Capítulo II

Quase sem ar e completamente perdida, Bella deixou-se cair no meio do campo dourado que mal enxergava. Como iria encontrar o caminho de volta para a choupana se não enxergava um palmo à frente do nariz?

O guerreiro canteran logo descobriria que ela havia escapado. Ergueu o rosto para o céu e fechou os olhos. De braços abertos, as palmas das mãos voltadas para o sol.

— Grande Deusa, eu imploro que me guie até a minha casa! Passou a entoar o canto de súplica que sua mãe lhe ensinara havia tantas estações.

— Isabella!

O canteran estava próximo e à procura dela!

— Isabella! Não tenho tempo para brincadeiras!

Seria mais seguro permanecer abaixada no meio do campo de aveia, rezando para que o bruto não a encontrasse, ou correr?

O guerreiro decidiu por ela, os passos pesados soando próxi mos. Num impulso, Bella se pôs de joelhos e arrastou-se o mais rápido que podia entre os caules cortantes, afastando-se da voz.

Um uivo se fez ouvir da montanha e ecoou pelo campo. O coração dela deu um salto. Lobo! Ele a havia encontrado! Levan tou-se e aguçou os ouvidos.

Lobo estava em algum lugar bem à sua frente, longe do sol que se punha e do canteran. Correu. Com o coração batendo furiosa mente, atravessou os campos dourados.

— Obrigada, Grande Mãe... Obrigada! Obrigada!

— Bella! Pare!

Ela continuou a correr às cegas, em direção ao seu salvador... seu bicho de estimação. Ele a guiaria de volta para casa.

— Bella!

Edward pôs-se a correr também. Santo Deus! Ela não estava escutando o maldito lobo? Não podia vê-lo caminhando de um lado para outro, impaciente, a menos de cem metros?

Se não a alcançasse a tempo, Bella iria acabar nas garras daquela besta selvagem...

Estava a poucos passos de alcançá-la, quando ela deu um grito e desapareceu.

— Mas que... — Edward não podia acreditar nos próprios olhos. Esquecendo-se do lobo, ele continuou correndo e quase caiu numa vala. Jogou os braços para trás, equilibrando-se, e fitou o buraco, abismado. Avistou Bella logo abaixo, a cerca de um metro, arfan do, braços e pernas esparramados contra o rochedo que ficava acima do leito seco de um rio forrado de pedras pontiagudas.

Edward jogou-se no chão e estendeu o braço.

— Segure-se em mim!

Para seu espanto, ela balançou a cabeça, apavorada.

— Não posso!

— Claro que pode! Solte a pedra e agarre o meu braço!

— Não consigo vê-lo... Há poeira nos meus olhos!

Edward praguejou. Retirou a manta xadrez que lhe cobria os ombros, fez um nó em uma das pontas e baixou-a pela ribanceira.

— Segure a manta e eu a puxarei!

Bella ergueu uma das mãos acima da cabeça, mas não encontrou

nada.

— Não consigo ver!

— Ah, Senhor... — Edward estirou mais o corpo, de maneira que o tecido pudesse tocá-la. — Segure, mulher, antes que eu acabe caindo também!

Num esforço, Bella conseguiu fazer o que ele pedia e deixou-se puxar, agradecida. Ficou em pé sobre uma saliência na rocha, e ele a agarrou por um dos pulsos.

— Bella, agora solte a manta e agarre-se à minha mão!

— Não, eu...

—Depressa! — Ela continuava em perigo. A ponta do rochedo sob seus pés cedia a cada movimento. — Pelo amor de...

O relinchar agudo de Rampante fez Edward levantar a cabeça. Nuvens de poeira erguiam-se ao longo da estrada.

Os Newton! Maldição!

Cerrando os dentes, ele soltou a manta xadrez e agarrou Bella pelo braço com ambas as mãos. Com um só puxão, trouxe-a para cima. De olho nos homens que se aproximavam, praguejou baixi nho e desembainhou a espada, ao mesmo tempo em que soltava um longo assobio. Rampante foi se aproximando a galope pelo campo de aveia. Tão logo o animal estacou na frente deles, Edward ergueu Bella e, num movimento rápido, colocou-a sobre a sela, montando em seguida. Bateu as esporas no flanco do garanhão, que disparou em direção ao norte.

