NARUTO NÃO ME PERTENCE- E SIM A MASASHI KISHIMOTO

ESTA HISTÓRIA TAMBÉM NÃO- É UMA ADAPTAÇÃO DO LIVRO DE SUZANNE ENOCH!

Uzumaki esperava que alguém estivesse cuidando de seu cavalo. Hinata mencionara que tinham colocado Cassius nos velhos estábulos, o que fazia sentido; mesmo que não sentissem sua falta, alguém notaria o valioso cavalo árabe lado fora do orfanato por uma semana. Uma maldita semana! Hinata até lhe trouxera um exemplar do London Times, apenas para provar que ninguém tinha mencionado seu sumiço. Começou a andar de um lado para o outro, dentro do espaço reduzido. Era o que vivia fazendo ultimamente. Precisava muito se exercitar.

Ele aprendera o nome de todos os órfãos e lhes ensinava letras e números. Isso pelo menos o ajudava a passar o tempo. Sabia que Hinata esperava algum sinal de que ele tivesse desenvolvido uma consciência e que tivesse se apaixonado pelos pequenos diabinhos. Recusava-se a fazer esse jogo, até mesmo para enganá-la. Admitia ter notado que alguns órfãos eram mais inteligentes do que imaginara. E tê-los por perto era melhor do que ficar andando de um lado para o outro em sua cela.

Os dois ou três garotos mais velhos o aborreciam, não porque viviam olhando de cara feia para ele, mas porque pareciam encarar as ordens de Hinata como um jogo.

Sabia que vários deles andavam com ladrões e, sem sua interferência, poderiam ter começado a esconder itens roubados ou até mesmo seus companheiros mais velhos no orfanato. Se Hinata se deparasse com um deles, com o senso de honra que tinha, nada a protegeria.

O conselho provavelmente se reunira no dia anterior. Na sua ausência, deviam ter discutido alguma forma de se apoderar dos fundos do orfanato, uma vez que não sabiam que ele planejava retirar-lhes aquela fonte de lucros indevidos.

A porta rangeu e se abriu, e ele interrompeu sua caminhada. Não ouvira a porta no topo das escadas se abrir. Droga, Hinata o distraía mesmo quando não estava presente!

— O que é isso? — indagou uma voz feminina, e a cabeça da governanta apareceu à porta. — Que os santos nos protejam! — ela exclamou ao vê-lo.

Graças a Deus!

— A senhora — ele exigiu, apontando a corrente —, me arranje um machado ou uma serra. — Hinata estava com as chaves das algemas, e ele precisava se livrar delas antes que alguém aparecesse.

— O que está fazendo aqui, milorde?

— Sou um prisioneiro. Não tenho a chave para me soltar, e por isso preciso de um machado. Depressa, por favor.

— Eu estava estranhando que as crianças viessem aqui embaixo tantas vezes. Pensei que tivessem trazido algum cachorro abandonado ou coisa assim. Meu Deus, elas capturaram um nobre!

— Pelo amor de Deus, sra. Governanta!

— Natham, milorde. Por quatro anos, tem sido sra. Natham. O senhor pretende fechar este lugar, não? E isso me deixaria sem emprego.

— Podemos discutir o seu emprego mais tarde. Liberte-me e ganhará uma recompensa. Arranje-me...

— É melhor eu conversar antes com a srta. Hyuuga. Estes últimos dias têm sido bastante agradáveis. E ela me deu um aumento de ordenado. Uma moça excelente.

— Sim, ela é maravilhosa. Agora...

— Bom dia, milorde. — A governanta tirou a cabeça do vão da porta e a fechou. Um segundo mais tarde, a chave girou na fechadura, e ele podia jurar que ouvira uma risada.

Uzumaki largou-se na cadeira, praguejando. Hinata provavelmente mandara a megera ali embaixo para provar que seus amigos e aliados eram poucos, ou melhor dizendo, inexistentes.

Sabia disso desde os sete anos de idade. Um advogado fora mandado até a propriedade da família para dizer a ele que seu pai morrera em Londres e que ele passara a ser o marquês Uzumaki. Mal conhecera o velho marquês, que tinha sido um libertino até os cinquenta anos, quando se casara e gerara um herdeiro. Com a tarefa realizada, ele retomara a vida libertina até que ela o havia matado. Uzumaki decidira então que moldaria sua vida à do homem. Isso fazia mais sentido do que fingir lamentar a morte de um pai ausente.

A mãe estivera tão ocupada com jantares de luto e recebendo conforto dos muitos admiradores que não voltara para vê-lo durante seis meses. Os criados de Uzumaki's Park o tinham adulado na ausência dela, esperando manter o emprego, mesmo que a viúva se mudasse de casa, em um eventual novo casamento. Quando sua mãe e seu padastro sugeriram que ele fosse para um colégio interno, ele sentira alívio em se livrar da adulação.

Os instrutores e os colegas, porém, tinham cedido a todos os seus caprichos. As regras não se aplicavam a um marquês de onze anos de idade. Entrara na maioridade antes da morte da mãe e, uma vez que adquirira controle sobre sua renda, ela começara a bajulá-lo, como os demais.

Não confiava em ninguém, e tornara-se uma pessoa em quem ninguém confiava. Com a reputação que tinha, os que procuravam sua companhia o faziam por causa de seu poder e dinheiro. E sabia lidar com aqueles tolos.

Decifrar Hinata, porém, demandava mais tempo e esforço. Ela lhe dissera o que queria salvar as crianças, o orfanato e a ele. A parte mais difícil desse quebra-cabeça era que ela parecia estar falando a verdade.

Droga! Estava desaparecido fazia uma semana e ninguém notara. Seus advogados pagavam os criados em suas várias propriedades; assim, nenhum deles reclamaria de sua ausência. Eles provavelmente estavam adorando, bebendo seus vinhos e fumando seus charutos!

Com uma careta, e praguejando contra a sra... Natham, ele se levantou, tirou a camisa e jogou-a sobre a gravata, o colete e o casaco, já descartados. Naquela manhã, Molly e Jane tinham levado para ele uma vasilha com água e um pano para se limpar. O que queria era um banho, mas isso parecia impossível no momento.

Enfiando o pano na água, ele o enrolou em torno da cabeça, deixando a água fria escorrer por seus cabelos e ombros. A porta de cima se abriu, mas ele a ignorou. Sabia exatamente o que estava fazendo, como sempre. Sentia pena de si mesmo. Sua turma da tarde teria de esperar até que ele terminasse de se lavar.

Não via razão alguma para ensinar etiqueta a ninguém, muito menos a um bando de órfãos. Claro, era parte do plano de Hinata civilizá-lo. Bem, ele se sentia mais civilizado quando limpo.

A tranca da porta girou, e a porta abriu.

— Lorde Uzumaki? — A vozinha de Rose soou. — As meninas não se curvam em reverência, não é?

— Por vezes — ele grunhiu, passando o pano no peito —, apesar de que há geralmente um homem envolvido e a garota está...

— Chega! — Hinata exclamou.

Ele se voltou para a porta. Ela era a imagem da fúria, com os punhos fechados e os olhos brilhando.

— Boa tarde, Hinata.- O olhar dela se deteve em seu peito nu e então voltou ao seu rosto.

— Crianças, a lição de lorde St. Aubyn está cancelada por hoje. Você estão livres para ir brincar.

