Ei, pessoas! *-*
Mais um capítulo que surge! :D
Mas, tenho que falar a verdade, está uma bela porcaria. Eu quero ação! eu quero romance! (Então escreva, sua burra) u__u
De qualquer forma, demorou, mas chegou. Espero que gostem! o/
3. O turno - cirurgias, sucos, e um aneurisma.
Ino observou Hinata correr para fora do refeitório e mordeu um pedaço de tomate, emburrada. Adoraria ter que interromper o almoço dramaticamente após um bipe e correr pelos corredores do hospital para salvar a vida de um paciente à beira da morte, mas no momento aquela parecia ser uma realidade muito distante da sua. Neji fazia com que ela se sentisse mais parecida com uma enfermeira recém-formada do que com uma médica interna.
- Se eu tiver que fazer mais um curativo hoje, vou ficar completamente louca – resmungou.
Shikamaru desviou a atenção do seu hambúrguer duplo por um momento.
- Eu sei, o Hyuuga é um saco – ele também fazia parte do grupo de Ino, e parecia se solidarizar com sua situação. – Eu tive que ficar levando exames de lá para cá o tempo todo porque ele me obrigou. E ainda teve aquela médica atendente problemática que ficou gritando comigo por confundir um exame de sangue que ela havia pedido com um de urina.
- Qual delas? – perguntou Kiba.
- Sabaku Alguma Coisa.
Ino balançou a cabeça.
- Temari. Fui do grupo dela no primeiro dia. É uma mulher durona.
- É uma mulher problemática – corrigiu Shikamaru. – Se bem que mulher problemática é um pleonasmo grosseiro.
A loura o ignorou e voltou-se para Kiba.
- Estou falando sério. O Neji está pegando no meu pé! – Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e fez uma careta. – Acho que ele não quer que eu pense que vou ganhar uma colher de chá só porque já nos conhecíamos antes.
- O que é profissional da parte dele – disse Kiba. – Todos os internos estão sendo testados até o seu limite antes de pegarem casos melhores. Não seria correto se fosse diferente com você.
- Ainda acho que tem alguma coisa a ver com o fato de eu ser a melhor amiga da prima dele – insistiu Ino. – A Coelhinha teve muita sorte de não sair no meu grupo. Sendo parente, a pressão sobre ela provavelmente seria ainda maior.
Tenten tomou um gole de suco e entrou na conversa:
- Não sei se a Hinata se considera muito sortuda nesse momento, principalmente depois do acidente com o Uchiha. Eu morreria de vergonha se fosse comigo!
Kiba assentiu.
- O cara é amedrontador – disse ele. – Viu como ele nos olhava quando passou as instruções? Se o que ele queria era intimidar, conseguiu.
- Foi o que eu quis dizer.
- Ele é tão terrível assim? – Perguntou Shikamaru. – Eu ouvi falar que toda a família Uchiha é do meio médico, e são todos super-gênios famosos, por isso são um pouco rígidos. Mas achei que parte das histórias era boato.
- De jeito nenhum. – Ino balançou a cabeça negativamente. – O pai dele é ninguém menos que Uchiha Fugaku, o cara que ganhou o Prêmio Harper Avery três vezes.
Shikamaru pareceu surpreso por meio segundo antes de dar de ombros e voltar sua atenção exclusivamente para seu hambúrguer. Ino suspirou, decepcionada por sua brilhante explicação não ter feito o tipo de efeito que ela esperava – garotos não podiam deixar de ser garotos por muito tempo. Quando há um prato de comida ou uma mulher sem roupa na frente, todo o resto desaparece completamente para eles.
- Acho melhor a gente se mandar – disse ela, por fim. – Tudo o que eu preciso é que Neji resolva me passar para a seção de formulários por achar minha falta de comprometimento sinal de que ainda não estou pronta para lidar com arranhões.
Shikamaru deu mais uma última mordida e assentiu.
- Melhor a gente ir também – Tenten terminou o suco e virou-se para Kiba. – Já acabou?
- Acabei – ele afastou a bandeja e se colocou de pé. Seu tom de voz se tornou levemente sarcástico. – Mal posso esperar para suturar mais algumas cabeças.
Hinata se dirigiu para o quarto 1002, esforçando-se para não tropeçar enquanto corria o mais rápido que suas pernas conseguiam suportar. Havia acabado de receber um 911, o que significava basicamente "corra para não matar seu paciente" ou, trocando em miúdos, que Orochimaru estava com problemas.
