Hello people :D

Como já deu pra notar, eu andei meio sumida. Pois é, peço desculpas por isso, mas fui arrastada contra a minha vontade para uma roça chata e sem internet, então só pude escrever uma parte do quarto capítulo. Pensei em terminar e postar depois, mas demorei tanto que achei que vcs tinham o direito de receber o que eu já escrevi, mesmo que esteja uma merda velha.


4. Primeira parte: noivado

- Deve – soluço – Deve haver outra maneira!

- Desculpe, não há.

- Por favor... – soluço – Por favor.

- Eu sinto muito, mas é necessário...

- Talvez – soluço – Talvez apenas um círculo no topo da cabeça seja o suficiente.

- Sr. Orochimaru – suspiro – Por favor...

Seis anos na faculdade de medicina não haviam preparado Hinata para lidar com um paciente como Orochimaru. Estava sentada ao lado do seu leito havia quase duas horas tentando de todas as maneiras possíveis convencê-lo de que aquela cirurgia era absolutamente necessária e que seria impossível abrir seu crânio com todos aqueles cabelos ao redor, mas ele se recusava a ceder. De cinco em cinco minutos Sasuke enfiava a cabeça por uma frestinha na porta para ver se Hinata havia conseguido algum resultado, mas nem a impaciência dele e nem a perseverança da Hyuuga conseguiam fazer Orochimaru compreender a urgência da situação.

- Escute, Sr. Orochimaru – começou ela novamente, tentando manter a calma. – A cirurgia irá salvar a sua vida, e isso é um fato. Seus cabelos são realmente maravilhosos, incríveis, soberbos, mas vão crescer novamente. Seu aneurisma pode se romper a qualquer minuto. Não quero apavorá-lo – sim, ela realmente queria – mas ele pode se romper agora, bem no meio da nossa, hã, conversa.

Orochimaru secou uma lágrima que descia por sua bochecha esquerda.

- Mas eu me sinto saudável.

- Não está saudável – Hinata sacudiu a cabeça com veemência. – O senhor sofreu convulsões. Sua cabeça deve estar doendo.

Ele não respondeu.

Sasuke abriu a porta novamente, dessa vez deixando o espaço aberto um pouco maior do que uma fresta, por onde lançou um olhar severo em direção às duas pessoas no quarto.

- Dra. Hyuuga, posso dar uma palavrinha com você? – perguntou, fazendo sinal para que Hinata o acompanhasse.

Ela assentiu e se levantou da cadeira, seguindo Sasuke para fora do quarto. Ele fechou a porta quando ela passou e virou-se novamente para ela, cruzando os braços e recostando-se na parede, como quem espera. Sua expressão era apática, como sempre, mas ele arqueou uma sobrancelha.

- Olha, eu sei o que está pensando, mas precisamos do consentimento dele, certo? – murmurou Hinata, torcendo os dedos de nervosismo. – O Sr. Orochimaru já está quase cedendo, tenho certeza.

- Hyuuga, ele está quase cedendo há horas. Você está lá dentro arengando sobre essa cirurgia faz tempo, e ele não se convenceu – Sasuke descruzou os braços e desalinhou os cabelos negros, impaciente. – O procedimento comum não funciona com um paciente incomum.

Hinata levantou os olhos dos tênis, confusa.

- O que está sugerindo? – perguntou.

- Tente barganhar – Sasuke deu de ombros. – Explicar não está dando certo. Implorar também não. Faça uma espécie de... acordo.

Hinata o encarou por quase um minuto inteiro, em silêncio. O que diabos ela iria barganhar?

- Tipo... Como? – perguntou, sentindo seu tom de voz subir algumas oitavas.

- Calma, não estou sugerindo que você use seus... atributos sexuais – apesar das palavras embaraçosas, Sasuke não parecia ter ficado nem um pouco envergonhado. – Até porque não acho que isso funcionaria com ele. Prometa que fará uma peruca com seus cabelos, que comprará rosquinhas de baunilha para ele por um mês, enfim, qualquer coisa que ele possa considerar de verdade.

- T-tudo bem, eu vou tentar – Hinata segurou a maçaneta e fez menção de girá-la, mas então se voltou para o Uchiha. – Err... tente não ser tão impaciente e espere até que eu termine de falar com ele, está bem? Te ver entrando e saindo o tempo todo só deixa o Sr. Orochimaru mais nervoso.

