Capítulo VIII

Embora com os olhos fixos na corrida de cavalos, os pensa mentos de Edward estavam nas reações de Bella diante da feira.

E o modo como as pessoas a fitavam, então? Ninguém imagi naria que estava longe de ser uma lady. Andava ereta, com um lindo sorriso nos lábios. E ria muito, espontaneamente, atraindo os olhares masculinos. Se as circunstâncias fossem diferentes, se ria uma castelã perfeita para um homem ambicioso como ele. Ape nas a visão de Bella vestida em ricos brocados era suficiente para lhe roubar o ar e deixá-lo de pernas bambas. Então, por que razão iria abrir mão dela?

Pensando na possibilidade de conversar com lady Esme para ensinar algumas coisas a Bella, Edward sentiu um pingo de chuva e virou-se para avisá-la.

Ela não estava a seu lado.

Olhou ao redor, o coração aos saltos.

— Bella!

Sem resposta, abriu caminho em meio à multidão. .. — Bella! — chamou outra vez, sem sucesso. Onde diabo ela se metera?

— O que houve? — Emmet se aproximou com dificuldade.

— Bella sumiu.

— Não se preocupe. Deve ter se interessado por algo das bar racas.

— Não. — Edward apertou o passo, olhando para todos os lados, examinando cada barraca. — Ela não faria isso.

— Edward. Sabe como são as mulheres,..

— Bella é quase cega, Emmet!

— Ela o quê?

— Ela é cega feito um morcego! — Ofegante, Edward parou diante de um grupo de bancas desertas. — Santo Deus... — Para onde pode ter ido?

Emmet olhou ao redor, desconcertado.

— Vá pela direita e eu vou para a esquerda. Assobie se a encontrar.

Depois de checar cada viela, Edward passou a olhar nas estrebarias fora da rua principal. Passava correndo pela última, quando a visão de um azul profundo lhe chamou a atenção. Ali, quase no fim da ruazinha, em frente a uma pilha de trapos e a porta fechada de um estábulo, viu Bella acocorada.

— Bella! — chamou.

Quando não obteve resposta, caminhou até ela com passos largos e víu-se frente a frente com outra mulher, A pobre, em farrapos, segurava um bebê nos braços, cuja pele ressequida, pernas magras e olhos fundos já diziam tudo: estava morrendo de fome.

Bella, a cabeça curvada, as lágrimas escorrendo soltas pela face, o ignorou. Estava totalmente concentrada na criança, uma das mãos em sua cabeça, a outra repousando sobre a barriga dilatada do pequeno.

— Bella...

Sem ter o que comer depois das frequentes guerras, era comum ver mulheres desesperadas vendendo os próprios filhos, a única maneira de que dispunham para mante-los vivos.

Apoiou-se sobre um joelho. Ia tocar Bella, mas parou ao ouvi-la murmurar:

— Por favor, Grande Mãe... Grande Deusa, eu imploro...

Sentiu o sangue sumir das faces. Deus do Céu... Bella era pagã!

A criança sob as mãos dela estremeceu. Então abriu a boca e chorou. A mãe arregalou os olhos e, aos prantos, passou a niná-lo e apertá-lo contra o peito.

Nesse mesmo instante, Bella cambaleou e caiu de encontro a Edward, que a amparou. Senhor, ela ardia em febre! Teria tocado a criança e apanhado alguma doença?

Esquecido do próprio choque, ergueu-lhe o queixo para fitá-la melhor e começou a suar frio. Os olhos de Bella, antes cintilantes, estavam vazios, como tinham estado os da criança, fitando o nada.

— Bella! Pelo amor de Deus, está me ouvindo?

— Dê dinheiro a ela — ouviu-a pedir num murmúrio.

Ergueu-a nos braços. Precisava levá-la a algum lugar, dar-lhe o que beber, fazer alguma coisa! Bella agarrou-se a seu peito com inacreditável força.

--- Dê o dinheiro... Terá sido em vão se o bebê não se alimentar. Sem condições de discutir ou raciocinar sobre o que havia testemunhado, Edward atirou para a mulher algumas moedas.

— Deus os abençoe! — ainda ouviu a mulher falar, enquanto corria com Bella nos braços para a rua principal.