Com gritinhos de alegria, as crianças deixaram a cela. Uzumaki continuou com o olhar fixo em Hinata. — Quem você pensa que está punindo, a elas ou a mim?

— Vista a sua camisa.

— Estou molhado.- Ela se virou para a porta.

— Muito bem. Mandarei alguém lhe trazer o jantar esta noite.

Alguma coisa pareceu atingir seu estômago e apertar sua garganta. O jantar seria dentro de umas seis horas.

—- Hinata!

Ouviu os passos dela na escada e olhou para as velas. Tinha no máximo duas horas de luz. — Hinata, me desculpe.

A porta acima da escada foi aberta.

— Hinata, pelo amor de Deus, não me deixe sozinho de novo! Por favor! Sinto muito!

Silêncio.

Praguejando, ele pegou a vasilha e a atirou contra a porta. A porcelana quebrou, espalhando água por toda parte.

— Então é essa a lição de hoje? Você consegue o que quer, e eu fico aqui sentado na sujeira e no escuro até que você mude de ideia? Já aprendi isso! Maldição, ensine-me alguma coisa que eu não saiba, Hinata Marie!

—- Uzumaki? — A voz de Hinata soou do outro lado da porta. — Acalme-se, e eu entrarei.

Respirando fundo, ele compreendeu o que estava acontecendo. Entrara em pânico. Ele. O cruel, implacável e desarmado marquês estava com medo de ser deixado sozinho no escuro.

— Estou calmo — ele retrucou.

Ninguém que tivesse a capacidade de pensar poderia acreditar nele, mas Hinata obviamente tinha mais compaixão do que bom-senso, porque abriu a porta e entrou.

Uzumaki começou a dizer algo que a convencesse a ficar ali por mais alguns minutos, mas parou quando viu o rosto dela. Com um grunhido, deixou de pensar em seus próprios infortúnios para tentar descobrir o que fizera para magoá-la de novo.

— Por que está chorando?

Secando as lágrimas que escorriam pelo rosto, ela suspirou.

— Porque não sei o que fazer.

— Você sempre sabe o que fazer.

Hinata o fitou. A água escorria pelos ombros dele, descia pelo peito desnudo, pelo musculoso abdômen e sumia nas calças. Os cabelos molhados cobriam parte de um dos olhos, e ela sentiu vontade de arrumá-los. Ele parecia tão... inocente. E isso não era tudo. Ela queria se jogar nos braços dele.

Secando o rosto, sentou-se no banquinho. Ele conhece a própria aparência. Sabe o que dizer. Isso era apenas outra parte de seu jogo, para fazê-la desejar ficar na companhia dele, ou melhor ainda, para fazê-la sentir pena dele e libertá-lo.

— Não senti pena de você — ela disse.

— Claro que sentiu — ele retrucou, a voz mais calma, mais profunda, mais controlada. — Você sente pena de todo mundo.

Para sua própria segurança e sanidade, Hinata sabia que devia se afastar daquele homem.

— Estou brava com você, e não com pena.

— Está brava comigo — ele repetiu. — E, no entanto, você quem tem as chaves, minha querida. Imagine como estou me sentindo.

— Talvez você tenha razão. Não estou brava com você, mas comigo mesma.

— Agora temos algo em comum — ele grunhiu, sacudindo os cabelos molhados.

Gotas de água respingaram nos braços de Hinata. Ela estremeceu, e imaginou que isso se devia mais ao fato de estar sozinha com um homem lindo e seminu do que as algumas gotinhas de água.

— Durante uma semana, venho tentando mostrar a você tudo aquilo que pode conseguir ser. Tive sua total atenção. E no entanto, nada resultou disso.

Uzumaki a olhou por um momento, e uma emoção que ela não conseguiu decifrar passou por seu rosto.

— Sou um caso perdido.

— Mas não pode ser.

— E por que não? — Uzumaki sentou-se. Se estendesse a mão, conseguiria tocá-la no pé.

— Ninguém pode ser tão patife quanto você é, e ainda ser charmoso e interessante e... digno de estima como você é. Está fingindo, Naruto.

—- Isto é muito bonito de se dizer, eu acho, mas acredite em mim, sou um bastardo egoísta.

— Talvez, mas você não é somente isso.

Para sua surpresa, os lábios dele se curvaram em um sorriso sensual.

— Você é uma mulher interessante. Mas é por minha causa ou por sua causa que diz que existem algumas qualidades que podem ser resgatadas em mim?

—- Ás duas coisas, provavelmente.

— Honesta, como sempre. — Ele estendeu a mão e a tocou nos pés, distraído, como um gatinho brincando com um novelo de lã.

Era a primeira vez que a tocava sem exigir algo mais, como um beijo. Hinata estremeceu e respirou fundo.

— Por que se comporta assim?

— Além de que porque posso? Não sei.

Ele endireitou o corpo, deixando-a subitamente consciente de que se sentara perto demais. Antes que pudesse recuar, ele segurou seu tornozelo e o puxou. Com um gritinho, Hinata caiu no chão imundo.

Enquanto abria a boca para gritar, compreendeu que não havia ninguém por perto para ouvi-la. Antes que qualquer som saísse de sua garganta, Uzumaki se inclinou sobre ela, tapando-lhe a boca.

—- Shhh... — ele murmurou, enfiando a mão no bolso do casaco dela e tirando a chave da corrente. — Suponho que vamos descobrir agora se você conseguiu me redimir ou não. Quer fazer uma aposta?

— Mas... — Hinata tentou pegar a chave de volta, mas Uzumaki se sentou sobre suas saias para impedir que ela se movesse e enfiou a chave na fechadura da corrente. Com um barulho, a tranca se abriu, e ele se viu livre.

Ele se levantou e se encostou à parede. Hinata correu até a porta. Ainda tinha a chave e, se conseguisse fechá-la, poderia mantê-lo preso. Porém, com alguns passos longos e rápidos, ele a segurou.

— Não vai ser tão fácil, minha querida.

Por um momento, Hinata achou que ele sairia e a trancaria na cela, e um frio pânico a invadiu.

— Uzumaki...

O marquês pegou a chave da porta e a trancou.

— Eu disse que isso não duraria muito. — Ele sorriu. .— E também disse que a primeira pessoa de quem eu iria atrás seria você.

E em seguida seriam as crianças e o orfanato, ela pensou. Não podia permitir isso. Tentou alcançar a chave, mas enquanto lutava acabou pressionada contra o peito dele, encurralada contra a parede.

— Estratégia interessante — ele murmurou, puxando-a para seus braços e beijando-a.

Foi um beijo quente, profundo, ousado. Hinata precisava sair dali e trancá-lo, para o bem do orfanato. Mas se ele a estava beijando daquele jeito era porque não tinha intenção de escapar. Hinata correspondeu ao beijo, e todo o seu corpo foi percorrido por uma onda de calor. As mãos que buscavam a chave acabaram acariciando os cabelos de Uzumaki. Ele deslizou os lábios por seu queixo, dando pequenos beijos, e ela começou a ofegar. Não conseguia respirar, não conseguia chegar suficientemente perto dele, como desejava.

— Está tentando me distrair — acusou-o, pressionando seu corpo contra o peito nu.

Uzumaki sacudiu a cabeça, jogando a chave em um canto do quarto.

— Você é quem está me distraindo — ele grunhiu, deslizando os dedos por baixo do tecido que cobria seus ombros, abaixando as alças do vestido.

