NARUTO NÃO ME PERTENCE- E SIM A MASASHI KISHIMOTO

ESTA HISTÓRIA TAMBÉM NÃO- É UMA ADAPTAÇÃO DO LIVRO DE SUZANNE ENOCH!

Um ano depois.

― Eu realmente gostaria que você não criasse caso por tão pouco. — Hinata deu um passo para trás, afastando-se do irmão. — Sakura Haruno e eu somos amigas desde que debutamos juntas.

Hiroshi venceu a distância que os separava. Seu tom de voz demonstrava aborrecimento.

— Desfrutem dessa amizade em qualquer outra festa. O pai dela não tem direito nem a um voto no Parlamento, e hoje à noite eu preciso que você converse com lady Gladstone.

— Não gosto dela — Hina murmurou, resmungando quando Hiroshi a segurou pelo braço, evitando que ela se afastasse outra vez. — Ela bebe uísque como um homem.

— E o marido dela é um proprietário influente em West Sussex. Ser um pouco mais tolerante é um preço pequeno em troca de um assento na Casa dos Comuns.

— Fala isso porque não será em você que ela vai soltar o bafo de bebida. Hiroshi, eu vim aqui esta noite para dançar e conversar com minhas...

Ele franziu a testa e a interrompeu.

— Você veio aqui hoje porque eu a acompanhei. E só fiz isso porque queria que me ajudasse na minha campanha.

Ambos sabiam que ela perderia a discussão antes mesmo de iniciá-la. Hina era capaz de jurar que Hiroshi permitia que debatesse com ele apenas para colocá-la em seu devido lugar mais vezes.

— Oh, droga! Eu preferia que você ainda estivesse na índia.

— Eu também. Agora, vá, antes que uma das Plimpton chegue até ela primeiro.

Armando-se de um sorriso educado e amigável, Hinata abriu caminho por entre os convidados em busca da mais recente fonte de possíveis votos para o irmão. O apego de lady Gladstone ao uísque não era o único problema. Trinta anos mais nova que o marido, a viscondessa tinha hábitos piores do que a bebida. E Hinata escutara rumores de que um deles estava ali naquela noite.

Encontrou lady Gladstone sentada em uma das cadeiras que estavam dispostas em uma espécie de alcova ao lado da orquestra. O traje de seda verde não escondia as curvas generosas. Porém, mais perturbador que o vestido ousado era o homem que se inclinava, cochichando-lhe alguma coisa no ouvido, o rosto tão próximo que seus cabelos loiros se misturavam com os cachos escuros da viscondessa.

Por um momento, Hinata pensou em fingir que não vira nada e se afastar, mas isso apenas daria a Hiroshi outra chance de chamá-la de tola e de cabeça-oca. Portanto, ficou ali parada até começar a se sentir ridícula.

— Lady Gladstone?

Os olhos escuros da viscondessa se voltaram para ela.

— Uzumaki, parece que temos companhia.

O homem endireitou o corpo. Os olhos azuis, que combinavam perfeitamente com a beleza do rosto, examinaram Hinata da cabeça aos pés. Ela não conseguiria deixar de ruborizar nem que sua vida dependesse disso.

Todas as damas que zelavam por sua reputação procuravam manter distância do alto e diabolicamente belo marquês Uzumaki. Se não fosse pelas ambições políticas, seu irmão jamais a deixaria se aproximar de lady Gladstone exatamente por esse motivo.

— Milorde — ela disse, fazendo uma reverência —, boa noite.

Ele a observou por mais alguns instantes, sua boca sensual curvando-se no mais cínico dos sorrisos.

— Ainda é muito cedo para dizer. —- Então ele se virou e seguiu em direção à sala de jogos.

Hinata soltou a respiração que estivera segurando.

— Isso foi rude — ela resmungou, quando o marquês estava a uma distância que o impediria de ouvir o comentário.

Lady Gladstone riu, o rosto ruborizado, com certeza não devido ao calor da sala.

— Meu Deus, srta. Quem-Quer-Que-Seja... Uzumaki não tem de ser bom, porque ele é tão... tão... mau.

Bem, aquilo não fazia sentido, Hinata pensou. Mas ela não estava ali para debater os méritos de um comportamento ruim.

— Meu nome é Hinata Hyuuga, milady — ela disse, fazendo mais uma reverência. — Conversamos na festa de Natal em Bramhurst, e a senhora me disse que eu poderia visitá-la em Londres.

— Oh, Deus, às vezes sou tão generosa! O que quer de mim, srta... Hyuuga?

Hinata odiava essa parte, pois sempre envolvia mentiras. E ela detestava mentir.

— Bem, primeiro, gostaria de lhe dizer que seu vestido é o mais belo que vi até hoje.

As curvas da viscondessa pareceram se destacar ainda mais com o elogio.

— Oh, que delicadeza de sua parte, querida. — Ela sorriu. — Ficarei feliz em lhe recomendar a minha costureira. Tenho certeza de que você e eu temos quase a mesma idade, apesar de seus... seios serem menos...

Óbvios, Hinata pensou, disfarçando uma carranca.

— Seria muita gentileza sua — ela disse, conseguindo se controlar. Então, apesar de preferir engolir um inseto a continuar fazendo aquilo, sentou-se ao lado da viscondessa. — Ouvi dizer — prosseguiu em tom conspirador — que a senhora é a grande responsável pelo sucesso político de seu marido. Eu... não sei muito bem o que fazer para ajudar meu irmão, Hiroshi, nessa mesma área.

A expressão distante de lady Gladstone se aqueceu, e ela adotou um ar de calma superioridade.

— Ah... Primeiro, é claro, você deve conhecer as pessoas certas. Isso...

— Onde ele está? — Com o rosto vermelho de raiva, lorde Gladstone interrompeu a conversa. — Onde está o patife?

A viscondessa endireitou o corpo, assumindo um tardio ar de inocência.

— Quem está procurando, meu amor? Estava aqui conversando com a srta. Hyuuga, mas ficarei feliz em ajudá-lo em sua busca.

Maravilhoso, Hinata pensou, quando o olhar do visconde se voltou em sua direção. Tudo o que precisava agora era se envolver na vida escandalosa daquele infame Uzumaki. Hiroshi jamais a deixaria sair de casa de novo, mesmo que a culpa pelo incidente fosse dele.

— Sabe muito bem quem estou procurando, Fátima. Você, menina, viu aquele patife...

— Hina! Finalmente a encontrei! — Tenten aproximou-se e pegou a mão da amiga. — Precisa vir me ajudar em uma discussão. Neji insiste que está certo, quando nós duas sabemos que ele nunca está.

Hina acenou para lorde e lady Gladstone enquanto Tenten a distanciava do casal.

— Graças a Deus! — ela exclamou.

—- O que estava fazendo com lady Gladstone? — Tenten indagou, soltando-a.

— Pergunte a Hiroshi.

— Ah... Seu irmão está tentando assumir o assento de Plimpton no Parlamento, não é?

— Sim, ele está. E é tão irritante. Ele passou a maior parte dos últimos cinco anos fora do país, e nunca pergunta minha opinião sobre nada. Apenas me manda conversar com quem ele acha que possa lhe ser útil.

— Bem, parentes não estavam em nossa mente quando fizemos aquela lista, não é? Mas, quem sabe, você poderia tornar Hiroshi o objeto de sua lição.

— Não! Estou esperando Sakura ser a próxima. E, além do mais, eu provavelmente acabaria matando Hiroshi.

— Se acha isso... Contudo, pela minha experiência, o objeto de sua lição pode simplesmente escolher você.

— Não enquanto eu parecer charmosa e cabeça-oca para os tolos amigos políticos de Hiroshi. Eles não ousariam ser nada, exceto educados. Céus, alguém deveria olhá-los com cara feia.

Lady Uchiha riu e pegou o braço de Hina.

— Chega dessa conversa. Venha e dance com Neji. Pode até chutá-lo, se quiser.

— Mas eu gosto do seu Neji — Hinata protestou, grata por ter amigos verdadeiros e distantes da política. — Ele faz cara feia, às vezes.

O sorriso de Tenten suavizou.

— Sim, ele faz, não é?

X

— Langley, você viu meu irmão? — Hinata perguntou baixinho enquanto aceitava o xale que o mordomo lhe entregava.

