Depois de alguns anos, nunca imaginou se sentir entediada e desanimada. Certo, a sua vida não era das piores, ao contrário, sequer tinha do que reclamar. Mas ainda assim, algo faltava na sua vida, e pedia desesperadamente por ação. Bem, seu desejo foi atendido... agora, será que ela agüenta?

Disclaimer: Sakura Card Captors e todos os outros personagens são da Clamp®, eu só sou mais uma doida varrida que vou fazer todos eles sofrerem (tentando ser pontual e voltar ao ritmo de antigamente... vamos ver se dessa vez eu consigo.).

Capítulo 17 – Verdade ou Desafio

Sara olhava pela janela do seu quarto de hotel. Estava sozinha, já que Mick e Daniel saíram para algo muito importante, ou pelo menos assim eles disseram. Lá fora, Fausto cuidava de Hilbert com todo o cuidado, enquanto Layla continuava resmungando atrás dele. Gabrielle estava sentada por perto, lendo alguma coisa que Sara não conseguia reconhecer, mas pelo visto era algo importante, pois a francesa estava muito concentrada. Angelita, por sua vez, estava dormindo, sentada em uma cadeira perto da piscina do hotel. Sara sabia que aquele sono da modelo não era comum... com certeza estava tentando entrar em contato com os anjos, atrás de alguma informação. Os outros controladores estavam fora, com alguma missão. Ou assim esperava.

Ouviu uma batida na porta, muito firme e apressada. Sara conhecia cada controlador da Hierarquia, e podia jurar que era Pierre, querendo alguma coisa dela. Suspirou, cansada. Por que logo ele era o controlador mais complicado de todos?

"Entre, Pierre, está aberta" – ela disse, se sentando em sua cama.

"Sério, Sara, às vezes tenho medo de você" – ele resmungou ao abrir a porta – "Como diabos você soube que era eu?".

"Só você para bater na porta de maneira tão grosseira".

"Olha só quem está falando" – ele riu de maneira sarcástica – "A controladora que costumava quebrar a maior parte das portas".

"Isso foi há muito tempo, Pierre. Você sequer era da Hierarquia quando isso acontecia".

"Queria ter te conhecido nessa época, Sara" – ele se sentou numa cadeira, logo à frente dela – "Aposto como era bem menos certinha".

"Eu era, no mínimo, inconseqüente. Mas o tempo me ensinou a ter mais responsabilidade. Ainda mais depois que assumi o cargo de chefe da Hierarquia".

"Ainda assim... aposto como gostaria mais de você naquela época. Pena que, quando entrei, você já era uma velha rabugenta".

"Diz isso por que pego no seu pé?".

"Digo isso pela maneira como está lidando com a situação" – ele a encarou seriamente – "Parece que irá morrer se não conseguir trazer aqueles dois garotos para nós".

Sara suspirou pesadamente. Era incrível como a idade, a cada dia, pesava mais. Perguntava-se quanto tempo mais iria agüentar. Sabia que seus dias estavam contados... portanto tinha que ser o mais rápida possível.

"Pierre, você tem total consciência de que, caso nós não consigamos os dois, provavelmente você terá que assumir a Hierarquia" – ela falou, em um tom de voz calmo – "Afinal, depois de mim, você é o membro mais velho. Embora tenha a cabeça de uma criança de dez anos".

"Sei disso, Sara, e já te disse que prefiro morrer a assumir isso aqui. Sabe que não tenho paciência para tanto".

"Exatamente por isso que você tem que nos ajudar a convencer Sakura e Shaoran a serem os Regentes. Não é bom para a Hierarquia ficar tanto tempo sem os seus comandantes supremos, e sabe-se lá quando aparecerão os próximos. Além disso, é de seu interesse que eles assumam, não é mesmo?".

"É, eu sei disso" – ele abaixou a cabeça, indicando que estava pensando em algo.

"Por que você é tão arredio, Pierre? Não entendo porque você tem que ser tão complicado. Nem Mick e Daniel, que são os membros mais novos, me dão tanta dor de cabeça quanto você me dá".

"Você sabe bem o motivo. Afinal, você era igual a mim, não é mesmo?".

"Mas eu nunca abandonei a Hierarquia, nem nos meus piores tempos" – ela suspirou, mostrando cansaço – "E eu era bem jovem naquela época".

"Diga-me a verdade, Sara. Se você pudesse voltar atrás, teria feito a promessa ao Clow?".

Sara pensou por um segundo. Um sorriso terno apareceu no seu rosto, lembrando os velhos tempos.

"Sem sombra de dúvidas. Só pediria para Sakura e Shaoran nascerem um pouco antes. Esses anos extras de vida estão acabando comigo" – ela desfez o sorriso – "Agora me diga logo o que você quer de mim. Tenho outros assuntos importantes".

"Eu realmente queria entender como você faz isso" – ele suspirou – "Muito bem, eu preciso ir para Okinawa nesse exato momento".

"Okinawa? O que diabos fará em Okinawa?"

"Talvez isso te responda" – ele retirou um pedaço de papel do bolso e entregou a ela – "Recebi o aviso hoje de manhã. Se tudo estiver certo, nesse endereço morava um homem que, há uns cinco anos, desapareceu. Dizem que, na última vez que foi visto, ele estava acompanhado de uma mulher pálida e muito extravagante".

"Bela maneira de descreverem Rytwild. Mas como pode ter certeza que esse moço a acompanhou?".

"Você sabe que os fantasmas são sensíveis à magia. E me garantiram que tanto o desaparecido quanto a mulher eram bem poderosos".

"Se ele a seguiu, isso explicaria de onde ela retira tanta magia" – Sara sorriu para Pierre – "Você poderia ser útil assim o tempo todo, Pierre".

"Sem conversas, Sara. Preciso ir para Okinawa ainda hoje, e você sabe que estou zerado".

"Tudo bem. Mas só te darei as passagens, no máximo arranjo um hotel para você por lá. E nada mais".

"Mas Sara...".

"Nada de "mas", Pierre. Não quero saber de você se embebedando pelos bares de Okinawa. Preciso de todos os dados urgentemente, e você sabe disso. Agora vá".

Ele saiu fungando do quarto, parecendo mais um adolescente que foi castigado pela mãe. Sara suspirou, cansada. No fundo, sentia inveja de Pierre. Apesar de todos os defeitos, ele ainda possuía a vivacidade da juventude. Diferente dela, que tivera que esconder a sua, assim que fizera aquela promessa a Clow. Não, realmente não se arrependia de tê-la feito... mas, com certeza, se pudesse voltar atrás, teria tomado outras atitudes para cumpri-la.

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Eriol olhou mais uma vez para o painel do aeroporto. Segundo seus cálculos, o avião que estava esperando já deveria ter chegado há, pelo menos, quarenta minutos. O painel avisava que o vôo estava atrasado, e isso apenas irritava mais o jovem mago.

"Vamos lá... tenho tantas coisas pra fazer ainda".

"Você parece a um ataque de nervos" – dizia um homem moreno e alto, com os cabelos negros e sotaque espanhol – "Como nunca vi antes, diga-se de passagem".

"Julian, você não sabe como dependo das pessoas que aqui chegarão" – Eriol sorriu para o Controlador das Chuvas – "Tem certeza de que o tempo estava bom para voar?".

"Se não estivesse, eu daria um jeito, e você sabe disso" – sorriu o homem – "Agora, se está tão ansioso assim, por que não as trouxeram logo?".

"Nakuru não quis vir, queria fazer algumas compras em Paris".

Julian gargalhou alto.

"Bem ao estilo de Nakuru. Estou com saudades daquela danadinha, tenho que assumir".

Julian Constantine era um dos membros mais recentes da Hierarquia. Mexicano alegre, divertido e, sobretudo, admirador de personalidades fortes. Exatamente por isso gostara da guardiã de Eriol, desde o primeiro instante em que colocara os olhos em Nakuru, durante sua cerimônia de admissão na Hierarquia. Nakuru, como sempre fazia durante algum evento da organização, conversara e se animara muito, bem como agarrava todos os membros jovens que podia, enquanto Spinel não a afastava dali. Ao ver Julian, ficou muito agitada, e rapidamente começou a falar com ele, emendando frases e fazendo perguntas discretas e indiscretas. Exatamente por essa razão que, quando Eriol comunicara que ia buscá-la no aeroporto, Julian se ofereceu prontamente para ir junto. O inglês poderia jurar que o mexicano estava apaixonado pela sua guardiã travessa.

"Julian, fico me perguntando quais são suas intenções com Nakuru. Sabe que ela não é humana, não é mesmo?".

"Eu não me importo com esse fator. Gosto do jeito dela, e apenas isso. Se bem que tenho que confessar que você caprichou na hora de criá-la. Realmente fascinante".

"Dê os méritos a ela. Nakuru foi a responsável pela sua aparência na forma falsa, eu não tive influências".

"Mas a forma verdadeira também não deixa a desejar. Aliás, a acho ainda mais bela, se é que isso é possível".

"Não se esqueça de falar comigo quando a pedir em casamento, está bem?".

"Pode deixar" – Julian ficou sério – "E falando em casamentos, casais e tudo isso, a quantas andam nossos regentes?".

"Não tenho total certeza. Tomoyo ficou de me ligar quando seu plano fosse executado. Mas até agora, ela não deu nenhum sinal" – Eriol olhou para o celular – "Isso também me preocupa".

