Capítulo IX

Bella encostou o ombro dolorido no espaldar alto da cadeira, fitando o fogo que crepitava na sala envolta em sombras. Puxou a coberta sobre si e observou Edward, tensa, enquanto ele dispunha o peixe e o pão diante deles. Havia uma hora, quando des pertara, ele lhe contara que estavam em Inveraray, na casa de um homem chamado Argyll.

— Está zangado comigo? — perguntou, incapaz de suportar aquele suspense por mais tempo.

— Não. Apenas desapontado por não ter confiado em mim. Afinal, você salvou a vida de Emmet, não salvou?

Ela suspirou, aliviada.

— Obrigada por ter cuidado de mim... de novo.

Edward passara três dias e três noites a seu lado, enquanto, como das outras vezes, Bella ardia em febre e delirava. Não haviam dado maiores detalhes ao duque, limitando-se a dizer que ela se ferira durante um ataque de ladrões. O corte profundo no ombro vinha cicatrizando com uma rapidez impressionante. Logo seria mais uma marca do dom que Bella carregava.

— De nada — Edward respondeu, taciturno, entregando-lhe a caneca com cerveja e mel, que aquecera com um ferro em brasa. —Mas não quero mais segredos entre nós, Bella. Precisa me contar toda a verdade. E vai me prometer que não fará mais nada que possa colocá-la em risco.

— Não sou eu quem busca a dor ou a morte, Edward.

Quando chegava a vontade, não havia nada que ela pudesse lazer.

— Não vou dizer que compreendo o que acontece. Só sei que você faz isso de coração. O problema é que muita gente pode não aceitar esse seu poder de...

— Cura? — completou Bella.

— Isso mesmo.

Não era nenhuma surpresa. Os Newton a temiam, por que não os outros?

— E agora?

Edward ajoelhou-se ao lado dela e tomou-lhe a mão. Bella sus pirou. Gostava quando ele fazia aquilo. Sentia-se segura.

— Vou levá-la para o castelo de Blackstone. Ela sentiu um aperto no peito.

— Mas... porquê?

— Com o meu povo, estará a salvo. Nunca mais vai ficar sozinha.

Bella engoliu o nó na garganta. Edward não gostava de ficar junto dela... apenas se sentia na obrigação de protegê-la.

Tão infeliz como no dia em que fora obrigada a deixar o pe queno Edward com Ângela, torceu as mãos sobre o colo.

— Será que não compreende, Edward? Seu clã vai me rejeitar, exatamente como os Newton!

Ele a segurou pelo rosto.

— Não, Bella, não vai. Porque vou lhe ensinar tudo o que precisa saber para se tornar um deles.

— Mas, e os meus olhos?

— O que têm os seus olhos? — Edward franziu a testa.

— As pessoas sabem o que sou só pela cor deles. Ele sorriu.

— Seus olhos são únicos, Bella. Confesso que o meu coração quase parou quando os vi pela primeira vez.

Ela balançou a cabeça, incrédula e feliz ao mesmo tempo.

— Pergunte a Emmet, então. Confia nele, não confia? Emmet vai con firmar o que estou dizendo.

Bella estudou o rosto amado, os olhos tão verdes e gentis. Ainda assim, não acreditou no que Edward dizia. Pois então não vira própria imagem num espelho?

— O que preciso aprender?

— Esta é a minha menina. — Ele a beijou na ponta do nada então se levantou, pensativo. — Primeiro, precisa aprender a agir como uma dama. Afinal, estamos na casa de um duque... Depois posso lhe ensinar algumas orações.

Edward falava e gesticulava diante dela, mas Bella sabia que não devia se iludir com aquele entusiasmo. A única mulher que ele amava era a tal Maria.

Sentado à esquerda de Argyll, diante da imensa lareira de pedra acesa, Emmet bebericou o uísque. Divertido, observou o filho do duque com uma espada de madeira, atormentando os guardas e um par de cães cinzentos que o suportavam, resignados, as enormes cabeças descansando entre as patas.

