NARUTO NÃO ME PERTENCE- E SIM A MASASHI KISHIMOTO

ESTA HISTÓRIA TAMBÉM NÃO- É UMA ADAPTAÇÃO DO LIVRO DE SUZANNE ENOCH!

Uzumaki andava de um lado para o outro no vestíbulo. Deveria ter dado a Hinata apenas cinco minutos para pegar os livros e sair. Porém, aparentemente, as lágrimas de Hinata Hyuuga eram o seu calcanhar de aquiles, e agora tudo o que podia fazer era consultar seu relógio a cada dois minutos e praguejar.

— Ela acha que sou desprezível — resmungou. — Minha presença a faz se sentir mal.

Ninguém dissera algo assim para ele e se safara depois.

Consultou o relógio mais uma vez. Dois minutos haviam se passado. Se Hinata não aparecesse logo, iria buscá-la. Guardou o relógio. Para que esperar?

— Uzumaki?

Ele se virou. Hinata estava parada junto à escada, com o rosto vermelho e o peito arfando.

— Pegue seus livros. O tempo já se esgotou.- Ela não se moveu.

— Eu estive pensando...

Uzumaki se encheu de suspeitas. Hinata não parecia incapacitada pelas lágrimas, como ele esperara; tampouco estava implorando que a deixasse continuar ensinando os órfãos, nem que interrompesse os planos de destruição daquele maldito lugar.

— No quê? — ele perguntou.

— Em como... me disse que... nunca fazia nada de graça.

Hinata estava nervosa, e isso não era tudo. Ele podia praticamente sentir a tensão no ar.

— E?

Ela tossiu.

— Estava pensando em qual seria o preço que cobraria para manter o orfanato aberto.

Uzumaki não sobrevivera tanto tempo sendo um tolo.

O anjo tinha algum plano. Por outro lado, se isso envolvesse uma maior intimidade entre ambos, ele estava disposto a concordar. Ainda assim...

— Pensei que eu a fizesse se sentir mal.

— Sim, bem, eu estava com raiva.

— E não está mais? — Ele nem tentou disfarçar o ceticismo na voz.

— Não entendo como pode fechar o orfanato. Sua mãe...

— Pelo amor de Deus! — ele a interrompeu. — Se estamos falando em sedução, não mencione minha mãe.

— Desculpe — disse ela, nervosa. —- Tudo isso é novo para mim.

— Isso o quê?

— Vai... me obrigar a dizer?

Ele caminhou até Hinata, não mais com pressa para vê-la longe dali.

— Sim — respondeu e a beijou.

Hinata pretendia fazê-lo prometer coisas, sem dúvida e se ela fizesse tudo da maneira certa, concordaria com o que dissesse. Claro que também escutaria com muita atenção a maneira como ela formularia os pedidos. A longa experiência o ensinara que existia mais de uma forma de levar uma mulher para a cama, e mais de um modo de se livrar de um orfanato.

Levantou a cabeça, mas Hinata puxou seu rosto para baixo para um novo beijo. Imediatamente, ele a pressionou contra seu corpo excitado.

— Você ainda tem de dizer, Hinata Marie — ele murmurou. As malditas salas de aula eram o lugar mais próximo e privado no qual ele conseguia pensar. As portas não tinham trancas, mas os garotos achavam que ela tinha ido embora. — Vamos, diga.

— Eu... — ela começou, ofegante, o olhar preso aos seus lábios. — Quero saber se deixaria de lado o plano de derrubar o orfanato se... se eu...

— Se me receber em seu corpo — ele sussurrou, soltando os cabelos dela. Ondas de fios sedosos com aroma de limão caíram sobre suas mãos.

— Sim.

Uzumaki sacudiu a cabeça, tirando mais um grampo.

— Precisa dizer.

Ruborizada, com os lábios inchados por causa de seus beijos e os seios pressionados contra seu peito, o anjo murmurou:

— Se eu receber você em meu corpo.

— Temos um acordo, Hinata.

— Não aqui. — Hinata gemeu quando sentiu os dedos de Uzumaki nos seios. — As crianças...

— O que acha de suas salas de aula? — Ele capturou-lhe os lábios outra vez, ciente de que normalmente não reagia assim. Claro, vinha sofrendo por quase três semanas, mas esse desejo era novo. Era um desejo por Hinata, e não por qualquer mulher.

— Não. Oh, Uzumaki! Algo mais privado. Por favor?

— A sala de reuniões do conselho.

— O porão — ela sugeriu.

— Certo — concordou Uzumaki, pegando-a pela mão e puxando-a para a escada. Um lugar cheio de poeira lhe parecia perfeito naquele momento.

— Mas meu cabelo está solto...

— Iremos pelos fundos, ninguém nos verá.

Por ter sido um alojamento de soldados, havia duas escadas que levavam ao porão: as que saíam da cozinha, e as do velho escritório. Uzumaki agarrou um lampião e abriu a porta do escritório.

— Tem certeza de que aqui não serve? — perguntou, beijando-a. Felizmente ela concordara em ceder, porque ele não tinha certeza de quanto tempo mais seria capaz de manter as mãos afastadas daquela mulher sem ficar louco.

— As janelas — ela disse.

— Vou fazer você gritar de prazer — murmurou ele contra os lábios de Hinata.

Caso se detivessem ali por mais tempo, ele, que sempre se orgulhara de seu autocontrole, não seria mais capaz de andar. Pegou-a pela mão de novo e a conduziu pela escada.

Assim que chegaram ao porão, Uzumaki a pressionou contra a parede de pedra, tomando-lhe os lábios em um beijo ardente. Por fim, estavam sozinhos, sem ninguém para interrompê-los pelo menos por uma hora, até que as crianças começassem a fazer os preparativos para o almoço. — Hinata... — Ele gemeu, beijando-a no pescoço.

— Sinto muito, Uzumaki — ela murmurou.

— Sente pelo quê?

- É para o seu próprio bem.

— O quê...

Passos soaram atrás dele, e Uzumaki sentiu algo atingi-lo na nuca. Conseguiu praguejar antes de cair desmaiado.

Hinata viu o marquês Uzumaki cair aos seus pés.

Não conseguia se mover, nem falar, nem pensar em nada.

Não podiam mudar os planos agora. No entanto, o calor que Uzumaki provocara em seu corpo tinha despertado algo em seu íntimo, e ela quase desejou que estivessem sozinhos no porão e que ele cumprisse a promessa de fazê-la gritar de prazer.

Randall abaixou o pedaço de pau.

— Venho esperando por isso há um ano.

Livrando-se de seu nervosismo, excitação e estupor, Hinata caiu de joelhos.

— Ele ainda está respirando — constatou, aliviada.

— Pena que ainda respire — Randall disse. — Vamos prendê-lo na masmorra antes que Nelly venha aqui embaixo pegar maçãs.

— Nelly? — Hinata repetiu, afastando os cabelos da testa de Uzumaki enquanto meia dúzia de crianças se materializava a sua volta. Um fio de sangue escorria atrás de sua orelha. Ele parecia tão... inocente, com o rosto relaxado e sem a expressão cínica no rosto. Inocente e bonito. O homem mais bonito que ela já vira.