— Ele está na saleta, senhorita, terminando a leitura do jornal — o velho mordomo respondeu no mesmo tom de voz. — Acredito que a senhorita tenha ainda uns cinco minutos.

— Esplêndido. Estarei na casa de tia Houton.

O mordomo abriu a porta e acompanhou-a até a carruagem da família Hyuuga.

Hinata não sossegou até que o veículo estivesse a alguma distância da casa. Graças a Deus! Já era ruim ouvir Hiroshi reclamar de que ela não aproveitara a chance de agradar lorde e lady Gladstone. Se ele a mandasse fazer outra tentativa, ou quisesse instruí-la como e com quem deveria conversar na casa da tia, ela partiria de Londres e pediria emprego em um circo!

A carruagem desceu a Chesterfield Hill e virou para nordeste, distanciando-se do centro de Mayfair. Quinze minutos mais tarde, o cocheiro mudou o curso e pegou um atalho. Hina endireitou-se no assento. O Orfanato Coração da Esperança, que já alojara as tropas do Exército de George II, erguia-se, enorme e cinzento, ocupando toda a extensão do lado esquerdo da rua.

A maioria dos nobres fechava as cortinas de suas carruagens, evitando olhar para o prédio, preferindo fingir que o lugar não existia. Para Hina, porém, a construção tinha se tornado mais do que uma visão desoladora quando notara crianças nas janelas olhando para a rua. Olhando para ela.

Assim, na semana anterior, munida de um pacote de balas e de boas intenções, ela pedira a Phillip para parar a carruagem. Caminhara até as pesadas portas de madeira e batera. As crianças tinham ficado muito felizes ao vê-la, ou melhor, ao ver as balas que ela lhes entregara, e a experiência fora surpreendente.

Tinha se oferecido para aparecer outra vez, mas a governanta a dispensara, informando-a de que todos os voluntários precisavam ser aprovados pelo Conselho de Curadores do orfanato.

Hinata colocou a cabeça para fora da janela da carruagem.

— Phillip, pare aqui, por favor.

O cocheiro conduziu o veículo para o outro lado da rua e parou. Haveria uma reunião do conselho naquele dia. Aliás, naquela exata hora.

Phillip a ajudou a descer.

— Por favor, espere por mim aqui — ela orientou.

Aquele parecia ser um lugar onde ela poderia fazer alguma coisa significativa, contribuir com algo que valesse a pena.

A governanta pareceu surpresa ao abrir a enorme porta e vê-la outra vez.

— Sim, senhorita?

— A senhora me disse que haveria uma reunião hoje de manhã, não?

— Sim, mas...

— Eu gostaria de discutir um assunto com os curadores.

Quando a governanta continuou a olhá-la cheia de suspeitas, Hinata tomou emprestado um daqueles olhares de superioridade do irmão. Com certa hesitação, a mulher a deixou entrar e a conduziu por uma escadaria.

Odiava falar em público e se sentia ansiosa. Por outro lado, a idéia de ficar ociosa ou de comparecer às festas acompanhada de seu irmão até que ele se casasse com alguém mais apropriado para a tarefa a fazia estremecer de desgosto. Faria isso, por si mesma e pelas crianças abandonadas naquele prédio cinzento.

— Espere aqui — a mulher disse.

Com uma olhadela para trás, como que para se certificar de que Hinata não tinha mudado de idéia e fugido dali, a governanta bateu em uma porta. Ao som de vozes masculinas, ela entrou na sala.

Hinata voltou-se para o relógio em uma das paredes. A tia a esperava naquela manhã. Se ela não chegasse na hora, alguém mandaria uma mensagem a Hiroshi, avisando que ela não comparecera ao Chá Político das Viúvas de West Sussex, um nome pomposo demais para uma reunião onde nada mais se fazia a não ser bordar lenços com cores políticas e tagarelar sobre as pessoas ausentes.

Por fim, a porta se abriu.

— Por aqui, senhorita.

Com as mãos cruzadas para esconder o tremor, Hinata seguiu a mulher e entrou em uma enorme sala. Meia dúzia de homens se levantou, abanando a fumaça dos charutos caríssimos. O nervosismo inicial de Hinata desapareceu. Ela conhecia todos os que estavam ali.

— Bom dia, srta. Hyuuga — sir Edward Willsley disse, com ar de surpresa. — O que a traz aqui em um dia bonito como este?

Hinata fez uma pequena reverência.

— O orfanato me trouxe aqui, sir Edward. Fui informada de que, se eu desejasse contribuir com tempo e... outros bens a este estabelecimento, precisaria da aprovação do Conselho de Curadores. — Hinata sorriu. — São os senhores, não?

— Oh, sim, minha jovem dama.

Lorde Talirand lhe dirigiu o sorriso protetor que daria a uma inválida. Hinata sabia que parecia um pouco angelical e, por alguma razão, os cavalheiros concluíam que ela, sendo bonita e inocente, era também uma idiota. Isso antes a divertia; ultimamente, porém, precisava lutar contra o impulso de socar aquele tipo de homem.

— Então eu peço a aprovação dos senhores — Dirigiu um olhar especial a Timothy Rutledge, o único membro do grupo que ainda era solteiro. Parecer estúpida tinha os seus benefícios. Os homens eram tão tolos às vezes!

— Tem certeza de que não prefere passar o seu tempo em um lugar mais agradável, srta. Hyuuga? Alguns dos órfãos são, creio eu, bastante incivilizados.

— Mais uma razão para eu dedicar a eles parte de meu tempo — Hinata respondeu. — Como mencionei, tenho alguns fundos particulares. Com sua gentil permissão, gostaria de organizar...

— Um chá beneficente? — uma voz masculina a interrompeu.

Ela se virou de imediato. Encostado à porta, com um frasco em uma das mãos e as luvas na outra, o marquês de Uzumaki a fitava. Á expressão nos olhos azuis a silenciou por um momento. Já vira cinismo antes; em seu círculo social, a prática era tão comum que virará afetação. Naqueles olhos brilhantes, porém, naquele rosto bonito em que a boca se torcia no esboço de um sorriso, era real, e quase palpável. Hinata também viu algo mais ali, e engoliu em seco.

— Milorde... — Ficou confusa. O que aquele homem estava fazendo no orfanato? Jamais teria imaginado que ele fosse a algum lugar àquela hora da manhã.

— Ou um recital para os órfãos? — ele continuou, quando ela não respondeu.

Os outros homens abafaram o riso. Hinata sentiu o rosto quente.

— Não era isso...

— Ou um baile de máscaras? — Uzumaki caminhou até ela. — Se estiver entediada, posso lhe sugerir uma série de outras atividades que a manterão ocupada.

O tom de voz deixava claro exatamente ao que ele se referia.

Lorde Talirand pigarreou.

— Não há necessidade de insultá-la, Uzumaki. Deveríamos estar gratos pelo fato de a srta. Hyuuga estar disposta a doar seu tempo e seu dinheiro para a nossa...

— Dinheiro? — o marquês repetiu, o olhar ainda fixo em Hinata. — Não me surpreendo que estejam tão ansiosos para ouvi-la.

— Olhe aqui, Uzumaki...

— Qual é o seu plano, srta. Hyuuga? — ele perguntou, rodeando-a como se fosse uma pantera.

— Eu ainda não...

— Não se decidiu? — ele completou, interrompendo-a. — Tem alguma idéia do que está fazendo aqui, ou estava passando pela região e decidiu que seria uma aventura pisar em um orfanato?

— Eu estive aqui na semana passada — Hinata retrucou, irritada ao notar que sua voz soava trêmula. Isso sempre acontecia quando estava com raiva. Mas a proximidade do marquês também a perturbava. — Disseram-me que eu precisava da permissão do conselho para trabalhar aqui como voluntária. Assim, se o senhor não se importar, gostaria de continuar conversando com os curadores.

— Eu sou o presidente deste feliz conselho — ele declarou, sorrindo. — E já que a senhorita não tem uma proposta, e nem qualquer idéia de como contribuir, é melhor tirar o seu lindo traseiro daqui e ir se distrair com qualquer outra tolice que a agrade.

