A música por si só é indescritível.
Não precisa de palavras: ela já é provida de língua, boca e fala.
Sua linguagem é única e universal.
Só podemos defini-la por meio dos sentimentos que invita...

HARMONIAS


Cenários perfeitos, feitos de sentimentos;
Gestos e música em embate,
Sois silente lábios de reate...

Labii Reatum


Ar Morno

Como explicar tal, estranha, sensação...

De frio; vazio...

Dentro de um salão lotado de cores e rumores, de perfumes e sabores, de pessoas... Veio de repente. Fez a bebida perder gosto e graça. Fez a música, uma quente batida frenética, soar gelada. Fez-me, em meio a sorrisos e danças, solitário; preferindo apenas algum alheio lugar.

Às vezes, a solidão bate forte à porta; chega repentina, sem aviso ou explicação. Como um distante parente impetuoso, completamente disposta a se alojar e ficar...

Ocupado por coisa alguma, meu anis olhar desinteressado atravessa a variada multidão. Agora, não há em mim sequer uma gota de vontade de continuar aqui; ainda que, instantes atrás, este ambiente me parecesse morno e acolhedor.

Discreto, deixo o salão; pensamentos voltados para minha cabine, minha cama e para essa noite que prevejo passar deserta e mal dormida.

Porta afora, a visão do convés muda o rumo dos meus pensamentos, mas não o das minhas resolutas pernas.

Não há lua, nem fugidios casais.

À noite, aquele local não é o mesmo que durante o dia. Parece ocorrer uma transformação: ao invés do calor solar, das coloridas roupas de banho dos turistas, da agitação e da alegria das músicas, encontro o lugar devoluto, de chão encerado, iluminado pela cor fria e branca das luzes do navio; e, se não está completamente silencioso é porque o som do mar batendo contra o casco preenche o ar.

Da minha cabine trago a maleta de couro preto que sempre me acompanha, independente de onde eu vá; muito embora, sua presença junto a mim pareça não se enquadrar ao Eu que as pessoas conhecem, ou pensam conhecer.

Olho, singrando o convés, me sentindo estranhamente nostálgico; rodeado por essa imensidão negra que é o céu misturado com o oceano. Esse lugar parece feito de um momento, especialmente para mim. Aqui estou mais acolhido que dentro daquela abarrotada festa, que é, para mim, qualquer.

Não preciso pensar para escolher a música. Senti qual deveria tocar.

Coloco a maleta sobre uma das espreguiçadeiras vazias e abro o zíper, cuidadoso para que esse barulho não interfira no clima mágico que ronda minha mente. O couro brilha fúlgido, mas é na luz refletida pelo verniz avermelhado onde meus olhos se fixam.

Seguro com cuidado reverente o arco e o instrumento; são meus amigos e amantes. Nada pode ser comparado com o que eles são capazes de me dizer e me fazer sentir. Nada pode ser comparado ao simples prazer de ser capaz de interpretá-los em música.

Alguns passos me levam à área de observação da proa. O chão lustrado de madeira escura é meu palco perfeito. A iluminação de frias lâmpadas - em minha imaginação - são holofotes focados em mim. Estes, que, em meio à escuridão da noite, fazem as barras alvas da amurada se destacarem contra o fundo preto-azulado que é minha platéia. Meus únicos espectadores são calmos e cintilantes, esparsos nesse negrume céu-mar. Suaves estrelas acima, em seus camarotes; fugazes reflexos sobre a água à frente e ao redor, em suas cadeiras. Maravilhoso público.

Sob luzes que deixam minha pele ainda mais clara e meus cabelos ainda mais louros, posiciono-me no meio do palco, pronto para iniciar o meu show. Miro minha bela platéia por um instante suficiente, que me faz perceber o quão pequena é minha solidão diante de tamanha grandeza.

Escuto os sons da natureza, das ondas batendo no casco. Sinto o ar tocando minha face com seus dedos úmidos e frios. Apóio o instrumento no ombro, seguro entre queixo e pescoço, e cerro os olhos, levantando o arco sobre as cordas.

Espero, cercado de escuridão, a sintonia perfeita, o momento exato de tirar os primeiros sons. E quando o sinto, [&~ o arco toca as cordas, cadenciando as primeiras notas, longas e suaves como o contínuo movimento oceâneo...

Então, um pouco mais profundo e agudo, como é minha própria solidão, saem os sons seguintes... Trêmulos, são como lágrimas salgadas caindo ao mar, seguidos de outros, ainda mais longínquos, de uma dolência íntima e abstrata que mistura as vibrações das cordas com o ritmo das ondas. Oscilações ínfimas em meio ao infinito e profuso pélago.

Notas longas e cadenciadas, que ecoam por um curto espaço, submergindo na água e desvaecendo-se no ar aquém deste barco... que agora é meu tablado. E cujo imperceptível balançar embala o deslize de suaves acordes que se assemelham a essa imensidade, ao vento fraco, e ainda, à minha dor. Da qual, já não me lembro mais os motivos, tão envolvidos estão meus sentimentos por esse ensejo, feito desses sons solitários voando sem rumo para a imensidão, onde desaparecerão como se nunca houvessem sequer existido...

