O lugar arrepiava seus cabelos. Primeiro, era velho e mais assustador do que se lembrava. A casa era de estilo gótico, com janelas altas e estreitas. Havia sido pintada re centemente, era verdade, e passado por alguns reparos. Mas o canteiro de mato que o pai lhe assegurara ser um jardim de ervas, ocupava metade do quintal, e um de flores ladeava um caminho. Também havia árvores e arbustos para manter o centro bem escondido. Era por isso que ninguém de fora podia ver o que existia naquela parte do terreno. Ele sempre ficava imaginando o que haveria nas profundezas daquele quintal. E ainda havia os sinos de vento enfileirados na va randa e que soavam sem parar. O lugar lhe dava calafrios, Harry pensou. Ficou na expectativa de, a qualquer momen to, ser atacado por uma revoada de morcegos.
Seu pai tinha sido acometido por uma misteriosa tosse, jus tamente na hora de sair para o jantar, e insistira que se trata va provavelmente de uma reação alérgica. Dissera que ele de veria ir representar a família, ou as três senhoras se sentiriam ofendidas, e só Deus sabia o que poderia acontecer então.
Harry não queria nem pensar em quais poderiam ser as conseqüências. Mesmo que não acreditasse em bruxarias, lembrou a si mesmo.
Tocou a campainha e imaginou que seria Gina quem aten deria à porta. Mas quem a abriu foi uma senhora com cabelos grisalhos e olhos bem pretos, e o sorriso de Harry morreu.
— Boa noite, Harry. Você não deve se lembrar de mim. Sou Merriwether. Por favor, entre.
— Boa noite, Harry — disse outra voz, vinda de uma senhora baixinha e muito magra. Tinha os cabelos macios e brancos como algodão, e o rosto de uma avó, daquelas que preparam biscoitos para os netinhos. — Que bom ver você novamente, meu jovem. Sou Flora, lembra-se de mim?
— E eu sou Fauna — falou uma outra, também baixa, mas rechonchuda como uma abóbora e com o cabelo da mes ma cor do legume. Daquela senhora, ele se lembrava.
— Estou feliz em vê-las novamente — murmurou. — Lamento, mas meu pai não pôde vir. Ele disse que sentia muito perder este jantar. — Enquanto falava, olhava em volta. Havia muita coisa para ver. E o lugar tinha um cheiro de licioso, do qual ele logo localizou a fonte: incenso queiman do em um pote que parecia oriental e muito antigo. E tinha velas por toda a parte. A maioria cor-de-rosa ou vermelha, ele notou, imaginando se as cores tinham algum significado especial. Soava uma música muito suave. Em cada janela se via um prisma de cristal suspenso, e em cada prateleira estavam alinhadas pedras, algumas pequenas, outras enor mes. Uma pequena mesa estava junto à janela, e sobre ela repousava um caldeirão de ferro preto, e outros itens em vol ta, como velas, estatuetas de figuras místicas, copos de vinho e um espelho de mão ornamentado com prata.
— E o que impediu seu pai de vir, Harry? — perguntou a mais alta das senhoras, Merriwether, ele pensou.
— Creio que foi uma reação alérgica ou algo assim — ele respondeu, ainda distraído, procurando localizar Gina, e imaginando por que estaria fazendo isso. Nem gostava da moça. Inclusive nem de seu tipo. Preferia loiras de olhos azuis e bustos maiores que os cérebros. Não ruivas com cabelo cor de fogo. E ainda com dons de bruxa.
Viu outra mesa onde estava um elaborado baralho e uma bola de cristal no centro. Sentiu um arrepio na base do pescoço.
— Oh, seu pai adoeceu? — Flora pareceu preocupada.
— Sim, mas se trata de alergia. Nada sério. Ele... — A voz de Harry tremeu. Gina apareceu no topo das escadas, e ele ficou estático. Ela era... ela era linda. Não parecia mais a médica do hospital com aquele avental branco e o cabelo preso para trás.
Ela foi descendo as escadas. Trajava um vestido preto com mangas até os punhos, e que destacava os seios e cada uma das curvas de seu corpo. O cabelo era comprido, muito com prido, e brilhava à luz das velas como se fosse mágico. E seus olhos pareciam mais amendoados e negros que pedra de ônix.
Por que ela teria se dado ao trabalho de se arrumar da quele jeito? Será que Draco Malfoy viria logo mais?
Por sua vez, Gina sentia raiva de si mesma. Por que escolhera aquele vestido preto tão chamativo se era Harry Potter o convidado? Por quê? Pelo amor de Deus, por que caprichara no traje para se apresentar a um homem que nem queria ver pela frente?
