Capítulo V

Ao entrarem no vilarejo de Inveruglas, Bella olhou por cima do ombro. Depois de passar o dia tentando convencê-la de que seria melhor darem o bebê para adoção, Edward parecia estra nhamente quieto.

Fez Rampante parar diante de uma construção de pedra com telhado de sapé e saltou para o chão.

— Espere aqui, — Deu alguns passos e estacou. — Estou fa lando sério, Bella, não ouse descer desse cavalo.

— Está bem!

Grande Mãe... Ele estava cada vez mais mal-humorado! Teria sido por causa do tal beijo?

Verdade que ela também ficara perturbada. Mas de uma ma neira diferente. Lembrava-se da mãe mencionando algo sobre os tais desejos malignos, mas, e se não houvesse entendido? Como uma sensação tão agradável podia ser do mal?

Suspirou, contrariada. Ficar na ignorância, sem ter nenhuma outra pessoa com quem conversar a respeito, era um martírio.

Sentiu o cheiro de carne assada e, de imediato, seu estômago roncou.

— Conhece a família que mora aqui? — perguntou, esperan çosa. Podiam ter algo com que pudessem alimentar melhor o bebê. Tinha sido uma tonta em recusar a última refeição. Agora estava até com dor de cabeça.

— É uma pousada para viajantes, Bella.

Ah! Já tinha ouvido falar sobre aquele tipo de lugar: casas amplas onde as pessoas podiam descansar por uma noite ou duas, em troca de uma moeda.

A possibilidade de passar a noite sobre um colchão de verdade, com uma lareira aos pés, encheu-a de alívio.

Assim que Edward desapareceu porta adentro, ela sentiu o co ração se apertar e as mãos formigarem. A vontade outra vez! Sem condições de atendê-la, Bella estalou a língua. Não agora! Não com o bebê e Edward por perto!

Definitivamente, algo estava errado por ali. Devia haver baru lhos, mais gente andando pela rua. Por que não havia crianças brincando, nenhuma mulher conversando e rindo, como no vilarejo dos Newton? Pelo pouco que pudera enxergar em suas visitas aos vizinhos e, apesar de Newton não ser particularmente uma pessoa agradável, seu clã era alegre, e a aldeia, sempre cheia de vida.

Edward precisou baixar a cabeça para passar pela porta da esta lagem. Vendo-se numa ante-sala, empurrou uma outra porta e se deparou com vozes exaltadas. Cerca de quarenta homens estavam reunidos na sala. Um deles, robusto e de cabelos avermelhados, finalmente notou sua presença.

— Seja bem-vindo, sir.

De imediato, todos ficaram em silêncio.

— Bom dia.

O homem levou as mãos à cintura.

— Quem é, e no que posso servi-lo?

Edward estudou os ocupantes. Todos homens, alguns jovens, outros mais velhos. E a maior parte deles parecia tensa. Alguns deixaram de lado os canecos e trataram de segurar as espadas, aguardando por uma resposta.

— Sir Edward Cullen a caminho do castelo de Beal. Acabei de passar por Ardlui... Está em ruínas.

Edward não soube ao certo o que fez recomeçar o tumulto: se ter mencionado o próprio nome ou a destruição do vilarejo vizinho. Em meio à confusão que se seguiu, alguém bateu o caneco contra a mesa exigindo silêncio. Todas as cabeças se voltaram para o homem de peito largo e cabelos grisalhos sentado a um canto. Ele se ergueu e ficou frente a frente com Edward.

— Meu nome é Connor Fraiser. Sou o líder daqui. E você, se não estou enganado, é o famoso Edward, o Terrível.

Agora todos tinham as mãos sobre as adagas. Controlado, Edward manteve a dele ao lado do corpo.

— Exatamente. E um prazer conhecê-lo.

O homem não respondeu, limitando-se a estudá-lo dos pés à cabeça.

— Conheci seu pai; lutei ao lado dele em Sterling. Era um homem bom e honrado.

Parte da tensão deixou os ombros de Edward.

— Verdade, senhor. Ainda sinto sua falta... — Há quase uma década, completou para si mesmo.

— Que notícias traz de Ardlui?

— Não existe mais Ardlui. Estão todos mortos, e o lugar virou cinzas.