— Uma das ajudantes da cozinheira. Vamos, garotos. Levantem-no para não deixarmos marcas no chão.

Randall parecia saber bastante sobre sequestros. Hinata ficou em pé, enquanto seis garotos mais velhos agarravam pernas, braços e a cintura de Uzumaki, erguendo-o do chão.

— Cuidado com ele — Hinata recomendou, erguendo a vela para guiá-los até a porta estreita e meio escondida.

— A senhorita diz isso agora — Matthew grunhiu. — Imagine o que ele estaria fazendo com a gente se estivesse acordado!

Hinata estremeceu. Uzumaki ficaria furioso. De acordo com boatos, ele matara pessoas em duelos em nome de sua honra; o que estavam fazendo com certeza era mais grave do que isso.

Eles tinham colocado um colchão decente e cobertas limpas em um canto do aposento. Tinham também retirado as aranhas e teias e arranjado dois lampiões.

Os meninos jogaram Uzumaki sobre o colchão com menos cuidado do que ela gostaria.

O marquês praguejou por entre os dentes.

— Credo! Vamos colocar as correntes! — Adam Hensol exclamou, dando, um passo para trás.

— Esperem! Não o machuquem.

— Tarde demais, srta. Hina. Ele vai mandar todos nós para a cadeia ou nos enviar para a Austrália.

— Ou vai nos enforcar — Randall acrescentou, pronto para colocar as algemas.

— Pelo menos vocês têm a chave disso? — perguntou ela.

— Temos. É a da porta.

— Por favor, me deem as duas.- Matthew obedientemente as entregou a Hinata, que as colocou no bolso, sentando-se no banquinho. Deus! O que ela estava fazendo? Raptar um marquês era mais que insano. Por outro lado, sem o seu envolvimento, Randall e os outros meninos poderiam ter escolhido uma solução mais permanente e mortal para o problema com Uzumaki. Estando em posse das chaves, ela ao menos o protegeria um pouco.

— Ele está acordando — Adam anunciou.

— Muito bem, todos para fora. Não quero que ele saiba quem o atacou. E fechem as portas, mas deixem uma vela na escada. Não façam nem digam nada fora do habitual.

Randall riu.

— Vamos acabar tornando a senhorita uma criminosa.- Ela parecia não precisar de ajuda alguma nisso.

— Vão, depressa!

Segundos depois que eles tinham fechado a porta, Uzumaki despertou. Com um grunhido baixo, começou a se mexer.

— Você está bem? — perguntou Hinata. A voz tremia quase tanto quanto suas mãos.

— Que diabos aconteceu? — Ele colocou a mão na testa e, ao retirá-la, viu-a cheia de sangue.

— É uma longa história. Precisa de assistência médica? — Eles não poderiam chamar um médico, é claro, a não ser que o ferimento fosse grave demais. Se pressionada, ela provavelmente conseguiria costurar o corte.

— Não. Preciso de uma pistola. Quem me atacou? — Devagar, ele se ergueu. Olhou ao redor antes de se voltar para ela.

— Não posso lhe dizer isso. Uzumaki...

- Onde estamos? Você está machucada?

— Eu estou bem. Preciso...

Apoiando uma das mãos na parede, Uzumaki se levantou.

— Não se preocupe, Hinata. Vou tirar nós dois daqui.- Oh, Deus! Agora ele queria ser um cavalheiro.

— Uzumaki, você não entendeu. Eu não sou uma prisioneira. Você é o prisioneiro.

Ela o observou vagarosamente absorver o que dissera. Então, ele tentou agarrá-la, mas a corrente tirou seu equilíbrio, e ele caiu de joelhos.

— Pare com isso! Vai acabar se machucando! — Hinata se afastou rapidamente. O vestido estava arruinado, mas se Uzumaki conseguisse colocar as mãos nela, suas roupas seriam a menor de suas preocupações.

As chaves caíram de seu bolso com um ruído. Hinata notou que Uzumaki tentava pegá-las, mas a corrente era curta demais.

— Dê-me essas malditas chaves!

Hinata compreendeu que aquele era o Uzumaki que todos temiam, o homem sem civilidade. E ela conseguira despertar nele o dragão.

— Acalme-se — ela ordenou, afastando-se ainda mais, apesar de ele não ter como alcançá-la.

Os olhos de Uzumaki brilhavam com fúria.

— Acalmar-me? Estou acorrentado a uma parede, Deus sabe onde, e...

— Estamos no porão do orfanato — ela o interrompeu. — À velha masmorra, suponho. — Ela colocou as chaves no bolso.

— Por que fui acorrentado a uma parede no porão deste maldito orfanato, Hinata? — ele perguntou, em um grunhido baixo e perigoso. — E quem me atingiu?

Ele obviamente não estava sendo capaz de raciocinar direito naquele momento.

— Acho que deve se acalmar um pouco, Uzumaki — ela sugeriu, desejando que a voz parasse de tremer. — Vou buscar água e um pano para fazermos uma atadura em sua cabeça.

Ele tentou ir até onde a corrente permitia.

— Não vai me deixar aqui! Diabos, Hinata, isso é ridículo! Dê-me aquelas chaves. Agora!

— Não posso fazer isso. E não vou deixá-lo. Voltarei em poucos minutos.

Ele a encarou de forma assustadora.

— Se não me der as chaves agora, é melhor esperar que eu nunca saia daqui. Porque a primeira pessoa de quem irei atrás será você.

Hinata engoliu em seco.

— Se quiser sair daqui, é melhor não dizer tais coisas. — Ela saiu e fechou a porta.

X

Uzumaki ficou parado vendo Hinata fechar a porta. Então, ouviu o som de passos subindo a escada. Uma segunda porta rangeu ao abrir e depois foi fechada, deixando-o no mais profundo silêncio.

Ele se levantou, tentando ouvir algum ruído. Nada. A poeira cobria suas roupas. Havia pó até dentro de sua boca. Cuspiu no chão, voltou para o colchão e se sentou.

Apesar de Hinata não querer envolver os órfãos, sabia que eles tinham participado. Tinham colocado uma corrente em sua perna, acima do tornozelo. Apertado e enferrujado, o grilhão estava destruindo o couro de suas botas caríssimas.

Experimentou puxar a corrente da parede, mas ela não cedeu. Examinou elo a elo. Tudo perfeito e sólido, como se tivesse sido instalado na semana anterior, e não um século atrás.

Tentou se ajeitar da melhor maneira possível no colchão, cruzando as pernas. Começou a verificar o que tinha nos bolsos. Algum dinheiro, um lenço, o relógio e um botão, que talvez fosse de um vestido de Fátima.

Passou os dedos na testa ferida. Fora um completo idiota! Por que acreditara que Hinata queria mesmo se deitar com ele? Porque quisera acreditar, era a resposta. Ele a subestimara.

— Maldição — grunhiu. Sacudiu com raiva a corrente, conseguindo com isso apenas um corte no dedo.

Qualquer que fosse a lição que Hinata pretendia ensinar-lhe, seria perda de tempo. Nenhuma garota o superaria. Precisava descobrir um modo de sair dali. E a vingança, no que se referia a Hinata, seria doce e levaria muito, muito tempo.

