Capítulo XI
Da balaustrada, Edward avistou Bella sentada lá embaixo. Ela estava em Blackstone havia três semanas, e agora parecia que algo a preocupava demais.
Ele não tinha ideia do que pudesse ser. Bella simplesmente se recusava a falar a respeito. Mais estranha ainda era sua resistência em fazer amor. Vinha perdendo peso e seu sorriso já não chegava aos olhos claros, sob os quais agora se via uma sombra azulada pela falta de sono.
Edward desceu os degraus de dois em dois, em direção ao salão, e no caminho trombou com lady Esme. Amparou-a de imediato.
— Mil perdões, Esme.
Desviou-se, porém ela o segurou pelo braço.
— Preciso falar com você.
— Agora, não, desculpe-me. Tenho que conversar com Bella.
— Cuidado com o que vai dizer. Ela parece muito assustada com alguma coisa.
Bella percebeu que Edward se aproximava, pois virou o rosto de leve.
— Precisamos conversar.
— Agora não.
Ele se agachou ao lado dela.
— Olhe para mim.
Obedeceu, e Edward notou-lhe as lágrimas.
— Bella, por Deus... Não pode continuar desse jeito. Diga o que a está afligindo tanto!
— Não vai poder fazer nada.
— Como não? Não sei do que está falando, mas talvez eu possa ajudar. Está com saudade do vale? Se for isso, podemos visitá-lo na primavera.
Ela permaneceu em silêncio.
— Bella, desse jeito vai me deixar louco! — Ele a fitou por um segundo, então a ergueu nos braços.
— Edward!
— Já chega! — Carregou-a castelo adentro.
— O que está havendo? — indagou lady Esme ao vê-los.
— Venha conosco, por favor — Edward pediu.
— Sim, mas...
Ele as levou para a adega, depositou Bella em uma cadeira, puxou outra e a ofereceu para lady Esme.
— Posso contar com você, Esme?
— Claro que sim.
— Ótimo, porque não vão sair daqui enquanto Bella não lhe disser o que acontece.
Bella ergueu-se, indignada.
— Não pode fazer isso! Ela está grávida!
— Posso e vou fazer.
Em seguida, Edward fechou a porta atrás de si e cruzou os braços.
— Perdão, Esme — murmurou Bella, corando de vergonha. Estava infeliz e fazendo os outros infelizes.
— Não tem que pedir perdão. Só precisa me dizer o que está acontecendo.
Bella suspirou.
— Sabe que sou... feiticeira, não sabe?
— Uma curandeira, sim, Edward nos contou. Mas não entendo a sua preocupação.
— Minha mãe era curandeira e enxergava bem. Mas só era capaz de descobrir a causa das doenças das pessoas.
— E é assim com você?
— Mais ou menos. — Olhou a palma das mãos, de onde vinha a cura. — Por intermédio da Grande Mãe, eu posso colocar as mãos sobre a ferida de alguém e curá-la. Posso tocar a testa de um doente e fazer a febre desaparecer.
— E isso não é bom?
— Seria se, depois da cura, eu não tomasse para mim toda a dor e o sofrimento. Pior: o dom de curar me provoca cegueira. Mal posso enxergar um palmo à frente do nariz,
— Oh, Bella... — Esme a abraçou, comovida. — O que podemos fazer para ajudar?
Os olhos claros se inundaram de lágrimas.
— Nada. E o bebê será ainda mais dotado desse poder; só que mais cego e sofrerá bem mais que eu com as curas.
— Bebê? Bella... você está grávida?
— Estou. É horrível, não é? — soluçou, deixando as lágrimas correrem livremente.
— Bella, é maravilhoso! — exclamou Esme, rindo. — Edward vai ficar louco de felicidade!
— Não quando souber que o filho será cego.
A mãe dela sempre a alertara sobre o perigo de ter uma criança. Se estivesse certa, aquele bebê não poderia enxergar. E as dores que ele iria sentir?, perguntou-se em desespero.
— Bella, você não é cega — Esme interrompeu-lhe os pensa mentos. — É míope.