Bella gritou. Agarrou-se à sela com uma das mãos e ao braço do canteran com a outra, rezando como jamais fizera antes. O sangue martelava-lhe os ouvidos impedindo-a de, ao menos, es cutar aquele mundo borrado e sem formas.

Quase sem visão, não costumava nem mesmo correr, temendo trombar com alguma coisa ou cair... E ali estava, presa a um ga ranhão desembestado!

Grande Deusa, ajude-me!

Para onde estavam indo? Estaria se distanciando ainda mais de casa? E quanto a Lobo? Conseguiria acompanhá-los?

Gritou, quando a sensação de estar caindo atingiu-lhe o estô mago. O braço do canteran se fechou em torno dela no exato mo mento em que seu corpo era jogado "para a frente e para trás. O cavalo atravessou um rio pedregoso, e a água gelada encharcou-lhe os pés.

— Bom rapaz... — murmurou o homem às suas costas, depois estalou a língua, incitando o animal a subir uma ribanceira, o que a fez chacoalhar contra ele.

Depois do que pareceu uma vida, o canteran gritou:

— Ooooah!

E o cavalo diminuiu para um trote.

— Agora estamos a salvo.

— A salvo do quê? — Seu raptor era completamente insano!

— De Newton, menina! Não o viu? Ele e uma dúzia de ho mens, os rostos vermelhos de fúria? — Riu, incrédulo.

— Onde estamos?

— No território dos Fraiser. Não são exatamente amigos dos Cullen, mas também são inimigos dos Newton. Por isso é bom que aqueles imbecis desistam de nos perseguir.

— Território dos Fraiser? — Aquilo não era bom. Bella não conhecia nenhum Fraiser. Cheirou o ar. O que era aquilo? Estava fresco e a fazia sentir mais sede ainda. Algo branco voou acima da cabeça dela com um grito estridente. Bella gritou também e se encolheu.

— Não se assuste, as gaivotas não vão lhe fazer mal. Só estão procurando alimento. — Edward afastou os cabelos escuros dos olhos dela. — Nunca viu uma gaivota?

— Não. — Também não conseguia vê-las agora. Só enxergava borrões brancos rodopiando no céu.

— Elas vêm do mar, em busca de água fresca.

— Quero ir para casa.

— Eu a levaria com prazer, mas não tenho tempo. Preciso che gar logo ao castelo de Beal. — Edward apontou adiante. — Vamos passar a noite ali. Não pode enxergar daqui, mas há uma caverna perto do riacho.

Enquanto o cavalo trotava à beira do lago, Bella se deu conta do modo como as coxas do canteran envolviam as dela, do calor da mão dele sobre seu estômago, do ar quente que exalava em sua nuca. E tal consciência começou a despertar sensações muito pa recidas com as que tivera ao despertar do sonho, naquela manhã.

— Se me deixar ir, não direi uma palavra aos Newton, pro meto. — Até porque, pensou, ela sempre os evitara. — Por favor, eu posso encontrar o caminho de volta sozinha!

Ele riu.

— Duvido, moça. Estamos muito distantes de onde eu a en contrei.

Inquieta, Bella examinou o céu. Começava a se tingir de rosa. Logo o sol se recolheria por detrás das montanhas e o mundo voltaria a mergulhar nas sombras. Não teria como discernir uma coisa da outra; um chão firme de um penhasco. Estaria presa em qualquer lugar a que ele a levasse, sem esperança de escapar até que o sol nascesse outra vez... o que só aconteceria, com certeza, se sobrevivesse àquela noite.