A sala explodiu em protestos, gritos e palavrões.

— Morte aos malditos sanguinários! — alguém gritou. Fraiser ergueu os braços.

— Calados! Todos vocês!

O lugar demorou um pouco mais a ficar em silêncio.

— Antes, precisamos saber o que aconteceu — declarou, num tom baixo e enérgico. — Só então poderemos fazer planos para lidar com Gunn.

Edward cerrou o maxilar.

— O mesmo Gunn com que têm tido problemas?

Os Gunn eram um grupo conhecido por sua indisciplina havia muito tempo.

— Sim. Eles têm vindo para o sul e estão tentando se estabelecer aqui à força. Já perdermos três dos nossos nessa batalha.

— Isso explica tudo.

Edward relatou em detalhes o que vira em Ardlui e o que fizera com os corpos. No mesmo instante, Fraiser enviou três homens para enterrar os mortos, antes de fazer um sinal para que Edward se sentasse.

— Minha mulher me espera lá fora — desculpou-se, preocu pado. — Preciso trazê-la para dentro com o bebê.

Mal pronunciara as palavras, deu-se conta de que, uma vez mais, se comprometera com Bella. Santo Deus!

— Ela será bem-vinda.

— Há algum estábulo vago para a minha montaria?

— Sim, nos fundos.

Girou o corpo para sair, porém um homem de olhos esbranqui çados bloqueou-lhe o caminho, segurando-o pelo ombro.

— Tem certeza sobre Ardlui? Meu irmão... — Parou, incapaz de continuar.

— Sinto muito. Não houve sobreviventes.

O homem respirou fundo, numa tentativa vã de aplacar o pró prio sofrimento, e se afastou.

Amaldiçoando mentalmente os patifes capazes de infligir tanta dor, Edward saiu.

Bella o aguardava com as pernas para um só lado da sela, de modo que pudesse balançar o bebê nas coxas. Sem notar a apro ximação de Edward, plantou um beijo estalado na bochecha do pe queno, que sorriu e gorgolejou de prazer.

Ele observou a cena, perturbado.

— Vamos descansar um pouco por aqui. — Ainda precisavam encontrar uma ama-de-leite e um poço sagrado. Ao estender os braços para Bella e o bebê, Edward notou que as mãos dela estavam vermelhas. — O que houve com as suas mãos?

— Nada. — Bella esfregou uma na outra. — E então? Ele os retirou de cima da sela.

— Outro clã está tentando invadir a área à força. O povo daqui acredita que foram eles que destruíram Ardlui.

Guiou-a para dentro da pousada, consciente de que ela não po deria fazê-lo sozinha.

— Mas por que fariam isso se precisavam apenas pedir permis são para ficar lá? Existe muita terra em volta! Edward revirou os olhos. Isabella Swan não era apenas cega feito um morcego, mas também tão ingênua quanto a criança que carregava nos braços. Compreendia cada vez menos como ela pu dera sobreviver sozinha por tanto tempo.

— Conseguir terras, Bella, significa obter mais poder, mais ri quezas. Qualquer um que tiver o domínio destas terras e das águas deste lago terá alimento para centenas. E os homens, moça, cos tumam matar por muito menos.

Ela balançou a cabeça, inconformada.

— Então minha mãe estava certa. Os homens são uns tolos.

Naquele ponto, tinha razão. Ali estava ele, arriscando o próprio futuro pela segurança de Bella e do bebê, e para quê? Por mais um beijo, talvez, ou por uma nova oportunidade de ver aqueles olhos incrivelmente castanhos sorrindo-lhe.

Ainda esfregando a palma da mão contra a túnica, Bella entrou na estalagem. Ao ouvir o burburinho dos homens discutindo, sen tiu o estômago se apertar. Não conseguia discernir quantos havia na sala escura, mas sabia que eram muitos.

Quando Edward a segurou pelo cotovelo e tentou fazê-la pros seguir, ela estacou.

— Não... Melhor eu ficar aqui na porta. O bebê pode chorar. — Se entrasse, não teria a chance de fugir caso fosse preciso.

— Você é quem sabe. — Edward se afastou por um instante, retornando em seguida com um banco. — Sente-se. Vou ver se consigo comida.

