Capítulo VII
Bella abaixou-se sobre o pedregulho que rodeava o lago Lomond, abraçou os joelhos e encolheu os ombros sob o vento cortante. Sentiu as faces úmidas arderem ao olhar a imensidão negra que se sobrepunha às margens.
Seria fácil. Só precisava entrar ali e pôr um fim à sua dor. Não teria mais de se preocupar com o que iria comer no inverno se guinte. Nem se continuaria sozinha.
Mas conseguiria afundar? Passara a vida nadando, sem que nin guém a houvesse ensinado.
Talvez não fosse a melhor das ideias. Provavelmente subiria à superfície feito uma maçã em um balde de água. Mas não podia continuar assim dia após dia, deixando-se consumir por aquela angústia, vendo o desprezo, ou pior, o medo, nos olhos das pessoas.
Lembrou-se de Edward sentado à sua frente, à mesa; do modo como a evitara e ignorara, e sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto novamente.
— Por que fui gostar tanto de você, Edward Cullen?
— Gosta dele, é?
Soltou um grito e caiu para trás, mergulhando os braços na água gelada.
Um estranho, tão alto e forte quanto Edward, estendeu as mãos e a segurou pela cintura.
— Calma, moça! Não vou lhe fazer mal.
As nuvens escolheram esse exato momento para se abrir, e o luar iluminou o rosto do homem que a segurava. Bella nunca na vida tinha visto um rosto tão belo. Parecia feito de ouro: os cabelos a pele.
— Sou amigo de Edward, e você deve ser a Bella que esta perdida.
Emudecida pela surpreendente visão, ela só conseguiu piscar — Sou Emmet MacKay, cavaleiro armado, defensor dos fiéis, e seu inteiro dispor. — Sorriu, exibindo duas covinhas, para depois desviar o olhar, por algum motivo, para o decote dela. Bella engoliu em seco, procurando as palavras.
— Sou eu mesma.
Ele a soltou um pouco, uma das mãos ainda amparando-a pela cintura.
— E um prazer conhecê-la, Bella. — Guiou-a para um penedo que ela nem sequer avistara. — Sente-se aqui e me conte por que uma menina tão linda está sozinha no escuro, pensando no meu amigo descuidado.
Bella torceu as mãos, tremendo de nervoso e de frio.
— Ele não é descuidado. Nem um pouco, na verdade. É muito bom.
Emmet ajoelhou-se diante dela e tomou a mão pequena entre as suas.
— Agora me conte o motivo de toda essa lamúria e choradeira. Talvez eu possa ajudar. Conheço o teimoso do seu homem há mais tempo do que gostaria.
Bella fitou os olhos do estranho, agora verdadeiramente solenes, e desabou.
Numa profusão de palavras, e em meio a um rio de lágrímas confessou todos os medos. Contou como Edward a encontrara, do pavor que sentira até ele salvá-la na ribanceira, de sua união acidental, de como ele a abraçara e beijara, sobre o bebê que fora obrigada a entregar a outra, e de como agora estava certa de ter perdido Edward. Tudo num só fôlego. Então silenciou. Também em silêncio, Emmet a estudou por um instante. Já tinha ouvido a versão de Edward, bem mais resumida, era verdade. Ao ver que ela não retornara à choupana, seu amigo en trara em pânico. Tinham se separado, então, e Edward seguira para as montanhas atrás do vilarejo, enquanto ele viera para o lago. Agora, após ouvir a versão de Bella, chegou à conclusão de que jamais, em seus vinte e nove anos de vida, tinha conhecido alguém tão surpreendente.
Sem afetação, Bella revelara todos os detalhes de seu infortúnio, ainda que não houvesse compreendido uma boa parte. O fato é que ela não tentara ganhar sua simpatia, nem dissimulara suas emoções colocando toda a culpa em Edward. Tomará a culpa para si, embora Emmet não imaginasse por quê. Até onde sabia, seu amigo agira como um idiota. Mas uma coisa estava certa: aquela mulher de tão incrível beleza estava completamente apaixonada pelo sortudo do Cullen!
Mas podia ajudá-la. Sabia bem como. Afinal de contas, não o chamavam de O Ladrão de Corações por nada...
E tinha tempo suficiente. Se fizesse aquele favor para a esposa de Edward, talvez também ele fosse abençoado um dia com uma mulher tão autêntica e pura de coração. Isso se sobrevivesse às batalhas.
Decidido, abriu o sorriso que fazia metade das moçoilas da Escócia quase desfalecerem a seus pés.