— Emmet! — chamou ao ver o amigo emergir de uma esquina. .......O que aconteceu? — Ele veio correndo e desembainhou a espada. — Quem foi o bastardo? Eu o mato!

— Não foi ninguém. — Edward ergueu a cabeça, semicerrando os olhos sob a chuva, que agora caía pesada. — Precisamos levá-la a algum lugar!

— Por aqui! — Emmet correu para o sobrado mais próximo e abriu a porta. — Subindo as escadas... segunda porta — orientou, se guindo logo atrás deles.

O quarto tinha apenas uma cama e uma cadeira. Mas servia, pois ao menos estava quente e seco. Edward entrou e depositou Bella sobre a cama rústica.

— O que posso fazer para ajudar? — ofereceu-se Emmet, nervoso. Edward correu os dedos pelos cabelos longos. Pense, homem, pense! O que lady Esme havia feito quando Carlisle surgira à sua porta ardendo em febre?

—Arranje panos e um balde com água fria, rápido! —Enquanto Emmet corria para a porta, acrescentou: — E caldo quente!

Olhou para Bella. Tinha as faces rosadas, o corpo inerte, a res piração curta e irregular. Virgem Santa... Como podia ter adoecido tão depressa? E o que havia feito ou dado àquele bebê?

Sem respostas e desesperado por fazer alguma coisa, ajoelhou-se ao lado dela e passou a despi-la. Atirou o vestido no chão e a fez deitar novamente, usando apenas a camisola fina de algodão sobre a pele lívida.

A porta se abriu de repente e, instintivamente, Edward desembainhou a espada.

— Você me assustou!

— Desculpe. — Emmet pousou um balde ao lado da cama e lhe jogou alguns trapos. — O caldo estará pronto em alguns minutos; O que mais posso fazer?

— Fique de guarda lá fora.

Os pagãos deviam ser tão bem-vindos ali como as piores pestes pensou. E a mulher que Bella ajudara carregava uma cruz no peito.

— Ela falou alguma coisa? Contou o que aconteceu? Edward negou com um movimento de cabeça. .

— Preciso cuidar dela, agora. Não deixe ninguém subir e fique de ouvidos bem abertos. — Estudou Bella mais uma vez. — Assim que a febre baixar, vamos sair daqui. Aviso quando tiver que aprontar os cavalos.

Emmet riu.

— Só pode estar brincando. Viu a chuva lá fora?

Com sorte, a chuva não iria parar tão cedo. Era o único jeito de a notícia não se espalhar pela aldeia, como Edward temia.

— Vamos embora com chuva ou sem chuva. Praguejando baixinho, Emmet saiu do quarto. Edward molhou um dos panos e o torceu.

— Você e seus segredos, Isabella...

Fez compressas com a água fria, membro a membro. Ao limpar os pés delicados, porém cheios de lama, perguntou-se o que teria acontecido com os finos sapatos prateados que ela usava. Concentrou-se no rosto abatido, então, cobrindo-lhe a testa com um dos trapos.

Uma hora depois, Bella ainda ardia em febre. Desesperado, Edward resolveu molhá-la por inteiro, frente e costas, sem mais pudo res. Ergueu-a nos braços novamente e Iivrou-a da camisola.

Sentiu o coração dar um salto ao notar as marcas nas costas de Bella. Cicatrizes piores do que muitas que já havia visto em guer reiros cruzavam a pele alva e macia. Deitou-a mais uma vez, engolindo o aperto na garganta. Santo Deus... Havia mais marcas na frente. Linhas finas nos ombros, no antebraço esquerdo, na coxa direita. Buscou o ferimento que ele próprio provocara na cintura delgada. Cicatrizara bem. Agora não passava de uma linha verme lha e pequena em meio a tantas outras.

Fechou os olhos por um segundo. Jamais se perdoaria por tam bém havê-la machucado.

Molhou outro pano, rezando com fervor. Mais tarde iria saber o que se passara na vida daquela menina.

Emmet sentou-se nos últimos degraus da escada, a espada sobre o colo. Cerca de quinze homens, ocupantes da estalagem, observa vam-no vez ou outra, enquanto ele afiava a lâmina com uma pedra de amolar. Ninguém lhe dirigiu a palavra, ainda que, tinha certeza, falassem dele e dos estranhos no andar de cima. A maior parte eram latoeiros ou ferreiros que tinham vindo a Caimdow por causa da feira. Partiriam tão logo a chuva cessasse.