Talvez para puni-lo, pensou. Para mostrar àquele idiota o que ele estava perdendo por considerá-la estranha demais, inteligente demais, jovem demais para o gosto dele. Para que lamentasse ter pedido outro médico no hospital. E por havê-la torturado durante toda a infância.
Tudo isso, porém, não significava mais nada para ela, não é? Já tinha se esquecido das zombarias sofridas naquele tem po, pelo menos era do que tentava se convencer. Mas isso era uma mentira. Tinha se apaixonado pelo garoto Potter quando criança, e ele retribuíra o sentimento com caçoadas. Bem, agora ele poderia ver bem no que se transformara a menina do passado.
E, se era isso o que queria, estava sendo bem-sucedida, porque Harry não tirava os olhos dela.
— Gina — ele disse em um fio de voz.
— Como vai, Harry? Como está o seu ombro?
— Dolorido demais. Mas todo o resto parece estar bem.
— Quem poderia ter adivinhado isso? — ela perguntou docemente.
Ele abaixou a cabeça.
— Você podia. E o fez, e eu fui um idiota. Reconheço isso, está bem?
Gina se surpreendeu com aquelas palavras.
— Esse é um pedido de desculpas?
— Talvez — ele admitiu, atravessando a sala e se aproxi mando dela. — Mas não vamos nos esquecer de que eu não era a única pessoa agressiva naquele pronto-socorro.
— Então, está esperando que eu peça desculpas?
Harry abaixou o olhar, depois a encarou de novo.
— Vou lhe dizer uma coisa, Gina. Esse vestido que está usando é desculpa suficiente para mim. E se dissermos que estamos empatados?
Ela empalideceu.
— Não estou usando este vestido como pedido de descul pas. Eu o uso porque estou velha demais para mostrar a lín gua para você. Mas você é ainda muito burro para entender a mensagem.
— A única mensagem que estou recebendo querida, é: "Ve nha e me toque".
— Pois se enganou querido, porque significa: "isto aqui não é para você".
— E por acaso eu disse que queria?
— Suas calças mostram isso claramente. — Olhou para a parte do corpo de Harry que parecia bem aumentada, pres sionando o zíper. — Mas você tem razão. Tudo parece estar como sempre.
Antes que ele pudesse fazer uma observação agressiva, Gina olhou admirada para as três tias vestidas com seus casacos, dirigindo-se à porta.
— Aonde vocês pensam que vão? — perguntou, tentando não se mostrar desesperada.
— Vamos ver Tiago, querida — Merri anunciou calma mente.
— O pai de Harry está doente. E o mínimo que podemos fazer.
— Sim. Eu tenho os melhores remédios para alergias — Flora acrescentou, exibindo o saco com as ervas.
— Mas... mas... tia Flora, o homem tem sua própria far mácia!
Flora colocou a mão na boca, escondendo o riso.
— Você está brincando, Gina. Como se uma farmácia pudesse ser comparada com remédios de bruxas.
Gina balançou a cabeça em desespero.
— Mas então... e o jantar?
— Seja uma boa anfitriã esta noite, querida! — Merri ex clamou. — É seu dever. Faça com que o nosso convidado se sinta bem, e não nos embarace.
— Tudo está pronto, Gina— Fauna observou. — Apenas pegue as travessas e sirva o jantar.
— E divirtam-se! — A voz de Flora soou animadíssima.
— Bem... — Gina colocou as mãos nos quadris. Olhou para a porta por onde as tias tinham sumido, e depois se voltou para Harry. — Detesto dizer isso, mas acho que es tamos sendo... manipulados para ficarmos sozinhos.
— De fato, estranhei a tosse de meu pai. Parecia meio forçada. Ele deve ter combinado isso com as suas tias.
Gina fitou-o, estreitando os olhos.
— E essa idéia foi sua?
— Gosto de mulheres loiras de olhos azuis. Mortícia Addams nunca me atraiu.
Ela olhou para a parte das calças de Harry que exibia bem a excitação dele.
— Oh, posso ver isso...
— Por que não vai montar em sua vassoura?
— Não montamos em vassouras, seu idiota.
— Bem, não precisa me dizer o uso que faz das vassouras. Não acho que o meu coração agüentaria.
— Acho que o seu zíper é que não vai agüentar.
Harry suspirou e abaixou o olhar.