— Muito bem, Bella. Agora que ouvi o que você tinha para dizer, talvez possa ajudá-la a colocar um pouco de juízo na cabeça de Cullen. — Deu um tapinha na mão dela, notando, surpre so, os pequenos calos. Também não era avessa a trabalho, con cluiu, pensativo. Melhor ainda. Donaliegh precisava de uma castelã assim. Da última vez que visitara o lugar, encontrara-o quase em ruínas.
Não temia roubar o coração dela. Era óbvio que Bella amava aquele tolo além da razão. Temia, apenas, que suas artimanhas provocassem a ira dela.
Tinha certeza de que, por trás daquela beleza frágil e daquele nome esquisito, havia uma verdadeira leoa. Ia soltar a mão de Bella, quando a voz de Edward ressoou bem atrás dele.
— Pelo jeito a encontrou.
De costas para o amigo, e ainda apoiado em um joelho, Emmet piscou para ela, discretamente, antes de se erguer e oferecer-lhe a mão.
Bella a aceitou, sem hesitação, enquanto ele se voltava para Edward com a mais ingênua das expressões.
— E como não encontraria a moça mais bonita e encantadora da cidade?
— Como não? — ironizou Edward, tentando conter a própria irritação. Tomou a mão dela para si, sem desviar o olhar de MacKay, antes de se concentrar em Bella. — Você está bem?
— Sim. Apenas com frio.
Puxou-a para mais perto e percebeu que tinha as faces e os cílios úmidos.
— Andou chorando... O que aconteceu aqui, afinal?
— Calma lá, amigo! Ela já estava aos prantos quando a en contrei.
Sem poder refutar a informação, Edward sentiu uma pontada de culpa. Bella estava realmente aborrecida ao deixar a choupana. Assim que voltassem para lá, podiam esclarecer tudo.
Guiou-a pelos ombros e ela olhou, apreensiva, na direção de Emmet. Sua pouca visão devia ter impedido que ficasse impressionada com o amigo dele, o que era bom.
— Obrigado — Edward dirigiu-se a Emmet. — Sei que tem assuntos a resolver, portanto boa noite.
— Na verdade, não tenho nada para fazer no momento.
— Já jantou, sir? — indagou Bella.
— Ainda não, milady.
— Então se junte a nós. Temos comida de sobra. — Lançou um olhar para Edward. — Ele é seu amigo, não é?
Edward comprimiu os lábios. O que poderia dizer?
— Sim. Vamos, então.
Tinha ouvido a gargalhada de Emmet ecoar no lago, minutos antes. Na certa, estivera se exibindo para Bella. Quando planejava avi sá-lo de que a havia encontrado? Depois de jogar todo o seu char me? Não iria perdoá-lo por isso.
Puxou Bella estrada afora, abriu a porta da choupana e a fez sentar-se em frente à mesa. Após enrolar um cobertor em seus ombros, atirou mais turfa ao fogo.
— Está mais quente agora?
Ela demorou um pouco mais do que o normal para responder.
— Estou.
Quando Emmet se acomodou do outro lado da mesa, a cabana de Ângela pareceu repentinamente menor. Contrariado, Edward distri buiu um pedaço de torta de peixe para cada um e tratou de comer o seu. Franziu a testa. Quando o velho Fraiser afirmara ser melhor "comer a torta quente", não tinha mentido. Fria, lembrava mais um pedaço de carvão.
Bella, ao contrário dele, não pareceu nem um pouco incomo dada. Bastou Emmet começar a contar histórias sobre o atual bobo da corte, e até se esqueceu do que estava comendo, os olhos claros cintilando de curiosidade.
Sem apetite, Edward empurrou o prato.
— Para qual missão Albany o enviou?
Emmet ainda sorriu para Bella, antes de também se mostrar satisfeito.
— Melhor não dizer.
— Não precisa se preocupar. Bella nem sequer vai saber de quem está falando.
Emmet considerou a informação por um instante.
— Estou a caminho de Dunberg. Albany suspeita de que os Campbell estão conspirando. Parece que dois espiões foram pegos deste lado da fronteira carregando esboços detalhados das ameias do castelo de Edimburgo e também de Sterling. — Parou, olhando para Bella antes de prosseguir: — Depois de muitas horas na mas morra, um dos espiões finalmente mencionou Dunstaffnage antes de, falecer.
— O pobre homem morreu? — Bella ergueu as sobrancelhas.
— Sim.
