NARUTO NÃO ME PERTENCE- E SIM A MASASHI KISHIMOTO

ESTA HISTÓRIA TAMBÉM NÃO- É UMA ADAPTAÇÃO DO LIVRO DE SUZANNE ENOCH!

— Está brincando, não é? — Sakura parou ao lado da carruagem dos Barrett enquanto sua criada acomodava sobre um dos bancos meia dúzia de caixas e pacotes.

— Pareço estar brincando? — Hinata retrucou, estendendo à criada seu único pacote.

— Bem, nunca ouvi falar nada de bom, ou melhor, de respeitável sobre Uzumaki, mas ele questionar publicamente a sua competência, Hina, parece um absurdo. Afinal, seu tio é o marquês de Houton.

— Tenho certeza de que Uzumaki não dá à mínima para a nobreza de meus parentes. — Hinata queria que Sakura lhe contasse algo sobre o marquês que ela ainda não soubesse.

— Não, ele provavelmente não liga para isso — Sakura admitiu. — Ah, ouvi dizer que a Luckings acaba de receber chapéus novos. Vamos até lá?

Hinata queria trabalhar em sua proposta, mas Hiroshi estava em casa naquele dia, e se ele a pegasse pesquisando na biblioteca, provavelmente suspeitaria de alguma coisa.

— Claro, vamos lá.

Seguiram para o chapeleiro. Sakura conversava o tempo todo e sorria para os conhecidos que passavam, fingindo não notar a perturbação da amiga. Essa era uma qualidade de Sakura Haruno; calma e prática, ela esperaria pacientemente até que Hinata estivesse pronta para confessar o que tinha feito, e então ofereceria algum conselho bom e lógico para corrigir o problema.

Confessar que permitira que o marquês Uzumaki a beijasse, no entanto, somente a levaria a se sentir ainda mais idiota. Duvidava de que Sakura fosse capaz de dizer alguma coisa que mudasse a sua opinião.

— Hina?

Hinata procurou sair do torpor em que se encontrava.

— Oh, Saky, desculpe-me. O que estava dizendo?

— Apenas acabei de lhe perguntar se o seu irmão já se decidiu por uma plataforma política. Tenten vai jantar com o duque de Wycliffe hoje à noite, e ela se ofereceu para enumerar todas as virtudes de Hiroshi, se você quiser que ela o faça.

— Não tenho certeza se Hiroshi tem alguma virtude. E Tenten certamente não vai querer passar o pouco tempo que tem com o primo falando do meu irmão.

— É muita consideração de sua parte, mas não é uma atitude muito boa politicamente, minha querida.

— Não quero estar envolvida em política, e especialmente não em benefício de alguém como Hiroshi. Quero fazer parte de alguma coisa significativa.

— Como trabalhar no orfanato, por exemplo?

— Sim.

— Sabe, tenho uma idéia. — Sorrindo, Sakura pegou o braço de Hinata e a levou de volta à carruagem. — Você tem razão. Não é o duque de Wycliffe a pessoa de quem você precisa. É a duquesa.

— A duquesa? O que...

— Ela costumava ser a diretora de uma escola para moças. Quem poderia ser de mais ajuda para você do que uma diretora? E quem seria mais discreta do que Emma Brakenridge?

A esperança começou a afastar a frustração que Hinata sentia. Uzumaki poderia dispensá-la antes que ela conseguisse completar as entrevistas, mas isso não significava que ela não pudesse buscar informações em outro lugar.

— Sakura, já mencionei ultimamente como gosto de você? — perguntou, sorrindo.

— Fico feliz em ajudar, querida.

X

Uzumaki ajeitou-se na poltrona.

— E somente uma sugestão — ele disse, batendo as cinzas de seu charuto. — Pode aceitá-la ou não.

O cavalheiro que estava sentado diante do marquês balançou a cabeça, pensativo.

— Preciso considerar a opinião pública, mesmo que você não se importe com isso.

— Não é como se estivesse fazendo alguma coisa indecente. Seria um enorme parque para o público, parte do grande plano do príncipe regente para a melhoria de Londres.

— Sim, Uzumaki, mas isso envolveria passar por cima de um orfanato.

A dor de cabeça que Uzumaki sentia aumentou. — Os órfãos não estarão lá, pelo amor de Deus! Eu os acomodarei em outros lugares.

Alguém bateu à porta.

— Vossa Alteza?

— Não agora, Mithers. Estou tratando de negócios.

O secretário empalideceu.

— Negócios, Vossa Alteza? Com... com...

— Sim, comigo, Mithers — Uzumaki terminou com um leve sorriso.

— Oh, Deus... Oh, Deus...

— Mithers, saia — o príncipe George ordenou, pegando seu cálice de vinho Madeira.

A porta se fechou.

— Maldição! — o regente exclamou. — Em cinco minutos, terei metade dos meus ministros aqui.

Uzumaki encheu novamente o copo do príncipe. Mithers estava certo em buscar reforços, o que não lhe deixava muito tempo.

— Antes de me lançar daqui para fora, apenas considere a minha proposta. Estou lhe dando vários acres de terra, para usá-las como quiser. Essas terras fazem divisa com o projeto em que Vossa Alteza já está trabalhando, e o único custo será plantar algumas árvores.

— Mas de que, meu querido Uzumaki, isso vai lhe servir?- Uzumaki observou o príncipe por um longo momento.

Tinha de dar uma explicação ao regente, é claro.

— É simples — ele disse. — Minha mãe deixou claro que a manutenção e a supervisão do orfanato sempre ficarão a cargo de nossa família. Se a Coroa colocar o prédio abaixo, minha obrigação acabará.

— Então sua mãe tinha afeição por aquele lugar?

— Ela gostava de oferecer refeições nos feriados, chamando o ato de "ajudar os menos afortunados". Não quero continuar com toda essa bobagem. Não quando Vossa Alteza pode construir ali um parque agradável.

O príncipe acabou rindo.

— Vou fazer com que minha equipe examine a proposta, mas não vou concordar com nada sem antes encontrar alguém de melhor reputação para confirmar os fatos.- Uzumaki sorriu sem muita vontade.

— Não espero nada além disso. — Ele seria paciente. Afinal, herdara aquele maldito lugar fazia seis anos. Podia muito bem esperar mais algumas semanas.

— Bem — o príncipe continuou, adotando um tom de conspiração —, diga-me, rapaz. É verdade que lady Gladstone, faz certos... sons quando está no auge da paixão?

— Mia como uma gatinha — respondeu Uzumaki, esvaziando seu cálice de vinho. — Mais alguma coisa, Vossa Alteza?

