alguns anos, nunca imaginou se sentir entediada e desanimada. Certo, a sua vida não era das piores, ao contrário, sequer tinha do que reclamar. Mas ainda assim, algo faltava na sua vida, e pedia desesperadamente por ação. Bem, seu desejo foi atendido... agora, será que ela agüenta?
Disclaimer: Sakura Card Captors e todos os outros personagens são da Clamp®, eu só sou mais uma doida varrida que vou fazer todos eles sofrerem (será que conseguirei chegar até o final dessa história sem repetir nenhum comentário daqui?).
Capítulo 16 - Daidouji em ação!
Um ar denso predominava o ambiente, enquanto um forte cheiro de enxofre contaminava o seu nariz. Fazendo muita força, abriu os olhos, para olhar o negrume que estava presente. Sentiu um aperto no coração, mas seu rosto não mostrou essa reação. Estava muito fraca.
Com um esforço descomunal, olhou para o lado e depois para o outro. Pelo visto, ainda não haviam chegado. Perguntou-se quanto tempo ainda agüentaria viver aquela situação, quanto tempo seu corpo suportaria. Ficava surpresa ao pensar que ainda não tinha sucumbido, mas sabia que era questão de semanas, talvez de dias. Logo, já não conseguiria acordar, e a respiração cessaria por completo. Seu coração doía ao pensar nisso... tinha tantas coisas ainda por fazer, tanto a viver! Mas o que mais lhe deixava triste sequer era o desejo de coisas que nunca aconteceriam, e sim o que estaria abandonando.
Como ela estaria nesse momento? Já estaria sabendo da terrível mentira que estava vivendo? Com certeza não, senão alguém já teria acabado com toda aquela palhaçada. Seu sobrinho não deixaria barato... mas, pelo visto, eles ainda não sabiam. O que lhe deixava com medo. Se tudo que sabia se cumprisse, toda a sua família corria perigo. E não só eles, pelo visto.
Ao longe, um som de porta se abrindo ecoou, e tratou de fechar os olhos rapidamente. Sabia que lhe restava pouco tempo de vida, e, portanto, tinha que se preservar ao máximo. Sua mente, mesmo debilitada, ainda conseguia trabalhar, e tinha que se aproveitar disso o máximo que pudesse.
Os passos de alguém vinham soando pelo ambiente, e ela sentiu uma claridade surgir. O coração voltou a se apertar, pensando no que viria a seguir. As dores, a agonia, a vida que se esvaía conforme o procedimento era feito... pensava em como alguém conseguia ir tão baixo a esse ponto. Era um preço tão alto a se pagar, por algo que sequer durava muito. Quantas pessoas como ela não devem ter sido sacrificadas, da mesma maneira? E em pensar que estava ali por um bobo orgulho... a grande mania de achar que podia contra todos! Sabia que era um defeito seu, mas nunca fez muita questão de consertá-lo. Era a sua marca, aquilo que a fazia ser única, especial. E, de certa forma, tinha orgulho de ser assim. Mas, agora, estava para morrer por causa disso.
Como um condenado no corredor da morte, sentiu seu carrasco vindo buscá-la. Aquele homem lhe despertava curiosidade, de uma certa maneira. Desde o começo ele se mostrava tão fiel e tão dedicado em sua missão que não podia deixar de pensar no porque dele também se sujeitar a tanto. O que levava um homem a ajudar em algo tão sujo e pior, a também entregar algo tão valioso? Sabia que ele não ganhava nada, mas o homem continuava sendo fiel, até o fim.
Sentiu o corpo ser carregado de qualquer maneira, como sempre acontecia. Passou pelo mesmo caminho, abandonando o ambiente com cheiro de enxofre e entrando naquilo que ela sabia ser uma sala. Mesmo de olhos fechados, ela sabia que no centro do chão havia uma grande insígnia desenhada, onde ela seria posta. Uma pequena eternidade com a qual ela nunca se acostumaria.
"Como ela está?" - a voz de sua algoz soou no recinto, tão fria e desdenhosa quanto ela se lembrava.
"Mal, muito mal. Sequer abre o olho mais" - o timbre masculino respondeu, aparentando cansaço - "Se não fosse pelo fato de respirar, diria que ela já está morta".
A mulher se sentou ao seu lado, agarrou o seu pulso e começou a apertá-lo com muita força. Por um pequeno instante, ela sentiu sua energia voltando, sua vida retornando... mas tão rápido quanto veio, foi embora.
"Droga, a energia está acabando. Terei que me controlar a partir de agora" - o pulso foi solto, e por questão de esperteza, ela o deixou cair frouxamente - "Não posso mais abusar, senão ficarei sem".
"Não seria mais fácil arranjar outra fonte? Como a senhora fez tantas vezes?".
"Preciso dessa fonte, seu palerma! Não vê que ela me dá privilégios?" - o tom raivoso da mulher a deixou bastante intrigada. Por que ela era tão especial, afinal? - "Não é só a essência vital dessa mulher que me interessa. Preciso dela para muitas outras coisas".
"Eu sei disso, senhora, mas não acredito que ela dure por muito tempo... o que fará quando o corpo dela sucumbir?".
"Não sei, sinceramente não sei" - um bufo foi ouvido - "Mas também não quero pensar nisso agora. Ela é forte, tenho certeza que, até esse momento, eu já terei tomado as cartas e acabado com a Hierarquia. E então, ela já não será necessária".
"Se a senhora diz, tenha certeza de que irá acontecer".
"Mas é claro! Está tudo pronto?".
"Ah sim! Pode começar o ritual".
Pela terceira vez em questão de minutos, ela sentiu um novo aperto no coração. Sentimentos de medo, fúria, raiva, fraqueza, todos se misturando em seu agoniado coração. Queria poder lutar, mas já não podia mais, e estava condenada à morte nessas condições. Como poucas vezes acontecera em sua curta vida, ela teve vontade de chorar.
E como nunca havia acontecido, também não tinha forças para isso. Nem para soltar uma única lágrima.
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Yamato abria e fechava a boca com um ritmo alucinante. Na cabeça do treinador, palavras e mais palavras surgiram sem, no entanto, conseguirem se organizar em uma frase. Mas ele sabia que, embora fosse o único a mostrar tal reação, todos estavam se sentindo da mesma maneira. Espanto era a palavra escrita na testa de cada um dos presentes.
"Treinar a Sakura?" - Yamato finalmente conseguiu dizer algo - "Eu?".
"Exatamente" - a velha senhora Sara deu um sorriso - "Imagino que tenha dado tempo o suficiente para Mick contar todos os nossos planos. Ou ela se excedeu novamente contando como a França é maravilhosa?".
"Claro que não!" - Mick fez uma careta - "Fiz tudo como a senhora pediu".
"Só Sakura e eu não estamos entendendo nada por aqui?" - Shaoran resmungou, também fazendo cara feia. Eles estavam totalmente perdidos com o que a senhora Whitman havia proposto. Depois da conversa que haviam tido a sós, a idosa mandou chamar os outros, e quanto estes chegaram, ela mandou Yamato treinar Sakura, sem mais nem menos.
"Eu irei explicar tudo, jovem Li" - ela sorriu, parecendo bastante feliz - "Como eu já havia dito, Sakura tem que saber controlar a magia, assim como as artes marciais. E não vejo pessoa melhor para treiná-la do que o treinador de uma guardiã!".
"Mas a Sakura é a mestra das Cartas!" - Yamato se exasperou - "Ela é muito mais forte que eu! Como conseguirei treiná-la?".
"Nakateri Yue também é mais forte que você, e nem por isso ela o vence num confronto direto".
A garota bufou com o comentário:
"Não venço porque não quero!" - ela virou o rosto infantilmente.
"O fato é que Yamato conhece todas as técnicas de combate relacionadas com a magia, e sabe ensiná-las muito bem!" - Sara sorriu quando Sakura levantou a sobrancelha - "E sim, eu também observei o treinamento que ele aplica na pequena Nakata. E gostei muito do que vi, Clow criou um excelente treinador".
"E onde eu entro nessa história toda?" - Shaoran perguntou - "A senhora me disse que eu teria parcela nesse plano".
"E terá. Você ficará encarregado de treinar Sakura também".
"Ué, mas esse trabalho não é do Yamato?" - Meilin perguntou - "A senhora está me confundindo".
"Yamato pode ser um ótimo treinador para magias, mas não acredito que ele tenha tantas habilidades ao lidar com as artes marciais. Nesse aspecto, a melhor pessoa que vi durante minhas observações foi o senhor Li. Não que a senhorita esteja muito atrás" - Meilin sorriu com o comentário - "Mas ele ainda possui algo que pode ser muito útil contra Rytwild".
"E o que seria isso?" - Shaoran ficou curioso com o comentário.
"A cumplicidade que você possui com Sakura" - ela olhou para os dois - "Isso será essencial neste momento, lembrando que ela não possui muito tempo para treinar. Claro que não é esse o principal motivo. Sabe, será bom vocês saberem... trabalhar juntos".
Sakura e Shaoran se entreolharam, mas logo em seguida baixaram a cabeça, envergonhados. Sara sorriu por dentro, pensando nas conseqüências do seu plano. Bem, já o tinha na cabeça há algum tempo, mas a idéia de aproximar os dois garotos a deixava ainda mais empolgada em executá-lo. Precisava juntar aqueles dois, e depressa!
Enquanto isso, Tomoyo e Nakata sorriram. Elas também viram naquele treinamento a oportunidade de juntar os amigos novamente. Claro que teriam bastante trabalho, tendo em vista que os dois eram extremamente teimosos e orgulhosos. Mas, com algum esforço, aquele "tempo" não iria demorar muito.
"E então, meus jovens, aceitam a proposta de treinar nossa jovem Mestra?" - perguntou Sara, olhando para Shaoran e Yamato.
"Bom... por mim, tudo bem" - respondeu o treinador, meio sem jeito - "Ainda acho que não sou a pessoa adequada para o trabalho, mas eu o aceitarei, sim".
"E você, senhor Li? Aceita fazer de Sakura uma excelente lutadora?".
Shaoran olhou para a namorada com um olhar quase que ressentido. Por ela, faria isso e muito mais. Mas ela toparia?
"Será que eu posso?" - ele perguntou, encarando-a fixamente.
Sakura sentiu seu coração apertar. Desse jeito, as coisas ficavam cada vez mais difíceis...
"Muito bem, acho que estamos entendidos" – Sara, com alguma dificuldade, se levantou – "Temos agora que arranjar um lugar para o treino. Creio que a casa dos Li seja um bom lugar..."
"Eu acho melhor não" – Tomoyo se manifestou, chamando a atenção de todos. Sentindo os olhares de estranhamento dos outros, ela tratou de completar – "Bom, seria um lugar muito óbvio. Rytwild pode estar vigiando, ou algo assim".
Sakura olhou para a amiga, e viu que ela estava incomodada. Talvez soubesse a real razão de Tomoyo não querer que o treino fosse na casa dos Li. Talvez fosse pela mesma razão que ela não se sentia confortável naquela casa.
A mãe de Meilin.
"Então, que lugar a senhorita sugere?" – Sara encarou Tomoyo profundamente – "Aqui no hotel não possuímos espaço suficiente para os treinos".