Em um segundo, acariciava-lhe os seios. Mesmo a seda fina parecia quente sob o toque. Hinata gemeu.

— Uzumaki, por favor... —- murmurou, buscando os lábios dele outra vez.

— Por favor, o quê? — Como um talentoso harpista tocando as cordas de seu instrumento, deslizou os dedos pelas costas de Hinata, e o vestido se abriu.

— Oh! Uzumaki...

— Naruto. Quero que me chame de Naruto.

— Naruto — ela sussurrou, mal conseguindo respirar. Ele acariciou-a nos seios bem de leve, circulando os mamilos, que enrijeceram.

— Oh, céus...

— Sua pele é tão macia — murmurou antes de abaixar o rosto.

Com uma das mãos, ele continuou afagando um dos seios enquanto traçava com a língua o contorno do outro. Quando ele o tomou na boca, Hinata achou que desmaiaria.

Arqueou-se e fechou os olhos, envolvida por uma sensação avassaladora enquanto ele sugava primeiro um, depois o outro seio. Não conseguia se mover, e um calor se espalhou por todo o seu corpo. Tentou puxá-lo para junto de si, querendo fazer parte dele.

Quando ele se afastou, Hinata abriu os olhos.

— Não pare — implorou, embaraçada com o desejo que ouviu na própria voz.

— Não vou parar.

Ajoelhando-se, Uzumaki puxou seu vestido para baixo. Conforme o afastava, prosseguia com as carícias, cobrindo com os lábios cada centímetro exposto.

— Levante o pé — ele a instruiu. Tirou um sapato de cada vez, e depois o vestido. Tocou-a entre as coxas e deslizou um dedo para dentro de seu corpo.

— Oh... — Suas pernas tremiam.

— Você está úmida.

— Naruto...

— Shhh... — Ele passou as mãos por seu corpo até chegar aos ombros, livrando-a também da combinação, que jogou sobre o restante das roupas. — Eu desejo você, Hinata Marie. Quero estar dentro de você.

Levantando-a, ele a carregou até o colchão. Sentou-se, virou de lado e tirou as botas.

— Você está ferido.

— Meu tornozelo está inchado — ele respondeu, fitando-a. — Você vai pagar por isso em um minuto.

— Eu...

— Você me deixou inchado em outras partes do corpo também. — Ele tirou o cinto e a calça, revelando a ereção.

— Céus...

— Agora você já viu um homem nu e excitado, desejando você. — Uzumaki se inclinou, tomando-lhe outra vez o seio entre os lábios, e logo se deitou sobre ela.

— Naruto, por favor... — Puxou-o pelos ombros para que ficassem ainda mais juntos. Seu coração estava tão acelerado que pensou que poderia morrer.

— Por favor, o quê? Diga, Hinata Marie. Eu quero escutar você dizer que me quer dentro de você.

— Eu quero você dentro de mim. — Ela não tinha ideia do que fazer para que isso acontecesse, mas seu corpo sabia. Arqueou os quadris. — Por favor, agora.

Ele a beijou, provocando-a com a língua enquanto deslizava para dentro de seu corpo.

Ele empurrou os quadris para a frente. Hinata o sentiu alcançando a barreira de sua virgindade. Uma pontada de dor revelou que ele a rompera. Ela fechou os olhos e dobrou os joelhos. O movimento permitiu que ele entrasse ainda mais em seu corpo. Aos poucos, a dor cessou.

Uzumaki começou a se mover lentamente, e Hinata não conseguia pensar em nada além da deliciosa sensação de tê-lo dentro de si. Gemeu quando ele aumentou o ritmo e instintivamente ergueu os quadris, enterrando as unhas nas costas largas.

— Naruto! — gritou o nome dele quando todo o seu corpo estremeceu de prazer.

Ele passou a se mover com mais rapidez e, beijando-a profundamente, também atingiu o êxtase.

— Hinata...

Ofegante, ficou deitado sobre ela. Se deitar-se com uma virgem respeitável era sempre assim, ele estivera perdendo muita coisa.

Tivera a intenção de se demorar mais, de puni-la com o ato, mas quando ela atingira o clímax, não fora capaz de se segurar. E ele não costumava perder o controle. Nenhuma mulher o fizera se sentir daquele jeito. Mas Hinata conseguira. E ele queria sentir-se assim com ela outra vez.

— Naruto — ela sussurrou, e ele levantou a cabeça para fitá-la.

Seu rosto estava corado, os lábios inchados. Naruto a beijou de novo, bem devagar.

— Sim?

— Sempre é assim tão... bom?

Ele poderia puni-la agora, se quisesse. Poderia dizer o que quisesse. Em vez disso, meneou a cabeça.

— Não, não é. Você é excepcional, Hinata.

Com relutância, ele se moveu para o lado, mantendo uma das mãos na cintura delicada. Sua mente não parecia querer funcionar de novo, mas sabia que não queria que ela se afastasse. Não até que entendesse algumas coisas.

Não até que soubesse como agir em seguida, além de fazer amor com ela outra vez. Repetidamente.

Hinata sorriu, tocando-o com delicadeza no queixo.

— Eu sabia que você tinha um bom coração.

— O que o meu coração tem a ver com isso? — ele perguntou, tentando ignorar a sensação de prazer provocada pelo toque gentil.

— Lembra-se? Você disse que, se eu o recebesse dentro de mim, não fecharia o orfanato. Foi por isso que nós... — Franziu o cenho, percebendo a suspeita na expressão dele. — Não foi?

Uzumaki se sentou.

— Está me dizendo que se prostituiu por causa das crianças? — Era inaceitável. Ela o desejara, e não algo que ele pudesse oferecer, pois isso a tornaria igual a todos os outros... o que ela não era.

— Não! Eu queria... fazer isso com você. Mas você fez um acordo. Foi por isso que quis estar comigo, não é? Para poder manter sua palavra?

— Eu apenas quis estar com você, Hinata — ele grunhiu, sentindo uma estranha dor crescer em seu peito.

Ela se sentou ao seu lado, adorável e suave.

— Mas você me deu a sua palavra.

— E você me raptou. Lembra-se disso, meu amor? — Ele ergueu o tornozelo ferido, e Hinata gemeu.

— Não queria machucar você.

— Eu sei. — Ele vestiu a calça.

— Por favor... Se vai mandar me prender, apenas diga à polícia que eu planejei e fiz tudo sozinha.

Tentando ignorar o apelo, que lhe causava uma dolorosa comoção, ele rangeu os dentes e calçou as botas. Depois pegou sua camisa suja e a enfiou pela cabeça. Precisava sair logo dali, afastar-se de Hinata, de sua pele macia e dos lábios que tinham gosto de mel; caso contrário, não conseguiria pensar.

— Naruto — ela continuou, colocando a mão em seu braço. — Uzumaki, não culpe as crianças. Por favor. Elas não têm quem fale em seu nome.

Ele a olhou, libertando o braço e se levantando.

— Elas têm você — disse, antes de sair da cela. Apesar de Hinata ter achado que ele a trancaria ali, Uzumaki deixou a porta aberta. Subiu a escada, deixando para trás apenas o silêncio.

— Oh, não... — Ela começou a chorar.

Eles seriam presos, a carreira política de Hiroshi estaria arruinada, as crianças trocariam o orfanato pela prisão, e tudo porque ela falhara. Novamente. Tudo o que ela precisava ter feito era convencê-lo de que ele tinha um coração, e de que deveria escutá-lo. Tinha apenas que ter encontrado um modo de o orfanato continuar de pé.

