Capítulo IV

Bella não conseguia se lembrar de nenhuma outra situação tão patética em toda a sua vida. O medo por ter sido descoberta por estranhos fortemente armados dera lugar ao pânico quando o maldito cavalo de Edward, rejeitando seus esforços para montar, acabou pisando no veludo que a encobria e o fez ir ao chão. Agora, não apenas estava nua por trás do animal, que continuava indo para a frente e para trás, como ainda fora obrigada a ouvir o canteran afirmando, com todas as letras, que ela era mulher dele! Pelo visto, não estava satisfeito em tê-la arrancado de casa à sua revelia e atravessado quilometros de florestas! Ainda tinha a audácia de declará-la sua esposa diante da Grande Deusa e de três estranhos! E por duas vezes!

Definitivamente, estava casada com Edward Cullen.

Entendia muito bem o que era estar comprometida. Dois verões antes de sua mãe ter falecido, tinham ido à festa anual de Beltane, a última a que estiveram presentes, onde um homem e uma mulher haviam se casado. Sua mãe lhe explicara tudo, com detalhes.

O que Edward pensava que ela era? Alguma idiota? Quando conseguisse chegar perto dele, se é que isso seria possível, ele ia ter o que merecia. Graças a Edward, não tinha mais um teto sobre a cabeça, não tinha comida, não tinha roupas e, agora, nem liber dade! Teria de ser dele por um ano e um dia.

Agarrando as rédeas, açoitou o lombo de Rampante com raiva.

— Quieto, seu cavalo imbecil!

Para seu espanto, o animal estacou.

Soltando meia dúzia de seus limitados palavrões, segurou o pendente de couro da sela com ambas as mãos, meteu o pé no estribo e ergueu-se com um gemido. Soltou um suspiro de alívio ao se ver montada. Agora só precisava passar pelos homens e fazer o cavalo galopar de volta para casa.

Foi nesse instante que um assobio cortou o ar e Rampante pre cipitou-se para a frente. Bella gritou e agarrou-se à sela, temendo pela própria vida. Quando se deu conta da intenção do animal, praguejou baixinho, amaldiçoando Edward e todos os homens da Terra. No segundo seguinte, estacava diante deles, os cabelos lon gos cobrindo parte da pele nua. Os homens congelaram diante da cena.

Com os olhos claros faiscando, Bella indagou:

— O que estão olhando?

— Virgem Santa... — murmurou um deles, deixando cair a espada.

De súbito, a sela cedeu debaixo dela e Edward sentou-se às suas costas, segurando-a pela cintura.

—Você não existe...—riu, ao mesmo tempo em que esporeava o garanhão.

Ele quase a esmagava de encontro a si, enquanto tornavam a atravessar a floresta a galope. O homem era insano. Além de fazer dela sua esposa, tinha deixado para trás todas as roupas e o tal veludo caro!

Após uma corrida interminável, pararam numa pequena clareira sob a proteção das árvores.

— Estamos seguros agora? — Bella indagou, irritada. Edward soltou um longo suspiro antes de desmontar.

— Por enquanto.

Durante o galope, ela voltara a sentir coisas estranhas. Arrepios e um calor esquisito.

A princípio, a mão do canteran a agarrara pela cintura com firmeza; porém, à medida que se afastavam do perigo, haviam diminuído o passo e ele parecera relaxar. A cada trote do cavalo, a cada depressão do caminho, a palma quente acariciava sua pele provocando sensações mais perturbadoras do que qualquer uma das vontades que Bella já sentira. E o contato do peito largo e daquelas pernas fortes nas dela...

Edward a segurou pela cintura e a puxou de cima do garanhão. Lutando contra a tentação de trazê-la, nua, para junto do peito, ele a manteve a uma distância segura.

No momento em que os pés de Bella tocaram o chão, ela li vrou-se do contato.

Edward engoliu em seco. Com as mãos estrategicamente posi cionadas sobre o corpo, os cabelos longos mal ocultando os seios redondos e a faixa que ainda lhe protegia a cintura, Isabella Swan era uma visão e tanto. Mesmo que ele vivesse além dos cem anos, jamais se esqueceria da expressão dos Fraiser ao vê-la se aproximar nua sobre o cavalo, os olhos claros faiscando de ódio.

Sorrindo, começou a se livrar da própria túnica.

— O que pensa que está fazendo agora? — rosnou Bella, mal humorada.

— Tirando a roupa para dar a você — ele respondeu, ainda que a contragosto. O contato com aquela pele de cetim quase o enlou quecera na última parte da jornada.

— É mesmo maluco, sabia? Como ousa dizer que sou sua mu lher? Como ousa me tomar como esposa sem o meu consentimen to? Não vou admitir isso!

— Do que está falando?

Ela soltou uma exclamação de desgosto, os lábios apertando-se numa linha dura.

— Pois então não disse àqueles três estranhos que eu era sua mulher?

— Sim, mas... — Edward se deteve, compreendendo de súbito. Santo Deus... Sem querer, tinha se comprometido com Bella. Quando os Fraiser o provocaram, ele a chamara de minha mulher. O fato de ter feito isso para protegê-la não importava.

Não podia tomar Isabella Swan como esposa! Precisava se casar com uma dama, uma lady, para assumir Donaliegh! E agora?