Sasuke revirou os olhos e abriu a boca para responder, mas Hinata empurrou a porta e entrou no quarto antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Oh meu Deus, havia acabado de fechar a porta na cara de seu chefe, pensou, encostada contra a madeira lisa. Bom, agora já foi. Afastou a franja escura da testa e sorriu amavelmente para Orochimaru, aproximando-se de seu leito com cautela.

- Espero que tenha reconsiderado sua decisão – disse ela, ajeitando suas cobertas.

- Eu diria que estou indeciso – Orochimaru respondeu, parecendo infeliz. – Morrer ou ficar careca. É uma escolha difícil.

- Uma escolha difícil – repetiu Hinata. Ela não poderia discordar mais.

Os dois ficaram em silencio por alguns segundos.

- Escute – disse a Hyuuga por fim, sentando-se na cadeira que havia colocado ao lado da cama de Orochimaru algumas horas antes. – O senhor não precisa ficar careca, sabe, o tempo todo. Podemos cortar seu cabelo bem rente a raiz antes de raspar a cabeça, e depois mandamos fazer uma peruca com ele. Ninguém vai perceber a diferença.

- As pessoas já acham que eu uso peruca!

Hinata pensou um pouco.

- Mas vai ficar natural porque será feita com seu próprio cabelo. O senhor pode usá-la até que os fios cresçam o bastante para que o senhor não seja mais careca.

Orochimaru alisou o cobertor claro do hospital, pensativo. Estava na cara que ele ia ceder, Hinata só precisava acrescentar mais alguma coisa à barganha para ele dizer sim. Só não sabia exatamente o quê.

- Por favor, Sr. Orochimaru – pediu ela. – Eu te prometo o que o senhor quiser se nos der permissão para fazer a cirurgia. O senhor pode, por favor, deixar a nossa equipe salvar a sua vida?

Dramático, pensou Hinata, mas o que mais ela deveria fazer? Notou que Orochimaru parecia considerar o que ela dizia e torceu em silêncio para que ele realmente fosse tão gay quanto parecia – assim não pediria "coisas de homem".

- Hum, bom – murmurou Orochimaru, finalmente. – Eu não vou impedir vocês, então. Mas eu gostaria de fazer um pedido, doutora.

Hinata prendeu a respiração por um segundo.

- Sim?

- Eu tenho muita vontade mesmo de ser padrinho de casamento – confessou ele, deixando-a confusa. – Mas ninguém nunca me convidou para isso. Acho que é porque nenhum dos meus amigos teve... sei lá, um casamento convencional, sabe? Enfim, eu gostaria muito mesmo de ter a chance de passar pela experiência. Deve ser tão emocionante!

Hinata o encarou, sem saber o que responder. Onde é que ela encontraria um casal disposto a convidar um completo estranho para ser seu padrinho de casamento? Nenhum de seus amigos mais chegados estava sequer namorando sério, quanto mais noivando. Não tinha familiares prestes a se casar ou qualquer pessoa com quem teria intimidade o suficiente para pedir algo assim. Será que o Uchiha saberia a quem pedir um favor desse tipo?

Provavelmente não.

- Bom, eu estava pensando – continuou Orochimaru. – Se a senhorita e aquele Dr. McSonho ali fora não me deixariam ser o padrinho do casamento de vocês.

O casamento de vocês. Singular, singular, plural.

Oi?

Hinata precisou de toda a sua força de vontade para não deixar o queixo cair de perplexidade e rolar pelos ladrilhos brancos do hospital. De onde aquele ser de aparência duvidosa havia tirado a informação (absolutamente errônea) de que ela estava prestes a se casar com Sasuke Uchiha? Eles haviam se conhecido apenas um dia antes e, pelo que ela podia notar, haviam tido pouquíssimo contato, sempre no estilo interna/médico atendente, tudo muito profissional e correto; obrigada, Senhor. Por acaso ela havia dado a entender em algum instante que possuía uma relação mais pessoal com seu chefe? Algo no seu jeito de dizer "olá Dr. Uchiha, até mais Dr. Uchiha" parecia o de uma noiva apaixonada?

- Olha, Sr. Orochimaru – começou ela, sentindo suas bochechas corarem furiosamente. Aquilo era constrangedor. – O Dr. Uchiha e eu não temos esse tipo de...

Orochimaru deu de ombros, como se entendesse exatamente o que ela queria dizer.