Quando finalmente colocou os pés para dentro do quarto, se deparou com uma cena preocupante: enfermeiros entravam e saíam correndo enquanto três ou quatro deles agiam rapidamente ao redor do leito onde Orochimaru convulsionava, agitando os lençóis e os fios ligados aos monitores que apitavam sons de alerta sem parar. Ela parou por um segundo, atordoada, antes que conseguisse pensar com clareza e ouvir o que as pessoas gritavam umas com as outras.
- Ele está tendo convulsões múltiplas agudas – um dos enfermeiros curvados sobre o paciente voltou-se para ela. – Como vai proceder?
Hinata pegou o prontuário e passou os olhos por ele rapidamente.
- Dois miligramas de Diazepam – disse ela, lutando para manter o tom de voz controlado – Isso deve resolver, não?
- Acabamos de administrar a dose, mas não houve resultado.
- Lorazepam?
- Quatro miligramas – a enfermeira confirmou. – O que...?
- Fenobarbitol – interrompeu Hinata. – Dose total de Fenobarbitol.
Um dos enfermeiros administrou o medicamento e as convulsões amenizaram. Em poucos segundos Orochimaru estava imóvel, esparramado e inconsciente sobre a cama hospitalar. Hinata agarrou o estetoscópio e o comprimiu sobre o peito dele, escutando com atenção seus batimentos cardíacos. O ritmo se normalizou rapidamente.
- O Dr. Uchiha já foi bipado? – perguntou ela, voltando-se para o enfermeiro que falara primeiro.
- Fui. – Uma voz masculina respondeu atrás de Hinata e ela se virou imediatamente, quase batendo o rosto no peito de Sasuke ao fazê-lo. O médico havia acabado de entrar no quarto e analisava o prontuário com atenção, parado bem próximo a ela. – O que foi que aconteceu aqui?
Hinata deu um passo para trás automaticamente, afastando-se dele.
- Ele teve algumas convulsões, mas elas já foram acalmadas pelo Feno – explicou ela. Sentiu os dedos das mãos tremerem incontrolavelmente, mas cruzou os braços sobre o peito com firmeza para evitar que o nervosismo se espalhasse pelo resto do corpo. – Os batimentos cardíacos voltaram ao normal bem rápido.
Sasuke dispensou os enfermeiros e examinou Orochimaru superficialmente, como se procurasse sintomas básicos para algo que já estava confirmado. Tirou um pequeno bloco de papel do bolso do jaleco e fez uma anotação breve, voltando-se para Hinata.
- Muito bem, então é isso – disse ele por fim. – Pode imaginar algum diagnóstico para o paciente, Dra. Hyuuga? – acrescentou, lembrando-se repentinamente se ensinar alguma coisa à sua médica interna.
Ela pensou por um momento e assentiu.
- Aneurisma cerebral – murmurou, sem pestanejar.
- Foi o que a tomografia revelou – confirmou Sasuke. – Faremos uma operação amanhã mesmo, depois que conseguirmos contatar a família dele. – seu olhar apático deslizou pelo rosto de Hinata por uma fração de segundo. – Certo, Dra. Hyuuga, você pode ir descansar um pouco agora. Está com uma cara péssima, como se tivesse sido atropelada por uma maca hospitalar. Vá terminar o seu almoço.
Hinata precisou de toda a força de vontade que tinha para não bater o pé no chão, como uma criança pequena dando um ataque ao ser contrariada. Por que diabos aquele médico irritante não podia simplesmente esquecer o incidente da maca e parar de alfinetá-la casualmente a cada oportunidade que encontrava?
- Eu estou bem – ela fez um esforço para parecer fria, mas sua voz fininha e delicada não conseguiu o efeito desejado. – E, se não se importa, eu gostaria de conversar com o Sr. Orochimaru antes da cirurgia. Acho que vai ser uma tarefa difícil fazer com que ele aceite cortar os cabelos.
- Como é? – Sasuke a encarou, incrédulo.
Hinata sentiu seu rosto ficar quente de repente. Não fazia sentido se envergonhar de algo que não fora ela mesma quem havia estipulado, mas alguma coisa no tom de voz do Uchiha fez com que se sentisse como alguma enfermeira débil mental pedindo ao chefe que a deixasse abrir a barriga de um paciente. Ela baixou os olhos e os manteve fixados em seus próprios sapatos.
- Bem, lembra-se quando eu lhe disse que eu estava distraída porque o Sr. Orochimaru estava me dizendo coisas engraçadas? – Suas bochechas estavam quase pegando fogo quando olhou para Sasuke outra vez. Ele confirmou com a cabeça. – Ele havia me dito que não cortaria seus cabelos mesmo em caso de cirurgia, porque haviam demorado muito para crescer.