Rindo de novo, o príncipe sacudiu os cachos de sua pesada peruca.

— Fico surpreso, Uzumaki, que você possa ter tão poucas qualidades e ainda assim ser tão simpático.

Uzumaki se levantou, fez uma leve reverência e começou a sair. Não havia razão para ofender o regente, especialmente quando estava diante de uma boa oportunidade de se livrar do orfanato.

— É talento, Vossa Alteza.

— Mais de nós poderíamos possuir isso.

Quando Uzumaki saiu de Carlton House e mandou trazerem seu cavalo, ficou pensando na conversa que tivera com o príncipe George e chegou à conclusão de que fora melhor do que tinha antecipado.

Decidiu ir almoçar no Boodles's, e somente depois de um bom tempo percebeu que pegara o caminho mais longo. Suspirando, diminuiu o passo do cavalo ao se aproximar de uma casa branca.

A casa dos Hyuuga não podia ser classificada como grandiosa, mas o pequeno jardim parecia bem cuidado, e o estábulo estava cheio. Os negócios que Hiroshi Hyuuga mantinha na índia, negócios do marquês de Houton, pareciam estar rendendo muito bem.

Rumores diziam que Hiroshi recentemente desenvolvera ambições políticas, algo que o tio sem dúvida aprovava. Essas ambições explicavam por que Hinata se aproximara de lady Gladstone na semana anterior. Lembrou-se do ar de desgosto da jovem naquela noite. Ficou imaginando como ela reagiria se ele batesse a sua porta.

Nesse instante, a porta se abriu. Uzumaki se empertigou, esperando para ver quem sairia. Era apenas a mãe. Aguardou discretamente sob a sombra das árvores que se alinhavam na rua, mas apenas uma criada a seguia, e não Hinata Marie.

Ele provavelmente exagerara com a delicada Hinata, e agora ela devia ter abandonado o projeto do orfanato, trocando-o por alguma outra coisa. Uzumaki deu de ombros, virando seu cavalo na direção oposta. Se ela não aparecesse na reunião dentro de dois dias, não valeria seu interesse, afinal. Mesmo assim, não conseguiu deixar de olhar para trás até virar a esquina. Podia esperar até a sexta-feira para descobrir. A espera não o desagradava, contanto que ele depois fosse satisfeito.

X

— Estou mais familiarizada com planejamento de lições para jovens já educadas, entre as idades de doze e dezoito anos — disse a duquesa de Wycliffe, inclinando-se enquanto segurava um doce.

— Qualquer ajuda que me desse seria maravilhosa, Vossa Graça — falou Hinata.

— Deve me chamar de Emma. — A duquesa voltou sua atenção para algo que Hinata não conseguia ver, mas que deveria estar sendo atraída pelo doce. — Elizabeth, mamãe não cabe aí embaixo. Por favor, saia daí.

Um risinho soou embaixo da mesa.

— Isso está acontecendo porque seu pai lhe contou aquela história boba sobre a fada mágica que vivia na caverna, não?

Ouviram-se mais risinhos.

Endireitando-se, Emma acabou comendo o doce.

— Muito bem, o papai da fada mágica vai explicar por que ela não pode viver embaixo da mesa.

Uma criada apareceu à porta, e a duquesa voltou para uma posição mais elegante na cadeira.

— Você os achou, Beth?

— Sim, Vossa Graça. — A criada aproximou-se e colocou papéis e livros em cima da mesa.

— Por favor, veja se pode localizar Sua Graça, Beth. Ele deve estar na sala de bilhar com lorde Neji.

— Sim, Vossa Graça.

A duquesa limpou as migalhas de bolo das mãos. Depois pegou os livros, folheou-os e entregou um a Hinata.

— Este é o básico, o que pode lhe dar uma idéia de como iniciar o ensino das letras para as crianças. Eu recomendaria começar com as vogais e seus sons.

— Oh, obrigada — disse Hinata, abrindo o livro. — Eu me sinto tão frustrada, querendo fazer alguma coisa e não tendo idéia de como começar.

— Você tem idéias — Sakura retrucou. — Apenas se preocupa demais, Hina. E ninguém poderia culpá-la por querer fazer uma diferença positiva na vida de alguém.

— Obrigada, Saky.

Emma lhe dirigiu um olhar curioso.

— Vai se encarregar sozinha das aulas? Ensinar é muito compensador, mas ocupará todo o seu tempo, mesmo o do descanso.

— Gostaria de fazer isso, mas... —- Hinata hesitou. Sabia que podia confiar seus segredos à duquesa de Wycliffe, mas confessar em voz alta como se sentia limitada era difícil.

— Suas atividades familiares ocupam bastante do seu tempo —- a duquesa terminou por ela. — Entendo. Acredite em mim.

— Pretendo contratar instrutores. Estes livros são maravilhosos, Emma. Obrigada.

— Estou feliz com isso. Leve o que quiser, e fique com eles o tempo que for necessário.

—- Você me chamou? — indagou uma voz profunda da porta.

O duque de Wycliffe entrou na sala, seguido por lorde Neji.

— Sim. Uma fada decidiu morar debaixo da mesa e se recusa a sair de lá para tomar banho.

O enorme duque arqueou a sobrancelha,

— Uma fada? — Ele bateu na superfície da mesa. — Tem uma fada aí embaixo?

Uma risada gostosa foi a resposta.

Com uma careta que fez Hinata sorrir, o duque tirou o prato de doces e a bandeja com chá de cima da mesa, estendendo-as a Neji. Hinata esperava que ele fosse se abaixar, como a duquesa fizera, e tirar Elizabeth dali. Em vez disso, ele simplesmente levantou a mesa e a colocou ao lado. O sorriso que a duquesa dirigiu ao marido fez Hinata ruborizar.

A pequena lady Brakenrídge, que tinha brilhantes cabelos loiros cacheados, deu um gritinho e correu. Em um passo, o duque a agarrou.

— Olá, Lízzie — ele disse, colocando-a em seu ombro. A criança murmurou alguns sons, e o duque olhou admirado para Neji.

— Você ouviu? Ela disse "papai".

O visconde devolveu o prato de doce e a bandeja de chá à mesa.

— Eu ouvi "baboon".

— Bem, você é surdo.

— Ouvi isso.

Rindo, Emma expulsou os dois homens dali.

— Vão embora. Estamos conversando.- Imediatamente, Neji se deteve.

— Conversando sobre o quê? — Olhou para Hinata, e ela se lembrou do aviso que ele lhe dera sobre Uzumaki. Bem, ela não tinha dado as costas para o marquês, e ele a beijara na boca.