"Você parece muito próximo dessa tal Tomoyo. É a melhor amiga da senhorita Kinomoto, não estou certo?".

"Certíssimo. Tomoyo é praticamente o braço direito de Sakura. E do jeito que anda, logo será o meu também".

"Não a conheço direito, mas me pareceu uma garota responsável, sensata e competente no que faz. Bem ao seu estilo, Eriol".

"Estou vendo maldade em suas palavras, Julian?".

"Há motivos para elas existirem?".

Eriol deu um sorriso maroto e encarou o amigo com o canto dos olhos.

"Quem sabe?".

"Ah, o avião pousou. Elas devem estar vindo".

Eriol voltou sua atenção para o portão de desembarque, completamente ansioso pela chegada das mulheres. Nakuru veio logo, correndo com o carrinho onde colocara suas malas, sorrindo e gritando pelo nome de Eriol. Assim que abraçou seu criador carinhosamente, ela sorriu para Julian, dando-lhe um abraço tão ou mais caloroso do que aquele dado em Eriol.

"Senti saudades de você, Julian. Os franceses não sabiam lidar com meu jeito".

"É o espírito mexicano, poucos possuem essa qualidade" – respondeu Julian, tentando ser galanteador.

"Você bem gosta de ser esnobada, Nakuru" – Eriol riu com a cara emburrada que a garota fez – "Ora, estou dizendo uma mentira? Você corria atrás do Touya o tempo todo, mesmo ele deixando claro que se sentia incomodado com sua presença".

"Ah, mas esse é o charme do Touya" – os olhinhos brilharam – "Não há como não gostar daquele jeito emburrado dele".

"Assim eu fico com ciúmes" – Julian retrucou, em um tom de brincadeira. Nakuru riu, sendo acompanhada pelos outros dois homens.

"Estava com saudades de vocês" – ela abraçou os dois – "Nunca mais me deixem sozinha, certo?".

"Você não estava sozinha" – Eriol retrucou – "E por falar nisso, onde está a nossa outra viajante?".

"Está vindo. Ficou para pegar as malas dela. Coitada, esperou tanto tempo lá em Paris. Se soubesse os problemas que tivemos para embarcar...".

"Excesso de bagagem?".

"Também" – Nakuru fez uma cara de travessa – "Mas o principal foi o atraso do avião. Problemas técnicos, segundo o piloto".

"Vocês, pelo menos, vieram hoje. O que é bom, porque tenho planos para as duas".

"Que tipos de planos?"

Todos se voltaram para a dona da pergunta, que estava parada, com o carrinho de bagagens. Julian cumprimentou-a apertando sua mão esquerda, enquanto Eriol pegou sua mão direita e a beijou.

"Obrigada por ter vindo, Kaho".

"Eu não agüentaria ficar na Inglaterra, Eriol, e você sabe disso" – ela olhou para Julian – "Convenceram-se de que eu sou necessária?".

"Nunca duvidamos disso, querida Kaho" – Julian ficou sério – "Mas sabe que não pretendíamos apelar para mais pessoas. Já estamos em um número muito grande".

"Sei disso. Mas me preocupo com Sakura tanto quanto vocês. E posso ajudar".

"Já entendemos isso, Kaho" – Eriol apertou sua mão – "E acredite, chegou a sua hora. Precisamos muito de você".

"Ei, e de mim?" – Nakuru retrucou, fazendo todos rirem.

"Eu preciso totalmente de você, querida" – Julian se usou de um ar galanteador bem falso, fazendo a guardiã rir também.

"Gosto do jeito como esses dois interagem" – Kaho comentou em um sussurro para Eriol – "Será que acharemos alguém para nós assim?".

"Nós já achamos, Kaho" – Eriol olhou nos olhos ametistas dela – "Só não foi pra sempre, como achamos que ia ser".

"Mesmo assim, amo o jeito como se refere a nós dois" – ela deu um beijo em seu rosto – "E garanto que uma certa garota vai adorar quando se referir desse jeito a ela. Tirando a parte de que não será pra sempre, claro".

"Acho que posso dizer o mesmo de você".

"Ei, que tal vocês pararem de fazer um flashback e irmos logo? Estou com fome" – Nakuru retrucou, saindo do aeroporto com Julian.

"Será que já posso ficar a par do que está acontecendo?" – Kaho perguntou a Eriol enquanto eles seguiam os outros dois.

"Temos muito tempo para isso. E ainda bem, porque temos muito a conversar".

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"A brincadeira que faremos é muito simples" – a voz de Rytwild era muito clara, embora eles não a vissem – "Com certeza já brincaram de Verdade ou Desafio".

"Essa mulher só deve ser louca" – Sakura já havia transformado sua chave em báculo, e procurava a mulher por todos os lados, sendo acompanhada pelo namorado.

"Ela está jogando com a gente" – Shaoran respondeu – "E o pior que sempre caímos no jogo dela".

"Ela sabe exatamente como nos comportaremos na frente dela. E, por enquanto, não temos remédio. Ela ainda está com muitas das minhas cartas".

"Pretendo conseguir todas, ainda hoje" – a voz voltou a soar – "Mas serei um pouco mais delicada dessa vez. Vamos estabelecer as regras do jogo".

"E quem disse que queremos jogar com você?" – Shaoran respondeu em voz alta tentando sentir onde a inimiga estava.

Uma risada bem alta soou em todo o ambiente. Sakura sentiu um arrepio muito familiar correndo a sua nuca, bem típico de quando se encontrava com sua atual inimiga. Uma sensação de estar falando com alguém de outro mundo, acompanhada de um medo que ela não queria sentir. Por mais que tentasse, Rytwild ainda lhe causava arrepios. E ela não gostava nada de se sentir acuada pela presença da megera. O orgulho inflamava em seu peito de tal maneira que o medo acabava se transformando em ódio. Tudo que ela queria, nesse exato momento, era acabar com Rytwild, fazê-la pagar por tudo que fazia e provocava. Teria então suas cartas de volta. E isso era tudo que ela queria naquele momento.

"Jovem Li, até onde eu me lembre, eu não dei opção a vocês" – a voz de Rytwild voltou a soar no ambiente – "Todo o ginásio está coberto por uma barreira mágica, que não os permitirá sair. E, além disso, estou, nesse exato momento, utilizando algumas cartas. Aposto como vocês querem recuperá-las, certo?".

"Pelo visto não temos muita alternativa" – Sakura sussurrou para Shaoran – "Acho que teremos que aceitar".

"Pode ser uma armadilha".

"Dane-se se é uma armadilha. Ela está com as minhas cartas, eu vou recuperá-las".

"Assim que eu gosto de ver, os dois bem comportadinhos" – Rytwild voltou a dizer - "Então vamos brincar de verdade ou desafio um pouquinho. Mas vamos mudar as regras".

"Sabia que tinha algo" – Shaoran sussurrou para si mesmo, já pegando sua espada.

"Não precisa pegar a sua espada, senhor Li, não vamos lutar. Vamos apenas jogar. Mas com uma diferença no jogo. No verdade ou desafio, rodamos uma garrafa para ver quem pergunta e quem responde. Mas hoje, não precisaremos de uma garrafa. Apenas eu irei perguntar aqui, enquanto vocês dois responderão às minhas perguntas e desafios".

"Você só pode estar brincando" – Sakura exclamou – "O que diabos você pode ganhar com isso?".

"Você já verá, querida. As regras do jogo comum ainda são as mesmas. Não vale mentir, bem como não vale se recusar a responder às perguntas ou a cumprir os desafios. Se vocês fizerem qualquer uma dessas coisas, terão que pagar o castigo".

"E qual é o castigo?" – Sakura perguntou, desconfiada.

"Simples: uma carta sua se torna minha".

"AH NÃO!" – a card captor gritou, revoltada – "Eu não vou participar disso, pode ir esquecendo".

"Já disse que vocês não têm escolhas, querida. Além disso, o que você tem a perder? Você não tem porque mentir ou recusar os desafios, ou tem?".

"Ela tem razão, Sakura" – Shaoran olhou para ela – "Mas, só por garantia, vamos sempre pedir verdade. Pode ser que os desafios dela nos obrigue a fazer coisas que não queremos".

"Então vamos começar. Será dez rodadas, coisa bem rápida. E vou começar por você, senhor Li. Verdade ou Desafio?".

"Verdade, é claro".

"Pois muito bem" – os dois puderam ouvir o suspiro de Rytwild antes dela continuar – "Senhor Li, qual é o ponto fraco da sua querida Sakura?".

Shaoran arregalou os olhos, surpreendido. Ele sabia qual era o ponto fraco de Sakura, e era até meio óbvio. Sakura tinha como fraqueza as pessoas que amava. Bastava fazer algo a qualquer um que a garota considerasse muito, e ela perdia o juízo. Mas Rytwild não podia saber disso. E agora ele entendia o porquê do jogo.

'Pelo visto eu vou ter que mentir' – ele pensou consigo mesmo – 'Mas se eu mentir, Sakura perde uma carta dela. Se bem que... como ela vai saber que estou mentindo? Se eu for muito convincente, ela não vai saber que estou mentindo'.