— Uzumaki, realmente... — o sr. Rutledge protestou. Ninguém jamais falara com Hinata daquela maneira; até mesmo Hiroshi a recriminava com termos mais educados. Compreendendo que retrucar à altura poderia comprometer sua reputação de dama, ela deu as costas ao marquês e saiu da sala.

Porém, deteve-se em meio à escadaria.

Todos sabiam que o Uzumaki era um patife. Havia rumores, nos quais ela acreditava, de que ele participara de vários duelos, e de que maridos cheios de suspeitas não o desafiavam mais porque ele nunca perdia. Quanto à reputação dele com as mulheres...

Hinata afastou esses pensamentos. Fora até ali por uma razão específica, que para ela, pelo menos, era importante. Isso quando nada do que vinha fazendo ultimamente parecia ter valor algum.

— Srta...- Ela estremeceu e olhou na direção da voz. Três garotas, nenhuma com mais de doze anos, estavam paradas junto a uma janela estreita no final do corredor do primeiro andar. Elas brincavam com bonecas bastante gastas.

— Sim? — Hinata abriu um sorriso amigável.

— Foi a senhorita que veio aqui com doces outro dia? — a mais alta das meninas, que tinha cabelos vermelhos, perguntou.

— Fui eu.

— E trouxe mais? -Hinata mordeu os lábios. Pensara em conversar com os membros do conselho e então ir à festa da tia. Nem lhe passara pela cabeça a idéia de levar doces.

— Lamento, mas não trouxe.

— Oh... tudo bem, então.

As meninas continuaram brincando com as bonecas, como se ela tivesse simplesmente deixado de existir.

Se tudo o que ela tivesse a oferecer fosse açúcar, talvez devesse mesmo estar em outro lugar. Subiu os poucos degraus que tinha descido e caminhou até as meninas, sorrindo.

— Se pudessem escolher qualquer tipo de comida ou doce, iriam preferir balas? — perguntou.

A menina de cabelos vermelhos voltou-se para ela.

— Eu iria preferir pudim de pão com maçãs e canela.

— Pudim. Isso é muito gostoso. E quanto a vocês duas?

A mais nova franziu a testa.

— Não quero pensar nisso. A senhorita é cozinheira?

— Não. Sou Hina. Queria vir aqui visitar vocês.- As meninas continuaram paradas, olhando para ela, obviamente nada impressionadas.

— Como se chamam? — Hinata perguntou, quebrando o silêncio.

— Molly — a menina de cabelos vermelhos respondeu. Depois apontou para as colegas. — Esta é Penny, e aquela é Rose. Vai voltar aqui para trazer um pudim?

— Acho que posso fazer isso.

— Quando?

— Estou livre amanhã na hora do almoço — Hinata apressou-se a dizer. — O que acham disso?

— Vai voltar amanhã? — Rose riu.

— Se vocês quiserem.

— Se trouxer um pudim de pão, pode vir.

— Não pode, não.

Para um homem alto, o marquês Uzumaki se movia de forma incrivelmente silenciosa. Respirando fundo, Hinata olhou para ele. Atrás dela, as meninas correram, sumindo atrás de uma porta.

— Alguém gosta do senhor? — ela perguntou, encarando-o.

— Não que eu saiba. E a senhorita deveria ter ido embora.

— Não estava pronta para ir.

Ele a olhou, surpreso. Com certeza, poucas pessoas tinham coragem de enfrentá-lo.

— E presumo que agora esteja? — Fez um gesto em direção à escada, e sua expressão a informava de que ela sairia dali, querendo ou não.

Era melhor manter a dignidade, Hinata pensou, começando a descer.

— Por que não quer que eu seja voluntária aqui? — perguntou, sem olhar para o marquês, mas sabendo que ele a acompanhava. — Não lhe custaria nada.

— Até que a senhorita se canse de trazer pudins e doces, ou até que o orfanato tenha de começar a pagar para arrancar os dentes estragados das crianças.

— O oferecimento dos doces foi apenas um modo de fazer as meninas conversarem comigo. Imagino que elas tenham poucos motivos para confiar em adultos.

— Meu coração chora diante de sua compaixão.

Hinata virou-se, parando tão de repente na escada que o marquês quase lhe deu um encontrão. Ele era muito alto, mas ela se recusou a desviar o olhar da expressão arrogante do patife.

— Não achei que tivesse um coração, milorde.

— Não tenho. Foi apenas uma figura de linguagem. Vá para casa, srta. Hyuuga.

— Não. Eu quero ajudar.

— Antes de tudo, duvido que saiba algo sobre as necessidades das crianças e desta instituição.

— Como pode...

— E em segundo lugar — ele continuou, descendo mais um degrau. — Posso pensar em um lugar onde a senhorita poderia ser mais útil.

O calor invadiu o rosto de Hinata, mas ela se recusou a recuar.

— E onde seria isso, milorde?

— Em minha cama, srta. Hyuuga.

Por um momento, tudo o que ela pôde fazer foi olhar para o marquês. Ele pretendia chocá-la, fazê-la sair correndo. Essa devia ser a explicação. Respirou fundo, antes de responder.

— Duvido que o senhor saiba o meu primeiro nome, milorde.

— Claro que sei, mas isso não significa nada, Hinata Marie.

A voz grave falando seu nome com suave intimidade a fez arrepiar-se. Não era surpresa que ele tivesse aquela devastadora reputação com as mulheres.

— Estou surpresa, admito — ela retrucou, tentando manter a calma —, mas creio que o senhor me pediu uma proposta detalhando meus planos para o trabalho voluntário. Vou lhe entregar isso, e nada mais.

Ele sorriu, a expressão deliciosamente bonita, exceto pelos olhos, que continuavam cínicos.

— Veremos. Não tem que comparecer a algum círculo de bordado ou algo assim?

Hinata sentiu vontade de mostrar a língua para o marquês, mas ele seria capaz de maliciar o gesto. E, afinal, o que ela estava fazendo ali em um corredor deserto, conversando com o notório marquês Uzumaki?

— Bom dia, milorde.

— Adeus, srta. Hyuuga.

Ele a observou sair antes de voltar à sala de reuniões para pegar seu casaco e chapéu.

— Milorde, o senhor deseja algo mais? — a governanta indagou.

— Não. Não que a senhora tenha, de fato, feito alguma coisa — ele respondeu, vestindo o casaco.

— Como?

— Aquelas crianças que estavam há pouco por aqui não deveriam estar fazendo alguma coisa útil?

— Não posso estar em todos os lugares ao mesmo tempo, milorde.

— Então poderia se ocupar das visitas indesejáveis.

— É o que estou fazendo — a mulher murmurou.

Ele fingiu não ter ouvido o insulto da desagradável mulher. Não podia culpá-la. Todos no orfanato, incluindo os curadores, queriam vê-lo ali o mínimo possível. A única pessoa que gostava menos daquele lugar era ele próprio.

Saiu do prédio e, enquanto esperava que sua carruagem se aproximasse da entrada, viu o coche dos Hyuuga virando a esquina e sumindo de vista. Hinata hesitara em partir, mesmo depois que ele a mandara embora. Interessante, ele pensou.

Mesmo ela sendo atraente, ele sugerira que fossem para a cama apenas para assustá-la e fazê-la sair dali. Hinata era angelical demais para seu gosto. Ainda assim, a jovem tinha lindos olhos, que se arregalaram de forma graciosa quando ele a insultara.

Sorriu de leve ao entrar na carruagem. Sem dúvida, aqueles lindos olhos jamais se voltariam novamente em sua direção. Graças a Lúcifer! Ele já tinha muita coisa com que lidar sem que um anjo de cabeça vazia cruzasse seu caminho.

X

Fátima Hynes, lady Gladstone, sabia como cumprimentar.

— Por favor, tire sua mão de dentro de minhas calças — Uzumaki murmurou, olhando para a porta semiaberta.

— Não foi isso o que você disse na outra noite. — A viscondessa prosseguiu com a cadeia.

— Isso foi antes de eu descobrir que contou ao seu marido sobre nossas pequenas distrações. Eu a avisei antes, não quero me envolver nas suas brigas domésticas.

A viscondessa puxou a mão.

— Foi por isso que quis me ver em particular? — ela perguntou, estreitando os olhos. — Para se livrar de mim?