— Co-como assim?
— Não enxerga bem, só isso. Acontece com muita gente. Ago ra, quanto ao seu poder de cura... Já conversou sobre isso com alguém?
— Só com Edward e Emmet.
— E com outra curandeira?
— Não.
— Então vou levá-la para conhecer a velha Maggie, parteira do clã e guardiã do nosso santuário,
— Existe uma curandeira aqui?
— Edward não lhe contou? Temos uma fonte sagrada e tudo mais. A velha Maggie é quem cuida dela, por isso nunca me inte ressei muito pelo assunto.
— Oh, obrigada! — Bella enlaçou a amiga pelo pescoço. — Levantou-se, enumerando na cabeça as perguntas que faria à cu randeira dos Cullen. Também precisava planejar o casamen to sagrado. Estar comprometida com Edward era bom, mas o filho deles tinha de nascer de uma união de verdade para carregar o nome do pai. — Vamos falar com ela, Esme, agora!
— Como quiser, mas antes temos que convencer o teimoso do seu marido a nos deixar sair daqui.
Ao ver a porta se abrir, Edward se voltou para encará-las.
— E então?
— Ainda não — avisou Esme, rindo. — Tudo o que precisa saber é que vamos fazer uma visitinha à velha Maggie.
— Para quê?
Esme deu-lhe um tapinha no ombro.
— Saberá... em breve.
Até onde Edward sabia, a velha Maggie era uma fraude, capaz de curar, no máximo, uma cólica. Mas se aquilo iria fazer Bella feliz, então que fosse.
Uma brisa fresca soprava do oceano enquanto Bella e Edward caminhavam pelo ancoradouro.
— Para onde estão indo? — perguntou Emmet, de braços dados com uma linda moça.
— Para Drasmoor. Bella quer ver uma pessoa.
— Vou junto. Precisamos conversar. — Beijou a moça com ardor antes de pular para dentro do barco.
Mal Edward e Bella se acomodaram no assento do meio, ouviram a voz de Carlisle.
— Esperem!
Edward não pôde conter uma risada. Bem à frente dele vinha Esme, marchando com firmeza. Carlisle seguia logo atrás, de cara feia, os braços cheios de travesseiros.
— Uma risadinha mais, Edward — ameaçou Carlisle ao entrar no barco —, e vai passar o resto do inverno montando guarda em Piety Ridge.
— O senhor é quem manda.
— Tome. — Carlisle jogou-lhe os travesseiros. — Ajeite-os sobre o banco, enquanto eu ajudo Esme a subir no barco.
Tão logo Esme se acomodou, zarparam. Bella manteve uma das mãos agarrada à borda e a outra no braço de Edward, os olhos fechados, os lábios movendo-se numa prece silenciosa. Eram emoções demais para quem crescera no meio do nada, considerou Edward, penalizado.
No topo da colina, Newton arrancou a espada das costas do vigia do clã Cullen e o largou no chão.
— É lá — disse para o companheiro, apontando o castelo ao longe.
Tinham eliminado três até agora.
— E agora?
Newton aspirou o ar salgado.
— Esperamos até o anoitecer. Então atravessamos em dois bar cos. O resto monta guarda e mantém o gado em silêncio.
— E quanto a Cullen?
— Eu cuido dele sozinho. Você se encarrega da feiticeira. Po nha-a no barco e traga-a para cá.
— Entendido — disse o capitão.
— Ora, ora... Parece que ganhamos um presente — murmurou Newton, fazendo um sinal com a cabeça em direção a um barco que atracava lá embaixo. — Veja quem está chegando.
Com as mãos suando, Bella congelou diante da porta da cabana. Lá dentro, com a velha Maggie, poderia encontrar a resposta para as suas orações. Mas, e se a curandeira não pudesse fazer absolu tamente nada?
Esme se aproximou, preocupada.
— O que foi, Bella? Entre, vamos.
— O-onde está Edward?
— Ali adiante, conversando com Carlisle e Emmet.
Oh, Grande Deusa, não permita que a profecia de minha mãe se realize!