Edward perdera o juízo se achava que poderiam cavalgar com aquele tempo e carregando uma mulher doente. O que, no final das contas, tinha seu lado bom. Ficara óbvio que Cullen estava apaixonado. Aquilo tornava mais fácil seu trabalho de fazê-lo sentir ciúme e perceber que já tinha diante de si a esposa pela qual ansiava.

E quanto a Bella? Amava Edward, mas havia algo errado com ela. Sem dizer que ainda não acreditava que fosse tão cega. Con vivera com Bella nos dois últimos dias e nenhuma vez a vira pedir ajuda, bater em alguma coisa ou se perder. Até aquela tarde.

Emmet perguntava-se como ela sobrevivia assim.

A porta de entrada se abriu nesse instante e uma mulher gorda, totalmente ensopada, cruzou a soleira. Parecendo muito nervosa, bamboleou até um grupo de homens a um canto. Ao vê-la dizer algo, agitando os braços, e as expressões alarmadas dos homens, Emmet franziu o cenho. Um minuto depois, eles corriam para a saída, em polvorosa.

Emmet balançou a cabeça e continuou a afiar a espada, pensativo.

Ao ouvir uma gritaria, Edward desembainhou a espada. Prepa rando-se para o pior, como encontrar os Gunn ou o povo da aldeia enfurecido, correu para a janela. Para seu imenso alívio, as pessoa corriam não para a estalagem, mas para longe dela, carregand foices e forcados.

Virou-se para Bella. Apesar de febril ainda, ela agora murmurava ou se debatia vez ou outra. Ao menos estava saindo daquela assustadora letargia.

Edward caminhou até a porta e procurou por Emmet lá embaixo.

— Qual o motivo do barulho?

— Parece que um Lobo andou jantando umas galinhas.

— Sorte dele. Preciso de mais água. Emmet subiu as escadas.

— Como ela está?

— Ainda com febre, mas parece melhor, Emmet apanhou o balde.

— Vai querer o caldo agora?

— Pode ser.

Edward voltou para o quarto e encontrou Bella enroscada sobre o colchão, tiritando de frio.

— Mãe de Deus... — Puxou-a para o colo e buscou a capa do vestido. Decididamente, não servia para cuidar dos outros. Talvez alguém conhecesse um curandeiro na vila. Podia pedir a Emmet que cuidasse disso, ainda que fossem ficar desprotegidos. Com certeza poderia dar conta por um tempo caso algum grupo chegasse ali disposto a queimar Bella numa fogueira.

O pensamento o fez estremecer. Ouviu passos na escada e tornou a segurar a espada.

— Sou eu! — avisou Emmet, lá de fora. Entrou e deixou o balde no chão. Um segundo depois, arregalou os olhos ao ver as costas de Bella. — Santo Deus, quem fez isso a ela?

— Não tenho ideia, mas vou matar o desgraçado tão logo eu descubra. — Edward ajeitou a capa sobre o corpo seminu de Bella, de modo a ocultá-lo melhor do amigo. — O caldo está pronto?

— A mulher do taverneiro vai trazê-lo com um pouco de pão e queijo,

— Preciso que vá atrás de um curandeiro, Emmet. Sem fazer alarde. Não sei mais o que fazer.

— Não! — murmurou Bella. — Não precisa... — repetiu com voz rouca. — Eu quero beber.

Edward foi tomado por um enorme alívio.

— Vou buscar alguma coisa — ofereceu-se Emmet, virando-se e quase trombando com a mulher que aguardava, aparvalhada, na soleira. Tomou a bandeja das mãos dela. — Obrigado, senhora — Agradeceu e bateu a porta.

Tome. — Ajeitou a bandeja sobre a cama e estudou Bella por um instante.

— Ainda quer um curandeiro?

Quero, sim.

Bella bateu com o dorso da mão no peito dele.

— Não! Por favor, Edward, listava lúcida, enfim.

— Como quiser. Mas precisa tomar um pouco disto. — Levou a gela aos lábios dela.