Se não fosse pelo relógio de bolso, ele acharia que mais de trinta e sete minutos tinham se passado antes que a porta do topo da escada de oito degraus rangesse ao ser aberta de novo. Levantou-se e se encostou à parede. A chave girou na porta. Talvez Hinata se esquecesse de qual era o tamanho da corrente e se colocasse em uma posição favorável a ele.

— Uzumaki? — ela chamou em voz baixa.

Ele não respondeu, avaliando a distância entre o fim de seu alcance e a porta. Quem tinha construído a masmorra quisera se assegurar de que ninguém sairia dali, a não ser que fosse devidamente libertado.

— Estou feliz que tenha se acalmado um pouco — ela se aventurou, com o rosto ruborizado e a expressão nervosa. Tentara tirar a poeira de seu vestido e arrumar o cabelo, sem muito sucesso. — Vai me escutar agora?

— Vou adorar ouvir como levar uma paulada na cabeça e ser raptado foi para o meu próprio bem.

— Lady Gladstone me disse um dia que você era tão mau que não precisava ser bom.

Fátima era mais inteligente do que ele julgara.

— E você não concorda, é isso?

— Não concordo. — Ela saiu brevemente e voltou com uma bandeja. — Água e um pano, como prometi.

Uzumaki continuou observando, curioso para saber como ela pretendia entregar-lhe aquilo sem invadir sua área de alcance. Preparou-se para se mover caso ela cometesse um erro.

Hinata colocou a bandeja no chão. Voltou a sair e retornou com uma vassoura, usando-a para empurrar a bandeja até ele.

— Por acaso, já fez isso antes? — ele perguntou.

— Claro que não.

— Quando eu disse que pretendia ser o seu primeiro homem, não era isso o que eu tinha em mente.

Hinata ruborizou. Olhou para fora, sussurrou algo para alguém e então fechou a porta.

— Entendo que esteja bravo — ela disse, sentando-se no banquinho. — Você está ferido, e alguém lhe tirou a liberdade, tudo contra a sua vontade.

— Não alguém — ele a corrigiu. — Você.

— Bem, alguém tinha de fazer isso.- Uzumaki franziu a testa.

— Prossiga com esse seu discurso, Hinata.

— Muito bem. Eu tirei a sua liberdade antes que você pudesse tirar algo de mim.

— A sua virgindade? — ele indagou com cinismo. — Você a ofereceu a mim.

— Não fiz isso. Foi apenas um artifício. Você estava tentando me afastar das crianças e acabar com a minha chance de fazer algo útil na vida, de fazer alguma diferença. Você é igualzinho aos outros homens em minha vida.

— Não sou.

— É me manda conversar com velhos horríveis que me acham charmosa. Ele não se importa que eu seja obrigada a mentir para eles, fazendo-os pensar que os acho muito interessantes, ou então me obriga a ir a estúpidos chás chamados de políticos, e isso me deixa nervosa. E você... você é pior. Deixou-me vir ao orfanato porque imaginou que logo estaria erguendo as minhas saias. É bonito, excitante e... muito atraente, mas tenho uma mente própria, sabia? Não me conhece, e tampouco conhece essas crianças que dependem de você para viver. Acha isso tudo apenas uma inconveniência.

O anjo certamente tinha uma cabeça pensante. Ele nunca imaginara, mas naquele momento não estava muito feliz com isso.

— Terminou?

— Ainda não. Agora, você tem todo o tempo do mundo. E alguém vai julgar se pode ou não voltar à sociedade. — Hinata se levantou. — E pense nisso, lorde Uzumaki. Se jamais reaparecer, alguém sentirá sua falta?- Um arrepio percorreu a espinha de Uzumaki.

— Hinata, pense no que está fazendo — ele disse, começando a perceber em que buraco se enfiara. — Se não me libertar agora, acha que será capaz de fazer isso algum dia?

Ela parou, com a mão na maçaneta.

—- Espero que sim. Você é muito inteligente. Acho que pode vir a ser um bom homem. Já é tempo de aprender alguma coisa.

Hinata fechou e trancou a porta, e então se encostou a ela para não cair. Jamais falara assim em toda a sua vida, e se sentia bem por finalmente dizer o que pensava.

Por outro lado, a situação a aterrorizava; nunca poderia permitir que o marquês fosse ferido, nem que punisse as crianças.

O encontro transcorrera melhor do que ela tinha esperado, considerando que não pensara no que falaria antes de ver-se diante dele. Eventualmente Uzumaki poderia até entender e apreciar suas tentativas de transformá-lo em um verdadeiro cavalheiro. Porém, tinha suas dúvidas. Um rapto não fazia parte das lições em que ela, Sakura e Tenten tinham pensado.

No andar de cima, ela deu outra aula de dança para as crianças antes de instruir os mais velhos, no momento em que todos eram chamados para o almoço.

— Vamos ter de alimentar o marquês? — Molly perguntou.

— Claro que sim. E sejam delicados com ele. O marquês não gosta de estar na masmorra, e nós devemos mostrar a ele como se importar com as pessoas.

— E se isso não der certo? — indagou Randall.

— Vai dar. — Hinata procurou demonstrar uma confiança que não sentia. O plano não daria certo a não ser que Uzumaki interagisse com os órfãos. — Ele provavelmente vai estar bravo no começo. Nós temos de lhe mostrar melhores modos. Apenas se lembrem de como é importante o que estamos fazendo. Ninguém pode ir vê-lo sozinho. E eu ficarei com a chave da corrente. Se ele souber que vocês não a têm, não haverá razão para tentar tirá-la com suas artimanhas.

— Parece que há um modo mais fácil de lidar com isso. —- Randall tirou uma pequena faca do bolso.

— Não. Ter lorde Uzumaki como um aliado é muito melhor do que tê-lo... morto. Prometam-me que nenhum de vocês irá machucá-lo.

— Quer uma promessa? De nós?

— Sim, quero. E espero que mantenham sua palavra.- Randall enfiou a faca na coluna de madeira da cama.

— Está bem. Prometemos.

O restante das crianças também prometeu, e por fim Hinata conseguiu respirar de novo. Eles tinham lições para aprender, assim como Uzumaki tinha as dele. E, por alguma razão, parecia que ela fora escolhida para essa tarefa. — Verei vocês amanhã bem cedo. Boa sorte.

X

Quando Hinata chegou à casa dos Haruno, estava apenas vinte minutos atrasada. Porém, não conseguia se livrar da sensação de que mais tempo se passara e de que alguém descobriria, somente olhando para ela, que raptara Uzumaki e o estava mantendo prisioneiro no porão do orfanato.

— Hina, estávamos começando a nos preocupar com a sua demora! — Sakura exclamou.

Ela forçou uma risada e foi até o sofá dar um beijo no rosto de Tenten. — Não estou tão atrasada.

— Não, mas normalmente é bastante pontual.

— Eu estava brincando com as crianças.

— E o seu vestido?- Hinata baixou o olhar. Tentara limpar o pó, que ainda permanecia em parte da saia e caía agora sobre o tapete.

— Oh, Deus! Suponho que deva brincar com menos entusiasmo da próxima vez.

— E seu cabelo? — Tenten tocou nos fíos que estavam fora do coque.

