Disclaimer: Saint Seiya não me pertence, se fosse assim eu mataria o Seiya! Enfim, tudo que todo mundo já sabe... Essa fic não tem nenhum fim lucrativo, apenas escrevi por diversão.
Contém yaoi (relacionamento entre homens).
Boa leitura.
Capítulo 9: Entendendo-se com o Mal-entendido
Afrodite sentou-se em seu sofá com um livro nas mãos. Pretendia passar o resto da vida lendo, nada mais importava agora. Não sairia de sua casa nunca mais. Já que Atena não precisava de guardiões, não sentiria sua falta. E ele certamente não sentiria falta da Deusa ou de seus amigos. Não precisava de ninguém para viver em paz, apenas de um bom livro.
Ele abriu o romance na página marcada e leu o primeiro parágrafo sem prestar nenhuma atenção nas palavras. Antes de passar ao parágrafo seguinte, Peixes balançou a cabeça se livrando de seus devaneios e releu o anterior. As letras pareciam embaralhadas na página, não faziam nenhum sentido para ele. Que livro estava lendo afinal? Não conseguia se lembrar da estória, apesar de ter lido o capítulo anterior na noite passada. Não era um bom sinal.
– Acho que estou ficando disléxico – disse resignado, jogando o livro na mesa de centro. Afrodite esticou-se no sofá e encarou o teto franzindo a testa. – Disléxico depois dos vinte anos? Isso não é possível.
O sueco sentou-se novamente, buscando seu livro. Abriu-o novamente e encarou a página, pensativo. As palavras estavam lá, bem paradas no papel, nem um pouco embaralhadas. Mesmo assim, ainda não fazia sentido ler. Afrodite, então, decidiu-se que aquele livro não era bom. Jogou o objeto de volta à mesa e levantou-se indo até a cozinha. Procurou por algo na geladeira, mas não achou nada de bom. Abriu o congelador, buscou por alguns segundos e retirou um pote de sorvete.
– Ótimo! Tudo o que preciso é de açúcar.
Peixes se sentou no sofá e ligou a televisão, comendo o sorvete diretamente do pote, enquanto assistia a um filme romântico qualquer. Após dez minutos de filme, o sueco desligou o aparelho com raiva, enfiando uma colherada enorme de sorvete na boca. Seus olhos estavam úmidos e ele lutava intensamente com as lágrimas que se acumulavam sem trégua.
– Mas que inferno! – Gritou para si mesmo.
Afrodite continuou a comer como se sentisse raiva do sorvete. Enxugava os olhos com as costas da mão vez por outra e resmungava muito entre as colheradas. Mas seus pensamentos felizes foram interrompidos por um cosmo que adentrava sua casa. O pisciano jogou seu sorvete no congelador e desceu correndo as escadas antes que o visitando colocasse um pé na entrada.
– O que você quer? – Perguntou sério, tentando soar ameaçador, mas não se saindo muito bem.
– Vou falar com Atena, ou é proibido?
O sueco inflou o peito com mágoa e cruzou os braços desviando os olhos. Depois da pequena briga – que era até bastante comum – Máscara da Morte ainda tinha a coragem de aparecer ali dizendo que iria até Atena?
– Depende. O que você quer com ela?
– Como se isso fosse da sua conta, Peixes!
Máscara da Morte passou pelo guardião da casa sem esperar uma reação, mas nem dois passos tinha dado e Afrodite estava parado a sua frente com uma expressão de fúria no rosto. O italiano colocou as mãos na cintura e bufou esperando um chilique ou coisa parecida. Mas Afrodite apenas descruzou os braços imitando a pose que o outro cavaleiro fazia e disse:
– É da minha conta, desde o momento que você está passando pela minha casa, Câncer.
– Olha aqui, Peixes, para falar com Saori eu tenho que passar pela sua casa. Além do mais, não sei se reparou, mas os tempos de guerra ficaram para trás.
– E isso muda algo?
– Sim! Muda bastante! Deixe-me passar!
Mas Afrodite não se moveu. De todas as brigas que tivera com aquele cavaleiro, nenhuma o fizera sentir-se magoado. Naquele dia, contudo, o sueco estava mais sensível, – depois do esclarecimento de Shura a respeito de seu repentino interesse por outro cavaleiro – sentindo-se deprimido. Não queria admitir, mas odiava ficar muito tempo brigado com o canceriano.
Máscara da Morte, por outro lado já se acostumara com as mágoas provindas do cavaleiro da última casa. Ele nem mesmo se importava mais com aquilo. Todo dia Afrodita achava um motivo para brigarem e quase sempre voltavam a se falar em questão de poucos minutos, como se nada tivesse acontecido. Naquele dia, contudo, havia algo diferente nos olhos de Peixes.
– Afrodite, – ele começou, aproximando um pouco o rosto do outro – você estava chorando?
– Eu? Claro que não! – O sueco se afastou rápido e desviou os olhos, se culpando instantaneamente.
– Então por que os olhos vermelhos? Andou fumando alguma erva ilícita?