Vendo que Bella estava disposta a colaborar, Emmet suspirou.

— Vou deixá-los a sós. Chamem se precisar de mim. Mal a porta se fechou, Edward a apertou contra si.

— Não estou gostando nada disso, menina. Do jeito que está me fazendo sofrer, estarei de cabelos brancos antes dos trinta anos!

— Quantas primaveras você tem?

— Vinte e nove.

Bella ensaiou um sorriso, e ele a beijou nos cabelos. Ela ainda estava quente.

— Preciso fazer mais compressas frias em você.

Levantou-se e a fez deitar de novo. Quando Bella levou às mãos a frente dos quadris, tentando se esconder, Edward sorriu.

— Não é nada que eu já não tenha visto.

— Não devia brincar com uma mulher doente — ela protestou, o voz enfraquecida.

Em resposta, ele tornou a cobri-la com a capa.

— Precisa se livrar dessa febre — explicou, mergulhando um dos panos no balde.

O olhar de Bella, tão frio quanto a água, não abandonou o rosto de Edward enquanto lhe banháva-lhe a testa, o pescoço, os braços. Sentindo-a mais fresca nessas partes, baixou um pouco a capa e se deparou com os seios alvos, cujas auréolas rosadas eram um convite ao prazer.

— O que foi? — ela indagou.

Não tinha como explicar. Tomando o cuidado de não tocá-la nos seios, tornou a subir a capa e limpou a garganta.

— Vire de lado. Preciso molhar suas costas.

Bella obedeceu e, ao sentir a água na pele, estremeceu.

— Desculpe, mas eu preciso fazer isso ou o seu cérebro vai acabar derretendo com tanta febre.

— Você é delicado.

Edward sorriu e umedeceu as marcas na pele alva.

— Bella... Quando isto aconteceu?

— O quê?

— Essas cicatrizes nas suas costas. Ela cobriu-se com a capa até o pescoço.

Ainda que compreendesse seu embaraço, Edward queria saber quem fora o responsável por aquilo. Na primeira oportunidade, daria cabo dele.

— Sei que é difícil para você, mas precisa falar. Não se faz isso com uma mulher. Esse homem merece uma punição.

Bella franziu a testa.

— Não foi um homem.

Edward cerrou o maxilar. A mãe dela? Sentiu o sangue gelar nas veias, ainda que não devesse ter ficado tão surpreso. A mulher dera à filha um nome horrível, negara-se a beijá-la, e agora... aqui lo. Que tipo de monstro era?

Percebendo que Bella ainda o fitava, confusa, tocou-a na testa. Parecia mais fresca. Ergueu-a pelos ombros mais uma vez e lhe ofereceu o caldo.

— Tome.

Ela franziu o nariz.

— Não gostei muito.

— E quem disse que era para gostar? Tome logo.

Assim que viu a tigela vazia, tornou a acomodá-la no colchão duro. Se Bella estivesse em Blackstone, estaria deitada num lençol macio, coberta por uma manta de lã e com a cabeça descansando num travesseiro. Maldição!


Encharcado e com os dentes batendo de frio, Erick Newton esgueirou-se por trás da mesa do ferreiro. Sorriu, pela primeira vez em dias, ao avistar a enorme cabeça branca do cavalo por cima da porta do estábulo. O garanhão de Cullen. Tinham final mente alcançado o bastardo e a feiticeira!

Não vai ficar descansando por muito tempo, minha querida. Logo, logo estará galopando de volta para o sul.


Bella acordou sob um fraco raio de sol e farejou o ar. O inverno estava chegando. Ao virar-se na direção da luz, viu Edward espre guiçando-se em frente à janela aberta. Ele tinha aparecido quando ela terminara a cura daquela criança, porém Bella não se lembrava de mais nada. O que Edward estaria pensando agora? E quanto à mulher? Teria guardado seu segredo? E havia quanto tempo que ela se encontrava naquele lugar? Recordava-se vagamente de ter tomado um caldo, de Edward aplicando-lhe compressas frias no corpo, de acariciá-la cada vez que acordava, assustada.

— A chuva passou? Ele se voltou e sorriu.

— Passou. — Aproximou-se da cama e ajoelhou-se ao lado dela. Tinha o peito nu, e Bella teve vontade de tocá-lo.