Falhara miseravelmente. E agora, graças ao seu estúpido desejo por um homem terrível e sem coração, estava arruinada. Tudo estava arruinado.

X

Jansel arregalou os olhos quando abriu a porta da frente e Uzumaki entrou na Mansão Uzumaki.

— Milorde! — o mordomo exclamou, fazendo uma reverência. — Estávamos começando a nos perguntar onde...

— Quero uma garrafa de uísque, metade de uma galinha e um banho quente, tudo em meus aposentos. Agora.

— Sim, milorde.- Ele sabia que sua aparência era a pior possível. Estava sujo, com a barba por fazer, a camisa desalinhada, e sem o casaco, a gravata e o colete. No momento, porém, não se importava. Passara sete dias acorrentado à parede de um porão, e ninguém tinha notado. Ninguém, a não ser Hinata Marie Hyuuga. E ela cometera o erro de pensar que poderia mudá-lo, melhorá-lo, até. Bem, ele provara o engano dela.

O quarto era o mesmo de sempre: a mobília escura, os quadros sombrios e as pesadas cortinas fechadas para que não entrasse claridade. Com uma careta, caminhou até a janela mais próxima, afastou a cortina e abriu a vidraça. Repetiu a ação com as cinco janelas, não parando nem quando o criado começou a encher sua banheira com água quente. Depois de uma semana no escuro, ele certamente começara a apreciar a luz do sol.

Quando o criado pessoal entrou no quarto, deteve-se, estarrecido.

— Milorde, a sua... — Pemberly apontou para a roupa de Uzumaki. —A roupa...

— Sim, eu sei. Agora saia. —Mas...

— Fora!

— Sim, milorde.

Se havia uma coisa que Uzumaki não queria era que seu criado espalhasse rumores sobre sua aparência surrada, sobre o tornozelo machucado e sobre as marcas de unhas que Hinata deixara em suas costas.

Assim que seu almoço e uísque foram trazidos, ele trancou a porta e sentou-se em uma cadeira. A camisa foi fácil de tirar, mas a bota era algo diferente. Com um grunhido, descalçou a do pé direito e a jogou longe. Então começou com mais cuidado a descalçar a do pé esquerdo. O tornozelo piorara. Depois de fazer várias tentativas infrutíferas e de praguejar bastante, foi até a escrivaninha, pegou uma faca que usava para apontar seus lápis e cortou o couro.

O tornozelo estava preto e azulado; a pele, esfolada e inchada.

Tirando a calça, entrou na banheira, e vagarosamente afundou na água quente. Puxou a cadeira onde colocara a bandeja com comida e bebida. Olhou a garrafa de uísque, mas agora que estava em um banho quente, a necessidade de uma bebida forte não era mais tão urgente.

Hinata Marie Hyuuga. Dado seu estilo de vida, ele com frequência dispunha de informações capazes de arruinar pessoas, casamentos e fortunas. Normalmente mantinha os segredos, pois apenas se divertia com a noção de ter conhecimento deles. Essa era a primeira vez que dispunha de dados que poderiam mandar uma mulher para a prisão, provavelmente para o exílio na Austrália. As crianças, em especial, as mais velhas, poderiam sofrer punições piores, exceto pelo fato de que Hinata assumiria toda a responsabilidade sozinha.

E ali estava ele, desfrutando da imersão em uma abençoada água quente. Não estava chamando um advogado ou prestando queixa, nem procurando o príncipe George para finalizar o plano de destruir o orfanato, e tampouco espalhando que a respeitada Hinata Marie Hyuuga erguera as saias para ele.

Escapara. Satisfizera seu maldito desejo de possuí-la, libertara-se sozinho das correntes, e agora poderia fazer o que quisesse e como quisesse. Exceto que o que mais o agradaria, o que ocupava todos os seus pensamentos, era a ideia de ter Hinata novamente em seus braços. Uzumaki submergiu na água.

Depois da semana anterior, e especialmente depois daquele dia, ele possuía mais informações sobre Hinata do que seria possível usar em qualquer plano que viesse a elaborar. Gritou para o criado:

— Jansen! Traga-me a correspondência!

Ele perdera a chance de comparecer aos mesmos eventos sociais que ela por uma semana: Não perderia mais nada.

X

— Hina! Vamos chegar atrasadas!

Hinata levou um susto, derrubando o brinco pela terceira vez.

— Apenas um momento, mamãe.

Ela tentara explicar que não se sentia bem para comparecer ao baile dos Alvington. Dada a sua palidez e mãos trêmulas, pensara poder convencer a mãe e Hiroshi. O irmão, porém, queria que ela dançasse com o idiota do filho de lorde Alvington, Shino, e assim, é claro, esperava que ela cumprisse os seus deveres para com sua família.

Durante o dia, ficara à espera de que a polícia batesse à porta de sua casa e a prendesse por causa da acusação do marquês. À tarde, esperara que uma das amigas da mãe ou um dos amigos do irmão chegasse contando a extraordinária história de como ela praticamente implorara que Uzumaki a possuísse.

Abaixou-se e pegou o brinco, enquanto um súbito e esperançoso pensamento lhe ocorria. Quem sabe se, graças à influência de sua família e de seu tio, o marquês de Houton, as autoridades hesitassem em prendê-la em público. Tudo o que ela precisava fazer, então, era comparecer ao baile dos Alvington e aos outros eventos que restavam naquela temporada, e se esconder em um buraco bem escuro entre as festas.

— Todos avisaram — murmurou para si mesma. — Ele também avisou. — Fora uma completa idiota.

— Hina, pelo amor de Deus! -Por fim, deixou o quarto.

— Já estou indo, mamãe.

Quando os três se sentaram na carruagem, a mãe endireitou seu xale.

— Você deveria tentar demonstrar que está se divertindo.

— Ela fará isso — Hiroshi afirmou, dirigindo a Hinata um olhar severo. — Belisque as suas bochechas. Está pálida demais.

Oh, Deus! A ideia de ir para a prisão nem parecia tão horrível quando comparada a isso. Eles não tinham ideia de seus problemas.

— Farei o melhor que puder.

— Não se esqueça de dançar a primeira valsa com Shino Alvington.

— Ora, Hiroshi, talvez devesse prender suas instruções no meu vestido. Assim, todos poderão me informar o que devo fazer em seguida caso eu me esqueça.

— Pode reclamar o quanto quiser em casa, mas seja simpática em público.

A campanha devia estar indo bem, já que ele nem berrara com ela. O jantar com os Gladstones fora um tipo interessante de tortura, e Hinata não conseguia se livrar da sensação de que Fátima sabia alguma coisa sobre a atração que sentia por Uzumaki. De qualquer maneira, lorde Gladstone dera seu apoio a Plimpton. Hiroshi, mesmo assim, nunca deixava de tentar conquistar novos aliados.

Hinata suspirou. Assim que Uzumaki entrasse em contato com as autoridades, Hiroshi faria mais do que berrar com ela, porque nenhuma aliança se sustentaria diante de um escândalo dessa magnitude. Se pudesse convencer alguém de que o irmão não sabia nada sobre suas atividades, talvez o desastre não fosse tão ruim para ele. Claro que ele rapidamente a deserdaria e sobreviveria a sua ruína.

