Capítulo III
Com o vestido encharcado, o corpo adormecido pelo frio e irritada demais para discutir, Bella cambaleou para fora da agua, ignorando a mão que Edward lhe estendia.
Tremendo dos pés à cabeça, virou-se para o sol e o sentiu bater em cheio nas pálpebras fechadas. Era bom. Quente. Grande Deusa Piedosa... Tenha pena de mim!
— Bella, você está bem? Olhe para mim.
Ela obedeceu e viu o rosto de Edward a apenas alguns centíme tros. Ele a fitava com atenção, os lindos olhos muito verdes pena que nao eram dela... Tinha tanta raiva dos próprios olhos.
Pudera vê-los uma vez, num daqueles vidros de se olhar, quando fora chamada a casa de um dos Newton. Nunca percebera até então, que os olhos dela diziam o quanto era diferente dos outros Newton, os poucos que conhecera, tinham olhos azul-escuros ou verdes. Os seus, maldição, eram da cor da neve à sombra por isso todos a temiam tanto. Ela mesma se assustara ao vê-los pela primeira vez. Então, como o canteran não tinha medo?
— Está congelando. Preciso fazer uma fogueira. Antes que Bella pudesse dizer que não havia necessidade Edward a puxou para um canteiro de grama onde o sol batia com mais intensidade. Abriu a bolsa de couro que havia sob a sela e retirou uma túnica verde-escura. Cansada demais para perguntar de quem era aquilo, ela aguardou em silêncio até que, para seu horror, ele começou a erguer-lhe as saias.
— Tire as mãos de mim! — protestou, estapeando-o no braço.
— Precisa se livrar dessas roupas encharcadas. Não pode ficar doente.
— Posso fazer isso sozinha! Vire-se!
Resmungando, Edward entregou-lhe a roupa e fez como ela pe dia. Bella livrou-se da veste molhada, não sem dificuldade, os den tes batendo de frio. Fitou as costas largas. Que audácia dele achar que podia despi-la assim, sem mais nem menos! Colocou a túnica o mais rápido que pôde. Ao ver que, apesar de deliciosamente macia, ela ficara muito larga e curta, sentiu-se mais ridícula do que nunca e ainda mais vulnerável.
Edward a observou pelo canto dos olhos, sem que Bella perce besse. Tinha a pele até azulada pelo frio. Assim que ela terminou de vestir o presente que ele guardara para sua futura esposa, voltou a encará-la.
— Está melhor assim?
Bella estreitou os olhos claros para fitá-lo, os lábios apertados numa linha fina.
Edward segurou o riso. Ela estava melhor, com certeza.
— Fique aí no sol. Vou ver se arranjo lenha para uma fogueira. Pouco depois, o fogo estalava ao lado deles. Edward colocou o vestido molhado sobre uma pedra. Observou Bella discretamente. A cor lhe voltara aos lábios e à face, e os cabelos longos e negros, estavam mais secos.
— Não está mais com frio?
Ela negou com um movimento de cabeça e ele se perguntou se poderia deixá-la por alguns momentos para arranjar comida.
— Como consegue viver sozinha na floresta dos Newton?
— Minha mãe morreu — Bella explicou, ajeitando a veste de veludo em torno do corpo.
— Não havia mais ninguém para cuidar de você?
— Não.
— Há quanto tempo foi isso?
— Há uns dez verões. Talvez um pouco mais.
Dez verões? Ela não havia entendido a pergunta.
— Sua mãe morreu quando você era criança?
— Quando eu era assim. — Segurou a mão a cerca de um metro do chão.
Não era possível. Bella não teria sobrevivido por conta própria por tanto tempo.
— Mas como se alimentava e se vestia sendo tão pequena?
— Minha mãe tinha me ensinado. Só tínhamos uma à outra... Aprendi antes de ela morrer.
— E como foi que sua mãe morreu?
— Um porco-do-mato. Ela não morreu na hora. Demorou um pouco. Tentei ajudá-la, aliviar sua dor o mais que eu podia, mas ficou com febre. — Alisou o veludo outra vez, disfarçando uma lágrima. — Às vezes me pergunto por que aconteceu quando eu era ainda tão pequena.