Perto dali, as mulheres bordavam, tranquilas. Enquanto trabalhava, uma delas ergueu os cintilantes olhos verdes na direção dele. Emmet piscou, e ela baixou a cabeça, disfarçando um Sorriso. Ah, as virgens... Adoráveis de se olhar, mas impossíveis de ser tocadas.

— A mulher de Cullen é bem quieta, não? — comentou Argyll. — E que nome estranho... Bella.

— É apelido — mentiu Emmet. — E, sim, ela é um pouco... tímida. Quando se sentir melhor, depois do susto na estrada, vai sair do quarto.

Apesar do evidente mal-estar de Edward, Emmet os havia apresentado como marido e mulher.

— A que clã ela pertence?

E agora? Argyll tinha interesse, claro, em saber que alianças haviam se formado com a união dos dois.

Emmet fingiu bocejar, como se o assunto fosse de pouca relevância.

— Parece que o pai dela era... xerife na Baixa Escócia. Morreu há algum tempo. Por isso Bella não tinha nenhum dote. O vestido foi presente dos Cullen. Creio que o nosso amigo se casou mais por razões do coração. Mas não se pode culpá-lo... Basta olhar para a jovem lady Cullen.

— Sem dúvida — Argyll concordou de imediato. — É uma mulher e tanto. Mas não seja tolo como o seu companheiro. Lembre-se: beleza não põe a mesa... e nem ajuda a angariar ou defender seus bens.

— Quando chegar a hora, seguirei o seu conselho — garantiu Emmet, aliviado por, aparentemente, ter se saído bem no interroga tório. Indispor-se com o duque seria um desastre para todos.


Newton soltou uma imprecação, inconformado. Seus melho res espadachins mortos?

— Não é possível! — explodiu, diante do homem que ele en viara para descobrir o motivo da demora em trazerem a feiticeira de volta.

— Sinto muito, senhor. — O mensageiro lançou um olhar rá pido a Jéssica Newton que, grávida, chorava copiosamente ao lado da lareira. — Foram quase decapitados — acrescentou em voz baixa. — Eu os enterrei e trouxe as montarias e espadas para as respectivas famílias.

Newton nem sequer prestou atenção aos detalhes.

— E quanto a Cullen e a feiticeira?

— Sei que rumaram para algum lugar a oeste, senhor. Encontrei Fegan e Erick a uma hora de Cairndow.

Sem dúvida, eles rumavam para o castelo de Blackstone, em Drasmoor.

— Apronte as armas. Quero qualquer um acima de quinze anos armado e pronto para cavalgar ao amanhecer.

Antes da próxima lua cheia, teria a cabeça de Edward Cullen na ponta da espada.


Tão logo o céu além da janela começou a se tingir de rosa, Edward espreguiçou-se sob a coberta que estendera no chão e abriu os olhos. Bella continuava deitada de lado na cama enorme que lady Argyll preparara para os dois, o rosto sereno como o de uma criança. Aquilo, sim, era dormir com a consciência tranquila, ele refletiu. Afinal, o que faria com Isabella Swan?

Ela aprendera a rezar o Credo; não muito bem, mas ao menos sabia os pontos mais importantes. Entretanto resistia à ideia de que um Deus, e não uma deusa, tinham criado o mundo. Fazer com que acreditasse na Imaculada Conceição e na Ressurreição de Cris to não fora tão difícil, já que possuía crenças similares em sua própria religião. Mas fazê-la compreender a crucificação de Jesus havia sido um verdadeiro pesadelo. Bella não concebia a ideia de que um pai todo poderoso pudesse ter permitido que o filho mor resse daquela forma. Tinham passado metade da noite discutindo o assunto, até que Edward se dera por vencido.

O pior era que o Duque de Argyll estava certo de que eram casados, o que, com certeza, chegaria ao ouvidos do padre John. Sem dúvida, ele faria um escarcéu e os obrigaria a se casarem na igreja.

Era melhor dar adeus a Donaliegh e ao trabalho com Carlisle. E tudo porque se deixara enfeitiçar por aquela deusa que vira sain do das águas do lago.