— Quero que desfaça isso! — bradou Bella. — Não quero com promisso... Nunca!

Edward também não queria, mas como podia reverter a situação? Graças à sua estupidez, agora ela era sua por um ano e um dia. E o seu sacerdote, quando soubesse, exigiria abençoar a união na igreja de Blackstone.

Como se adivinhasse seus pensamentos, Bella tornou a se ma nifestar:

— Vai nos levar para um poço sagrado e desfazer isso, Edward Cullen!

— Como? — Edward bufou, impaciente.

— Precisamos ir até um poço sagrado, repetir três vezes que dissolvemos essa união, e depois beber a água, ora!

— Tem certeza? É tudo o que temos de fazer?

— Talvez haja mais alguma coisa... — Bella mordeu o lábio. — Mas será o suficiente para mim.

— Então, considere feito. Tome, vista esta tónica antes que fique doente. — Ou que eu a agarre e a faça minha mulher de verdade aos olhos de Deus!, completou para si mesmo.

Bella arrancou a túnica das mãos dele e tratou de vesti-la.

— Está combinado, então?

— Claro. Eu também nunca quis me comprometer com você. — Estaria perdido se continuasse preso a Isabella Swan! — Onde fica esse tal poço, afinal?

A expressão furiosa de Bella transformou-se em indignação.

— Como assim "onde fíca esse tal poço"? Foi você quem me trouxe aqui! Portanto você é quem deve saber onde fíca!

— E por que eu conheceria um poço sagrado? Bella bateu o pé.

— É algum pagão idiota, por acaso?

Edward venceu a distância entre ambos com três passos e a en carou.

— Sou católico, com muita honra, portanto não me interessa onde ficam os poços sagrados de um bando de malucos!

Bella entreabriu os lábios.

— Bando de malucos? Ora, seu... — Esmurrou-o na barriga. Ali estava uma mulherzinha de pouco mais de um metro e meio, seminua e com audácia suficiente para agredir Edward, o Terrível! Ele caiu na gargalhada.

Bella recuou um passo, ofegante, os olhos quase brancos arre galados.

— Aonde pensa que vai? — Edward estendeu um braço e a segurou. — Vai ficar aqui, comigo, até desfazermos isso. Não vou perder Donaliegh por sua causa.

Ela tentou se libertar, sem sucesso.

— E eu com isso? — Estapeou a mão que a mantinha cativa pelo pulso. — Não precisa de mim. Pode ir até o poço sozinho e dizer as palavras. Posso jurar que fiz o mesmo, se me perguntarem, e pode ter certeza de que farei isso! Agora me solte!

Lágrimas embaçaram os olhos claros.

Edward a fitou. No segundo seguinte, puxou-a para si.

— Não precisa ficar assim. Temos apenas que consertar esta situação. Juntos.

Bella deixou escapar um soluço, as mãos espalmadas contra o peito largo e agora nu. Edward beijou-a na testa, depois ergueu-lhe o rosto com delicadeza. Deus, ela era de tirar o fôlego com aquelas faces vermelhas de raiva, os olhos faiscando. Se fosse uma dama, jamais a deixaria partir, não importando o quanto Bella tentasse.

A razão falou mais alto, então.

— Precisamos dissolver esta união e não temos muito tempo para isso — Edward ponderou. A notícia daquele compromisso poderia chegar até Beal antes que eles. —Temos que partir, o mais rápido possível, para o vilarejo mais próximo... para Ardlui. Lá, encontrarei uma parteira.

Ela franziu o cenho, e ele apressou-se em explicar:

— Uma parteira deve saber onde podemos encontrar o poço de que está falando.

Bella concordou com um gesto de cabeça, e Edward agradeceu à Virgem Maria, baixinho. Se agissem com rapidez, Donaliegh ainda estaria a seu alcance.

— Está com fome?

Ela fez que não. A última coisa que desejava agora era comida. Tinha o estômago tão apertado que temia vomitar. Todos os seus movimentos estavam sendo controlados por outra pessoa; alguém mais forte e com boa visão. Não bastasse isso, Bella possuía outra grave razão para não querer se envolver com o canteran. Não que ria um filho.

Mas por que Edward parecia tão contrariado com aquela união?

Não tinha medo dela. Seria a tal Virgem Maria o motivo? A mulher vivia nos pensamentos dele...

Isso explicava por que Edward não a molestara nem mesmo en quanto ela dormia. Não devia ter comparação com a outra.

E daí, se ele não via graça nela? Quanto antes se visse livre de Edward, melhor!

Erick Newton, exausto e com sede, apeou e esperou que o irmão parasse também à beira da estrada. Tinham recebido ordens de seu senhor para adentrar território inimigo e trazer de volta a feiticeira.

— O que acha? — indagou. — Seguimos para o norte ou para oeste?

Haviam seguido o rastro de Cullen tanto quanto possível, antes que o bastardo escapasse para os leitos pedregosos dos rios, onde o perderam. Agora se encontravam bem no meio de território inimigo, e a um dia de viajem de Crianlarich.

Fegan acariciou o pescoço suado da montaria.

— Algo me diz que devemos seguir para oeste, na direção de Ardlui. O terreno é ruim, mas é o caminho mais curto.