— Sobre moda francesa e jóias — a duquesa respondeu sem hesitar.

— Credo. Acho que devemos ir ensinar bilhar para Lizzie — o visconde retrucou, fazendo uma careta.

Wycliffe concordou, caminhando para a porta.

— Sugestões como essa me deixam feliz por ter encorajado você a se casar com minha prima.

— Encorajado? Pelo que me lembro, você ameaçou atirar em mim se eu não fizesse isso.

A discussão continuou pelo corredor. Hinata estava admirada. Houvera um tempo em que aqueles dois homens eram famosos por suas péssimas reputações. Agora, no entanto, um deles carregava uma criança no colo como se fosse a coisa mais natural do mundo, enquanto o outro estaria em situação semelhante dentro de pouco tempo.

— Hinata?

Ela procurou afastar aqueles devaneios.

— Minhas desculpas, Emma. O que dizia?

— Apenas perguntei se quer que elaboremos o seu plano juntas.

— Obrigada, mas não. Quero tentar fazer isso sozinha. Apesar de ser bom poder contar com alguma ajuda.

Uzumaki parecia pensar que ela era uma imbecil, boa apenas para aquecer a cama dele. Se ela recebesse auxílio, o marquês saberia e, sem dúvida, diria alguma coisa a respeito na reunião dos curadores. Não. Aquele projeto era só dela.

— Naturalmente. Mas lembre que estou a sua disposição se tiver qualquer pergunta.

Depois de conversarem um pouco sobre moda francesa e jóias, Hinata e Sakura deixaram a casa dos Bakenridge. Com os livros emprestados, Hinata sentia-se capaz de elaborar algo aceitável. O único problema era que aceitável não seria bom o suficiente. O plano tinha de ser perfeito, e ela precisava prepará-lo em dois dias.

E a proposta não era a única coisa que precisava estar pronta; Hinata estava determinada a garantir que o marquês Uzumaki não a dispensasse outra vez. Nem permitiria novos beijos. Não forneceria ao marquês a distração que ele procurava.

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Uzumaki apertou os olhos.

— Não estou tão bêbado a ponto de aprovar que você se livre do que está guardado, Rutledge, -Timothy Rutledge olhou o marquês com cara feia.

— Mas tem mobília guardada há sessenta anos, quadros...

— Se eu souber que você andou vendendo alguma coisa vou ficar bastante... infeliz.

— Eu...

— Desista, Rutledge — disse sir Edward Willsley. — Eu também não aprovaria isso.

Aquela reunião era uma tolice, e o que ainda mantinha Uzumaki ali era ver se Hinata Hyuuga apareceria.

— Temos outros assuntos a discutir? — lorde Talirand perguntou.

— As janelas do lado esquerdo do dormitório dos meninos estão se soltando outra vez — respondeu sir Edward.

Uzumaki sorriu.

— E de que outra forma eles sairiam à noite?

— O quê? — O baronete empertigou-se na cadeira. — Você sabia?

— Não sou cego, Willsley.

— Se dependesse de você, este estabelecimento seria transformado em um covil de bandidos.

Lorde Talirand exalou uma baforada de fumaça de seu charuto.

— Pelo menos estaríamos tendo lucro.

Uzumaki tomou um gole de vinho, pensando que, pior do que estar no Conselho de Curadores do orfanato, era ter de participar das reuniões.

Alguém bateu à porta, e ele se levantou antes de tomar consciência do que fazia. Um leve calor o percorreu. Diabos, era melhor que fosse ela!

— Esperando alguém? — lorde Talirand indagou.

— Ansioso para fugir — ele respondeu, indo até a porta e abrindo-a. —- O que é?

— Milorde... o senhor disse... é a srta. Hyuuga.

— Mande-a entrar, sra. Governanta.

— Natham, milorde.

Ele a ignorou, enquanto via Hinata entrar. Tampouco prestou atenção ao ruído provocado quando todos os curadores se puseram de pé. Ela usava um vestido verde, alto até o pescoço e muito simples para a sua posição social. Os cabelos azulados estavam presos para trás, dando-lhe a aparência de uma governanta. Sem dúvida, pretendia parecer severa e interessada apenas no trabalho.

Ela fez uma leve reverência.

— Boa tarde, lorde Uzumaki, lorde Talirand, cavalheiros... — ela disse, passando por Uzumaki e mantendo o olhar distante dele.

— Muita coragem de sua parte — ele murmurou, indicando-lhe uma cadeira vazia. — E trouxe presentes. — Queria tocá-la, mas apenas tamborilou os dedos nos papéis que ela trazia nos braços.

— Documentos de apoio — ela explicou, colocando-os sobre a cadeira.

— O que a traz hoje aqui? — perguntou Rutledge, aproximando-se e levando a mão de Evelyn aos lábios.

—- Estou aqui para apresentar uma proposta para a melhoria do orfanato. Lorde Uzumaki parece achar que eu posso doar meu tempo e dinheiro apenas se souber dizer onde e como.

Talirand sorriu para ela.

— Que maravilha! Por favor, conte-nos seus planos, srta. Hyuuga.

Hinata começou a fazer sua apresentação referente à educação, vestuário, comida, melhorias no prédio e diversos outros assuntos de cunho social. Uzumaki, de onde estava, apoiado à escrivaninha para melhor observá-la, não prestou muita atenção.

Em vez disso, viu-se reparando no modo como as mãos de Hinata se moviam, na maneira como ela virava a cabeça, no entusiasmo em seu rosto. O que quer que ela quisesse, parecia pensar que essa era a forma de obter.

Uzumaki não duvidava de que poderia seduzi-la, deixá-la a ponto de implorar por suas carícias, por seus beijos, por suas mãos na pele nua. A questão era por que ele parecia estar obcecado pela moça. Fátima, dentre outras de suas ex-amantes, riria se soubesse que ele estava excitado por causa de uma garota virginal.

Ao som de um educado aplauso, ele voltou a si. Os curadores ali tinham gostado do que ela dissera, apesar de que provavelmente teriam aprovado qualquer plano assim que ela mencionara a intenção de doar dinheiro.

— Acho o seu entusiasmo admirável — disse Willsley. — Se precisar de minha ajuda ou conselho para realizar seu projeto, espero que se sinta livre para me procurar. Ruttledge balançou a cabeça.

— A senhorita sem dúvida descobrirá que gerenciar negócios é aborrecido e complicado demais para alguém com suas delicadas sensibilidades. Estou ao seu serviço.

Abutres, Uzumaki pensou. Ele os deixaria com as sobras; queria a refeição principal.

Hinata armou-se daquele sorriso angelical que dirigia aos seus parceiros de dança.