— A água por lá é muito ruim — murmurou Edward, os olhos fixos nos de Emmet. — Muita gente fica doente.
— Então deviam dizer às pessoas para ferver a água, sobretudo se as vacas bebem dela. — Ela terminou de mastigar o último pedaço de torta, parecendo bastante satisfeita. Ao ver que ambos a fitavam, pasmados, sorriu. — Boa esta torta, não?
— Sim, muito... — os dois disseram ao mesmo tempo, e ao fazê-lo, desataram a rir.
Bella olhou de um para outro.
— Qual a graça?
— Nenhuma — respondeu Emmet, escondendo-se por trás do ca neco de cerveja.
Evitando o olhar dela, Edward fingiu ocupar-se com um pedaço de pão.
— Não acredito que Campbell esteja envolvido numa traição, dessas.
Campbell fora padrinho de Carslile, seu senhor. Os Cullen e os Campbell já tinham lutado lado a lado.
— Nem eu. — Emmet engoliu o resto da cerveja. — Mas preciso investigar, já que Albany ordenou.
Lambendo os dedos após o terceiro pedaço de torta, Bella tornou a se manifestar:
— Quem é Albany?
— O duque de Albany é tio do nosso legítimo rei — explicou o amigo de Edward.
— Ah. Não esqueça de dizer para ele ferver a água também. Emmet arqueou as sobrancelhas, rindo e fitando-a como se ela fosse de outro mundo. Edward suspirou. Sim, Bella era mesmo uma criança. E era melhor que o amigo mantivesse aquele sorriso bem longe dela!
— Quanto tempo vai levar para ir a Dunstaftnage e voltar? — Quanto antes o Ladrão de Corações partisse, melhor.
— O tempo que for necessário. — Emmet tornou a encher as ca necas de cerveja. — Não tenho estômago para essas coisas de inimizade pessoal.
Edward analisou a situação, preocupado. Se uma guerra estava por vir, então o quanto antes Carlisle soubesse, mais cedo pode riam preparar Blackstone e o clã. Não poderia haver razão melhor para resolver aquela questão de casamento.
Bella bocejou, então empurrou a cadeira.
— Estou exausta. Se me dão licença... Sir MacKay...
Os dois se levantaram. Emmet tomou a mão dela e depositou um beijo na pele macia.
— Boa noite, milady. E, por favor, me chame de Emmet. Bella corou de leve.
— Está bem — disse, sorrindo. — Por que não dorme aqui conosco, junto da lareira? Vou dormir do lado da parede — co municou a Edward.
Sem fala, tanto pelo convite estapafúrdio feito a seu amigo, quanto pelo modo como ela se afastou, decidida, Edward só pôde observar enquanto Bella se enfiava sob o cobertor e, sem pensar duas vezes, livrava-se da túnica verde, atirando-a ao pé da cama.
Santa Mãe de Deus! Ela estava nua em pêlo, considerou Edward. E na presença de um marmanjo que mal conhecia!
Bella limitou-se se a virar de lado, de costas para eles.
A risada de Emmet ressoou na cabana.
— Não era bem o que eu estava pensando, mas... — Observou a expressão chocada do amigo. — Que escolha difícil a sua... Dor mir ao lado dessa beleza ou perto da lareira, comigo. — Sorriu, indicando-lhe a cadeira.
Edward respirou fundo e tornou a se sentar.
— Chega de gracinhas. Por acaso já ouviu falar do clã dos Swan?
Se alguém tinha alguma informação a respeito deles, era Emmet. Espião do rei, e agora do duque de Albany, passara os últimos cinco anos por dentro de todos os assuntos do reino.
— Não. Talvez o clã dela seja inglês.
Não era o que Edward esperava ouvir. Se Bella fosse realmente inglesa, então tinha apenas duas alternativas. Levá-la de volta para seu povo, o que não seria nada bom com os Newton por lá, ou carregá-la consigo para Blackstone, o que não seria muito bem recebido por sua futura esposa.
— E por acaso sabe onde posso encontrar um poço sagrado?
— Sei.
A expressão dele se iluminou. —- Onde?
— Ao sul de Kelso.
— Santo Deus, homem, fica do outro lado do reino! Preciso de um por aqui!
Emmet deu de ombros.
— Há um nas montanhas acima de Drasmoor, no lugar onde brincávamos quando crianças. Lembra? Aquele que chamavam de Vale das Lágrimas.
O amigo se referia a uma nascente que havia nas terras dos Cullen, a quilometros e quilômetros do castelo de Beal.
— Não há nenhum mais próximo?