Droga.

— Algumas das meninas e eu brincamos de arrumar nossos cabelos. Está assim tão desarrumado?

Sakura riu.

— Mandarei Helena penteá-los antes de você sair.- Elas conversaram sobre os acontecimentos da semana, como sempre faziam. Aos poucos, Hinata começou a relaxar, apesar de não conseguir afastar a visão de Uzumaki acorrentado e sozinho em uma masmorra enquanto ela comia bolo, tomava chá e ria com as amigas.

— Como vai sua outra aula? — Sakura perguntou.

— Que outra aula?

— Você sabe, Uzumaki. Ou decidiu levar em conta o nosso conselho e escolher um aluno mais razoável?

— Não vi o marquês hoje — Hinata mentiu. — E, devo confessar, ele é um desafio maior do que eu esperava.

— Então vai esquecer o marquês? — Tenten pegou sua mão. — Não é que duvidemos de você, Hina. É que ele é tão...

— Horrível — Sakura completou. — E perigoso.

— Pensei que a idéia era escolhermos alguém horrível — Hinata observou. — Você nos contou como Neji era o pior homem de toda a Inglaterra, Tenten. Pensei que tivesse sido essa a razão por tê-lo escolhido.

— Eu sei. — Ela sorriu meio sem jeito. — Eu tinha razões pessoais para querer lhe ensinar uma lição. Vocês sabem disso. Mas você não tem essa ligação com Uzumaki.

Ela tinha agora.

— Em todo caso — disse Hinata —, estou determinada a ensiná-lo a ser um cavalheiro. Pensem quantas damas virtuosas eu estarei salvando.

— Apenas se proteja — aconselhou Sakura. — Seja cuidadosa. Prometa-nos isso.

— Prometo — Hinata disse, começando a concluir que Uzumaki tinha mais influência sobre ela do que o contrário. Ela nunca fora capaz de mentir tão bem. — Terei cuidado.

— Muito bem. E se precisa de uma distração hoje, dançarei com seu irmão.

— Hoje?

— O baile dos Sweeney, querida. Até Uzumaki foi convidado, pelo que ouvi dizer.

Hinata sentiu um frio no estômago.

Ela pretendera passar no orfanato antes do baile para verificar se Uzumaki estava bem, mas quando voltou para casa e se trocou, Hiroshi estava caminhando de um lado para o outro no vestíbulo.

— Céus! Você está querendo que sejamos os primeiros chegar? — ela indagou.

— Isso mesmo — retrucou ele, pegando o braço da mãe e a ajudando a descer a escada. — Faz uma semana que estou tentando conversar com lorde Sweeney. Ele passou um bom tempo na índia, também. Não vejo uma chance melhor para recrutá-lo. Ele até pode me conseguir uma audiência com Wellington.

— E o que mamãe e eu devemos fazer enquanto você estiver recrutando?

Hiroshi a olhou como se ela fosse uma boneca de porcelana que subitamente ganhara a capacidade de falar.

— Vocês vão conversar com lady Sweeney, é claro.- Por um momento, Hinata pensou em contar que tinha um marques arrogante e rude trancado em uma masmorra, e que havia uma corrente sobrando para outro ocupante. Em vez disso, sorriu.

- Farei o melhor possível.

X

Uzumaki não conseguia enxergar os ponteiros do relógio. Achava que eram as primeiras horas da manhã, apesar de basear sua conclusão no ronco de fome de seu estômago e na necessidade de fazer a barba.

Tampouco sabia por quanto tempo estivera acordado, mas parecia que durante horas. O pouco sono que conseguira ter fora interrompido por sonhos agitados, nos quais ele se vingava no corpo de Hinata Marie Hyuuga diversas vezes, até que acordara excitado e dolorido.

—- Idiota — murmurou. Ela planejara seu rapto, e ele ainda continuava desejando-a.

Por algum tempo, pensou no que ela dissera, sobre as consequências caso nunca mais reaparecesse na sociedade. Os criados estavam acostumados ao seu sumiço inexplicado por vários dias, e ele acabara de aparecer no Parlamento. Portanto, ninguém sentiria sua ausência durante semanas. Por causa de Hinata, ele se encontrava entre amantes, e assim nenhuma mulher lamentaria sua falta em uma cama fria.

Quanto aos amigos, Uzumaki realmente não tinha mais nenhum. Enquanto os que ele tivera haviam tomado outro rumo e se casado ou morrido por causa dos maus hábitos, ele se afundara cada vez mais na escuridão de Londres. E nem mesmo isso era tão escuro quanto aquela prisão se tornara quando a última vela tinha se apagado. Era isso. Ninguém sentiria a sua fala.

Estremeceu. Não tinha medo de morrer; aliás, surpreendia-se por ter vivido tanto tempo. Mas a ideia de ser completamente esquecido o aborrecia. Ninguém choraria sua morte, ninguém se perguntaria o que tinha acontecido.

Ao ouvir a porta ranger, ele se sentou no colchão. Um momento depois, viu uma luz surgir no vão da entrada. Uma chave girou na fechadura e a porta foi aberta. Um instante se passou antes que ele conseguisse visualizar Hinata atrás da luz.

— Oh, lamento sobre as velas! — ela exclamou. — Achei...

— Estas acomodações são bem ruins — ele a interrompeu. — Não suponho que tenha trazido café, certo? Ou o jornal?

Uzumaki ouviu a voz de um menino do outro lado da porta, praguejando. Pelo menos ele tinha impressionado alguém.

— Trouxe café — anunciou Hinata, colocando a vela em um canto. — E pão com manteiga e uma laranja.

— Pelo menos, não poupou despesas para assegurar meu conforto.

Ela foi até a porta e pegou a bandeja. Colocou-a no chão a empurrou com a vassoura. Uzumaki estava com fome de mais para reclamar de alguma coisa, e puxou a bandeja para perto dele.

— Não comeu nada ontem à noite? — Hinata perguntou, sentando-se no banquinho.

— Alguém abriu a porta e jogou uma batata crua em minha cabeça, se é isso o que quer saber. Decidi guardá-la para mais tarde.

— Oh, lamento muito — ela disse, observando-o comer.

— Hinata, se lamenta mesmo, deixe-me ir. Se não vai fazer isso, então pelo amor de Deus pare de se desculpar.

— Sim, tem razão. Acho que estou apenas tentando dar um bom exemplo.

— Para mim? — Uzumaki parou de falar enquanto mastigava o pão. — Você tem um método estranho de ensinar boas maneiras.

— Pelo menos, eu conto com a sua atenção.

— Já contava com a minha atenção antes.

— Por causa da minha aparência. Mas agora você tem de me ouvir. Então, sobre o que vamos conversar?

— Sobre a sua sentença de prisão? — ele sugeriu. Hinata empalideceu.

— Tenho certeza de que chegaremos a algum tipo de acordo — murmurou após um longo momento. — Afinal, eu tenho todo o tempo do mundo para convencê-lo.

— E então, como você passou a noite? — perguntou ele.

— Fui ao baile dos Sweeney. Meu irmão atribui a sua ausência ao aviso dele para que se mantivesse longe de mim.

— Eu devia ter ouvido o conselho.