"Eu posso ceder a minha casa. Temos bastante espaço lá, e aposto como minha mãe não se incomodará de cedê-la à Sakura".
"Mas como eles irão treinar magia lá?" – Meilin questionou – "E o monte de empregados? Eles não devem achar muito normal uma garota soltar raios por aí".
"Eu arranjo um lugar seguro, não se preocupem" – a morena sorriu – "Então, aceitam o convite?"
"Por mim está tudo bem" – Sara fechou os olhos e se pôs em uma posição de concentração – "Falta saber se eles aceitam".
"Por mim tudo bem" – Yamato deu de ombros – "Tendo espaço, está ótimo".
"Por mim também" – Shaoran olhou para Sakura – "Você aceita?".
"Sim, claro. Na casa da Tomoyo está ótimo".
Sara ia dizer alguma coisa extra sobre o treinamento, mas não teve tempo para tanto. Nesse exato minuto, Daniel entrou no quarto, interrompendo a velha senhora:
"Com licença, Sara" – o garoto viu que os convidados ainda estavam lá, e na mesma hora tratou de se redimir – "Oh, desculpe. Não sabia que eles ainda estavam aqui".
"Não se preocupe quanto a isso, Dani" – Sara sorriu para ele, um sorriso quase materno – "Tem alguma novidade?"
"Ah sim. Consegui uma festa para esse final de semana. Parece-me que haverá uma reunião empresarial aqui no hotel, e a recepção me pediu para animar o ambiente".
"Pelo visto, já andou fazendo a sua propaganda, não é mesmo?" – Daniel ficou vermelho, e Sara riu abertamente – "Você é um bom profissional, Dani. Parabéns pelo trabalho, e espero que continue assim".
"Obrigado, Sara. Ah, e tenho uma informação do Eriol também".
"Eriol? Ué, achei que ele tivesse saído".
"E saiu. Recebi a informação por telefone" – Daniel disse algo no ouvido de Sara, e a senhora ficou espantada – "Foi isso que ele me disse".
"Ora, mas isso é inesperado. Se bem que... é, talvez seja bem útil. Acho que já sei o que fazer quanto a isso. Daniel, ligue para Eriol. Diga para ele cuidar de todos os detalhes".
"Sim senhora. Com licença" – ele prestou reverência para Sara e acenou para os outros.
"Creio que já esteja bem tarde, e sinto que já passei dos meus limites" – Sara se sentou novamente, com a ajuda de Mick – "Eu queria fazer as apresentações oficiais, mas pelo visto não agüentarei. Acho que já acertamos tudo que tínhamos de acertar, não é mesmo? Agora só falta combinar os horários de treino, mas essa função eu deixarei com vocês".
"Quando eu deverei começar a treinar?" – Sakura perguntou – "Quero dizer, há alguma urgência nesse treino?"
"Você acha que há? Bem, eu aconselharia a começar o treino amanhã mesmo, mas isso depende de vocês, sobretudo de você, Sakura. Se acharem que não há urgência no treinamento, comecem a qualquer hora. Mas... bem, vocês sabem a minha opinião". – ela deu um longo suspiro – "Mick, levem-nos até a entrada. Se Daniel estiver lá, peça para levá-los em casa. Se não, chame um táxi, que eu pago a corrida".
"Não, senhora Sara, não precisa...".
"Vocês vieram até aqui por minha causa, Sakura. Preciso sim dar uma assistência a vocês. E não discuta comigo".
Sem dizer mais nada, todos saíram dali, prestando reverência a Sara como despedida. Mick os guiou até o saguão de entrada, onde Daniel ainda estava fazendo algumas ligações:
"Ah, você não vai começar com frescura, vai?" – o brasileiro parecia exaltado – "Ora, Eriol, o que você queria? Você é a pessoa mais próxima dela. Eu sei que você anda ocupado e... o que, eu? Eu não. Quem você acha que eu sou, assistente de imprensa da Hierarquia? Tá, inglês, eu já entendi, mas foi ordem da Sara. É, eu sei que ela anda te sobrecarregando, mas dessa vez eu tenho que concordar com ela, você é a pessoa mais indicada. Ok, eu falo com ela. Se cuida".
"Afinal, o que o Eriol tem que fazer?" – Mick perguntou, quando Daniel desligou o telefone – "Você está tão misterioso quanto a isso".
"Nada demais. Só... um pequeno imprevisto" – ele reparou na presença dos outros – "Pelo visto, terminou a reunião".
"Já não era sem tempo" – Shaoran reclamou – "Isso está ficando cansativo".
"Pelo visto, ela falou da idéia do treinamento".
"Você já sabia?" – Nakata perguntou, espantada – "Podia ter dito antes".
"E estragar o prazer da Sara em dar ordens pra todo mundo? Não, obrigado. Eu prefiro continuar vivo" – ele olhou para Sakura – "Onde será o treino?".
"Na casa de Tomoyo" – a card captor respondeu – "Por enquanto, é o melhor lugar".
"Tomoyo" – ele olhou para a morena – "É você, não é mesmo?".
"Sim, sou eu".
"Certo, talvez eu apareça por lá então" – ele olhou para Meilin e entregou um cartão para ela – "Quando tiverem dia definido, me liguem avisando da hora e local. Adorarei ver o treino da nossa pequena Regente".
"Ah sim, pode deixar" – Meilin guardou o cartão, embora não tirasse o olhar de Daniel – "Eu ligarei".
"Pelo visto, alguém está se dando bem por aqui" – Nakata comentou com Tomoyo – "Pena que não é o casal que a gente queria que fosse".
"Mas, se tudo der certo, será o nosso casal" – a morena olhou discretamente para Shaoran e Sakura – "Afinal, o treino será lá em casa, não é mesmo?".
"Ah, então há um plano".
"E como há"
As duas começaram a rir em alto som, assustando a todos os outros. Yamato apenas olhou de esguelha antes de comentar para si mesmo:
"Essas duas me dão medo".
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A noite estava estrelada e sem nuvens. A lua estava tão visível que era impossível não se encantar com o seu esplendor. Uma lua minguante, que muitas vezes as pessoas nem se davam ao trabalho de olhar. Por que será que todos gostavam tanto da lua cheia? A minguante tinha quase tanto esplendor e beleza quanto a cheia, mas passava uma sensação de tristeza. Talvez fosse por isso.
As pessoas não gostavam de tristeza, e evitavam de todas as formas. Por que seria? Uma vez na vida queria sentir aquela tristeza... pelo menos saberia como era.
"Posso saber por que você está aí, toda pensativa numa janela?" – a mãe perguntou, entrando no espaçoso quarto amarelo – "Quem vê, pensa que você está esperando um príncipe encantado".
"Talvez eu esteja" – ela respondeu, sorrindo para a mãe – "Reparou na lua hoje?".
"Dei uma olhada. Está minguante, não é mesmo?".
"Parece o Shaoran. Tão desanimada, murcha...".
"Está assim por causa do seu irmão?".
Shiefa voltou a olhar para a lua no céu. Deu um suspiro longo, antes de continuar:
"Ele está muito triste desde que a Sakura pediu aquele tempo. É como se ele...".
"Estivesse em Hong Kong, longe dela" – Yelan se sentou do lado da filha mais nova – "Seu irmão está totalmente apaixonado por essa garota. Depende de sua alegria, de seu sorriso. E estar perto dela sem tocá-la é a mesma coisa do que estar longe. Talvez até pior".
"Ele gosta muito dela, não é mesmo? Lá em Hong Kong, ele era tão diferente; sempre rabugento, chateado, triste. Aqui, ele é outra pessoa! Ver ele tão murcho de novo... sei lá, é estranho".
"Eu sei, também não gosto da idéia. Ainda mais sabendo que o motivo da 'briga' é totalmente inútil. Mas não acho que seja isso que esteja te deixando assim, mesmo sabendo o quanto você gosta do seu irmão".
Shiefa ficou quieta, apenas admirando o céu. Yelan colocou a mão na sua cabeça, como costumava fazer quando ela era pequena. Não demorou muito para a filha começar a falar.
"Sabe, mamãe... eu tenho inveja do Shaoran, às vezes".
"Por que ele tem alguém pra amar?".
"Como... como a senhora sabe?" – Shiefa encarou a mãe, realmente assustada.
"Você também é uma pessoa de dar inveja, Shiefa. São poucos que conseguem ser tão alegres como você ou como suas irmãs".
"Elas são felizes porque possuem alguém. Fuutie e Fanrei estão noivas, e Fenmei está no mesmo caminho. Até mesmo Shaoran! Assim que essa crise entre ele e Sakura passar, ele também deve querer noivar. Só eu que ainda estou solteira".
"Isso te incomoda? Ser a única solteira dos irmãos?".
"Não exatamente".
"Então, o que está te deixando assim?".
"Eu queria descobrir como é sofrer por amor" – Yelan se assustou levemente com as palavras da filha, porém não demonstrou – "Eu sou tão feliz que, às vezes, me irrito com isso".
"Sempre achei que ser feliz era algo bom".
"E é, mas... vamos ser sincera, mamãe, quem me leva a sério?" – ela abaixou a cabeça levemente – "Todos me vêem como uma criança feliz, que só quer saber de brincadeiras. O que eu posso oferecer para os outros? Nunca vivi nada de especial! Nenhuma aventura, nenhum sentimento... nem mesmo quando papai morreu. Eu era tão pequena que nem lembro. Sou uma criança mimada, que sempre teve tudo que quis, e por isso é feliz. E por isso ninguém me leva a sério".
"Ah, é isso" – Yelan levantou o rosto da filha pelo queixo, de forma que as duas se encarassem – "Sabe, você sempre foi a mais feliz das minhas filhas. Seu pai, mesmo com aquele jeito sério que ele tinha, adorava ver o seu sorriso quando aprontava alguma. Ele nunca conseguia te castigar. Achava que seria reprimir algo que ele sempre quisera: alegria de viver".
"Alegria de viver? Como assim?".
"Essa vontade de viver intensamente, sem se preocupar com os problemas. As dificuldades parecem tão pequenas quando você está por perto, Shiefa. Parece tudo tão fácil de resolver que até conforta".
"O problema é que nem sempre as coisas são fáceis de resolver. A forma como eu encaro problemas é tão infantil quanto uma criança de três anos".
"Você não se acha madura, é isso?"
"Você sabe que eu não sou, mamãe" – Shiefa deu um pequeno sorriso – "Por isso eu tenho inveja do Shaoran. Ele é mais novo do que eu, e mesmo assim teve mais experiências. Está sofrendo por amor. E isso só o torna mais forte, assim como mais adulto. Eu queria ter experiências tristes... para poder crescer também".
"Shiefa..."
"Amar uma pessoa deve ser bom. Mesmo que eu não fosse correspondida, eu queria amar alguém, como as minhas irmãs amam seus noivos, como Shaoran ama a Sakura. Sentir humanidade nesses atos de carinho, sabe? Poder aprender com essas pessoas especiais".
"Acho que sei o que quer dizer. Mas não são só experiências tristes que nos fazem crescer. As felizes também, e essas você tem de sobra" – Yelan deu um de seus raros sorrisos – "Quando a não ter ninguém para amar, não se preocupe. Você vai encontrar uma pessoa que te fará ficar de cabelos em pé. E você vai sofrer com isso, mas também será muito feliz. E aí você saberá como essa sua felicidade tão única é realmente especial".