— Pode haver, mas eu não sei. — Um segundo depois, Emmet se curvou sobre a mesa.—Diga a verdade. Ela é mesmo tão inocente quanto parece?
Edward bufou.
— Mais do que imagina.
— Então Bella não é deste mundo. — Emmet esfregou o queixo, o olhar fixo nas costas dela. — O que é muito interessante...
De punhos cerrados, Edward projetou o corpo sobre a mesa.
— Guarde seu charme para si mesmo, se sabe o que é bom para você. Não vou deixar que a magoe.
Emmet sustentou o olhar do amigo, num desafio.
— Está me lembrando um daqueles cães que guardam as man jedouras. Não podem comer o feno, nem querem se deitar nele, mas também não deixam a vaca chegar perto. Por que isso?
Por quê? Porque ele queria Isabella Swan com uma intensi dade que beirava a dor física, e não podia tê-la. Não sem faltar com a própria palavra, não sem ficar sem Donaliegh. Não sem perder a única chance, naquela maldita vida, de se tornar seu pró prio senhor.
Emmet balançou a cabeça, depois bocejou e se levantou.
— E então, o que vai ser? A cama ou o chão? Eu fico com qualquer um dos dois.
Cerrando os dentes, Edward rumou para a cama. Com os olhos faíscando, encarou o amigo, livrou-se da camisa larga e meteu-se sob as cobertas ao lado de Bella.
— Não se esqueça de apagar a vela — lembrou a Emmet, mesmo sabendo que não pregaria os olhos naquela noite.
Ao sair da última cabana que pôde encontrar, Fegan Newton correu os olhos pelo vilarejo de Crianlarich à procura do irmão. Vendo que Erick deixava a choupana do outro lado, caminhou ao encontro dele.
— E então?
— Nada. Nem sinal de Cullen, nem do cavalo, nem da feiticeira.
Fegan bufou, praguejando baixinho.
— Eu estava certo. Devíamos ter ido para o oeste. E agora? Melhor retornarmos.
Tinham perdido um tempo precioso obedecendo às ordens de seu senhor e rumando para o norte. Agora tanto eles quanto as montarias estavam exaustos, enquanto Newton continuava em casa, pronto para decapitar alguém.
O irmão dele correu os dedos pelos cabelos desalinhados, mi rando a lua. Já estava na metade de seu curso, em direção às mon tanhas do oeste.
— Comemos e seguimos para o sul. Não temos tempo para dormir, mas eles devem achar que têm. Se a sorte ajudar, nós os alcançaremos amanhã, antes do pôr-do-sol.
Fegan concordou com a cabeça, conformado. Quanto antes des se cabo daquele assunto, mais cedo voltaria para casa com a fei ticeira. Mary estava prestes a dar à luz e não queria a mulher dele parindo sem a presença da feiticeira.
Bella acordou ao som reconfortante da respiração de Edward e com o peso e o calor de seu braço em sua cintura. Durante o sono, tinha se virado e posto uma perna sobre a dele. Agora descansava a cabeça no ombro largo, a mão direita sobre os pêlos finos e escuros que lhe cobriam o peito. Uma semana antes, teria levado um susto ao se ver naquela posição com um homem seminu. Ago ra, tudo o que fazia era fitar, admirada, o tórax musculoso subindo e descendo placidamente.
Grande Deusa, ele era maravilhoso... Mas, assim como o pe queno Edward, não era dela. A menos que Emmet, o Homem Dourado, houvesse feito alguma mágica durante a noite, coisa de que Bella duvidava.
Na noite anterior, quando os três comiam à luz da vela, tinha observado Edward com atenção. Ele parecera nervoso, ainda que menos retraído. Chegara a tocá-la, pusera a manta em torno dela, mas não era o mesmo que fazer um carinho ou beijar. Devia ter agido assim só para não parecer muito rude diante do amigo. E, apesar de ter cochichado enquanto ela tentava dormir, ouvira-o perguntar a Emmet sobre o poço sagrado.
Ele que rompesse com a união, pensou, contrariada. Iria fazer isso sozinho.
Uma batida na porta fez Edward sentar-se de um salto, o braço esquerdo buscando a espada. Só então se deu conta de onde estava, que não havia muitos riscos, e piscou, confuso, ao olhar para Bella. Quando seu olhar pousou nos seios desnudos, soltou uma espécie de gemido e se pôs em pé, não antes de cobri-la até o pescoço com a manta.
— Bom dia — resmungou.