Maldição... Como a desejava! Bastava olhar para ela. Bella não era apenas impressionantemente bonita, mas engraçada, irreveren te... e sensual, dado o breve momento de amor que haviam parti lhado. Edward ainda podia se lembrar do gosto daquela pele, de sua textura.

— Bom dia — murmurou, quando os olhos dela iluminaram ainda mais a manhã.

— Bom dia. — Bella se ergueu sobre um cotovelo, expondo o ombro enfaixado, o lençol sensualmente dependurado nos seios fartos.

— Dormiu bem?

— Dormi.

— Estou faminta. Será que há alguém lá embaixo? Edward se levantou para encher uma pequena tina de água.

— Vou ver se consigo uns biscoitos de aveia.

— Ah! — Ela abriu um sorriso, expondo duas covinhas. Pulou da cama, segurando o lençol diante do peito, mas sem se importar com as costas nuas.

Ele soltou um gemido. Decididamente, Bella seria sua perdição. Alheia ao que se passava com Edward, sentou-se a seu lado, observando enquanto ele se lavava e se barbeava.

— Por que faz isso? — indagou, fitando a lâmina com estra nheza.

— Dizem que as mulheres preferem os homens barbeados. Ela considerou a afirmação por um instante.

— É... Parece mais limpo. — Correu os dedos pelo rosto dele. — E mais macio também.

Edward precisou se controlar para não jogá-la sobre a cama.

— Exigente, como toda lady...

— Eu sou uma lady? — Os olhos claros cintilaram.

— Claro.

— Então somos casados?

— De certa forma.

— E o que vou ser quando acharmos um poço sagrado e desfizer a nossa união?

— Ainda será uma lady. Lady Swan, e não lady Cullen.

— Não! — Ergueu-se de um salto e foi até a janela. — Não vou mais ser Swan.

Edward largou a toalha com que se enxugava, o cenho franzido. Caminhou até ela e a virou pelos ombros.

— O que está dizendo, Bella? Swan não é o nome do seu clã?

— Eu não tenho família, Edward. Como posso ter um clã?

Ele a fitou, confuso.

— Mas quando perguntei o nome do seu clã, você disse "Swan".

— Foi o nome que minha mãe me deu. — Os cílios dela pare ceram ainda mais longos, umedecidos pelas lágrimas. — "Você é filha da vergonha, Isabella. Da minha vergonha! Por isso seu sobrenome é Swan. Swan, de vergonha"... — repetiu, com voz embargada.

Foi como se Bella enfiasse uma adaga no peito de Edward. Ela enxugou as lágrimas, que agora corriam soltas, com a ponta dos dedos. Pobre Isabella. A mãe dela nem sequer tivera a de cência de lhe dar um nome digno. Se a mulher estivesse viva, ele não a deixaria assim por muito tempo, refletiu, revoltado.


Do salão do castelo de Blackstone, Carlisle Cullen mirou, ao longe as terras das quais era o senhor e sorriu. — Por que está sorrindo? Ergueu a cabeça e se deparou com Esme apoiada em seu ombro. Lady Esme, para o resto do clã. Era um homem de sorte, pensou. Ela era maravilhosa em todos os sentidos.

— Acabei de receber uma carta de uma prima minha, Ângela Lindsey Fraiser.

— E mesmo? E o que ela tem a dizer?

Sabendo que a esposa não dominava o idioma francês, no qua carta fora escrita, Carlisle pôs-se a traduzi-la:

Querido primo, escrevo-lhe em benefício de uma mulher incrível chamada Isabella. É uma longa história, mas basta dizer que seu capitão-mor, Edward Cullen, está perdidamente apaixonado por Bella, e ela por ele. As circunstâncias, porém, não são nada favoráveis aos dois. Bella é, em uma só palavra, extraordinária; tanto por fora quanto por dentro. No entanto não é uma de nós. Ao menos não alguém nascida em berço de ouro. Bella me fez um enorme favor... favor esse que jamais poderei lhe retribuir nesta vida. É a bondade em pessoa e tudo, ou muito mais, do que merece seu fiel Edward. Peço, portanto, que a receba de bra ços abertos. Sua humilde criada e prima, Ângela Lindsey Fraiser.