— Obrigada, cavalheiros. Isso significa que tenho a aprovação dos senhores?

Talirand se levantou.

— Vamos votar? Todos a favor digam "sim".- O coro de "sim" era de enjoar qualquer um.

— Bem, Uzumaki, e quanto a você? — Rutledge perguntou. — Certamente não tem objeções quanto ao projeto. Sim ou não?

Uzumaki continuou relaxado, decidindo o seu voto. Ele poderia recusar; não precisava da intromissão dela enquanto tentava se livrar do lugar. Hinata ficaria brava e o atormentaria pelo resto da vida. Não haveria problemas, exceto por um aspecto... ele nunca a teria sob seu corpo, gemendo seu nome. Contraiu os lábios, olhando diretamente para o objeto de seu interesse.

— Presumo que essa pequena experiência ficará sob minha supervisão?

O sorriso confiante de Hinata diminuiu um pouco.

— Se o senhor insiste...

— Insisto.

Ela ergueu o queixo, e o leve rubor no rosto se intensificou.

— Então sim, meu projeto pode ser colocado sob sua supervisão.

— Então minha resposta é "sim".

X

— Hinata!

Hinata parou junto à porta. Antes de decidir se valia o risco correr para a carruagem que a esperava, Hiroshi desceu o último lance de escadas. Cruzando os braços, ele a encarou.

— Bom dia — ela disse, sorrindo.

— Passei pela casa de tia Houton ontem, Ela não vê você faz uma semana.

— Eu tive de...

— Você perdeu o chá que ela oferece às quintas;

— Não pretendia...

— Tampouco se explicou por que dançou com Uzumaki.

— Hiroshi, se eu não...

— É isso, não é? Antes de eu voltar da índia, você podia fazer o que queria. Hina, assim que eu for eleito para o Parlamento, você pode voltar para suas compras ou festas ou para o que a agradar. Até que isso aconteça, por favor, mostre algum controle e bom-senso.

Ela não confessaria nada naquele momento. Era melhor ser evasiva. Decidiu oferecer a explicação que vinha tentando encontrar a semana inteira.

— Não quero prejudicar sua campanha, Hiroshi. Acho que tem capacidade para se tornar um esplêndido membro do Parlamento. Porém, tenho alguns compromissos próprios. Se eu os negligenciar, nós dois poderemos ser afetados negativamente.

— E que compromissos são esses?

Droga! Se ela dissesse que estava se preparando para supervisionar um orfanato que contava com Uzumaki como presidente do conselho, Hiroshi a trancaria no quarto.

— Lady Neji e a duquesa de Wycliffe têm interesse em educar os pobres. Elas pediram que eu as ajudasse.

— Você?

Hinata tentou ignorar o ceticismo na voz do irmão. Era como se ele jamais pudesse imaginar que alguém pediria a ela alguma ajuda ou conselho quanto a qualquer assunto.

— Sim. Também o ajudei quando você me pediu, lembra?

— Isso eu ainda preciso avaliar. E quanto à valsa com Uzumaki?

— Ele me convidou. Temi que, se eu recusasse, a cena seria pior do que se eu aceitasse.

Ela viu a relutante expressão de concordância.

— Bem, provavelmente você está certa. Mas fique longe desse homem, Hina, e não lhe dê qualquer oportunidade de convidá-la de novo.

— Não darei.

Hiroshi deu um passo para mais perto da irmã.

— E lembre-se de que seus compromissos são secundários neste momento. Você não pode negligenciar os deveres com sua família, e isso significa que deve pensar em mim. Mamãe concordou em acompanhá-la ao próximo chá. Precisamos redobrar nossos esforços. Plimpton está atrás dos votos de Alvington.

— Mamãe vai ao chá?

— Ela está muito envolvida em minha campanha. Assim como você deveria estar, Hinata.

— Mas eu estou, Hiro.

— Aonde está indo agora? — Ele pegou o livro que ela segurava antes que pudesse impedi-lo. — Uma cartilha?

— A duquesa pediu que eu me familiarizasse com o assunto.

Com ar de desprezo, Hiroshi devolveu o livro — Divirta-se, então. O duque sabe que você está ajudando a causa da esposa?

— Claro que sabe. — Felizmente, mentir para Hiroshi era fácil, uma vez que ele estava totalmente absorvido com sua campanha.

— Faça com que ele saiba que você conta com a minha aprovação.

— Farei isso.

— Então se apresse. Não se deixa uma duquesa esperando.

Ninguém deixava o marquês Uzumaki esperando também.

Logo que Hiroshi entrou no escritório, ela se apressou a sair.

— Para o orfanato, o mais rápido possível — ela sussurrou para Phillip.

— Certo, srta. Hyuuga. -Aquele projeto teria sido muito mais fácil sem Hiroshi ou Uzumaki por perto. Um passo errado arrumaria tudo.

Como Sakura observara, havia outras obras de caridade às quais poderia se dedicar. Em nenhuma delas teria de lidar com Uzumaki, e pelo menos uma delas seria aceitável para as ambições políticas de Hiroshi. Porém, o orfanato era o lugar que tinha chamado sua atenção, e que parecia precisar de sua ajuda. Se ela pudesse fazer alguma diferença lá, então teria verdadeiramente realizado alguma coisa. Ninguém a impediria de tentar. Não permitiria que isso acontecesse.

X

O marquês Uzumaki semicerrou os olhos, observando o grupo de mulheres no vestíbulo do orfanato. Não tinha idéia do que elas estavam fazendo ali. Se não tivessem citado o nome da srta. Hyuuga, ele nunca teria permitido que entrassem. Pelos menos tinham lhe proporcionado alguns poucos momentos de distração ao correrem para o outro lado quando ele se aproximara. Aparentemente até mesmo as classes menos privilegiadas conheciam sua fama.

Assustar aquelas solteironas não era de todo mau. No entanto, ele não se levantara tão cedo naquela manhã por essa razão. Puxou do bolso seu relógio e o consultou de novo. A estava atrasada. Se ela não aparecesse nos próximos dez minutos, ele colocaria aquelas mulheres na rua e trancaria as portas.

Na realidade, nem precisava esperar. Quanto mais obstáculos ele colocasse no caminho de Hinata, maior a probabilidade de ela desistir daquela bobagem. Ao mesmo tempo, estava curioso quanto ao que ela pretendia fazer ali. Ninguém se voluntariava nem doava dinheiro sem uma razão. Descobriria o que a motivava. Ele a decifraria, e então descontaria toda sua crescente frustração nela. Várias vezes.