"A maior fraqueza de Sakura é a força física" – ele respondeu, recebendo um olhar intrigado de Sakura – "Embora ela seja boa com esportes, ela não tem força nenhuma, portanto não agüenta uma luta por muito tempo, se precisar de força física".

Rytwild deu uma risadinha baixa. Em seguida, uma rajada de vento tomou conta do salão, e uma carta de Sakura, mais especificamente a carta Chuva. Sakura ainda tentou impedir, mas a carta rapidamente sumiu de vista, provavelmente indo parar nas mãos de Rytwild, que não podia ser vista.

"Por que você mentiu?" – Sakura gritou com o namorado, e uma veia saltava de sua testa de maneira bem assustadora – "Você sabe que não é esse o meu ponto fraco".

"E você acha que ela tem que saber?" – ele falou em um tom mais baixo, tentando acalmá-la e trazê-la à realidade – "Eu pensei que não teria como ela descobrir a mentira".

"Eu me esqueci de avisar que há uma carta agindo aqui, queridos" – a voz de Rytwild voltou a soar – "Ela se chama Verdade, e pedi para ela analisar as respostas dos dois. É a carta que rouba as outras caso vocês mintam. Ela gosta de aplicar castigos quando as pessoas mentem, e por isso acatou a minha idéia".

"Agora que ela avisa?" – Shaoran sentou-se no chão, revoltado – "Precisamos pensar em algo".

"Precisamos é recuperar as minhas cartas" – Sakura disparou, perdendo a paciência – "E não perdê-las de novo".

Sem que os dois pudessem ver, Rytwild sorriu abertamente. O jogo de Verdade ou Desafio tinha sempre suas vantagens. Lembrava-se claramente de seus bons tempos, quando o jogo trazia para ela conhecimentos sobre as pessoas que não poderiam ser obtidos facilmente. No caso de Sakura, era muito melhor, porque ela conheceria sua inimiga através das pessoas que a mais conheciam: o namorado e ela mesma. E, pelo visto, ganharia um bônus: o casal se desentenderia. E para ela, era uma grande vantagem mantê-los separados. Sakura e Shaoran, separados, eram muito fortes. Mas juntos, eram mais fortes ainda. E ela sabia disso porque, além de conhecê-los bem, via todo o esforço da Hierarquia para juntá-los de novo.

'Eles querem fortalecer a nova regente deles, chega a ser tocante' – pensou enquanto via Sakura resmungando com Shaoran sobre o erro de ter contado a mentira – 'Mas eles não vão ter esse gostinho, se dependerem de mim'.

"Eu não vou contar alguma coisa que possa te prejudicar, Sakura" – Shaoran tentava argumentar a seu favor

"Eu não preciso de você tentando me proteger, Shaoran. Eu saberia me virar sozinha, ou será que você ainda não entendeu isso?".

"Sua vez, Sakura" – Rytwild interrompeu a briga dos dois – "Verdade ou Desafio?".

"Verdade" – Sakura respondeu, bem curta e grossa.

"A mesma pergunta feita ao Li. Mas agora quero saber a verdade, ou então mais uma carta sua irá embora".

"A minha maior fraqueza são as coisas que amo. Não me importa que me façam mal, mas odeio que façam mal àquilo que prezo muito".

"Boa menina, respondeu a verdade" – Rytwild deu um risinho baixo, satisfeita com a resposta – "Sua vez, jovem Li. Verdade ou Desafio?".

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Meilin batia o pé, impacientemente, enquanto olhava para o horizonte à sua frente. O relógio já marcava meia hora, e nada dos "pombinhos" aparecerem. Isso a fazia pensar em duas hipóteses: ou o casal estava se acertando na quadra mesmo, ou Shaoran preferiu não acatar o plano de Tomoyo, e ficou lá enrolando Sakura. A segunda hipótese parecia mais coerente para jovem chinesa.

Mas, no fundo, não era bem isso que incomodava Meilin. Esperava algo do estilo vindo do casal mais lerdo que conhecera, e o acontecimento estava mais colaborando para sua irritação do que a causando, propriamente. A verdadeira razão da impaciência de Meilin era outra dupla que não aparecia. E sobre essa, ela não tinha a menor idéia do que poderia ter acontecido.

"Eles estão demorando, não é?" – Shiefa perguntou, sentando-se ao lado da prima – "Sakura e Shaoran".

"Ele deve ter dado pra trás, eu aposto. Mole do jeito que Shaoran é".

"Concordo com você, mas meu irmão deu a palavra que faria exatamente como Tomoyo planejou. E ele nunca falta com sua palavra".

"Bem, ele também não perderia muito faltando. Nossos colaboradores nem chegaram ainda".

"Ah, então por isso você está assim" – Shiefa deu um sorriso malicioso – "Queria ver o brasileiro logo, né?".

"E eu estou errada? É um homem bonito, charmoso e simpático. Não vejo mal em investir nele".

"Você está mais do que investindo, Meilin. Você está se interessando por ele, e sua impaciência mostra isso".

"E se estiver? Algum problema?".

"Não, nenhum. Só não precisa ficar irritada, eu só fiz um comentário".

Meilin bufou, impaciente, e deu as costas para a prima. Shiefa sorriu amavelmente com aquela cena, e se afastou, deixando a prima sozinha com seus pensamentos. Encontrou Yamato e Nakata bastante preocupados, olhando fixamente para a quadra que agora servia de centro de treinamentos. Tomoyo, em compensação, olhava para a entrada de sua casa, esperando Daniel e Mick aparecerem. Era a que mais parecia receptiva a conversas, dentre todos. E Shiefa já não agüentava mais aquele silêncio todo.

"Por que você acha que eles estão demorando?" – Shiefa se dirigiu à morena, sentando-se, agora, ao lado dela.

"Eles devem ter tido algum problema" – Tomoyo se voltou para Shiefa, e a chinesa pôde ver a preocupação estampada no rosto da garota – "Eu bem queria que eles estivessem aqui. Acho que algo está errado lá na quadra".

"Então você também percebeu, Tomoyo?" – Yamato perguntou, chamando a atenção das duas, mas sem desviar a atenção da quadra.

"Perceber o quê?" – Shiefa perguntou, ficando preocupada.

"Tem alguma coisa errada por aqui" – Tomoyo se explicou – "Sakura e Shaoran já deveriam ter vindo. Mesmo que eles estivessem conversando, Sakura já teria dado um jeito de vir aqui, por estarmos esperando-os. Shaoran pode até ter dado pra trás, mas ele jamais faria isso".

"Bem, se a conversa estiver muito boa...".

"Tem algo a mais do que isso" – Nakata comentou, também sem tirar a atenção da quadra.

"Senhorita" – uma empregada veio falar com Tomoyo – "Duas pessoas estão lá fora, querendo entrar. Disseram que se chamam Daniel Santos e Mick Kimura".

"Ah, exatamente quem eu esperava. Mande-os vir para cá, sim?".

A empregada consentiu e saiu. Em poucos minutos, os dois chegaram correndo. Mick veio na frente, correndo a toda velocidade. Daniel vinha atrás, com alguma dificuldade, pois vinha carregando um grande equipamento de som, com caixas de som quase do seu tamanho. Meilin sorriu ao ver os dois chegando, e prontamente se ofereceu para ajudar Daniel a carregar as coisas.

"Obrigada, Meilin" – ele agradeceu, passando a carregar o equipamento em dupla com a garota – "Nem sei onde enfiar minha cara. Essa lerda da Mick me atrasou todo ao sair do hotel".

"Eu não ia sair sem tomar banho, obrigada" – a garota fez um bico de revolta – "E pelo visto, nem chegamos tão tarde assim".

"Na verdade, chegaram" – Meilin respondeu, dirigindo um olhar feio à Mick – "Mas nosso casalzinho não deu o ar das graças também, então não se preocupem".

"Não?" – Daniel fez que ia soltar o equipamento, mas Meilin continuou segurando, e ele voltou a segurar também ao ver que a menina ia quase ao chão – "Como eles não estão aqui?".

"Há uma meia hora que estamos aqui, e eles nem deram as caras" – Tomoyo explicou – "Yamato e Nakata acham que há algo errado, e eu concordo com eles".

"Errado?" – Mick olhou para os dois mencionados, que não tiravam os olhos da quadra – "O que pode estar errado?".

"Prestem atenção" – Yamato sugeriu – "Está bem disfarçada, mas com muito esforço, dá para perceber".

Daniel, Mick e Shiefa pararam para tentar perceber o que Yamato queria mostrar. Não precisavam de explicações para saber que ele se referia a uma presença mágica, então Tomoyo e Meilin nem se deram ao trabalho. O primeiro a perceber algo foi Daniel.

"Barreira mágica?" – ele perguntou, olhando para o treinador – "Por que há uma barreira mágica aqui?".

"Está envolvendo a quadra" – Nakata respondeu, atraindo a atenção de todos – "Talvez alguém não quer que saibamos o que acontece lá dentro, nem que saibamos que magias estão sendo usadas".

"Mas Sakura e Shaoran não têm motivos para fazer isso" – Tomoyo pensou em voz alta.

"Eles não... mas uma certa pessoa tem" – Mick completou, entendendo tudo.

"Rytwild? Aqui?" – Shiefa se espantou – "O que ela faria aqui, durante um treinamento?".

