A música por si só é indescritível.
Não precisa de palavras: ela já é provida de língua, boca e fala.
Sua linguagem é única e universal.
Só podemos defini-la por meio dos sentimentos que invita...

HARMONIAS


Cenários perfeitos, feitos de sentimentos;
Gestos e música em embate,
Sois silente lábios de reate...

Labii Reatum


À miríade de tons azuis de seu olhar e aos cinco segundos de
profundidade dele naquela despedida de fim de tarde...

Fogo e Tempestade

Não há um lugar que eu possa chamar de lar.

Simplesmente nunca houve.

Vivo mais no mar que em terra firme; viajando, como marinheiro que sou. Mas, não é esse o motivo. Tampouco são problemas familiares ou, sequer, por não possuir uma casa minha de fato. É uma coisa maior; um sentimento de incompletude, tão velho quanto eu, em meus vinte e quatro anos.

Desolado, sento-me na cama, desistindo das vãs tentativas de lutar em favor do sono. Não entendo por que estou, mais uma vez, a debater esse gasto assunto comigo mesmo. Esses pensamentos estão sempre indo e vindo, como eu e este navio. Não quero pensar sobre eles e ao mesmo tempo, não sei como fugir dessas idéias que sempre me perturbam.

Impaciente, me levanto, notando o cansado ressonar de meus colegas adormecidos. Gosto daqui, como já gostei de muitos lugares onde morei. Sei que o problema também não é este. Igualmente, não são as pessoas. Pois, existem poucas, porém suficientes, tão importantes para mim como sou para elas. É algo mais intrínseco, sempre existente, primevo junto a meu ser, impedindo que eu me sinta em casa.

O mais perto que cheguei foram momentos. Especiais, únicos, ínfimos infinitos... nos quais, o que senti deve se parecer com a sensação descrita, em lugar-comum, como lar. Se é que eu sei qual o sentimento que essa palavra realmente evoca.

No fundo de meu pequeno armário repousa a caixa simples, preta, levemente acetinada. Levo-a comigo, deixando para trás o cansaço que me acomete de um turno longo, que terminou há pouco tempo. Nem mesmo o total esgotamento seria capaz de me fazer pregar os olhos neste resto de madrugada.

Subo as escadas metálicas, sentindo-me aconchegado pelo silêncio quase opressor, requebrado pelo bater de água no casco. As pessoas estranham como sou capaz de ser silente até em movimentos, mas não há esforço algum nos meus atos para tal; é uma conseqüência, como se o silêncio fizesse parte de mim.

No convés, a área de observação da proa - em seus momentos solitários - é meu recanto, onde posso tocar em tranqüilidade. No qual, dias atrás fui surpreendido por encontrar um fantasma louro, no meio da densa madrugada negra, tocando um violino com tanta suavidade e tristeza que saudou minha alma.

Ele não está aqui agora; nem é a escuridão que envolve o local. O céu está cinzento; as dispersas estrelas, ofuscadas pelo prenúncio de claridade que o sol em breve trará.

Retiro minha flauta da caixa, deixando a última mais uma vez abandonada sobre as espreguiçadeiras, como espectadora dessa entre tantas músicas que já toquei só. O dourado da flauta brilha destoando do céu fundo de tons mortos, como se apenas ela possuísse vida neste instante, ou, mais ainda, como se apenas ela fosse capaz de dar vida a esse ambiente, como é capaz de dar a mim.

Apoio os braços na amurada sem saber por onde começar. Sinto-me nesse mundo como minha flauta é neste ambiente sem cor: destoante e incabível, singular e incompreensível...

Vêem-me como introvertido, taciturno, calado, e por isso muitas vezes sou tomado por soberbo. E não que eu seja falante e os outros estejam errados... apenas, falo quando falo, sinto quando sinto, sou o que sou. Porém, o primeiro é o Eu que as pessoas vêem, que querem ver; não o verdadeiro. São poucos aqueles que, além de mim, podem e se importam em realmente me conhecer. Ver o conflito constante, as dúvidas, as incessantes perguntas e confusões que pairam dentro do meu ser. É como uma torturante tempestade íntima. Tão forte, que forma um vácuo, um obstáculo de diferenciação entre o interno e o externo; fazendo, por fora, de minha pessoa uma calmaria excessiva, pois toda a tormenta está firmemente encerrada dentro de mim.

Eu nunca soube lidar com isso, ou simplesmente nunca o quis.

O que faço é deixar a vida me levar, junto com esse ou com outros navios, por esse ou por outros mares, para qualquer lugar, de qualquer lugar...

Levo a flauta aos lábios, mas simplesmente não consigo me decidir o que tocar. Meu olhar obscuro e esverdeado busca incessante pelo horizonte leste, sutilmente mais claro que o resto da abóbada celeste, porém ainda coberto de um cinza funesto - cor da minha alma enlaçada com maltrapilhos pensamentos sobre minha marginalidade neste mundo. Indeciso, encho os pulmões e seguro o ar com dor e firmeza; procurando pela harmonia desta manhã e não há nada além dessas malfadadas artimanhas mentais...

Afasto o metal, agora morno, dos lábios, deixando o ar escorrer pesado entre eles, esvaziando meu peito na esperança de me esvaziar, também, desse sentimento margeador.