— Não há razão para que as coisas aconteçam de uma deter minada maneira. Tudo o que podemos fazer é dar o melhor de nós mesmos em qualquer situação... o que, parece, você fez.
Bella o fitou de soslaio, os lábios ensaiando um sorriso pela primeira vez.
— Por que usa essa roupa de metal?
— Para não me machucar numa batalha.
— Hum... — Ela ficou de novo em silêncio. — Como chama este tecido? — Tocou a túnica.
— Isso é veludo. As mulheres ricas costumam usá-lo para fazer seus vestidos. Onde mora, Bella? Não vi nenhuma casa no vale.
Ela o observou, ressabiada.
— Tenho uma choupana. Os moradores do vilarejo a construí ram há muito tempo. Tenho uma cama, uma mesa, uma lareira e um banquinho de três pernas. — Sorriu, dessa vez abertamente, e o coração de Edward deu um salto. Duas lindas covinhas emoldu ravam a boca adorável e os dentes perfeitos. — Também tenho um travesseiro de penas, uma tigela e dois vestidos.
Estava tão orgulhosa de tão pouco que isso o comoveu. Con tinuava se perguntando como ela sobrevivera, quando as duas covinhas desapareceram. Os olhos muito claros se estreitaram, matreiros.
— Pode aproveitar tudo isso se me levar de volta para o vale... Que esperteza... Ele suprimiu o sorriso.
— Se fosse assim tão simples, eu o faria. E sem que precisasse me subornar. Mas é impossível.
— Por quê? — Bella quase chorou.
— Porque não é seguro para uma menina como você viver sozinha. Pode ser atacada.
— Atacada?
— Sim... por homens maus.
— Ah
Por enquanto, era suficiente que ela compreendesse ao menos parte dos riscos que corria. Edward não discutiria agora a possibi lidade de um estupro. Tocou uma cicatriz no pulso delicado, e Bella o escondeu de imediato sob o veludo.
— Como se machucou assim?
Nesse instante, ela cambaleou para o lado.
Edward a amparou de imediato. Zonza, Bella forçou um sorriso de agradecimento. Não podia culpá-la. Naquela situação, não havia como se sentir bem. Pobre menina.
— Vou tentar apanhar alguns peixes. Vai ficar bem?
— Cuidado para não cair na água.
Ele riu, pela primeira vez desde que conhecera Isabella Swan.
— Você é um espanto. Ela devolveu o sorriso.
— Não sabe nem da metade.
Suspeitando de que Bella dizia a verdade, caminhou para o pe nedo ao pé da cascata. Em pouco tempo apanhou três peixinhos, limpou-os e trouxe-os para o fogo.
Mal começaram a comer, Rampante relinchou um alerta. Edward voltou-se. Três cavaleiros contornavam a curva do riacho, galo pando na direção deles.
A lâmina afiada da espada sibilou quando Edward a sacou da bainha, ao mesmo tempo em que punha Bella em pé,
— Esconda-se! Vã para o penedo, rápido!
— Mas...
— Agora, Bella, corra!
Pelo sangue de Cristo. Estava só, com uma mulher seminua como companhia. Uma mulher com que qualquer um daqueles homens se deleitaria se tivesse chance.
De espada em punho, Edward estudou os três cavaleiros que galopavam em sua direção. O mais novo, um jovem com cerca de quinze anos, franzino e bem vestido, não representava grande perigo. Os outros dois que o acompanhavam, entretanto, eram ou tra história. O mais velho, de barba, parecia ter seu tamanho, mas um pouco mais pesado e bem mais velho. Pelas vestes, devia ser algum chefe. O mais novo, também enorme, usava o xadrez dos Fraiser, porém nenhum broche do clã nem outra marca de distinção além de uma horrível cicatriz de batalha na face. Era apenas um guerreiro.
Conforme puxaram as rédeas dos cavalos, diante de Edward, o mais velho se manifestou:
— Quem é você e o que faz na terra dos Fraiser?