Assim que ele tornou a se afastar, Bella esticou o braço para a direita. Sentiu uma brisa leve e relaxou um pouco. Edward posicionara o banco próximo à porta.

Numa tentativa de dominar o medo de ficar presa naquele lugar, respirou fundo várias vezes. Mas a vontade crescia a cada minuto. Alguém precisava de socorro, precisava dela, e não podia fazer nada. Não agora. Tinha de ficar ali, cuidando do bebê. E depois ainda convencer Edward de que era melhor permanecerem juntos.

Edward Cullen não era nada do que diziam. Após seu pri meiro encontro, tinha sido bom a maior parte do tempo. Quando não lhe dava total atenção, limitava-se a ficar mergulhado nos próprios pensamentos, mais zangado consigo mesmo do que com ela. E, quando sorria, era como se uma luz se acendesse em seus olhos, aquecendo-a feito o fogo de uma lareira.

Suspirou profundamente. Tinha tanto a fazer e tão pouco tempo. Balançou o bebê no colo, imaginando como seria os três viven do juntos na choupana. Edward caçando, ela cuidando da casa e da comida, e o bebê crescendo, saudável. Sorriu e beijou-o no rosto.

Então se pôs a cantarolar baixinho uma canção que ouvira no vi larejo. O pequeno Edward soltou uma risada gostosa e resmungou de volta, ainda sorrindo.

— Ah, gostou, não é? — Bella o pôs em pé no colo e tornou a beijá-lo.

— Tem uma voz bonita.

Ela baixou o bebê, assustada, e se deparou com um homem de cabelos brancos, ajoelhado à sua frente. Sentiu o sangue subir-lhe às faces.

— Obrigada.

— Meu neto também gostava dessa canção — o homem mur murou, esticando um dedo para o bebe segurar. — O nome dele era Brion. Brion Fraiser. Faria um ano perto do Natal.

Bella franziu a testa, confusa.

— No Natal... o feriado próximo ao samhain.

— Ah.—Ainda não tinha ideia do que se tratava, mas conhecia o Samhain, o solstício do meio do inverno. Era uma das ocasiões em que prestava homenagem à Grande Mãe.

Algo dentro dela lhe dizia para não perguntar, mas as palavras saíram assim mesmo.

— O que aconteceu com o bebê?

— Morreu com o peito cheio... há três dias. Sabíamos que podia acontecer. Ele nasceu muito frágil. Mas jamais se está preparado. Ele era tão...

Uma lágrima escorreu pelo rosto marcado, acompanhando um soluço. O coração de Bella se apertou. Suspeitando de que a von tade que a atormentava tinha a ver com aquilo, indagou:

— E os pais?

— Meu filho, Ben, também morreu... numa batalha com os Gunn, dois dias atrás.

Chocada com o tamanho da tragédia, Bella estendeu a mão e o tocou na face. Sim, o homem sofria. Mas não era ele quem clamava por ela. Estava pronto para a morte, que, na verdade, lhe seria muito bem-vinda.

— Eu sinto muito, senhor.

— Obrigado. Mas eu não vim até você para chorar minha des graça... Falei com o seu homem, Cullen. Ele me contou que está à procura de uma ama-de-leite para a criança, e a minha Ângela pode ajudá-la. Não sei se ela vai concordar, mas...

Bella parou de escutar, tomada de apreensão. Sentiu as palmas suarem e o coração negar aquilo com tanta veemência que, num impulso, puxou o pequeno Edward para o peito.

Não, Grande Mãe! Ele ê meu! Você o deu para mim! Lágrimas inundaram-lhe os olhos, e ela não conseguiu engolir o nó na garganta. O velho acariciou o rostinho do bebê, ainda emocionado.

— Podemos perguntar a ela... Bella sacudiu a cabeça com força.

— Precisamos fazer isso, Bella — a voz de Edward soou ao seu lado. — Sinto muito, mas sabe que o bebê não pode crescer sau dável tomando leite de cabra e...

—Não, eu...— Não conseguiu terminar. Queria dizer que tinha uma vida inteira de amor para dar àquela criança e tanto a ensinar: como amar a Mãe Natureza, onde cresciam as maçãs, como encontrar a melhor fibra de linho ou as mais tenras amoras. Mas as palavras não saíam.

Edward ajoelhou-se ao lado dela.