- Deu para ver, pelo jeitão dele (muito sensual, devo acrescentar) que ele não quer um casamentão de igreja, acertei? – Interrompeu ele. – Mas eu não me importo. Sendo um padrinho simbólico, de coração, eu já fico feliz. Posso apenas acompanhá-los ao cartório, sabe, como testemunha.

- O senhor não entendeu – Hinata balançou a cabeça. – O Dr. Uchiha e eu não vamos nos casar.

- Oh, eu sei disso – disse Orochimaru. – Ainda é cedo para fazer os planos do casório, é claro. O que eu quis dizer foi: no futuro, quando vocês dois resolverem que já é a hora de tornar tudo mais... oficial, eu gostaria de participar.

Os olhos dele brilharam ao falar sobre aquele casamento que Hinata sabia que nunca aconteceria. Estava claro: se ela prometesse que faria dele padrinho, a cirurgia seria autorizada sem maiores problemas. Mas seria errado. Ela abriu a boca para explicar que não tinha um relacionamento romântico com Sasuke, mas pensou melhor.

- Sr. Orochimaru, o que te faz pensar que eu estou noiva do Dr. Uchiha? – perguntou.

Ele deu de ombros.

- Percebi que vocês dois estão juntos quando você o atropelou no elevador. Deu pra sentir o clima de longe. E depois, vocês sempre vêm aqui juntos, ficam de conversinhas no corredor – Orochimaru pegou uma mecha do cabelo e começou a fazer uma trança, como se estivesse se despedindo daquilo. – Foi um palpite, mas parece que eu estava certo. E então, temos um acordo?

Hinata olhou para a mão que ele estendeu para ela, pensativa. Devia dizer que aquilo tudo não passava de um engano, que Uchiha Sasuke não era seu namorado – que sequer havia um clima entre os dois – e dar um jeito de convencê-lo de outra forma a permitir a cirurgia. Mas como? Havia tentado de todas as formas; ficara falando por horas sobre a importância de operar, e nada havia surtido efeito. Dessa vez Orochimaru parecia disposto a cooperar. Odiava mentir, mas talvez pudesse dizer que concordava com o trato e, alguns meses depois, dizer que havia terminado com Sasuke, mas que deixaria que ele fosse o padrinho do próximo casamento. Provavelmente seria um erro, mas não havia tempo para ficar ponderando a respeito.

- Certo – ela apertou a mão dele, tentando controlar o rubor que lhe subia ao rosto sempre que mentia. – Mas não conte ao Dr. Uuu... err, ao Sasuke, ainda. Eu quero fazer um surpresa para ele, certo? Esse papo de casamento ainda o, hum, o assusta um pouco – Hinata sentia vergonha por mentir daquele jeito, mas o que ela poderia fazer? Fora o próprio Uchiha quem havia dito que ela deveria barganhar. Então ela estava barganhando.

Orochimaru bateu palmas, maravilhado.

- Não se preocupe, é o nosso segredinho. Depois me lembra de te passar meu telefone e meu e-mail, certo? – ele piscou. – A gente precisa se manter em contato.

- Claro que sim, meu padrinho – ela forçou um sorriso, levantando-se da cadeira. – Preciso ir agora, mas volto a te encontrar depois da cirurgia, tá?

Ele fez uma careta.

- Tá bom.

Hinata deu uma folheada rápida no prontuário, despediu-se de Orochimaru e saiu do quarto 1002, sentindo-se mal por mentir tão estupidamente para seu paciente. Prometeu a si mesma que, se um dia resolvesse se casar, o convidaria para ser seu padrinho de casamento.

- E então? Conseguiu a permissão? – a voz apática de Sasuke a despertou de seus devaneios. Ele estava recostado na parede oposta à porta do quarto, os braços cruzados e uma expressão de cansaço no rosto.

- Oh, sim – ela assentiu. – Mas é melhor dopá-lo antes de cortar o cabelo dele, se quiser evitar uma crise de choro.

O médico se afastou da parede para acompanhar Hinata à recepção, onde a cirurgia seria marcada como prioridade. Parecia quase aliviado pela "negociação" finalmente ter terminado.

- Tentou a tática do acordo? – perguntou, sem desviar os olhos do corredor à sua frente.

Hinata sentiu o rosto ficar muito quente.

- Sim, ele se contentou com a peruca do próprio cabelo – mentiu ela, tentando manter o tom de voz estável. – Então não corte os fios aos poucos, porque ele gosta do cabelo bem comprid...