O Uchiha ficou sem fala por um momento, exatamente como Hinata ficara quando Orochimaru dissera tal disparate pela primeira vez. Várias adolescentes já haviam reclamado quando ele raspara seus cabelos em cirurgias passadas, e até mesmo algumas mulheres um pouco mais maduras, mas jamais esperaria ver um homem de cinqüenta e um anos preocupado com esse tipo de vaidade.
- Está me dizendo – entoou, por fim – que o paciente se recusa a ter os cabelos raspadospara que possamos salvar sua vida?
Foi impossível para Hinata segurar o riso depois que Sasuke colocou as coisas dessa maneira, e sua expressão só fez com que ela gargalhasse ainda mais. Era uma situação completamente ridícula, mas era real, e o fato de ter que lidar com aquilo profissionalmente era totalmente esquisito e hilário ao mesmo tempo. Devia ser, pensou ela, ainda pior para o Uchiha, sendo todo sério e metódico daquele jeito.
- Desculpe, desculpe – murmurou, tentando recuperar o fôlego e reprimir as risadas – é só que a sua cara agora, Dr. Uchiha, foi tão engraçada que... eu sinto muito, mesmo. Essa situação é tão... eu não esperava por isso, e tenho certeza de que o senhor também não. Desculpe-me. Não é engraçado.
E então, para seu completo espanto, Sasuke também riu. Claro que sua risada era bem mais controlada – era quase séria, se é que uma risada consegue ser séria –, mas, ainda assim, era uma risada. Hinata ficou tão surpresa com aquilo que interrompeu seu próprio riso, encarando-o em total perplexidade.
- Tem razão, isso é completamente... – seus olhos encontraram os dela e ele parou, confuso. – O que foi?
- Hã, nada – ela desviou o rosto rapidamente e se aproximou do leito, ajeitando as cobertas sobre o corpo imóvel de Orochimaru. Suas bochechas voltaram a ficar completamente vermelhas e ela se perguntou mentalmente até quando continuaria passando por situações constrangedoras com seu chefe. – Então, posso falar com ele antes da cirurgia? - acrescentou, sem levantar o olhar.
- Pode. – Sasuke não entendeu a reação de Hinata, e não pôde deixar de imaginar o que passava pela cabeça dela. Concluiu, com pesar, que ele deve ter parecido um grandessíssimo idiota. – Quando ele acordar, mandarei chamá-la.
- Certo.
- Certo.
Hinata balançou a cabeça em sinal de cumprimento e saiu do quarto a passos largos, sentindo que a vida era tremendamente injusta com ela. Por causa de um minuto, um único minuto de distração, havia atropelado seu médico atendente e agora vivia passando por momentos embaraçosos ao lado dele. Provavelmente o Uchiha pensava que ela era uma idiota completamente sem noção, e teria todo o direito de reprová-la por má conduta no trabalho – afinal, machucar os outros médicos e achar graça nos hábitos dos pacientes não poderiam ser consideradas atitudes profissionais, poderiam?
Dentro do quarto, Sasuke folheou o prontuário mais uma vez, distraído. Não podia acreditar que havia começado a rir de um paciente e, pior ainda, havia sido flagrado fazendo isso por uma de suas internas. E, tudo bem, ela também estava rindo (e fora ela quem começara), mas afinal de contas ele era o médico atendente ali, portanto deveria servir de exemplo e modelo profissional. Zoar pessoas doentes não era nenhum exemplo de comportamento profissional.
Por fim, ele deu de ombros e conferiu o relógio, saindo do quarto em direção aos elevadores. Provavelmente ainda teria tempo para um café antes que tivesse mais trabalho duro a fazer, e ainda faltavam 42 horas para o fim do turno. Ele definitivamente, desesperadamente, precisava de uma quantidade significativa de cafeína no corpo antes de voltar a lidar com seus internos sem sofrer um colapso nervoso.
Naruto deu um gole no café adocicado que acabara de trazer do restaurante e apoiou os cotovelos sobre o balcão de recepções, esperando que a secretária saísse da salinha de arquivos para atendê-lo. Estava morrendo de sono e, graças a Deus, seu turno não começaria antes de dois dias, mas ainda tinha um caso para finalizar. E não estava a fim de perder nenhum paciente naquele dia, não mesmo.
Em poucos segundos a secretária baixinha surgiu na porta do almoxarifado com uma pastinha na mão e se dirigiu para a garota de cabelos escuros recostada do outro lado do balcão, tão silenciosa e quieta que quase chegava a ser imperceptível.