"Com os dois sozinhos, é mais fácil para ela encurralar Sakura" – Yamato respondeu – "O problema é que não ouvimos nenhum sinal de luta, e com a barreira não sabemos se eles estão usando magia ou não".

"Não estamos tão longe assim da quadra para não ouvirmos a luta" – Meilin ponderou – "E eu duvido que aquela louca esteja conversando calmamente com eles".

"Vamos esperar mais dez minutos" – Daniel sugeriu – "Eles podem estar conversando e aí iremos atrapalhar. Agora, se eles não aparecerem, vamos lá e destruímos a barreira".

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Rytwild havia acabado de fazer sua sexta pergunta. Shaoran estava sentado, pensando no que fazer. Na quarta pergunta, Sakura havia perdido a carta Vento. Rytwild perguntara à garota qual era seu principal medo. Por uma questão de orgulho, Sakura respondeu "espíritos" ao invés de "fantasmas". Para Sakura, não era uma mentira, mas para a carta Verdade foi. A Card Captor ainda tentou revidar, mas o próprio Shaoran respondeu que "espíritos" não são a mesma coisa que "fantasmas", e por isso Verdade deve ter considerado uma mentira. Isso apenas serviu para deixar Sakura mais revoltada.

E agora estava ela, pensando no que ia responder. Rytwild havia perguntado sobre o seu principal trauma. Sakura não tinha uma resposta definida sobre o assunto. Tinha a morte da mãe, mas a garota não considerava um trauma, mesmo porque não lembrava direito. Houve também quando lutou com Yue. Mas a luta deu certo no fim, e acabou se tornando uma boa lembrança. Quando Yukito perdeu seus poderes... na época em que aconteceu, Sakura se sentiu fraca. E era como estava se sentindo agora. Incapaz de fazer as coisas sozinha, mesmo que ela mesma gritasse aos quatro ventos que saberia. Mas não poderia mostrar isso. Primeiro, porque Rytwild saberia de mais medos seus. Segundo, porque daria a Shaoran a prova de que ela não saberia se virar. E ela não queria que ele continuasse a protegendo. Ele se prejudicava com aquilo, e ela não aprendia a lutar sozinha. Já não era mais questão de estar chateada com o beijo de Shaoran em Meilin. Agora o problema era com ela. Unicamente com ela.

The smell of your skin lingers on me now

(O cheiro de sua pele está grudado em mim agora)

You're probably on your flight back to your hometown

(Você está provavelmente no seu vôo de volta para sua cidade natal)

I need some shelter of my own protection baby

(Eu preciso de algum abrigo para minha própria proteção, baby)

Be with myself in center, clarity, peace, serenity

(Ficar comigo mesma concentrada, lúcida, em paz, serena)

"Seu tempo está acabando, Sakura" – Rytwild anunciou, deixando Shaoran mais preocupado, mas Sakura parecia não ouvir – "Diga logo, senão eu serei obrigada a ativar Verdade de novo. E você não quer ficar sem suas cartas, quer?".

"Meu maior trauma foi quando Yukito perdeu seus poderes" – Sakura respondeu, meio aérea – "O que veio depois disso foi só conseqüência".

Ela havia pensado naquilo em voz alta? Já nem sabia dizer. Seu pensamento estava tão longe daquele pesadelo que sequer sabia que pensava ou falava. Sua cabeça apenas dizia "está na hora de você mostrar que cresceu. Provar que pode se virar sozinha". Havia pedido tanto por um pouco de emoção... por que agora não poderia lidar com isso?

I hope you know, I hope you know

(Eu espero que você saiba, eu espero que você saiba)

That this has nothing to do with you

(Que isso não tem nada a ver com você)

It's personal, myself and I

(Isso é pessoal, eu mesma e eu)

We got some straightening out to do

(Nós temos que ajeitar algumas coisas)

And I'm gonna miss you like a child misses their blanket

(E eu sentirei sua falta como uma criança sente falta do seu cobertor)

But I've gotta get a move on with my life

(Mas eu tenho que seguir em frente com a minha vida)

It's time to be a big girl now

(Chegou a hora de ser uma garota grande)

And big girls don't cry

(E garotas grandes não choram)

Don't cry, don't cry, don't cry

(Não choram, não choram, não choram)

Shaoran via Sakura aérea, e pela resposta, já sabia no que ela estava pensando. E, no fundo, se sentia culpado. Primeiro, que foi ele quem desencadeou aqueles pensamentos, ao beijar Meilin. Segundo, porque aquela atitude de Sakura tinha nome: orgulho. E ele foi quem inseminou aquele sentimento na garota, em todos os anos de namoro. Agora, estava mais do que nítido.

"Jovem Li..."

"Não precisa perguntar, Rytwild, isso está ficando repetitivo" – ele respondeu secamente, assustando a bruxa e chamando a atenção de Sakura – "Eu quero Desafio".

"O QUÊ?!" – Sakura saiu totalmente do seu transe e ficou prestando atenção no namorado.

"Eu não posso permitir que essa megera continue a te prejudicar por minha causa. Não, não estou tentando te proteger" – ele acrescentou, vendo que Sakura ia responder – "Mas se você quer continuar nisso sozinha, eu não posso te atrapalhar".

"Por que você está fazendo isso?" – Sakura sentiu os olhos se enchendo de água, mas ela não queria soltá-las – "Eu não entendo".

"Está bem claro que você não entende, Sakura. Mas eu preciso fazer isso. Não é algo que você possa evitar, sabe?" – ele olhou nos olhos verdes dela, para que ela sentisse o que ele queria dizer – "Por mais que você possa se proteger, sempre haverá alguém que tentará te ajudar, de alguma maneira. E se, no momento, te deixar resolver as coisas sozinha é a melhor forma de ajuda, é o que eu farei. Não vou me meter no seu caminho. Só que eu não preciso me afastar para fazer isso. Eu vou continuar aqui, do seu lado, tentando te ajudar da maneira que você quiser. Porque é isso que pessoas que amam fazem, não é?".

Rytwild olhava aquela cena estarrecida. Definitivamente, não seria nem a primeira e nem a última vez que ouvia palavras tão impactantes. Mas o efeito que elas causavam era, definitivamente, cada vez mais assustador e acusador. Não era algo que ela gostasse de ouvir, e muito menos de lembrar. Era uma tolice que as pessoas insistiam em acreditar. Exatamente uma tolice.

"Você não sentiu ainda, não é mesmo?" – ele a pegava pela mão, com a intenção de fazê-la se arrepiar tanto quanto ela o fazia – "Se você soubesse como ele age, entenderia porque quero tanto te ajudar. Não se feche desse jeito, Hina... eu quero te ajudar, quero te proteger. Eu te amo"

'Não!' – Rytwild balançou a cabeça, tentando tirar aqueles pensamentos de lá – 'São besteiras, e eu não preciso delas para continuar'.

Memórias

Não são só memórias

São fantasmas que me sopram aos ouvidos coisas que eu

Nem quero saber

Sakura não estava muito diferente. Via na sua frente o mesmo garoto apaixonado que conhecera há alguns anos, aquele mesmo garotinho de dez, onze anos que a protegia sem pedir nada em troca, sempre a ajudando quando ela precisava. Ela sequer sabia que era alvo da sua afeição, mas ele não ligava. Apenas queria estar lá, sem pedir nada em troca. E estava lá de novo, e estaria sempre. Não importava o que ela dissesse. Ele até poderia se afastar dela, como ela pedia, mas de alguma maneira estaria lá. Enquanto a amasse, era isso que faria.

E ela não sabia lidar com isso de novo. Aos onze anos, não soube, e teve que esperar meses para poder resolver o problema. Agora, novamente não sabia. Só que, dessa vez, ela não podia esperar de novo. Tinha um relacionamento de anos, uma inimiga maluca e uma Hierarquia que precisava de seu posicionamento. Ela precisava saber como agir. Principalmente com Shaoran.

"Então, Rytwild?" – Shaoran chamou por ela, sabendo que parte do que queria, ele conseguiu – "Não vai dizer qual será meu Desafio?".

"Moleque insolente!" – o sangue dela fervia de raiva, coisa que sempre acontecia quando se lembrava – "Você me paga agora".

"Vamos lá, estamos esperando".

"Pois muito bem" – uma pena que ele não a estava vendo, porque adoraria mostrar o sorriso sádico que acabou de dar – "Você quer ajudar a sua querida Sakura, não é mesmo? Então tenho o desafio perfeito para você".

"E qual é?".

"Mate-a".

Shaoran arregalou os olhos, e Sakura o acompanhou. Rytwild não poderia estar falando sério. Ou estaria?

"Parece que o tiro saiu pela culatra, lobinho" – podia-se ouvir o risinho escondido nas palavras da feiticeira – "Mas pense por esse lado: com Sakura morta, você não terá mais que lutar, e ela não irá sofrer por perder as cartas. Não é uma troca justa?".

"Se você acha que eu vou fazer essa loucura...".

"Você não precisa fazer, Li. Basta mais uma cartinha de Sakura, e tudo ficará bem".

"Você não vai tirar mais uma carta minha" – Sakura gritou, cheia de raiva – "Chega".

"Então esse é o seu fim, querida" – Rytwild gargalhou tão alto que a quadra ecoou os ruídos por alguns segundos – "Vou adorar ver essa cena de camarote".