Bem, convinha acabar com aquilo de uma vez.
— Estou pronta.
— Vai dar tudo certo. — Esme a beijou no rosto.
Antes que Bella batesse na porta, uma voz fina falou lá de dentro:
— Entre, entre! Eu estava esperando por você.
Ela obedeceu, o coração aos saltos. O interior da choupana es tava às escuras. Bella arriscou um passo, insegura.
— Para a sua esquerda, querida.
Virou-se e discerniu uma mulher enrugada, sentada numa ca deira entalhada como a que a mãe dela fizera.
Estreitando os olhos claros num esforço para enxergar melhor, Bella indagou:
— Estava mesmo esperando por mim?
A velha Maggie se ergueu e tomou as mãos dela.
— Não. —Ela riu. — Mas aqueles, lá fora, sempre esperam que eu diga essas coisas. — Apontou um banquinho. — Sente-se.
Bella sentiu o coração afundar dentro do peito.
— Acho que me enganei então, eu...
— Sente-se, criança — insistiu a mulher. — Sei que é muito mais do que jamais eu serei. Por isso não menti quando você per guntou.
— Ah. — Sentindo-se mais confiante, Bella sentou-se na bei rada do banco.
— Agora, diga-me: por que alguém como você viria à minha procura?
Bella entrelaçou as mãos sobre o colo, nervosa.
— Estou grávida e temo que esta criança seja ainda mais cega do que eu e com poderes maiores.
— Hum. E por que acha isso? O pai da criança também tem os mesmos poderes?
— Oh, não. Edward é normal.
A velha Maggie ruminou os próprios pensamentos por um ins tante.
— Quem lhe disse que o bebê poderia nascer cego?
— Minha mãe.
— E seria ela Renne, de Loch Ard Forest? Bella arregalou os olhos.
— Conhecia minha mãe?
— Sim. Eu a conheci há muito tempo. — Balançou a cabeça tristemente. — Não é à toa que você se preocupa tanto.
Bella engoliu em seco.
— Como assim?
—Sua mãe sempre foi estranha. Mesmo para os nossos padrões. Mas depois que caiu de amores por aquele druida...
— Que druida?
— Seu pai, querida. Ela nunca lhe contou?
— Não! Conte-me, por favor!
A velha Maggie a observou por um segundo.
— Um dia sua mãe estava colhendo trigo e caiu numa armadilha feita pelo druida. Ficou com a perna presa. Ele confessou que a havia espionado várias vezes e tinha montado a armadilha para apanhá-la.
— Mas por quê? — Bella franziu o cenho.
— Contou que era da Irlanda, do outro lado do mar, e que nunca na vida tinha visto uma moça tão linda como ela. — A velha fitou o fogo fraco da lareira. — Sabe como nossas vidas podem ser solitárias. Não lhe foi difícil seduzi-la. Sua mãe mesma disse: ele era muito bonito. — Voltou-se para Bella. — Dada a sua beleza, agora sei que não estava exagerando. Seus olhos devem ser iguais aos de seu pai.
— E depois, o que aconteceu? — Por que a mãe dela parecia ter tanto ódio no coração?
— Ele a abandonou quando viu que estava grávida. Disse que já havia plantado sua semente e que a sua missão estava cumprida. Então, simplesmente sumiu. — Maggie suspirou. — Sua mãe qua se enlouqueceu. Amava o druida com toda a força da sua juventude e não se conformou por ter sido usada. Continuou a ir aos nossos encontros por algum tempo, mas não era mais a mesma pessoa. Então, não apareceu mais. Sempre me perguntei o que teria acon tecido com ela e com você.
— Ela foi atacada por um porco-do-mato e morreu.
— Ah! E quando foi isso?
— Eu ainda era criança.
— E quem treinou você? Bella piscou, confusa.
— Como assim? No que eu precisava ser treinada? A mulher tornou a segurá-la pelas mãos.
— Conte-me o que acontece com você.
Em poucas palavras, Bella relatou a vontade, o que acontecia depois das curas, a febre, as dores terríveis e os dias passados na cama.