- Aqui está, querida – disse ela, entregando os documentos à outra. – É só isso?
Hinata conferiu os papéis e sorriu amavelmente de volta para a secretária, assentindo. Foi só então que Naruto reparou na presença dela, achando-a, de alguma forma, familiar. Quando ela ergueu o rosto para agradecer à mulher pelos documentos que trouxera, ele notou o tom quase translúcido de seus olhos, claros como pérolas. Eram exatamente iguais aos de um de seus colegas cirurgiões.
- Pode pegar para mim uma cópia do prontuário da Sra. Aiko Tokugawa, por favor? – pediu Naruto à secretária, quando ela perguntou o que ele queria. Ele esperou que ela saísse antes de voltar-se para Hinata com curiosidade. – Então é você que é a prima do Hyuuga Neji?
Hinata levantou os olhos dos papeis que ainda examinava para encará-lo.
- Você o conhece? – perguntou ela. Depois sacudiu a cabeça e reformulou a pergunta: - Quero dizer, é amigo dele?
- Sim, somos amigos – ele deu um sorriso estonteante e estendeu a mão para ela – Sou Uzumaki Naruto.
- Hyuuga Hinata – ela sorriu e o cumprimentou. – Acho que Neji já mencionou você algumas vezes.
- Provavelmente para contar como sou retardado. – brincou ele, e os dois riram.
Enquanto a secretária retornava para entregar o prontuário a Naruto, Hinata o examinou com o canto dos olhos, discretamente. Ele era muito bonito com seus cabelos loiros despenteados em todas as direções e seus olhos azuis muito claros e gentis – na verdade, era tão bonito quanto Sasuke, mas de uma forma bem menos misteriosa. Seu jeito a lembrava um pouco Kiba, mas o conjunto era um pouco mais... Fascinante? Ela não sabia exatamente dizer. Mas com certeza gostaria muito de passar algum tempo perto dele.
- Então... como soube que eu era parente do Neji? – perguntou, casualmente.
Naruto dobrou os papeis que a secretária o entregara e enfiou no bolso largo do jaleco.
- Intuição – brincou ele, e depois piscou. – Na verdade, ele também mencionou você. Disse que estava vindo para cá. Você é muito parecida com ele – Naruto fez uma pequena pausa, perguntando-se se era uma boa ideia dizer a uma garota que ela se parecia com uma cara. – No bom sentido, claro. – Acrescentou depressa.
Hinata sorriu.
- Ah sim. Bom, preciso ir – ela sacudiu a pastinha que viera pegar na secretaria do hospital. – A gente se vê.
- A gente se vê – repetiu ele, observando Hinata se afastar do balcão. De repente se lembrou de uma coisa. – Ei, espere!
Ela parou e se virou para ele.
- Você é interna do Sasuke, não é? – Naruto sorriu, brincalhão – Foi você que o atropelou com uma maca?
Hinata sentiu as bochechas ficarem muito vermelhas e baixou a cabeça, exasperada. Aquela história já estava se espalhando demais, e acabaria criando uma situação ainda mais constrangedora com o Dr. Uchiha. Até os médicos atendentes estavam falando daquilo!
- Como soube? – perguntou ela, modelando a voz para que não gaguejasse, um hábito ridículo que surgia quando ficava envergonhada.
- Calma – Naruto lhe lançou um sorriso tranqüilizador. – Foi o próprio Sasuke quem me contou. Na verdade ele disse "uma das internas", e eu soube que você era interna dele pelo Neji. Foi só um palpite que você mesma confirmou.
- Hã... e por que o Dr. Uchiha te contaria isso? – ela ainda estava confusa.
- Somos melhores amigos. É no meu ouvido que ele reclama quando está tendo um dia ruim.
Hinata observou aquele rosto amável mais uma vez, surpresa com a resposta. Parecia muito difícil imaginar uma pessoa tão gentil e adorável como Naruto sendo amigo íntimo de alguém tão sério e intimidador como Sasuke. Por um momento ela quase se esqueceu que o foco da conversa era o ataque da maca, e não a amizade dos dois.
- É, bem, aquilo foi só um acidente – disse ela por fim, recompondo sua máscara de sobriedade. Ela ficava muito bonitinha quando tentava parecer séria. – Vou indo, então, porque eu tenho muitas coisas para fazer. Coisas muito importantes, na verdade.
Naruto sorriu, achando graça no embaraço da Hyuuga.
- Oh, sim, eu também estou muito ocupado – ele fez uma careta séria, brincando – A gente se vê depois.