— Não está surpresa, Fátima. Não precisa fingir. —- Ele deu um passo para trás. — E nenhum de nós sabe chorar. Portanto, boa noite.

Lady Gladstone suspirou.

— Você não tem nada semelhante a um coração, não é?

Uzumaki riu.

— Não.

Verificando rapidamente se o corredor estava deserto, ele saiu da biblioteca de lorde Hanson e voltou ao salão de baile. Sabia que Fátima não faria objeção alguma, e tudo o que ele queria agora era ficar longe de lorde Gladstone por alguns dias, até que a viscondessa encontrasse outro amante. O velho Gladstone era capaz de querer um duelo, e Fátima Hynes não merecia que ele lhe fizesse um favor, livrando-a do marido.

A maioria dos convidados já chegara ao salão de baile, e os jantares de lady Hanson tinham a merecida fama de ser excepcionais, mas ele não tinha intenção alguma de ficar.

Seguiu para o vestíbulo e, quase na saída, deteve-se quando uma jovem vestida de seda azul bloqueou seu caminho.

— Lorde Uzumaki — a srta. Hyuuga disse, fazendo uma de suas reverências perfeitas.

Ele sentiu-se inesperadamente excitado.

— Hinata — ele disse, usando de propósito o primeiro nome dela, surpreso com a reação de seu corpo diante da moça.

— Eu gostaria que marcássemos outra reunião, milorde — ela disse, com os olhos fixos nos dele.

Interessante. Ele não conhecia muita gente, homem ou mulher, que o encarasse,

— Não.

Um leve rubor cobriu o rosto de Hinata.

— O senhor disse que não me aceitava como voluntária porque eu não tinha um plano. Estou trabalhando em um, e gostaria que me permitisse apresentá-lo.

Uzumaki a fitou por um longo momento. Seria fácil dispensá-la. Contudo, ela parecia menos tola do que ele esperara, e ele andava entediado demais nos últimos tempos. Alguma distração valeria um pequeno esforço de sua parte.

— Muito bem. Nós nos encontraremos outra vez na próxima sexta-feira.

Os lábios suaves de Hinata se entreabriram, e então se fecharam.

— Obrigada.

— Devo anotar a data para a senhorita, para ter certeza de que vai se lembrar?

O rubor se intensificou.

— Isso não será necessário.

— Ótimo.

— Eu... tenho outro pedido, milorde. -Ele cruzou os braços.

— Estou esperando.

— Eu insisto em visitar o orfanato primeiro, para averiguar do que as crianças precisam. Só assim posso ter certeza de que minha presença realmente as beneficiaria de alguma forma.

— E a senhorita já falou sobre isso com os outros membros do conselho?

— Não. Como disse que era o presidente, vim falar com o senhor.

O olhar de Uzumaki se tornou mais especulativo.

— De fato, você veio.

Hinata parecia se esquecer de respirar na presença daquele homem.

— E então, concorda?

— Eu também tenho uma condição — ele disse.

Oh, Deus! Agora ele ia fazer alguma observação insultante, como querer ir para a cama com ela ou algo assim.

— E qual é a sua condição, milorde?

— A senhorita será acompanhada durante toda a duração de sua visita.

Ela se surpreendeu.

— Concordo.

— E... — ele continuou, e um sorriso sensual surgiu em seus lábios — dançará uma valsa comigo.

— Uma... valsa, milorde?

— Sim.

Se ela pudesse fazê-lo esperar até que concordasse com seu plano, talvez conseguisse evitar aquela dança.

— Já estou comprometida para todas as danças esta noite, mas claro, posso guardar uma valsa para o senhor nesta temporada.

— Hoje à noite. Agora.

— Mas eu já lhe disse, estou comprometida...

— A próxima valsa é minha, ou a senhorita vai se manter bem longe do orfanato.

— Muito bem — ela disse, endireitando os ombros. — Posso informar lorde Mayfew que deverei declinar do convite dele?

O olhar do marquês se tornou indecifrável por um momento.

— Não, não pode. — Como se estivesse esperando a ordem dele, a valsa começou a ser tocada. Ele fez um gesto em direção ao salão. — Agora ou nunca, srta. Hyuuga.

— Agora. -Antes daquela noite, a coisa mais ousada e escandalosa que fizera fora usar as roupas de seu irmão em um baile de máscaras, e isso acontecera quando ela tinha quinze anos. A mãe quase desmaiara. Isto agora provavelmente mataria Genevieve Hyuuga.

O marquês se dirigiu à pista de dança sem segurar-lhe a mão, sem dúvida desejando que ela aproveitasse a oportunidade e fugisse. Hinata se sentiu tentada.

Ao chegar à pista, ele a encarou e, com um suspiro, Hinata aproximou-se. Uzumaki a segurou pela cintura, puxando-a para bem perto, enquanto ela esperava que um raio a atingisse na cabeça.

Lorde Mayhew apareceu, mas sufocou qualquer protesto ao ver com quem ela estava. Uzumaki apenas o fitou, e Mayhew deu as costas, saindo apressadadamente.

— Oh, Deus... — ela murmurou. Talvez Tenten e Sakura estivessem certas, afinal. O cavalheirismo morrera. E Uzumaki estava chutando pedras no túmulo.

— Mudou de idéia? — ele perguntou, tomando sua outra mão na dele.

De perto, ele cheirava a sabão de barbear e conhaque. Procurou manter o olhar preso na gravata, já que a proximidade era perturbadora. Cada história escandalosa a respeito dele lhe passava pela mente. O que ela estava fazendo ali, abraçada ao marquês Uzumaki?

Com leveza, ele a conduziu na valsa. Nunca o vira dançar, mas não se surpreendia que o fizesse com elegância e graça. E sentia a força sob o toque gentil. Hinata não tinha dúvida de que não conseguiria escapar, a não ser que ele permitisse.

— Olhe para mim — ele murmurou, a respiração em seus cabelos fazendo-a lembrar a conversa íntima que ele tivera com lady Gladstone.

Engolindo em seco, Hinata levantou o rosto.

— O senhor é muito mau, sabia?- Ele arqueou a sobrancelha.

— Ora, estou lhe dando o que me pediu, não é?

— Em troca de me humilhar.

— Apenas pedi uma valsa. Poderia ter pedido algo bem mais íntimo.

Foi impossível para Hinata não ficar vermelha. Talvez ele acabasse pensando que essa era a cor natural de sua pele.

— O senhor já fez isso, e eu recusei.

Uzumaki riu. O som foi inesperado e caloroso.

— Compartilhar de minha cama foi uma sugestão, não um pedido. Uma sugestão muito boa, por sinal.

— Não, não foi. Nem mesmo gosto do senhor. Por que eu iria querer... que nos tornássemos íntimos?

Por um momento, ele pareceu surpreso.

— O que isso tem a ver com gostar de alguém? É o ato que dá prazer.

Oh, Deus! Agora ela ia desmaiar. Discutir relações sexuais no meio de um salão de baile com o marquês Uzumaki equivalia a pedir para ser arruinada. Felizmente, ele mantinha a voz bem baixa, e ela esperava que ninguém estivesse escutando a conversa.

— Admito ignorar os detalhes do assunto — ela disse —, mas penso que o relacionamento entre duas pessoas seria bem mais... agradável se uma afeição genuína estivesse envolvida.

— Sua ingenuidade é realmente notável — ele murmurou —, e eu ficaria feliz em aliviá-la dessa ignorância.

Os lábios dele roçaram sua orelha bem de leve, e Hinata estremeceu. Ele está apenas brincando comigo, disse a si mesma com desespero. Está entediado, tentando se distrair.

— Pare com isso — ela ordenou, aborrecida por sua voz soar trêmula.

A valsa terminou, e ele a soltou de imediato, antes que ela pudesse se afastar. Hinata esperava outro comentário íntimo e insultante, mas em vez disso Uzumaki se curvou em uma elegante reverência.

— A senhorita cumpriu a sua parte do acordo — ele disse, curvando os lábios em um leve sorriso. — Esteja no orfanato amanhã às dez horas para se encontrar com seu acompanhante. Caso se atrase, perderá sua oportunidade.

Outra vez antes que ela pudesse reagir, ele se afastou, passando pelo meio dos convidados, que pareciam lhe abrir caminho.