O cavalo parou e o canteran desmontou, fazendo com que suas costas suadas ficassem à mercê da brisa fria. Ela estremeceu. Sem dizer nada, o homem a tirou de cima do cavalo, segurando-a diante de si por um momento. Bella pôde, então, observá-lo mais de perto. Acima dos olhos, tão verdes quanto o céu de verão, havia uma ci catriz profunda no formato e tamanho da garra de um falcão.

— AH, atrás do penedo, vai encontrar a entrada para a caverna. O olhar dela seguiu para onde ele apontava, porém mal podia enxergar a extremidade do longo braço. Teria de adivinhar a direção certa.

— Vá. Eu me juntarei a você em breve. Veja se encontra um lugar para uma fogueira.

Seria capaz de fazer o que ele pedia? Tudo estava imerso em sombras. Conseguia escutar um barulho de água correndo, caindo com força, à sua frente e à direita. Podia até mesmo senti-la espir rando em seu rosto. E se caísse na cascata?

— Não posso acender o fogo sem uma pederneira.

— Já vou levá-la. Preciso cuidar do cavalo antes. Insegura, Bella deu um passo. Depois outro, aliviada ao perce ber que pisava em terra firme.

— Pelo amor de Deus, menina, desse jeito só vai chegar lá amanhã!

No instante seguinte, ele a segurava pelo cotovelo para guiá-la através do riacho borbulhante. Bella tropeçou e quase caiu, obri gando-o a ampará-la. Mortificada, estendeu o braço em busca de equilíbrio e encontrou uma pedra cujo tamanho a surpreendeu. Devia ser mesmo uma queda d'água. Quis explorar a rocha melhor, de modo que pudesse reconhecê-la caso passasse por ali outra vez, mas foi puxada sem piedade.

— Continue andando!

Começou a tremer. A água gelada ensopara-lhe as saias. De súbito, a escuridão era total

— Onde estou?

— Na caverna, ora. Nunca entrou em uma antes?

Bella negou com um movimento de cabeça, os olhos arregala dos. Sentiu um odor de cinzas e enrijeceu. O homem havia dito que fariam uma fogueira... Pretendia queimá-la viva? Oh, Grande Mãe!

Percebeu que ele se aproximava e soltou um grito.

— Calma! — Edward bufou, exasperado. — Vista isto. Empurrou-lhe algo contra o peito. Era a manta que ele usara para salvá-la na ribanceira. Ela cobriu os ombros, necessitando mais de proteção do que de calor.

— O que vamos comer?

— O que eu conseguir pegar.

— Conte-me a respeito desse castelo de Beal... — Bella pediu, temendo o silêncio. — É muito grande? Por que estamos indo para lá? — Diga alguma coisa, canteran, para que eu possa saber o que pretende! — Onde fica? Para o norte ou para o sul?

Edward respirou fundo. Por que ela estava tão assustada? Ele ja não havia salvado sua vida? Não a protegera dos Newton. Não tinha feito nada... exceto atingi-la com o punhal. Mas, por isso, já se desculpara. Aliás, já não examinava o ferimento havia algumas horas. Estaria infeccionando? Seria por isso que Bella tremia tanto? Precisava checar tão logo conseguisse acender a fogueira.

— Não tema, moça. Prometo que não vou lhe fazer mal nenhum — repetiu, tentando acalmá-la.

Para sua agonia, ela recomeçou a falar:

— Vamos encontrar alguém no castelo? Por isso está com tanta pressa?

Edward desejou que Bella adormecesse de uma vez. Ao menos teria um pouco de sossego. Olhou ao redor e logo avistou alguns gravetos, na certa utilizados pelo último viajante. Jogou-os sobre as cinzas da fogueira extinta e abriu a bolsa de couro em busca da pederneira.

Demorou algum tempo até que a luz tímida e avermelhada do fogo iluminasse a caverna. Quando ergueu a cabeça, deparou-se com Bella recostada na parede de pedra, a cabeça pendendo leve mente para o lado.

Estalou a língua. Não podia deixá-la dormindo ali, daquele jeito, enquanto saia em busca do jantar. Ela iria acabar caindo e batendo a cabeça no afloramento de rochas.