A porta da frente se abriu, e Uzumaki se voltou. A srta. Hyuuga entrava apressada, com o chapéu caído para trás, revelando boa parte dos cabelos azulados, e uma pilha de livros e papéis nos braços.

— Bom dia, milorde, senhoras — ela foi dizendo. — Peço desculpas pelo atraso. Fui detida de forma inevitável.

— Por quem? — Uzumaki perguntou, aproximando-se dela. Bem devagar, estendeu a mão e desamarrou os laços do chapéu de Hinata.

Seus olhares se encontraram.

— Por meu irmão. Por favor, pare com isso.

Ele terminou de desatar os laços e tirou-lhe lentamente o chapéu.

— Estou aqui há vinte minutos — murmurou. — Seja grata por eu não acabar com esta pequena farsa imediatamente.

— Isto não é uma farsa. — Tirando o chapéu das mãos dele, Hinata se voltou para as mulheres, que pareciam assustadas. — Presumo que as senhoras estejam aqui por causa do meu anúncio.

— Sim, madame — elas responderam em coro.

Uzumaki deu um passo para a frente, roçando o seu ombro no dela.

— Que anúncio? — ele perguntou, aspirando o aroma de limão dos cabelos de Hinata.

Ela começou a mexer nos papéis.

— Um que eu coloquei no London Times. Procurando instrutores, para responder a sua próxima pergunta.

Que maravilha!, Uzumaki pensou. Se o príncipe ou sua equipe vissem que o orfanato estava contratando instrutores, ele teria dificuldades para explicar o que estava acontecendo.

— Consulte-me da próxima vez.

— Certo. — Voltou-se para as candidatas. — Senhoras, eu as entrevistarei em grupo de três.

— E quanto ao resto do bando? — ele indagou. — Não vou me incumbir de distraí-las.

— Não precisava estar aqui, milorde.

— Precisava, sim. Sem mim, você não tem projeto algum.

— O conselho decidiu diferente, milorde.

— Eu sou o conselho, srta. Hyuuga. Não se esqueça disso. Agora, que outras pequenas surpresas planeja para hoje?

— Tenho um pequeno grupo de trabalhadores chegando aqui ao meio-dia para começarmos a esvaziar os aposentos de baixo. — Ela o encarou. — E o senhor não vai me dissuadir disso.

— Por que está esvaziando os depósitos?

— Para transformá-los em salas de aula. O senhor não ouviu a minha proposta?

— Não.

— Não? Mas...

— Hinata Marie — ele disse em voz baixa, desejando que o bando de mulheres estivesse em outro lugar, para que ele pudesse experimentar outra vez o mel dos lábios de Hinata —, você não está aqui por causa de sua proposta.

— Então porque...

— Você está aqui por causa da minha proposta.

— Eu lhe disse que não vai conseguir me afugentar de novo, milorde.

— Uzumaki — ele a corrigiu. — Por acaso, já viu um homem nu e excitado, desejando você?

Um forte rubor cobriu o rosto de Hinata.

— N... não.

— Pois vai ver. — Incapaz de se conter, ele a tocou no rosto. — As coisas que vou lhe ensinar, Hinata, não são aprendidas em salas de aula. E você vai me implorar para que eu ensine mais e mais.

Ela abriu a boca e fechou-a novamente.

— Vá embora — ela por fim ordenou com voz trêmula. — Não vou ser seduzida pelo senhor.

— Não hoje — ele concordou. Então, voltou-se para as mulheres. — Para onde gostaria que os móveis velhos fossem levados?

— Eu...

Uzumaki percebeu que ela se esforçava para recuperar a concentração. Ótimo. Estava confusa.

— Devem ser levados para os velhos estábulos — ela conseguiu dizer. — Vou precisar fazer um inventário do que poderá ser útil.

Uzumaki fez uma leve reverência.

— Como queira.

— O senhor pretende mesmo ajudar?- Uzumaki sorriu.

— Ajudar, sim. Ser voluntário, não. Nada é de graça.

Os trabalhadores que Hinata contratara eram funcionários de um clube para cavalheiros. Provavelmente tinham sido escolhidos por lorde Neji, que se transformara em um sujeito bem comportado desde o casamento. Uzumaki não podia imaginar que desculpa Hinata dera a ele para explicar por que precisava de ajuda.

Neji costumava ser um parceiro de farras, até que Tenten o arruinara. Uma vergonha. Agora eles mal trocavam cumprimentos, a não ser no Parlamento ou em algum dos raros eventos respeitáveis que ele freqüentava durante a temporada. Uzumaki lhe desejava sorte, mas com certeza esse não era o tipo de vida que desejava para si.

Assim que ele orientou os homens em relação aos aposentos que precisavam ser esvaziados e mostrou onde aguardar os itens de lá tirados, nada de importante lhe restou para fazer. Retirou do bolso um frasco de gim e encostou-se a uma parede.

Hinata acreditava que ele estava sendo útil, apesar de questionar seus motivos. Ele também questionava os dela. Pelo menos, ele sabia o que estava fazendo e o motivo. Uma vez que o príncipe concordasse com a idéia do parque, o orfanato teria de ser esvaziado antes de ser derrubado. Agradar Hinata e, ao mesmo tempo, antecipar o cronograma de demolição parecia um modo produtivo do passar o dia.

O grupo de mulheres da manhã se reduzira muito, e meia dúzia de aposentos já estava vazio. Alguns dos órfãos espiavam em um canto toda a atividade, mas Uzumaki os ignorou. Dava-lhes teto e comida. Aquela agitação toda era ideia da srta. Hyuuga, e era ela quem deveria explicar para as crianças o que estava acontecendo. Um aroma de limão chegou até ele.

— O senhor poderia explicar às crianças o que estamos fazendo — Hinata observou, aproximando-se.

— O que você está fazendo — ele a corrigiu. — Estou aqui apenas tentando evitar o tédio.

— Mesmo assim, foi um bom trabalho.

Hinata parecia terrivelmente satisfeita consigo mesma.

— Srta. Hyuuga, o que quer que esteja pretendendo, não vou segui-la às cegas. Meus olhos estão bem abertos. E deve saber que o que eu fizer, faço pelas minhas razões, e não pelas suas.

— Estou apenas tentando ajudar estas pobres crianças. Presumo que seja esta a razão de o senhor presidir o Conselho de Curadores.

— Pois presume errado. — Ele se afastou da parede e aproximou-se dela. — Minha querida mãe estipulou em seu testamento que um membro da família Uzumaki deveria continuar envolvida com o orfanato pela duração de sua existência. Aparentemente, eu sou o único membro ainda vivo da família; assim, coube a mim esse papel.