"Pra mim, chega" – Sakura invocou o seu báculo e se posicionou – "Eu vou acabar com ela agora mesmo".

"Calma, Sakura" – Shaoran começou a sentir algo diferente no ar – "Acho que podemos esperar mais um pouco".

"Esperar? Esperar pelo quê? Ela vai acabar com a gente nesse ritmo".

"Confia em mim" – ele sussurrou para que só ela ouvisse – "E tente recuperar o seu lado atriz".

"O quê?".

"Tudo bem, você venceu" – Shaoran se posicionou com a espada – "Eu vou matar Sakura".

"O QUÊ?" – as duas mulheres gritaram, cada uma por suas razões.

"Sakura, eu sinto muito. Mas ela está certa" - ele pegou na mão da namorada – "Juro que depois eu me vingo por isso... mas não posso deixar que ela continue pegando suas cartas".

"Isso... isso..." – Rytwild vibrava tanto que sequer percebia o que acontecia ao seu redor. Ou com ela mesma.

"Você está brincando..." – Sakura se recusava a acreditar no que ouvia – "Você não teria coragem".

"Não, é?" – ele apontou a espada para ela, mas Sakura pôde ver a boca dele se mexer, de maneira bem discreta, e dizendo "Confia em mim".

"Vamos lá, jovem Li, me surpreenda" – Rytwild estava em estado de êxtase. Se soubesse que seria tão fácil, teria feito a brincadeira antes. E sequer precisou chegar a dez rodadas para conseguir algo interessante. Mas estava além do imaginado. Acabar com sua inimiga, através do namorado dela, era simplesmente incrível.

Tão incrível que era uma mentira. Mas Rytwild só descobriu quando sentiu Shaoran tacando sua espada em SUA direção.

A feiticeira teve tempo de desviar, mas sentiu a espada passar de raspão em seu braço. Viu o chinês sorrir, satisfeito, enquanto Sakura a encarava, estupefata. No alto de sua cabeça, duas cartas tomando forma. Uma tinha a forma de uma mulher pálida, quase transparente, de cabelos bem curtinhos. A outra tinha o formato de um juiz alto e velho, com os longos cabelos brancos, e uma toga comprida. Verdade e Invisível.

"Aproveita, Sakura, capture as cartas" – Shaoran gritou, enquanto corria na direção de Rytwild – "Eu recupero as outras".

Rytwild observou ao redor, e percebeu que a barreira mágica, posta por ela mesma para que ninguém de fora percebesse o movimento de dentro, também havia desaparecido. Mas se ela não havia retirado, como as cartas e a barreira haviam cedido de repente?

Vendo Li avançando e a alcançando, Rytwild tentou usar uma magia para se defender. Mas viu, com espanto, que nada funcionava. Nada mesmo. Ele avançou com um golpe com o pé direito, que ela defendeu facilmente. Os dois iniciaram uma luta rápida de chutes e socos, que Rytwild defendia facilmente, mas não conseguia contra-atacar. Vendo-se sem saída, a feiticeira teve que se manter na defensiva. Precisava pensar em algo rápido, porque Shaoran aumentava a velocidade dos golpes, como bem se podia ver graças ao chute seguido da rasteira, que ela desviou com um pouco de dificuldade.

Enquanto isso, Sakura, sem nenhuma dificuldade, trancava as duas cartas presentes no recinto e as recebia com certo alívio. Com Invisível, havia recuperado as cartas Desaparecer e Névoa. Com Verdade, vinham as cartas Libra e Poder.

"Apagar e destruir para ficar Invisível" – Sakura murmurava enquanto encarava as seis cartas em suas mãos – "Equilíbrio e força para saber e contar a Verdade. Meu Deus, quantas mais de vocês vão ter que ser usadas para dar vida às outras?".

Sem pensar duas vezes, Sakura transformou Invisível e Verdade em Cartas Sakura, e terminado o processo, guardou todas em segurança. Agora, era hora de recuperar mais algumas.

Shaoran continuava lutando fortemente, mantendo Rytwild só na defensiva. A feiticeira não tinha outra escolha senão escapar pela porta da quadra e correr. Chegava a ser humilhante, ainda mais pensando em como estava com o controle há poucos minutos atrás. Mas já havia perdido seis cartas. Pelo menos as duas que havia ganhado, ela levaria.

Pensando nisso, Rytwild segurou com força Chuva e Vento e saiu correndo porta afora, enquanto Li parou por milésimos de segundo para respirar. Sakura tratou de ir atrás dela, mas não precisou andar muito. Um tufão de água invadiu a quadra, atingindo Rytwild em cheio e a jogando para dentro de novo. A feiticeira se levantou com dificuldade para ver Daniel a encarando, enquanto este domava o tufão de água que a atingira um pouco antes.

"Controle perfeito de água, interessante" – ela revidou o olhar de Daniel – "Pela forma de tufão, eu imagino que você seja o Controlador dos Maremotos, estou errada?".

"Nem um pouco" – Mick surgiu por detrás de Rytwild, roubando as cartas que estavam nas mãos da inimiga – "Pelo menos não nesse ponto. Agora você deveria guardar as cartas, e não deixá-las em suas mãos. Grande erro".

"Devolva-me isso" – Rytwild partiu para cima de Mick, mas além da garota desviar, a feiticeira foi atingida novamente, dessa vez por uma rajada de cristais, lançados por Nakata. A pequena guardiã estava em sua forma original, e estava acompanhada de Yamato e Meilin. Shiefa era quem cuidava da porta da quadra, ao lado de Tomoyo.

"Você não vai roubar mais nenhuma carta" – Nakata declarou, se preparando para o segundo ataque – "Se eu fosse você, devolvia as outras".

"Sonhos são realmente para as crianças" – Rytwild resolveu usar seu último trunfo. Partiu para cima de Nakata tão de repente que a guardiã nem conseguiu se defender. Com a mesma velocidade se levantou e saiu correndo para a porta da quadra. Shiefa se pôs a frente de Tomoyo e ficou em posição de luta. Rytwild aproveitou a velocidade em que estava para aplicar um soco na boca do estômago, que Shiefa defendeu com alguma dificuldade. Vendo que sua oponente atual era mais fraca, Rytwild aproveitou que seu punho estava sendo segurado por Shiefa e o torceu bem forte, fazendo a chinesa gritar. Meilin partiu para ajudar a prima, mas Rytwild deu duas voltas com Shiefa e a jogou em cima da prima, imobilizando as duas. Vendo que Tomoyo seria a próxima a ser atacada, Sakura puxou a prima para trás, deixando o caminho livre para a inimiga. Daniel dirigiu seu tufão de água para impedir a saída de Rytwild, mas ela desviou e saiu pela porta. Yamato tentou correr atrás dela, mas ao ver que ela já ganhava distância, desistiu.

"Droga, ela conseguiu sair" – Yamato deu um soco no chão, tentando descontar a raiva.

"Não fique assim, você fez o que pôde" – Shiefa tentou consolá-lo – "Embora eu ache que você poderia tê-la alcançado".

"Obrigado pelo incentivo".

"Pelo menos ela deixou várias cartas hoje" – Mick olhou as duas que estavam em suas mãos, e se espantou – "Vento e Chuva? Mas essas cartas não estavam com Sakura?".

"Ela roubou de mim" – Sakura pegou as cartas das mãos de Mick e as guardou junto com as outras – "Obrigada, mas não precisava ter se incomodado".

"Incomodar? Quando?" – Mick sorriu – "Fiz isso porque quero te ajudar, Sakura. E ajuda nunca é demais".

Sakura encarou Shaoran ao ouvir essas palavras, pensando no que ele havia dito momentos antes. O chinês apenas suspirou e guardou sua espada. Isso deixou o coração de Sakura levemente magoado. Estaria ele com raiva dela? Havia cansado de esperar?

"Afinal, o que houve aqui?" – Tomoyo perguntou, atraindo a atenção de todos – "Nem parecia que houve luta antes de chegarmos aqui".

"E não houve" – Shaoran respondeu, aparentando cansaço na voz – "Ela fez uma brincadeira conosco. Estávamos começando a virar o jogo quando vocês entraram".

"Sentíamos a barreira mágica envolvendo a quadra, mas não conseguíamos sentir nada além disso" – Nakata explicou, antes de voltar à sua forma falsa – "E de repente todas as presenças mágicas começaram a ficar nítidas, enquanto a barreira sumia. Ela desativou?".

"Não" – Shaoran voltou a responder – "Eu comecei a perceber que a presença dela foi ficando mais fraca, até que ficou quase nula. E aí tudo que ela fez de magia por aqui começou a sumir. Foi bem no momento em que ela me desafiou a matar Sakura".

"MATAR?" – Shiefa exclamou, assustada – "Por que ela te mandou fazer isso?".

"Fazia parte do jogo. Mas quando ela me mandou fazer isso, sua magia estava começando a desaparecer. Acho que ficou tão fraca que não conseguiu manter tudo que estava fazendo, e aí desapareceu barreira, cartas que estava usando e todo o resto".

"Eu não entendo" – Yamato comentou, pensativo – "Rytwild tem uma magia muito poderosa. Como, de repente, ela se acabou? Nunca ouvi dizer algo sobre isso".

"Acho que deveríamos perguntar à senhora Whitman" – Mick sugeriu – "Ela deve saber de alguma coisa".