- Pode ser – respondeu Hinata, virando-se novamente e focando sua atenção no histórico de doenças de Orochimaru que havia acabado de pegar com a secretária. Estava um pouco envergonhada, mas encantada por conhecer um cara tão gentil como Naruto. Não pôde deixar de se perguntar o que tinha na água daquele hospital para fazer com que todos os médicos fossem tão bonitos assim.
Se tivesse olhado para trás naquele exato minuto, teria visto Sasuke se aproximar do balcão e cumprimentar apaticamente seu melhor amigo. O que provavelmente seria uma visão e tanto.
- E aí, eu acabei de conhecer sua interna atropeladora.
Sasuke desviou a atenção do quadro de cirurgias, onde marcava a operação de Orochimaru para a manhã do dia seguinte, e encarou o amigo. Pareceu quase surpreso por um momento.
- A Hyuuga? – perguntou ele. – Quando foi que falou com ela?
- Agora. – Naruto afastou-se do balcão de recepções e indicou o corredor com a cabeça. Sasuke pôde ver Hinata entrando em um dos elevadores com o histórico de Orochimaru que ele havia pedido. – Ela é tão linda e fofa. Não acredito nisso, você sempre pega as melhores internas. Ano passado eu só saí com uns caras super mal-encarados, e esse ano não saí com ninguém, o que é bom, mas também é chato.
O Uchiha ignorou a falação de Naruto e arrancou o café de sua mão, tomando um gole. Era doce e fraco demais para o seu gosto.
- Ieerk. Isso está quase nojento – reclamou ele, devolvendo o copo. – Não vai ficar acordado o turno inteiro com isso.
- Meu turno não é hoje – lembrou-lhe Naruto.
Sasuke lançou um olhar irritado na direção dele.
- Quer trocar de vida? – resmungou.
Naruto pensou por alguns instantes.
- Quero trocar de vida sexual – brincou ele, por fim. – Serve?
Sasuke balançou a cabeça e terminou a anotação no quadro.
- Não, melhor não – ele tampou o pincel atômico e o colocou de volta na caixinha sobre o balcão. – Acho que não quero passar o resto da minha vida sem fazer sexo, obrigado.
- Que maldade! – Naruto soltou uma risada descontraída. – Também não é assim. Você teria a chance de sair com uma garota uma vez a cada seis meses, mais ou menos. Isso dá uma quantidade significativa de sexo. Não precisa ser tão tarado também, né?
- Eu preciso é de uma cirurgia – declarou Sasuke, dando o assunto por encerrado. – E do meu almoço.
Neji virou o corredor do pronto-socorro calmamente, procurando por um de seus internos que não estivesse ocupado demais suturando, limpando, examinando ou ressuscitando algum paciente naquele momento. Havia uma apendectomia marcada para dali a exatamente duas horas, e uma cirurgia daquele nível poderia ser feita por um deles tranquilamente – na verdade, era a oportunidade perfeita para que um interno fizesse e os outros assistissem da câmara no alto uma cirurgia pela primeira vez.
Shikamaru estava encostado na parede virando uma garrafa de chá gelado, a expressão extremamente entediada.
- Nara – chamou Neji. – Onde estão os outros internos?
- Ino está com a garota atropelada, o tal do Gaara estava cuidado do senhor que escorregou no banheiro – respondeu ele, sem ao menos se preocupar em manter a postura ereta – e, se não me engano, a outra garota, a Sakura, estava com a mulher com enxaqueca.
Neji lançou um olhar rápido em direção ao relógio de pulso e assentiu.
- Muito bem, você é o sortudo que removerá o apêndice da Srta. Arisawa Noriko, daqui a menos de duas horas. Ela está no quarto 903. Prepare-a para a cirurgia, e depois prepare-se você mesmo. Te espero na SO mais tarde – disse ele, e saiu.
Shikamaru deu de ombros e jogou fora a embalagem vazia do chá gelado. Até que havia gostado de poder fazer logo sua primeira cirurgia, mas não era exatamente o tipo de pessoa que saía dando pulinhos de alegria por causa de uma simples apendectomia. Era preciso algo muito mais complexo para empolgar aquele grande preguiçoso.
- Eu ouvi direito? – disse uma voz feminina atrás dele.
Shikamaru virou-se e lá estava Ino, a expressão zangada fazendo contraste com seus cabelos louros e olhos azuis de boneca. Ela se parecia exatamente com aquelas garotas fabulosas das séries de TV que, por mais que estejam cansadas, acabadas e desarrumadas, continuam com uma ótima aparência. Talvez ela tivesse mais sorte como modelo, observou ele, do que como médica.