— Mas o chefe tem razão em uma coisa. Tendo que carregar a feiticeira, apesar da força do cavalo, Cullen não vai querer arrumar encrenca. Se o cavalo tropeçar e a mulher cair...

— Morta, ela não serve para nada.

— Está resolvido, então — decidiu Erick. Vamos para a di reita.

— Com sorte, o cavalo vai se cansar, e os apanhamos até o amanhecer — raciocinou Fegan, esporeando a montaria.

Na extremidade norte do lago Lomond, Bella franziu a testa.

— O que será que está queimando?

Após observar as colunas de fumaça que espiralavam acima do topo das árvores, Edward escalou uma colina e parou no cimo la deado de árvores. Praguejou baixinho. Na margem oposta do rio Dochart, tudo o que puderam avistar foram as ruínas do vilarejo de Ardlui.

— O que aconteceu?

Inconscientemente, ele a apertou mais contra o corpo, ao mes mo tempo em que esporeava os flancos de Rampante.

— Não vamos saber até chegarmos lá.

Atravessaram o rio pouco fundo; conforme galgaram a margem oeste, Edward avaliou a devastação diante deles.

— Santa Mãe de Deus...

Não viu uma só casa intacta. Havia corpos por todos os lados.

Incitou Rampante a seguir, devagar, enquanto examinava a área, atento, em busca dos carniceiros que haviam feito aquilo a Ardlui. Estava tudo muito quieto. Desmontou, amaldiçoando a si mesmo por ter perdido a cota de malha, depois ajudou Bella a descer do cavalo.

— Fique do meu lado. Os infelizes que fizeram isso parecem ter ido embora, mas não podemos nos arriscar.

Desembainhou a espada e tomou a mão dela.

— Vamos. Temos que ajudar os que sobreviveram, e não chorar pelos mortos.

Com os olhos lacrimejando e as narinas tomadas pela fumaça fétida, seguiram de cabana em cabana, a maior parte ainda quente demais para se entrar. Não encontraram um só sobrevivente.

— Não há nada que possamos fazer. Esta desgraça deve ter acontecido há poucas horas.

— Mas por quê? — indagou Bella, tremula. — Por que alguém faria is... — Parou de repente. — Ali! Ouviu?

— Onde? — Edward empunhou a espada, alerta.

Bella se desvencilhou dele e saiu numa corrida desabalada. Surpreso, Edward viu que ela rumava para o que parecia ser um monte alto de estrume e comprimiu os lábios. Bella estava ouvin do vozes onde não havia mais nenhuma. Devia ter enlouquecido com o cenário.

Com o coração aos saltos, as palmas das mãos formigando, ela estacou diante do monte de esterco. Tinha os nervos à flor da pele, a vontade se manifestando intensamente. Alguém estava assusta do, com dor, mas vivo. Onde? Girou o corpo, tentando ouvir o gemido que escutara havia poucos minutos.

Para seu alívio, o choro fraco recomeçou, dessa vez bem à sua frente. Jogou-se de joelhos e enterrou as mãos no monte mal cheiroso.

— Bella, pare!

Ela não obedeceu. Cavou mais rápido, revelando um fardo de lã. Arrancou-o do estrume e desenrolou o pano. Dentro dele, havia o bebé mais lindo que já vira em toda a sua vida. A criança abriu os olhínhos e pôs-se a chorar a plenos pulmões.

Edward ficou estupefato, enquanto Bella tomava o bebê nos braços.

Ergueu o rosto para fitá-lo, maravilhada.

— A mãe deve tê-lo escondido no estrume! E está vivo! É um milagre! — Levantou-se e examinou a criança, à procura de feri mentos. Em seguida, aninhou-a no colo. O bebê buscou-lhe o seio quase imediatamente. — O pobrezinho está com fome!

— Sim, mas não sobrou gado algum. — Edward olhou ao redor. — Onde vamos conseguir leite? Não podemos lhe dar um pouco da água do riacho?

— Será que conseguimos encontrar um balde?

Ele concordou em silêncio e se afastou. Pouco depois, Bella ouviu o cacarejar de uma galinha, seguido de pesados passos. De pois, mais nada.

— Vamos ter canja! — Edward anunciou a distância. Bella suspirou, aliviada. Uma canja seria perfeito.

— Ele é novinho demais para ser órfão — ela lamentou.

— Toda hora é hora para se tornar órfão. Mas você conseguiu sobreviver, e ele também vai conseguir. Agora, vou ver o que consigo fazer com os corpos.

Depois de lavar as mãos como podia, na margem do córrego, Bella passou a gotejar água na boquinha do bebe. Ele fez uma careta, porém logo se acostumou e tentou sugar-lhe os dedos. Ela sorriu. Cuidar de um bebé não era assim tão difícil, afinal. Obser vou o cabelinho loiro, quase branco, os dedos minusculos, os bracinhos rechonchudos, e viu-se tomada por uma intensa emoção. Ele era tão lindo... Suspirou. Quem poderia cuidar daquela criança?

De súbito, um balido cortou o silêncio. Bella ergueu-se de um pulo, assustando o bebé. Tratou, então, de acalmá-lo, dando-lhe tapinhas nas costas.

— Olhe só o que encontrei no celeiro! — anunciou Edward, satisfeito. — Uma cabrita. Deve ter sido ágil demais para aqueles bastardos. —Amarrou o animal na estaca mais próxima. — Agora temos leite para o pequeno.