— Bella... Sei que é difícil, mas precisa fazer isso. Pelo bem do bebê.

Com o pequeno Edward remexendo-se contra o peito, Bella olhou a sala confortável e o chão de terra batida. Cheirava a carne recém-assada, velas de sebo e fogo de turfa. Como entrara ali, jamais saberia dizer.

— Venha. — O velho de cabelos brancos foi para a direita. — Ângela está aqui.

Hesitante, mas sabendo que devia, Bella respirou fundo e avan çou um passo.

— Ângela, querida... — ouviu-o dizendo à porta. — Temos companhia.

Aproximou-se da soleira, vagamente consciente de pisar agora sobre ardósia. Sob a luz de uma única janela aberta, avistou uma forma escura no centro do aposento. Imaginando ser a cama da mulher, caminhou até ela, relutante.

Ao não receber nenhum cumprimento, curvou-se para a frente, tentando enxergar melhor.

Ângela Fraiser era muito jovem. Três ou quatro verões mais nova do que ela. Entretanto aparentava ser bem mais velha, prin cipalmente levando-se em conta a tristeza dos olhos escuros. Quan do Ângela se sentou na cama, as mãos muito brancas sobre o colo, Bella notou as faces encovadas por trás da pele pálida, os lábios ressequidos feito a casca de um tronco de carvalho.

O nó na garganta foi o suficiente para alertá-la: agora sabia o motivo da vontade.

Com mãos trémulas, estendeu o bebê na direção da moça.

— Ele tem fome... Não tenho leite. Pode amamentá-lo?

A jovem viúva olhou o bebê por alguns segundos, inexpressiva, então virou o rosto para a janela.

Bella depositou o pequeno Edward na cama e buscou a mão da moça. No momento em que se tocaram, uma forte angústia inva diu-lhe o peito, roubou-lhe o ar e pareceu gelar o sangue em suas veias. Fechou os olhos, e pequenas estrelas cintilaram diante dela. Com o coração aos saltos, e tremendo dos pés à cabeça, finalmente soltou a mão da mulher.

Ângela estava disposta a morrer. Não conseguia suportar a dor de perder o marido e o filho de uma só vez.

Bella engoliu em seco, as palavras da mãe ecoando em sua mente:

Cuidado! Quando a maldição do sangue chega, outra pode vir em seguida. Se chegar, podem tentar usá-la, como me usaram. Cuspa neles, pequena Isabella, cuspa neles!

Tomada de ressentimento, raiva e medo, e sentindo-se traída pela Grande Mãe, voltou-se para Edward.

— Leve-a para a sala e faça-a sentar-se em uma cadeira. — Não podia fazer o que era preciso sobre o chão de ardósia.

Com as lágrimas correndo livremente pela face, Bella recuou para que Edward pudesse erguer a moça nos braços.

Sinto muito, minha mãe, mas não posso seguir o seu conselho... Mesmo sabendo o que está por vir.

Queria poder ignorar aquele chamado, tanto que sentia os ossos arderem com o desejo de fugir dali. Mas não podia.

Relutante, seguiu os homens até a sala. Tão logo viu Ângela largada sobre a cadeira, voltou-se para Edward.

— Agora saiam vocês dois.

— Mas,

— Façam como eu digo! — ordenou, enérgica.

Edward a fitou de cenho franzido por um segundo, então puxou o velho pelo braço.

— Coisa de mulher...

Ao ouvir a porta se fechando, Bella respirou fundo e tentou se acalmar. Com o bebê nos braços, afastou as pernas da moça de vagar, posicionou-se entre elas e depositou a criança sobre o colo de Ângela. O pequeno Edward, preso entre as duas, estaria seguro enquanto ela fazia o que precisava ser feito.

Com os pés plantados firmemente sobre a Mãe Terra, fitou a outra mulher nos olhos e absorveu sua dor.

— Não precisa ter medo... Basta ter esperança. Aceitando, finalmente, que o bebê pertenceria à outra, e que não tinha mais razão para proteger a si mesma, posicionou uma das mãos na nuca de Ângela e a outra sobre sua testa. Com voz entrecortada, e consciente de que seu coração também se partia, murmurou:

— Grande Deusa, Mãe de Todos, imploro que alivie a dor desta mulher, que acalme seu coração e cure seu espírito. Ainda que me considere indigna — abafou um soluço —, por favor, nos ajude.