Câncer riu de sua piada, mas calou-se de imediato quando viu a reação que provocara no outro cavaleiro. Ao invés de irritado com a brincadeira, Afrodite havia se virado, andando com passos lentos e pesados até a escada que levava ao andar superior. O italiano sentiu-se confuso com aquela mudança de comportamento. Normalmente veria o pisciano gritar e dizer palavrões, mas não era o que acontecia.
Então, seguiu Afrodite escada acima. A porta fora deixada aberta, de modo que Máscara da Morte entrou sem ser convidado e andou pela casa procurando o dono dela. A porta do quarto de Peixes era a única fechada, portanto, só podia ser aonde ele se escondia.
– Afrodite?
Máscara da Morte entrou mesmo sem resposta e encontrou o pisciano deitado em posição fetal, abraçando com força um travesseiro. Sua reação era preocupante, mas não mais do que o olhar vazio que ele lançava ao quarto. Parecia que estava deprimido.
– Afrodite, o que aconteceu? – Perguntou sentando-se na cama larga de casal. O pisciano não se moveu ou emitiu som. Câncer insistiu: – Afrodite, você está me assustando. Por que está deprimido? Ficou chateado com o que eu disse? Foi só uma brincadeira.
Peixes largou o travesseiro e se virou na cama, ficando de barriga para cima. Encarou o outro cavaleiro por alguns segundos, sentindo seus olhos se encherem novamente.
– Não ligo para suas brincadeiras.
– Então o que é?
Afrodite pensou por alguns instantes. Se havia um bom motivo para estar deprimido, este motivo era ele próprio. Todos os outros cavaleiros dourados estavam seguindo adiante. Até Kamus seguiria adiante e o pisciano sabia disso, não precisava ver o futuro. Aioria e Mu brigavam, mas se amavam no fundo. Shaka e Ikki conseguiram permissão da Deusa para ficarem juntos no Santuário. E Shura agora. Shura gostava de outro cavaleiro, mesmo que não fosse uma paixão convencional se tratando do espanhol – mas bem, quem ali era convencional?
Nada estava certo. Há dois anos o sueco procurava um sentindo nas mais diferentes pessoas que encontrava no Santuário. Nunca encontrara nada e nem ninguém que valesse a pena. Contudo, sempre tinha Máscara da Morte fazendo brincadeiras maliciosas, sendo até sincero. Embora não dissesse, gostava daquelas brincadeiras e até das ridículas brigas que tinham. Às vezes eram a única coisa que o impediam de fugir do Santuário para sempre.
Peixes suspirou e sentou-se na cama. Máscara da Morte era realmente a única coisa que o impedia de virar as costas para sua antiga vida de cavaleiro. Nem mesmo Saori o faria mudar de idéia se quisesse sumir no planeta. Mas com o italiano seria diferente, sempre soube que seria.
– Olha, Máscara... Eu não te odeio. – Câncer franziu a testa preocupado com o início daquele discurso, mas ficou calado ouvindo. – Eu não fiquei com você daquela vez por achar que íamos morrer. Quero dizer, em parte até foi. Mas havia muito mais por trás disso.
Câncer soltou o ar de uma vez, recuperando o fôlego depressa. Seus olhos se apertaram encarando Afrodite em busca de um sentido nas coisas que aconteciam.
– O que está dizendo?
– Hoje, depois do que Shura me disse – Afrodite fez uma longa pausa, interessado em suas mãos, que retorciam a bainha de sua túnica. – Olha, Máscara, o Shura me fez pensar sobre essas coisas de estar com alguém ou não. Por vezes eu desejei sumir do Santuário, durante esses dois anos. Eu nunca tive coragem, porque toda vez que pensava em arrumar as malas você aparecia e me fazia esquecer essa insanidade. Eu gosto de você. Gosto muito. – Peixes deixou que seu sussurro se perdesse no ar e abraçou os joelhos com força.
– Não entendo, Afrodite. Você sempre me repeliu. Achei que era só um jogo para você e eu nunca fiz objeção, pois sei que você é um cabeça dura.
Afrodite riu melancólico. Ele tinha mesmo uma cabeça dura. Mas Máscara da Morte nunca fizera parte de um jogo para ele.
– Não era um jogo. Bem, acabou se tornando, mas não porque eu quis. Eu gosto de você, mas há coisas demais entre nós, que me fazem pensar. Eu fui um pouco egoísta. Sempre achei que você não era bom o bastante para estar comigo. – O sueco levantou a cabeça e encarou o outro cavaleiro, que ainda exibia uma expressão preocupada no rosto. – Eu errei. Perdoe-me. Você é bom o bastante para mim, eu é que não sou bom o bastante para você.
Câncer riu e sentou-se no meio da cama, colocando um braço pelos ombros do sueco.
– Peixes, você é maluco mesmo. O que quer dizer com isso? Você se achava bom demais para mim e hoje percebeu que não era? Simples assim?
– Não. Não simples assim. Há coisas em você que não combinam nada comigo. Por isso eu me achava bom demais.
– E que coisas? – Perguntou o italiano preocupado.