Bella chegou mais perto, estudando a pobre cabra fedorenta. Apavorada com a possibilidade de Edward querer colocar o bebê nas tetas daquele animal imundo, apertou-o contra si.

— Não pode estar falando sério...

— Claro que estou.

Ela negou com a cabeça e se afastou rapidamente. Edward riu.

— Nunca tirou leite de uma cabra, não é?

— Não. — Tinha ouvido falar delas no vilarejo, mas, na ver dade, jamais vira uma.

— É fácil... Olhe. — Ele agachou-se e posicionou o balde entre as pernas do animal, que não parava de balir. Buscou-lhe as tetas com ambas as mãos. — Começando de cima, esprema para baixo, assim. Tem que fazer com uma das mãos, depois com a outra.

Ao ver o leite esguichar, Bella suspirou de alívio. Não teria de colocar o bebé nas tetas daquele bicho feio, afinal. Edward passou-lhe o balde.

— Isto deve dar, por enquanto. Quando ele estiver satisfeito, pode deitá-lo no chão e tirar mais um pouco de leite.—Afastou-se, deixando-a à vontade para tentar por si mesma.

Engasgando vez ou outra, o bebé sorveu o leite momo. Assim que adormeceu nos braços de Bella, ela deitou-o sobre a relva e foi até uma cesta, largada em meio ao cenário desolador de Ardlui. Nela encontrou uma tira de linho, uma túnica pequena, uma camisa de homem, um avental e um vestido. Sentiu as lágrimas virem aos olhos. A dona daquele cesto podia ser a mãe da criança.

Retornou pela trilha ainda tomada pela fumaça acre, tomou o bebê adormecido nos braços e acomodou-o dentro da cesta, à som bra de um olmeiro. Depois examinou o pequeno com mais atenção. O pobrezinho estava imundo.

Após limpar a criança, na verdade, um menininho, olhou o bicho esquisito e cinzento perto deles.

— Agora é a sua vez...

Buscou as tetas inchadas. Ordenhar, afinal, não era tão fácil quanto alardeara o canteran. Só muito tempo depois, foi capaz de tirar algum leite para a próxima refeição do bebê.

Carregou o balde para onde o menino ainda dormia, o dedinho na boca. Sentou-se e acariciou o bracinho rechonchudo. — Mas que menino bonzinho é você.

Nem sequer sabia o nome dele, pensou. Mas não importava. Precisava de um novo. E um bonito, com o qual pudesse crescer satisfeito. Um nome que lembrasse força e sabedoria.

Foi arrancada de seus devaneios por passos pesados que se apro ximavam. Edward desabou ao lado dela.

— Terminou?

— Coloquei trinta corpos no celeiro. Não tínha como enterrar todos.

Sentindo a necessidade de tocar algo com vida, por fim, ele acariciou o bebê.

— Não consigo parar de me perguntar o que leva um homem a cometer um horror desses. Tenho lutado pelo meu clã e pelo meu rei, é verdade; já matei mais homens do que posso contar nos dedos das mãos. Mas jamais sacrifiquei uma mulher ou uma criança.

Bella tocou-o no braço.

— Ao menos esta ainda vive.

Edward piscou, surpreso. Bella tentara consolá-lo. Sentindo-se repentinamente alegre, embora não compreendesse bem o motivo, voltou a atenção para as ruínas de Ardlui.

— Precisamos sair daqui. Não é seguro.

— Também acho.— Ela apanhou o bebê e o apoiou nos ombros. Entregou um embrulho para Edward. — São fraldas. Também va mos precisar da cabra.

Ele soltou um longo suspiro e se pôs em pé. Agora tinha apenas alguns dias para encontrar um poço sagrado, desfazer o casamento com uma mulher pagã, encontrar um lar para um órfão, outro para Bella, cortejar uma lady e voltar correndo para Blackstone. E isso tudo, carregando uma cabra.

Que Deus o ajudasse.

Uma hora depois, Bella, ainda sem saber que destino teria o bebê em seus braços, perguntou:

— Onde mora, Edward?

— No vilarejo de Drasmoor.

— E onde fica isso?

— Na Costa Oeste, no estuário do Lorne.

— E longe daqui?

— Sim. Seis dias de viagem.

— Mora numa casa? — Se morasse, talvez compreendesse como ela sentia falta da sua.

— Não, moro no castelo de Blackstone, que pertence ao meu senhor, Carlisle Cullen, e sua esposa.

— Como é esse castelo?

— Blackstone fica numa pequena ilha, na baía de Drasmoor. Carlisle começou a construí-lo há uns dez anos, logo depois da peste se espalhar pelo vilarejo e um grande número de pessoas do clã morrer. Ergueu Blackstone numa ilha, para que o clã estivesse seguro caso a peste voltasse.

— Quantas pessoas há no seu clã?

— Na última contagem, havia mais de cem. Bella fitou-o com olhos arregalados.

— E quantos dormem numa cama?

Edward caiu na risada, os olhos verdes brilhando sedutoramente.

— Não é assim... A maioria mora no vilarejo de Drasmoor ou nas montanhas. Só alguns, como eu e os Silverstein, vivemos com o nosso chefe e a família dele no castelo.