— Bom dia — ela respondeu, certa de que o dia não seria tão bom assim. Edward tornara a erguer aquela estranha barreira entre eles.
As batidas tornaram a soar e Emmet virou-se para o outro lado, mal-humorado.
— Vá para o inferno!
Bella arregalou os olhos e ergueu-se sobre um cotovelo.
— Onde é o inferno? — Talvez pudesse encontrá-lo! Tinha ouvido as crianças dos Newton falarem nele, portanto devia ser próximo do vale.
Edward demorou a entender a pergunta.
— Não sabe o que é inferno?
— Não.
Ele balançou a cabeça e terminou de vestir a túnica.
— É para onde vão os pecadores.
Pecadores. Outro clã do qual ela jamais ouvira falar.
— É muito longe esse inferno?
Edward suspirou e caminhou até a porta com passos largos.
— Não se preocupe, Bella. Você não vai para lá nunca.
Ah! Se ele não queria dizer, então perguntaria a Emmet. Com cer teza ele sabia onde ficava. Pois então não era um homem viajado?
A porta se abriu e raios de sol inundaram a choupana, obrigan do-a a semicerrar os olhos claros.
— Bom dia — ouviu Ângela dizer. — Eu trouxe alguma coisa para o desjejum. — Entrou na cabana, estacando em seguida. Quem é esse?
— Um amigo inofensivo.
— Ah.
Sem se abalar, a moça seguiu para a mesa, onde depositou uma tigela. De imediato, Bella sentiu o aroma de pão fresco e, se não explicou Edward em meio a um bocejo. — É estava enganada, de chouriço. Seu estômago roncou. Ângela Fraise era, sem sombra de dúvida, a mulher mais generosa do mundo. Não apenas tinha cedido a própria casa para que passassem a noite, mas também dividia com eles seu alimento. Ainda que doesse admitir, Edward tinha razão. O bebê estava em excelentes mãos. Ela mesma, uma feiticeira, jamais poderia proporcionar tanto, mesmo que desse o melhor de si.
Admitir isso fez o peito de Bella se apertar e o apetite abando ná-la por completo.
— Bella? — Ângela se aproximou da cama. — Como está se sentindo?
— Muito bem, obrigada. — Respirou fundo, reunindo forças. — E o pequeno? Como vai?
Ângela abriu um sorriso tão brilhante quanto o sol às suas costas.
— Está ótimo. Hoje de manhã mamou até quase me virar do avesso e depois caiu no sono. E então, decidiu o que vai pegar da arca?
— Hã?
— Homens... — A moça torceu os lábios e rumou para o baú ao pé da cama. Tirou dele metros e metros de tecido, sacudiu-os e espalhou-os sobre a cama.
— Minha mãe! — exclamou Bella. As sedas e brocados em seu colo eram indescritíveis. Ao ouvir um assobio, ergueu a cabeça e se deparou com Edward espiando por sobre o ombro de Ângela.
— Eu era uma Lindsey antes de me casar com Ben. — A moça acariciou a seda verde-clara e soltou um suspiro. — Não os uso desde que deixei a corte, há dez anos. Não queria que ninguém me achasse uma exibida.
Edward tocou o barrado de um dos vestidos, impressionado.
— Rompeu com os costumes e adotou o nome dele, apesar de Lindsey lhe ser mais favorável e explicar o seu relacionamento com o rei..
Ela deu de ombros.
— Ben tinha a sua vaidade. Orgulhava-se de ser um Fraiser e me fazia ter orgulho também.
Sem entender do que conversavam, Bella acariciou os ricos tecidos, maravilhada.
— Não posso...
— Você deve — interferiu Ângela. — Agora é uma Iady Cullen, esposa de um cavaleiro. Precisa se vestir à altura. Além: do mais, eles vão se estragar se continuarem trancados neste baú. Os fios de prata precisam do calor e do contato da sua pele para ficar sempre maleáveis. —Colocou um dos vestidos contra o peito de Bella, depois o outro, franziu a testa e, em seguida, remexeu a arca de novo. Dessa vez retirou um traje azul-turquesa. Colocou-o na frente da amiga. — É este. Fazem seus olhos ficarem ainda mais lindos.
Bella mal podia respirar. Não apenas tinha diante de si as roupas mais belas, como também recebera um elogio que jamais imagi nara possível. Com os olhos marejados e um nó na garganta, tocou as três fileiras de pequenas pérolas que adornavam o decote do corpete.