– Máscara, olhe para você! – O canceriano olhou para si mesmo, sem entender e o sueco puxou seu rosto de volta, olhando-o nos olhos. – Somos completamente diferentes. Você tem todo esse jeito de homem, enquanto eu sou todo delicado. Você não fala com ninguém e eu sou extrovertido até demais. Você ainda treina todos os dias, mantém-se ocupado, enquanto eu não faço absolutamente nada. Além do mais, eu tenho verdadeiro horror de entrar na sua casa com aquele monte de cabeças horríveis por lá!
Máscara da Morte bufou e revirou os olhos. Nunca havia parado para pensar naquelas coisas. Afrodite era doido de pedra se achava que aquelas pequenas diferenças fariam importância. Quanto a sua casa, porém, ele tinha toda razão. Aquelas cabeças apodrecidas davam um ar aterrorizante ao templo de Câncer.
– Tudo bem, você é mais desajustado do que eu imaginava. – Afrodite fechou a cara, mas antes que pudesse falar, Máscara da Morte continuou: – O fato de você ser delicado e eu não, ou de você falar demais, não tem absolutamente nenhuma importância. Se eu quisesse alguém como eu, estaria no fundo de um lago, como Narciso. Quanto a você não fazer nada, é uma escolha sua, eu não tenho nada a ver com ela. Agora, você tem razão sobre uma coisa.
– É mesmo? Já estava desanimado com tantos erros cometidos.
Câncer fingiu achar graça, o que deixou Afrodite mais animado. Realmente não fazia diferença se um era delicado e o outro não, os opostos se atraem. E pensando bem agora, o pisciano reparava que o outro cavaleiro tinha tudo o que mais gostava em alguém. Ele era forte, moreno, com olhos profundos e aquele sorriso torto lindo.
– Bem, sobre o que eu tenho razão?
– Sobre minha casa. Ela não é realmente agradável. Percebi isso quando voltei do inferno, mas nunca achei que ela incomodasse mais alguém, afinal, você não é obrigada a morar nela.
– Então por que não se livra de todas aquelas cabeças horríveis? Saga as mandaria para outra dimensão com prazer!
– Não sei. Sempre pensei eram troféus e que não seria de bom tom apenas jogá-las no lixo. Não são roupas usadas, sabe?
– São crânios! – Afrodite fez uma expressão de asco, fazendo Máscara da Morte rir.
– Eu sei. Bem, talvez eu fale com Kanon ou Saga.
Afrodite sorriu e viu com alegria que Câncer dava aquele sorriso torto que tanto gostava de ver. Ele era realmente perfeito. Como pudera não se dar conta durante tanto tempo?
– Seria ótimo, Máscara.
– Sim. Então, é só isso que o incomoda em relação a mim? Porque se houver mais alguma coisa que seja capaz de me impedir de te agarrar agora... É bom você dizer.
O rosto do sueco se enrubesceu. Máscara da Morte alisou sua face com tanta delicadeza que nem parecia ele mesmo. Mas Afrodite se rendeu e o beijou com carinho, sentindo seu coração pulsar com intensidade em seu peito. Após alguns momentos perdendo o fôlego, o sueco se afastou e recostou a cabeça no ombro do outro.
– Há uma coisa ainda. Uma coisa que realmente me desagrada.
– O que é?
– Seu nome. Odeio não saber seu nome e chamá-lo por esse apelido macabro.
– Entendo. – Câncer disse. – Uma vez me fizeram acreditar que nossos nomes têm poder sobre nós. Sendo assim, deixar que soubessem meu nome faria com que as pessoas tivessem poder sobre mim. Depois de um tempo, acabei me acostumando a isso.
– Ah, sim, faz algum sentido.
Máscara da Morte coçou a cabeça. Nunca haviam lhe perguntado sobre seu nome daquela forma. Nem imaginava que aquilo podia incomodar tanto Afrodite, a ponto de fazê-lo se afastar daquela forma. Também nunca pensara na possibilidade de contar a alguém seu nome, todavia, agora estava inclinado a isso. Não se importava em dizer a Afrodite, na verdade, queria que o pisciano tivesse poder sobre si.
– Eu conto a você. Mas terá que guardar segredo e só pronunciá-lo quando estivermos sós.
Afrodite ergueu a cabeça com choque estampado no rosto. Afirmou veemente, concordando com a condição. Câncer inclinou-se e sussurrou em seu ouvido. O sueco sorriu extasiado, puxando-o para um beijo rápido.
– Combina com o seu eu real, diferente daquele cavaleiro que pendurou um monte de cabeça nas paredes.
– Então, agora você não me odeia mais?
– Não. Nunca te odiei. Só que agora eu percebo que você é perfeito para mim.
O canceriano sorriu e beijou-o na testa. Jamais pensara que uma coisa simples como um nome poderia mudar sua vida.
Continua...
OoOoO
No próximo capitulo: Aioros sente-se sozinho e tem uma idéia genial para fazer Saga ficar mais tempo com ele e menos tempo como Grande Mestre. Capítulo 10: Que Atena se Vire.
Nota da autora: não morri, apenas mudei o ritmo da minha vida. Espero que ainda haja alguém querendo ler o resto dessa fic.