— Como se sente? — Pousou a mão em sua testa.

— Como se uma vaca tivesse sentado no meu peito. Vendo-o fitá-la com estranheza, sorriu.

— Não se preocupe, Edward. Vou ficar bem. Perdi o jantar?

— Com certeza.

Ela fez um muxoxo e tentou se sentar. Edward a amparou e a ajudou a colocar as pernas para fora da cama.

— Está com fome?

— Muita. Onde está Emmet?

— Lá embaixo, flertando com a ajudante.

Uma onda de alívio a inundou. Se nenhum dos dois tinha par tido, significava que Edward não testemunhara a cura e que a mulher mantivera sua palavra. Seu segredo estava a salvo.

Perguntando-se como estaria o bebê, correu os dedos pelos ca belos emaranhados. Precisava arranjar uma boa tesoura.

Olhou ao redor e avistou uma mancha azul no chão, próximo à parede.

— Pode me dar o meu vestido, por favor? Estou com frio.

— Receio que esteja um pouco amassado. Precisa de ajuda?

— Não, obrigada.

— Então vou ver se arrumo algo para comermos.

Bella estava às voltas com os cabelos embaraçados, quando Edward entrou, carregando uma bandeja abarrotada de comida. De positou-a em cima da cama.

— Depois de comer, precisamos conversar.

— Sobre o quê?

— Quero saber se tem condições de cavalgar. Quero chegar a Inveraray amanhã, ao cair da noite. Mas só se você estiver bem. — Partiu um pedaço de pão e o entregou a ela. — Se disser que não, vou entender.

— Estou bem. Podemos ir.

— Certeza absoluta?

— Sim. — Quanto antes partissem, melhor, Bella pensou, lem brando-se, com um arrepio, da cruz que a mulher carregava.

Comeram em silêncio. Tão logo Edward terminou a refeição, remexeu a bolsa de couro que trazia presa à cintura.

— Tome.

Bella apanhou o que ele lhe estendia. Ao perceber que se tratava de um pente de osso, soltou um gritinho.

— Abençoado Edward Cullen!

Ele sorriu, observando-a enquanto ela jogava os cabelos sobre um ombro e lutava com os nós. Uma batida na porta o fez levar a mão à espada.

— Entre!

Emmet passou peia soleira, resplandecente em negro e dourado.

— Bom dia, Lady Cullen! Que bom que está melhor. — Virou-se para Edward: — O taverneiro quer saber se vamos ficar mais uma noite.

Por que Emmet insistia em chamar Bella de lady Cullen? Aquilo só piorava as coisas.

— Diga-lhe que partiremos em breve.

— Então vou selar os cavalos.

Edward acertava as contas com o taverneiro, quando sentiu um arrepio na nuca. Virou-se e viu que um estranho não tirava os olhos De Bella. Não podia culpá-lo de todo. Ela estava maravilhosa, como sempre, os cabelos longos agora presos numa trança. Algo na expressão do sujeito, porém, o fez trazê-la para mais perto. Com a mão repousando na empunhadura da espada, puxou-a para a saída.


Fegan esgueirou-se até a janela. Mantendo-se oculto nas sombras mais, perguntou-se o porquê da feiticeira estar vestida daquela ma neira. Nem mesmo lady Newton trajava-se assim! O que aquele bastardo tentava provar? Por que a fazia chamar tanto a atenção?

Tão logo o casal dobrou a esquina, Fegan deixou a estalagem e atravessou a rua correndo. Esgueirando-se por detrás das árvores, loi ao encontro do irmão, no estábulo.


Quando a estrada que beirava o lago Fyne tornou-se mais es treita por conta de um afloramento de rochas, Edward ultrapassou o cavalo de Emmet.

— Cansada, Bella?

— Não.

Ela estivera muito quieta desde que deixaram a pousada. Edward esperava que não fosse por algo que ele tinha dito, mas as mulheres costumam distorcer as coisas nas horas mais estranhas. Por isso fugia do casamento havia tanto tempo. Por mais que fossem ama das, elas podiam levar um homem à loucura com suas esquisitices. Não que amasse Bella, lembrou a si próprio.