Fechou os olhos, então, e esperou pelo que viria. O bebê já não seria seu e Edward, o Canteran, iria partir. A voz da mãe dela ainda ecoava em seus ouvidos: Pobre Isabella... Seu destino é ser só.

Enquanto o ancião limpava as unhas com a ponta de um punhal, pensativo, Edward caminhava do lado de fora da casa, inquieto.

— Quanto tempo uma criança leva no peito?

Bella estava lá dentro havia pelo menos uma hora, e cada minuto fora um tormento. Ele jamais sofrera tanta ansiedade, nem mesmo numa batalha.

Malcolm Fraíser deu de ombros.

— Os seios de Ângela secaram depois da morte de Brion. Talvez demore um pouco para o leite descer outra vez.

Talvez. Mas algo dizia a Edward que não era apenas isso. A tranca finalmente foi aberta e ele suspirou de alívio.

— Graças a Deus!

Quando a porta se abriu, ficou desconcertado ao se deparar não com Bella, mas com Ângela. A moça trazia as faces rosadas e o pequeno Edward nos braços, sugando-lhe o seio, satisfeito.

— Onde está Bella?

— Venha. — Ângela recuou um passo para que Edward pudesse entrar.

Ele estacou na soleira. Sentada no chão, em frente à cadeira antes ocupada pela viúva, e pálida a ponto de Edward poder enxer gar as veias azuladas sob a pele alva, Bella chorava copiosamente, agia como se as duas almas houvessem trocado de corpo, o que não fazia nenhum sentido.

— Santa Mãe de Deus! — Edward correu para ela e puxou-a contra o peito. — O que foi que aconteceu aqui?

Em vez de responder, Ângela agachou-se, ainda com o bebê nos braços, e segurou o rosto de Bella, lívido e banhado pelas lágrimas. Ao se fitarem, Edward quase pôde sentir a energia que fluía entre elas . Decididamente, não gostou daquilo.

Ângela beijou a face de Bella e se ergueu, ajeitando a criança no colo.

— Não sei bem, senhor — disse, apenas. Sentou-se, então, na cadeira, voltando toda a atenção ao bebê.

Frustrado, Edward segurou Bella pelo queixo, fitando-a no fundo dos olhos marejados. Tudo o que viu foi dor e sofrimento.

— O que foi, Bella? O que posso fazer por você?

Ela tremia dos pés à cabeça. Ele a puxou mais para si. Aquilo não era normal. Precisava fazer alguma coisa!

Ao avistar Fraiser na porta, soltou o ar que vinha prendendo.

— Traga-me algum vinho.

O homem observava a cena de cenho franzido.

— Agora mesmo.

— E um cobertor! — lembrou, antes que ele se fosse. — Ela está gelada...

O pequeno Edward gorgolejou no silêncio e Ângela o pôs contra o ombro.

— Como se chama este menininho lindo? — indagou, dando- lhe tapinhas nas costas.

Edward estava prestes a responder, quando Bella enterrou dedos em seu braço com surpreendente força.

— Dê você um nome a ele — ela disse para Ângela. Os lábios da moça curvaram-se num sorriso tímido.

— Está bem... Mas preciso pensar. — Colocou a criança para mamar no outro seio e acariciou-lhe o rosto. — Tem que ser um nome lindo para compensá-lo por tudo que passou.

Bella concordou com a cabeça, engolindo com dificuldade.

Edward a amparou, angustiado. Jamais deveria ter pedido uma ama-de-leite. Jamais deveria ter levado Bella até ali!

Ah, Bella, eu sinto tanto...

Fraíser retornou com duas canecas fumegantes, um cobertor e um prato de estanho cheio de biscoitos amanteigados. Ajoelhou-se ao lado deles.

— Trouxe hidromel para você também.

— Obrigado.

Edward enrolou a coberta em torno de Bella e levou a caneca a seus lábios.

— Beba, vamos...

Iria deixá-la sonolenta; e o sono seria o melhor remédio para o mal que a afligia. Bella mal pregara os olhos desde que haviam encontrado aquela criança.