Hinata ficou em silêncio. Quando Uzumaki ergueu os olhos e a flagrou observando-o, ela ruborizou e endireitou a saia.

— Quero propor um acordo. Eu lhe trarei uma cadeira, se você ler para algumas das crianças.

Ele poderia recusar, é claro, mas suas costas já estavam doendo por ter passado tanto tempo sentado no chão duro.

— Uma cadeira confortável — retrucou. — Estofada.

— Em troca de uma cadeira confortável e estofada, você também ensinará as vogais a elas.

— Escrevendo na terra?

— Eu providenciarei uma lousa. E uma cartilha.- Tendo terminado de comer, Uzumaki se levantou e empurrou a bandeja com o pé.

— E outra vela.

— De acordo. — Ela se ergueu do banquinho.

— É uma pena que não goste de mim — lamentou, consciente de que algumas crianças estavam esperando por Hinata do lado de fora —, porque eu apreciaria ter companhia agora.

Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Hinata.

— Verei o que posso fazer a esse respeito. — Ela se virou e foi até a porta. — Voltarei aqui antes de ir embora. Comporte-se com os pequeninos.

— Não é com eles que você deveria se preocupar. — Ele a fitou intensamente.

Mesmo tendo dito que não gostava dele, Uzumaki sabia que a atraía. E ela não o deixara novamente sozinho no escuro, algo pelo que estava grato. Ainda assim, precisava apenas que ela cometesse um erro. E se Hinata achava que ele não se aproveitaria disso, estava redondamente enganada.

— Agora, quem é você?- A menininha revirou os olhos.

— Rose. E este é Peter, e aquele é Thomas. E temos de dizer ao senhor que não temos nenhuma chave.

Uzumaki contraiu os lábios. Hinata lhe enviara os bebês. Evidentemente decidira que aqueles eram os que tinham a menor probabilidade de ser machucados por ele.

— E não sabem nada sobre a minha cadeira, também.

— A srta. Hina disse que o senhor tinha primeiro que mostrar boa fé. E então, vai me ensinar a ler?

O mais velho dos dois meninos, Peter, atirou um livro , de histórias em sua direção e voltou correndo para um canto ao lado da porta.

Uzumaki pegou o livro e o abriu.

— A srta. Hina disse que eu deveria ler para vocês?

— Para ganhar uma cadeira — Thomas respondeu.

— E para gostar de nós — acrescentou Peter.

— Ah, para gostar de vocês? — Fazia sentido. Hinata estava tentando convencê-lo a não destruir o orfanato fazendo com que ele conhecesse os órfãos. Queria suavizar seu coração; uma pena, já que ele não possuía um.

— Vamos começar?

Uzumaki sentiu-se estranho ali junto das crianças, mas tinha de admitir que era melhor do que ficar sozinho na masmorra.

— Estão gostando? — A voz de Hinata soou da porta. — Lorde Uzumaki é um bom contador de histórias?- Rose meneou a cabeça, acenando que sim.

— Ele faz com que os pedaços assustadores fiquem ainda mais assustadores.

— Isso não me surpreende. — Hinata entrou na masmorra. — Está na hora do almoço. Lembrem-se de que devem descer pela escada dos fundos e rodear o dormitório.

— Sim. E não devemos dizer nada sobre ele.

— Isso mesmo.

As crianças saíram correndo.

— Adorável — Uzumaki observou. — Ensinando-os a ser criminosos na infância. Vai poupar o tempo deles mais tarde.

— Estou apenas pedindo que guardem um segredo em benefício de todas as crianças daqui.

Uzumaki fechou o livro e o colocou de lado.

— Está apenas retardando o inevitável. Seria capaz de me matar, Hinata Marie?

— Não tenho intenção alguma de machucá-lo.

— Então este orfanato dará lugar a um dos parques do regente.

— Não se você mudar de ideia.

— Não vou mudar. Quem serão os meus próximos alunos?

— Apenas um. Eu. — Hinata olhou na direção da porta. — Mas primeiro eu lhe prometi uma cadeira.

Ela se moveu para o lado enquanto Randall e Matthew entravam com uma pesada cadeira estofada, obviamente tirada da sala de reuniões do conselho. Atentos aos seus movimentos, eles colocaram a cadeira ao seu alcance.

— Aí está bom. Empurrem um pouquinho mais, e ele poderá puxá-la.

— Sim, capitão — Matthew disse, rindo enquanto empurrava a cadeira.

Hinata desejou que os meninos não estivessem se divertindo com a situação, especialmente diante de Uzumaki. A expressão do marquês não se alterou, porém, e ele manteve o olhar nos dois rapazes até que eles deixassem a masmorra, fechando a porta.

— Um dos membros do conselho me alertou que eu tornaria este lugar um covil de bandidos. Parece que você fez o trabalho primeiro.

— A cadeira é propriedade do orfanato. Apenas a mudamos de lugar.

De pé, Uzumaki suspirou.

— Minhas costas doem demais para eu perder tempo discutindo semântica. — Sem aparente esforço, ele endireitou a cadeira e a colocou em um canto ao lado do colchão.

Uzumaki parecia cansado, desalinhado e precisando se barbear. Suas belas roupas estavam cobertas de sujeira, e ainda havia manchas em seu rosto. Era estranho, mas ele parecia ainda mais atraente do que antes. O verniz sumira, mas o homem sedutor que havia embaixo permanecia.

— Tentando tramar a próxima tortura? — ele perguntou, afundando na cadeira com um suspiro de alívio.

— Você precisa se barbear — disse ela, sentindo o rosto quente.

— Bem, tudo o que eu tenho para me barbear é meu relógio de bolso, e ele não serve.

— Vou pensar em algo. — Hinata sentou-se no pequeno banco. — Acho que está na hora de eu explicar minha posição aqui.

Ele fechou os olhos.

— Pensei que já tivesse feito isso. Estou aqui porque me coloquei entre você e sua única chance de fazer uma diferença no mundo.

— Rose vive aqui desde os dois anos, assim como Matthew. Molly, desde os três anos e meio. Este é o lar deles.

— Eles podem morar em outro orfanato. Um em que eu não seja o presidente do conselho. Você até pode ser voluntária lá, e salvar o mundo.

— Não é esse o ponto. Eles se tornaram irmãos, e você quer separá-los porque acha inconveniente estar aqui.

Os olhos azuis a fitaram.

— "Inconveniente" nem começa a descrever o que sinto, Hinata. Minha mãe e seus pequenos sem-teto. Era ridículo. Ela estava convencida de que eles lhe passariam uma doença horrível. O modo de mostrar coragem e convicção era inspecioná-los uma vez por mês. E quando contraiu sarampo, ela culpou os diabinhos, é claro. Mesmo assim, em seu testamento, eu tinha de cuidar do orfanato. Ela não teve tempo de mudar essa cláusula. — Uzumaki riu com amargura. — Os queridinhos a mataram, afinal, e agora ela os impingiu a mim.

O rancor de Uzumaki pelo orfanato era maior do que ela imaginava. Hinata o observou por um longo momento.

— Eles não são diabinhos nem queridinhos, Uzumaki. São apenas crianças, sem ninguém para cuidar deles.