Percebendo que Bella soltara a manta xadrez, retirou-a com cuidado e estendeu-a próxima ao fogo. Chamou por ela. Sem res posta, suspirou e ergueu-a nos braços. A pobre devia estar exausta por causa do medo ou da perda de sangue. Depositou-a diante da fogueira e cobríu-a com a manta. Sob a luz do fogo, estudou o rosto bonito. Santo Deus, Bella era linda! Pena não poder ficar com ela.

Após cuidar de Rampante, apanhar e limpar dois peixes, Edward improvisou dois espetos com galhos de árvore e retornou à caver na, onde encontrou Bella na mesma posição em que a deixara. Assou os peixes e só então tentou despertá-la. Ela resmungou al guma coisa e tornou a se enroscar na manta. Conformado, ele comeu um dos peixes e embrulhou o outro em palha de cana.

Usando a sela como travesseiro, acomodou-se no lado oposto ao de Bella. Observou-a, perguntando-se o que fazer com Isabella Swan.

Swan. Que tipo de nome era aquele, afinal? A ausência do "Mac" poderia significar que não pertencia a nenhuma tribo. Seria um novo clã? Era possível. Ultimamente havia mais clãs entre a fronteira e o mar do Norte do que sua espada podia dar conta.

Enquanto o fogo morria, Edward chegou à conclusão de que, por mais constrangedor que pudesse ser, acabaria levando Bella para o castelo de Beal. Não havia razão para que não pudesse cortejar uma futura esposa, casar-se e, ao mesmo tempo, dar um destino para aquela menina. Ele e sua esposa poderiam, então, seguir para a costa: para Drasmoor e Blackstone, onde reivindicaria as chaves de Donaliegh.

Satisfeito por ter um plano bem traçado, deu um longo bocejo. Só então se deu conta de que Bella tremia. Maldição! Havia es quecido de examinar o ferimento.

Rezando para que não estivesse com febre, ergueu-se e foi até ela. Tocou-lhe o rosto. Estava frio. Desceu para a curva do pescoço. Nada.

Precisaria ficar acordado a noite toda para alimentar o fogo.

Melhor seria aproximá-la do próprio corpo e mantê-la aquecida, enquanto ele próprio usufruía um bom e merecido descanso.

Optou pela última alternativa. Afinal, teriam um longo caminho a percorrer no dia seguinte.

Ergueu a manta xadrez com cuidado, esticou-se atrás de Bella e apoiou a cabeça no braço. Chegou mais perto e a enlaçou pela cintura com cuidado, de modo a aconchegá-la contra o peito.

Um segundo depois, percebeu o erro que havia cometido.

Bella ajustava-se a seus contornos como se houvesse sido feita para ele. Edward respirou fundo, enchendo os pulmões com o per fume que emanava dela, um misto de rosa-moscada e grama fresca. Cerrou o maxilar e tratou de afastar para trás os quadris. Como pudera imaginar que poderia deitar-se ao lado dela e dormir? E que tipo de animal era ele? A pobre estava ferida!

Deus Todo-Poderoso, rezou com fervor, faça com que eu não perca a cabeça!

Bella despertou assustada. Havia algo quente atrás dela, resso nando em seu ouvido. Não ousou se mover, temendo ser apanhada por garras afiadas, mas abriu os olhos devagar. Sentiu o coração disparar. Nenhum som, nenhum cheiro; nada lhe era familiar. Vislumbrou uma parede de água e então se lembrou da queda na ra vina, do medo, da balada louca sobre o lombo do cavalo através da floresta.

Era o canteran, concluiu, em pânico. Não tinha sido um pesa delo, afinal.

Com o coração aos saltos, olhou por cima do ombro devagar. Era Edward, e ele ainda dormia. Bella prendeu a respiração. O que poderia fazer? Conseguiria alcançar-lhe a espada e exigir que ele a levasse para casa? Ou devia simplesmente fugir enquanto tinha chance?