- Por que está corada? – interrompeu Sasuke, virando-se para encará-la. – Ele não... quero dizer, ele não quis alguma outra coisa, quis? Por que esse hospital não vai apoiar qualquer tipo de... disso aí.

- Oh, de jeito nenhum – Hinata desviou os olhos e apressou o passo. – Eu estava apenas me lembrando de uma coisa. Uma coisa que aconteceu há muito tempo. Faz muito tempo mesmo, nem sei como me lembrei disso – ela não conseguia mais parar de falar. – Pois é. Insignificante. Realmente.

Sasuke arqueou uma sobrancelha.

- Tudo bem, então – disse ele, desconfiado. – Bom, vá dormir um pouco, Hyuuga. Vou agendar a cirurgia para daqui a três horas, e seria interessante se você conseguisse se manter acordada para assisti-la.

Ela assentiu, ignorando o tom arrogante/sarcástico/autoritário que parecia nunca se afastar da voz do Uchiha. Estava mesmo com sono, e todo aquele esforço para mentir para Orochimaru e depois esconder aquilo de Sasuke só a deixara mais cansada. Só o que queria era encontrar uma cama vazia no andar de cima e se manter inconsciente pelas próximas três horas.


Ino entrou no vestiário tempestuosamente, quase derrubando a porta ao fechá-la com força atrás de si. Seus cabelos loiros e lisos estavam presos em um rabo-de-cavalo frouxo e desalinhado, os olhos emoldurados por olheiras arroxeadas e a roupa amassada e torcida sobre os ombros. Era como se estivesse trabalhando há uma semana.

- Ei, que cara boa – disse Shino quando ela passou por ele em direção aos armários. Seu tom de voz era sério, mas gentil. – Não seria essa a hora de procurar um canto para dormir?

- Seria exatamente essa – concordou ela, abrindo a porta do escaninho cinzento e puxando uma barrinha de cereais com chocolate de lá. – Mas eu não posso. Quero dizer, posso, mas não vou.

- E por que não? – perguntou ele, esticando-se no banco de metal.

Ino mordeu um pedaço da comida e engoliu rapidamente.

- Quero assistir a neurocirurgia que vai rolar daqui a pouco – ela encarou Shino por um minuto. – Você é do grupo do Uchiha Sasuke, não é? O neurocirurgião.

Ele assentiu.

- E aquela garota do meu grupo, a Hyuuga, vai assistir a cirurgia de dentro da SO – disse ele. – O Uchiha deu o caso para ela. Garota de sorte.

- A Hinata sempre teve muita sorte – Ino sentou-se no espaço vazio ao lado de Shino, apoiando os pés na parede oposta. – É difícil alguma coisa realmente ruim acontecer com ela.

- Vocês se conhecem? – perguntou Shino.

Ela balançou a cabeça positivamente.

- Moramos juntas há alguns anos.

- Tipo colegas de quarto?

- Claro – ela fez uma careta. – O que mais seria?

- Bom, sei lá. Talvez como um casal lésbico – ele virou-se para Ino e sorriu um pouquinho, achando graça na expressão dela. – Aliás, sou Aburame Shino.

- Yamanaka Ino – ela apertou a mão dele e voltou sua atenção para a barra de cereais. – E então... Como é o Dr. Delícia como chefe? – perguntou.

Shino deu risada.

- Dr. Delícia? O cara já ganhou um apelido?

- Você já viu a aparência dele? – Ino deu de ombros. – Eu o comeria de colher.

- Não acho que a aparência de outros indivíduos do sexo masculino chame a minha atenção – ele deu de ombros. – De qualquer forma, o Uchiha é exigente. Sério. Só me deu tarefas chatas até agora.

Ino balançou a cabeça.

- Sei como é.

Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos, encarando a parede branca e lisa do vestiário. Shino tamborilou os dedos no metálico do banco enquanto Ino mordiscava a barrinha, ambos distraídos e sonolentos. Ele resolveu quebrar o silêncio.

- Que tal descer para um café? – perguntou, fazendo menção de se levantar. – Não vai poder assistir a cirurgia se desmaiar de sono.

Ino fingiu pensar por um momento.

- Tudo bem – ela assentiu e se pôs de pé. – Um super cappuccino seria uma boa agora.

- Cappuccino? – Shino balançou a cabeça e os dois passaram pela porta pintada de cinza calmamente. – Ah, fala sério. Qual é a graça do café se você vai misturá-lo com leite e frescuras?