Esme sentou-se na cadeira oposta à do marido.

— Ora, ora, e não é que o seu plano deu certo? Edward finalmente encontrou alguém...

— Sim, mas, pelo visto, as coisas não estão caminhando muito bem, ou Ângela não teria escrito esta carta.

— Na certa, porque você o pôs contra a parede, fazendo-o sentir-se na obrigação de encontrar uma lady para ser a castelã de Donaliegh!

— Pode ser. Edward gosta de honrar a própria palavra. — Carlisle suspirou. — Sabe como quero o bem dele. Preocupo-me por ser tão só.

— E orgulhoso — completou Esme.

— Também. Insisti na ideia de Edward encontrar uma lady por que, por Donaliegh, ele seria capaz de desposar a primeira mulher que visse pela frente. O homem é alucinado por aquelas terras.

Esme sorriu e ergueu-se, alisando a barriga redonda.

— Melhor eu preparar um quarto, então. — Arqueou o corpo para a frente, apoiando as mãos na cintura. — Já não consigo me mover como antes.

Carlisle se levantou e enlaçou a esposa pelas costas.

— Já lhe falei o quanto está linda?

Ela enrubesceu, como sempre acontecia quando ele lhe fazia algum elogio.

— Mentiroso. — Beijou-o e afastou-se, levando consigo mais um herdeiro.

Deus, ele a amava, refletiu Carlisle, comovido. Tomara Edward pudesse estar vivendo o mesmo sentimento.


Emmet cavalgava à frente deles, colina abaixo. Encontravam-se a poucos quilómetros de Drasmoor. Bella já podia sentir um novo perfume no ar. Algo mais forte, diferente da brisa de Inveraray.

Estavam exaustos. Havia quase dois dias que paravam apenas para comer.

Bella ainda não conseguira se decidir quanto a seu novo nome, apesar de todas as sugestões de Emmet. Edward lhe oferecera seu so brenome, e ela não tivera como recusá-lo. Dali em diante, seria uma Cullen e, possivelmente, mais uma moradora em Drasmoor. No fundo, não queria ir para lá, pois tudo iria mudar. Não seria mais ela mesma.

Quando alcançaram o topo de uma nova colina, Edward apontou por sobre o ombro de Bella.

— Olhe, seu novo lar. Drasmoor e o castelo de Blackstone. Uma enorme mancha azul e verde, maior do que tudo o que ela já enxergara antes, avultou-se à sua frente.

Cavalgaram colina abaixo, tornaram a subir e, finalmente, dei xaram a floresta. Edward fez Rampante diminuir o passo no mesmo instante em que Bella ouviu latidos de cachorros, mugidos de gado, risadas de crianças e todos os sons que afirmavam: estavam numa aldeia.

— Bem-vinda a Drasmoor — Edward sussurrou em seu ouvido.

Correndo atrás dos cavalos, as pessoas os saudavam numa lín gua que ela não compreendia. Ensaiou um sorriso, embora sentisse a cabeça latejar. Manchas amarronzadas beiravam o caminho. Choupanas, concluiu, pelo cheiro de comida. Só então percebeu a forma escura avultando-se mais ao longe contra o azul intenso do céu e do que agora sabia ser o mar.

— O que é aquilo? — Bella indagou, embora já conhecesse a resposta.

— O castelo de Blackstone — disse Edward.

Blackstone estava cercado pelo oceano, cujas águas não eram tranquilas como as do lago do vale, e sim revoltas, como se tives sem vida própria. Grande Deusa... Como tinha ido parar ali?

Antes que pudesse digerir os acontecimentos, ela viu-se num barco. Agarrou-se às bordas, com um grito.

— Calma, Bella, não vai cair. Está tudo bem!

— Não... não está!

Edward riu e a acomodou entre suas pernas.

— Não há o que temer. O mar está calmo. Calmo? Fazendo-os balançar daquele jeito?