— Droga, Gina, nem posso acreditar que vim aqui pen sando em lhe pedir ajuda. Você está sempre na defensiva e se ofende por qualquer coisa.
— Você cresceu me considerando um tipo de maluca satâ nica e acha que estou na defensiva. — De repente, ela ficou alerta. — Você veio aqui pedir a minha ajuda?
— Nunca achei que você era maluca ou satânica.
— Eu nem acredito no diabo — Gina disse.
— Ah, estou aliviado. Começava a achar que você me jul gava o próprio demônio.
— O modo como você me provocava... — ela começou. — Pensei que era tão supersticioso quanto...
— Eu era um menino. E meninos são idiotas às vezes. Diabos, Gina, eu provocava todos os meus amigos. — Ele se sentia meio confuso. — Creio que exagerei com você. E lá no hospital, ainda piorei as coisas. Você ainda está com raiva de mim.
— Chega dessa conversa. Quer comer ou o quê?
— Quero falar uma coisa para você.
Seus olhares se encontraram, e Gina percebeu que ha via sinceridade no de Harry.
— Penso que... Eu poderia... — Ele fechou os olhos brevemente. — Isto vai soar insano.
— É alguma coisa física? O que pensa que tem Harry? — O lado médico dela entrou em alerta, notando que ele esta va com boa aparência, mas, mesmo assim... quem sabe...
— Bem, Gina, é físico, mas não dó jeito que está pen sando. Creio que alguma maldição paira sobre a minha cabe ça. Isso parece loucura?
Ela deu um passo para trás, olhando-o com atenção total.
— Uma maldição. Pensei que não acreditasse nesse tipo de coisa.
— Não acredito. E você?
— Claro que sim.
— E... você...por acaso... me amaldiçoou?
— Eu fiz o quê? — Ela arregalou os olhos. — Está me perguntando se fiz algum feitiço contra você?
Harry assentiu.
Ela fechou os olhos para esconder a dor que sentia. Inesperadamente, sem sentido, mas real.
— Eu sempre pensei... — Mordendo o lábio, ela apenas sacudiu a cabeça e se voltou de costas para ele.
— Gina? — Tocou-a no ombro, fazendo com que ela o encarasse. — Você sempre pensou... o quê?
— Que você era o único que não tinha medo de mim, Harry. O único que não parecia pensar que eu era uma bru xa, um monstro. Agora vejo que estava enganada.
Ele arqueou a sobrancelha ao notar que havia um brilho de lágrimas nos olhos dela. Aproximou-se mais, como se que rendo comprovar que não estava enganado.
— Pois fique sabendo, Harry, que eu arrancaria a minha mão antes de prejudicar alguém. Não mato nem aranhas, pelo amor de Deus!
Ele pareceu envergonhado, mas não se desculpou.
— Diabos, se você conhecesse uma bruxa que sempre o detestou, e andasse com a minha falta de sorte há um bom tempo, provavelmente pensaria que...
— Pensaria em pedir ajuda — ela disse. Caminhou até a sala de jantar e sentou-se à mesinha onde estava a bola de cristal e o baralho de cartas. — Então, o que o faz pensar que está amaldiçoado? Talvez as coisas que acontecem com você sejam para beneficiá-lo, não pensou nisso? Muitas pessoas pensam que estão com azar... perdem aviões e encontros ou seus carros quebram... quando, na verdade, os atrasos prote geram suas vidas de desastres.
— Bem, esses meus atrasos não estão me salvando de nada a não ser... do prazer.
— Verdade? — Gina o olhou, curiosa. — Então, real mente pensa que está amaldiçoado?
Harry se aproximou dela, mas não se sentou.
— A evidência parece atestar isso.
— Que evidência?
Ele suspirou profundamente e seus olhares se encontraram.
— Eu nunca fiz sexo com ninguém em toda a minha vida. Não pela falta de vontade, mas porque sempre que tento, o mundo parece vir abaixo. Você pode dar um jeito de essa maldição acabar?
Gina mordeu o lábio. Rangeu os dentes. Segurou a res piração. Nada ajudou. Caiu numa incontrolável risada. E lamentou no mesmo instante quando viu o rosto de Harry tomado pela raiva. Ele se voltou e saiu da casa batendo a porta sem olhar para trás.
A risada de Gina foi parando, e ela então tomou consciên cia do que fizera.
— Meu Deus — murmurou. — Ele estava falando sério. — Levantou-se e correu, chamando-o, mas Harry já havia batido a porta do carro e ligado o motor.