Hinata sentiu que precisava respirar ar puro. Seguiu para o terraço, percebendo que as pessoas faziam comentários e dirigiam a ela olhares curiosos. Não ouvia o que diziam, mas nem precisava. Sabia muito que essas conversas em nada beneficiariam o nome da família Hyuuga.

— Hinata — uma voz feminina disse atrás dela.

— Sakura.

— Por acaso enlouqueceu? — Ela exibia um sorriso para que ninguém percebesse que recriminava a amiga— Uzumaki?

— Sabia que ele é o presidente do Conselho de Curadores do orfanato?

A amiga pareceu surpresa.

— Não, não sabia. Os pobrezinhos. Mas Hinata, o que isso tem a ver com você dançar com o marquês?

— Quero trabalhar como voluntária no orfanato — ela respondeu, imaginando como convenceria Sakura da importância de seus planos quando ela mesma não entendia exatamente por que aquilo estava se tornando tão importante.

— Isso é... admirável.

— Não acredita que eu seja capaz de ajudar, não é? — As frustrações daquela noite tornaram sua voz mais dura do que pretendera.

— Não é isso — Sakura apressou-se a dizer. — É que... se você decidiu como quer focar suas energias, existem outros orfanatos, e em regiões melhores, que não estão associados ao marquês. Pode escolher qualquer um.

—- Sim, eu sei. Mas escolhi esse lugar antes de saber a respeito dele. E acho que seria covardia virar as costas para os necessitados apenas porque um membro do conselho tem uma reputação ruim.

— Mesmo assim, isso não explica por que você estava valsando com ele.

— Oh, aquilo foi um acordo. Ele concordou em mandar alguém me mostrar o orfanato amanhã, se eu dançasse com ele.

Sakura não parecia convencida de que ela não tivesse perdido o juízo. Porém, boa amiga que era, apenas assentiu.

— Por favor, apenas se lembre de que Uzumaki nunca faz nada de graça, nem em benefício de ninguém.

A lembrança dos lábios do marquês em seu ouvido a fez estremecer.

— Sei disso, Saky. E, ao contrário da opinião masculina a meu respeito, não sou uma completa idiota.

— Hina, apenas tenha cuidado.

— Terei. Eu prometo.

Naquele instante, Hiroshi chamou-a.

— Hina.

Fazendo um sinal para que Sakura se afastasse, Hinata imaginou se as pessoas precisavam ser idosas para sofrer uma apoplexia ou se poderia acontecer com qualquer um.

— Hiroshi.- Ele a segurou pelo braço com um gesto que parecia afetuoso, mas que provavelmente deixaria uma marca.

— Estamos indo embora — avisou. — De todas as coisas estúpidas, imbecis...

— Mais uma palavra, e eu cairei no chão, desmaiada. Isso vai fazer você parecer muito malvado.

Com raiva, ele a largou.

— Continuaremos esta conversa em casa.

— Sem dúvida. — Olhou por sobre o ombro do irmão, avistando seu salvador. — Mas agora, se não se importa, meu parceiro para a quadrilha está esperando.

Hiroshi olhou para trás.

— Neji.- o visconde Uchiha, acenou para Hiroshi.

— Hiroshi.

Lançando para ela um último olhar de raiva, Hiroshi se afastou em direção aos seus mais recentes aliados políticos.

— Monstro — Hinata resmungou.

— Espero que saiba que prefiro quebrar o pescoço a dançar uma quadrilha — Neji falou, segurando-a pelo braço.

— Eu sei.

— Tenho ordens de levá-la até Tenten — ele disse suavemente, conduzindo-a por entre os convidados. — Ela quer repreendê-la.

Todos parecem querer isso esta noite.

— E o que acha, milorde?

— Acho que, seja lá qual for o jogo de Uzumaki, você provavelmente não vai desejar fazer parte dele.

— Pensei que fossem amigos. -Ele deu de ombros.

— Costumávamos ser. Agora jogamos cartas de vez em quando.

— Por que todos o chamam de Uzumaki? Qual é o nome dele?

— Bem, ele herdou o título de marquês aos seis ou sete anos. Imagino que "Uzumaki" parecia mais adequado a uma criança do que "marquês Uzumaki", já que ninguém sabe seu nome. Agora, é melhor que você não se misture com ele. Ele é imprevisível.

O comentário de Neji a surpreendeu um pouco, pois ele mesmo tivera sua fama de libertino até se casar. Se ele sentia necessidade de alertá-la, era bom levar suas palavras a sério.

— Obrigada pelo aviso — ela disse, sorrindo —, mas lorde Uzumaki é apenas um obstáculo ao início de um projeto meu. Em poucos dias, não terei razão alguma para voltar a vê-lo.

– Bem, até lá, não lhe dê as costas, Hina.

X

Hinata passou a manhã seguinte organizando perguntas e enumerando aquilo que ela procuraria conhecer durante a visita ao orfanato. Felizmente, Hiroshi saíra cedo para uma de suas reuniões, deixando-a com um último daqueles olhares que pareciam revelar sua surpresa ao vê-la respirando sem sua permissão. Por quanto mais tempo ela conseguisse retardar uma discussão sobre o incidente da valsa com Uzumaki, mais chances teria de o irmão acabar se esquecendo do episódio, especialmente se ele tivesse interesse que ela comparecesse a algum evento social.

Se Hiroshi descobrisse seus planos, ele a proibiria de sair de casa. Os únicos lugares aos quais ela podia ir sem uma acompanhante eram as casas de Sakura, de Tenten e de tia Houton.

Hinata avisou o mordomo que estaria na casa da tia, já que parecia ser o lugar que menos suspeitas despertaria em Hiroshi. Era ridículo ter de mentir, quando tudo o que pretendia era fazer uma boa ação, mas não queria ver seus planos arruinados antes que tivesse a chance de colocá-los em prática.

Quando Philip parou a carruagem diante do orfanato, Hinata verificou os lápis, papéis e anotações, a fim de não parecer uma tola frente a sua acompanhante ou às crianças.

— Por favor, Philip, espere por mim — pediu. — Não creio que eu vá me demorar.

O cocheiro balançou a cabeça, concordando. — O trânsito entre a casa dos Hyuuga e a de lorde e lady Houton é muito intenso — ele afirmou, fechando porta da carruagem.

Hinata sorriu com gratidão. Desde que Hiroshi voltara da índia, todos os criados vinham ajudando-a a escapar do irmão. Philip acabara de encontrar uma boa desculpa para justificar seu atraso para chegar à casa da tia.

Quando bateu à porta do orfanato, Hinata lembrou-se de que Uzumaki não dissera quem a acompanharia em sua visita ao orfanato. Esperava que não fosse aquela governanta horrorosa. Não conseguia pensar em ninguém pior.

A porta se abriu.

— Sim? — a governanta perguntou, o corpo enorme preenchendo todo o vão da porta.

— Tenho um encontro marcado esta manhã... -A mulher fez uma leve reverência.

— Oh, é a srta. Hyuuga. Por favor, entre. Está sendo esperada, senhorita.

Hinata passou pela mulher e entrou, não muito certa se deveria estar alarmada ou aliviada com a inesperada delicadeza da governanta. Porém, antes de chegar a uma conclusão, estremeceu ao identificar o homem encostado no corrimão da escada.

Mesmo no meio da manhã de um dia de verão em Londres, o marquês Uzumaki tinha a aura de uma figura da noite. Mesmo que não fosse por sua reputação, Hinata saberia que ele não pertencia a um lugar com paredes brancas e velas. Candelabros, paredes cobertas por ricas tapeçarias e quartos à meia-Iuz pareciam combinar melhor com ele.

— Está me encarando, srta. Hyuuga — ele disse, endireitando o corpo.

— Estava... apenas surpresa ao vê-lo. Quero dizer, fico-lhe grata que tenha vindo pessoalmente avisar que vou conhecer o orfanato, mas poderia ter enviado um bilhete.

Ele se aproximou, com passos que lembravam outra vez os de uma pantera.

— Tenho de admitir que usualmente quando vejo este lado da manhã é porque ainda não fui para a cama.

Hinata não teve certeza de como responder a esse comentário.

— Bem, se a sra... — Ela se interrompeu, desorientada e Uzumaki voltou-se para a governanta.