— Uzumaki — Evie murmurou. — Sei seu nome de família, mas nem sei o seu primeiro nome...

— Naruto.

— Naruto... — ela repetiu.

Uzumaki viu-se fitando os lábios dela. Poucas mulheres o tinham chamado pelo primeiro nome, e ele não gostava que o fizessem. Implicava uma familiaridade que elas não mereciam. Sexo dificilmente lhes dava esse direito. Para sua surpresa, porém, quando a angelical Hinata Marie Hyuuga murmurara seu nome, ele sentira o coração acelerar. Estranho.

— Sim. Um nome tosco e tolo, assim como a imaginação da minha mãe.

— Isso não é gentil.

Ele deu de ombros, sentindo-se pouco à vontade com a conversa.

— É honesto. Achei que apreciaria isso.

— Isso o deixa desconfortável, não é? Falar sobre sua família.

— Nada me deixa desconfortável, Hinata — ele murmurou, dando um passo à frente. — Não tenho consciência.

Hinata deu um passo para trás, tanto por causa do avanço do marquês quanto do brilho predatório em seu olhar. Os trabalhadores que ela contratara sem dúvida poderiam escutar a conversa, e lorde Neji apenas garantira a vontade deles de trabalhar. Não dissera nada a respeito da disposição de evitarem fofocas, caso a vissem sendo beijada por Uzumaki

— Está apenas querendo me provocar.- Uzumaki balançou a cabeça.

— Estou apenas avisando você. Como disse antes, não faço nada de graça. Espero um pagamento pelo meu trabalho de hoje.

— Não pedi sua ajuda.

— Não, o que você pediu, querida, foi minha indulgência. E sabe-se lá por quê, eu tenho estado disposto a dá-la.

Um sorriso sensual surgiu nos lábios dele. Uzumaki aproximou-se mais, com o olhar preso aos lábios de Hinata.

Ela engoliu em seco, mas antes que pudesse protestar e informá-lo de que ele não a beijaria outra vez, Uzumaki tocou de leve a base de seu pescoço, deslizou os dedos até sua nuca... e afastou-se, levando consigo seu colar com um pingente de pérola. Ela nem o sentira abrir o colar.

— Como...

— Devia ver com que rapidez eu abro um vestido — ele murmurou, levantando o pingente para examiná-lo. — Meu pagamento pelo trabalho de hoje. Se o quiser de volta deve pedi-lo na festa dos Dundredge hoje à noite. Creio que irá ao baile, não?

— Sim... vou.

— Eu também, aparentemente. Bom dia, srta. Hyuuga. Informe a sra. Governanta quando terminar de brincar.

— Não estou brincando — ela retrucou com voz trêmula enquanto ele desaparecia no corredor.

Se ele a escutou, provavelmente não se importava. Era difícil ficar indignada quando sua mente se atinha ao comentário que o marquês fizera a respeito da habilidade de despir uma mulher. Imaginou os dedos dele deslizando pelas suas costas, o vestido caindo no chão, as mãos dele...

— Oh, pelo amor de Deus! — exclamou, procurando afastar aquelas imagens. Como se algum dia fosse sucumbir às seduções dele! Uzumaki estava tentando chocá-la apenas para se divertir.

Diabólico e charmoso, ele era também perigoso e, como lady Gladstone dissera, muito mau. E se ela quisesse ver seu colar de novo, teria de se aproximar dele no baile daquela noite. Sem dúvida, ele a convidaria para dançar e faria com que ela não pudesse recusar.

Hinata estremeceu. Hiroshi iria matá-la. Se o marquês Uzumaki não a arruinasse antes.

X

— Se ele roubou o seu colar, você deveria informar as autoridades para que ele seja preso — Sakura disse, buscando em meio aos convidados do baile algum sinal de Uzumaki.

Hinata também procurara por ele, sem sucesso.

— Fazer com que o prendam seria matar dois pássaros com uma pedra só. Eu me livraria de Uzumaki, e Hiroshi teria uma apoplexia por causa do escândalo. Francamente, Saky!

Sakura riu.

— Eu estava apenas querendo ajudar.

— Então seja mais útil. O que devo fazer? Simplesmente me aproximar dele e pedir que me devolva o colar? E se ele estiver com aquela horrível lady Gladstone?

— Nesse caso, poderá dizer a Hiroshi que estava recrutando a mulher para a campanha eleitoral dele.

— Sabe, poderia dar certo. Não, não daria. Lady Gladstone iria querer saber como Uzumaki pegou meu colar, e furaria meus olhos antes que eu pudesse responder.

— Os olhos de quem serão furados? — uma voz feminina perguntou atrás de Hinata.

Um suspiro de alívio escapou dos lábios de Hinata ao ver que era Tenten.

— Ten, você quase me matou de susto!- O alto e bonito marido da amiga concordou.

— Acontece comigo o tempo todo. — Neji tinha a mão cheia de bolinhas de chocolate. Deu uma a Tenten e enfiou o resto na boca. — Como se saíram os escravos que eu lhe mandei?

— Shhh... — fez Hinata, apesar de que provavelmente apenas ela e Tenten compreenderiam a pergunta de Neji, uma vez que ele falara com a boca cheia de chocolate. — É segredo.

O visconde engoliu os doces.

— Sim, eu percebi. E por que é segredo mandar uns homens trabalhar em um orfanato?

A esposa lhe dirigiu um olhar de censura.

— Não é da sua conta, Neji. Vá aborrecer Emma e Greydon.

— Sim, meu amor. — Com um sorriso e um beijo no rosto de Tenten, Neji se enfiou no meio da multidão.

Logo que ele se afastou, Tenten abaixou a voz ao tom de conspiração que Hinata e Sakura estavam usando.

— Muito bem, que olhos vão ser furados?

— Os meus — Hinata respondeu, incapaz de conter um sorriso.

Tenten e Sakura eram amigas maravilhosas, com quem ela podia compartilhar qualquer segredo. No entanto, ela não lhes contara que Uzumaki a beijara. Nada podia explicar isso, nem a razão de continuar pensando nele com tanta freqüência.

— E por que isso vai acontecer?

— O marquês Uzumaki roubou o colar de Hina hoje à tarde — Sakura explicou. — Estamos tentando pensar em uma estratégia para recuperá-lo que não envolva derramamento de sangue.

— Tem certeza de que ele o roubou? — Tenten indagou, admirada.

— Ele o tirou de meu pescoço e me disse que, se eu o quisesse de volta, teria de pedi-lo esta noite.