- Não vou misturar com leite e frescuras! – Ino franziu o cenho. – Vou misturar com ingredientes que fazem o gosto ficar melhor. Tecnicamente, nem sou eu quem vai misturá-lo.

- Isso muda tudo – Shino revirou os olhos.

Os corredores do hospital estavam relativamente vazios àquela hora, portanto a viagem até o refeitório não durou mais do que poucos minutos. Shino não era exatamente uma pessoa animada, mas era amigável e gentil, e Ino gostou do jeito dele. Podiam conversar, mas ela não se sentia pressionada a isso. Falavam quando encontravam assunto, andando calmamente e fazendo piada do trabalho – pelo menos por enquanto – entediante. Eles poderiam ser amigos um do outro.

- Um café puro com açúcar e um cappuccino – pediu Shino à atendente quando chegaram ao balcão, antes de voltar-se para a loura. – Alguma coisa para comer?

- Hum, não, obrigada – respondeu Ino.

- É só isso – ele passou uma nota de dinheiro para a mulher por trás do caixa. – Então você não gosta de comer coisas mais substanciais do que fibras em barra? – perguntou ele, sarcasticamente, enquanto uma segunda atendente trazia o pedido. – Aquelas coisas parecem ser feitas de raspas de lápis.

Ino fez uma careta, fingindo indignação.

- Não parecem raspas de lápis!

Shino pegou a bandeja que a balconista estendia para ele e fez sinal com a cabeça para que ela o acompanhasse a uma mesa vazia no centro do refeitório.

- Parecem exatamente raspas de lápis – brincou ele.

Os dois se sentaram um de frente para o outro e Ino pegou o cappuccino, dando um pequeno gole na bebida fumegante. Ela o encarou por um segundo.

- Certo – sorriu um pouquinho. – Então o que seria uma comida de boa aparência, na opinião de Aburame Shino?

- Torta de cerejas – respondeu ele prontamente.

- Ah.

- É claro que eu detesto torta de cerejas – Shino deu de ombros. – É muito enjoativo.

Ino tombou a cabeça e o olhou interrogativamente.

- Que foi? – perguntou ele. – Você disse comida de boa aparência, não de bom gosto. Já viu uma torta de cerejas? Eu diria que é uma das comidas mais bonitas do mundo.

Ela riu.

- Tudo bem. O que seria uma comida deliciosa, então? – tentou novamente.

Shino levou o café aos lábios, pensativo.

- Nesse caso, eu diria que é um bom x-burguer duplo com fritas – disse por fim.

- Um médico fã de fast food? – Ino arqueou uma sobrancelha. – Inusitado. Com que moral vai repreender seus pacientes com problemas de obesidade?

- Bom – ele se inclinou sobre a mesa e deu um sorrisinho de canto – Digamos que essa informação é secreta. Para todos os efeitos, sou adorador absoluto de salada de pepinos e sopa de legumes

- Oh, é claro – ela riu. – Legumes.

A conversa seguiu por mais alguns segundos, até Tenten aparecer entre as portas duplas do hospital, sua aparência tão detonada quando a de Ino. Ela pediu um café simples no balcão e se dirigiu à mesa onde os dois estavam sentados.

- Gente, vocês não vão assistir a cirurgia? – perguntou, pousando o copo sobre a mesa, de pé.

- Claro que vamos – confirmou Ino, virando-se para ela. – Por quê? Já está na hora?

Tenten conferiu o relógio de pulso.

- Vai começar em dez minutos – respondeu ela – Eu só vim pegar um café, e já estou subindo.

Shino deu uma olhada rápida em direção a Ino e pegou seu copo, levantando-se da cadeira de plástico azul.

- Bom, então acho melhor a gente aproveitar para ir também, né?

- Claro – a Yamanaka também se colocou de pé. – Vamos.

Os três pegaram o elevador e subiram até a ala cirúrgica, virando os corredores em direção à SO. Entraram pela porta à direita da sala interna, que dava para a câmara de observação no alto da sala. Algumas das cadeiras já estavam ocupadas pelos internos mais adiantados, mas haviam três bons lugares no canto esquerdo, próximo ao vidro. Eles se sentaram ali.

- Eu daria qualquer coisa para o Uchiha me escolher para esse caso – murmurou Tenten, inclinando-se sobre os joelhos e observando os médicos preparando Orochimaru na salinha abaixo através do vidro brilhante. – De perto deve ser quinze vezes mais emocionante.