Pelo menos, ao raptar Uzumaki, ela tivera os motivos mais puros, ou assim pensava. Certamente seduzir o marquês não estivera em sua lista de objetivos. Mas ela o desejara, quisera tocá-lo, sentir seu abraço e saber como seria estar com ele.

Satisfizera a curiosidade sobre os mecanismos do sexo, mas não a vontade de repetir tudo aquilo com ele. E apesar de Uzumaki parecer contente com suas numerosas amantes, ela queria apenas um: ele. E da próxima vez que o visse, ele provavelmente riria dela e mandaria prendê-la no ato.

Hinata entrou no salão atrás de sua família, abalada com a possibilidade de Uzumaki estar na festa. Felizmente, não o avistou. Assustou-se e virou bruscamente ao sentir um toque no braço.

— Hina — disse Sakura, beijando-a no rosto. — Ouvi dizer que Shino Alvington está querendo dançar com você.

Hinata se forçou a respirar outra vez.

— Sim, suponho que vou dançar uma valsa com ele.- Sakura torceu o nariz. Colocou o braço em volta de Hinata, guiando-a até a mesa de refrescos.

— Ouvi dizer que Uzumaki desapareceu de Londres. Talvez suas lições tenham sido demais para ele.

— Talvez.

— Como estão os órfãos?

— Shhh... Por favor, Saky.

— Estou sendo discreta. Mas odeio que seu irmão faça você se sentir tão culpada por estar ajudando as crianças.

Oh, ela se sentia culpada sobre muito mais do que o orfanato! E sua companhia acabaria sendo um problema para as amigas. Hinata desvencilhou-se do abraço de Sakura.

— Pelo menos, eu ajudei um pouco. Agora vou procurar Shino antes que Hiroshi me encontre.

— Você está bem, Hina? — Sakura franziu a testa. — O que quer dizer com "ajudei"? Terminou o trabalho?

— Não. É que eu queria poder fazer muito mais.

— Já fez mais do que muita gente. E não faça esse ar tão solene.

— Estou com um pouco de dor de cabeça. — Hinata forçou um sorriso. — Se eu sobreviver a Shino, talvez melhore. Você me faz um favor e conversa com Hiroshi enquanto eu procuro o sr. Alvington?

— Claro. Eu até danço com ele.

Quando se afastou da amiga, avistou Shino Alvington surgir no meio da multidão. Uma figura patética, vestida com um traje preto justo demais.

— Adorável Hinata Hyuuga! — ele exclamou, pegando sua mão e levando-a aos lábios. —- Estou tão feliz em vê-la esta noite.

— Obrigada.

— Dançará comigo a valsa?

— Será um prazer, sr. Alvington.

— Oh, a senhorita é tão educada! Insisto que me chame de Shino.

Hinata sorriu.

— Claro, Shino. Até mais.

— Sim, até mais, minha querida. — Com uma pequena reverência, ele se afastou.

Pelo menos a tortura preliminar fora breve.

— Graças a Deus — ela murmurou. Voltou-se para encontrar um lugar para ficar até o início da valsa. E parou, estarrecida.

O marquês Uzumaki estava parado a poucos metros dela, cumprimentando alguns cavalheiros que não ousavam deixar de conversar com ele em público. O olhar de Uzumaki encontrou o dela, e Hinata ouviu-o desculpar-se com lorde Trevorston.

Ela não conseguia respirar. Os pés estavam congelados, o coração parecia ter parado de bater, e ela morreria no meio do salão dos Alvington. Ele se aproximou, mancando levemente com o pé esquerdo, e o mais estúpido dos pensamentos lhe ocorreu: pelo menos não teria de dançar com Shino.

— Boa noite, srta. Hyuuga — ele a cumprimentou. Ele também se vestira de preto, mas, diferente de Shino Alvington, nada parecia falso ou produzido. Estava elegante e muito atraente.

— O gato comeu sua língua, Hinata? — ele continuou suavemente, aproximando-se mais. — Deseje-me uma boa noite.

— Eu vou desmaiar — ela murmurou.

— Então desmaie.

Fechando os olhos, ela se concentrou em respirar. Ele não procurou fazer nada para ajudá-la; provavelmente nem a impediria de cair no chão. O coração continuava a bater com força, mas depois de um momento ela foi se recuperando. Abriu os olhos e o encontrou fitando-a como a mesma expressão no rosto.

— Está melhor?

— Não sei ainda.

Ela identificou um lampejo de admiração no olhar dele.

— Não sabe? Não vai me desejar boa noite?

— Boa... boa noite, lorde Uzumaki.

— Se eu fosse você, não me daria o trabalho de raptar Shino Alvington. Ouvi dizer que os cofres da família dele estão quase vazios.

— Por favor, não diga uma coisa dessas.

— E, além do mais, você já tem com quem compartilhar sua cama. Certamente não pode querê-lo.

Por um momento, Hinata imaginou se não havia ciúme na voz dele. Porém, isso não poderia ser possível, uma vez que Uzumaki afirmava não ter coração.

— Meu irmão quer que eu seja gentil com ele. Mas o que você está fazendo aqui? Pensei que preferisse locais mais sombrios.

— Estou aqui por sua causa, meu amor. Achou que os policiais hesitariam em dar voz de prisão no baile dos Alvington?

— Se... se vai mandar me prender — ela balbuciou, o sangue sumindo de seu rosto —, faça isso. Mas, por favor, não envolva as crianças nem minha família.

— Você já me fez esse pedido. Está disposta a pagar o preço que eu lhe cobraria para manter segredo?

— Mas eu... nós...

— Quero você de novo, Hinata. — Ele a observou com atenção. — Você não me quer?

Ela o desejava tanto que mal conseguia se controlar para não se jogar nos braços dele, apesar de todas aquelas testemunhas em volta. Uma lágrima surgiu em seus olhos, e ela a secou rapidamente antes que alguém visse. Será que Uzumaki se importava com ela? Oh, não, que bobagem! Ela estragara tudo e estava muito confusa.

— Eu estava somente tentando ajudar.

— Eu sei. E eu não tenho intenção de vê-la presa, minha querida.

— Você não... não tem?

— Não. Isso seria fácil. Vou chantagear você.

— Chantagear-me?- Com um passo, ele venceu a distância que os separava.

— Você me pertence agora — disse em voz baixa. — E pode agradecer apenas a si mesma por isso.

— Eu não serei...- Ele secou a outra lágrima que surgira nos olhos de Hinata.

— Mas temo que terá de esperar até amanhã para descobrir o que quero de você. Portanto, sorria e dance com aquele palhaço, e sonhe hoje à noite com o que acontecerá amanhã.

— Uzumaki, apenas me prometa... por favor... que não vai culpar ninguém, a não ser a mim mesma, pelo que aconteceu.

O marquês sorriu, com uma expressão ardente e desejável.

— Não se preocupe com isso. Eu a culpo inteiramente.

— Culpa minha irmã pelo quê, Uzumaki? — Hiroshi surgiu, vindo da mesa de refrescos.

Se Hinata não tivesse passado do ponto de desmaiar, a chegada de Hiroshi certamente a teria levado ao chão.

— Culpo Hinata por convencer-me a falar com Prinny a respeito de nomeá-lo para o seu gabinete — Uzumaki respondeu. — Parece que diversos ministérios serão abertos antes do fim da temporada. E cargos para dois embaixadores também, pelo que ouvi dizer.

Hiroshi parecia tão abismado quanto Hinata.

— E por que você iria querer me apoiar, Uzumaki?

— Espere aqui.