Após considerar as alternativas por um momento, teve a certeza de que nenhuma daria resultado. Ele era bem maior e mais rápido. Precisava fazer tudo em silêncio.

De posse da mesma confiança com a qual sempre se aventurara pelo território dos Newton, ergueu o pesado braço que a mantinha cativa pela cintura. Deslizou para longe feito uma cobra e se pôs de joelhos. Ergueu-se, então, e caminhou pé ante pé em direção à queda d'água. Ao se aproximar, sentiu a água gelada lhe cair sobre um ombro e abafou um grito. Aproveitou para beber o mais que podia, depois torceu as mãos, nervosa. O que faria agora? Era óbvio que não conseguiria sair dali sem a ajuda dele. Olhou para dentro da caverna e avistou um resto de luz avermelhada. Não tinha alternativa. Precisava voltar para o calor e para a companhia daquele estranho.

Agachou-se ao lado do fogo e viu a espinha de um peixe. Ao lado, uma palha enrolada. Apanhou-a com cuidado e trouxe-a para mais perto dos olhos. Peixe assado! Lançou um olhar desconfiado para o canteran adormecido e abocanhou a iguaria, faminta. Odia va admitir, mas era bom tê-lo por perto. Afinal, estava muito longe de casa, em território desconhecido, e precisava da visão dele para sobreviver. Como poderia encontrar o caminho de volta sozinha? Lobo ficara muito para trás.

Engolindo o último pedaço de carne branca, examinou os bor rões acinzentados e marrons do interior da caverna. Então voltou o olhar para Edward. Quem era aquele homem, afinal? Passara todo o dia anterior em sua companhia e tudo o que se lembrava era de seu tamanho, força e daqueles olhos verdes.

Contornou a fogueira devagar. Chegou perto o bastante para tocá-lo, mas não ousou fazer isso. Farejou o ar. Cheirava a pinho, fumaça e mais alguma coisa surpreendentemente agradável. Não saberia dizer o quê.

Curvou-se. Edward se livrara da malha de metal e agora usava apenas uma túnica de algodão e o kilt xadrez. Seu olhar desceu para os quadris estreitos. Por que ele não usava calças justas como os homens do vilarejo? Atenta, estudou as pernas musculosas. Notou o brilho prateado do punhal, o sgian dubh, por trás da tira de couro. Se tivesse um punhal daqueles, não estaria naquela situação!

Continuou a examiná-lo, os olhos pousando sobre o peito largo e musculoso. Era tão diferente dela! O queixo dele era escuro, pontilhado de pequenos fios negros.

Com mais coragem do que no princípio, pois o tal Edward dormia feito uma rocha, tocou uma mecha dos cabelos castanhos e semi-longos. Eram macios! E as sobrancelhas, bem-feitas, apesar da cicatriz. Tinha os cílios compridos, sombreando as faces morenas. O nariz estreito não era muito reto nem muito curvado. Bonito, concluiu.

Chegou ainda mais perto, e Edward prendeu a respiração. Acor dara havia muito tempo, assim que Bella despertara e percebera estar deitada a seu lado. Estivera pronto para apanhá-la, se ela tentasse fugir. Entretanto Bella apenas explorara o lugar e, depois de comer e beber, viera examiná-lo! Espiou-a com um só olho e precisou se conter para não rir diante do espanto do rosto bonito, que continuava se aproximando e recuando a cada descoberta. Qualquer um imaginaria que ela jamais estivera tão próxima de um homem, dada a maneira como lhe tocava os cabelos e estudava cada centímetro dele. Podia sentir-lhe a respiração morna e desejou intensamente saber o que Bella pensava. Mais do que nunca, quis sentir o gosto daquela boca na sua.

Os lábios dela tocaram os dele, por fim. Leves, feito asa de borboleta. Edward prendeu a respiração, perguntando-se o que Bella faria em seguida. Para seu profundo espanto, sentiu a língua úmida explorá-lo e deixou escapar um gemido.