— Ah. — Bella desviou o olhar do rosto atraente, no mesmo instante em que a cabra baliu e Rampante estacou, assustado. Per guntando-se o que aconteceria em seguida, segurou o bebê com mais força.

Edward esporeou o cavalo, que voltou a trotar. Aliviada, ela re tomou a conversa:

— Ainda não contou como é o castelo.

— Enorme. Toma a maior parte da ilha.

— E dentro?

— Como a maioria. Há um muro alto que cerca o pátio, um poço, alojamentos para os solteiros, uma igreja, abrigos para o gado e uma ferraria.

Bella estalou a língua, impaciente.

— Dentro, onde moram as pessoas, Cullen! Ele soltou um suspiro.

— Há um grande salão com lareiras em cada extremidade. Co memos lá. Em cima, ficam as despensas e os quartos de dormir.

— Há tapetes e vitrais coloridos? Cálices de ouro e pratos de metal enormes? Espelhos de prata? Não tem alce empalhado na parede?

Ele caiu na gargalhada.

— Blackstone não é tão luxuoso a ponto de ter vitrais colori dos e cálices de ouro, mas há muitas cabeças de animais empa lhadas, e está muito bonito agora que lady Esme chegou.

— E essa lady Esme como é?

— Não é tão bonita quanto você. Mas tem um coração enorme, Bella piscou, surpresa. Edward, obviamente, gostava da mulher e a respeitava. E se não estava ouvindo coisas, ele dissera que ela era bonita! Mas como? Estava suja, fedendo e não penteava os cabelos havia três dias...

— E o que você faz no castelo?

— Comando os guerreiros e os treino para as batalhas de defesa. Luta de espadas.

— Parece bem mais emocionante do que a minha vida. Edward riu e, mais uma vez, Bella sentiu estranhas vibrações.

Vibrações agradáveis e, ao mesmo tempo, alarmantes, descendo pela espinha.

— Não é bem assim. Na maioria das noites estou tão exausto que não vejo a hora de desabar na cama.

Ela sorriu. Edward devia ser um líder dedicado. Isso era bom, mas, por outro lado, devia correr muitos riscos.

Talvez devesse dar a ele um pouco mais de atenção.

Quatro horas depois, Edward apeou sob um arvoredo, na margem oeste do lago Lomond.

— Vamos passar a noite aqui — decidiu, contrariado.

Não tinham andado mais do que oito quilometros, graças à mal dita cabra e ao bebê, que demandava constante atenção. Estava exausto, sujo, com fome e fisicamente frustrado com as ancas de Bella roçando seu corpo nos últimos três dias. As coisas não po deriam estar piores.

Resmungando, agarrou a corda da cabrita e amarrou o animal fedorento a uma árvore. Desencilhou o cavalo e tratou de cortar alguns ramos com que improvisar um catre para Bella e o bebê, sob um pinheiro. Encheu a bolsa de água e checou as esporas de Rampante à procura de pedregulhos. Um cavalo manco era a úl tima coisa de que precisava no momento.

Vendo que tudo parecia em ordem para passarem a noite, retirou o jantar do alforje e voltou-se para Bella e o bebê. Ela cobrira os ramos com as folhas soltas da árvore, o que lhes garantiria um sono um pouco mais confortável.

— Tome. — Estendeu-lhe uma coxa da galinha. Bella sorriu, surpresa, e deu uma mordida.

— Está uma delícia! Nem vi quando a assou. Abrandando diante do inesperado sorriso, Edward respirou fundo. — Deixei que assasse em uma das fogueiras, enquanto cuidava dos mortos.

— Muito esperto...

Vendo que ela terminara de comer a coxa, Edward cortou um pedaço do peito e lhe ofereceu.

— Saiu-se muito bem em Ardlui... Sobretudo com o bebê. — Tinha de admitir. Bella agira com surpreendente calma e autocon trole todo o tempo.

Ela olhou o pequeno, que ressonava.

— Não foi difícil. — Mordeu outro pedaço da carne. — Andei pensando e resolvi ficar com ele.

— Você o quê? — Edward fitou-a, abismado. Ou Isabella Swan tinha perdido de vez o juízo, ou então ele estava ouvindo coisas!

— Fale baixo! Assim vai acordá-lo!

— Não pode ficar com o bebê! Viu o que acontece com quem têm proteção... Imagine viver com essa criança no meio do nada!

— Mas eu e o bebê não estaremos indefesos. — Bella sorriu, e as covinhas voltaram a fasciná-lo. — Teremos você... ao menos por um ano e um dia.

— Não pode estar falando sério... — Edward se levantou. O bebê choramingou e Bella o apanhou no colo, tranquila.

— Claro que estou.

Havia pensado muito no assunto. Aliás, passara a tarde toda se decidindo.

A Grande Mãe, aparentemente entendendo que Bella não dese java um filho, pois temia que este viesse ao mundo tão pobre em visão e sensível aos problemas alheios quanto ela, tivera piedade. Reconhecia que Bella havia sobrevivido a duras penas e, compreendendo sua devoção, talvez até mesmo sua solidão e o amor que possuía, latente, dentro de si, dera-lhe um presente. Um bebê que se transformaria num homem perfeito... com uma pequena participação de Edward, o Canteran.