- Você vai fazer um cirurgia no primeiro turno? – o tom de voz dela subiu mais algumas oitavas. – Isso é tão injusto! Você ficou aqui o tempo todo fazendo nada além de beber uma porcaria de chá enquanto eu me matava fazendo curativos nas pessoas, e você ganha uma apendectomia por isso?
Shikamaru suspirou, cansado. Nenhuma garota podia ser perfeita – quando eram muito gatas, o nível de histeria era diretamente proporcional à beleza.
- O que eu posso dizer? – ele deu de ombros novamente. – O Hyuuga é que me ofereceu a cirurgia. Eu é que não iria recusar, sua problemática.
Ino bateu o pé com força no chão e avançou em direção aos elevadores, procurando por Neji. Estava louca para lhe dar uns bons socos por ser um babaca cretino que se recusava a lhe dar uma porcaria de tarefa decente além de lidar com ferimentos absurdamente superficiais, mas não o encontrou no corredor. Provavelmente ele já estava a quilômetros de distância, se preparando para a estúpida cirurgia de apendicite. Era tão injusto.
Ela voltou para o PS arrastando os pés com desânimo.
- Relaxa – disse Shikamaru, espreguiçando-se lentamente. – É só a operação mais simples do universo. Ainda vai aparecer um monte de apendectomias para você fazer, não se preocupe.
Ino revirou os olhos. Por que a primeira cirurgia feita por um interno tinha que ser designada a alguém que não se importaria a mínima em não recebê-la?
- Você não tem uma paciente para aprontar, não? – resmungou ela.
- Já mandei um enfermeiro fazer isso enquanto você saía daqui toda fula.
A loura ajeitou o jaleco sobre os ombros e cruzou os braços. Provavelmente gritaria um pouco mais com Shikamaru se ele não tivesse estalado os dedos e acenado para ela como um gesto de despedida, virando-se para a saída do PS.
- Aquele apêndice não vai pular fora sozinho – disse ele, à guisa de explicações.
Ino o observou sair por um momento, chateada. Ergueu o pulso esquerdo para que pudesse olhar o relógio e suspirou, seguindo o caminho que Shikamaru acabara de percorrer. Já passavam das dezoito horas, o que significava que o turno acabaria em 37 horas e, depois desse período de tempo, poderia se acomodar em sua deliciosa e aquecida caminha para uma maratona de sono. Mal podia esperar.
Amém.
- Já começou, já começou? – perguntou Sakura, entrando apressadamente na câmara lotada de internos uniformizados.
Uma olhada rápida pelo vidro transparente acoplado à parede como divisão entre o espaço em que se encontravam e a Sala de Operações indicou que ainda havia tempo até que as coisas começassem a ficar realmente interessantes. Ela escolheu um lugar vago perto de Hinata e Kiba e sentou-se confortavelmente para assistir ao espetáculo.
- Acham que ele vai conseguir? – perguntou, sem tirar os olhos da paciente.
Shikamaru estava começando a fazer uma incisão no abdômen da mulher.
- Absolutamente. Ele entrou no programa com as notas mais altas do que qualquer outro aqui – respondeu Kiba distraidamente. – Apendectomia é moleza até para mim, quanto mais para um cara com QI tão alto quanto o dele.
Sakura virou-se para Kiba, surpresa.
- Jura? – seu olhar vagou novamente para Shikamaru através do vidro. – Eu sou do grupo dele e, até agora, só o que eu percebi foi sua incrível preguiça.
Hinata observou Shikamaru abrir o peritônio e retirar o apêndice com velocidade e destreza incrível, como se estivesse penteando o cabelo de alguém, e não participando de um procedimento cirúrgico. Neji assistia a tudo com um distanciamento cauteloso, pronto para agir se fosse necessário, mas ciente de que dificilmente precisaria se intrometer. Ela admirava a cena em todos os aspectos, notando a facilidade com a qual o interno puxava as alças simultaneamente, sem parti-las, e como suturou o corte rapidamente. Quando deu por si, já havia acabado. A cirurgia havia durado menos de uma hora.
- Ele é muito bom – Hinata se encolheu na cadeira, lançando um último olhar em direção à SO.
- Eu falei – murmurou Kiba, colocando-se de pé. – Que tal um café antes de voltar para o pronto-socorro? – perguntou ele, inclinando-se para incluir Sakura no convite. A verdade é que ele preferia ter apenas a companhia da Hyuuga, mas seria um pouco estranho chamar exclusivamente a amiga quando havia tantas pessoas ao redor. A última coisa que ele queria era assustá-la.