Com dor no tornozelo, graças à pesada corrente, Uzumaki fechou os olhos de novo.

— Eles têm você, Hinata. Porém, você tem vergonha de contar para as pessoas que está aqui, não é?

— Não tenho vergonha. Isto não combina com as ideias de meu irmão quanto aos meus deveres. Por isso, tenho de manter segredo.

— Você já se perguntou alguma vez que bem fará às crianças ao ensiná-las a dançar e a ler? Assim que elas completarem dezoito anos, sairão daqui. As garotas terminarão em algum lugar ruim, esperando por alguém que dê a elas uma moeda em troca de levantar-lhes as saias. Não posso pensar em uma única utilidade para essa instrução que você quer lhes dar.

Hinata apertou as mãos, determinada a não deixar que ele percebesse como suas palavras a perturbavam.

— A dança e a leitura são apenas meios para um fim, Uzumaki. Estou aqui para oferecer um pouco de bondade, para mostrar que o mundo inteiro não é povoado por homens arrogantes, egoístas e sem coração como você.

— Bravas palavras enquanto eu estou aqui preso a uma parede, minha querida. Talvez pudesse mostrar alguma bondade e me trazer comida.

Ele comera muito pouco pela manhã e devia estar faminto.

— As crianças lhe trarão alguma coisa quando voltarem para a lição da tarde. — Ela se levantou. — Você tem afinal um coração?

— Se eu tiver um, você não vai me convencer disso aqui. — Ele se endireitou. — Se eu ensinar também as consoantes, você me mandaria lápis e papel?

— Claro.

Ela saiu de lá. Sabia que convencê-lo a manter o orfanato seria uma tarefa monumental sob quaisquer condições; tê-lo trancado em uma cela tornava a situação ainda mais difícil. Pelo menos, ela ainda tinha uma coisa do seu lado. Tempo. Tempo e paciência. E, esperava, uma grande dose de sorte.

Quando Hinata voltou à cela no final do dia, Uzumaki não estava cooperativo como antes. Não podia culpá-lo; se tivesse ficado trancada em uma masmorra no escuro a noite inteira, ela estaria à beira da histeria. Providenciou uma vela para que ele não passasse de novo pelo transtorno da noite anterior. Ainda assim, odiava ter de deixá-lo ali. Voltou para casa, repetindo durante o caminho todo que o culpado por aquilo era ele mesmo.

X

— Hina, você não escutou uma palavra do que eu disse! — Hiroshi colocou o cálice de vinho na mesa com tanta força que o líquido se espalhou pela toalha. Um criado imediatamente apareceu com um guardanapo e encheu outra vez o cálice.

— Eu já lhe disse que estou com dor de cabeça. — Ela mal tocara em seu jantar, e precisaria de sua força no próximo confronto com Uzumaki.

— Mesmo assim, eu apreciaria se fizesse o esforço de prestar atenção quando falo. Lorde Gladstone nos convidou para um jantar amanhã. Aceitei em seu nome.

— Você...

— Aparentemente, lady Gladstone mencionou-me ao marido, e ela acha você charmosa. Por favor, esteja pronta na hora. Plimpton tem assediado lorde Gladstone, e essa talvez seja minha última oportunidade.

— Não prefere que mamãe vá em meu lugar? Ela é muito melhor nesse tipo de conversa do que eu. E...

— Não, eu quero que você vá comigo. Você é quem lady Gladstone conhece. — Hiroshi recomeçou a comer. — Graças a Deus eu a mandei conversar com ela naquele dia. Você parece ter causado uma boa impressão, afinal. Obrigado.

— Há rumores de que lady Gladstone e aquele horroroso marquês Uzumaki sejam amantes — a mãe comentou.

— Não mencione aquele patife na casa de Gladstone. Ele provavelmente teria um ataque, o que não me ajudaria em nada — disse Hiroshi.

— Mas você não se importa que eu faça amizade com lady Gladstone?

Hiroshi a olhou com cara feia.

— Ela é a razão de termos sido convidados.

— Mesmo que haja rumores de que ela tenha um amante e traia o marido? Achei que estivesse fazendo uma campanha pela moralidade.

— As pessoas gostam de dizer que apoiam a moralidade. E não vou dizer nada diferente. Uzumaki tem estado atrás de você, também, se me lembro bem. Ou é você que anda atrás dele, apenas para me aborrecer?

— Nem uma coisa nem outra — respondeu friamente.

— Imagino por que as pessoas o toleram — disse a sra. Hyuuga.

— Provavelmente porque ele não finge ser o que não é — Hinata retrucou.

— Se todos pudéssemos ter esse luxo... — Hiroshi suspirou. — São só mais algumas semanas, Hina. Por favor, vá comigo.

— Está bem, Hiro.

Hinata se retirou pouco depois. Ficou na biblioteca até o irmão entrar no escritório e fechar a porta. Depois, seguiu discretamente até o quarto dele.

Na penteadeira, encontrou a lâmina de barbear, o creme e o pincel. Pegou tudo e envolveu em um lenço. Após escutar junto à porta por um momento, correu para próprio quarto. Colocou os itens sobre a cama e os observou.

Não poderia permitir que Uzumaki tivesse acesso à lâmina, o que significava que teria de barbeá-lo. A masmorra estava equipada com algemas, mas seria necessário um incentivo para convencê-lo a colocá-las nos pulsos.

E no que se referia a Uzumaki, um incentivo seria oferecer seu corpo ou apontar-lhe uma pistola. Um arrepio a percorreu ao imaginar o que ele poderia pedir em troca. Porém, ele se lembraria de seu artifício anterior e não cairia outra vez em uma armadilha.

Teria de arranjar uma pistola. Contudo, como o marquês sabia que ela jamais a usaria, um dos meninos precisaria apontá-la. Só de pensar em Randall ou Matthew com uma arma de fogo, ficava apavorada. Mas, claro, se Uzumaki acreditasse que ela dera a arma para os meninos, não precisaria fornecer a eles a munição.

Hinata sorriu. Pegaria uma das pistolas de Hiroshi, e Uzumaki seria barbeado pela manhã. Talvez ela pudesse até conseguir junto à cozinheira um bom pedaço do faisão servido no jantar para o café da manhã do marquês.

X

Uzumaki jogou outro papel amassado no balde. Já fizera esboços de Hinata, de si mesmo, de seus alunos. E lera tantas vezes o livro que Hinata lhe deixara que o tinha decorado, apesar de ser sobre etiqueta para damas. Se ela achara que o instruiria com aquilo, havia falhado, mas pelo menos ele rira um pouco.

Odiava ficar entediado. Já gastara muita energia em sua vida evitando isso. Como Hinata observara, no momento ele não tinha nada, exceto tempo. E isso acarretava outro problema, pois ele era obrigado a pensar.

Jogou outro papel amassado no balde. Mesmo com uma grande vela para seu uso pessoal, o silêncio e a solidão da noite pareciam nunca acabar. Concentrar-se nos seus desconfortos físicos era mais fácil do que ficar cogitando se os criados tinham feito alguma coisa além de apenas notar sua ausência por mais uma noite, e se alguém em Londres sentira sua falta.