Mesmo sabendo que sua mãe não gostava muito, Shiefa a abraçou fortemente. Yelan, com muita timidez, retribuiu o abraço. Quando o momento de carinho acabou, a matriarca sussurrou no ouvido da filha:
"Agora, que tal você passar um pouco dessa alegria pro seu irmão? Ele anda precisando de você".
"Ué, essa não é missão de mãe?".
"Deveria ser, mas estamos no Clã Li. O que significa que eu tenho de segurar aqueles velhos idiotas, para não cometerem nenhuma besteira".
"Eles ainda estão com essa história de voltarmos para Hong Kong?".
"Eles querem Shaoran longe da Sakura. Mas eu irei falar sobre a Hierarquia. Quem sabe eles não se interessam no status e param com essa frescura?".
"Eles podiam ir embora. Tirando tia Hyang, nenhum deles faria falta".
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"Eu estou quase lá, quase lá, é hoje que eu te venço" – Kero apertava todos os botões possíveis do pobre console do videogame, como se isso fosse adiantar algo – "Vamos lá, eu sei que consigo, vamos lá. AH NÃO!".
"E novamente eu venci" – Spinel colocou o seu console delicadamente no chão – "É sério, Kerberus, acho que chega de videogames por hoje. Não sei como você agüenta essa besteira".
"Não é besteira!" – Kero parecia a ponto de chorar – "Eu peço uma revanche. Dessa vez, sei que vou vencer".
"Essa já é a oitava revanche que você pede. Minha cabeça já dói de tanto olhar para essa televisão".
"O que foi, Spi? Está com medo de perder?".
Spinel suspirou pesadamente. Havia ido até Kerberus com a única intenção de dar um recado de Eriol. Mas desde que chegara, o Guardião de Olhos Dourados não lhe dera nem a chance de falar. Queria apenas derrotá-lo em uma partida de videogame.
"Vamos lá, Kerberus. Com você não há jeito mesmo".
E enquanto os dois voltavam a jogar, Sakura chegava em casa. Daniel se recusou a deixá-los ir a pé, e os trouxe com o mesmo carro que tinha usado para buscar Monique no aeroporto. Havia deixado a todos, e deixou Sakura, Yamato e Nakata por último. A garota achou até bom, já que os primeiros a serem entregues foram Shaoran e Meilin.
"Está ficando cada vez mais difícil ficar longe dele" – ela comentou, enquanto abria a porta de casa – "Ah, por que tem que ser tão difícil, hein?".
Treinar com Shaoran seria a coisa mais complicada, e a estava preocupando muito. Tomoyo garantiu que até o dia seguinte teria tudo pronto para o treinamento, então começariam logo após a aula. O treinamento em si até agradava a garota... o problema seria o seu treinador.
"Com tantas pessoas, tinha que ser logo ele?" – ela pensou consigo mesma – "Meilin podia me treinar, ora bolas".
Ficava se perguntando quanto tempo agüentaria. Queria muito voltar para o namorado, mas ainda não se sentia pronta. Não conseguia esquecer o beijo dele em Meilin, e por mais que soubesse que ele não o fizera por mal, ainda se sentia incomodada. Tinha que sentir que ele a queria, que a desejava. E ainda não sentia isso, pelo menos não por completo.
"Cheguei!" – ela gritou para a casa, esperando uma resposta. Como essa não veio, foi até a cozinha, que permanecia vazia – "Ué, será que papai ainda não chegou? Ele deve estar muito ocupado na faculdade".
Vendo que não adiantava procurar mais, resolveu subir para o quarto. Queria muito tomar um banho e descansar. Nunca os dias haviam sido tão duros como aqueles.
E mesmo com todas as novidades sobre a Hierarquia, ela continuava pensando em suas cartas. Onde Rytwild estava, falando nisso? Fazia um tempo que ela não aparecia.
Já estava terminando de subir a escada, pensando na sua atual inimiga, quando ouviu barulho no quarto. Bem, Kero costumava ser bastante barulhento quando estava sozinho em casa, mas parecia que havia mais alguém com ele. Mas quem?
"Pode tentar o que quiser, mas não vai me derrotar" – Kero gritava com tanta voracidade que Sakura até se assustou – "Você vai me pagar, dessa vez eu não perco".
"Estranho, Kero estará jogando videogame? Mas ele nunca gritou tanto assim".
"O que você acha que está fazendo?" – a voz do pequeno guardião parecia meio assustada, o que deixou sua dona apavorada – "Ah não, você não vai conseguir. Eu não vou deixar, não!".
"Ai meu Deus, será que alguém está tentando pegar o Kero? Será a Rytwild? Ai, Kero, o que está acontecendo?".
"Não, pára com isso, NÃO!".
Sakura não esperou nem mais um instante: abriu a porta com tudo, avançou correndo com o pingente do báculo nas mãos, já o invocando e gritando pelo nome do guardião. Com o objeto já em mãos, empunhou de maneira defensiva e saiu procurando o seqüestrador de seu querido Kero. Mas, para a sua surpresa, o bichinho estava na frente da televisão com cara de desolado, enquanto um pequeno gatinho preto-azulado estava suspirando ao lado de Kero.
"Só assim para ver se você pára com essa história de revanche" – Spinel suspirou, enquanto repousava o console na sua frente – "Espero não ter que desligar esse videogame de novo".
"Spinel Sun?" – Sakura, após se recuperar do susto, finalmente reconheceu o guardião de Eriol – "O que faz aqui?".
"Boa noite, Sakura" – Spinel cumprimentou a garota com uma reverência – "Desculpe-me o escândalo, mas é que Kero não queria parar de jogar, então tive que desligar o videogame, depois da oitava revanche consecutiva".
"Como se isso fosse alguma novidade" – a card captor desligou a televisão, e pegou Kero no colo – "Ficou desafiando o Spinel, não foi?".
"Eu posso vencer ele, eu sei que posso" – Kero dizia as palavras de maneira desconexa, sem ligar para a dona – "Mais uma revanche, por favor."
"Você deveria ver isso, ele está ficando doente" – Spinel apontou para Kero.
"Ah, ele sempre foi" – Sakura abraçou Kero, tentando consolá-lo – "Mas o que faz aqui, Spinel? Não sabia que tinha voltado para o Japão também".
"Eu sempre estou onde mestre Eriol está. Inclusive vim aqui hoje para dar um recado dele para Kerberus, mas ele não me deixou falar".
"Recado? Que tipo de recado?".
"Pediu para que Kero a acompanhe em todos os lugares que a senhorita for. Está ficando perigoso, e é melhor a senhorita ter uma proteção. Mesmo que seja a de Kerberus".
"Ei!" – Kero pareceu sair do transe em que estava – "Eu posso defender a Sakura muito bem".
"Ótimo, então faça isso" – Spinel encarou Kero com a expressão emburrada – "E pare de jogar videogame".
"Agradeço pelo recado, Spinel, e também pela preocupação de Eriol" – Sakura ficou séria – "Mas eu sei me cuidar sozinha, pode deixar".
"Como quiser, senhorita. Mesmo assim, ande com Kerberus, talvez seja útil".
"O que quer dizer com isso?" – Kero fez menção de avançar, mas Sakura o segurou.
"E Nakuru?" – a garota tentou mudar de assunto – "Ela também veio? Não a vi no hotel".
"Ruby Moon ficou na França, virá para o Japão daqui a alguns dias. Quis aproveitar as lojas de Paris" – Spinel fez cara feia ao lembrar-se da alegria de Nakuru ao ver as lojas da capital francesa.
"Bem típico de Nakuru" – Sakura sorriu, mas depois ficou séria novamente – "Bem que eu queria estar animada assim".
A garota sentou-se na sua cama, olhando para o teto, pensativa. Kero e Spinel se encararam, percebendo a repentina tristeza da garota. Ambos voaram até ela, Kero passando a mão na cabeça da dona:
"Algum problema, Sakura?" – Kero perguntou, visivelmente preocupado – "Está passando mal?".
"Não, Kero, apenas estou desanimada. Não se preocupe".
"É o Moleque ainda, não é? Você sente falta dele".
"Está tão óbvio assim?".
"Sei que não deveria me intrometer" – Spinel começou – "Mas se a senhorita está sofrendo, por que não volta com o descendente de Clow?".
"É muito complicado, Spinel. Nem eu mesma entendo, às vezes".
"Não acho que seja mais complicado do que ficar sofrendo à toa" – Sakura encarou o guardião de Eriol ao ouvir isso – "Esse menino sempre te fez bem. Pra que se preocupar com um pequeno incidente, tendo em vista toda a história de vocês?".
"Eu odeio ter que admitir, mas Spi está certo" – Kero se emburrou – "E odeio ter que admitir isso também, mas você precisa do Moleque. Não está te fazendo bem ficar longe dele".
Sakura encarou os dois guardiões, que lhe sorriam discretamente. Era incrível como todos se preocupavam com ela. Deviam achar que ela era uma criança desamparada, que precisava de ajuda.
Ou apenas era como Tomoyo havia dito: gostavam dela, e por isso queriam ajudá-la. Assim como ela sempre queria fazer com eles.
"Obrigada, queridos" – ela deu um beijo na cabeça de Spinel, e depois na de Kero – "Mas isso é algo que tenho que resolver sozinha".
"Sakura, cheguei!" – a voz de Fujitaka soou no recinto abaixo do quarto, enquanto se ouvia o barulho da porta da frente sendo fechada.
"Já estou descendo, papai!" – ela saiu do quarto, animada por ver o pai.
"Esses dois, sempre complicados" – Spinel suspirou – "E o pior que é perigoso ficarem separados".
"Eles ficam melhores quando juntos. Espero que se acertem logo" – Kero pareceu se dar conta de algo – "E você não ouviu isso de mim".
"Eu não me daria ao trabalho de tanto, Kerberus. Estou mais preocupado com Sakura no momento. Tomara que ela e o descendente de Clow se acertem logo".
"Ih, orgulhosos do jeito que eles são, vai demorar bastante ainda".
"Eu não acho. Ela já está bastante sentida. Não vai agüentar".
Kero encarou Spinel com um brilho nos olhos. O guardião de Eriol percebeu a animação repentina do companheiro, e ficou meio assustado:
"Ei, por que está me olhando assim? O que quer aprontar dessa vez?".
"Que tal uma aposta?".
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Rytwild olhava para a sua prisioneira profundamente. Já fazia mais de duas horas que ela estava ali, apenas encarando a mulher. Essa estava bastante debilitada, mais do que antes. Realmente, não agüentaria muito tempo. Isso significava que ela teria que ser rápida.
"Senhora, eles chegaram" – o fiel empregado entrou no recinto com cuidado, sabendo que qualquer movimento brusco poderia irritar sua senhora.
"Eu já irei. Pode se retirar".
"Sim senhora".
"Não, espere!" – ela olhou de esguelha para ele – "Onde estão as cartas?".
"No lugar de sempre, senhora. Quer que eu as pegue?".
"Não, não será necessário" – ela sussurrou para si mesma – "Preciso ser mais rápida a partir de agora".