— Sou Edward Cullen e não venho negociar com os Frai ser. Estou apenas de passagem, a caminho de Beal.
— Parece mais no meio de uma refeição... — ironizou o mais jovem, apontando o peixe. — Além de não ter pago a taxa.
Edward praguejou mentalmente. As taxas impostas por alguns chefes das Highlands, região montanhosa da Escócia, para que se cruzassem suas terras, costumavam ser aviltantes. Na certa, o ra pazinho pretendia rechear melhor os cofres do pai.
Antes que ele pudesse perguntar quanto queriam, o menino cur vou-se na direção de um dos homens, apontou Rampante e cochi chou alguma coisa. Se aquele pirralho pretendia ficar com sua montaria, ia ter que mudar de ideia. Rampante o atiraria no rio no momento em que ele pusesse o pé no estribo.
— O que é aquilo, Cullen? — zombou um deles. — Seu cavalo tem seis patas?
Edward desviou o olhar deles por um segundo. Rampante parecia realmente ter patas a mais... ainda que duas delas fossem brancas e bem torneadas.
Santo Deus! Bella achou que poderia se esconder ali!
Por que não havia lhe obedecido?
— Saia daí, moça! — ordenou o rapaz. — Venha para onde possamos vê-la!
— Fique aí, Bella! — Edward contrapôs, tenso, voltando-se em seguida para os estranhos: — Quanto lhes devo pelos peixes e pela passagem?
— Por que a pressa? — O soldado mais novo, lançando um olhar lascivo na direção de Rampante, incitou a própria montaria para a esquerda.
Adivinhando a intenção do homem, Edward segurou a espada com ambas as mãos e a fez zunir no ar.
— Fique longe dela!
O mais velho dos guerreiros fez reluzir a própria lâmina, ao mesmo tempo em que esporeava o flanco do cavalo, fazendo-o pular perigosamente.
—Arranjou uma esposa, Cullen? Até onde fiquei sabendo, mulher nenhuma estava disposta a desposar Edward, o Terrível...
Edward estreitou o olhar. Tinha sido ingênuo em imaginar que não o haviam reconhecido.
— Já que me conhecem, sabem o que vai acontecer se tocarem na minha mulher. Melhor pegarem o dinheiro e nos deixar em paz.
— Mas o que é isso, Cullen? — debochou o mais novo, virando o cavalo mais para a esquerda, tentando ver Bella. — Não vai nos apresentar à sua esposa? Aposto que ela é bem interes sante... com aquele par de coxas roliças...
O sangue ferveu nas veias de Edward que, dando um grito de guerra, investiu contra o jovem Fraiser.
Antes que o rapaz pudesse reagir, fez a espada zunir em arco e atingir o peito do cavalo, que tombou, trazendo consigo seu dono. Os outros dois voltaram-se, atônitos. Praguejando e gritando, in vestiram contra ele, as espadas em riste, mas Edward saltou sobre o garanhão ferido, agarrou o menino pelos cabelos e esmurrou-o no queixo. O jovem desmaiou tal qual um boneco de pano em suas mãos. Pressionou-lhe a espada contra a garganta.
— Mais um passo e ele morre! — rosnou para os guerreiros que o ameaçavam.
Eles se detiveram, trocando olhares. Tensos, avançaram deva gar, os olhos faiscando. Edward puxou a cabeça do rapaz, expondo o filete de sangue que já fizera brotar com a lâmina. Os homens empalideceram.
— Vão para lá e desmontem. Devagar! — Voltou-se para Bella: — Para o cavalo, Bella. Agora! — Edward não tinha intenção de matar o jovem Fraiser. Isso tornaria o pai dele, Alex Fraiser, inimigo mortal do clã dos Cullen. Provocar a morte de gente inocente era imperdoável. Ainda mais se fosse gente de Blackstone. Sua gente.
Perguntando-se o porquê da demora de Bella em montar. Edward arriscou desviar o olhar dos Fraiser para Rampante, que bufava e batia as patas na terra. Praguejou baixinho. Sob o cavalo, tudo que conseguiu ver foi um par de pés em meio a um amontoado de veludo verde.