— Onde está Emmet?

— Foi cuidar dos cavalos. Vai pegar o próximo barco, não se preocupe.

Logo se moviam sobre as águas, em meio à conversa ruidosa de outros homens que haviam entrado no barco. Incapaz de falar, Bella deixou-se afundar contra o peito de Edward, os olhos cerrados. Não estava gostando daquilo!

Algum tempo depois, sentiu um tranco, e Edward a segurou pelo queixo.

— Pode abrir os olhos agora. Chegamos.

Bella obedeceu, relutante. A mancha escura tornara-se mais in tensa e muito mais alta.

— É maior do que eu pensava — confessou, nervosa.

Edward saltou para o cais e estendeu-lhe a mão. Ela cambaleou para fora do barco, agarrando-se a ele.

— Pronta para entrar?

— Sim.

Edward ainda precisava pensar no que diria a seu senhor sobre os últimos acontecimentos, sem parecer um completo idiota.

Mas era bom estar em casa depois de meses. Tinha sentido falta da camaradagem de sua gente e, mais ainda, da comida de lady Esme!

Conforme atravessavam o pátio, já dentro das enormes paredes de pedra, Bella olhava de um lado a outro, tentando identificar os sons, ao mesmo tempo em que movia os lábios em silêncio.

Edward a observou com um sorriso. Ela estava contando os pas sos. Abriu a imensa porta.

— Segure a corda à sua esquerda... Isso. Cuidado, agora. Os degraus se curvam para a direita. Estou bem atrás de você.

Bella subiu a escada devagar.

— Por que os degraus são tão curvados?

— Caso sejamos atacados, nossos inimigos não terão espaço para manejar as espadas na escadaria.

No topo da escada, Edward empurrou outra porta enorme de carvalho, segurou-a pelo cotovelo e guiou-a para dentro do imenso salão principal do castelo. Ao avistar seu senhor e a esposa diante da lareira, à esquerda, virou Bella na direção deles.

— Tem alguma coisa cheirando muito bem! — ela exclamou, com água na boca.

Ele sorriu. Os biscoitos de aveia de lady Esme eram só o come ço. O sorriso desapareceu ao se ver diante dos patrões e fez uma mesura.

— Senhor... Milady...

O olhar de Carlisle percorreu Bella de cima a baixo, não ocultando sua admiração.

— Bem-vindo, Edward! Vejo que encontrou o que estava pro curando.

Não exatamente, ele pensou.

— Senhor, milady... apresento-lhes lady Cullen, de Loch Ard Forest. Lady Cullen... meu senhor, Carlisle Cullen e sua nobre esposa, lady Esme.

Bella executou uma graciosa mesura. Edward engoliu em seco, mal ocultando seu espanto e nervosismo. Lady Esme avançou um passo e tomou a mão dela.

— Estou tão feliz em conhecê-la! Venha, vamos deixar os dois conversando e lhe mostrarei seu quarto.

Ao se ver carregada para longe, Bella lançou um olhar aflito por cima do ombro.

— Fique tranquila. Irei ao seu encontro em breve.

Carlisle fez um sinal para que Edward tomasse o assento antes ocupado por lady Esme.

— Sente-se e conte-me tudo sobre... Bella, certo? — Sorriu. — Você tem muito bom gosto, por sinal. — Acenou para uma moça que passava. — Traga-nos uísque, Kari, por favor. E do bom!

Ela sorriu.

— Como quiser, senhor. Carlisle tornou a se concentrar nele.

— É bom tê-lo de volta, Edward.

— Obrigado. — Limpou a garganta. — Bem... senhor, devo dizer que nem tudo saiu como eu previa. Em relação a Bella...

Bella olhou o quarto que lady Esme reservara para ela e Edward.

— É lindo, milady — elogiou, sincera, pelo pouco que conse guiu discernir da soleira.

— Por favor, me chame de Esme. Carlisle e Edward são tão ami gos que seria uma bobagem me chamar de milady, enquanto eles mesmos se tratara pelo primeiro nome. Posso chamá-la de Bella?