Pensou em usar de mágica para impedi-lo de ir embora, a fim de que pudesse se desculpar. Porém, uma bruxa não devia manipular os outros. E também não devia magoar nin guém. E tinha a sensação de que acabara de fazer isso.
— Ginevra Molly Weasley, o que você fez? — Merri estava muito aborrecida, parada diante da sobrinha com as mãos nos quadris.
— Não tive a intenção. — Ela tentou se justificar, sen tindo-se uma menina de seis anos de idade. — Harry es tava tão insolente... Fiquei com raiva, e então ele me disse uma coisa e eu pensei... bem, eu não pensei, mas eu... ri dele. — Respirou fundo, não sabendo o que fazer diante do olhar chocado das tias. — Sei que não devia ter feito isso, mas aconteceu. Quando percebi que ele estava pedindo ajuda de verdade, e não por caçoada, já era tarde. Ele ficou furioso e foi embora como uma criança malcriada.
— E você não pode culpá-lo, não é? — Merri observou.
— Oh, Gina, sabe como os homens se ofendem facil mente, não é? Não devia ter rido do pobre rapaz. — Fauna torcia as mãos como se aquela fosse uma situação terrível.
— Não fiquem desse jeito. Nunca gostei de Harry, e ele jamais gostou de mim, assim provavelmente jamais nos ve remos de novo e...
— Lamento muito se isso acontecer, querida! — Flora exclamou e olhou com tristeza para as irmãs. — Creio que chegou a hora de contarmos a ela.
— Eu sabia que estavam me escondendo alguma coisa!
A delicada Flora encarou a sobrinha, enquanto as outras balançavam as mãos para que ficasse calada.
— Querida, as bruxas da nossa família têm um segredo, algo que herdamos de nossos pais. A razão é que a nossa mágica é muito mais forte do que a das outras praticantes desta arte.
Merri e Fauna pararam de gesticular e ficaram paradas, surpresas, sem entender o que Flora pretendia dizer.
— Pensei... — Gina olhou em volta, confusa. — Pensei que era algo que viesse no nosso sangue. O poder dos nossos ancestrais, ou coisa assim.
— Não, querida. Há mais do que isso. É um segredo que você não pode nunca revelar a ninguém, a menos que se torne absolutamente necessário. Jamais contaria a você, a não ser talvez em meu leito de morte. Mas agora você deve saber.
Gina esperou ansiosa pela revelação.
— Toda mulher da família Weasley está destinada a per der os seus poderes, o seu dom e a sua mágica no dia em que completar vinte e sete anos.
Gina deu um passo para trás como se a tia a tivesse esbofeteado. Ela faria vinte e sete anos em menos de vinte e quatro horas. À meia-noite do Dia das Bruxas! Isso seria no dia seguinte!
— Não!
— Oh, sim. Lamento, mas é a verdade.
— Meu... meu poder de cura!
— Você poderá continuar praticando a medicina, querida, mas...
— Não, isso não pode acontecer, tia Flora, por favor! — O pânico disparara seu coração. Não podia perder o dom da cura. E se fosse atender alguma criança doente, como aquela que es tava com uma ruptura no baço que nenhum médico diagnosti cara corretamente. A criança teria morrido se ela não tivesse o dom de adivinhar o que estava acontecendo de errado. — O que posso fazer? — Agarrou a tia pelos ombros e esperou a resposta. — Deve haver alguma coisa. As senhoras ainda têm os seus dons! — exclamou, olhando para as outras duas tias.
Merri e Fauna não deram resposta alguma, e indicaram que seria Flora a esclarecer o que faltava. .
. — Sim, minha criança. Há um modo de mantermos a nos sa mágica. Mas eu temo que você não vá aprová-lo.
— Não me importo! Farei qualquer coisa. Basta me dizer.
Flora pigarreou.
— Você precisa... ter relações... com um homem antes do seu vigésimo sétimo aniversário, querida. E... o... o homem tem de ser... puro.
— Puro?
— Oh, pelo amor de Deus, o homem tem de ser virgem! — Merri exclamou impaciente. — Agora está entendendo por que estamos tão aborrecidas com você por ter levado Harry a sair desta casa do jeito que saiu?
Gina balançou a cabeça, como se o movimento colocasse os pensamentos no lugar.
— Isso não faz sentido. Estão brincando comigo, não é? Tudo é tão bizarro!
— Não estamos brincando, querida — Flora negou gentil mente. — Assim, sugiro que comece a pensar em como fazer as pazes com o rapaz. E quanto antes, melhor.