Quanto aos desconfortos, eles estavam aumentando. Sua roupa estava suja, a pele parecia pegajosa, o tornozelo alternava momentos de dor com câimbra, e o rosto precisava urgentemente ser barbeado. Mas o pior de tudo é que ele se sentia solitário. Ele, o marquês Uzumaki, sentia-se solitário.

Passava a mão pelo rosto quando a porta se abriu. O aroma de limão invadiu o aposento e, antes que ela entrasse, Uzumaki soube que era Hinata.

— Bom dia — ela disse.

— Bom dia. Espero que tenha trazido minha ração de pão e água.

— Na verdade, consegui um sanduíche de faisão e chá quente.

— É mesmo? E com o que tenho de concordar em troca disso?

— Com nada.

Um dos meninos entrou carregando a bandeja e a empurrou até ele com o cabo da vassoura. Tentando não agir como um esfomeado, Uzumaki se levantou, pegou seu café da manhã e sentou-se na cadeira. Duas outras crianças substituíram as velas gastas por novas. Ao ouvir Hinata tossir, ele percebeu que estava comendo o sanduíche de maneira incivilizada.

— Meus cumprimentos à cozinheira — resmungou, tomando um gole de chá. Preferia que estivesse mais doce, mas não reclamaria.

— Obrigada — ela respondeu, sorrindo.

— Ah, foi você quem preparou o sanduíche e o chá?

— Sim.

— Obrigado — disse ele, arriscando um sorriso. Devia estar parecendo um louco fugido de um hospício, estava morrendo de fome, e ela não saíra correndo, apavorada. Hinata era bem mais corajosa do que tinha imaginado. Quando a viu caminhar até a porta, levantou-se tão bruscamente que quase derrubou a travessa. — Já vai embora?

— Não. Eu lhe trouxe outro presente. Dois, para ser exata.

— Um deles é, por acaso, uma chave? Ou talvez eles envolvam você se despindo?

Ela ruborizou intensamente.

— Você não se encontra em uma posição que lhe permita dizer tais coisas.

— Estou acorrentado, não castrado. A não ser que seja essa a sua surpresa.

Hinata riu e desapareceu atrás da porta por um momento, voltando com uma pequena mesa e Randall. Uzumaki manteve a atenção no rapaz. Não podia provar nada, mas tinha certeza de que fora ele quem o atingira na cabeça.

— Primeiro, preciso pedir sua cooperação.- Aquilo não parecia promissor. Uzumaki engoliu o último pedaço de sanduíche.

— Minha cooperação em quê?

— Preciso que se levante e coloque sua mão direita lá na parede.

Hinata parecia nervosa. Uzumaki apenas a fitou. — Agora, por favor.

Ele pensou em possíveis reações, mas acabou dispensando-as como inadequadas.

—Posso não estar em minha melhor forma, mas me permita assegurar-lhe, Hinata, que prefiro comer o meu próprio pé a permitir que você me algeme a essa parede. Ela empalideceu.

— Você não entendeu. É apenas por alguns minutos... enquanto eu faço a sua barba.

Bem. Aquilo era inesperado. — Posso me barbear sozinho.

— Não vou lhe dar uma lâmina, Uzumaki.

— E eu não vejo razão para estar barbeado.

— Estou tentando despertar suas melhores qualidades, creio que será mais fácil agir como um cavalheiro caso se pareça com um.

— Mas eu não sou um cavalheiro.

— Mesmo assim, por favor, coopere.- Randall tirou uma pistola do cinto.

— Faça o que a srta. Hina mandou, milorde.

— Hum... — Uzumaki colocou a bandeja de lado e se levantou. — Suponho que até o diabo poderia fingir ser um cavalheiro se alguém lhe apontasse uma pistola.

Hinata não pareceu surpresa ao ver a arma. Provavelmente ela dera a pistola ao garoto. Uzumaki imaginou se ela teria ideia de quantas leis estava infringindo no decorrer daquela pequena experiência.

— É apenas uma precaução, Uzumaki — ela disse com voz suave. — Por favor, faça o que estou lhe pedindo.

Ela respirou aliviada ao vê-lo dar um passo em direção à parede. Uzumaki pôs o pulso direito na algema e fechou-a com a outra mão. O olhar duro e frio que ele lhe lançou dizia que ela pagaria por aquilo. Hinata voltou-se para Randall, notando a facilidade com que o garoto segurava a arma. Felizmente não estava carregada.

Prendendo a respiração, entrou na área de alcance de Uzumaki. A mão esquerda dele ainda estava livre, e o marquês parecia tão bravo que ela não tinha certeza de que ele não a agarraria, mesmo sob a mira de uma pistola.

Hinata poderia esquecer tudo aquilo e deixar que a barba crescesse até os joelhos, mas seu argumento era sério. Queria vê-lo agir como um cavalheiro e, para tanto, ele precisava ter a aparência de um. Além do mais, mesmo que ela mudasse de ideia agora, ainda precisaria se aproximar para abrir a algema.

— Com medo de mim, Hinata?

— É apenas precaução — ela retrucou, vencendo a distância que os separava.

Sem o casaco, com as mangas da camisa arregaçadas e a gravata suja, ele de alguma forma parecia até mais másculo e viril do que antes. Hinata pensou que fazia três dias que não se tocavam. E da última vez que isso acontecera, ele a beijara com ardor enquanto começava a afastar seu vestido.

— Seus dedos estão tremendo — ele observou, abaixando a mão esquerda.

— Tome cuidado, marquês — avisou Randall.

—Não precisa tornar isto tão difícil — disse Hinata, parando diante dele e segurando-lhe a mão.

— Oh, preciso sim. — Uzumaki abaixara a voz, que não passava de um sussurro. — Sei o que você quer.

—E o que eu quero? — ela perguntou, agora mais ousada por se sentir segura. Uzumaki sorriu de leve e olhou para Randall,

— Mande o garoto sair. Não precisa mais dele agora.

Se ela tivesse bom-senso, não faria isso. Com Randall ali, porém, Uzumaki nunca conversaria com ela sobre qualquer coisa séria ou importante. Além disso, bem lá no fundo, ela queria uma desculpa para tocá-lo outra vez. Voltou-se para o rapaz.

— Randall, esconda a pistola no porão, onde nenhuma criança possa achá-la. Você tem agora uma lição de leitura com a sra. Aubry, não é?

— Sim. Não o liberte sem que eu esteja aqui.

— Claro que não. Você deve voltar em trinta minutos.

— Certo. — Randall saiu e fechou a porta.

— Tome cuidado com ele — Uzumaki avisou. — Se você não fizer o que ele quiser, não há nada que o impeça de trancar você também aqui dentro.

Hinata o encarou, surpresa.

— Está preocupado comigo?

— Acho que você se encontra em uma situação mais perigosa do que imagina e que qualquer erro seu pode significar a minha morte.

— Você ameaçou tirar a casa dele. Como supôs que ele reagiria? Como qualquer um reagiria.

— Ainda não me convenceu. E, no momento, Hinata, você é preciosa para mim. — Uzumaki sacudiu a algema.

— Portanto, tenha cuidado. Não quero acabar como um esqueleto no porão de um orfanato.

— Isso não vai acontecer.

— Hinata?