Verdade que ele teria de dormir numa cama improvisada, na cabana, até que pudesse construir uma mais adequada para si mes mo. E talvez precisasse mudar um pouco seus hábitos, para que os três permanecessem em segurança, mas...

Bella deu de ombros, satisfeita.

Caminhando de um lado para outro à frente dela, Edward parou para encará-la.

— Não acredito nisso — repetiu.

— Psiu! Vai acordar o pequeno Edward!

— E ainda o chama pelo meu nome? Virgem Maria!

— Combina bem, já que fomos nós que o encontramos. Bella decidiu que o resto da discussão deveria ficar para depois.

Edward parecia aborrecido demais.

—Bella... Já concordamos antes quanto aos nossos planos. Não podemos mudá-los agora!

— Isso foi antes de encontrarmos o bebê. — Ou seja, antes de a Grande Mãe interceder. — Não se aflija, Edward. Você ter me encontrado e eu ter encontrado esta criança... não aconteceu por acaso.

— Está querendo me deixar louco, é isso. — Sentou-se ao lado dela, correndo as mãos pelos cabelos longos e ondulados. — Bella, entendo que tenha se afeiçoado ao bebê... Ele é bonito, tranquilo, mas não é seu e nem meu!

— Como não? A mãe do pequeno Edward deve estar morta. E até onde sabemos, o pai dele também. Somos fortes e saudáveis... — Examinou o próprio corpo, vestido com a túnica que ainda levava o cheiro de Edward, e sentiu um estranho calor subir-lhe às faces. — Darei uma boa esposa, Edward. Costuro bem e sei fazer muitas coisas. Leve-me de volta para a minha casa, e nós três...

— Chega, Bella. — Edward se levantou e deu-lhe as costas. — Sinto muito. Embora seja prendada e bonita... mais bonita do que qualquer uma que já vi antes, eu preciso me casar com outra pessoa. Dei minha palavra e pretendo cumpri-la. Vamos dissolver esta união o mais rápido possível. Depois encontramos um lar para esta criança.

Bella sentiu uma dor esquisita no peito. Então Edward tinha mes mo outra mulher. Seria a tal Virgem Maria?

Não, não podia ser. A Grande Mãe não faria isso com ela. Não depois de tudo pelo que havia passado.

Com as lágrimas ameaçando saltar dos olhos claros e formando um nó na garganta, Bella ergueu o queixo e acariciou os dedinhos do bebé. Edward estava errado. Só precisava lhe provar isso. Afinal, agora tinha muito a perder.

Ao amanhecer, Edward abriu os olhos. Estavam congestionados pela falta de sono. Passara a noite ouvindo os soluços abafados de Bella e, vez ou outra, o choramingar do bebé.

E pensar que já deveria estar chegando ao castelo de Beal...

Suspirou, permitindo-se olhar as curvas da linda mulher que dormia ao seu lado; e que transformara sua vida num verdadeiro desastre. Se as circunstâncias fossem diferentes...

Bella descansava voltada para ele, a cabeça aninhada no braço, os cílios negros e longos sombreando a face aveludada, os joelhos tocando suas coxas. Entre eles, agasalhado e protegido, o pequeno Edward brincava com os próprios dedos, fazendo bolinhas com a boca.

Virgem Poderosa... no que fui me meter? Ainda não acreditava que ela dera o nome dele à criança.

O bebê balbuciou algo e lhe chutou as pernas. Sem pensar duas vezes, Edward estendeu-lhe um dedo. De imediato, o pequeno levou o dedo dele à boca, sorrindo. Quando seus olhares se encontraram, Edward sorriu também. Ele devia estar faminto.

Decidiu deixar Bella dormir. Podia dar o leite à criança. Rolou para o lado dela e puxou o bebê para si.

Minutos depois, já com a cabra ordenhada e o cavalo selado, Edward retornou à cama improvisada, vendo que Bella ainda dor mia, enquanto o bebê lhe mastigava os cabelos alegremente.

Fez uma careta e tirou os cabelos da boca e da mão da criança com cuidado. Antes que o pequeno Edward pudesse protestar e acordá-la, tratou de pegá-lo no colo. Apanhou um dos panos, que Bella guardara para usar como fraldas, e um pouco de musgo. Acomodou o bebê na relva que cobria a margem do lago.

A tarefa exigiu mais esforços do que imaginara, com a agitada criança rolando de um lado a outro, mas conseguiu trocar a fralda molhada por outra limpa. Carregando o bebê debaixo de um braço, lavou o pano sujo nas água do lago e depois o estendeu sobre um galho de árvore.

— Hora de comer — anunciou, e rumou em direção à cabra. O bebê gorgolejou, satisfeito, e Edward o jogou para cima, fazendo-o gargalhar. Sorriu e repetiu a brincadeira. — Um dia ainda vou ter um filho tão lindo quanto você.

Meia hora depois, com a criança ainda brincando no colo, Edward respirou fundo.

Mesmo sendo Bella tão cuidadosa e maternal, aquele menino não poderia ficar com ela. Não cresceria saudável comendo de qualquer maneira. Precisavam encontrar uma ama-de-Ieite. E um teto seguro onde pudessem se abrigar.

— Bom dia.

Edward ergueu a cabeça e deparou-se com Bella. Sentiu o calor que emanava dela e, no mesmo instante, teve vontade de beijá-la.

— Bom día.