Virou-se para falar com Emmet, quando avistou dois cavaleiros aproximando-se a galope, brandindo as espadas. Gritou para o amigo, antes de esporear Rampante para trás dos rochedos.

— O que foi? — indagou Bella, assustada.

— Problemas. — Sem mais explicações, Edward a fez descer. Tirou o punhal da perneira e o pôs nas mãos dela. — Esconda-se atrás das rochas, lá em cima, à direita. Suba o mais alto e mais rápido que puder.

— Mas por quê? O que está acontecendo?

A resposta veio com um grito de Emmet e o tinir de espada contra espada.

— Esconda-se, Bella, agora!

No momento em que ela lhe deu as costas, Edward virou Rampante e meteu-lhe as esporas. Entrou no cenário da luta bem a tempo; de, horrorizado, ver Emmet caindo e o sangue jorrando de seu ombro; direito. Urrando de ódio, golpeou com a espada o homem que o abatera. Veterano de batalhas, Rampante empinou, os cascos vol vendo no ar para, em seguida, desabar sobre o lombo de seu opo nente. O outro cavalo relinchou e caiu por terra, levando junto o cavaleiro. Edward tornou a descer a espada, dessa vez na lateral do pescoço do inimigo. O homem tombou sem emitir nenhum som. De olhos arregalados, o outro cavaleiro fitou o companheiro morto; então saiu a galope. Edward foi atrás dele e alcançou-o antes da primeira curva. Mais alto e mais forte, não teve dificuldades em derrubá-lo. Tão logo seu oponente tocou o solo, seu cavalo fugiu em disparada. Edward puxou as rédeas e saltou para o chão. O homem se pôs em pé, a espada em riste diante do corpo.

Ofegante, o inimigo moveu-se para a direita, e Edward, para a esquerda, a lâmina zunindo no ar.

O homem investiu para a direita. Edward moveu-se na direção oposta e atingiu-o com a ponta da espada. O sujeito saltou para trás, lançando um olhar rápido para a manga rasgada do blusão. Tornou a encará-lo, os olhos faiscando. — Então, é mesmo tão bom quanto dizem... Por Cristo! Teriam tentado matar Emmet só para testá-lo? Quando sua espada voltou a zunir, Edward já não pensava em mais nada. Com um grito, investiu contra o inimigo. Instantes de pois, o homem jazia, retalhado, em meio a uma poça de sangue. Edward baixou a cabeça e viu o próprio peito banhado de ver melho. No segundo seguinte, a espada escorregou de sua mão.

A pele de Bella se arrepiou quando o grito veio do lago e ecoou nas montanhas âs suas costas.

— Edward! — Sem pensar duas vezes, escorregou rochedo abai xo em direção à estrada. — Por favor, Grande Deusa, faça com que não seja ele!—Com os braços estendidos, correu como podia, a cabeça e o coração retumbando com a certeza de que alguém tinha morrido. — Mãe, eu imploro!

Tropeçou, ergueu-se outra vez, e foi então que avistou alguém jogado na estrada. Havia manchas de sangue por todos os lados.

Ofegante, o coração ameaçando sair pela garganta, deixou-se cair de joelhos diante do homem. Olhos castanhos, parados, fitavam o nada. Quem era aquele?

Não importava. Edward estava em algum lugar, e ela precisava econtrá-lo. Ergueu-se e, mal havia dado um passo, tropeçou em outro corpo. Os trajes negros e dourados não deixaram dúvidas.

— Emmet! — Agachou-se ao lado dele e procurou por algum ferimento. Recuou, aflita, ao tocar o líquido viscoso sobre o ombro direito do amigo. Correu os dedos pelo pescoço de Emmet e percebeu a pulsação fraca e rápida demais para um homem daquele tamanho. Grande Mãe, o que poderia fazer? Ficar ali e tentar salvá-lo ou ir em busca de Edward?

Quando Emmet deixou escapar um gemido, a vontade tomou conta de Bella.

— Emmet, pode me ouvir?

Ele virou a cabeça, e os olhos azuis a fitaram por um segundo, inundados de lágrimas.

— Diga a Edward... que eu sinto muito — murmurou, antes de perder os sentidos.

— Emmet, não! — Bella bateu no rosto dele. — Ouça, confie em mim!