"Disse alguma coisa, senhora?".
"Isso não é da sua conta. Se bem que... diga-me uma coisa: quanto tempo você acha que essa mulher agüenta?".
"Deixe-me ver" – ele pegou na mão da prisioneira, que estava totalmente gelada – "A senhora parece ter tirado mais energia do que o normal dessa vez".
"Responda à minha pergunta, seu idiota".
"No ritmo normal, talvez uns dois meses, três no máximo. Mas, se continuar retirando essa quantidade de energia vital absurda, ela não durará nem um mês".
Rytwild não respondeu. Apenas se agachou ao lado da prisioneira, e encarou o seu rosto. Mesmo sofrido, ainda havia certa alegria nele, algo que ela não conseguia roubar, por mais que tentasse. Era um rosto gracioso, vivo, belo. Como o seu costumava ser, há muitos anos atrás.
"Eu preciso ser rápida, preciso recuperar as outras cartas logo" – ela comentava, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa – "Estou há muito tempo sem atacar. Não posso me demorar mais".
"A senhora pretende atacar a senhorita Kinomoto? Mesmo com toda a Hierarquia aqui no Japão?".
"Dane-se aquele monte de idiotas. Sou muito mais poderosa do que eles, e dessa vez estou preparada" – um sorriso maligno surgiu no rosto dela – "É a hora de acertar contas com o Clow e com a Foster".
"E quando será o ataque, senhora?".
"Amanhã" – ela se levantou e foi se olhar em um espelho que estava próximo – "Vou decidir qual carta usar hoje à noite. Portanto, não quero ninguém me perturbando, entendeu?".
"Sim senhora, providenciarei isso. Com licença".
Enquanto o subordinado se retirava, Rytwild continuava a se olhar no espelho. Por mais que continuasse com aparência de jovem, percebia nitidamente que a vida já não mais habitava naquele corpo. Toda a cor, a alegria, a essência... tudo havia ido embora com os anos. E mesmo com a energia vital roubada, ela não conseguia recuperar a vida de seu rosto, de suas mãos. Estava definhando, sabia disso. Mas não se renderia, nunca. Mesmo sabendo que isso custava o que mais amava.
Ela mesma.
Concentrou energia em volta do corpo branco e frio. Era incrível como a energia vital da prisioneira era forte. Fazia realmente milagres, e estava durando mais do que qualquer outra energia que ela já tinha roubado.
Em poucos instantes, a sua aparência havia mudado totalmente. Já não tinha mais os olhos vermelhos e o rosto pálido. Estava levemente ruborizada, não como as outras pessoas, mas isso se consertava com uma forte maquiagem. As mãos voltaram a ser jovens, e os cabelos brilhantes.
Estava exatamente igual à sua prisioneira. E estava na hora de novamente assumir a sua vida.
--
Tomoyo olhava orgulhosa para a quadra de tênis de sua casa. Com certeza, seria o melhor espaço para o treinamento. Já havia ordenado que tirassem a rede que dividia o espaço em dois, deixando um amplo salão à disposição de Sakura. Finalmente estava dando uma utilidade àquele lugar. A mãe havia construído para jogar, mas como sempre estava ocupada, o lugar estava inutilizado, já que Tomoyo não jogava tênis.
"Então este é o lugar?" – Yamato comentou, olhando com cuidado o recinto – "Interessante".
"Eu espero que sirva para o treinamento" – Tomoyo comentou com um sorriso – "Fica afastado da casa, e é bastante espaçoso. Ninguém os incomodará aqui".
"Assim espero" – o treinador se sentou no chão, e começou a encará-lo – "Pelo que eu percebi, não tenho muito tempo para treinar Sakura. Precisarei ser bem rigoroso".
"Você já é rigoroso" – Nakata comentou, enquanto olhava a rede que seria retirada em pouco tempo – "Não tem como ser mais".
"E você, Shaoran?" – a morena perguntou ao chinês, este totalmente alheio à conversa – "Gostou do lugar?".
"Sim, é bom" – ele concordou quase que automaticamente.
"Você acha que precisará de mais alguma coisa? Sakura pode se machucar aqui".
"Uns colchões, talvez. Nada muito extravagante".
"Ih, pelo visto, ele continua aéreo" – Nakata se aproximou do amigo – "Pra você está bem difícil, não é mesmo?".
"O quê?" – Shaoran pareceu acordar de um transe, e encarou Nakata meio confuso. Os grandes olhos azuis da garota o encararam seriamente, deixando o garoto bem desconfortável.
"Você sabe do que eu estou falando" – Nakata fez um bico enorme – "Não está na hora de acabar com isso, não?".
"E o que você quer que eu faça? Beijá-la à força?".
"Seria uma boa idéia" – Nakata sorriu – "Sakura ia adorar".
"Deixe de besteiras, menina" – Yamato empurrou a garotinha para o lado, se aproximando de Shaoran – "Olha, eu sei que vocês dois estão passando por um momento difícil, mas não deixe que isso afete no treinamento. Sakura precisa muito aprender a se defender, e isso deve ser prioridade".
"Eu sei das minhas obrigações, Yamato, não precisa dizê-las" – o chinês fez cara feia – "Aliás, acho que foi para isso que viemos. Discutir sobre o treinamento de Sakura".
"Exatamente. Ia te perguntar sobre isso agora mesmo. O que você sugere?".
Os dois começaram a discutir sobre o que deveria ser feito com Sakura. A Card Captor chegaria em algumas horas, para o início do treinamento. Nakata e Tomoyo ficaram apenas observando os dois garotos conversando técnicas e métodos de treinamento, mas com sorrisos nos rostos.
"Você preparou tudo, não é mesmo?" – Nakata comentou em voz baixa, embora estivesse animada.
"Sim. Eu já combinei a hora com Meilin. Ela virá mais tarde com Sakura, e quando o treino de Shaoran estiver mais ou menos na metade, vocês duas devem sugerir um café. O resto, você já sabe como fazer, não é mesmo?".
"Eu sei" – Nakata olhou para Yamato – "E o que fazemos com ele?".
"Não se preocupe" – Tomoyo deu uma risadinha baixa – "Falei com uma pessoa que pode dar um jeito nisso".
"Porque eu tenho a impressão de que você enfiou a Shiefa nisso?".
"Porque eu realmente enfiei" – Tomoyo sorriu ainda mais – "Mas por incrível que pareça, dessa vez não foi idéia minha".
"Não? E de quem foi?".
"Da própria Shiefa. Sabe, ela quer muito ajudar" – a morena suspirou – "Tivemos uma longa conversa sobre isso ontem à noite. Ela me ligou sabendo no que poderia ajudar, e juntas tivemos essa idéia. Ela cuidará bem do senhor Yamato".
"Tomara. Hoje tem que sair".
Nakata ficou observando Yamato e Shaoran conversando sobre o treinamento de Sakura. Yamato estava bastante animado, discutindo diversos métodos de treinamento, enquanto o chinês apenas o ouvia. Shaoran estava atento, era verdade, mas ainda assim não parecia estar totalmente empenhado. O plano de Tomoyo não daria certo se Shaoran continuasse daquele jeito. O chinês parecia estar desistindo também, e entrando no estado de tristeza que Sakura já se encontrava. E eles não precisavam disso.
Afinal, alguém teria que tomar a iniciativa. E se Shaoran desistisse, tudo iria por água abaixo. Porque Sakura não daria o braço a torcer. Ela estava orgulhosa demais para isso.
"Bobos" – Nakata comentou, em voz alta, olhando fixamente para Shaoran.
"O que disse?" – Tomoyo perguntou, confusa.
"Nada, esquece" – Nakata encarou a morena seriamente – "Tomoyo, seria demais eu conversar com o Shaoran antes da Sakura chegar?".
"Conversar com ele? Bem, eu creio que não. Mas se me permite perguntar... o que você quer falar com ele?".
"Nada demais. Eu só... preciso falar com ele" – a garotinha arregalou os grandes e brilhantes olhos azuis – "Por favor!".
"Ah, por mim tudo bem. Você tem que pedir a ele agora".
"Você acha que eles vão demorar muito?".
"Bem, empolgado do jeito que o Yamato anda... acho que sim".
"Ah, saco" – Nakata se sentou no chão, e passou a encarar os dois meninos. Tomoyo sorriu com a obstinação da pequena guardiã. Ela também torcia muito pela felicidade de Sakura, e sabia que tinha nela uma grande companheira. Mas não podia ficar atrás: tinha que arrumar o salão de tênis rapidamente para o treino... e para o plano que tinha em mente.
"Então é nesse ponto que nos focaremos" – Yamato concluiu, esticando-se para relaxar, depois de quase quarenta minutos sentado na mesma posição – "Acha que teremos tempo?".
"Se não tivermos, teremos que intensificar o treinamento" – Shaoran fechou os olhos, em um momento reflexivo – "Mas estamos combinados. Você começa com a parte mágica e eu termino com a parte física".
"E já não era sem tempo" – Nakata resmungou, ainda sentada no mesmo lugar de antes – "Não podiam ser um pouco mais rápidos?".
"E eu posso saber por que a pressa?" – Yamato retrucou, abaixando-se e olhando nos olhos da garota – "Até onde eu saiba, a Sakura não chegou".
"E quem disse que eu preciso dela? Quero falar é com esse senhor aí" – a garotinha apontou para Shaoran, que se assustou:
"Comigo?".
"E tem outro Shaoran Li por aqui?" – Nakata olhou feio para o chinês – "É com você mesmo".
"Tudo bem, eu falo com você" – ele se sentou, sendo acompanhada por Nakata.
"Ótimo. E Yamato, poderia sair, por favor?".
"Você não acha que anda muito abusada hoje não, mocinha?" – Yamato fez cara feia, recebendo outra de Nakata.
"E você está atrapalhando a minha missão aqui. Vamos Yamato, o assunto é sério".
"Missão?" – Shaoran levantou uma sobrancelha, intrigado – "Que missão?".
"Acho que sei do que está falando" – Yamato desfez o bico, mas continuou sério – "Tudo bem, eu me retiro. Mas olhe lá o que vai fazer. Não quero o treinamento interrompido".
"Pode deixar, eu sei da sua rigidez. É coisa rápida, eu garanto".
"Está bem. Vou ver como Tomoyo está indo com a arrumação do ambiente".
Assim que Yamato se retirou, Nakata passou a encarar Shaoran. O garoto realmente ficou incomodado. Não importava o quanto de tempo passasse com aquela pequena guardiã, o olhar dela sempre incomodaria.
"Você disse que queria falar comigo" – ele começou, tentando se desviar do olhar sério e profundo de Nakata – "Diga, o que é?".
"Na verdade, eu só queria te fazer uma pergunta. Será que eu poderia?".
"Você sabe que pode, pequena. Só não entendo por que tanta pressa?".
"Porque o treinamento da Sakura começa agora" – Nakata abaixou o rosto – "E eu tenho medo".
"Medo? Do quê?".
"De você não dar conta" – aquilo deixou Shaoran abalado, mas ele continuou ouvindo a garota – "Sabe, você parece mais triste do que Sakura ultimamente. E eu fico me perguntando se você conseguirá treiná-la dessa forma".
"O que você quer dizer com isso, Nakata? Eu sei muito bem separar as coisas".