O marquês seguiu em direção à sala de estar dos Alvington. Logo que ele se distanciou, Hiroshi agarrou Hinata pelo braço.

— Eu não a avisei para ficar longe desse homem, Hina? — ele grunhiu. — Não posso acreditar... Concentrar-se em seus deveres para comigo por uma noite é tão difícil? Tentei desculpar o seu comportamento devido a sua juventude, mas começo a pensar que você é mesmo uma tonta...

— Hyuuga — a voz de Uzumaki chegou até eles —, é meu prazer apresentar-lhe o duque de Wellington. Vossa Graça, Hiroshi Hyuuga.

Hinata não tinha certeza de quem estava mais admirado, se Hiroshi ou ela. O irmão decerto se recuperou primeiro, estendendo a mão para o duque.

— É uma honra conhecê-lo, Vossa Graça.

— Uzumaki me contou que você passou um tempo na índia — disse Wellington, fazendo um gesto para que Hiroshi que o acompanhasse. — Diga-me, chegou a conhecer Mohamar Singh?

Os dois homens se misturaram na multidão, deixando Hinata parada ao lado de Uzumaki.

— Como conseguiu fazer isso?

— Posso ser bastante persuasivo. E me pareceu o modo mais eficiente de me desembaraçar de seu irmão. Mas não acho que tenha lhe feito um favor, Hinata. Wellington pode... andar com uma prostituta de vez em quando, mas ele é bastante conservador. Se descobrisse que seu novo amigo Hiroshi Hyuuga é irmão de uma nobre maluca e sequestradora, ele...

— Destruiria a carreira de Hiroshi — ela completou.

— Apenas se lembre de que isso fica entre nós dois, Hinata. Você começou este jogo; eu apenas alterei as regras. E vamos jogar até o fim. Eu a verei amanhã, minha querida.

Obviamente as ações dela tinham sido suficientes para ganhar a atenção completa e irrestrita de Uzumaki. Mas se ele queria continuar o jogo, como dissera, então ela ainda tinha uma chance de salvar o orfanato. E Uzumaki. E a si mesma.

X

Não era assim que Uzumaki queria ter terminado a conversa. Em primeiro lugar, ficara absurdamente feliz e gratificado ao vê-la. Em segundo, as palavras do irmão dela o tinham enfurecido. E em terceiro, ele queria esmagar Shino Alvington como se fosse um inseto simplesmente porque o cretino colocaria as mãos em Hinata. Ele fora o primeiro homem para ela, e agora Hinata lhe pertencia. Ninguém mais podia participar desse jogo.

— Uzumaki — Fátima aproximou-se dele —, sei que jamais deixaria Londres durante a temporada, apesar do que disseram.

— Não encontraram um assunto mais interessante?

— Todos dizem que você arranjou uma nova amante. — Ela deslizou os dedos por sua lapela. — Hinata Hyuuga, não é? Você a vem caçando por três semanas.

— Ela parece séria demais para mim, não acha? — Uzumaki se livrou da mão de Fátima. Não tinha tempo para ficar duelando com maridos ciumentos de ex-amantes. Tinha outros planos para colocar em ação.

— Fiz Gladstone convidar Hinata e seu adorável irmão para o jantar uma noite dessas, sabia? Você já a seduziu. Uma mulher sabe dessas coisas.

— Fátima, apreciei a sua companhia por algum tempo, quando era uma pessoa agradável. Agora está me aborrecendo. Vá embora.

Ela estreitou os olhos.

—-Você vai pagar pelas coisas horríveis que tem feito, Uzumaki. Já fiz Gladstone apoiar Plimpton. Portanto, Hiroshi Hyuuga não vai ganhar nada com o fato de a irmã dele andar com você.

—- Fátima, imagino que chegará a hora em que me verei na fila do inferno bem atrás de você. Boa noite.

A condessa pareceu prestes a esbofeteá-lo, mas sabiamente decidiu pensar melhor. No momento, ela o deixaria em paz, até que conseguisse pensar em uma vingança que não comprometesse a própria reputação, ou até que encontrasse alguém melhor para animá-la na cama.

A orquestra começou a tocar uma valsa e, sem pensar, Uzumaki voltou ao salão. Hinata já estava na pista de dança, e Shino Alvington tentava puxá-la para mais perto do que mandava a etiqueta. Ela o mantinha a distância com nada mais do que um sorriso e uma palavra.

Uzumaki imaginou como Shino se comportaria se ficasse trancado em uma cela com a perna presa em correntes. A primeira reação do imbecil seria molhar as calças. Se conseguisse escapar, mandaria prender Hinata e derrubaria o orfanato com os órfãos dentro. E, fazendo isso, perderia todos os pontos positivos da situação.

Uzumakit sorriu. Havia quem dissesse que a vingança era mais doce quando servida fria. No que se referia a Hinata, calor e desejo eram emoções que ele ainda queria que fossem satisfeitas. Mulheres sérias não raptavam pessoas. E ninguém jamais se importara com ele antes. Estava com cartas boas, e ela não conseguiria escapar desse jogo. Não até que ele assim o permitisse.

X

Pemberly jogou no chão o terceiro cachecol arruinado naquela manhã.

— Milorde, talvez pudesse me informar qual estilo deseja; assim, eu seria mais útil.- Uzumaki franziu a testa, olhando seu reflexo no espelho. — Se eu soubesse, cuidaria disso eu mesmo. Quero apenas parecer mais... sem graça.

— Sem graça? O senhor não quer sair bem vestido, milorde?

— Não é isso! Quero parecer mais sóbrio. Sem ostentação. Com ar inofensivo. Com a aparência de um autêntico cavalheiro.

O criado resmungou alguma coisa, e Uzumaki virou-se para ele, curioso.

— O que foi isso?

— Oh, nada, milorde. — Pemberly pigarreou diante do olhar insistente do patrão. — Se sua única intenção é parecer inofensivo, talvez devesse mandar outra pessoa em seu lugar.

Ele tinha razão.

— Faça o melhor que puder, Pemberly. Não espero um milagre.

— Muito bem, milorde.

Se Uzumaki já não tivesse reconhecido que se sentia estranho ao colocar esse seu plano em ação, pensaria estar nervoso. Isso, é claro, não fazia sentido, porque ele nunca ficava nervoso.

Ao descer a escada, notou que a dor no tornozelo quase sumira. Outras dores, porém, persistiam, especialmente uma sensação dolorida de desejo não saciado. Alguém, de fato, precisava alertar os homens sobre as moças respeitáveis.

— A carruagem está pronta? — ele perguntou a Jansen, aceitando o chapéu e as luvas.

— Sim, milorde. E o... resto, como o senhor ordenou.

— Ótimo. — Ele estava saindo, mas se deteve. — Espero voltar para casa esta noite. Se eu não voltar, desconfie de que estou correndo perigo.

O mordomo quase riu.

— Muito bem, milorde. Boa sorte, então.

— Obrigado.

Desceu os degraus e subiu no assento mais alto da pequena carruagem descoberta. O criado que viajava na traseira do veículo também se acomodou, e eles partiram.

Centenas de carruagens, carroças, cavalos e pedestres enchiam as ruas de Mayfair. Onze horas da manhã parecia ser a hora civilizada para visitar alguém, mas subitamente ele começou a pensar se não deveria ter escolhido um horário mais cedo. Se Hinata tivesse saído, ele não ficaria nada satisfeito. Mas ele a avisara de que a visitaria naquela manhã. Pelo relógio de bolso, ainda seria manhã por outros cinquenta e três minutos. Era melhor que ela estivesse em casa.