"Concordo com você, Mick" – Daniel desfez o tufão de água, molhando ainda mais a quadra – "Mas antes, acho justo limparmos esse lugar. Quase alaguei tudo por aqui".

"Não foi sua culpa" – Meilin tentou consolá-lo – "Você só tentou pegar aquela megera".

"Eu deveria saber controlar esse movimento. Mas com água doce fica complicado. Água do mar é muito mais fácil de controlar".

"E por isso você é Controlador dos Maremotos" – Mick comentou – "Água doce nunca foi seu forte".

"Importante é que Sakura recuperou mais cartas hoje" – Tomoyo exclamou, feliz, mas ficou triste ao ver a expressão da amiga – "Não foi?".

"Foi sim" – ela respondeu, desanimada, e olhou para Shaoran – "Desculpa, eu só atrapalhei o nosso treinamento".

"Não se preocupe" – ele respondeu, se levantando, mas sem deixar de encará-la – "Só espero que você pense no que eu te disse".

"Eu pensei" – ela também se levantou e os dois ficaram frente a frente, se encarando com tanta intensidade que os outros não puderam deixar de observar, torcendo – "Mas agora o problema não é mais com você, Shaoran".

"Com quem é então?".

"Comigo".

The path that I'm walking, I must go alone

(O caminho que eu estou trilhando, eu devo ir sozinha)

I must take the baby steps til I'm full grown, full grown

(Eu tenho que dar pequenos passos até estar totalmente amadurecida)

Fairy tales don't always have a happy ending do they

(Contos de fada nem sempre têm finais felizes, não é?)

And I forseek the dark ahead if I stay

(E eu abandonarei a escuridão à frente se eu ficar)

"Eu não vou te esperar a vida toda, Sakura" – Shaoran respondeu, mostrando que estava ficando farto daquela situação.

"Só mais um pouco, é tudo que eu peço" – ela pediu, chegando bem perto dele – "Eu só preciso de mais um tempinho. Eu preciso entender".

"Eu não sei" – ele passou a mão no cabelo, mostrando impaciência – "Eu não estou mais conseguindo me controlar".

"Por favor".

I hope you know, I hope you know

(Eu espero que você saiba, eu espero que você saiba)

That this has nothing to do with you

(Que isso não tem nada a ver com você)

It's personal, myself and I

(Isso é pessoal, eu mesma e eu)

We got some straightening out to do

(Nós temos que ajeitar algumas coisas)

And I'm gonna miss you like a child misses their blanket

(E eu sentirei sua falta como uma criança sente falta do seu cobertor)

But I've gotta get a move on with my life

(Mas eu tenho que seguir em frente com a minha vida)

It's time to be a big girl now

(Chegou a hora de ser uma garota grande)

And big girls don't cry

(E garotas grandes não choram)

Don't cry, don't cry, don't cry

(Não choram, não choram, não choram)

Ela deu um beijo no rosto dele, e sussurrou em seu ouvido:

"Nada vai mudar, eu te garanto".

Like a little school mate in the school yard

(Como um colega de escola no pátio da escola)

We'll play jacks and uno cards

(Nós jogaremos cartas)

I'll be your best friend and you'll be mine valentine

(Eu serei a sua melhor amiga, e você será meu namorado)

Yes you can hold my hand if you want to

(Sim, você pode segurar minha mão, se quiser)

'cause I wanna hold yours too

(Porque eu quero segurar a sua também)

We'll be playmates and lovers and share our secret worlds

(Nós seremos parceiros e amantes e compartilharemos nossos mundos secretos)

But it's time for me to go home

(Mas chegou a hora de eu ir pra casa)

It's getting late, dark outside

(Está ficando tarde, está escuro lá fora)

I need to be with myself in center, clarity, peace, serenity

(Eu preciso ficar sozinha concentrada, lúcida, em paz, serena)

Ele deu um bufo de impaciência e saiu dali, deixando-a totalmente sem chão. Tomoyo lamentou baixinho, vendo que seu plano, de fato, tinha ido por água abaixo. Os outros também ficaram chateados, vendo que não tinha sido daquela vez. Apenas Nakata parecia normal. Sua expressão indicava que estava pensando em algo.

"Shaoran está sem paciência, não é mesmo?" – a menor perguntou para Tomoyo.

"Pelo visto sim. Desse jeito dará tudo errado".

"Pois eu acho que pode dar tudo certo" – a pequena sorriu – "Tomoyo, você que conhece bem a Sakura... você acha que uma injeção de confiança pode ajudá-la a sair desse impasse?".

"Do que você está falando?".

"Eu tenho um plano. Mas eu vou precisar da sua ajuda. E da sua influência também, diga-se de passagem".

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"MAS QUE INFERNO!" – Rytwild jogava tudo que via pela frente no chão, assustando o seu fiel mordomo – "COMO VOCÊ EXPLICA ISSO, SEU VAGABUNDO?".

"Explicar o quê, senhora...".

"Meus poderes" – ela sussurrou perto da boca dele, de forma que o pobre não conseguia sequer ficar em pé de tanto que tremia – "Estava eu quase conseguindo eliminar a Kinomoto, e eles acabaram. Foi tudo por água abaixo. COMO VOCÊ EXPLICA ISSO?".

"Eu não sei senhora, fizemos tudo corretamente no último ritual".

"Tem certeza?" – ela apertou o braço dele com força, fincando suas grandes unhas até machucarem – "Escuta aqui, seu merda, se eu souber que você está me dando menos poder do que eu quero...".

"EU JURO QUE NÃO ESTOU!" – ele se ajoelhou, como se pedisse piedade – "Eu jamais faria isso com a senhora, pode ter certeza. Eu daria minha vida pela senhora".

"Então por que meus poderes não foram capazes de manter as magias de hoje? Hein?".

"Eu não sei mesmo, senhora. A não ser que...".

"A não ser que você tenha me dado menos poderes do que o devido, não é mesmo? VAMOS, CONFESSE!".

"Eu te juro que dei a mesma quantidade de poderes de sempre, senhora. A senhora mesma foi quem disse que a quantidade estava boa por enquanto, durante o ultimo ritual, ou não se lembra?".

Rytwild parou de pressionar o braço do seu comparsa e parou para pensar. De fato, ela foi quem determinara quando o ritual deveria terminar, então não poderia ter sido a fonte de poder dele que acabara. Mas então, qual seria?

"Eu preciso de uma informação. Onde está aquele livro cinza sobre fonte de poder?".

"Está junto com os outros, senhora. Quer que eu vá buscar?".

"Nesse exato minuto".

Ele se apressou em buscar o livro pedido por sua senhora, enquanto essa ficou pensando. Não poderia ser o que estava pensando. Se fosse, ela estava em sérios apuros. Sérios mesmo.

"Aqui senhora".

Quando menos percebeu, lá estava o livro em suas mãos, e seu fiel empregado olhando para ela, estático e silencioso. Conhecendo aquele livro com a palma das mãos, ela abriu exatamente no capítulo que queria. Em dois minutos, achou o que procurava. Então, sentiu sua pele ficar fria e pálida. Era exatamente o que pensava. O que significava que ela tinha que agir, e rápido.

"Eu preciso de uma nova fonte de poder. Incrivelmente poderosa, que dure enquanto eu estou nessa missão".

"Disse alguma coisa, senhora?".

"Nada não" – ela se levantou – "Arrume tudo isso aqui, e me deixe sozinha até segunda ordem. Não quero interrupções, nem para emergências. Vou pensar um pouco".

"Pensar no quê, senhora?".

"Isso já não é da sua conta" – ela se sentou – "Mas antes de sair, me traga um Martini. Vou precisar de um para pensar bem no que eu recolhi hoje. Pelo menos as informações que eu queria eu consegui. E vou me aproveitar delas".

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Sakura estava sentada na sala, assistindo televisão. Havia sido um domingo puxado, e agora, depois que tinha limpado toda sua casa, estava descansando. Seu pai estava na cozinha, fazendo o jantar que serviria para os dois. Touya disse que iria lá, mas Yukito estava doente, então preferiu ficar com ele, e marcou o jantar para outro dia. De fato que Sakura estava praticamente sozinha naquele dia. Então, não era de se espantar que ela estivesse passando os canais da televisão impacientemente, sem parar ou sequer olhar para algum.

"Filha, você quer vir me ajudar aqui na cozinha?" – Fujitaka chamou, atraindo a atenção da garota – "Acho que você precisa se distrair".

"Tem razão, papai" – ela desligou a TV e foi ajudá-lo – "Hoje o dia está um tédio".

"Por que você não sai para algum lugar?" – ele ofereceu a cebolinha para Sakura ir cortando – "Faz tanto tempo que você não vai passear um pouco".

"Estou com muitas obrigações pela frente, papai. Digamos que minha vida deu uma reviravolta total nos últimos meses".

"Entendo... mas não quero que você fique sozinha em casa, bufando desse jeito. Nem parece a minha filha".

Sakura ia responder quando o telefone tocou. Pedindo licença ao pai, ela saiu e foi atendê-lo, ouvindo a voz de Tomoyo do outro lado:

"Por favor, poderia falar com Sakura?".

"Sou eu, Tomoyo, pode falar".

"Oh, que bom, Sakura. Queria saber se você está livre hoje".