— Bem, é óbvio que ele quer criar problemas para você. Pelo que ouvi, ele adora esse tipo de coisa.— Tenten também começou a procurá-lo em meio aos convidados. — Você sabe, Hina, isso pode ter passado do ponto em que você pode participar em segurança.

— Não vou me acovardar por causa do mau comportamento de alguém — Hinata declarou com firmeza. — Especialmente daquele patife.

— Mau comportamento... — repetiu Sakura. — E aqui está você, Hina, sem um aluno para sua lição de...

Tenten empalideceu.

— Não, não e não! Não podemos mandar nossa Hina atrás de Uzumaki. Ele a arruinaria em um segundo se descobrisse as intenções dela. Vamos encontrar alguém menos perigoso a quem ela possa dar suas lições.

— Eu... — Hinata começou.

— Sim, você tem razão — Sakura interrompeu. — O sujeito em questão deve pelo menos ter uma alma. Receio, Hina, que Tenten esteja certa. Esse seu plano para ajudar o orfanato se tornou muito arriscado. Podemos achar um lugar mais seguro onde você possa oferecer o seu trabalho.

— E um aluno menos perigoso para você instruir — Tenten acrescentou.

Hinata olhou de uma amiga para a outra. As duas esperavam que ela falhasse antes mesmo de começar, e que ainda tivesse a reputação arruinada. Deviam achar que o plano para o orfanato se revelaria um desastre, e o marquês meramente providenciara uma desculpa conveniente para que poupassem seus sentimentos. Bem, se ela ia ser considerada incompetente, pelo menos tentaria se sair bem antes.

— Tem razão, Saky — disse em voz baixa.

— Não se aborreça, Hina. Vamos começar a procurar alguma outra obra de caridade para você amanhã cedinho.

— Não, eu quero dizer que você tem razão quanto a Uzumaki ser o candidato perfeito para uma lição sobre comportamento em relação às mulheres. E eu estou em uma posição excelente para dar-lhe as lições.

Sakura arregalou os olhos.

— Não, Hina, eu estava muito, muito errada. Se assumir essa missão, você não somente estaria trabalhando para melhorar um orfanato questionável, como ainda para...

— Melhorar Uzumaki. Sei disso. Não creio que poderia encontrar um desafio maior, não é?

— Tem certeza? — indagou Tenten. — Não precisa provar nada, Hina.

— Apenas para mim mesma. E sim, tenho certeza. Serei ou um incrível sucesso em ambos os casos, ou um desastroso fracasso.

As amigas continuaram argumentando, tentando convencê-la de que estava assumindo um risco desnecessário, e de que tanto o marquês quanto o orfanato estavam além de seu alcance. Além de estarem erradas, tudo o que diziam perdeu o sentido quando ela viu Uzumaki entrar no salão.

Pela primeira vez, notou quantas mulheres o olhavam furtivamente, às costas de seus maridos ou atrás de seus leques. Todas pareciam querer ir para a cama com ele, ou pelo menos observá-lo. O suave caminhar que lembrava o de uma pantera era magnético, mesmo quando ele não estava caçando. Com tantas mulheres interessadas, por que estava atrás dela? Ou apenas se divertia? Talvez tivesse um bolso cheio de colares esperando para serem pedidos de volta pelas damas ao lado de quem passara o dia.

— Hina — Sakura murmurou.

— O que foi?

— Ele está aqui.

— Eu sei. Já o vi.

As amigas trocaram olhares, que ela fingiu não notar.

— O que você vai fazer? — Tenten perguntou. Hinata respirou fundo, tentando se acalmar.

— Vou pedir o meu colar de volta.

— Mas...

Antes de perder a coragem, Hinata caminhou em direção à mesa de refrescos, para onde Uzumaki parecia estar indo. Encontrá-lo ali por acaso levantaria menos perguntas do que se ela o abordasse.

Quando ela chegou à mesa, Uzumaki ainda não estava lá, tendo parado no caminho e pedido uma bebida a um criado. Ela o observou a distância.

Naruto. Qual seria o nome do meio? Saber tão pouco a respeito desse homem fazia com que qualquer pequena informação se tornasse significativa. Os cabelos loiros cobriam em parte um dos olhos, dando-lhe um aspecto vulnerável.

Ele voltou-se, e seus olhares se encontraram. Era como se Uzumaki soubesse que ela estava ali. Hinata sentiu o coração acelerar. Qualquer que fosse o jogo que ele tivesse em mente, dirigia-se a ela. Com um leve sorriso, ele dispensou o criado e abriu caminho entre um grupo de jovens damas, sem nem sequer dirigir-lhes um olhar.

— Boa noite, srta. Hyuuga. — A voz baixa e insinuante provocou arrepios na espinha de Hinata. — A senhorita veio.

— Pensou que eu fosse me esconder debaixo da cama? — Hinata ficou aliviada ao perceber que sua voz soara firme.

— Quando eu penso em você, não é debaixo da cama. Faça a sua pergunta.

Parados no meio de um salão de baile, dúzias de convidados poderiam ouvir a conversa. E Hinata não conseguia pensar em como fazer a pergunta sem parecer que tivesse feito alguma coisa errada. Oh, ela devia ter se escondido debaixo da cama. Bem, era melhor terminar com aquilo de uma vez.

— Lorde Neji mencionou que o senhor encontrou um colar no baile dos Hanson. Acredito que talvez seja meu. Posso vê-lo?

Os lábios de Uzumaki se curvaram em um sorriso.

— Sim, eu encontrei o colar em uma poncheira — ele disse suavemente e enfiou a mão no bolso. — Seria este?

— Oh, muito obrigada, milorde. É uma das minhas jóias favoritas, e pensei que nunca mais a encontraria. — Ela estendeu a mão.

Uzumaki deu um passo em sua direção.

— Permita-me.

Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa além de ruborizar, o marquês prendeu o colar em seu pescoço, roçando os dedos em sua nuca.

— Muito bem, Hinata Marie — murmurou, bem perto de seus cabelos. — Agora sorria e diga: "Obrigada, Uzumaki" ou eu beijarei sua orelha.

Se o coração dela batesse mais depressa, certamente explodiria. Ela lhe dirigiu um sorriso amigável.

— Obrigada novamente, Uzumaki. Foi muita gentileza de sua parte.

— Você me excita — ele sussurrou — e vai pagar por isso. — Soltando-a, deu um passo para trás.

A lição. Hinata lembrou-se, fechando os olhos por um momento para se recuperar.

— Lorde Uzumaki, conhece minha mãe? — ela perguntou. — Tenho certeza de que ela vai gostar de lhe agradecer por sua boa ação.

Uzumaki franziu a testa.

— Você quer que eu conheça sua mãe? — ele repetiu, surpreso.