Chegou à residência dos Hyuuga com trinta e sete minutos de sobra. Seu criado segurou os cavalos enquanto ele descia da carruagem e caminhava até a porta da frente.

Pela expressão do mordomo, o homem não tinha ideia de quem ele era.

— Estou aqui para ver a srta. Hyuuga.

— Posso informá-la quem está à procura dela?

— Uzumaki.- O ar controlado do mordomo desapareceu.

— Uzumaki? S... sim, milorde. P... por favor, espere aqui, e eu verei se a srta. Hyuuga está... em casa.

A porta se fechou na cara de Uzumaki. Evidentemente, o cachecol discreto que Pemberly escolhera não tinha lhe dado um ar tão inofensivo, a ponto de obter acesso ao vestíbulo. Em outra ocasião ele poderia simplesmente ter aberto a porta e seguido o mordomo. Naquela manhã, contudo, esperaria.

Depois de cinco minutos parado à porta, mudou de ideia. Quando estendeu a mão para a maçaneta, porém, a porta se abriu.

— Por aqui, milorde.

Uzumaki seguiu o mordomo até a sala de estar.

— Lorde Uzumaki — o mordomo anunciou, abrindo a porta antes e se retirando.

Uzumaki entrou na sala e parou. Hinata estava sentada em um dos sofás, mas não estava sozinha.

— Srta. Hyuuga, lady Uchiha, srta. Haruno — ele disse, curvando-se, mas mantendo o olhar em Hinata, tentando compreender o calor que o percorreu quando seus olhares se encontraram.

Ela tentara manobrá-lo, providenciando testemunhas.

— Lorde Uzumaki — disse Hinata, sem se mover —, que gentileza sua passar por aqui nesta manhã.

Ele sorriu.

— Sinto-me um pouco embaraçado — murmurou, amaldiçoando Hinata em silêncio. Ela não sabia que ele não tinha ideia de como se portar como um cavalheiro? Poderia ao menos tê-lo avisado; assim, ele teria praticado um pouco de etiqueta antes de se aventurar a agir em público. — Pensei em levá-la a um piquenique hoje. — Ele apontou para o buquê. — Trouxe-lhe rosas.

— São adoráveis, não são, Hina? — comentou a srta. Haruno.

— São, sim. Obrigada.

Hinata sabia que Uzumaki queria vê-la sozinha. E também sabia que ele não fora até ali para levar-lhe rosas, desejar um bom dia e partir. A única defesa na qual conseguira pensar no curto espaço de tempo entre a noite anterior e aquela manhã, porém, fora convidar as amigas para uma visita.

— Ouvimos dizer que o senhor deixou a cidade por uns dias —- Tenten comentou, lançando a Hina um olhar rápido que claramente dizia: "Que diabos ele está fazendo aqui?" — Espero que esteja tudo bem.

Ele acenou que sim, caminhou até o sofá e, sem ser convidado, sentou-se ao lado de Hinata.

— Tive alguns nós a desatar —- explicou em tom ameno, o que surpreendeu Hinata. Ele nunca fora tão simpático, não sem uma razão.

De repente, percebeu que todos na sala a olhavam. Diga alguma coisa, falou a si mesma.

— Aceitaria um chá?

— Obrigado, mas não. Meu criado e a carruagem estão esperando por nós.

Ele estendeu o buquê, roçando de leve em seus dedos. Hinara engoliu em seco.

— Eu, ah... não sabia que o senhor gostava de piqueniques, milorde — disse Sakura.

— Hinata me aconselhou a passar mais tempo à luz do dia. Vamos, srta. Hyuuga?

— Não posso largar minhas amigas — respondeu ela, desejando que sua voz não soasse tão estridente. — Talvez em qualquer outra ocasião, milorde.

Os olhos azuis encontraram os dela, e Hinata sentiu o rosto queimar.

— Hoje — murmurou, inclinando-se para a frente —, ou usarei meu tempo para visitar o príncipe e finalizar minha transação.

—- Você não faria isso.- Ele abriu um sorriso.

— Mandei a cozinheira preparar sanduíches de faisão — ele continuou em um tom de voz mais alto. — É algo que a senhorita particularmente aprecia, não?

Sakura e Tenten continuaram em silêncio, acompanhando com interesse o que conseguiam ouvir da conversa entre Hinata e o marquês. Elas não se ofereceriam para sair, a não ser que Hinata deixasse claro que deveriam.

— Hina? — Hiroshi entrou na sala. — Langley me disse que Uzumaki veio... Ah, Uzumaki. Bom dia.

Mesmo sabendo das ambições políticas do irmão, Hinata não acreditou quando o viu estender a mão para Uzumaki. Ainda mais surpreendente foi ver o marquês se levantar e apertá-la.

— Bom dia. Estava tentando raptar sua irmã para um piquenique. Temo que ela acredite que você não aprovará.

Hinata engasgou, e esperou que todos atribuíssem seu desconforto à severidade de Hiroshi, e não à escolha de palavras do marquês. Uzumaki parecia muito confiante de que era ele agora quem ditava as regras, e não se acanhava de lembrá-la desse fato.

Pela expressão do irmão, ele não aprovava a presença de Uzumaki nem o convite para o piquenique. Por outro lado, ele tentara por muito tempo, sem sucesso, ser apresentado a Wellington, e ficara grato pela atitude do marquês.

— Creio que posso dispensar Hina por uma tarde — Hiroshi disse bem devagar. — Com uma acompanhante, é claro.

Claro. Uzumaki não poderia dizer nada que a incriminasse diante de sua criada. Hinata desejou ter pensado nisso.

Uzumaki também pareceu perceber que sua oportunidade para uma conversa privada ou para algo mais que esperasse conseguir estava desaparecendo.

— Eu trouxe um criado comigo. -Hiroshi sacudiu a cabeça.

— Aprecio o que fez por mim ontem à noite, Uzumaki, mas Hina só poderá ir se a criada a acompanhar.

— Muito bem, então.

Sakura e Tenten obviamente perceberam quem tinha vencido, porque ambas se levantaram.

— Eu preciso mesmo ir — Sakura disse, para manter as aparências. — Ten, você ainda quer ver os novos laços na Thacker's?

— Oh, sim. — A viscondessa beijou Hina no rosto. — Você está bem? — ela sussurrou.

Hinata acenou que sim.

— Apenas não esperava tê-lo transformado em um cavalheiro em tão pouco tempo — improvisou.

Sakura apertou sua mão.

— Nós nos veremos no recital de Lydia Burwell amanhã, não é?

— Na verdade — Hiroshi a interrompeu, pronto para acompanhar as moças até a porta —, Hina tem um chá político amanhã na casa de tia Houton.

— Então nos veremos amanhã à noite.

— Oh, sim. Não a perderia por nada.

— Perder o quê? — Uzumaki perguntou quando as moças já tinham se afastado.

— A peça Como Gostais, no teatro Druny Lane — ela respondeu.

— Título interessante. Agora, vá buscar sua criada, Hinata. Não vamos desperdiçar o dia, não é?

Um calor percorreu sua espinha. Uzumaki parecia estar disposto a manter o episódio do orfanato em segredo, mas ela não tinha dúvida de que ele estava com algum plano em mente, algum novo jogo.

— Você pode enganá-los, mas não me engana.