"Estava conversando com meu pai sobre isso agora mesmo. Fiquei o dia todo em casa hoje, estou morrendo de tédio".

"Posso considerar isso como um 'sim', então?".

"Acho que pode".

"Ótimo. Porque estou querendo ir num karaokê aqui perto. Só nós duas. O que você acha?".

"Karaokê?" – Sakura recebeu um gesto do pai, dizendo que deveria sair com Tomoyo – "Não sei, Tomoyo, você não quer vir aqui em casa? Poderíamos ver um filme, que tal?".

"Ah Sakura, mas eu estou com tanta saudade de sair para cantar. E também faz tempo que não saímos apenas nós duas. Depois que você começou a namorar, nunca mais tivemos um momento só nosso".

"Eu sei, Tomoyo, mas...".

"Vamos, vai. Você vai se divertir, eu prometo".

"OK, eu vou. Daqui a quanto tempo nos encontramos?".

"Uma meia hora, que tal? Passo aí para te buscar".

"Tudo bem, em meia hora estarei pronta".

"Ótimo".

As duas se despediram e Sakura, depois de pedir oficialmente ao seu pai, foi se arrumar. Kero estava deitado na cama, lendo alguns livros antigos que achou na biblioteca do senhor Kinomoto. Depois dos incidentes na quadra de treinamento, o pequeno guardião ficou sabendo do desaparecimento repentino dos poderes de Rytwild, e desde então começou a pesquisar. A mesma estava sendo feita por Sara e alguns Controladores da Hierarquia. Até a própria Rytwild desapareceu por completo desde o fatídico dia, provavelmente pela mesma razão.

"Algum sucesso, Kero?".

"Nenhum" – o pequeno guardião fechou o livro que estava lendo – "Não acho nenhuma razão plausível para os poderes dela estarem se esgotando".

"Liguei para Mick ontem, e ela me disse que a senhora Whitman também não achou nada" – Sakura pegou um vestido cor de rosa, com estampas florais e alcinhas finas – "Mas será que estamos procurando em lugares certos? Esses livros são do meu pai, duvido que tenha algo sobre magia".

"Os seres da Antiguidade costumavam ter muitos conhecimentos sobre magia, então achei que poderia achar algo" – Kero pegou outro livro da imensa pilha que estava sobre a escrivaninha de Sakura – "Mas até agora, nada que nos interesse".

"Precisamos descobrir isso logo" – Sakura vestiu o vestido rapidamente, e começou a pentear os cabelos – "Enquanto isso, que tal descansarmos? Tomoyo e eu iremos a um karaokê, quer ir?".

"Terei que ficar escondido?" – Kero viu a mestra confirmar – "Então acho melhor ficar por aqui. Odeio ficar escondido na sua bolsa, a cada dia parece que está mais cheia".

"Você é um reclamão, isso sim" – Sakura terminou de pentear os cabelos e começou a passar maquiagem – "Mas já que você não quer ir, te trago algo para comer, pode ser?".

"Gosto da idéia" – Kero sorriu de orelha a orelha – "Algo doce, por favor".

"Pode deixar" – Sakura sorriu de volta, e terminou de se arrumar. Pouco tempo depois, Tomoyo já buzinava em sua porta, pronta para buscá-la. Sakura se despediu do pai, e este ficou no portão até as duas sumirem de suas vistas, acenando com um grande sorriso no rosto.

"Acho que vocês dois já podem ir" – Fujitaka gritou para a casa vizinha.

"Obrigada, senhor Kinomoto" – Nakata saiu de sua própria casa, com Yamato logo atrás – "Prometemos trazer notícias".

"Acho melhor irmos voando" – Yamato disse no ouvido de Nakata – "Temos que chegar antes delas".

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"Nossa Tomoyo, que lugar vazio" – Sakura comentou ao chegarem ao lugar onde a motorista de Tomoyo as levou – "Nem parece um karaokê".

Era um prédio bastante bonito, com muitas janelas de vidro, de forma que o lugar todo dava para ser visto do lado de fora da rua. Mas estava escuro e quieto, o que é realmente estranho para um karaokê de domingo. Sakura achou que a amiga pudesse ter ido ao lugar errado, mas Tomoyo apenas lhe sorriu.

"As pessoas só chegarão mais tarde, Sakura" – ela pegou pela mão da amiga, e começaram a ir para dentro do prédio – "Vamos entrar, assim aproveitaremos para cantar muito enquanto está vazio".

Sakura concordou e as duas entraram no karaokê. Enquanto Sakura pagava a sua entrada, Tomoyo se aproximou da prima e falou em voz baixa:

"Sakura, posso te fazer uma pergunta?".

"Quantas quiser, Tomoyo, você sabe disso".

"É sobre o seu namoro com o Li".

"Eu imaginei que fosse" – o tom de voz de Sakura revelou que ficava pouco à vontade com o assunto – "Mas pode perguntar sim".

"Você está esperando algo dele? Digo, para voltarem?".

"Não exatamente, Tomoyo" – as duas entraram num ambiente escuro, iluminado fracamente apenas por uma luzinha azul no palco, que mostrava um piano – "O problema é que ele está sempre tentando me proteger, e preciso de um tempo para aprender a lidar com isso, sem me sentir fraca. Quero sentir que sou forte o bastante para enfrentar as coisas sozinha, e não depender dele e nem de ninguém".

"Mas tem algo que ele possa fazer para te ajudar nisso?".

"Eu não sei" – Sakura e Tomoyo se sentaram em uma mesinha próxima ao palco – "Talvez se ele me fizesse sentir mais confiança em mim mesma. Mas duvido que ele faça isso" – a card captor suspirou – "Shaoran não correria atrás de mim para provar algo do estilo. Ele com certeza vai esperar eu atingir esse ponto por mim mesma, se é que vai esperar".

"E se ele viesse atrás de você? Mostrasse que você é forte mesmo sem ele?".

"Não acredito que ele faça isso, Tomoyo. Shaoran é orgulhoso demais pra fazer isso. Além disso, como ele poderia demonstrar que eu sou forte e não preciso dele?".

"Sei lá... mostrando que ele precisa mais de você do que você dele?".

"Pensando bem, isso seria algo que realmente me traria confianças. Mas ele jamais faria isso, Tomoyo, esquece".

"Será?".

Sakura se assustou ao ouvir a voz que perguntou isso. Estava vindo diretamente do palco, onde um homem estava sentado no piano, alguém que não estava lá antes.

Nada mais, nada menos do que Eriol Hiiragizawa.

"Não me mate por esse momento, Sakura, mas eu simplesmente faço tudo pelos meus amigos" – Eriol falava por um microfone que estava perto do piano – "Além disso, é um momento que quero guardar para a minha memória eternamente".

"Ai meu Deus" – Sakura encarou Tomoyo – "O que vocês aprontaram para mim?".

Tomoyo apenas deu um sorriso. Sem que Sakura pudesse revidar, Eriol começou a tocar uma linda música ao piano. Pouco a pouco, as luzes do palco iam sendo acesas, e para a surpresa de Sakura, lá estava Shaoran, bem no centro, pronto para cantar. O garoto estava com a cabeça baixa, completamente vermelho, e ao canto Eriol ria baixinho, enquanto continuava a tocar a melodia.

"Ai meu Deus" – Sakura só teve tempo de exclamar isso, quando Shaoran começou a cantar.

Tonight it's very clear

(Hoje a noite está clara)

As were both lying here

(Enquanto nós dois estamos aqui)

Theres so many things I want to say

(Há tantas coisas que eu gostaria de dizer)

I will always love you

(Eu sempre te amarei)

I would never leave you alone

(EU jamais te deixaria sozinha)

"Eu não estou acreditando nisso" – Eriol continuava a gargalhar em voz baixa, enquanto Shaoran criava coragem para olhar para uma estupefata Sakura, mostrando que não estava apenas cantando.

Sometimes I just forget

(Às vezes eu apenas esqueço)

Say things I might regret

(Digo coisas das quais me arrependo)

It breaks my heart to see you crying

(Corta o meu coração te ver chorando)

I don't wanna lose you

(Eu não quero te perder)

I could never make it alone

(Eu jamais poderia fazer isso sozinho)

"Ai que lindo!" – Tomoyo se emocionava enquanto via Sakura à beira de um choro, e Li vencendo a coragem, descendo do palco para encará-la mais de perto – "Ainda bem que estou filmando".

I am a man who will fight for your honor

(Eu sou um homem que vai lutar pela sua honra)

I'll be the hero you're dreaming of

(Eu serei o herói com o qual você sonha)

We'll live forever

(Nós viveremos para sempre)

Knowing together that we

(Sabendo juntos que)

Did it all for the glory of love

(Nós fazemos tudo pela glória do amor)

De repente, várias luzes fortes se acenderam no palco, mostrando ao fundo um grupo completo, com baterista, guitarrista e tudo que tinha direito. Todos acompanhavam Eriol na música. Sakura não precisou olhar muito para reconhecê-los.

"Espera aí, eu conheço aquelas pessoas" – ela ficou boquiaberta – "MEU PAI, É O PESSOAL DA HIERARQUIA, O QUE ELES ESTÃO FAZENDO AQUI?".

"Você me paga, Tomoyo" – Shaoran murmurou antes de voltar a cantar, mais desinibido agora.