Esta não é uma música triste; apenas um pouco solitária, eu diria. Exatamente como me sinto... Engraçado o seu nome... 'Ar morno'. Um contraste com o molhado e gélido ar da madrugada que me envolve. De qualquer forma, nesta noite, o que me envolve em absoluto, é a música que produzo.

E, os espectadores - mesmo àqueles que os acordes jamais chegarão - não deixam de me assistir extraindo a melodia longa, lamuriosa e lenta das tensas cordas do violino. Meus braços são como os movimentos brandos desta escura água oceânica. Consigo sons profundos e tranqüilos. Então, emendo-os em uma série de agudos compridos, extensos e muito frios, que chegam às alturas do céu, causando arrepios pela minha nuca e espinha, onde pausam, antes de descerem relaxados, espalhando-se novamente ao meu redor.

Sinto a música chegando ao seu fim como um sussurro sobrenatural em meus ouvidos. Não importa como me sentia antes; apenas como me sinto agora.

Essa música serena e delicada, melancólica e carinhosa me abraça e me embala em seu ritmo fluido e incrível. Breve, curta e bonita... Faz-me exalar, expulsando, por todos os poros, aqueles sentimentos vazios e solitários...

As notas ficam mais graves, e ouço a delicadeza de uma flauta; fina e sutil, de um adocicado som agudo. Tão perfeitamente afinada e síncrona que só pode ser imaginária. Ela não só me acompanha, como se sobressai, executando com perfeita interação suas notas entre as minhas, misturando e dissociando os timbres dos instrumentos. Sua afilada sonoridade dança sobre a monotonia do violino, dando mais vida e calor à música. Espiralando como uma lépida rajada de vento, os sons da flauta arrastam os graves finais acordes do violino; deixando para mim apenas uma última nota ecoando longamente no denso ar escuro. ~&]

A música termina e meu corpo, porém, parece continuar a vibrar no mesmo ritmo dessas cordas, desses sopros de ar, dessa água e da minha própria alma.

Abro meus olhos devagar. O cenário à minha frente ainda é o mesmo, ainda que eu seja outro. Entretanto, aquele palco não é só meu.

Ao meu lado está um marinheiro: em seu claro blusão engomado e calças azuis escuras, da mesma cor do quepe que repousa sobre seus cabelos castanhos; que, embora curtos, deixam recair uma franja sobre seu rosto, cobrindo-o parcialmente.

A flauta era, enfim, real. Destaca-se dourada, segura entre seus dedos longos e suspensa perto de seus lábios. E ele permanece parado, de olhos cerrados, desfrutando da música que tocamos.

Demora um pouco, antes de abaixar seu instrumento e, voltar-se para mim. Vejo em sua face o reflexo da minha: ambos saídos de um inefável transe musical. Seus olhos são verdes calados; tal qual sua pessoa, eu percebo. Ele se curva suavemente, se em respeito ou em agradecimento, não sei dizer. Vira-se então e anda até as espreguiçadeiras, tão silencioso que não me surpreendo por não o ter escutado. Seus sapatos pretos lustrosos não fazem barulho algum sobre o piso amadeirado.

Ao lado da minha maleta, está a caixa de sua flauta: ele a guarda e segue pelo convés. Provavelmente de volta a seus afazeres.

Levemente atordoado, eu me volto para a escuridão da noite e do mar, à platéia para a qual toquei nem quatro minutos de melodiosos acordes. E, então, ao invés dos aplausos de praxe, o que recebo é uma brisa, um marítimo ar morno, que me envolve trazendo consigo a lembrança de como é um abraço quente.

Sorrio e me curvo em profundo agradecimento.

Certo do sucesso de meu espetáculo, retiro-me do palco em direção à maleta, onde guardo com reverência meu instrumento. Não há pressa, nem tristeza de ter acabado, apenas uma reconfortante sensação espalhada pelo meu corpo, corada em meu rosto.

Terei, agora, uma boa noite de sono em minha cabine...

Este cruzeiro, um requintado disfarce para negócios, acordos e trabalho, ainda durará algumas noites... Olho para a escuridão por trás da amurada saudoso de algo que não conheci. Talvez deste liberto estado, que já acabou. Prometo-me tocar novamente aqui. Quem sabe, uma musica mais alegre. Quem sabe novamente acompanhado. Afinal, aquele palco, aquela platéia não pertencem só a mim.

Aquela fria e estranha sensação vazia também não...


Diana C. Figueiredo

(Diana Lua)

Escrito 08/05/2006 ás 15:06
Última alteração 13/05/2007
Revisado por Illyana Paula, Lídia Paula e Maria Angela.
Contém 1471 palavras, 7284 caracteres, 8720 toques, 36 parágrafos e 124 linhas.

A música Warm Air foi composta por Mike Batt (1949 - ).
A versão utilizada para a produção deste texto, foi executada pela Orquestra Filarmônica Royal (Royal Philarmonic Orchestra) com Vanessa-Mae, Phil Todd, Maurice Murphy, Clem Clempson, Richard Morgan, conduzida por Mike Batt.

As marcas [&~ e ~&] indicam, respectivamente, inicio e fim da música referida acima. Se ela for iniciada na marca, a leitura em voz alta do texto deverá (aproximadamente) se encaixar com a melodia.