Shino concordou.

- Mas acho que a Hyuuga mereceu – disse ele, dando de ombros. – Eu soube que ela entrou no programa com notas bem altas.

- Está brincando? – Ino bebericou seu cappuccino. – A Coelhinha é uma nerd. Era difícil tirar a garota de perto dos livros para sair até no aniversário dela. Dá para contar nos dedos o número de namorados que ela teve na faculdade.

- Coelhinha? – Shino arqueou uma sobrancelha.

- É, é o apelido que a gente deu pra Hinata, sabe – explicou ela. – Porque ela é toda pequenininha, fofinha e quietinha. Tipo um coelhinho bebê.

Tenten deu risada.

- Combina com ela.

Ino abriu a boca para concordar, mas olhou em direção à porta e se reclinou na cadeira, acenando.

- Kiba! Ei, seu chato – gritou ela. – Tem mais um lugar aqui! Ei!

O moreno havia acabado de entrar na câmara e procurava uma boa cadeira mas, como era completamente impossível não ouvir os gritos de Ino, ele correu para se sentar ao lado dela para que ela parasse de berrar dentro de um hospital.

- Ei, quem foi que deu cafeína para essa garota? – perguntou ele de brincadeira, apontando para o cappuccino da Yamanaka.
- Culpado – Shino ergueu a mão direita e deu de ombros. – Não sabia que seria perigoso. Da próxima vez vou garantir que ela receba nada mais do que um suco de frutas. E com pouco açúcar.

- Ah, qual é – Ino cruzou os braços. – Eu não sou tão histérica e barulhenta assim.

Shikamaru, que estava sentado na fileira de trás, deu uma risadinha.

- Pode apostar que é – disse ele.

Ino revirou os olhos, mas não respondeu. Observava Sasuke entrar na SO na companhia de Hinata e receber o ok do anestesista. No exato instante a câmara entrou em total silêncio e todos voltaram a atenção para o que acontecia através do vidro transparente.

- Está começando – sussurrou Tenten


Às quatro horas da madrugada a maioria dos internos preferia estar cochilando em alguma maca vazia ou examinando um paciente necessitado na emergência, de modo que o vestiário estava praticamente (ou totalmente) vazio e silencioso. O que naquele momento significava que Hinata poderia tomar uma bela ducha gelada para relaxar um pouco depois da cirurgia que ela só poderia descrever como... eletrizante. Magnífica. Sublime, louca, incrível. Não imaginava que fosse ser tão emocionante assistir o que ela já havia praticado em cadáveres por horas a fio acontecendo de verdade.

Enquanto girava o registro e deixava a água escorrer por seus cabelos e ombros, lembrou-se de como fora maravilhoso assistir Sasuke fazendo uma incisão na (agora careca) cabeça de Orochimaru, abrir seu crânio e retirar com notável habilidade o aneurisma cerebral, tudo isso sem deixar a mão oscilar um milímetro sequer, sem alongar a operação mais do que o necessário e sem fazer lambança. Naquele momento ela tinha, mais do que nunca, certeza absoluta que havia escolhido a profissão certa e de que amava o que em breve estaria fazendo.

Ainda devaneava a respeito quando, depois que já estava vestida e penteada, ouviu uma batida leve na porta metálica do vestiário. Estranhou um pouco, porque geralmente os outros internos entravam imediatamente, mas deu de ombros e baixou a escova de cabelos, pensando se tratar de alguma faxineira ou coisa parecida.

- Entre – disse, e esperou.

Surpreendeu-se ao ver Sasuke aparecendo por trás da porta aberta, sua expressão um pouco estranha ao observá-la. Ele parecia meio... severo, mas com uma preocupação quase imperceptível. Será que alguma coisa havia dado errado com o paciente por culpa dela? Era impossível, concluiu Hinata, levando em consideração o fato de que ela nem mesmo havia encostado em Orochimaru durante a cirurgia. E, quando ela o examinou no pós-operatórios, ele parecia estar reagindo perfeitamente. Então, qual era o problema?

- Hyuuga, eu preciso falar um minuto com você – disse ele, fechando a porta atrás de si. – Não é nada sério, só quero esclarecer uma... uma coisa que ouvi recentemente.

Hinata sentiu o coração pular dentro do peito. Oh meu Deus, será que alguma coisa no seu currículo estava errada? Será que eles pensavam que suas notas extremamente altas eram falsificadas? Seria injustamente expulsa do programa?