— Como eu suspeitava — suspirou Maggie. — Não é à toa que está tão agoniada com a gravidez. Mas saiba que não precisa sofrer tanto. — Ergueu-se com dificuldade. — Pelo menos, Renne teve a decência de lhe falar sobre a Grande Deusa... — Jogou um pouco de turfa no fogo, fazendo voar fagulhas. — Tem como se proteger dos efeitos da cura, Bella.
Um grito lá fora fez as duas se assustarem. A porta se abriu de repente e lady Esme entrou correndo.
— Escondam-se! — gritou. O barulho de espadas chegou até elas antes que batesse a porta. Ofegante, Esme segurou-se em Bella.
— Newton e os seus homens!
— Edward!
Bella desvencilhou-se da amiga, mas ela a agarrou pelo braço.
— Não pode ir lá fora agora!
— Quantos eles são?
— Muitos. Mas outros nossos virão. — Esme fechou os olhos.
— Deus meu, faça com que venham depressa...
Maggie correu como podia para o fundo da cabana. Retomou em seguida com uma faca, que depositou na mão de Bella, e com pridas agulhas de osso, que entregou a Esme.
— Ajude-me a virar a mesa, rápido!
Bella obedeceu de pronto. Começavam a se acomodar atrás da madeira quando a porta se abriu num solavanco e ouviram o grito de um homem:
— A feiticeira! Pegue-a!
Bella empunhou a faca diante de si, porém teve o pulso imobi lizado por uma mão calejada que o apertou até ela soltar a lâmina. Gritando e esperneando, viu-se arrastada para fora da choupana pelo capitão dos Newton. Não tinham andado três passos em meio ao caos, quando ele soltou um grunhido e arqueou o corpo. Esme conseguira enfiar as agulhas nas costas do homem. Camba leando, ele desferiu um golpe com o braço esquerdo, na tentativa de esmurrá-la, mas Bella o puxou para o lado oposto, levando-os ao chão. No instante seguinte, ele a soltava e rolava na terra.
— Corra, Bella! — ouviu Esme gritar.
Em meio a uma luta feroz, Edward virou o rosto a tempo de ver Bella grudada na parede da cabana, os olhos claros em choque diante do homem morto a seus pés.
— Corra! — gritou também, ao mesmo tempo em que barrava com a espada mais um golpe de Newton. Antes que seu oponente reunisse forças para atacar de novo, um outro se aproximou de Edward, para ser imediatamente atingido no peito por um golpe rápido e fatal. À direita, Carlisle fazia o mesmo com outro inimigo. Foi nesse momento que um tropel ressoou sobre a ponte, acima deles. O grito de guerra dos MacKay encheu o ar. Emmet! Graças a Deus!
Com um estranho movimento do que lhe restava do braço di reito, Newton desferiu novo golpe com a mão esquerda, e Edward desviou-se uma vez mais. As espadas se encontraram, soltando faíscas. Mesmo aleijado, Newton manejava a arma com surpreendente destreza.
Mas não o suficiente para abatê-lo. Segurando a espada com ambas as mãos, Edward a ergueu e desferiu um golpe violento. Newton se defendeu, cambaleante. De repente, algo estranho se moveu dentro do campo de visão de Edward, ao mesmo tempo em que Esme soltava um grito. Temendo que outro Newton tivesse pegado Bella, ele virou o rosto por um segundo, a tempo de, hor rorizado, ver um lobo arrastá-la pelo braço para trás da choupana.
Abriu a boca para gritar, porém algo o atingiu. Olhou para baixo, surpreso. Alguma coisa quente brotou de dentro dele. Ergueu a cabeça. O sorriso triunfante de Newton juntou-se à frustração de não poder sair ao socorro de sua amada. Mas não iria morrer pela espada daquele canalha.