A realidade do que Gina acabara de ouvir finalmente a atingiu. As tias estavam lhe dizendo que tinha duas opções: perder os poderes ou dormir com Harry Potter.
— Esperem — ela disse. — Deve haver outros homens nesta cidade que ainda são virgens.
— Claro, querida. Em cursos de segundo-grau, quem sabe, mas você seria presa por seduzir um menor de idade.
— Tia Merri! Não pretendo... Oh, o que vou fazer? Deve haver outro homem virgem! Qualquer um, menos Harry.
— Mesmo no nosso tempo, tivemos problemas em achar homens virgens, querida — Merri explicou.
Os olhos de Gina se arregalaram quando uma idéia lhe passou pela cabeça.
— Foram vocês que jogaram uma praga em cima de Harry, não é?
— Só interferimos um pouco. Foi um feitiço leve. Apenas uma espionagem na bola de cristal...
— Tia Merri, ele foi atingido pelo próprio carro! Eu não chamaria isso de feitiço leve.
— Aquilo foi um acidente. Não pretendíamos ferir o ra paz... bem, não deliberadamente.
Gina pressionou os dedos nas têmporas e fechou os olhos.
— Vou para o meu quarto. Preciso meditar.
— Flora, isso foi engenhoso! — Merri abraçou a irmã. — Como teve essa idéia brilhante?
— Bem, Gina ia arruinar tudo. Não podíamos deixar isso acontecer, podíamos?
Fauna fez que não.
— Mas no fundo foi uma maldade. E de onde você tirou esse prazo? O dia do aniversário dela?
— Se não nos apressarmos, aquele rapaz vai acabar se ma tando ao tentar se livrar de nosso feitiço para... vocês sabem.
— O Dia das Bruxas veio a calhar — Merri concluiu. — Vai dar tudo certo. Gina não vai querer se arriscar a per der o dom de cura. Sua idéia foi brilhante, Flora.
— Mas pobre Gina. Não será fácil para ela. E odeio ter de mentir desse jeito.
— Nós diremos a verdade mais tarde. Gina vai enten der e não se importará, assim que se apaixonar por Harry.
Fauna pegou seu baralho de taro e escolheu uma só carta.
— Dois de Espadas. Vocês estão se esquecendo. Nossos poderes nos dizem que Harry será o pai da filhinha de Gina. Mas não dizem que eles se apaixonarão. Há uma grande chance de que isso nunca venha a acontecer.
— Não vão se apaixonar? — Flora perguntou, arrasada.
— Terão um filho e não ficarão juntos? — Merri lamentou.
— E possível.
Merri apertou as mãos e começou a andar de um lado para o outro.
— Oh, meu Deus! Não podemos deixar que isso aconteça.
Gina não dormiu a noite toda. Não conseguiu nem mes mo ficar deitada na cama. Muitos cenários passavam por sua cabeça. Aquilo não podia ser verdade, pois era absurdo de mais. As tias deviam estar mentindo. Mas por quê? Eram excêntricas, sim. Mas isso...
Talvez estivessem tentando fazer com que ela se interes sasse pelo homem que consideravam o marido ideal. Um ho mem perfeito para a sobrinha.
Perfeito para ela? Harry Potter?
Grunhiu em desespero.
Mas... e se não fosse isso? E se ela realmente fosse perder todo seu poder de cura?
Fechando os olhos, compreendeu que não podia se arriscar. Até mesmo dormir com Harry seria melhor que perder seu dom. E, além do mais, seria apenas uma vez. Certo? Apenas uma noite com Harry, e ela podia relaxar. Sorriu então. Uma noite com Harry. Talvez se embebedasse antes...
Por um momento, imaginou-o tentando se livrar da virgindade todos aqueles anos, com as tias constantemen te interferindo. O pensamento a fez sorrir, e então caiu na gargalhada. Pobre Harry. Não era de surpreender que ele pensasse estar amaldiçoado.
Mas aquilo não era divertido, e a risada se tornou amar ga. Ela não tinha escolha. Teria de se aproximar dele e... se duzi-lo. Oh, Deus, se descobrisse que isso era uma mentira, estrangularia as tias.
Mas considerando a possibilidade de que fosse verdade...
Como conquistaria Harry? Ora, usando seus poderes de bruxa, naturalmente. Podia fazer isso.
A não ser que ele não quisesse fazer sexo com ela de modo algum.
Harry, vinte e nove anos, e ainda virgem. Frustrado a ponto de vir lhe pedir ajuda. Misericórdia, ele estava mais do que disposto a dormir com qualquer mulher.
(...)