"Eu sei disso. E isso me preocupa".
"Hã?".
"Eu irei explicar" – Nakata se ajeitou melhor – "Você sabe separar as coisas Shaoran, sabe até demais. Em uma situação normal, isso seria bom, porque Sakura entenderia muito bem e isso não te afetaria. Mas agora... bem, ela pode não suportar a separação E o treinamento rígido. E ela já está mal demais. Você suportará ver a Sakura ficando ainda mais triste?".
Shaoran entendeu o que Nakata queria dizer. Ela sabia muito bem que a única coisa que ele não suportava era ver Sakura sofrendo. E ele já estava chegando ao limite de sua paciência. Se Sakura piorasse, ele com certeza sairia do controle.
"Eu fico preocupada com você também" – a garotinha continuou – "Você já não está sabendo lidar direito com a situação, e o treinamento pode piorar. Por mais controlado que você seja, fico com medo de você não saber lidar com isso tão perfeitamente quanto deveria".
"Você me surpreende a cada dia, Nakata" – o chinês sorriu levemente para ela, deixando a garota vermelha – "Definitivamente, de criança você só tem a aparência".
"Sakura é minha dona, e você é meu amigo. Eu não poderia ficar de boca fechada em relação a isso. E alguém precisa ter atitude aqui, não é mesmo?".
"Você tem razão. Mas eu sinceramente não vejo muito que fazer" – o garoto baixou a cabeça, intrigando a garotinha – "Eu também tenho medo, Nakata".
"Medo do quê? É isso que eu não entendo! Não há do que ter medo!".
"Claro que há" – ele disse isso com tanta convicção que a guardiã até se assustou – "Você não entenderia tão facilmente".
"Você não sabe até o momento que tentar, não acha?".
"É difícil de explicar" – ele colocou as mãos no cabelo, mostrando nervoso – "A Sakura é uma das coisas mais importantes que eu tenho. Ela já está tão assustada e perdida... tenho medo de pressioná-la e ela acabar desistindo de vez. Eu não suportaria perdê-la, Nakata. Não mesmo".
"Shaoran..."
"Eu espero o tempo que for, se isso for garantia de que ela continuará do meu lado. Não precisa nem ser como minha namorada... se eu pressioná-la, posso perder até a amizade dela, que já está sendo bem difícil de manter. Eu tenho medo de perdê-la. Por isso que eu não tomo uma atitude".
Você tem o tempo que quiser
De você aceito o que vier...
Menos solidão
"Mas se você não tomar uma atitude, ela nunca vai voltar pra você!"
"Eu sei disso. Mas de que vai adiantar ela voltar à força comigo? Ela estará infeliz do meu lado. Não Nakata, eu prefiro ter a Sakura como amiga a obrigá-la a algo ou perdê-la".
Me promete tudo outra vez
Na esperança louca de um talvez
Me basta a ilusão.
"Eu não sabia que você se conformava com tão pouco" – Nakata abaixou a cabeça para encarar Shaoran severamente nos olhos – "Você definitivamente não é o Shaoran que eu conheço".
"E como você queria que eu estivesse? Sabe, eu também sofro, sabia?".
Só te peço um brilho de um luar
Eu só quero um sonho pra sonhar
Um lugar pra mim
Eu só quero um tema pra viver
Versos de um poema pra dizer
Que te aceito assim.
"Então acho que estava enganada" – Nakata fez bico – "Achei que você pudesse ser o lado forte da relação, mas pelo visto eu errei. Já passou pela sua cabeça que a Sakura pode estar te testando?".
"Me testando?".
"Exatamente. Eu ficaria muito brava se um namorado meu beijasse outra garota. Se fosse comigo, ele teria que provar que me ama de todas as formas possíveis".
"Mas eu amo a Sakura".
"Pois não é o que parece"
O que eu sei é que jamais vou te esquecer
Eu me agarro nessas fantasias pra sobreviver
Eu não sei se estou vivendo de emoção
Mas invento você todo dia pro meu coração.
"O que você quer dizer com isso?" – ele perguntou, começando a se exaltar.
"A Sakura quer que você prove seu amor. Mostrar o quanto você gosta dela. E se você não tomar uma atitude, aí que vai perdê-la".
"E como você pode afirmar isso com tanta certeza?".
"Porque a minha identidade falsa é de uma garota. Fui criada como uma garota. Convivo com outras garotas, e sou guardiã de uma. Acho que tenho um pouco de conhecimento nessa área, não?" – Nakata pôs uma mão no ombro de Shaoran – "Vai por mim, Shaoran. A Sakura tem um bom coração e não vai considerar que você a está pressionando. Mostre que gosta dela. Prove o seu amor a ela. A não ser que você queira se enganar a vida toda".
Shaoran suspirou, cansado. Nakata lhe deu um sorriso simpático antes de sair andando pela quadra e começar a ajudar Tomoyo com os preparativos. O chinês ficou com o olhar perdido, pensando em todas as coisas que a guardiã lhe dissera. Talvez ela estivesse certa, ele estava sendo fraco quando precisava ser forte. Mas ele tinha que confessar que estava perdido. E isso feria altamente no seu orgulho... mas quando se tratava de Sakura, a coisa sempre mudava de figura. Ele nunca era o que costumava ser.
Deixe saudades, nada mais.
Por que é que os corações não são iguais?
Diga que um dia vai voltar
Para que eu passe a minha vida inteira me enganando
Deixe saudades, nada mais.
Por que é que os corações não são iguais?
Diga que um dia vai voltar
Para que eu passe minha vida inteira te esperando.
"Você falou com ele?" – cochichou Tomoyo no ouvido de Nakata, ao ver a pequena com um sorriso no rosto.
"Falei. Acho que mexi no orgulho dele. Isso deve resolver".
"Por que eu tenho impressão de que vocês duas estão aprontando?" – Yamato perguntou, enquanto estendia um colchão no chão da quadra.
"Porque nós estamos!" – Tomoyo respondeu antes de dar um sorrisinho discreto.
Yelan parou à frente da porta da sala de estar da casa dos Li. Soltou um suspiro, cansada. Havia sido convocada para uma reunião urgente com os anciões, e não estava gostando disso. Quando uma reunião era convocada às pressas, era mau sinal, sempre. E seus instintos diziam que mais uma vez teria aborrecimentos. Tudo o que não precisava.
"Bom, espero pelo menos conseguir falar com Hyang" – a matriarca do clã pensou consigo mesma – "Ela é a única com quem posso contar por enquanto".
Com cuidado, ela abriu a porta, encontrando os três anciões já presentes. Hyang lia um livro com uma expressão muito séria, enquanto Hyu e Chen jogavam xadrez, ambos com expressões bem leves no rosto. O que estariam deixando os dois tão felizes assim?
"Você se atrasou, Yelan" – Chen comentou, enquanto fazia um movimento com o cavalo.
"Estava resolvendo assuntos particulares".
"E que tipo de assuntos particulares você pode ter? Acho que sabe que a matriarca do Clã não pode esconder nada dos anciões".
"Eu sei" – disse Yelan, com a expressão mais séria que tinha – "Mas aposto como vocês não gostariam de saber o que eu estava fazendo no banheiro, ou gostariam?".
Hyu colocou no rosto uma expressão enojada, enquanto Chen olhava desacreditado para a face inexpressiva de Yelan. Hyang riu baixinho. Sem dúvidas, a matriarca do Clã ainda possuía o senso de humor da juventude. E o de ironia, pelo visto, ela tinha aprendido muito bem.
"Creio que vocês me chamaram aqui para dizer algo" – Yelan continuou, querendo acabar logo com o assunto – "Digam logo".
"Mais respeito conosco, Yelan" – Hyu advertiu – "Sei como não nos suporta, mas ainda somos os anciões desse Clã".
"Infelizmente não posso tirá-los dessa posição, mas eu também exerço importante papel nesse Clã. E como matriarca, tenho o direito de escolher de quais anciões estarei a favor".
"Eu disse que ela não gosta de vocês" – Hyang comentou, sorridente – "Uma vez na vida, vocês dois poderiam parar de ser teimosos".
"Hyang, temos um assunto mais importante aqui" – Chen resmungou – "Poderia ser séria, por favor?".
"Que bom que concordamos que há um assunto mais sério a ser tratado" – a anciã, de repente, ficou séria, e abaixou o livro que estava supostamente lendo – "Yelan, querida, por que não se senta? Juro que dessa vez meus irmãos tem algo mais importante a dizer do que injúrias a Sakura".
"Espero" – Yelan se sentou, encarando cada um dos anciões – "Porque está bem clara a minha posição sobre o assunto".
"Ainda voltaremos a esse tópico, e a convenceremos da besteira que está fazendo ao permitir a loucura de seu filho" – Hyu começou a se exaltar, mas parou ao perceber o olhar de reprovação de Hyang – "Enfim, não foi para isso que viemos".
"Então, que tal sermos diretos?" – Yelan se acomodou elegantemente no sofá onde estava sentada.
"Yelan, você nos contou sobre a Hierarquia ontem à noite" – Chen começou, num tom solene de voz. Solene demais, na opinião de Yelan – "Disse que boa parte dos membros está no país, a fim de ajudar na luta contra Rytwild".
"Exatamente" – Yelan encarou Chen seriamente – "A Hierarquia quer impedir que a legítima dona das Cartas perca o que lhe é de direito".
"Sem provocações, Yelan" – Hyu resmungou – "Não queremos entrar nesse assunto".
"Que seja. Apenas disse as intenções da Hierarquia" – Yelan suspirou – "Mas vocês não estão interessados nisso, ou estão?".
"Estamos e não estamos, querida" – Hyang comentou, atraindo a atenção da matriarca – "Você sabe que o Clã Li possuiu muitos membros dentro da Hierarquia, sendo um deles o Mago Clow. Não deve ser surpresa para você que, de certa forma, ficamos interessados na interferência dela no caso de Sakura".
"Como eu disse a vocês, Sakura é a nova escolhida para Regente, assim como meu filho foi o escolhido para Sub-Regente. Normal eles quererem ajudar sua futura líder".
"Exatamente. O que demonstra que eles irão fazer de tudo para Sakura ser a Regente. A questão é: farão a mesma coisa com Shaoran?".
Yelan encarou a velha senhora por algum tempo, procurando entender o que ela queria dizer com aquilo. Tinha que confessar que havia pensado a mesma coisa há algum tempo, quando o filho lhe contara sobre a Hierarquia. De fato, havia um esforço muito grande para que Sakura se tornasse Regente, e o treino que Sara havia proposto mostrava a intenção da organização em fortalecer sua futura líder. Mas Shaoran... bem, Sara já havia conversado com ele. Mas o esforço realmente parecia menor.
"Vocês acham que eles não estão interessados em convencer Shaoran a se tornar Sub-Regente?".
"Não acho que eles não estejam interessados" – Chen pegou uma peça do xadrez – "É como em um jogo de xadrez. Às vezes, para fazer o oponente mover a peça que você quer, é necessário sacrificar uma peça sua".