Era a primeira vez que Hinata o via confuso.

— Sim. Por que não?

— Posso pensar em milhares de motivos — Uzumaki retrucou, e depois deu de ombros. — Mas por que não?

— Por aqui, milorde.

— Uzumaki — ele a lembrou suavemente e, para seu horror, ofereceu-lhe o braço.

— Mas...

— Se estou sendo civilizado, seja você também. — Sem esperar resposta, ele pegou-lhe a mão e a colocou sobre seu braço.

Enquanto deixavam o salão de baile, dirigindo-se à sala onde a maioria das matronas se reunia para conversar e comer doces, Hinara percebeu que cometera um erro.

— Uzumaki, minha mãe não sabe que estou trabalhando no orfanato. Por favor, não diga nada.

Por um momento, ela pensou que o marquês não a tivesse escutado, por estar ocupado observando as expressões chocadas das matronas quando elas percebiam quem estava entrando no aposento. Então ele se voltou para ela, com os olhos azuis brilhantes e cínicos.

— Por um beijo —- ele murmurou.

— O quê?

— Ouviu bem. Sim ou não?

Com o restante das mulheres procurando se afastar dela, Genevieve Ruddick deu um sorriso mortificado.

— Hina! O que está...

— Mamãe, gostaria de lhe apresentar o marquês Uzumaki. Ele encontrou o colar que eu tinha perdido no baile dos Hanson. Milorde, minha mãe, a sra. Hyuuga.

— Sra. Hyuuga — ele disse, pegando a mão de Genevieve. — Eu deveria ter me apresentado dias atrás, quando sua filha e eu...

Oh, não.

— Sim — Hinata murmurou.

— Dançamos no baile dos Hanson — ele terminou. — Ela é uma jovem bastante corajosa.

A mãe franziu o cenho.

— Uma jovem impulsiva, de qualquer forma.

Hinata prendeu a respiração, esperando que o marquês retrucasse com alguma observação insinuante. Em vez disso, ele ofereceu apenas um sorriso breve e enigmático.

— Realmente.

Bem, isso era bom. Para uma primeira tentativa, o marquês conseguira ser educado por quase três minutos. Hinata, provavelmente, já estava abusando da sorte por aquela noite.

— Oh, isso é a quadrilha? — ela perguntou, alegre. — Prometi esta dança para Francis Henning. Desculpe-me, mamãe. O senhor se importaria de me acompanhar, lorde Uzumaki?

Como ele não disse nada, Hinata considerou que seria mais prudente sair e esperar que ele a seguisse. Mal chegara à porta quando sentiu uma mão em seu ombro, conduzindo-a para uma alcova próxima.

— O que foi tudo isso? — Uzumaki perguntou, olhando-a sombriamente.

— Nada. Apenas queria ver como o senhor se sairia. Agora, se me der licença, eu tenho...

Uzumaki colocou o braço diante dela, bloqueando sua saída. Consciente de que estavam separados do corredor e do salão de baile mais à frente apenas por uma cortina, Hinata engoliu em seco. As amigas a tinham alertado do perigo de ensinar alguma coisa a Uzumaki, mas ela estava consciente disso. Estranhamente, porém, parecia justo que, se ele quisesse arruiná-la, ela tentasse melhorá-lo.

— Por favor, saia da frente.

— Beije-me.

— Agora?

Com um pequeno passo, ele se aproximou ainda mais, fazendo-a erguer o queixo para conseguir fitá-lo.

— Sim, agora.

Hinata suspirou, tentando disfarçar a súbita aceleração de seu pulso.

— Muito bem.

Ele permaneceu onde estava, apenas olhando-a.

— Bem — ela murmurou após alguns instantes —, acabe logo com isso.

— Não. É você quem vai me beijar. — Com os olhos semicerrados, ele deslizou um dedo acima do decote do vestido de Hinata. — Beije-me, Hina, ou vou encontrar algo mais íntimo para fazermos.

Hinata sentiu o rosto arder, e de repente percebeu qual era o problema. Ela queria beijá-lo. Queria experimentar a mesma sensação provocada pelo beijo no orfanato.

Devagar, ele abaixou um dos ombros do vestido, tocando-a em uma carícia leve e quente sob o tecido.

— Beije-me, Hinata Marie — ele repetiu. Tremendo e mal conseguindo respirar, ela ficou na ponta dos pés e tocou os lábios dele com os seus. O calor a envolveu quando Uzumaki correspondeu ao suave toque, envolvendo-a nos braços. Ninguém nunca a beijara assim.

— Como acha que eu conseguiria vigiá-la o tempo todo? — A voz raivosa de Hiroshi soou bem perto.

Hinata engoliu em seco, e Uzumaki a pressionou contra a parede.

— Não espero isso — disse a mãe dela. — Mas você a acompanhou até aqui, Hiroshi. Acho que ela perdeu o juízo, apresentando-me a Uzumaki.

— Começo a acreditar que ela queira arruinar a minha carreira política para que eu volte para a índia. Ah, lá está lady Tenten. Pergunte a ela se viu Hina. Eu vou procurar Uzumaki.

As vozes foram sumindo, mas Hinata não conseguiu relaxar, não com o corpo forte e másculo de Uzumaki contra o seu. Deveria se sentir grata por ele não tê-la simplesmente lançado aos lobos. Porém, se permanecessem ali mais tempo, a sorte dela poderia acabar.

— Uzumaki...

Ele a beijou de novo. Dessa vez, o beijo foi intenso, rude e ardente. Hinata não conseguiu deixar de gemer, e suas mãos buscaram o peito dele. Antes que pudesse tocá-lo, Uzumaki se afastou.

— Você é tão doce — ele sussurrou. — É melhor ficar longe de mim. Boa noite, Hinata Marie.

Apoiando-se na parede e tentando recuperar a respiração e a razão, Hinata pensou que a mãe devia estar certa. Ela enlouquecera. Até Uzumaki a alertara para se manter longe dele, e tudo em que ela podia pensar era que o veria de novo no dia seguinte.

Respirou fundo e ajeitou a manga do vestido antes de retornar ao salão. Passando por um espelho, parou para ajeitar o cabelo e verificar sua aparência.

Estremeceu ao ver o reflexo do colar. O pingente ostentava um diamante emoldurado por um coração em prata. Tocou a jóia. O marquês Uzumaki tomara seu colar com um pingente de pérola à tarde e o substituíra por um diamante à noite. Uma jóia linda.

— Oh, Deus — ela murmurou.

Se ele não fazia nada de graça, o que esperava em troca disso? Depois do último beijo, parte dela desejava descobrir.