O sol estende seus primeiros dedos avermelhados sobre o horizonte, anilando o céu mais acima, o exato instante em que sou surpreendido pelo som do violino. [&~ Notas firmes e agudas, que me fazem virar de encontro ao fantasma louro, encarnado nessa alvorada, extraindo hoje compassos vivos. Seus olhos claros se abrem em meio a um longo agudo, mostrando o brilho de um vivace espanhol.

Suas cordas silenciam... e a flauta encontra meus lábios. Metálicos arpejos trazem das cinzas a música resoluta. O delicado arco volta a tocar as cordas, criando sons de intrínseca melancolia, chorosos, tão violino característico. Contudo, seguem acordes de longas notas encaixados, criando um som de esperança no ar. Sutil e suave, exatamente como sua pessoa, que parece querer mostrar mais que isso. Como o Sol colore em quentes laranjas e estrondosos vermelhos o horizonte, suas notas precisas e cheias de uma sensação forte enchem o convés. Este que outra noite parecia com um palco de um teatro fino, agora mais parece um ringue de duelo onde não há vencedores, apenas pintores dessa aurora que desponta sobre nossas cabeças, recebida pelo fervor de nossa música.

Ele me desafia com um acorde longo e agudo, o qual aceito sem hesitar, sobrepondo minha nota a dele, tomando para mim a música. Os sons que produzo são rápidos e ledos. Como se expulsassem o ar de meu peito, revoltam-se no ar, transformando-se no canto de um pássaro robusto espiralando em graves e agudos ao nosso redor; preenchem o horizonte com mais cores e o anil com mais azuis, tornando esse alvorecer a partitura de uma pintura.

Seu olhar volta-se para o céu e há um contentamento pregado em seu rosto. Ele retoma sua parte da música, transformando um pouco da altivez em calor, como a lava que escorre pelas bordas de um vulcão: atordoante e quente. Há uma ligação tão intrínseca, que ele pausa e eu toco grave e forte, em um sopro longo e contínuo como os uivos de ventania, sendo sobreposto pela continuação de seu acorde; que conjunto com minha flauta desfaz o redemoinho em tempestade de música repentinamente.

Terminamos; ~&] estou ofegante, enquanto ele parece trêmulo. Nossos olhares se cruzam e sei que estou plácido, talvez um tanto surpreso, e apenas isso - apesar do turbilhão de sentimentos internos. Mas ele simplesmente nada fala, nem parece tirar alguma conclusão. Se sou um silêncio misterioso, ele é uma polida gentileza. No entanto, não é isso que vemos. Ele está perto e me olha; seu olhar é azul. Uma miríade de tons azuis entrepostos. Sério, ele me olha de um jeito inexplicável, profundo, e sei que ele me viu, o Eu de dentro. E estático, fico congelado, preso e entorpecido; apenas percebo que ele sorri, pois não consigo despreender-me de seus olhos de abismo oceâneo. Ele pisca e o momento se desfaz, com o olhar de uma claridade brilhante ele se afasta suavemente, deixando o convés a passos lentos e rápidos um tanto indecisos. Olha para trás assentindo, seus lábios se movem, e sei que ele disse alguma coisa, e ainda que escute sua voz, não sou capaz de entendê-lo.

Então eu fico só. Recostado contra a amurada, em meio à manhã que já encetou e a aurora que, iniciada pela nossa música, terminou também com ela, nos poucos mais de dois minutos passados e inesquecíveis de cores, sons e sentimentos.

Em seu olhar havia uma chama, o fogo de uma personalidade escondida, tanto quanto a minha. Também sou capaz de ver seu próprio Eu muito mais que o cortês empresário.

Se não sou feito para esse mundo... então não sou único.

Agora a superfície marítima é desenhada por dourados filetes trêmulos, infinitos, rebrilhando firmes, enquanto o áureo disco solar se levanta majestoso no horizonte oceânico. Do outro lado deste barco, está a terra, o continente; alguns dias para rever minha família, amigos, descansar, divertir-me.

Para então, voltar ao meu lar, que não é esse navio e tão pouco qualquer espaço físico, e sim esse contínuo e incessante buscar... Por alguma coisa que não sei o que é; e por esse motivo, jamais hei de encontrar. Entretanto, há neste mundo um lugar que sei não ser o único acometido por essas máscaras de vácuo superficiais. Esse local não passa de um momento efêmero, no qual podemos tornar todo o fogo e tempestade íntimos em arte, em música, em vida...

Esse momento é o meu verdadeiro lar.


Diana C. Figueiredo

(Diana Lua)

Escrito: 04/03 e 13/05/2007
Ultima alteração: 22/05/2007
Revisado por: Illyana Paula, Lídia Paula e Maria Angela
Contém 1507 palavras, 7312 caracteres, 8803 toques, 27 parágrafos e 123 linhas.

A música Storm and Fire foi composta por Yuki Kajiura (1965 - ).
A versão utilizada para a produção deste texto pertence à trilha sonora da série de animação japonesa Tsubasa: Reservoir Chronicle, conduzida por Yuki Kajiura.

As marcas [&~ e ~&] indicam, respectivamente, inicio e fim da música referida acima. Se ela for iniciada na marca, a leitura em voz alta do texto deverá (aproximadamente) se encaixar com a melodia.