— Desde a morte de Collin, Ângela não sai daqui — murmurou Fraiser. — Por que não passam a noite na casa dela? É a primeira choupana logo depois da igreja. Eu levo um pouco de sopa mais tarde.

— Aceitem, por favor... — encorajou-os Ângela. — Os olhos dela pousaram na túnica que Bella ainda usava. — E deixe-a es colher um vestido, ou o que quiser, na arca ao pé da cama — disse para Edward, ao ver que agora Bella parecia adormecida.

— É muita generosidade de sua parte. Ângela negou com a cabeça.

— Sua mulher é que é muito generosa. Jamais poderei retribuir o que fez por mim.

Fraiser segurou a porta para Edward, que adentrou o único apo sento da choupana carregando Bella nos braços. Havia duas ca deiras pesadas, uma delas de balanço, diante de uma lareira de pedras. À direita, uma mesa e dois banquinhos. Do outro lado, uma cama larga, ladeada por um berço.

Edward deitou Bella no colchão de penas, cobriu-a e voltou-se para ver Fraiser acendendo o fogo.

— Agradeço muito por nos terem oferecido um lugar para passar a noite. Bella não ficaria à vontade na estalagem. — Tinha notado o quanto ela ficara nervosa na presença de tantos estranhos.

Fraiser se levantou.

— Foi um prazer. E tem razão em querer sair de lá. Os homens vão passar a noite discutindo o que fazer com os Gunn. Sua mulher não teria sossego.

— Melhor levar o berço — lembrou Edward, ao ver o velho rumar para a porta. — O menino vai precisar dele.

Sem dizer que, se Bella visse o móvel vazio, iria se consumir ainda mais.

Fraiser aproximou-se do berço.

— Cuide bem de sua mulher. O que ela fez hoje... — Parou, sem força na voz para continuar. Limpou uma lágrima com o dorso da mão enrugada. — Daqui a pouco venho trazer a sopa.

Assim que Fraiser partiu, Edward recolocou a tranca na porta. Contornou a cama larga, pensativo.

— O que aconteceu atrás daquela porta, Bella? — murmurou para si mesmo.

Sem hesitar, deitou-se ao lado dela e aconchegou-a contra o peito. Afastou uma mecha do cabelo escuro que lhe caía sobre a testa e, num impulso, enrolou-a no dedo. Lembrou-se da primeira vez em que a vira e de quanto desejara fazer aquilo.

— Tem ideia do tanto que eu a quero, Isabella Swan? — Suspirou, examinando o machucado que ela ainda trazia na testa. — Devia ter me contado o seu segredo... que não pode enxergar um palmo à frente do nariz. Eu podia ter evitado ao menos uma das suas cabeçadas.

Sorriu de leve, mas o sorriso logo morreu em seus lábios. Da mesma forma que Bella tanto queria o bebê e não podia tê-lo, ele, a queria e não podia ficar com ela. E a consciência disso lhe doe no fundo do peito.

— Que situação triste esta nossa!

Havia perguntado a Fraiser se ele conhecia o clã dos Swan. O homem afirmara que jamais ouvira falar dele. Também perguntar; se sabia onde podiam encontrar um poço sagrado, mas ele não tinha idéia. Havia sugerido que perguntassem em Cairndo. Se não encontrassem um poço lá, teriam de cavalgar para o norte, ao longo da margem do lago Fyne, depois descer para o sul na direção de Inveraray, o que os faria perder um tempo precioso. Sem falar no estado em que Bella se encontrava. Iria suportar uma cavalgada daquelas?

Como se respondesse à pergunta, ela gemeu e esticou o corpo. No gesto, encostou os seios no peito de Edward. Um segundo de pois, jogou a perna esquerda sobre sua coxa e encaixou o corpo, no dele.

Edward engoliu em seco. Dois dias antes, teria feito qualquer coisa para tê-la assim... Agora não era apenas seu corpo que exigia aquela mulher. Era também seu coração.

Reunindo toda a força de vontade de que foi capaz, afastou-a com cuidado, acariciando-a de leve nas costas. Não era nenhum selvagem para aproveitar-se de uma mulher em pleno sono.

A escuridão se desfez de repente para Bella. Encontrou a mãe na frente da choupana.

— Mãe? Quem é meu pai?

— Você não tem pai.