— Como é mesmo o seu nome?

— Sra. Natham — a mulher respondeu. Pelo tom de voz, estava claro que não era a primeira vez que ela lhe dava essa informação.

— Obrigada — Hinata disse, sorrindo para ela. — Se não se importa, sra. Natham, gostaria de começar a visita.

— Eu... mas... ah...

— Não será ela quem a conduzirá nesta visita — disse o marquês, com cinismo. — Isso caberá a mim.

— Ao senhor?

— Sim, a mim. Vamos? — Ele liderou o caminho até uma porta do lado direito do vestíbulo e a abriu.

—Mas... não tem alguma coisa mais importante a fazer?

— Não. — Sorriu com sensualidade. — A senhorita solicitou uma visita. Estou lhe proporcionando uma. Recuse, e pode ir embora. Mas não será permitido que entre aqui.

Então era isso. Mais uma das tentativas de Uzumaki para intimidá-la. Naquela manhã, no entanto, não estava disposta a ser intimidada. Começaria a fazer algo útil, e nenhum marquês arrogante a obrigaria a recuar.

— Muito bem, milorde — ela disse, fazendo um gesto para que ele a precedesse.

Uzumaki saiu do vestíbulo, disfarçando a surpresa. Tendo-a atrás de si, desceu as escadas. Talvez ela não fosse tão previsível quanto imaginara. Isso a tornava uma exceção entre as mulheres. Até o momento.

— Estes foram, em sua maioria, escritórios administrativos — ele disse, caminhando pelo longo corredor.

— Costumavam ser usados pelo Exército...

— Do rei George II — ela terminou. — Para que servem agora?

— Andou pesquisando — ele resmungou.

— Surpreso? — Hinata perguntou friamente.

E me surpreendendo mais a cada minuto.

— Eu a informarei se esse for o caso. O orfanato usa estes aposentos para estocar a velha mobília. -Hinata fez algumas anotações.

— Quantos escritórios existem aqui? — ela perguntou. — E qual o tamanho deles?

Então agora a tímida srta. Hyuuga estava totalmente concentrada em negócios. Uzumaki observou seu perfil.

— Quanto à quantidade, creio que uns doze. Quanto ao tamanho, não sei. Por que não entramos em um deles para descobrir?

Ela engoliu em seco.

— Não acho que isso seja necessário. Não tenho nada com o que medir, de qualquer forma.

— Ah... — Ela se tornara a tímida virgem de novo.

— Gostaria de ir a sala de música ou à sala de estar? Ou talvez ao salão de baile? Acharia esses lugares bem mais agradáveis, tenho certeza.

Hinata parou tão abruptamente que Uzumaki teve de se virar para fitá-la. Por um longo momento, ela apenas o encarou. As mulheres não costumavam fazer isso, e ele tinha de admirar-lhe a coragem. Porém, em alguns instantes, ela, sem dúvida, começaria a chorar, e ele detestava isso.

— Vamos esclarecer uma coisa — disse ela, com a voz um pouco trêmula, como quando aceitara dançar a valsa com ele. — Não tenho medo de ver algo desagradável. Eu não poderia ser útil em um lugar que não precisasse de ajuda. O que não quero é arruinar minha reputação. Ser acompanhada pelo senhor já é um risco, mas pelo menos no corredor temos testemunhas. Ir ao depósito seria uma estupidez e não serviria para nada.- Uzumaki deu um passo na direção de Hinata.

— Poderia ser estupidez — ele murmurou —, mas discordo de que não serviria para nada. Posso lhe ensinar muitas coisas. Não é por isso que está aqui? Para aprender?

O rubor cobriu o rosto de Hinata. Uzumaki a observou com atenção. Apesar de sua experiência com mulheres, não estava familiarizado com virgens. Fora uma opção, pois a histeria das jovens complicava demais as coisas, porem, aquela em particular o deixava curioso.

Hinata deu-lhe as costas e se afastou.

— Tenha um bom dia, milorde.

— Já está desistindo? — ele perguntou, esforçando-se para não segui-la. Não pediria desculpas, pois isso daria a ela uma vantagem momentânea, e não era dessa forma que costumava jogar.

— Não estou desistindo. Vou continuar a visita com a sra. Natham. Pelo menos, ela não vai tentar me seduzir no quartinho das vassouras.

Aparentemente, ela ouvira rumores a seu respeito, bem, quem não ouvira?

— Continue comigo. Prometi-lhe uma visita, e é o que terá.

Hinata o encarou de novo.

— Uma visita ao orfanato, milorde. Não às suas...partes privadas.

— De acordo... por hoje.

Ela se voltou para uma porta fechada.

— Depósito?

— Sim.

Não querendo que ela mudasse de idéia e saísse dali, Uzumaki manteve distância quando ela abriu a porta e olhou o interior o aposento antes de fazer mais anotações.

— Todos são do mesmo tamanho?

De repente, ele começou a se sentir desconfortável. Bom Deus, uma jovem inocente fazendo perguntas inocentes o estava deixando excitado!

— Aproximadamente.

— Ótimo. Podemos continuar.

Então ela pretendia fazê-lo manter sua palavra. Outra surpresa, com resultados ainda mais perturbadores. Parte de si achava que a visita era inútil, já que ele prometera não seduzi-la; outra parte praticamente apontava o caminho pelo corredor.

— O que está anotando aí? — ele perguntou, enquanto prosseguiam.

— Coisas que acho relevantes.

— Como o tamanho do depósito?

— Prefiro não dizer até apresentar meu projeto, lorde Uzumaki. Creio que já tem preconceitos demais contra mim sem que eu lhe proporcione mais algum.

— Todos estes são quartos sem uso? — ela indagou, quebrando o silêncio.

— Pensei que já tivéssemos concluído isso. Ou já lhe faltam perguntas? Poderia ter me poupado o aborrecimento de acompanhá-la nesta visita se...

— Estou apenas esclarecendo a questão. E eu não pedi que me acompanhasse nesta visita. A idéia foi sua, Uzumaki.

Agora ela estava discutindo com ele. Uzumaki imaginou como ela reagiria caso a pressionasse contra a parede e a beijasse. E ele não pararia por aí. Uma vez que colocas-se suas mãos nela, e a livrasse daquele ridículo chapéu e das luvas, continuaria a exploração do corpo nu até descobrir por que ela o excitava; até tirar aquela jovem virginal de seus pensamentos.

Talvez fosse isso. Com a roupa conservadora que ela escolhera para a visita, a idéia da pele macia sob todo aquele material estava estimulando sua imaginação.

— Não vai dizer nada? — ela perguntou, encarando-o outra vez.

— Eu o faria, mas prometi que me comportaria.

Esperava que ela reconhecesse seu esforço, pois não costumava agir assim.

— E devo me sentir grata por isso?

— Não particularmente. Sei que eu estaria bem mais grato se não estivesse me comportando. Deseja ver as cozinhas ou os órfãos agora?

— As cozinhas. Quero ter uma base de referência antes de falar com as crianças. Eu não as estou evitando.

— Eu não disse nada.

Ela o fitou de lado, com um brilho divertido nos olhos.

— Mas ia dizer.

Por um momento, Uzumaki não respondeu, encantado com o sorriso dela. Levantar tão cedo naquele dia o enlouquecera. Nada mais fazia sentido. E certamente nada explicava por que ele estava começando a gostar de acompanhar em uma visita ao orfanato uma garota comportada como Hinata Marie Hyuuga.

Hinata começou a se esquecer de fazer as anotações, e sabia exatamente a quem culpar por essa distração.

Começara o dia duvidando de sua habilidade de parecer competente. Com Uzumaki como seu guia, sua ansiedade aumentara muito. Os homens não eram novidade para ela. Conversava com eles, flertava, e fora cortejada por vários desde que debutara. Raramente se atreviam a mais do que alguns leves avanços. O marquês Uzumaki, no entanto, não era como eles. Era o tipo de homem que tanto sua mãe quanto seu próprio bom-senso lhe diziam para evitar a todo custo. Em sua primeira tentativa de escapar da vida que o irmão esperava que ela levasse, no entanto, fazia sentido que ela se deparasse com Uzumaki.