Orochimaru não passou por sua cabeça nem por um segundo.

- S-sim? – gaguejou, nervosamente.

Sasuke sentou-se em um dos bancos cinzentos, bem em frente a ela.

- O paciente que operamos agora mesmo... o do aneurisma – ele juntou as palmas das mãos, sem mudar a expressão em nenhum momento. – Como sabe, a anestesia vai esvaecendo aos poucos. Geralmente os pacientes apresentam um comportamento grogue antes de acordar. Às vezes, eles deliram.

Ela não entendeu muito bem onde o Uchiha queria chegar, mas sabia que estava perdendo algum ponto importante.

- É estranho porque Orochimaru disse, em seu momento de delírio, palavras desconexas. Bom, não é isso que é estranho, porque geralmente os delírios são desconexos, mas o que ele disse foi: "casamento... Uchiha... promessa...eu quero...", entre outras coisas totalmente irrelevantes. E eu estava me perguntando como é que o meu nome foi parar no meio das palavras 'casamento' e 'promessa'.

Oops.

Hinata encarou o piso claro sob seus pés, incapaz de responder.

- Hyuuga, você não prometeu a ele... – pela primeira vez desde que o havia conhecido, ela percebeu algum tipo de emoção em seu tom de voz além de ironia: Sasuke estava perto da fúria e do embaraço ao mesmo tempo. – Quero dizer, você não deu a ele a minha mão em casamento, deu?

Hinata levantou os olhos perolados para o rosto de Sasuke, mas não o encarou nos olhos. Balançou negativamente a cabeça, mas não pôde esconder seu nervosismo. Ele percebeu.

- Você tem alguma explicação para isso, então? – perguntou o Uchiha, imperceptivelmente aliviado. Seu tom de voz se tornou novamente apático.

Ela pensou em mentir. Pensou em dizer que não havia nada para explicar, que Orochimaru devia estar sonhando e que a palavra promessa devia estar relacionada a algum outro sonho a respeito da peruca, e não ao nome do médico, mas sabia que não conseguiria dizer tudo isso. Era uma péssima mentirosa.

- Eu tenho.

Sasuke cruzou os braços, esperando.

- Bem, acontece que o Sr. Orochimaru achou que estávamos, o senhor e eu, envolvidos romanticamente, eu não sei como, mas ele pensou, e o maior sonho dele é ser padrinho de casamento e, quando eu ofereci a ele a barganha que o senhor sugeriu que eu sugerisse, ele disse que queria ser padrinho do nosso casamento – Hinata falava tudo em um fôlego só. – E eu, é claro, comecei a explicar que ele estava enganado, mas acho que ele não me ouviu e ficou dizendo que seria maravilhoso ser nosso padrinho e não sei lá mais o quê, e só o que eu conseguia pensar era "poxa, eu estou aqui tentando convencê-lo há um tempão e nada adianta", e eu estava tão cansada que pensei, bem, talvez isso dê certo, então eu prometi, mas depois de um tempo eu iria dizer a ele que havíamos terminado e que ele teria de se contentar em ser apenas meu padrinho, me desculpe, eu sei que eu não devia, mas é que foi muito, quero dizer, eu não sabia o que fazer.

Sasuke precisou de alguns minutos para processar tudo o que Hinata dizia, de tão rápido que ela havia falado.

- Está querendo dizer – tentou ele, falando pausadamente. – Que deu a entender para ele que nós estamos noivos?

Hinata quase largou a escova de cabelos.

- E-eu não dei a e-entender nada! – apesar de sentir sua voz ficando mais aguda, seu volume não havia aumentado. – Oro-rochimaru tirou suas p-próprias conclusões, e eu n-nem sei como.

- Por que está gaguejando?

- P-porque estou nervosa!

Sasuke descruzou os braços e se recostou na parede, acomodando-se melhor no banco onde estava sentado.

- Bom, eu ainda não entendi direito. Como é que o assunto entre você e o Orochimaru foi parar em um possível casamento entre nós dois, para começo de conversa?

- Eu d-disse que não sei – Hinata respirou fundo e tentou controlar a gagueira. – Eu disse para ele que prometia o que ele quisesse se ele permitisse a cirurgia, então ele disse que queria a peruca e ser padrinho do nosso casamento.