"O que Chen quer dizer é que, provavelmente, a Hierarquia está contando que Sakura irá aceitar a posição, depois dos treinos que eles sugeriram e, principalmente, com a ajuda que estão oferecendo para combater Rytwild. Não que ela não seja problema deles também, mas eles bem poderiam ficar omissos, se quisessem" – Hyang explicou, encarando Yelan muito seriamente – "Não se arriscariam a enfrentar Rytwild com praticamente toda sua frota sem ela sequer ter mexido com eles ainda. Entende o que queremos dizer, não é mesmo Yelan?".
"Perfeitamente. A Hierarquia está se arriscando para se aproximar de Sakura. Bem, eles apenas começaram a luta antes do tempo, com a vantagem de se ter Sakura ao lado deles. Muito espertos".
"Espertos demais, eu diria" – Hyu riu – "Pena que eles subestimam Shaoran nesse ponto".
"E por que vocês acham que eles subestimam meu filho? Não acredito que eles sejam tão bobos assim".
"Pois eu acho que são" – Hyang suspirou – "Diga-me Yelan... se fosse você no lugar dessa tal Sara... o que faria em relação a ele?".
"Bem, eu sou meio suspeita para falar, afinal conheço Shaoran muito bem. Sei que ele não aceitaria fácil esse cargo, ainda mais depois da reação que ele teve na última reunião com Sara".
"Exatamente. Mas Sara não conhece nosso Pequeno Lobo muito bem, pelo que parece".
"A senhora Whitman deve acreditar que fazendo Sakura aceitar o cargo, Shaoran também irá aceitar, automaticamente" – Chen soltou um grunhido estranho, antes de continuar – "Isso explica porque essa obsessão em juntá-los logo".
"Isso não seria difícil" – Yelan sorriu – "E seria muito bom se a Hierarquia conseguisse fazer com que os dois se reconciliassem. Mesmo eu sabendo que, se meu filho não quiser entrar para a Hierarquia, não será a entrada de Sakura que irá convencê-lo".
"Você chegou ao ponto que queríamos, Yelan" – Hyang sorriu – "O que pode convencer Shaoran a entrar para a Hierarquia".
"Então essa reunião é para isso? Descobrir um jeito de convencer Shaoran".
"Seu filho, por enquanto, é o futuro líder do Clã" – Hyu fez uma careta que não passou despercebida por Yelan – "E mesmo se não fosse, é um dos feiticeiros mais poderosos de nossa família. Ter um membro como ele na Hierarquia é altamente precioso para o Clã".
"Você sabe que eu odeio esse tipo de manipulação em nossa família, Yelan" – Hyang baixou um pouco a cabeça, mas não deixou de encarar a matriarca – "Odeio ter que pedir isso, porque sei o quão mesquinha essa atitude pode ser, mas ter Shaoran na Hierarquia significaria, sobretudo, proteção a nossa família".
"Vocês querem que eu me encarregue de convencê-lo, não é mesmo?" – Yelan perguntou, sem rodeios – "Realmente, é uma atitude nada nobre. Vocês sabem que eu não gosto quando os anciões tentam manipular a decisão dos membros do Clã em nome de interesses próprios".
"Sabemos" – Hyang respondeu, muito solene – "Eu também não gosto, querida. E quando meus irmãos me propuseram essa reunião, confesso que rejeitei a idéia de início. Mas pense, Yelan... Shaoran pode realmente ser um excelente Sub-Regente, e a Hierarquia pode nos trazer não só conhecimentos mágicos poderosos, mas também uma proteção inigualável. E você sabe que o Clã Li anda precisando de proteção ultimamente".
"Eu sei" – Yelan respondeu, suspirando – "Desde que Hong Kong voltou para as mãos da China, a situação dos clãs não anda fácil. Ainda mais do nosso".
"Então estamos de acordo?" – Chen sorriu maliciosamente – "Temos sua ajuda?".
"Convencerei meu filho a entrar para o Clã" – Yelan encarou Chen e Hyu seriamente – "Mas se houver qualquer tentativa dos anciões de tirar proveito da posição dele, podem ter certeza que sofrerão muito por essa atitude".
"Dou minha palavra que isso não acontecerá, Yelan" – Hyang garantiu – "É um juramento".
"Pois muito bem. Algum outro assunto que queiram discutir?" – Yelan viu Hyu abrir a boca, mas Hyang o interrompeu.
"Quero falar com você em particular, querida" – a anciã se levantou, sendo acompanhada por Yelan – "Venha comigo, por favor".
As duas saíram do recinto deixando Chen e Hyu conversando entre si, revoltados pela interrupção de Hyang.
--
"Uau".
Foi tudo que Shiefa conseguiu dizer ao se deparar com a grande quadra de tênis que já não era uma quadra de tênis. Tomoyo havia feito um excelente trabalho ao transformar aquele ambiente em um magnífico centro de treinamento. Havia colchões por todo lado, bem como isolamento acústico para que ninguém os ouvisse e, ainda por cima, diversos instrumentos como espadas, sacos de pancada e pesos em um canto, que com certeza seriam muito úteis nos dois treinamentos que Sakura receberia. Tomoyo sorria num canto da quadra, onde tinha estrategicamente posicionado sua câmera, pronta para filmar cada lance.
"Ok, nós demoramos tanto assim ou a Tomoyo fez um milagre por aqui?" – Meilin perguntou, ainda admirando o local.
"Eu classificaria como milagre" – Yamato respondeu, enquanto se aquecia – "De repente, começaram a chegar todos esses itens, sem contar o isolamento acústico".
"Para que tudo isso, Tomoyo?" – Sakura murmurou, totalmente envergonhada – "Você deve ter gastado tanto..."
"Sakura, você sabe que eu não me incomodo com essas coisas" – Tomoyo respondeu com um grande sorriso – "Além disso, que amiga eu seria se não fizesse o melhor ambiente de treinamento para você? Lembre-se que a Hierarquia me encarregou dessa tarefa".
"Porque você pediu" – Sakura fechou a cara.
"Exatamente" – Tomoyo ligou a câmera – "Por isso, faça um belo treinamento, sim?".
Shaoran apenas observava a cena. Havia visto todo o esforço de Tomoyo em transformar aquela quadra inutilizada em um excelente centro de treinamento. A morena se preocupava com detalhes quando o assunto era Sakura. E o fato de a Hierarquia ter designado essa função para ela só fazia com que a garota levasse tudo mais a sério. Quando se tratava de Sakura, Tomoyo era, provavelmente, até mais cuidadosa do que ele.
"Muito bem, então iremos começar" – Yamato chamou a atenção de todos – "Meninas, posso pedir que vocês fiquem afastadas dessa região central da quadra? Não quero que se machuquem".
"Sabemos nos defender" – Shiefa retrucou, revoltada – "Não precisamos nos esconder por aí".
"Estou dizendo isso pela segurança de vocês, mas se a senhorita quer se arriscar, tudo bem" – ele deu de ombros – "Mas aviso, o treinamento...".
"Pode ser perigoso e blá blá blá" – Nakata imitou a voz de Yamato, antes de começar a rir da cara que ele fez – "Confesse Yamato, é sempre a mesma ladainha".
"Que seja" – ele ignorou a garotinha – "Sakura, sente-se aqui"
A Card Captor se sentou calmamente, encarando Yamato seriamente. Não porque estava interessada no treinamento (embora achasse a idéia interessante), mas porque não queria encarar o outro treinador. É, isso seria realmente difícil.
"Sakura, Shaoran e eu conversamos sobre as suas condições físicas. É fato que você possui uma resistência física surpreendente, assim como consegue se adaptar a situações mais facilmente do que outras pessoas".
"Bem, isso é verdade nos esportes, mas no resto...".
"No resto também" – Yamato interrompeu – "Posso não ter presenciado, mas muitos aqui estiveram com você durante a captura das cartas, bem como a transformação dessas. E acho que todas essas pessoas concordam que você se acostumou rapidamente com a magia, bem como com o fato das cartas viverem apenas com o seu poder".
"Sem contar que ela ficou mais forte em um tempo incrível" – Tomoyo comentou, fazendo Sakura ficar vermelha.
"O fato é que você, Sakura, consegue se adaptar às situações, e graças a isso consegue usar a magia bem. Porém, não há a mínima técnica nos seus ataques, e sua defesa também é fraca".
"Minha defesa?".
"Como eu posso explicar? Bem, você se defende da maneira que pode, resistindo o máximo que consegue. Mas com isso você absorve muito do ataque do inimigo, sem contar que gasta muita energia desviando dele".
"Quer dizer então que eu sempre errei ao fazer isso?".
"Não é que você erre... muitas vezes, desviar do inimigo até é a melhor solução. Porém, nem sempre é o correto, sem contar que o seu gasto de energia é inadmissível".
"Mas eu não me sinto tão cansada assim".
"Porque sua resistência é forte. Porém, se você poupasse mais a sua energia, seus ataques seriam constantes e mais efetivos. Sem contar outro problema...".
"Tem mais?".
"Há um essencial. Sakura, me diga... quantas vezes você usou a sua magia sem usar as cartas?".
"Hum... nunca, eu acho".
"Exatamente. Você não sabe usar sua magia sem as cartas, e nem sempre isso é bom".
"Mas as cartas são poderosas, por que não é bom usá-las?".
"Usar as cartas é ótimo. O que não é bom é você ser dependente dela. Afinal, a qualquer momento elas podem não estar na sua mão, não é mesmo?".
Sakura abaixou sua cabeça, entendendo perfeitamente o que Yamato queria dizer. Antes de Rytwild, ela nunca havia pensado que um dia poderia ficar sem suas cartas. Afinal, andava com elas para cima e para baixo e, depois do episódio da Carta Vácuo, jurou jamais se afastar delas.
Shaoran apenas encarou a cena, meio desconfortável. Já não tinha dúvidas de que Yamato seria um treinador severo, Nakata já tinha dito isso. Yamato, inclusive, havia conversado com ele sobre esse aspecto...
"Shaoran, mais uma coisa" – o treinador lembrou, quando o chinês já estava dando a conversa por encerrado.
"Diga".
"Tenho que te avisar que serei um treinador um tanto... severo com Sakura".
"E acho muito bom. Não duvide de que eu também serei um treinador severo com ela".
"Não duvido. Aliás, tenho certeza absoluta que você saberá separar as coisas. O problema é que há uma diferença entre você ser severo com ela e eu ser severo".
"O que quer dizer com isso?".
"Muitas vezes eu serei meio carrasco, Shaoran. Sou um treinador de poucas palavras, e graças a isso chego a ser meio grosso. A questão é: você ficará calado quando eu for duro com ela? Mesmo achando que estou exagerando?".
"Se você for injusto com ela, eu...".
"É disso que estou falando" – Yamato ponderou, ao ver Shaoran se alterar – "Quando se trata de Sakura, você é super protetor, muitas vezes passando do limite. E você sabe que muitas vezes eu parecerei injusto, afinal isso faz parte do treinamento. Tenho que me assegurar que você deixará de ser super protetor com ela e me dará liberdade para fazer o meu treinamento".
Shaoran ponderou muito sobre o aspecto. Realmente, não poderia interferir na autoridade de Yamato durante o treinamento mágico. Porém, também sabia que era muito protetor com a garota. Durante o treinamento físico, poderia até se controlar, porque seria ele a treiná-la. Mesmo com dor no coração, teria que ponderar. Agora, ver outro maltratando sua flor... seria realmente complicado.