Ângela pusera de lado os ricos vestidos quando tinha se apai xonado e desejado filhos. Agora eles surgiam de novo porque ela, Bella, abria mão de uma criança e do homem que amava. No mun do da Grande Deusa, tudo era um ciclo.
Respirou fundo.
— Não posso aceitar, eu...
— Pode e vai aceitar, ou eu tranco aquela porta e não a deixo mais sair até mudar de ideia!
Edward tomou a mão de Ângela e a levou aos lábios.
— Muito grato, milady — murmurou com voz grave. — Se precisar de proteção...
Ângela sorriu e deu um tapinha na mão dele.
— Se cuidar bem dela, já terá retribuído o suficiente. Por detrás deles, a figura enorme de Emmet se fez notar.
— Milady... — limpou a garganta. — Emmet MacKay a seu inteiro dispor. — Curvou-se e tomou para si a mão de Ângela. — É muito generosa. — Voltou-se para Bella; — Concordo com Iady Fraiser. O azul ficará perfeito em você.
— Já que todos concordamos — Ângela riu, um pouco sem graça —, devem sentar-se e comer, cavalheiros. Nós, mulheres, temos muito trabalho a fazer.
— Quer parar de andar de um lado para outro e sentar? Está me dando dor de cabeça.
Edward lançou um olhar irritado ao amigo e continuou de lá para na frente da cabana dos Fraiser. — Por que estão demorando tanto?
O sol já ia alto no céu. Além disso, lembrava-se muito bem do que acontecera da última vez em que Bella e Ângela tinham ficado a sós.
— Ela está bem — assegurou Emmet. — Sabe como são as mu lheres. Levam horas para se enfeitar.
Edward torceu o nariz. Bella não se enfeitava. Acordava, comia, lavava-se e estava pronta para partir. Era, na verdade, uma de suas maiores qualidades. Não se importava com a aparência, como a maioria das mulheres. Nisso e em sua coragem, era tal qual um homem.
Lançando um olhar a Emmet, reformulou a ideia. Bella não era tal qual amaioria dos homens. Não conseguia entender como o amigo parecia um soberano da mais alta estirpe depois de tanta cerveja e tão pouco tempo de sono num chão duro e empoeirado.
A porta se abriu de repente e ele estacou no lugar. Diante de seus Olhos, não viu a órfã abandonada Isabella Swan, mas uma prin cesa de contos de fadas, cintilando ao sol do meio-dia. Com as faces coradas, os lábios pintados de vermelho, trajando o vestido azul-turquesa e o cabelo negro preso a cada lado da cabeça por um par de adornos de prata, Bella estava simplesmente deslumbrante.
— Santa Mãe de Deus...
Estava perdido. Primeiro, pelo desejo que sentiu pulsar no cor po. Segundo, porque, por decreto real, nenhuma plebeia usava aquela roupa. Ia ser enforcado.
Pois que fosse. Jamais diria à linda Bella para se livrar do traje. Era tudo dela.
A voz de Emmet rompeu seus pensamentos:
— Tirou meu fôlego, milady. E eu morreria feliz diante de tão ofuscante beleza.
Edward deu um tranco no amigo.
— Melhor morrer em outro lugar. Tomou a mão de Bella e levou-a aos lábios.
— É como a lua ofuscando o sol — murmurou.
As palavras, que nunca dissera antes, estavam num dos livros que ganhara de lady Esme. Palavras escritas para outra mulher, mas que agora dizia de coração para sua noiva acidental. Ao se dar conta disso, sentiu medo. Se continuasse a procurar o tal poço sagrado, poderia estar abrindo mão de mais do que ele jamais imaginara ganhar.
Tentou livrar-se do pensamento e limpou a garganta.
— Precisamos partir. — Curvou-se para Ângela. — Tem minha eterna gratidão, lady Fraiser.
Em resposta, ela o tocou na face.
— Deus o proteja. — Voltou-se para Bella; — Obrigada por me salvar. Prometo amar aquele menino para o resto da vida. E, quando ele crescer, eu lhe contarei sobre vocês, para que com preenda o quanto é afortunado.
Com os olhos marejados, Bella abraçou a amiga em silêncio. Depois caminhou até Rampante, as costas eretas e rígidas, o sem blante lívido.
Edward a seguiu, preocupado.
— Você está bem?
— O nome dele será Collin — ela contou, com voz trêmula, apoiando-se nos ombros largos enquanto ele a erguia sobre o ca valo. Edward a ajeitou sobre a sela, repentinamente deprimido. Sa bia que, com o tempo, Bella o perdoaria por havê-la tirado de casa. Mas jamais o perdoaria por havê-la obrigado a abrir mão do pe queno Edward.