Por alguma razão, ele vinha sendo educado desde que ela estabelecera as regras de comportamento naquela manhã e, apesar de ser inquietante ter a pantera a seu lado, mesmo com as garras recolhidas, ela procuraria usar a situação a seu favor. Olhou na direção do marquês. Ele estava parado, com os braços cruzados, junto à entrada ido dormitório das meninas. Tinha os olhos nela mais uma vez; aqueles olhos azuis buscando ou vendo algo que ela sabia ter pouca coisa a ver com a decência.

— Srta. Hina, achei que ia trazer um pudim — disse Molly, em um tom lamurioso que fez Hinata voltar a si.

— Eu disse que traria, e vou trazer, mas hoje vim apenas para conversar com vocês.

— Ele também vai entrar? — uma das meninas indagou baixinho para outra.

— Eu gostaria que sim — a outra falou com um sorriso. — Ouvi dizer que o chão da casa dele é coberto com moedas de ouro.

Hinata estremeceu.

— Quantos anos você tem?

— Dezessete, srta. Hina. Em mais oito meses, eu sairei daqui e vou viver com algum homem em Covent Garden, imagino.

— Deus meu, espero que não! — Hinata olhou as garotas que a rodeavam. Será que era aquilo o que elas esperavam da vida?

— Bem, eu iria preferir viver em uma casa com chão de ouro do que em Covent Garden.

— Como se um marquês fosse se casar com a filha de uma costureira, Maggie.

— Eu não disse que ia me casar — ela murmurou.

— Isso faria de você uma...

Esperando que Uzumaki não tivesse escutado essa parte da conversa, Hinata se colocou entre as duas meninas. Não permitiria que ninguém começasse uma briga em sua presença.

— Vamos deixar lorde Uzumaki fora dessa conversa. Quero saber tudo sobre vocês, minhas jovens damas.

— Não sou uma jovem dama. Sou uma menininha. — Rose se aproximou, segurando sua boneca pelo pé. — E somos todas órfãs.

— Nem todas — uma das meninas disse. — O pai de William e Penny não morreu. Ele foi preso.

Alice Bradley riu.

— E o pai de Fanny está na cadeia porque quebrou uma garrafa na cabeça do dono da taverna.

— Pare de falar dos outros, Alice, sua estúpida, ou vou contar para a moça o que sua mãe fez para terminar em Newgate. .

— Não vai, não!

— Vamos, meninas. Que tal se eu fizer uma pergunta, e vocês responderem se quiserem? — Hinata sentou-se, alisando a saia.

Rose se encostou ao joelho dela.

— Eu gosto do jeito que a senhorita fala.

— Obrigada, Rose.

— Qual é a primeira pergunta?

— Gostaria de saber quantas de vocês sabem ler?

— Ler? — Penny indagou. — Pensei que fosse perguntar que doce nós preferimos.

— Oh, sim, doces. Mas e quanto a minha pergunta? Quantas de vocês...

— Queremos doces!

A sala irrompeu em uma gritaria. Era terrível, Hinata não passara nem dez minutos com as crianças e já perdera o controle sobre elas. Ninguém agora responderia a sua pergunta.

— Para fora, já!

Uzumaki deu a ordem, e as garotas sumiram imediatamente. Em um instante, ela e o marquês estavam sozinhos no dormitório.

— Isso não era necessário — ela murmurou, fingindo mexer nos papéis para não ter de olhar para ele.

— Elas estavam me deixando com dor de cabe ça. Criaturinhas horríveis. Já terminou com toda essa bobagem?

— Ainda não.

— Srta. Hyuuga, apesar de eu admitir que a senhorita já agüentou mais do que eu esperava, obviamente não vai conseguir fazer nada aqui.

Hinata respirou fundo, recusando-se a irromper em lágrimas. Uzumaki não podia vê-la chorar.

— E então devo ir para casa e bordar, é isso? — Parecer indignada era bom. Pelo menos assim não choraria.

— Minha oferta original está de pé — ele disse em voz baixa, pegando o lápis que ela segurava e ajudando-a a se levantar. — Compartilhar minha cama é muito mais satis fatório do que isso.

Ele deslizou o dedo pelos lábios dela, em um toque quente e suave, e Hinata pareceu parar de respirar. Depois, pegou os papéis de sua mão e os colocou sobre uma das camas.

— O que está fazendo? — ela murmurou.

— Vou beijar você — ele respondeu calmamente.

Os olhos dela focaram os lábios levemente entreabertos do marquês. Hinata tentou afastar o torpor que a envolvia diante daquele olhar e da força do corpo másculo. Poderia aprender muito com ele, sabia bem disso, mas as lições a arruinariam inteiramente. Outras mulheres já tinham se deixado envolver por ele antes, e onde estavam agora?

— Acha... que é o rei Ricardo III? — ela conseguiu dizer, recuando até suas costas encontrarem a parede.

— Explique — ele exigiu, franzindo o cenho.

— Ricardo III seduziu a cunhada ao lado do corpo morto do irmão.

— Eu sei! — Uzumaki exclamou, vencendo a distância que os separava com um largo passo. — E como isso me transforma em alguém feio, corcunda e pretendente ao trono?

— O senhor não é nada disso, milorde. O que eu...

— Uzumaki — ele a corrigiu.

Ela sentiu um arrepio percorrer seu corpo.

— Uzumaki... — ela murmurou. Deus, se ele realmente pretendesse beijá-la e se alguém os visse, ela seria banida da sociedade pela vida inteira. Isso se Hiroshi e a mãe dela não a deserdassem. — O que eu queria dizer é que fala que sou incompetente e inútil, e depois tenta usar meu desespero para me seduzir.

A expressão dos olhos dele mudou por um instante, e então escureceu de novo quando ele riu.

— Você não é inútil. Apenas passou dos limites que uma jovem deveria observar.

Aparentemente as mulheres acreditavam naquele homem, ou ele nunca se aventuraria a dizer algo tão ridículo. E mesmo assim tinha o poder de atraí-la.

— E o lugar certo de uma jovem é em sua cama presumo.

— Sim.

— Sua cama deve estar completamente tomada — ela disse, dado um passo para o lado e pegando de volta seus papéis. — Não creio que haja espaço para mim.

— Hinata...

— Gostaria de conhecer o dormitório dos meninos agora. — Caminhou rapidamente até a porta.

Até aquele momento, ela jamais imaginara que poderia despertar o interesse de um homem como o marquês. Nenhum libertino notório a cortejara antes, e agora o pior de todos eles, um homem muito bonito e experiente, estava tentando beijá-la... e mais.

— Como se envolveu com o orfanato? — ela perguntou.

— Uma grande má sorte.

— Pensei que alguém como o senhor não acreditasse em sorte.

— Existem algumas coisas que as habilidades não conseguem compensar. E isso é má sorte.

— Que tipo de má sorte o trouxe aqui, então?

— Pode fingir curiosidade, se quiser, mas quando seu pequeno plano se resumir a nada mais do que doces e canções, nós dois saberemos por que está realmente aqui.

— E por que seria isso, milorde? Pelo senhor? Deveria considerar que nenhuma dama de respeito iria querer ser vista em sua companhia e que, além disso, sob sua direção, este orfanato é o mais lamentável estabelecimento para os desprivilegiados que já vi.

Aquele era o único orfanato que ela já vira, mas ele não precisava saber disso. Uzumaki resmungou alguma coisa que ela preferiu não interpretar. Antes que pudesse recomeçar suas perguntas sobre as motivações dele, Uzumaki agarrou-a pelo braço e a pressionou contra a parede.

— Não se esqueça — ele disse, aproximando o rosto do seu —- de que está em minha companhia e de que, quando me provocar, deve esperar certas conseqüências.

Ele roçou os lábios nos seus, em um contato suave, quente e íntimo, antes de endireitar-se.

— Vamos continuar? — indagou, abrindo um sorriso cínico enquanto fazia um gesto para que prosseguissem.

— O senhor... é... é... um patife!

Uzumaki parou, voltou-se e pressionou-a outra vez contra a parede, capturando seus lábios em um beijo ardente. Aos poucos, foi intensificando o abraço. Hinata ouviu o som dos papéis que segurava caindo no chão enquanto agarrava a lapela do casaco dele.