You'll keep me standing tall

(Você vai me manter pra cima)

You'll help me through it all

(Você vai me ajudar a passar por tudo)

I'm always strong when you're beside me

(Eu sou sempre forte quando você está do meu lado)

I have always needed you

(Eu sempre precisei de você)

I could never make it alone

(Eu jamais poderia ter feito isso sozinho)

Ele apertou a mão de Sakura, e sentiu-a se arrepiar por completo. Estava pagando o maior mico, era verdade. Mas dessa vez, pelo menos, estava dando resultado. Isso deu coragem para continuar, totalmente desinibido dessa vez.

I am a man who will fight for your honor

(Eu sou um homem que vai lutar pela sua honra)

I'll be the hero you're dreaming of

(Eu serei o herói com o qual você sonha)

We'll live forever

(Nós viveremos para sempre)

Knowing together that we

(Sabendo juntos que)

Did it all for the glory of love

(Nós fazemos tudo pela glória do amor)

"Eriol, você tem a menor noção do que está acontecendo aqui?" – perguntou o baixista da banda que o acompanhava.

"Tenho sim, e como tenho" – Eriol esboçou um sorriso malicioso – "É a melhor parte da música, empolgação".

Just like a knight in shining armor

(Como um cavaleiro em uma armadura brilhante)

From a long time ago

(De um longo tempo atrás)

Just in time I will save the day

(Bem a tempo eu salvarei o dia)

Take you to my castle far away

(E te levarei para um castelo bem longe).

Enquanto o guitarrista entoava um belo solo, Shaoran se ajoelhou em frente à Sakura. Nesse ponto, a card captor já estava em completo pranto, mas se via um sorriso lindo formando no seu rosto. O jovem apertou mais forte a sua mão, e disse em alto e bom tom:

"Eu não agüento mais esperar, Sakura. Eu não quero mais ficar longe de você. Mas já que você não se convence de que pode fazer as coisas sozinha, eu vou te convencer disso, não só provando que pode, mas também de que EU só sou alguma coisa com você ao meu lado".

"Shaoran, não diga isso".

"Eu sou uma pessoa melhor do seu lado, Sakura. Por favor, continue me ajudando".

E de repente, tudo que Sakura sentia, a insegurança, o medo, o remorso, e até a lembrança do beijo em Meilin, tudo sumiu. Jamais havia imaginado que Shaoran, o seu Shaoran, fosse se submeter a tanto para ficar com ela. Poderia não parecer muito, mas sendo Li, era a maior declaração do mundo. Então, sem pensar, ela o beijou, descontando toda a saudade que sentiu durante o tempo em que ficaram separados. A intensidade do beijo foi tanta que Sakura nem percebeu as muitas "vivas" que soaram durante o beijo. Se tivesse percebido, saberia que, naquele momento, todos os seus amigos mais íntimos, seus guardiões e os de Eriol (com exceção de Yue, já que Yukito estava doente, e de Kero, que ficou em casa) e toda a Hierarquia estavam assistindo aquela cena. Vendo que Shaoran estava ocupado demais para continuar a cantar, Eriol assumiu a primeira voz, recebendo em seguida, ajuda de Tomoyo como back-vocal.

I am a man who will fight for your honor

(Eu sou um homem que vai lutar pela sua honra)

I'll be the hero you're dreaming of

(Eu serei o herói com o qual você sonha)

We'll live forever

(Nós viveremos para sempre)

Knowing together that we

(Sabendo juntos que)

Did it all for the glory of love

(Nós fazemos tudo pela glória do amor)

We'll live forever

(Nós viveremos para sempre)

Knowing together that we

(Sabendo juntos que)

Did it all for the glory of love

(Nós fizemos tudo pela glória do amor)

We did it all for love

(Nós fizemos tudo por amor)

We did it all for love

(Nós fizemos tudo por amor)

We did it all for love

(Nós fizemos tudo por amor)

We did it all for love

(Nós fizemos tudo por amor)

Quando a música terminou, todas as luzes do local se acenderam, e o casal se separou. Foi quando Sakura percebeu que havia gente DEMAIS naquele local, e escondeu a cabeça no peito de Shaoran, sentindo vergonha.

"Ah, foi tudo tão lindo" – Tomoyo exclamava, filmando com uma mão e segurando um microfone com a outra – "Nakata teve uma excelente idéia".

"Nakata?" – Sakura perguntou, encarando Tomoyo de canto de olho – "O que ela tem a ver com isso?".

"Fui eu quem bolou tudo" – Nakata gritou de uma mesa ao fundo, onde estava sentada com Yamato e Shiefa – "Foi ótimo, não?".

"Ela e Tomoyo estão tentando nos juntas há tempos" – Shaoran explicou – "Mas nenhum plano dava muito certo, até que Nakata bolou esse".

"Ela percebeu que tudo que você precisava era de uma dose extra de confiança, vinda, principalmente, da parte de Shaoran" – Tomoyo continuou explicando – "Então, ela achou que não teria melhor jeito do que ele se declarando".

"Uma simples declaração não era o bastante, não é mesmo?" – Shaoran resmungou, recebendo risinhos de todos no local – "Tinha que ter esse mini show, não é mesmo?".

"Não reclama que você aceitou" – Eriol respondeu, ainda sentado em frente ao piano – "Além disso, não teria a mesma graça se não fosse uma declaração cantada".

"E eu posso saber o que diabos esse monte de gente está fazendo aqui?" – Sakura disse, olhando para todos ali e apontando para Mick assim que a encontrou – "Isso tem dedo seu, Mick".

"Claro que tem!" – a menina sorriu – "Quando Tomoyo veio pedir ajuda ao Eriol para tocar ao piano, ninguém da Hierarquia quis ficar em casa rolando toda essa cena".

"A senhora Whitman está se contorcendo de vontade de vir aqui, mas o horário já não permite" – respondeu Alice Kimura, a mãe de Mick e Controladora da Água – "Ordenou que nós filmássemos tudo e contássemos as fofocas depois".

"Sem contar que foi ótimo contar com o pessoal da Hierarquia pra completar a banda" – Eriol sorriu ao pessoal do palco – "Rapazes, vocês são realmente ótimos".

"Disponha, Eriol" – Julian, que era o baterista em questão, agradeceu de volta – "Só não me proíba de sair com a Nakuru, sim?".

"Ele que tente!" – Nakuru surgiu em uma mesa ao lado da de Nakata, assustando Sakura – "Bato nele até ele pedir perdão".

"E por que aqui?" – Sakura perguntou, se sentindo realmente agradecida pelo esforço dos amigos, embora muito envergonhada.

"Porque aqui já tinha tudo que precisávamos" – Tomoyo respondeu, dando de ombros – "Além disso, precisávamos de um lugar que coubesse a todos. Pensamos num karaokê por isso".

"Só precisamos das influências de Tomoyo para reservar o local, o que não foi difícil" – foi a vez de Shaoran complementar – "O resto você já sabe".

"E como você aceitou?" – ela perguntou, olhando para ele – "Não é típico de você".

Ele sorriu de volta:

"O que eu não faria para voltarmos?"

Continua

ENFIM, MAIS UM CAPÍTULO! É, eu sei que demorei MUITO para postar esse... mas nossa, esse sim ficou PESADO. Foi tanta coisa acontecendo que eu nem sabia se dividia ele em dois ou deixava desse jeito. Resolvi deixar. Acho que ninguém se importa em ler 21 páginas de Word, não é mesmo?

(Ah, pelo menos foi bastante coisa, pra quem atrasou tanto).

Mas para quem esperou tanto, eis aí, nosso casalzinho vinte voltou. E VOLTOU COM TUDO. Isso que deu eu ficar lendo fic da Rô demais. Começo a achar que Shaoran pode cantar no meio dos karaokês, e fico enfiando o coitado nessas situações. Rô, me desculpa por ter roubado sua idéia, mas eu achei tão legal quando a li em Sem Barreiras – Nos Braços do Amor que fiquei com a idéia DESDE A VEZ QUE LI. Sorry mesmo, querida.

Ah, as músicas. É, eu resolvi apelar pra muitas nesse capítulo. Mas nossa, ele ficou tão pesado que senti que deveria pôr músicas. Usei um trecho de "Memórias", da Pitty (de novo, eu sei. Ainda aparecerá outras vezes), e "Big Girls Don't Cry", da Fergie, e "Glory of Love", do Peter Certera (sim, a música do Karatê Kid II, se alguém reconheceu). A da Fergie foi uma sugestão da Maki (litlledoll linda!), há muito tempo, quando ela leu o capítulo 13. Segundo ela, é a cara da Sakura nessa situação. Já a do Peter... bem, essa foi escolha minha (réuconfessaqueamakaratekidsim). Espero que tenham gostado.

Pra terminar, quero agradecer a todos que ainda lêem a minha fic, mesmo com a demora. E, mais uma vez, agradecer a quem me cobrou. Sempre me colocam pra cima e me fazem querer continuar escrevendo.

E claro, pra Maki, que me ajudou com a música, pra Tamy, que continuou me dando sugestões (e que está ansiosa pra ler o resto, agora que sabe o que continuará acontecendo), e pro pessoal do Twilight Haters, que me deu ânimo nesses dias para continuar escrevendo. AMO TODOS VOCÊS!

Beijos

Miss of Darkness