Voltou-se para acenar para Emmet e viu que o amigo já se encon trava em sua própria montaria.
— Desejo-lhe sorte em sua viagem a Dunberg — disse.
Um sorriso iluminou as feições bem-feitas do rapaz, antes de ele desviar o olhar para Bella significativamente.
— Não precisa. Decidi lhes fazer companhia.
— Cullen e a feiticeira devem ter passado por aqui. — Erick Newton segurou um pedaço de madeira queimado, pró ximo ao celeiro em ruínas. Teria Edward, o Terrível, participado daquela chacina em Ardluí? Mesmo sendo hábil na espada, estre meceu. — E então?
Fegan suspirou.
— As choupanas ficavam muito distantes uma da outra para o incêndio ter sido acidental. — Haviam encontrado um verdadeiro cemitério, com cerca de trinta corpos, e pegadas recentes de lobo por entre as ruínas ainda quentes das casas. — Não acredito que Cullen tenha feito isso sozinho. Talvez os Fraiser estejam em guerra.
— Quanto tempo temos até o próximo vilarejo?
Fegan estudou as nuvens carregadas pairando no horizonte.
— Se o clima ajudar, estaremos em Inveruglas na hora da ceia. O pensamento deixou Erick com água na boca. Havia dias não tinham uma refeição decente.
Em Tarbot, ninguém conhecia um poço sagrado. Edward, Bella galoparam adiante, rumando para o oeste.
No outro extremo da floresta, num pequeno amontoado de ca sas, cruzaram com um pastor e sua mulher. Nenhum dos dois sabia dar qualquer informação a respeito.
Seguiram viagem. Nos arredores de Cairndow, Emmet suspirou.
— Não vamos chegar a Inveraray antes do anoitecer.
— Eu sei — concordou Edward. Na verdade, havia muito se preocupava com o ritmo com que se deslocavam. Tinha apenas uma quinzena antes de ser obrigado a retornar a Blackstone. Menos ainda, se pretendia alertar Carlisle quanto aos riscos que corriam. Se estivesse só, teria arriscado cavalgar durante a noite; porém tinha a segurança, e agora também os trajes de Bella, para levar em conta.
Ao entrarem em Cairndow, atentos para qualquer problema, Edward estalou a língua.
— Se não houver nenhuma estalagem, talvez alguma família dê abrigo a Bella. Nós dois podemos nos acomodar em um estábulo.
Emmet pousou a mão no ombro do amigo.
— Se quiser, eu posso cuidar dela durante a noite... Sairia mais barato. — Sorriu, exibindo as covinhas.
Edward riu pela primeira vez em dias.
— Continue andando, seu pilantra.
Alheia ao diálogo, Bella farejou o ar.
— Vai chover logo —murmurou, sentada desconfortavelmente de lado na sela, graças ao volume do novo vestido.
Atraído por um barulho de metal, Edward fez a montaria virar à esquerda e encontrou um estábulo de bom tamanho.
— Boa noite, ferreiro.
O homem enxugou o suor da testa com o dorso da mão. Pousou a pesada marreta sobre um ombro e examinou Rampante.
— O que posso fazer para ajudá-lo, sir?
— Tem lugar para duas montarias? O homem esticou o pescoço.
— Só estou vendo uma.
— Também tenho um companheiro em busca de abrigo.
— A aldeia está lotada por causa da feira. — O ferreiro olhou para Bella. — Por dois bodles cada um, o cavalo pode pastar lá atrás. — Apontou, por cima do ombro, para um cercado com três póneis cheios de lama.
Edward comprimiu os lábios. O estábulo estava quase vazio. Era óbvio que o homem queria explorá-los. Mas não tinha alternativa, se pretendiam passar a noite secos.
— Três bawbees por três baias com feno fresco. O homem estendeu a mão.
— Feito.
Edward buscou as moedas na algibeira e depositou-as na mão calejada do ferreiro. Ao menos os cavalos estariam secos e seguros, e ele e Emmet teriam onde descansar.
Um tiro espocou em algum lugar, e Bella pulou, quase caindo da sela. Edward a amparou.
— O que foi isso? — arregalou os olhos, assustada.
— Calma. Deve ser algum jogo. Hoje é dia de feira.
— Jogo? O que é isso?
— Uma brincadeira onde crianças ou adultos competem uns com os outros por esporte ou por prêmios como moedas, doces; às vezes até mesmo por um ganso. — Desmontou e segurou-a pela cintura. — Quer ver?