- E então você disse que tudo bem? – o Uchiha arqueou uma sobrancelha.

- É claro que não! – ela sentiu o rosto corar. – Eu tentei explicar que você e eu não íamos nos casar, mas ele entendeu que você não queria se casar imediatamente, e disse que podia esperar, daí eu perguntei de onde ele tinha tirado a ideia de que estamos noivos.

- E ele disse...?

Hinata franziu o cenho e o encarou com os olhos perolados.

- Isso importa? – perguntou.

- Absolutamente.

Não importava, mas Sasuke estava curioso. Embora jamais fosse admitir.

- Bom, ele disse... – ela pigarreou. – Orochimaru disse que sentiu um "clima" – ela fez aspas com os dedos no ar. – entre a gente quando eu o atropelei, e eu tentei explicar que não havia clima, mas parece que ele não quis ouvir porque perguntou se a gente tinha um trato, então eu – ela corou. – eu disse que tinha, porque estava cansada de tentar convencê-lo de outras formas.

Sasuke a encarou com seus olhos escuros por um momento. Parecia procurar o que dizer, e então deu de ombros.

- Tudo bem – disse simplesmente.

Hinata parou, atordoada.

- "Tudo bem"? – repetiu ela. – O senhor ouviu o que eu disse?

- Sim, ouvi. Você disse que concordou com o que ele dizia porque estava cansada e não havia tempo o suficiente para convencê-lo a salvar sua vida.

- É, mas... eu, bem, eu menti.

- Sim, mas, pelo que eu me lembro, sua intenção é dizer a ele que nós terminamos e deixar que ele seja o padrinho do seu casamento com aquele Inuzuka, ou sei lá quem... a não ser que tenha mudado de ideia.

Hinata quase teve uma síncope. Se fosse possível, teria corado ainda mais.

- Não m-mudei de ideia – murmurou. – E também não v-vou me casar com o Kiba!

- Mas ele não é o seu verdadeiro namorado? – Sasuke franziu o cenho, como se estivesse confuso.

- E-eu já te f-falei que somos a-a-apenas amig-gos!

- Ah, é. Tinha me esquecido. Não precisa gaguejar.

Antes que qualquer um deles pudesse dizer outra coisa, a porta do vestiário abriu e Tsunade espiou lá dentro. Pareceu um tanto confusa ao encontrar apenas os dois, sozinhos, mas não ficou alarmada ao perceber a distância com a qual eles conversavam.

-O que vocês estão fazendo aqui, a sós? – perguntou, apoiando a mão direita na cintura.

Sasuke deu de ombros, sem se abalar.

- Discutindo sobre a cirurgia do aneurisma – respondeu. – Eu tinha que verificar se a Hyuuga havia aprendido alguma coisa.

Hinata o encarou, perplexa. Como é que uma pessoa podia mentir tão tranquilamente assim?

- É, bem, acho melhor você se apressar então. Jiraya quer discutir uns assuntos com você. Banalidades, você sabe.

- Eu sei – Sasuke concordou, revirando os olhos. – Só vou passar as últimas recomendações à Hyuuga e estou indo.

- Certo – os olhos de Tsunade passaram de Sasuke para Hinata com desconfiança, e ela abriu a porta. – Mas se apresse.

Depois que ela saiu, Sasuke se colocou de pé e aproximou-se de Hinata.

- É melhor manter esse assunto só entre os envolvidos – murmurou ele tranquilamente. – Sabe como é, toda essa confusão poderia ser... mal interpretada pelas outras pessoas.

- Tudo bem – concordou Hinata baixinho.

Sasuke manteve seus olhos escuros nela por uma fração de segundo antes de se virar e sair do vestiário calmamente, como se nada tivesse acontecido.

E nada havia acontecido mesmo, pensou Hinata com alívio. A única parte ruim daquilo tudo era que seu primeiro turno havia sido 70% recheado com comportamentos não-profissionais e nocivos para sua carreira (atropelar o chefe, inventar noivado com o chefe, ter conversas particulares sobre assuntos pessoais com o chefe...).

"Preciso começar a agir como uma médica de verdade", pensou, saindo para os corredores em direção à alguma sala de espera vazia para dormir um pouco mais. E, francamente, ela precisava.


É isso.

Quero dizer, tem mais, mas só na segunda parte.

Eu realmente não gostei desse capítulo (tirando a parte ShinoIno que ficou um pouco fofa).

Mas espero que vcs tenham gostado. *-*