Um amor alternativo, a história jamais contada

Capítulo 1: Um passado doloroso

Treze anos se passaram desde aquele fatídico dia em que os guerreiros Z pereceram nas mãos dos androides. Na corporação Cápsula, Trunks escutava as notícias da manhã, quando percebeu uma presença familiar.

- Gohan, hoje você veio mais cedo! – exclamou o garoto de cabelo lilás ao recém-chegado.

- Eu sei, por isso espero que esteja pronto, porque temos muito o que treinar. – respondeu o jovem com um sorriso.

- Claro, além disso estive pensando e acho que estou pronto para treinar alguma técnica nova. O que acha? – perguntou emocionado o garoto.

- Por mim, está bem.

- Só quero te pedir uma coisa... Não conte à mamãe, muito menos hoje, você sabe, este dia... – disse o saiyajin mais jovem, baixando o olhar com tristeza.

- Claro que não vou fazer isso... Mas, onde ela está?

- No sótão, trabalhando no computador. Esteve ali a noite toda. – Trunks disse com alguma preocupação.

- Vou lá vê-la e saber se posso oferecer algo, está bem?

Trunks assentiu, no momento em que Gohan abandonava o local e saía para procurá-la. Enquanto descia as escadas, o jovem percebeu o fraco som do pranto da mulher. Por um momento quis descer e consolá-la, sabia que era justamente nesse dia que ela mais precisava dele. Mas depois de meditar por alguns segundos considerou que o melhor era deixá-la só para que pudesse se acalmar. já se falariam mais tarde.

Pensando que sua presença passaria despercebida, subiu as escadas. Com um gesto, indicou a Trunks que o seguisse, e ele obedeceu sem protestar. Ambos voaram alguns quilômetros, até que encontraram um bom lugar para treinar. Durante horas, Gohan tratou de afastar de sua mente, sem sucesso, a ideia do sofrimento de Bulma.

Por fim, quando viu que o sol começava a desaparecer no horizonte, chamou seu discípulo:

- É o bastante por hoje, Trunks. – indicou ao seu aprendiz, para que ele interrompesse seu treinamento. – É hora de voltarmos.

Em silêncio, os dois empreenderam voo à Corporação Cápsula. Ao entrar, encontraram Bulma sentada no sofá. A mulher de cabelo azul olhou para o jovem de cabelo preto junto a seu filho e esboçou um meio-sorriso como cumprimento. Depois, anunciou que o jantar estava servido. Durante o mesmo, Trunks não deixou de perguntar a Gohan sobre suas lutas com os androides. Bulma escutava um indagando e outro respondendo, sem atrever-se a participar da conversa. Gelava-lhe o sangue escutar como esses desalmados não hesitavam em matar por diversão. Não existia ninguém capaz de derrotá-los, a única esperança eram os dois meio-saiyajins, que agora estavam sentados à mesa, devorando o alimento que lhes havia preparado.

- Obrigado, mamãe, estava delicioso! – exclamou o garoto assim que terminou de comer.

- Trunks tem razão... Cozinha muito bem, Bulma. – sinalizou Gohan, tocando em sua barriga.

Como resposta, a mulher sorriu. Cada vez que via Gohan, sentia que ali estava seu amigo Goku. Quanto mais passava o tempo, mais ele o lembrava. Eram muito parecidos fisicamente, a única diferença evidente que ela notava era o semblante sério do rapaz, que contrastava com a aparência despreocupada que o pai deste tinha quando era vivo.

- Vai dormir aqui hoje? – perguntou Trunks de repente, esperando ansiosamente por uma resposta afirmativa.

- Sim... Bom, se não se incomodarem... – respondeu Gohan timidamente.

- Claro que não! – Bulma exclamou, enquanto se levantava para retirar os pratos.

O jovem sorriu, pediu emprestado o telefone e digitou um número. Devido a falhas na comunicação, levou vários minutos para receber uma resposta, mas quando a teve, pôde perceber que a voz do outro lado soava angustiada. Gohan tranquilizou sua mãe, convencendo-a de que estava bem. Quando conseguiu, aproveitou para lhe dizer que passaria a noite na Corporação; a viúva não aceitou de muito boa vontade a decisão de seu filho. Apesar disso, compreendia o compromisso moral dele por Trunks, depois de tudo, Gohan era como um irmão mais velho, a quem o garoto admirava. A ideia de que, algum dia, ambos venceriam os androides e que tudo voltaria à normalidade era a única coisa que a confortava e a fazia conciliar o sono à noite.

Ao desligar, o jovem viu Bulma acender um cigarro, como costumava fazer antes de dormir. Ela, ao se sentir observada, se virou e lhe ofereceu um de seus cigarros, mesmo sabendo que ele não aceitaria. Ao receber a esperada negativa, a mulher encolheu os ombros, pegou sua xícara de café e bebeu até o fim.

- Trunks foi dormir, acho que estava muito cansado. Você também deveria fazer isso. – Bulma disse ao jovem que a olhava atentamente.

- Vou em um minuto... – respondeu ele, enquanto juntava forças para tocar em um tema delicado.