- Parece ótimo, mas eu ainda preciso falar com meu paciente – disse Hinata, conferindo o relógio. – Ele deve acordar logo.
- Oh, vamos lá – foi a vez de Sakura insistir, dando um tapinha amigável no braço da outra. – Um único café não vai te atrapalhar em nada.
- Eu peço um suco para você, se não quiser café – Kiba piscou. – Eu sei que você vai querer dormir um pouco hoje, e você é totalmente intolerante à cafeína.
Hinata olhou para os dois em dúvida por um momento. Depois sorriu, radiante.
- Tudo bem – brincou ela. – Posso conceder minha agradável companhia por cinco minutos, seus chatinhos. – Ela virou-se para Ino, na fileira de trás. – Você vem?
- Não – respondeu a loura, levantando-se. – Vou tirar um cochilo no armário dos zeladores. Me chamem se o mundo estiver acabando.
- Até depois, então.
- Até.
Kiba deu um braço à Hinata e outro à Sakura e os três saíram da câmara, virando no corredor e descendo até as portas de vidro do refeitório do hospital.
- Um café puro pequeno, por favor – Sasuke deslizou uma nota de dinheiro por cima do balcão, e acrescentou: – sem açúcar.
Consultou o relógio pela milionésima vez naquele dia, exausto. Adoraria que a bebida lhe tirasse o sono para que pudesse estudar o aneurisma de Orochimaru um pouco mais antes de ir dormir, mas, estranhamente, a cafeína produzia nele um efeito mais relaxante do que energético. De qualquer forma, iria procurar algum canto vazio para cochilar e depois faria a cirurgia descansado, conhecendo o suficiente a respeito do cérebro do paciente, como sempre fizera.
- Dr. Uchiha – cumprimentou uma vozinha feminina vagamente conhecida atrás dele, despertando-o de seus devaneios. – Er, olá.
Sasuke se virou e deu de cara com Kiba. A princípio pirou, achando que aquela voz fina de garota vinha do Inuzuka, mas depois se lembrou de abaixar um pouco o olhar e reconheceu a Hyuuga parada ao lado dele, junto com mais uma garota de cabelo rosa que ele não conhecia, mas que olhava para ele como se ele fosse um bolinho de chocolate.
- Hyuuga, Inuzuka. – cumprimentou, pegando o café que a atendente havia colocado diante dele. – Assistiram à apendectomia de agora a pouco? O Dr. Hyuuga disse que chamaria todos os internos para observação.
- Sim, foi bem interessante – respondeu Kiba, voltando-se para a atendente – Dois cappuccinos e um suco de morango, por favor.
- O interno que fez a operação é muito talentoso – comentou Hinata, com um tom de admiração na voz. – Ele foi muito rápido e eficiente.
- Bem, sim, acredito que sim – respondeu Sasuke, por falta de algo melhor para dizer.
A atendente colocou o pedido de Kiba em uma bandeja e o entregou.
- Vamos? – perguntou ele, indicando uma mesa com a cabeça.
- Claro – respondeu Hinata. Ela virou-se para Sasuke, enquanto ele fazia menção de ir embora. – Bem, Dr. Uchiha... por que não... por que não se senta com a gente? – perguntou, antes que tivesse tempo de fechar a própria boca. – Quero dizer... se não quiser ir se sentar com seus amigos... ou não tiver outra coisa melhor para fazer, o que com certeza o senhor tem, mas, se... quero dizer, hum.
Sasuke observou Hinata se atrapalhar com as palavras e, mesmo que não admitisse, aquilo era mesmo bonitinho. Provavelmente ela havia convidado apenas para ser educada. Uma olhada rápida para os outros internos indicou que Kiba não parecia se importar muito que ele se juntasse a eles, e os olhos da interna de cabelo rosa praticamente brilhavam com a expectativa de que isso acontecesse. Geralmente ele agradeceria e voltaria para fora do refeitório, mas Hinata parecia ter feito tanto esforço para convidá-lo que ele não pôde fazer isso. Não iria morrer por causa daquilo, pensou, já arrependido da decisão.
- Hã, tudo bem – respondeu, por fim.
Os quatro sentaram-se na mesa que Kiba indicara antes, e ele entregou um dos cappuccinos à Sakura e o suco à Hinata. Os internos mal conseguiam disfarçar a surpresa por Sasuke querer ficar ali junto com eles, mas não faziam qualquer tipo de comentário a respeito. O próprio Sasuke estava se sentindo meio deslocado naquele lugar, e só não se levantou dali imediatamente porque aquilo seria muita arrogância de sua parte, e ele não era um sujeito arrogante.