— Como vai você, pequenino?—ouviu-a perguntar, carinhosa.

Em resposta, o bebê sorriu. Era como se ela tivesse o poder de acender o sol dentro deles, Edward pensou. Arre! Quanto mais cedo se separassem, melhor.

— Temos leite de cabra — anunciou, levantando-se, então posso pescar alguma coisa.

— Obrigada, mas não estou com fome.

Edward comprimiu os lábios. Pelo visto, Bella ainda estava abor recida com o fato de ele ter se negado a ficar com o bebê. Sem dúvida, planejava usar aqueles artifícios femininos para conven cê-lo de que estava errado.

— Então vamos nos preparar para seguir viagem. Entregou-lhe a criança, apanhou as coisas ao redor e amarrou a cabra ao lado de Rampante.

Uma vez acomodados sobre o lombo do cavalo, rumaram para o sul, na direção de Inveruglas. Tomara o clã tivesse uma parteira que conhecesse algum poço sagrado e uma ama-de-leite. Quem sabe também alguém soubesse do paradeiro dos Swan, o clã de Bella. Só então poderia galopar direto para Cairndow e o castelo de Beal, onde, com sorte, haveria uma esposa à sua espera.

Uma hora depois, o bebê tornou a encher a fralda, e Bella gemeu.

— Edward, por favor, estou ficando sem ar! — Lá em cima há um gramado.

Não demorou e logo puxava as rédeas para apear. Bella entre gou-lhe o bebê, e Edward o segurou a distância, com uma careta. Ela riu e desceu sozinha do cavalo.

— Dê-me o bebê.

Apanhou uma fralda limpa, um pouco de musgo e marchou para a beira do lago. Tinha acabado de trocar o bebê, quando ouviu a voz profunda atrás dela:

— Encontrei umas amoras. Vamos comer, depois partimos. Bella o acompanhou e depositou o bebe quase adormecido ao lado deles, na relva.

Edward concentrou-se no almoço. Apesar dos restos de peixe e das amoras estarem apetitosos, Bella mal os tocou. No entanto, tinha uma expressão mais suave no rosto bonito.

— Preciso perguntar uma coisa — ela rompeu o silêncio.

— Pergunte.

— Está sendo honesto, quero dizer... você é um homem correto? Não acostumado a ter sua integridade questionada, Edward se enrijeceu.

— Claro que sim!

Bella meneou a cabeça devagar, aparentemente satisfeita com a resposta.

— Então, por que o chamam de Edward, o Terrível?

Tinha sido muito imaginar que ela não ouvira Fraiser chamá-lo assim.

— É apenas um apelido que cultivo para proteger meu clã.

— E como um apelido pode proteger alguém?

Edward hesitou por um segundo. Se Bella não tivesse pedido honestidade, ele escolheria melhor as palavras. Mas logo estariam em Inveruglas. Melhor contar aquela história de uma vez, antes que ela a ouvisse de outra pessoa.

— Dizem que eu "como o fígado" dos homens que mato em batalha. E essa reputação faz meus inimigos fugirem de mim antes mesmo que se arrisquem a morrer pela minha espada.

Bella arregalou os olhos claros, e Edward riu.

— Claro que é mentira, eu nem mesmo gosto de fígado! Mas serve ao meu propósito. Poucos invadem as terras dos Cullen sem um bom motivo. E os que o fazem normalmente se compor tam, temendo que eu os devore.

Ela franziu o cenho, pensativa.

— Foi por isso que me lambeu? Lá no campo e depois, na caverna?

Foi a vez de Edward franzir a testa. Em seguida, caiu na risada.

— Eu não estava lambendo você... eu a estava beijando!

— Como assim?

Nunca, em toda a sua vida, ele poderia imaginar uma mulher como aquela fazendo aquele tipo de pergunta. Fitou-a, fascinado.

— O que quer saber?

— Por que, ora! — Bella torcia a barra da túnica. Tinha se recusado a vestir o traje de uma das mulheres que morrera em Ardlui. — Por que me... beijou? — indagou, sem muita certeza. — É esquisito!

— Pois eu gosto muito. Você não gostou?

— Acho que sim, mas...

— Os homens e as mulheres se beijam quando desejam um ao outro, ou quando querem demonstrar afeição. Assim como as mães beijam os filhos porque os amam.

Bella ponderou a explicação por vários segundos.

— Então... se eu beijar o bebê, estarei dizendo que o amo?

— Isso mesmo.

Era possível que ela nunca houvesse sido beijada antes? Que tipo de mãe Bella tivera? Santo Deus...

— Então me beijou porque me ama?

A pergunta repentina terminou de tirá-lo do prumo.

— Eu a beijei porque... você tem um jeito cativante. Porque é macia nos lugares certos. E porque tem uma boca que qualquer homem gostaria de provar.

Bella brincou com a grama a seus pés.

— E me beijaria de novo?

E agora?, Edward pensou, aturdido. Respondia com honestidade e arriscava vê-la fugir, ou mentia e se arrependia pelo resto da vida?

— Beijaria.

Ela ergueu o rosto de leve.

— Pode beijar, então.