"Então, Shaoran, tenho sua palavra?".
"Não irei interferir durante o treinamento, Yamato. Mas pode ter certeza de que, se eu achar que algo está errado, depois do treinamento eu irei tirar satisfações com você".
"Parece justo" – o treinador sorriu – "Creio que seremos bons professores".
"Maldito acordo" – o chinês resmungou, baixinho.
"Ora, não ligue pra isso. Yamato ainda está sendo bonzinho" – Nakata comentou, assustando Shaoran.
"Desde quando você está aí?".
"Desde que você ficou olhando o Yamato com raiva" – a garotinha sorriu – "Aposto como você está se mordendo, não é mesmo?".
"Você vai ficar me analisando até quando?".
"Digamos que eu goste de te observar" – Nakata ficou séria – "Quem sabe assim você não se abre mais com as pessoas".
"Eu não sou tão fechado assim".
"Quando está longe de Sakura, você é".
Shaoran ficou quieto, voltando a observar a conversa de Yamato.
"Tendo em vista todos os seus pontos fracos, acho que podemos falar do que interessa" – o treinador encarou Sakura – "Shaoran e eu combinamos treinar você em etapas. No meu treinamento, vamos primeiro treinar sua magia sem as cartas. Você terá que aprender a controlar todos os elementos e criá-los sem ajuda delas".
"Mas eu vou parar de usar as cartas?".
"Não, claro que não. Com as cartas, sua magia é mais controlada e poderosa. Mas eu já disse, é importante você saber controlar seus poderes sem elas. E faremos com que você os use com o máximo poder possível".
"E depois disso?".
"Depois, vamos treinar sua capacidade de usar vários elementos ao mesmo tempo. Eu sei que você já consegue fazer isso com as cartas, mas se conseguir fazer sem elas, creio que seu controle mágico será muito melhor".
"Pelo visto, farei todo o treinamento sem as cartas".
"Não exatamente. Depois desses dois treinamentos, começaremos a usar as cartas, e até lá espero que você já tenha as recuperado. Mas, caso ainda não tenhamos conseguido cumprir essa tarefa, treinaremos com as que você tiver recuperado".
"Eu terei recuperado!" – Sakura falou firme, fazendo todos no recinto sorrirem, até mesmo Yamato.
"É... pelo visto você está se animando" – ele fechou o sorriso – "Mas voltemos ao que interessa. Depois de tudo isso, iremos à penúltima parte do seu treinamento: aperfeiçoar o aproveitamento da sua magia".
"E como isso será feito?".
"Da maneira mais clássica: treinando os seus golpes. Enquanto você dá golpes, eu vou controlando seu fluxo de energia. Foi algo que eu percebi nos últimos tempos, Sakura: você é inconstante no uso de sua energia. Há ataques você gasta uma quantidade absurda, enquanto há outros em que você não usa quase nada".
"Isso parece que vai demorar".
"Bem, temos todo o tempo do mundo. Mas não creio que você demore muito... afinal, como eu disse, você costuma se adaptar rápido".
Sakura ficou vermelha.
"Bem, não vamos mais perder tempo" – Yamato se levantou, sendo seguida pela Card Captor – "Primeiro, quero que libere sua energia ao máximo. Depois disso, tente usá-la para criar vento, tudo bem?".
"Acho que sim. Irei tentar".
De maneira incrivelmente rápida, a presença de Sakura pôde ser sentida no recinto, e Yamato percebeu como era poderosa. Definitivamente, seria difícil treinar todo aquele poder. Talvez por isso optou por apenas ensiná-la a controlá-lo. Isso com certeza seria o suficiente para fazer de Sakura uma feiticeira excepcional.
"Ótimo, agora tente expulsar essa energia pra fora. Quando senti-la sair de você, empurre-a contra o ar. Quero que você produza um vento de 50 km/h. Entendeu?".
"Certo, irei tentar".
Sakura começou a tentar expulsar sua energia, mas isso era extremamente difícil. Geralmente, suas cartas faziam esse trabalho por ela. Elas sugavam seu poder e com isso produziam suas magias. Mas fazer isso por conta própria era bem mais complicado do que ela imaginara.
"Isso vai começar a ficar chato" – Nakata suspirou – "Yamato sempre dá exercícios complicados que duram pelo menos uma hora".
"Ele já te passou esse exercício?" – Shaoran perguntou, curioso.
"Até hoje ele me passa. Claro que a velocidade do vento é bem maior... estou chegando aos 400 Km/h".
"Você se desenvolveu bastante, então?".
"Não muito. Yamato quer que eu chegue aos 500. Mas eu ando tendo dificuldades... não consigo me concentrar muito".
"Por quê?".
"Porque sempre há problemas pra se preocupar. Sabe, a vida de guardiã não é fácil. Mesmo sendo suplente" – Nakata encarou Shaoran – "E você? O que pretende fazer com Sakura?".
"Tenho que ensinar o básico pra ela primeiro. Movimentos, reflexo, concentração".
"Você não entendeu o que eu quis dizer".
Shaoran encarou a garotinha seriamente, mas ela apenas sorriu de volta.
"Ok, o que você está aprontado?".
"Eu? Nada! A questão é... o que você vai aprontar".
Ela se levantou e foi para o lado de Meilin e Shiefa, que assistiam ao esforço de Sakura. A Card Captor fazia o maior esforço para expulsar sua energia, mas quem possuía magia podia sentir que ela estava fracassando nessa missão. Yamato era o único que não mostrava expressão.
"Se você continuar a fazer força, não vai conseguir" – ele ressaltou – "O truque é se concentrar. Procure por pontos do seu corpo por onde a magia possa sair... não precisa ter pressa, é preciso ter calma".
Sakura continuou tentando, dessa vez com um pouco mais de paciência. Shaoran percebeu que ela estava concentrando todo o seu poder em um ponto fixo, e se preocupou. Muito poder em um ponto único do corpo era perigoso. Yamato com certeza também percebeu isso, porque ressaltou:
"Sakura, não concentre em um ponto. Você está usando sua força máxima, é perigoso".
"Mas se eu não concentrar num ponto...".
"Você tem que concentrar nos pontos onde sua magia pode sair. E eles são diversos, tente achar pelo menos dois".
"Mas eu não sei onde eles ficam".
"Por isso o treinamento. Esse exercício serve para você descobrir seus pontos e se acostumar a eles. Vamos lá, concentração e calma".
Sakura buscou se acalmar, mas estava bem difícil. Sua força estava muito elevada, e ela mal estava conseguindo controlá-la. Respirou fundo, buscando equilíbrio. Tentou sentir cada parte do seu corpo, as veias estavam saltando com tanta magia, a cabeça começava a latejar. Podia sentir cada poro de sua pele se abrindo com violência, as coisas começavam a ficar escuras...
"Sakura!" – Tomoyo gritou quando viu a amiga desmaiar, mas Yamato segurou a Card Captor com firmeza, colocando-a delicadamente no chão em seguida. Shaoran se remexeu com raiva, porém cumpriu o prometido, e não tomou nenhuma atitude.
"Ok, tudo bem, já acabou" – Yamato dava tapinhas leves no rosto da garota, a fazendo acordar – "Você estava indo bem, mais um pouco e já conseguirá expulsar o poder".
"O que aconteceu?".
"A superfície do seu corpo recebeu magia demais. Como você sempre usou o báculo para retirá-la de dentro de você, a sua pele nunca entrou em contato com tanta magia. Mas não se preocupe, em pouco tempo ela se acostumará. Na verdade, você durou até mais do que eu imaginei".
"Durou mais? Ela não agüentou nem cinco minutos" – Shiefa exclamou.
"Eu esperava que ela não durasse nem dois" – Yamato retrucou – "Está pronta para recomeçar, Sakura?".
"Não seria melhor ela usar menos magia?" – Shiefa continuou retrucando – "A superfície da pele dela irá explodir desse jeito".
"Se ela usar menos magia, não será capaz de sentir com clareza os pontos de fuga do corpo. E quer fazer o favor de parar de se intrometer? Eu saberei quando o corpo dela não puder mais".
Shiefa fez uma cara feia, mas não retrucou de volta. Apenas virou o rosto, não antes de dar um sorrisinho sapeca e pensar "Essa tem volta, Yamato".
"Vamos lá, Sakura, levante-se" – Yamato ajudou a garota a se erguer – "Iremos treinar por mais uma hora e depois você treinará com Shaoran. Até lá, você terá que pelo menos soltar esse poder pra fora".
"Sim... eu vou conseguir, não se preocupe".
A Card Captor se levantou e recomeçou o exercício. Embora tivesse agüentado um pouco mais, novamente desmaiou depois de oito minutos. E desmaiou mais seis outras vezes até que, com quase quarentas minutos de treinamento, ela sentiu. Bem claramente, nas palmas das duas mãos e no centro do peito, a magia começando a fluir para fora. Tentou concentrar a magia nesses três pontos, mas ao tentar fazer isso, sentiu a magia concentrar somente no peito, e novamente desmaiou.
"Ah, finalmente conseguiu" – Yamato novamente acordou Sakura – "Vamos lá, você conseguiu a primeira parte. Só precisa tentar de novo".
"Yamato, ela já conseguiu" – Nakata retrucou – "Pra que tentar de novo?".
"Pra aperfeiçoar. Vamos lá, Sakura, só mais vinte minutos... seu corpo ainda agüenta um pouco mais".
"Certo... eu vou me levantar".
Sakura repetiu mais uma vez o exercício, e novamente, ao conseguir achar os pontos de fuga do seu corpo, sentiu todo o poder se concentrar na região do peito. Tentou fazer com que ele fluísse pelos braços, e estava quase conseguindo... mas o corpo cedeu mais uma vez, e ela caiu.
"Ok, por hoje chega" – Yamato declarou, ao levantar Sakura mais uma vez – "Seu corpo já chegou ao limite, não adiantará mais tentarmos".
"Mas... eu tenho que aperfeiçoar... eu nem criei o vento ainda".
"Fica para amanhã. Por hoje, você já fez o suficiente, e precisa poupar forças para o treinamento de Shaoran. Amanhã você produz o vento".
Sakura concordou e se sentou para descansar. Tomoyo trouxe um isotônico para ela, e ficou encarando o semblante cansado da amiga. Realmente, Yamato pegava pesado nos seus treinamentos. E era bem mais sério do que o normal.
"Você está bem, amiga?" – a morena perguntou, agora entregando um bolinho de chocolate.
"Acho que sim. Só me esforcei demais, mas estou ótima".
"Vou pedir para que continue treinando em casa, Sakura" – Yamato ordenou – "Pelo menos até o ponto de achar os pontos. Tente encontrar outros pontos do seu corpo por onde a magia saia. Quero evoluções amanhã".
"Pode deixar, eu treinarei".
"Então descanse por uma meia hora, daqui a pouco continuamos" – Yamato se retirou para falar com Shaoran, enquanto deixava Sakura conversando com as meninas.
"Obrigado por não me matar" – disse o treinador ao ver como o chinês o encarava – "E com isso não atrapalhar o treinamento".
"Eu cumpro sempre a minha palavra. O que significa que, se continuar assim, eu sempre vou reclamar com você nessa hora".