Era mentira. Todos na vila tinham pai. Bateu o pé.

— Conte sobre meu pai!

— Você é filha da vergonha, Isabella. Da minha vergonha! Por isso seu sobrenome é Swan. Swan, de vergonha, entendeu?

— Quero saber quem é meu pa...

O tapa a pegou de surpresa. Com os olhos marejados, levou a mão ao rosto e baixou a cabeça. De novo a escuridão.

— Mãe, onde você está? — Com o coração batendo furiosa mente dentro do peito e as palmas das mãos suando frio, embre nhou-se floresta adentro. O sol tinha se posto por trás das monta nhas, mergulhando o vale em sombras, sua mãe nunca se ausentara tanto tempo. Nunca, em seus oito verões de vida.

- Mãe!

Com os braços estendidos diante do corpo, correu para a silhueta escura, caída de lado, em meio a uma cama de folhas secas.

— O que aconteceu?

Deu-se conta de que se ajoelhara em algo úmido. Sentiu o odor inconfundível de sangue e viu que a mãe segurava o corpo na altura da cintura.

— Um porco-do-mato... Ajude-me!

Porfavor, Grande Deusa... Não consigo sozinha. Sou pequena demais e não sei o que fazer!

A mãe dela respirava cada vez com mais dificuldade.

Desesperada por uma palavra que fosse, até mesmo um xingamento, sacudiu-a de leve.

— Acorde, mãezinha, acorde... Está me assustando! Mãe! Por favor... não me deixe... Mãe!

O calor de uma mão segurou o rosto dela.

— Está tudo bem. É só um pesadelo, Bella.

Bella esforçou-se para entender de onde vinha aquela voz. Era profunda, e o calor em volta, aconchegante. Soltou um suspiro trêmulo e abriu os olhos.

— Edward...

— Sou eu. — Ele afastou uma mecha do cabelo escuro do rosto dela. — Não queria acordá-la, mas estava tendo um pesadelo. Está melhor agora?

Bella limitou-se a relaxar de encontro a ele.

— Sempre tem esses pesadelos?

— Não.

Edward a acariciou nas costas, sabendo que ela mentia.

— Não quer me contar? Talvez, assim, não tenha mais.

— É só uma velha lembrança. — Tentou se levantar, inquieta, pois já devia ser hora de alimentar o pequeno Edward.

Só então os últimos acontecimentos lhe vieram à cabeça. Es condeu o rosto nas mãos, incapaz de conter um soluço. Seu bebê se fora.

— Bella.. — Edward tornou a abraçá-la com força, permitindo que ela ocultasse o rosto em seu peito, e beijou-a na cabeça. — Vai ter outro bebê. Tão bonito quanto o seu pequeno órfão. E,desta vez, ninguém vai afastá-la dele.

Edward a observou em silêncio, como se esperasse que Bella concordasse com sua predição. Preocupava-se com sua dor, mas, não podia entender seu maior medo: que justamente o que ele prometia jamais acontecesse.

Ela era amaldiçoada. Não passava de uma feiticeira. Desejando poder revelar seu sofrimento, Bella limitou-se a con cordar com a cabeça, em silêncio. Edward a abraçou mais.

— Não sei bem o que se passou enquanto estava com Ângela Fraiser. Só sei que você é a mulher mais corajosa e generosa que já conheci e estou muito feliz por havê-la encontrado, Isabella. — Acariciou-a no rosto.

Bella apaixonou-se por Edward Cullen nesse exato mo mento.

Precisando do calor e da força que emanavam dele, puxou-o pela nuca e beijou-o com paixão,

Edward gemeu quando ela abriu os lábios e, segundos depois assumiu o controle, beijando-a como se quisesse mergulhar dentro dela. Bella sentiu um calor estranho espalhar-se por seu corpo e, como por milagre, desapareceu a dor que lhe apertava o peito. Atordoada, cedeu às sensações e aos desejos que não tinha palavras para explicar.

N/A: Olá girls!! Obrigada pelas Reviews!

Priis Cullen: A Bella é bem atrapalhada mesmo. rsrsrs Mas quem me dera ser atrapalhada e achar um homem desse =P Mas não se preocupe que não vou parar de postar as atrapalhadas dela!! Bjs fofos pra vc tb! ^^