Ela torceu as mãos, nervosa.

— Não vou me chamar Bella por muito tempo.

— Verdade? — Esme ergueu as sobrancelhas.

— Edward disse que posso escolher outro nome, porém ainda não consegui pensar em nenhum. — Ensaiou um sorriso. — Mas pode me chamar de Bella enquanto isso.

— Claro.

Bella adentrou o cômodo, devagar, tomando cuidado para não tropeçar em nada. O que conseguiu enxergar agradou-lhe imensa mente. A cama de casal era parecida com a da casa do duque de Argyll, porém maior e com dois baús na frente.

— É o quarto de Edward?

Lady Esme sentou-se na beira da cama.

— Não, é um quarto especial reservado para hóspedes especiais. O guarda-roupa fica ali, à esquerda.

Guarda-roupa? Precisava perguntar a Edward como usá-lo. Não queria parecer ignorante diante dos amigos dele. Aproximando-se de lady Esme de modo a estudá-la melhor, correu a mão pelo da colcha. Ah, grosso e, ao mesmo tempo, macio, como os trajes que Edward abandonara na cascata.

— É lindo este... veludo.

— Obrigada. Sente-se aqui. — Lady Esme bateu na cama, ao lado dela.

Bella obedeceu de pronto.

— E então? — Lady Esme tornou a segurar-lhe a mão. — Como conheceu Edward?

Bella mordeu o lábio. Não queria falar no assunto. — Ele... ele é muito bonito.

— Ah, sem dúvida!

Não podia falar que Edward quase matara Lobo e tudo o mais. Sentiu o estômago roncar e aproveitou-se disso.

— Eu adoro aveia. E Edward sabe fazer um peixe muito bom. — Piscou, nervosa, buscando as palavras. — Queria aprender como fazer a torta de peixe de lady Fraiser... Estava ótima.

— Está com fome? Perdoe-me! —Lady Esme riu.—Vou cuidar disso imediatamente, enquanto se refresca um pouco.

— Obrigada. Edward disse que é ótima cozinheira.

— Que bom! Na verdade, só faço pratos que agradam aos homens.

— É mesmo? —Bella se interessou. Se pudesse cozinhar assim, talvez Edward se esquecesse da sua Maria. — Pode me ensinar?

— Eu adoraria! — Lady Esme se levantou e checou a água do jarro. — Ah, está fria. Vou pedir que lhe tragam um pouco de água morna.

— Não tem problema — Bella garantiu, pensativa, só então reparando que lady Esme não falava como os demais. — Também veio de longe?

— Vim, sim. — Ela alisou a barriga de cerca de sete luas. — Estou aqui há apenas três anos.

— E está feliz?

— Mais feliz do que nunca. — Lady Esme acariciou o rosto de Bella. — E você também vai ficar. Edward é um bom homem — afirmou, antes de rumar para a porta. — Aliás, seus olhos são lindos!

Bella sentiu o quarto rodar. Como era possível que aquela gente não reconhecesse uma feiticeira ao se deparar com uma?, penso antes de mergulhar na escuridão.

— Bella, querida, pode me ouvir?

Algo frio e úmido pressionava-lhe a testa quando Bella voltou a abrir os olhos. Lady Esme curvava-se sobre ela, o rosto bonito cheio de preocupação. Bella olhou ao redor, ainda tonta, e se viu sentada no chão, apoiada contra a mulher. Embaraçada, tentou se levantar.

Lady Esme a segurou pelo ombro; por sorte, o que não estava ferido.

— Fique aqui, querida, não se aflija. Vamos esquecer o banho e colocar algo nesse seu estômago. — Enxugou o rosto dela com cuidado. — Sente-se melhor?

— Sim, obrigada.

Ajudou-a a se levantar e guiou-a de volta para o salão.

Tão logo adentraram o amplo recinto, os homens se puseram em pé. Lady Esme a conduziu até Edward e buscou um sino que pendia da parede. Momentos depois, Bella encontrava-se sentada à direita dele, numa plataforma do outro lado do salão, as costas voltadas para o calor do fogo e com uma verdadeira montanha de comida à sua frente.