Levados por uma fúria incontrolável, os braços de Edward se levantaram uma vez mais e fizeram descer a pesada espada sobre a cabeça do homem. Ao senti-la vibrar, como tantas outras vezes, de encontro ao crânio do inimigo, soltou a arma e caiu de joelhos, as mãos contra o peito. Ignorando o sangue em seus dedos, só teve olhos para Bella sendo arrastada pelo lobo selvagem.
— Bella! — Edward sussurrou. Não viu mais nada.
Comprimida em meio à densa vegetação atrás da cabana, com a enorme cabeça de Lobo encostada no peito, Bella rezou pela segurança de Edward e de todos aqueles a quem aprendera a amar.
Os Newton haviam vindo atrás dela, e agora gente inocente estava morrendo e gritando por socorro. Não se perdoaria jamais. Sentia a vontade varrê-la dos pés à cabeça, porém tinha consciência de que teria condições de ajudar apenas uma única pessoa.
Lobo se pôs a uivar. Em seguida, começou a puxá-la pela saia, e só então Bella se deu conta de que os sons da batalha haviam cessado. Em meio ao silêncio assustador, alguém chamou seu nome.
Limpando as lágrimas com uma das mãos e segurando Lobo com a outra, ela endireitou o corpo. Quem seria? Alguém dos Newton?
— Bella!
Dessa vez a voz não lhe deixou dúvidas. Carlisle! Mas onde estaria Edward?
Tateando a parede, deu a volta na cabana, com Lobo ao seu lado.
Esme foi a primeira a avistá-la... e a gritar de novo ao ver o animal.
— Não se movam! Fiquem onde estão. Ele não vai me machucar — Bella avisou, antes que alguém o ferisse, como Edward fizera da primeira vez.
Lobo ganiu e ela o acalmou, acariciando-o na cabeça.
— Está tudo bem, são todos amigos. — Ergueu a cabeça, quan do uma respiração forte, bem próxima a ela, chamou-lhe a atenção.
— Edward?
— Carlisle.
— Onde está Edward?
__ Ali
Bella tentou enxergar, aflita.
— Leve-me até ele, por favor! Lobo, fique aqui.
Por que não sentia mais a vontade? O que teria acontecido? Edward estaria desmaiado?
As perguntas martelavam-lhe a cabeça quando Carlisle, final mente, se aproximou, os olhos fixos em Lobo, e a conduziu pela mão até Edward.
— Oh, Edward, não...
Ao ouvir o desespero na voz de Bella, ele abriu os olhos de leve.
— Levem-na daqui — conseguiu dizer com voz débil.
— Edward... — ponderou Esme. — Talvez ela possa ajudar.
— Tirem-na daqui! — repetiu ele. Ninguém sabia o que acon tecia depois de uma cura. Somente Emmet. Só ele poderia impedi-la de agir. — Emmet!
— Emmet foi atrás dos últimos homens de Newton — informou Carlisle, curvando-se sobre ele. — Deixe Bella ajudá-lo. Ela ama você.
— Por isso mesmo deve... tirá-la daqui.
A escuridão desceu sobre Edward e, nesse exato instante, ele desejou poder dizer a Bella o quanto a amava, ou ao menos olhar nos lindos olhos dela uma vez mais antes de morrer.
Bella sentiu um arrepio e um calor brotar da sola dos pés. A vontade! Edward clamava por ela.
Com o coração disparado, pediu que Carlisle e Esme se afastas sem, temendo que a força não chegasse a tempo. Empurrou Lobo, que se postara a seu lado feito um sentinela, e espalmou mãos e pés sobre a terra.
— Só por você, meu amado Edward, eu daria minha própria vida. —Curvou-se sobre ele, aproximando os lábios de seu ouvido. — Confie em mim... e acredite.
Colocou ambas as mãos sobre a ferida aberta e fechou os olhos.
— Grande Mãe, sou Bella, sua filha. Mais uma vez eu imploro... Socorra este homem a quem amo! Por favor! Eu imploro, Grande Deusa!
Por intermináveis minutos, o cântico pareceu não ter efeito. Muito tempo passou até que Bella sentiu os pés formigarem e o calor mover-se por suas pernas. Lágrimas de agradecimento es correram por suas faces lívidas. Em breve, Edward estaria curado.