Como se com vida própria, a mão dele deslizou para a nuca de Bella. Puxou-a para si, aprofundando o beijo. Ela soltou uma ex clamação abafada, ao mesmo tempo em que Edward exultava ao descobrir que Bella era mais doce e deliciosa do que jamais tinha imaginado em seus mais perturbadores sonhos.

Com o coração disparado e o sangue correndo mais rápido em suas veias, envolveu-a pela cintura. Antes que pudesse se deitar sobre ela, Bella o esmurrou no peito com ambas as mãos. Ator doado, ele abriu os olhos, e o pavor no semblante dela o fez liber tá-la no mesmo instante.

Bella ergueu-se de um salto, recuando com a mão sobre a boca. Frustrado, Edward se pôs de joelhos.

— Não fuja! Prometi que não lhe faria nenhum mal e sou um homem de palavra. — Apontou os restos do peixe. — Ainda está com fome?

Ela negou com um movimento de cabeça,

— Como está o ferimento?

— Bem. Não sangrei mais.

— Ótimo. Temos um longo caminho pela frente, se pretende mos chegar a Beal amanhã, ao entardecer.

Bella torceu as mãos, nervosa.

— Quero que me leve de volta para o vale.

— Compreendo, mas eu não posso fazer isso. — Newton estava louco para encontrá-lo e, mesmo que o bastardo não con seguisse isso, ele próprio não dispunha de tempo.

— Eu não quero ir a Beal. Todos têm medo de mim.

Edward ia perguntar por que, quando percebeu que ela tremia.

— Está com frio outra vez? — Retirou a manta xadrez do om bro. — Tome. Cubra-se.

Bella aceitou a oferta. Edward abriu a bolsa de couro e retirou o resto de cataplasma que a mulher lhe entregara no vilarejo.

— Vou sair um pouco. Assim terá privacidade para se cuidar. Com o gosto doce daqueles lábios ainda nos dele, a última coisa que podia agora era vê-la seminua. Virou-se para sair, mas os dedos dela se fecharam em seu braço. Fitou-o.

— Não vai embora sem mim, não é?

— Prometo que não.

Edward suspirou. Em menos de vinte e quatro horas ela tentara chutá-lo, fugir, beijá-lo, pedira para ser libertada e agora implorava para que não partisse sem ela! Mulheres... Jamais conseguiria en tendê-las. Outra razão para nunca ter desejado uma esposa.

Carregando a sela e a cota de malha, ele rumou em direção a Rampante.


Rezando para que não fosse abandonada naquela caverna úmida, Bella mordeu o lábio. O que não daria para poder perambular por ali como Edward...

E o que havia dado nela para colar a boca na dele daquela ma neira? Teria sido apenas para sentir seu gosto? Ou fora de novo a vontade? Estranho aquele calor que sentira descendo corpo abai xo... igual ao do sonho que havia tido. Ou até mais forte, mais violento.

Quando se afastara de Edward, as palavras da mãe dela ecoaram em sua mente. O desejo não faz bem, Bella. Confunde a mente e a faz perder a razão.

Puxou a tampa do pote de cataplasma e ergueu o vestido até a cintura. A ferida ardeu como uma queimadura. Aplicou a cataplas ma, tornou a enfaixar a cintura e ocupava-se com a manta, tentando arrumá-la em torno dos ombros, quando ouviu passos atrás de si. Virou-se e deparou-se com Edward.

Ele a segurou pela mão e guiou-a para fora da caverna, onde o sol brilhava. Fez um sinal para a direita.

— Ali atrás há um arbusto. Seja rápida.

Tratou de vestir a armadura e selou Rampante. De repente, ou viu um ruído e avistou Bella bem na beira da água mais agitada do riacho, lavando as mãos.

— Saia já daí! Não quero ter que pescar você se...

Tarde demais. A margem encharcada cedeu e Bella mergulhou com um grito.

Edward balançou a cabeça e se concentrou na própria tarefa. Decididamente, Bella Swan era a mulher mais propensa a aci dentes que ele já conhecera. Outro motivo para que a devolvesse a seu clã o quanto antes.