— Sim, quero dizer, talvez. — Bella mordeu o lábio. — Não sei. Ele sorriu e guiou-a pelo cotovelo.
— Vai gostar. Vamos... Temos mesmo que encontrar Emmet. Bella agarrou se ao braço dele quando um barulho de gente e animais encheu-lhe os ouvidos. Não tinha muita noção de quantos eram, mas sabia que jamais estivera no meio de tantas pessoas em toda a sua vida. Conforme Edward a conduzia pela rua de terra, galinhas corriam para um lado, cabras para outro.
Uma gritaria se fez ouvir mais adiante, e Edward esticou o pes coço para olhar por cima da multidão.
— Vamos, vai ter cattlepull.
— O quê?
— Os homens colocam seus cavalos ou bois lado a lado, arras tando pesos. O mais forte vence. Sempre correm apostas. Venha. Na certa, Emmet está por aqui. Não perderia uma oportunidade como esta de encher a bolsa.
Bella deu de ombros, fingindo indiferença, embora, por dentro, fervilhasse de ansiedade.
No outro lado da aldeia, à margem de um campo aberto, en contraram o amigo.
— Em qual deles apostou? — indagou Edward.
— No baio de patas brancas.
Bella não conseguia enxergar nada, a não ser duas manchas marrons movendo-se no centro da enorme nódoa verde.
— Encontrou uma estalagem? — gritou Edward, em meio ao barulho da multidão.
— Encontrei, apesar de o preço ser meio salgado. Sua lady vai dormir numa cama decente.
Bella franziu a testa ao sentir algo macio roçarem seu tornozelo. Abaixou-se devagar e avistou uma bola de pêlo cinzenta, que a fitava com um par de imensos olhos verdes. Sorriu, extasiada.
— Que lindo!
Sempre quisera ter um gato. Sonhava com aquilo desde que pudera acariciar um, na vila dos Newton. Com mãos trêmulas, tentou tocá-lo, mas o bichinho escapuliu. Frustrada, foi atrás dele, desviando-se dos mascates pelo caminho. O gato miou, e ela virou para a esquerda. Continuou, contando os passos que dava em cada direção, de modo que pudesse encontrar o caminho de volta até Edward.
Ao se aproximar de uma rua estreita e sombria, sentiu as palmas das mãos formigarem e, mais uma vez, uma enorme angústia tomou conta de seu peito.
Não! De novo, não..., pensou, agoniada. Quando estava em casa, era invocada pelos Newton uma vez a cada lua cheia; às vezes menos. Desde que deixara o vale, contudo, fora tomada pela vontade três vezes. Se aquilo continuasse, em pouco tempo viraria pele e osso.
Coçou as palmas e aguçou os ouvidos, tentando ouvir o gato. Nada. Mas a vontade se manifestava outra vez. E agora mais forte. Desapontada por perder o bichano, respirou fundo e tentou se concentrar. Não teria paz, a menos que resolvesse aquilo de uma vez. Queria tanto aproveitar aquele lugar e, quem sabe, reencontrar o gatinho. Com sorte, a vontade seria fácil de atender, assim como quando fizera a boneca para a menininha do vilarejo.
Entrou na rua estreita. Ao final dela, ouviu algo estranho e curvou-se, tentando identificar o que lhe pareceu um monte de terra. Conforme se aproximou, o monte se mexeu, e Bella recuou, as sustada. Era uma mulher em farrapos, segurando nos braços um bebê desmaiado.
— Ajude-me!
Bella agachou-se devagar, enxergando melhor o rosto encovado e os olhos fundos. Tocou-lhe o ombro.
— Onde está seu marido?
A mulher olhou para o corpinho inerte do filho.
— Morreu há três meses.
Jamais ajude um estranho que conta as passagens da lua em meses. Os que o fazem são seguidores dos padres, que vestem preto. Esses só lhe trarão dor. Farão de tudo para destruí-la. Bella estendeu a mão e tocou a cruz de madeira que pendia da tira de couro, em volta do pescoço da mendiga. Era o símbolo dos padres. Igual ao que Lady Newton usava.
Respirou fundo. Não tinha coragem de dar as costas a ninguém. Decidida, ergueu-se, livrou-se dos sapatos e plantou os pés na Grande Mãe. Temendo pelo que viria depois, sentiu o coração disparar dentro do peito.
—Precisa confiar. Como nunca confiou antes. E depois manter este nosso segredo.