Ela ergueu o olhar e ruborizou de novo. Ninguém a fazia ruborizar como Uzumaki; provavelmente porque ninguém lhe dizia coisas que a faziam ter pensamentos com os quais não estava acostumada.

— Estava pensando em seu conselho, Uzumaki. Vou manter isso em mente.

— Ótimo.

— E agora acho que precisa ser barbeado.

Respirando fundo, ela foi até a pequena mesa. Felizmente escapara de casa antes que Hiroshi descobrisse que os utensílios de barbear haviam sumido. Sem dúvida, ela o ouviria dizer que fora roubado quando voltasse para casa, e durante toda a noite com lorde e lady Gladstone.

— Oh, droga — resmungou, pondo o pincel de barbear na água com sabão.

— Eu disse que poderia me barbear.

— Não é isso. Estava apenas pensando em como será aborrecido meu compromisso desta noite.

— Conte-me a razão.

Hinata aproximou o pincel do queixo dele.

— Por que quer saber?

— Por que não? Não tenho muito a fazer no momento, a não ser escutar suas histórias.

— Meu irmão e eu fomos convidados para jantar com lorde e lady Gladstone.

— Não creio que possa enviar meus cumprimentos a Fátima, não é?

— Não. — Ela pôs o pincel no queixo de Uzumaki com mais força que o necessário, espirrando espuma no rosto e no pescoço dele. — Desculpe.

— Não peça desculpas. Agora me diga por que não gosta da querida Fátima.

— Diga-me por que você gosta dela.

— Seios macios, pernas longas e uma disposição incrível para...

— Pare com isso! Ela é uma mulher casada!

Uzumaki deu de ombros, e a algema bateu na parede de pedra.

— Levo os votos de casamento de Fátima tão a serio quanto ela. Quanto todos eles. Você não pode ser tão ingênua.

— Não considero ingênua a minha opinião. Gosto de pensar que é uma questão de honra.

— Você é diferente, Hinata. Eu reconheço isso. Agora, vai me barbear ou continuar atirando sabão em mim?

— Você é horrível. — Hinata abaixou a mão e apenas o fitou. Como podia sentir-se atraída por aquele homem?

— Nunca disse que não era horrível. Não é culpa minha que me veja como algo que não sou, minha querida.

Por um momento, ela ficou em silêncio, pensativa.

— Prefiro pensar que o vejo como quem você poderia se tornar, sem o seu cinismo. — Devagar, ela levou o pincel ao rosto dele, deslizando-o pelo queixo. — E eu pretendo revelar essa pessoa.

— Ela morreu há muito tempo. E ninguém, nem mesmo eu, choramos a sua morte.

— Pare de falar. Estou tentando fazer isto corretamente. —Hinata encheu o pincel de sabão outra vez e o passou no rosto de Uzumaki. Gostava de tocá-lo quando ele não podia reagir, quando o contato se dava sob seus termos.

— Já decidiu quanto tempo minha sentença vai durar? — ele perguntou quando ela pegou a lâmina.

— Prefiro pensar nisso como uma educação forçada.

— Se nossas posições estivessem invertidas, eu pensaria em várias formas de educá-la. — Ele sorriu. — Estou a sua mercê, Hinata. Barbear-me é o ato mais ousado que passou pela sua cabeça?

O sorriso sensual deixou-a arrepiada. Seus dedos tremiam, e ela recuou um passo, tentando se controlar.

— Comporte-se — ela disse. Uzumaki baixou o olhar para a lâmina.

— Pelo menos, me dê um beijo de adeus antes de cortar meu pescoço com isso.

— Shhh... — Pressionando os dedos da mão esquerda no queixo de Uzumaki para mantê-lo parado, deslizou a afiada lâmina por seu rosto. — Isto seria mais fácil se você não fosse tão alto — reclamou, suspirando.

— Use o banquinho — ele sugeriu.

Hinata obedeceu sem hesitar. Apenas quando subiu no banquinho percebeu por que Uzumaki subitamente fora tão prestativo. Encontravam-se agora no mesmo nível, com os rostos muito próximos.

— Eu...

Uzumaki não a deixou falar. Capturou seus lábios em um beijo ardente e ensaboado.

Tudo o que ela precisava fazer era dar um passo para trás e sair de seu alcance. Saber disso a fazia sentir-se... poderosa, mesmo que o beijo a deixasse sem fôlego, ansiando por coisas que não poderia dizer em voz alta.

Hinata correspondeu, enfiando os dedos nos cabelos despenteados de Uzumaki e ousadamente deslizando a língua por entre os dentes dele. Ao ouvi-lo gemer, uma sensação perturbadora percorreu sua espinha e provocou um calor entre suas coxas.

Oh, ele tinha razão! Havia tantas coisas que poderia fazer com ele, em vez de barbeá-lo... Beijou-o de novo, com ardor. As algemas em volta dos pulsos dele rangeram quando Uzumaki tentou abraçá-la. Ele lhe pertencia, e ela podia fazer o que quisesse com seu prisioneiro. O que quisesse.

De repente, voltou a si.

— Pare — murmurou, mais para si mesma do que para ele.

— Por quê, Hinata? Toque-me. Coloque as mãos em mim.

Ela queria fazer isso. Queria tanto que chegou a sentir dor física quando recuou, descendo do banquinho. — Não.

— Você me deseja tanto quanto eu desejo você. Venha aqui.

Ela balançou a cabeça, tentando clarear a mente do torpor que a presença dele lhe provocava.

— Isso não diz respeito ao que nós queremos, e sim do que é melhor para àquelas crianças.

— Não engane a si mesma. Você achou mesmo que me barbeando iria me transformar em sua versão de um herói? Você queria me tocar. Ainda quer, e por isso está tremendo.

— Não estou. — Ela levou as mãos às costas.

— Solte-me, Hinata. Esqueça toda essa bobagem, e eu a levarei a algum lugar com lençóis de cetim e pétalas de rosas. Eu quero estar dentro de você, e é onde você me quer.

— Está enganado. Sim, você é bonito, e eu tenho certeza de que é... hábil em suas seduções. Mas precisa se lembrar de que não está algemado a uma parede porque suas melhores qualidades superam as piores.

— E?

— E então é melhor parar de me seduzir e começar a ouvir o que estou lhe dizendo. — Ela subiu novamente no banquinho. — Agora fique quieto.

— Enquanto estiver com essa lâmina no meu pescoço, minha querida, farei o que me pede. Mas não estou aqui porque quero ser convencido de alguma coisa. Estou aqui porque você mentiu e me trancou. Você é alguém com uma missão. E não planejo ficar aqui por muito mais tempo. Assim, é melhor acabar logo com isso.

Pelo menos, ele a deixara com raiva suficiente para não pensar mais em beijá-lo. Hinata respirou fundo.

— Não tenho dúvida, dado o seu senso de autopreservação, de que você tentará escapar. — Deslizou a lâmina pelo rosto dele, tentando ignorar o olhar penetrante. — Pela mesma razão, eu também acredito que escutará o argumento que vou lhe apresentar.

Um leve sorriso surgiu nos lábios do marquês.

— Antes que comece a me apresentar o seu argumento, deve tirar o sabão do rosto, Hinata Marie.