Tudo bem, talvez só um pouquinho.
- Hyuuga, você não gosta de café? – perguntou ele, quebrando o silêncio.
Hinata desviou a atenção do seu suco, ainda mais surpresa por ele estar conversando casualmente com ela.
- Não é isso – respondeu. – É que eu preciso descansar um pouco, mas cafeína me deixa completamente elétrica por um bom tempo, e depois eu acabo ficando muito exausta.
- Sério? – Sasuke tomou um gole do seu copo. – Em mim, tem quase o efeito contrário.
- Deve ser psicológico – murmurou Hinata.
- Deve ser.
- Aquele paciente que chegou hoje cedo, o das convulsões – Kiba pousou seu cappuccino sobre a mesa. – Qual foi o diagnóstico?
- Aneurisma – disseram Sasuke e Hinata em uníssono; ele em tom firme, ela quase sussurrando.
- Verdade? – Sakura abriu a boca pela primeira vez desde que eles haviam se encontrado com o Uchiha. – E algum interno vai assistir à cirurgia de perto?
- A Hyuuga vai – respondeu Sasuke, tomando mais um gole do café, sem nem ao menos olhar na direção de seu objeto de declaração.
Hinata quase se engasgou com o suco de morango.
- Como é? – arfou, esquecendo-se completamente de ser polida.
Ele virou-se para ela, parecendo surpreso.
- Você não quer? – perguntou.
- Bom, sim. Mas não achei que fosse poder assistir, você sabe, de dentro da SO.
- Ele é seu paciente. O caso é seu. – Sasuke deu de ombros, como se fosse a coisa mais óbvia do universo. – Por que não poderia participar da cirurgia dele?
- Sei lá – Hinata pensou por um minuto. – É uma cirurgia avançada, eu não pensei que poderia ver uma desse tipo logo no meu primeiro turno.
- É, bem, você pode.
Kiba sorriu para Hinata com orgulho.
- Parabéns, Coelhinha – disse ele. – Vai ser uma experiência e tanto.
Sasuke arqueou as sobrancelhas para os dois.
- Vocês são namorados? – perguntou, curto e direto. Ele não era exatamente uma pessoa de rodeios.
Hinata e Kiba ficaram muito vermelhos imediatamente – ele por Sasuke ter percebido tão claramente suas intenções com a Hyuuga, ela por ter de discutir sua vida amorosa na frente do chefe. Aquilo tudo era, utilizando um eufemismo grosseiro, constrangedor.
- Somos apenas amigos – declarou Hinata, apressadamente. Apesar da vergonha, havia verdade em cada uma de suas três palavras. E aquilo doía em Kiba.
- Pois é. – acrescentou ele, escondendo a pontada de mágoa na voz. – Bons e velhos amigos.
Sasuke abriu a boca para dizer alguma coisa, mas o pager bipou no bolso do uniforme naquele exato minuto. Ele deu uma conferida rápida na tela e balançou a cabeça, como se concordasse com alguma coisa. O de Hinata bipou em seguida.
- Bem, parece que Orochimaru acordou. – disse Sasuke, virando-se para ela. – Importa-se de conversar com ele agora?
- Não me importo – respondeu Hinata, aliviada pelo rumo da conversa ter mudado completamente. Ela deu um último gole no suco e o deixou sobre a mesa, voltando-se para Kiba e Sakura – Pessoal, vocês se importam se a gente deixar essa "pausa do café" para depois?
- De jeito nenhum – Sakura lançou um sorriso radiante, mais voltado para Sasuke do que para Hinata. – A gente se vê depois.
- Tchau! – disse Kiba, enquanto observava o Uchiha sair do refeitório na companhia da garota que ele queria perto dele. Suspirou, resignado, e se concentrou em beber seu delicioso e aquecido cappuccino. Como se o seu médico atendente tivesse alguma culpa no fato de Hinata não ser sua namorada nesse exato momento.
Fim do capítulo :/
a única coisa que eu queria fazer desde o início que eu fiz foi falar um pouco de outrs personagens – e mesmo assim, fiz pouco. Mas não se preocupem, as partes emocionantes estão por vim. Já estou cheia de idéias mirabolantes na cabeça, huá huá huá! :D
E eu gostaria de agradecer efusivamente (não é uma palavra legal? :D) por todas as reviews! Eu fico praticamente histérica e muito animada depois de lê-las. É uma grande honra receber tantas, de verdade.
Beijinhos, e até o próximo capítulo (que não deve demorar, já que estou de férias!) :D