- Algum problema? – perguntou ela, ao ver sua expressão.

- Eu te escutei chorando... E durante todo o dia, não deixei de me perguntar se você está bem... – disse com voz preocupada.

A mulher o encarou e seus olhos se cobriram de lágrimas. Cada ano, a mesma tortura a perseguia, recordando, vez ou outra, o momento em que recebeu a notícia de que todos haviam morrido... Ainda se lembrava daquela opressão em seu peito, que sentiu ao saber que Vegeta não existia mais... Um sentimento tão terrível que a inundou, ao perceber que estava sozinha e desprotegida... O medo de que Trunks e ela não sobrevivessem...

A certeza de que toda a esperança havia morrido...

- Hoje não é um bom dia pra mim... Muitas lembranças ruins, muita dor... – ela murmurou após alguns minutos. – Sei que foi por isso que você ficou aqui e te agradeço por isso. Sempre me acompanha nessa data tão difícil, não tem ideia do quanto a sua presença me reconforta...

Gohan não soube o que responder. Era a primeira vez, em todos esses anos, que Bulma lhe agradecia abertamente por estar ali. Havia chegado a pensar que ela nunca havia notado a sua presença, nem o silencioso consolo que lhe oferecia.

- Este é o único momento de fraqueza que me permito ter... E você, a única pessoa que tem me visto neste estado patético... Graças a Kami Sama, que este dia está acabando... – ela exclamou, tratando de sorrir para aliviar a evidente preocupação do rapaz. – Agora, vai descansar. É bem provável que esteja exausto do treinamento, e você precisa dormir bem.

- Vou fazer isso. – ele respondeu, enquanto observava Bulma abandonar o local.

Sentiu-se desiludido. Gostaria de ter-lhe dado um abraço, dizer-lhe que não estava sozinha, que contasse com ele... Mesmo que, no fundo, não estava certo de que fosse uma boa ideia. Cada vez que estava perto da mulher, dava-lhe trabalho se conter, seu coração se acelerava de uma forma que o inquietava, mas, ao mesmo tempo, fazia-o sentir-se vivo. Desde criança soube reconhecer que Bulma era especial e, à medida que crescia se convenceu de que não só possuía um intelecto admirável, mas também uma beleza única...

A noite estava chuvosa, a água entrava pelas goteiras da Corporação. Gohan e Trunks descansavam no sofá, dali podiam perceber claramente o som da água caindo por onde quer que queira. Por sorte a sala estava seca.

Tanto o garoto como Gohan começaram a sentir sonolência. A única programação consistia nas notícias, todas sobre os androides. Quando o rapaz percebeu, Trunks já estava adormecido. Decidiu seguir seu exemplo e descansar um pouco, antes de ir para casa.

De repente, um ruído fez despertar o jovem Son, que se pôs em alerta, tomando cuidado para que o garoto não acordasse. Com cautela, caminhou até onde sentia esse ki tão conhecido. A porta se encontrava apenas entreaberta e, sem pensar, apareceu. No momento que que o fez, a imagem que presenciou deixou-o sem fala.

Era Bulma quem havia chegado enquanto dormiam. Estava penteando seus longos cabelos azulados, com o afã de desfazer-se do excesso de água que a impregnava. Já havia tirado seu habitual jaleco de trabalho e a única coisa que cobria sua voluptuosa figura era uma camisa branca, que se aderia a sua pele por conta da umidade.

Gohan observou detidamente a mulher à sua frente. Apesar de já ter passado dos quarenta, sua pele conservava o frescor de seus melhores anos. O jovem pensou que o tempo poderia ter envelhecido a sua esperança, mas não sua beleza, que, apesar de tudo, seguia imutável.

O jovem sentiu o desejo de continuar a admirá-la, talvez atrever-se a mais e esperar até que se trocasse de roupa, para ver com toda clareza o que a umidade apenas desenhava. Mas, de repente, algo em seu interior o lembrou de sua honra de homem e de guerreiro. Pensou que Bulma não merecia que lhe faltasse o respeito dessa forma. Não, não podia fazer isso a ela. Já conhecia de sobra todo o sofrimento que havia passado e a confiança que depositava nele como para decepcioná-la, se o flagrasse espionando.

Sem muita vontade, parou de olhar para a mulher e voltou, tão cautelosamente como havia ido, ao sofá onde o pequeno Trunks dormia. Durante vários minutos, fez o esforço de não voltar a se pôr de pé e olhar por aquela porta...

Cada vez que Gohan recordava esse incidente, cada fibra de seu corpo se estremecia com força. Com as batidas ainda aceleradas, decidiu que o melhor era deixar essas lembranças para trás e voltar à realidade. Sem mais, o jovem se dispôs a procurar um cobertor, o qual não demorou muito a encontrar. Depois, dirigiu-se ao quarto de Trunks, que permanecia profundamente adormecido. Com certeza o pesado dia de treinamento havia sido cansativo demais.

Gohan se acomodou na cama ao lado, tentando fazer o menor ruído possível. Quando fechou os olhos, a última imagem que passou por sua mente foi a mesma que o acompanhava cada noite, desde há muito tempo... A de Bulma Briefs.