O marquês Uzumaki sabia beijar. Nas poucas ocasiões em que um pretendente mais ousado a beijara, a sensação fora agradável, mas ela não tivera base real para uma comparação. Até agora.

Sentiu-se percorrida por uma onda de calor. Pare de beijá-lo, disse a si mesma, tentando forçar seus dedos a largar a lapela dele.

Mesmo assim, foi Uzumaki quem interrompeu o beijo. Olhando-a, ele passou a língua pelos lábios, como se tivesse acabado de comer algo que realmente apreciara.

— Você tem gosto de mel — ele disse, com a voz um pouco rouca.

Hinata sentiu seus ouvidos zumbindo, as pernas moles e um desejo desesperado de se esconder em qualquer lugar seguro.

— Pare... com isso — conseguiu dizer.

— Já parei. — Deteve o olhar na boca de Hina. — Curioso — ele murmurou, tocando-a outra vez nos lábios com a ponta dos dedos.

— O que é curioso?

Uzumaki deu de ombros, recuando.

— Nada. Quer que a acompanhe ao dormitório dos meninos agora?

— Creio já ter sugerido isso — ela resmungou, inclinando-se para pegar suas anotações, que ele, naturalmente, não se ofereceu para recolher.

Ele andou diante dela no corredor, e Hinata aproveitou os poucos momentos de privacidade para endireitar o chapéu e tentar se acalmar. Sendo uma dama, deveria ter esbofeteado Uzumaki e saído do orfanato às pressas; ou melhor, nem deveria ter ido até ali.

Concluiu, no entanto, que ele a beijara exatamente para que fugisse. Como os insultos não haviam dado certo, ele tentara algo mais pessoal. Se ela tivesse fugido, Uzumaki teria uma desculpa para nunca mais deixá-la entrar ali, e ela não poderia provar a si mesma que era capaz de realizar algo útil.

O problema era que aquele beijo despertara algo que pedia que ele fosse atrevido outra vez.

Uzumaki abriu a porta do dormitório dos meninos.

— Vamos entrar?

— Sim.

Quando Hinata passou por ele, Uzumaki sentiu o perfume de limão em seus cabelos. Mel nos lábios; limão nos cabelos; a pele provavelmente teria sabor de morangos. Hinata Hyuuga era uma verdadeira sobremesa, da qual ele queria muito desfrutar.

Autocontrole nunca fora uma de suas qualidades, mas atirar-se sobre ela não era uma boa opção. Hinata teria um desmaio, o que, sem dúvida, de nada lhe serviria.

Havia um bom número de garotos reunidos em um canto do dormitório. Uzumaki ouviu o barulho de moedas caindo no chão.

— O que... — Hinata começou a perguntar, mas se deteve.

— Estão fazendo apostas.

— Em um orfanato?

Uzumaki suspirou. As damas eram, sem dúvida, muito tolas.

— Todas as moedas que estiverem no chão são minhas quando eu chegar aí! — ele disse em voz alta.

Os meninos gritaram e se jogaram no chão, pegando as moedas. Depois, enfileiraram-se. Não costumavam ver o marquês com freqüência, e não pareciam satisfeitos ao vê-lo agora.

— Esta é a srta. Hyuuga — ele disse, apontando para Hinata. — Ela quer conhecer vocês.

— Obrigada, lorde Uzumaki. — Com um sorriso nervoso, ela deu um passo em direção aos meninos. — Por favor, podem me chamar de Hina.

— Dê um beijo em nós, Hina — um dos rapazes mais velhos gritou.

Uzumaki riu. Já que ela o deixara beijá-la, quem sabe o menino também teria sua chance. Cruzando os braços, ele ficou observando. Seria divertido.

— Se quer que uma garota o beije — Hinata disse em tom duro —, talvez deva tomar um banho antes.

Os outros meninos riram e começaram a zombar do colega.

— Ora, ora — Hinata bateu no ombro do garoto —, não estou aqui para brincar. Quero conhecer vocês. Passam o dia inteiro no orfanato?

— A Dama de Ferro disse que tínhamos de ficar aqui dentro hoje para a inspeção — falou um dos meninos.

— A Dama de Ferro?

— A sra. Natham, eu quis dizer, srta. Hina.

Uzumaki achou ter visto um leve sorriso nos lábios de Hina, mas não teve certeza. Franziu a testa. Verdadeiras damas não tinham senso de humor. Sua horrível reputação era prova disso.

— Como vocês passam os dias? Na escola?

— Na escola? Saiu de um hospício, srta. Hina?

— É uma dessas damas religiosas, que vêm aqui rezar para nossas almas bárbaras? — perguntou outro, com ironia.

— Não, claro que não...

— O reverendo Beacham vem aqui todos os domingos para tentar nos salvar.

— Não. Ele vem atrás da Dama de Ferro!

Hinata lançou a Uzumaki um olhar de frustração, e ele arqueou a sobrancelha.

— Talvez devesse lhes oferecer pudim — sugeriu.

— Eu sou um bárbaro!

— Eu sou um índio pele-vermelha! — Um dos garotos mais novos gritou, começando uma dança de guerra.

— Interessante, Hinata — Uzumaki murmurou. — Provoca o caos em todo lugar?

Ela o olhou com cara feia, mas logo mudou a expressão ao se voltar para o menino.

— Você sabe sobre os índios? Gostaria de conhecer mais a respeito deles?

— Randall me contou que eles escalpelam as pessoas.

— Sim. E eles podem se mover pela floresta sem fazer ruído, e seguir a trilha de um urso através das rochas e rios.

O menino arregalou os olhos.

— Eles podem?

– Oh, sim. Qual é o seu nome?

— Thomas Kinnett.- Hinata endireitou-se.

— Sabe, sr. Kinnett, quando se apresentar a uma dama, deve se curvar em uma reverência.

— Por quê?

— Para conseguir olhar embaixo de suas saias — Uzumaki respondeu em tom seco.

Aquilo era típico. Uma mulher tentando ensinar etiqueta a uma criança antes de saber se o garoto tinha o que comer. Sentiu-se desapontado. Por um momento, pensara que Hinata Hyuuga pudesse ter, além daquele corpo tentador, algum bom-senso.

— Lorde Uzumaki! — ela exclamou, ruborizando. Risos se ouviram em torno dela. — Não acredito... — começou a dizer, então parou. Depois se afastou do círculo de garotos, aproximando-se de Uzumaki. — Não acredito que esses meninos precisem de um mau exemplo. O senhor não contribuiu em nada com eles.

— Nem você. Aulas de etiqueta para batedores de carteiras de sete anos são inúteis, Hinata.

Ela empalideceu e, por um instante, Uzumaki achou que o esbofetearia. Por fim, ela assentiu.

— Pelo menos, estou tentando fazer algo para eles. Duvido que possa reivindicar o mesmo.

— Hinata Marie — ele sussurrou, incapaz de deixar de sorrir. — Eu reivindiquei apenas uma coisa hoje, e foi a sua boca. E pretendo ter o restante de você.

Ela arregalou os olhos e recuou.

— Patife.

Uzumaki fez uma elegante reverência.

— Pronto para servi-la.

Lançando-lhe um olhar furioso, Hinata se voltou para a porta e saiu. Uzumaki ficou ali, ouvindo os garotos rirem. Isso deveria resolver as coisas. Ela não se aproximaria de novo nem dele nem do orfanato. O pensamento, contudo, não o deixou particularmente de bom humor.

— Seus estúpidos! — o garotinho mais novo reclamou. — Eu queria aprender mais sobre os índios!- Uzumaki suspirou e deixou o dormitório. O comentário não se dirigira a ele, naturalmente, porque ninguém, nem mesmo crianças, falavam assim com ele. E, de qualquer forma, isso não dizia respeito ao que os garotos queriam, mas ao que era melhor para ele... e para Hinata Hyuuga.

X

Hey minna!

Gente, Hinata com atitude eu já vi, mas essa é a primeira vez que eu vejo um Naruto realmente mau caráter!

Vocês devem ter estranhado todos o chamando de "Uzumaki", mas isso já foi explicado, ninguém chama o personagem original pelo nome, e sim por "St. Aubyn" e isso me trouxe inúmeras dificuldades, como por exemplo as pessoas o chamarem de "Saint" (St), que é um trocadilho já que ele n é nem um pouco "santo"

Kiss