Já não tremia mais. Abriu os olhos e fitou o rosto amado pela última vez. Consciente do que viria a seguir, entoou a prece;
— Eu, Bella, tomo para mim esta ferida, para que o homem que amo possa viver.
Uma estranha calma tomou conta dela. O bebê também pade ceria, mas o fato já não lhe parecia um castigo, e sim uma bênção.
Ninguém merecia sofrer mais do que já havia sofrido naquela vida. Muito menos seu filho.
Uma dor lancinante pareceu rasgá-la ao meio, e Bella tombou em seguida, em meio a gritos de pavor. Braços fortes a ergueram e, num último lampejo de consciência, ela soube que era Carlisle.
— Diga a Edward que eu o amava...
Relutante, Edward soltou a mão de Bella, para que Carlisle e um dos remadores a carregassem escadaria acima. Quando adentraram o enorme salão de Blackstone, avistou Esme lavando as mãos em água quente. Fez um gesto de cabeça em direção à mesa, enquanto ao longe Lobo uivava, agoniado, como se também estivesse ferido.
— Coloque-a aqui. Venha, Maggie.
Santo Deus, como tinha acontecido tudo aquilo? Ao retornar milagrosamente da escuridão, Edward se deparara com Carlisle aos gritos, Bella largada em seus braços, o ventre aberto numa chaga mortal. Agora Esme abria rolos e rolos de pano branco, que sempre guardava para cuidar dos feridos nas batalhas.
Com as lágrimas escorrendo pelo rosto sujo de terra e sangue, Edward tornou a segurar as mãos frias de sua amada Bella.
— Vai ajudá-la, não vai? — pediu, quase sem voz.
— Vou fazer tudo que puder, Edward — prometeu Esme, come çando a secar a borda do horrível ferimento. — Maggie, preciso de toda a ajuda que puder dar: ervas, preces, qualquer coisa!
A velha mulher, aparentemente tão chocada quanto todos ao redor, passou a entoar um cântico.
Depois de atgum tempo em que Esme pulava a cada ganido de Lobo, Edward se irritou;
— Alguém pode fazer esse bicho calar a boca ou, então, trazê-lo para cá?
Ainda não acreditava que um lobo selvagem pudesse ser o ani mal de estimação de Bella. E pensar que ele os seguira até lá...
De imediato, Carlisle ordenou que dois homens tomassem o barco.
—Tentem alimentá-lo. Ofereçam uma galinha, qualquer coisa! — Voltou-se para a esposa: — O que posso fazer?
— Não deixe que parem de ferver água. É mais fácil Bella morrer de infecção do que pela perda de sangue.
Era o que Edward temia. O sangue parecia ter realmente estan cado, mas o aspecto de Bella era assustador.
Terminada a limpeza do corte, Esme apanhou uma linha de seda e uma agulha.
— Segurem-na firme.
Edward passou um braço pelos ombros frágeis e recostou a testa na dela. Carlisle moveu-se para segurá-la pelas pernas.
Ao ver que Bella nem sequer se moveu com os primeiros pontos, Edward entrou em pânico. Jamais saberia dizer como sobreviveu à angústia de ter a mulher amada entre a vida e a morte, sem poder fazer nada, a não ser murmurar todas as orações que conhecia.
Ao final de quase uma hora, Bella tinha cerca de trinta pontos bem dados, forrados de unguento e cobertos por finas tiras este rilizadas.
— Agora, tudo o que podemos fazer é rezar — murmurou Esme, exausta.
— Muito obrigado, milady — sussurrou Edward, tomando a mão flácida de Bella. — Senhor, faça com que ela se recupere.
Ele é quem deveria estar ali. Por que Bella não permitira que o destino seguisse seu curso? Agora, talvez, nunca soubesse a res posta. Mal podia sentir a pulsação dela entre os dedos.
Se Bella sobrevivesse, ele a levaria de volta para o seu vale, como ela lhe implorara tantas e tantas vezes, e ficaria ao seu lado.