Ao vê-la hesitar, Edward sussurrou:

— Porco assado ao molho de maçã. Vai adorar, tenho certeza. — Apontou uma travessa repleta de folhas verdes. — E salada, experimente.

— E isto? — Bella mostrou os legumes ao redor da carne.

— Batatas assadas com alecrim — informou Edward, regando o próprio prato com o molho escuro. — Coma logo.

Bella, mais faminta do que nunca estivera na vida, levou um pedaço de carne de porco à boca. Era salgada, torrada, uma delícia! Grande Mãe... devia ter morrido e entrado no tal Céu de Edward!

Não conseguia engolir a comida rápido o bastante. Desejando ter quatro mãos, ergueu os olhos para os dele, que sorriam para ela. Sorriu de volta, sem parar de comer.

Devorando um último pedaço de pão umedecido no molho, recostou-se na cadeira com um suspiro.

— Muito bom!. — exclamou, quase para si mesma.

O lorde de Blackstone explodiu numa gostosa gargalhada.

— Encontrou sua cara metade, meu amigo, ao menos à mesa! Ao ver Edward rindo, Bella relaxou e concluiu que iria gostar do lugar, afinal.

Ele se ergueu, puxou a cadeira dela e sussurrou-lhe no ouvido.

— Vamos para o outro lado do salão, enquanto tiram a mesa. Aceitou a mão que ele estendia, satisfeita. Ser uma lady tinha suas vantagens: boa comida, belos vestidos, uma cama confortável e gente para arrumar a casa. Quem não gostaria de viver assim? Estavam a meio caminho do saguão, Bella com o braço apoiado no de Edward, quando uma porta à direita rangeu e uma silhueta redonda e escura caminhou na direção deles.

— Bom dia, Cullen! E a quem devo a honra?

— Apresento-lhe lady Cullen, padre John — anunciou Carlisle, de pronto. — Lady Cullen, este é...

O coração de Bella quase parou. Sentiu um suor frio banhar-lhe a testa, o sangue sumir da face. Sô conseguia enxergar o capuz escuro, a veste negra, a cruz de madeira dependurada.

Cuidado com os padres de negro. Eles queimam gente como nós em fogueiras.

Soltando um gemido pelo esforço, Bella empurrou o objeto de seus pesadelos com ambas as mãos e, ao vê-lo fora do caminho, pôs-se a correr. Cinquenta passos, pensou, desnorteada. Cinquenta passos e estaria longe daquele lugar.

Com o coração quase lhe saindo pela boca, correu como podia. Atravessava o pátio, em direção ao arco da entrada, quando per cebeu que perdera a conta dos passos. Continue!, ordenou a si mesma. Continue e chegará ao mar! Era melhor se afogar do que morrer queimada. E, não, não iria se afogar! Nadava como um peixe!

Passando por baixo do arco, ignorando os gritos e os passos rápidos e pesados atrás dela, Bella rezou para a Grande Deusa, pedindo que o oceano a recebesse de bom grado. Sem hesitação, correu em direção à espuma branca que açoitava o caminho de pedra em frente ao castelo.

Ao se ver engolfada com violência, percebeu que a água gelada a puxava para baixo e lutou para manter-se à tona. Por que não se despira antes de pular? Oh, Grande Mãe, precisava de ajuda!

Nadou furiosamente para cima, até mal sentir as próprias pernas pelo esforço. Finalmente sentiu a cabeça fora da água revolta, mas, antes que pudesse respirar, uma onda a encobriu, jogando-a de volta para o fundo. Parou de lutar, então. Estava fraca demais.

Conforme o oceano a envolvia em seu frio abraço, Bella rezou para a Grande Mãe. Compreendia, agora. Vivera como uma estra nha em sua terra e morreria como uma estranha em suas águas.

Tão triste, mas, de alguma forma, tão certo.

N/A: Não me xinguem pelo suspense no final, a culpa não é minha!! rsrs