Para seu alívio, ele tornou a abrir os olhos. Não parecia estar enxergando, mas devia ser o suficiente. Assim, ela plantou os pés na terra e, cruzando as palmas uma sobre a outra, pressionou o corte, fazendo Emmet gemer de dor.

— Grande Mãe, sou eu, Bella. Eu imploro pela força... — Fe chou os olhos, respirou lenta e profundamente e esperou pelo calor. Ao senti-lo se iniciar pela sola dos pés, relaxou. Tinha chegado a hora. — Grande Deusa, eu, Bella, tomo para mim esta ferida. — Recitou, então, as velhas palavras de agradecimento e louvor.

Quando viu que a tarefa estava feita, retirou as mãos do ombro de Emmet e sentiu, mais do que viu, uma sombra atrás de si. Comba tendo a dor lancinante que começava a assolá-la, virou-se devagar e se deparou com o rosto lívido de Edward.

— Bella... — Caiu de joelhos ao lado dela, exausto. Bella tinha certeza de que, dessa vez, ele presenciara tudo.

— Não me odeie —disse, num sussurro, antes que uma imensa escuridão descesse sobre ela.

Com os olhos fixos no sangue que brotava do ombro delicado Edward mal teve tempo de ampará-la.

— Virgem Poderosa... Diga que isso não está acontecendo! Jamais dera ouvidos às histórias sobre divindades pagãs. Entretanto não havia como negar o que seus olhos tinham testemunhado. Não queria admitir. Queria que Bella fosse normal; que não passasse de uma órfã bonita e estranha. Sem segredos, sem poderes, sem medos. Apenas normal.

Mas o sangue continuava a jorrar do ombro dela. Bella estaria morrendo?

Por favor, Senhor, não permita!

Olhou para o amigo ainda deitado em meio a uma poça de sangue. Tinha o blusão encharcado de vermelho e, no entanto, agora o fitava com os olhos azuis arregalados, a pele antes acinzentada recuperando a cor.

— Ela é uma feiticeira — declarou Emmet, erguendo-se milagro samente sobre um cotovelo. — Pressione a ferida! — disse-lhe, aflito.

Edward fez pressão sobre o ombro de Bella, sentindo o estômago; se apertar. Santo Deus... Não bastava ela ser pagã? Tinha de ser também uma feiticeira?

Emmet olhou para o próprio corpo, incrédulo. Apesar do sangue, era como se não houvesse sofrido nada.

— Os bastardos morreram?

Edward confirmou com a cabeça.

— Pensei que você tivesse morrido também. E aconteceu de novo... — Parou, não querendo recordar o que havia feito.

Emmet engoliu em seco. Já o vira perder o controle.

— Onde está o meu cavalo? — Olhou ao redor. — Precisamos estancar esse sangue.

Edward assobiou. Era provável que os animais estivessem juntos.

Menos de um minuto depois, Rampante chegou a galope, acom panhado pelo garanhão negro de Emmet.

O rapaz não perdeu tempo. Pôs-se em pé, tirou da algibeira um blusão de seda branco e rasgou-o em tiras.

— Tire a capa dela, Edward, rápido!

Edward obedeceu. Acima da gola do vestido, um corte profundo, com cerca de vinte centímetros, apareceu em meio ao sangue.

Ao perceber o choque de Edward, Emmet tomou a iniciativa. Enxugou a ferida e, enquanto o amigo sustentava Bella, enfaixou-a com cuidado, recolocaram a capa, e Edward a ergueu nos braços.

— Estamos a poucos quilômetros de Clachan.

— Ótimo. De lá será apenas um dia de cavalgada até Inveraray, onde podemos pedir abrigo ao duque de Argyll — planejou Emmet.

— Depois é melhor ir direto para Blackstone.

Edward afastou os cabelos do rosto de Bella, o coração se aper tando ao vê-la ainda sem sentidos.

— Ela não está em condições de cumprir uma jornada dessas,

— Podemos pegar um barco e atravessar o lago Awe, em Potsonchan, o que vai economizar dois dias de viagem; depois segui mos para oeste.

Emmet mexeu o ombro direito, ainda sem acreditar que estava cu rado. Edward o fitou, pensativo. Só agora entendia o porquê das cicatrizes de Bella.

— Vamos cair fora daqui.