"Reclame o quanto quiser... você deve saber que não é fácil expulsar a magia do corpo. Mas não creio que essa parte do treinamento durará muito".
"Por que não?".
"Porque eu imaginei que Sakura só fosse conseguir expulsar a magia com uma semana de treinamento. Para alguém que conseguiu isso no primeiro dia... bem, ela com certeza terminará essa etapa logo".
Shaoran não pôde deixar de sorrir com esse comentário. Definitivamente, Sakura sempre o deixava orgulhoso.
"Acho que agora é sua vez" – Yamato se sentou – "Vai começar com o quê?".
"Vou testar os reflexos dela. Embora eu ache que eles sejam bons".
"Sakura é uma menina de fibra" – Yamato olhou na direção dela – "Não é à toa que você olha desse jeito pra ela".
"Desse jeito como?".
"Com orgulho".
Shaoran apenas aumentou o sorriso, sendo acompanhado por Yamato. Ao longe, Nakata via tudo, também com um sorriso. Estaria Shaoran começando a ir com a cara de Yamato?
"Acho que agora é a nossa vez, não?" – Shiefa comentou no ouvido da menina.
"Com certeza. Cuide de Yamato, que eu e Meilin cuidamos do resto".
Shiefa concordou com a cabeça e a atenção das duas voltou para Sakura novamente. A card captor terminou de comer seu bolinho e se levantou com certa dificuldade. Tomoyo a ajudou com certo pesar: sua amiga estava se esforçando muito para se tornar uma feiticeira melhor, a ponto de se esgotar àquele ponto, e ainda assim se levantava. Talvez fosse a hora de dar à sua melhor amiga um descanso... e pelo visto Meilin tinha pensado o mesmo.
"Sakura, você não acha melhor descansar mais?" – a chinesa comentou, como se nada quisesse – "Você não pode treinar artes marciais desse jeito".
"Mas... eu tenho que continuar...".
"Nada disso" – Nakata fez Sakura se sentar de novo – "A senhorita tem que descansar. Desempenho bom só acontece quando se está se sentindo bem".
"Eu acho que ela precisa é de um bom café" – Meilin sugeriu – "Aliás, todos nós precisamos, não acham?".
"Eu concordo" – Tomoyo sorriu ao ver que o plano estava dando certo – "Que tal um chá no jardim?".
"Ei, mas o treinamento precisa continuar" – Yamato começou a replicar, mas teve sua boca tampada pela mão de Shiefa, estrategicamente posicionada.
"Você vêm com a gente, queridinho" – a garota começou a puxar o treinador para fora do salão, mesmo com ele se debatendo e tentando se livrar de sua mão – "E nem adianta reclamar. Eu também sou treinada em artes marciais, portanto não será assim fácil".
Com alguma força, Yamato conseguiu tirar a mão de Shiefa de sua boca, embora ela não o soltasse:
"Você é louca, menina? Quer me matar ou o quê?".
"Eu fico com 'o quê'. E pára de ser chato, você precisa de uma pausa também".
Com algum esforço, Shiefa conseguiu arrastar Yamato para fora, mesmo sob os protestos do mesmo. Todos no ambiente começaram a rir da situação, até mesmo Shaoran esboçou um sorriso. Sua irmã, quando queria, saber mesmo encher o saco de uma pessoa. Mas logo voltou a ficar sério. Esperava começar o treinamento de Sakura logo. Isso estava cheirando armação de Daidouji.
"Olha só, até o general aceitou o chá" – Nakata comentou, sorrindo – "Só falta o outro general".
"Eu vou preparar o chá, enquanto isso convençam o senhor Li do contrário" – Tomoyo piscou para as meninas – "Espero vocês no jardim".
"Eu vou lá falar com ele" – Nakata estava se dirigindo a Shaoran quando, como o previsto, Meilin a puxou.
"Melhor não, Nakata, acho que a Shiefa precisa de ajuda com o Yamato lá fora. Vá lá que eu falo com o meu primo".
"Shiefa? Ah, ela consegue. Eu falo com ele".
"Não, o Shaoran é mal-humorado. Melhor eu lidar com ele".
"Não mesmo. Eu falo".
E como as duas já haviam combinado, iniciou-se uma discussão para ver quem falaria com Shaoran. O chinês apenas acompanhava a briga de longe. Estava se perguntando por que diabos as duas começaram com aquela discussão besta e infantil. Seria isso parte do plano de Daidouji? Bem, quem sabe ele não fosse ajudado com isso tudo.
Sakura, por sua vez, estava ficando agoniada com as duas quase se batendo ao discutir algo, de certa forma, besta. Talvez se ela... ah não, não seria bom. Mas o que poderia ser pior do que ver algo tão... tão... sem sentido quanto aquela discussão?
"Ok chega, vocês duas" – Sakura disse, atraindo a atenção das outras duas – "Parem com essa discussão idiota. Se o problema é falar com ele, eu falo".
"Ah não, Sakura, já me basta a Meilin dizendo que..." – Nakata ia dizer algo, mas Sakura a interrompeu bruscamente.
"Nada de 'mas', Nakata. Eu falo com ele e pronto. Só parem de discutir, por favor. Não gosto disso".
E a card captor saiu, decidida, em direção a Shaoran. Nakata e Meilin apenas sorriram, o plano estava dando certo. De fininho, saíram dali, indo para a terceira parte do plano.
"Será que eles não desconfiaram?" – Nakata perguntou baixinho, enquanto se dirigia ao jardim.
"Shaoran deve ter percebido, mas não deve atrapalhar. Afinal, estamos ajudando ele, certo?".
"Sim! Incrível como Tomoyo realmente conhece Sakura... foi fazer o que ela mandou e deu tudo certo".
"É, só espero que o resto dê certo. Vamos logo, ainda temos que ajudar a preparar o chá".
"Eu sei... ai, um chá romântico para os dois. Duvido que eles não voltem depois dessa".
E enquanto as duas saíam dali, Sakura se aproximava do namorado. Ele apenas a olhava com um meio sorriso no rosto, deixando-a totalmente vermelha.
"Hã... acho que nosso treinamento tem que ser adiado" – ela disse, enquanto evitava encarar o garoto – "Tomoyo quer que tomemos um chá antes de começar".
"Sim, eu ouvi. A discussão daquelas duas estava começando a ficar interessante".
"Você pode vir com a gente? Confesso que estou precisando de descanso".
Ele a encarou por alguns instantes. Já havia percebido que havia algo por trás daquele chá, e poderia jurar que Tomoyo havia preparado um quase jantar romântico para os dois. Acabaria com a festa da morena ou continuava com o jogo? Bem, ele não tinha nada a perder mesmo.
"Vamos. Acho que preciso mesmo descansar antes de começarmos" – ele levantou o rosto dela e a encarou nos olhos – "Mas quero a mesma dedicação que você teve no treinamento de Yamato, certo?".
"Certo" – ela sorriu e os dois se dirigiram para a saída. A card captor estava um pouco aliviada... a situação entre os dois, afinal, não estava tão ruim.
Mas, de repente, tudo isso mudou. Sakura sentiu uma presença forte surgir no ambiente, e imediatamente ela ficou em estado de alerta. Ela conhecia aquilo... estava demorando para voltar, mas havia chegado, de novo, a hora.
"Você sentiu isso?" – ela perguntou, olhando para todos os lados.
"Senti. O que será que ela quer dessa vez?".
Um vento muito forte surgiu no ambiente, fazendo a pesada porta da quadra se fechar com um estrondo. Shaoran imediatamente correu para tentar abrir a porta, mas depois de toda força aplicada, viu que ela havia sido fechada com magia.
"Droga... estamos presos".
"Isso só pode significar uma coisa" – Sakura procurou o ponto onde a magia estava mais forte – "Rytwild quer ficar a sós conosco".
"Na verdade, era só com você" – a mesma voz fria, que arrepiava a espinha de Sakura, soou no salão – "Mas como esse pirralho não sai de perto de você, acho que vou cuidar dos dois de uma vez só".
"Você não cansa, não?" – Sakura gritou, começando a ficar com raiva.
"Acho que não. Apesar de tudo, você me diverte, Kinomoto. E hoje será ainda mais divertido" – um risinho se ouviu antes dela continuar – "Vou propor um jogo a vocês. Garanto que será o melhor treinamento que você pode receber, Kinomoto".
Continua
Escondendo a cabeça dentro de um saco, sabendo que vai todo mundo querer me matar depois de mais de um ano de espera.
Ai gente... desculpa a demora. De verdade. Olha, eu sei que nada justifica o tempo que demorei pra vir aqui de novo. Mas foram tantas coisas que aconteceram. Primeiro foi o vestibular, depois foi o computador que queimou, e aí veio a mudança pra Bauru pra poder estudar... juntou-se a morte do meu outro avô, a minha própria crise emocional... enfim, foram muitas e muitas coisas que me fizeram parar de escrever. Muitas vezes, pensei em desistir e entregar a história para outra pessoa continuar. Eu posso dizer que os seis primeiros meses desse ano foram os mais duros da minha vida. Não é nada fácil você mudar de vida como eu mudei, largar tudo que ama para poder fazer uma faculdade, como sempre quis, e ainda se manter emocionalmente estável. E eu confesso que peguei a fic um milhão de vezes para continuar, mas não fluía. Só deu certo há pouco tempo atrás, quando eu saí de férias. Foi quando eu parei, recomecei e respirei (e uma ida ao Hopi Hari que me acalmou MUITO). E resultou nesse capítulo muito grande... vinte e cinco páginas de Word inteiras. E olha que saiu muita coisa que eu nem planejava. A parte principal, eu decidi deixar para o próximo capítulo.
Do mais, vamos ver... ah, eu senti saudades de vocês. De verdade. Mesmo com todas essas crises para escrever, eu sentia falta de ficar horas na frente de um computador escrevendo. Comecei uma fic de Harry Potter, que acho que foi também uma grande ajuda pra me ajudar a voltar. Eu precisava daquela empolgação de novo, sobretudo na hora de ter idéias. Porque o que me fazia escrever era aquele furacão de idéias surgindo na cabeça, formando uma história que eu apenas colocava no "papel". E quando isso voltou... ah, foi tão bom. Nunca me senti tão bem quanto hoje, quando vi o capítulo pronto. Não agüentei e até deixei de limpar a casa (que já está um caos) pra escrever essa parte. Mal vejo a hora de ver postada!
Outra coisa que eu não poderia deixar de agradecer... teve duas pessoinhas que me ajudaram muito nessa parte. Uma foi a Juliana. Que nunca parou de me mandar e-mails pedindo (quase implorando) para eu não desistir. Acho que sem ela eu não teria voltado a ativa.
A outra é a Tammy. Ela que passou por coisas piores que as minhas e ainda assim continua firme e forte. Ela me inspira, de todas as formas. Ai, piriguete, muito obrigada! Te amo, garotinha.
Bem, eu ia continuar com a historinha de como surgiu SDN... mas eu estou tão ansiosa pra postar e com tanta coisa pra fazer em casa, que eu vou deixar pra próxima. Também não garanto quando será a próxima postagem. Tomara que eu continue nessa empolgação!
Beijos gente... adoro vocês mesmo, demais!
Ah... e reviews não custa, sabe? Eu adoraria receber!