O coração dele deu um salto. Antes que Bella mudasse de ideia, segurou-a pela nuca. Com o dedo, ergueu o queixo delicado para fitar aqueles olhos incrivelmente castanhos. Não viu indecisão ou medo, apenas curiosidade. Puxou-a mais para si, e as bocas se tocaram gentilmente. Os lábios dela, ainda que imóveis, eram tão macios e maleáveis quanto Edward se lembrava. Compreendendo que Bella era completamente inocente em se tratando do relacio namento entre um homem e uma mulher, demorou um pouco mais, aumentando a pressão aos poucos. Mordiscou-lhe o lábio inferior, e ela soltou o ar, dando-lhe acesso à boca doce e úmida.

Ele sentiu o sangue ferver nas veias. Bella tinha gosto de amora. Vendo que ela fechara os olhos, fechou os seus também e explorou melhor a língua macia. Bella devolveu a carícia, tímida. Depois, para sua frustração, retraiu-se.

— É assim? — ela indagou, as faces rosadas.

— É. — Precisara de toda a sua força de vontade para deixá-la se afastar, impedir a si próprio de levá-la a esquecer todas as reservas. Mas isso não seria justo com Bella nem consigo mesmo. Já não seria fácil conviver com aquelas lembranças pelo resto da vida. Lembranças do que poderia ter sido entre eles.

Minha Virgem Maria, Edward rezou, faça com que a minha pre tendente do castelo de Beal valha esse sacrifício, ou nunca vou me perdoar.

Ainda corada, Bella afastou algumas mechas do cabelo negro que ele soltara da trança sem querer.

— Tem alguma outra dúvida? — Edward quis saber.

— Não.

Erguendo-se com cuidado para que ela não notasse o efeito que tivera sobre seu corpo, ele respirou fundo.

— Melhor se preparar para a viagem. Não vamos mais parar até chegarmos a Inveruglas.

Bella aceitou a mão que Edward lhe oferecia e se levantou. Ele a observou se afastar, fascinado com o movimento gracioso de seus quadris. Deus, era linda!

Ao dirigir-se para um arbusto, Bella tropeçou numa pedra gran de no meio do caminho. Ele franziu o cenho. Sabia que beijava bem, já tinha ouvido isso mais de uma vez. Mas não para deixá-la tão tonta a ponto de não enxergar um obstáculo daquele tamanho...

Pensou na maneira como ela se locomovera, nos três últimos dias. Havia alguma coisa errada. Cruzou os braços ao vê-la sair de trás do arbusto, por fim. Bella voltou pelo mesmo caminho que fizera, só que dessa vez pulou a pedra com cuidado. Só então se aproximou, abaixando-se para apanhar o bebé.

Edward engoliu em seco. Acariciou o pescoço de Rampante, sentindo-se como se carregasse o mundo nas costas. Abriu a algi beira e retirou dela o último dos presentes que guardara para sua futura esposa: um rolo de fita de cetim branco. Com o coração apertado, estendeu-o a cerca de um metro e meio do rosto de Bella.

— Encontrei uma maçã. Alguém deve ter deixado cair... Quer? Com o bebê já nos braços, ela abriu um lindo sorriso, negando com um gesto de cabeça.

— Parece boa, mas, não... Pode comer.

O coração dele pareceu afundar dentro do peito. A linda Isabella Swan era praticamente cega.


Mike Newton, sem apetite para nada, a não ser por notícias de sua feiticeira e do maldito Cullen, empurrou o tabuleiro de carne. Seus homens os caçavam havia dois dias e já deviam tê-los apanhado.

Ainda não acreditava que ela se fora. Se não fosse por ele, a tal Bella, como ela própria se denominava, nem sequer existiria. Como ousava desafiá-lo assim?

E quando pusesse as mãos em Cullen, o homem desejaria jamais ter nascido. Não iria simplesmente matar o desgraçado...

Regozijando-se de antemão com a agonia porque o faria passar, apanhou a caneca de estanho. Ao vê-la vazia, atirou-a ao chão.

As três mulheres que limpavam as mesas pularam feito galinhas assustadas. — Maldição! Tenho que fazer tudo sozinho? Sirvam-me mais cerveja!

A mais robusta delas precipitou-se, servil. Mike ignorou os olhares magoados, ruminando os próprios pen samentos. Seu domínio sobre o clã já não era dos melhores. Não podia arriscar-se a arranjar mais encrencas. Desde que os Campbell haviam forçado os Newton a sair de suas terras e do castelo de Dunstaffnage, poucas coisas tinham dado certo.

Com os cofres vazios e quase sem guerreiros, seu pai não tivera alternativa na escolha das terras para onde levar o grupo. Tinham-lhes ordenado que ocupassem aquele território e por ali assentassem.

Infelizmente para ele, o herdeiro, o clã não estava feliz. Os Newton haviam nascido para o mar; eram pescadores e piratas, e não pastores ou agricultores. Até porque aquelas terras não ser viam para o cultivo. Proporcionavam pouco além do que necessitavam para sobreviver. Sem falar nas taxas e dízimos. Não tinha muito com que atrair mais gente para o clã... .. ...Até descobrir a feiticeira.

Com ela à sua disposição, Mike pudera permanecer no domínio. Em troca das curas de Isabella, tinha a lealdade dos homens e suas famílias. E num mundo pestilento e cheio de guerras como no que viviam, aquilo não era pouco.

Agora ela se fora. Assim como sua mão direita. E ele tinha apenas um homem a quem culpar.