— Não preciso enganá-la — ele retrucou. — Você me pertence, lembra?

Não pela primeira vez, Hinata contemplou os benefícios de fugir de casa enquanto subia a escada para pegar as luvas e chamar Sally. Normalmente, queria escapar por causa das atitudes de Hiroshi. Agora, porém, qualquer fuga seria para proteger o irmão. Se ela desaparecesse, no entanto, ninguém seria capaz de impedir que Uzumaki destruísse o orfanato e o que restasse da reputação dela.

A não ser que ele estivesse blefando, é claro, mas não era um risco que ela quisesse correr. Não quando ainda tinha a chance de convencê-lo a ajudar as crianças.

Hinata e Sally desceram as escadas e encontraram Uzumaki e Hiroshi parados no vestíbulo. Ambos pareciam desejar desesperadamente estar em algum outro lugar. Se ela não estivesse tão nervosa, teria rido.

— Muito bem, milorde. Podemos ir?

— Podemos, sim. — Ele se voltou para Hiroshi, despedindo-se. — Hyuuga.

— Uzumaki. Espero Hina de volta às quatro horas.- Uzumaki pegou a mão enluvada de Hinata, colocando-a sobre seu braço, enquanto desciam os degraus da frente.

— Se eu conseguisse elegê-lo para o Parlamento, ele me concederia o direito de visitar sua cama à noite? — murmurou.

Provavelmente. Ela quase respondeu em voz alta, mas o bom-senso a fez se controlar.

— Sally e eu não cabemos na carruagem — observou.

— Cabem, sim.

— Não, não cabemos. Não com o seu criado lá também.

— Muito bem. Vamos a pé.

— A pé?

― Sim, a pé. Felton, leve a carruagem de volta para casa.

— Sim, milorde.

Uzumaki foi até a carruagem e pegou uma grande cesta de piquenique.

— Mais algum empecilho que deseje mencionar?

— Não. Acho que está tudo bem agora.

— Esplêndido. Então, vamos.

Ele ofereceu novamente o braço e, depois de hesitar, Hinata o aceitou. Com uma acompanhante, o contato físico era aceitável, e ela queria tocar em Uzumaki. Queria muito.

— Já esteve em algum piquenique antes? — perguntou.

— Não com uma guarda presente, em um lugar público, ou carregando uma cesta com sanduíches.

— Então o que... Ora, não importa. Não quero saber.

— Sim, você quer. — Uzumaki se virou para encará-la. — Você apenas acha que é educada demais para perguntar.

— Você apenas acha que tem de ser inadequado o suficiente para chocar as pessoas a cada sentença. Não se cansa disso?

— Está tentando me reformar outra vez, ou isso é apenas um comentário sobre os meus usuais maus modos?

Hinata suspirou.

— Não aprendeu nada? — ela sussurrou, para que Sally, que caminhava alguns passos atrás deles, não pudesse ouvir.

— Aprendi muita coisa. Aprendi que você gosta de algemar homens e beijá-los quando está no comando. Aprendi...

— Isso não é verdade. — Hinata sentiu o rosto arder.

— Não? Você gostou de fazer amor comigo, Hinata. Eu sei disso. — Ele ajeitou a cesta no braço. — Já tocou em alguém mais como me tocou?

— Não.

— Eu achava que não.

— Você, contudo, obviamente... tocou em muitas mulheres antes. Não sei por que continua a me atormentar pelo meu... deslize no que diz respeito à propriedade.

Ele riu, e o som baixo e sedutor fez com que várias mulheres que passavam na rua se voltassem para olhá-lo antes de cochicharem umas com as outras.

— Minha querida, você disse que queria me transformar em um cavalheiro. Não tenho o mesmo direito de transformá-la em uma mulher libertina?

— Isso me arruinaria, Uzumaki.

— Tudo o que precisamos fazer é ser discretos. Posso fazer do sexo uma condição para manter segredo sobre a sua pequena escapada, não é?

— Suponho que sim. Porém, lembrar-me de uma coisa horrível que você pode fazer, dificilmente vai me levar a desejar ser seduzida por você.

Dessa vez, ele caiu na gargalhada. Era a primeira vez que ela o ouvia fazer isso. Se ele não fosse tão terrível, ela já estaria completamente cativada.

— O que é tão divertido? — perguntou, recordando que, por mais desejável e charmoso que ele fosse, ainda a estava chantageando.

— Eu já seduzi você, meu amor — ele sussurrou. — E acho que gosta de mim porque sou horrível.

— Talvez isso seja verdade — ela admitiu, notando que lady Trent quase se chocara contra um poste ao olhar a comportada Hinata Hyuuga caminhando de braço dado com o marquês Uzumaki. — Mas talvez eu goste mais de você quando está sendo agradável.

Uzumaki ajeitou novamente a cesta no braço quando chegaram ao lado oeste de Hyde Park.

— Eu a convidei para um piquenique. Acho que isso foi amável da minha parte.

Hinata riu.

— Sim, se eu me esquecer que você ameaçou derrubar o orfanato caso eu não o acompanhasse.

— Você teria aceitado o convite se eu não a forçasse?- Vindo dele, isso soou um pouco infantil, uma pergunta ingênua, mas ele parecia querer mesmo saber a resposta. E Hinata diria a ele a verdade, como sempre fazia.

— Não sei — disse devagar. — Eu... eu sei que você disse que não ia mandar me prender, mas eu...

— Quer a minha palavra de que não tocarei no orfanato — ele completou, um pouco distraído com o calor da mão de Hinata em seu braço. — É isso?

Honesta como ela era, jamais voltaria para a cama com ele se não fizesse a promessa. Uzumaki respirou fundo. Esperara seis anos por uma oportunidade de se livrar do lugar. Podia esperar um pouco mais, até que saciasse totalmente o desejo que sentia por Hinata.

— Então eu lhe dou minha palavra. Tem quatro semanas para me convencer a deixar o orfanato de pé. Mas eu a aviso de que vai precisar se esforçar muito para me convencer.

Pela expressão de Hinata, ela não sabia o que fazer em seguida. Para ele, estava bom. O prazo de quatro semanas serviria para descobrir por que se tornara tão obcecado por ela, satisfazer esse tomento e terminar o romance. Se ele não fizesse isso, ela o faria, porque em quatro semanas o orfanato se tornaria parte do parque do príncipe de Gales.

— Aqui é maravilhoso — Hinata disse, parando sob enormes carvalhos.

Uzumaki olhou em volta e achou o lugar cheio demais.

—- Muitas testemunhas. — Ele queria ir mais para dentro do parque.

Ela soltou seu braço.

— Isto é um piquenique, não é? Por que se importa que as pessoas nos vejam?

Porque você é a sobremesa que eu quero, Uzumaki pensou.

— Aqui — ele resmungou —, no meio de todos?

— É um lugar agradável e bonito.

— Mas eu não vou poder beijá-la sem arruinar a sua reputação. E você insiste que ela não seja arruinada, se me lembro bem.

Com uma risada, Hinata tomou o braço dele outra vez.

— Fique quieto. Falar sobre isso é tão ruim quanto fazer.

— Mas nem de perto tão divertido. — Começando a imaginar se não entrara no pesadelo de alguém, Uzumaki meneou a cabeça, desanimado. — Você exige muito, não é?

Ela sorriu.

— Não é tão difícil, quando você se acostuma. Trouxe uma manta para colocarmos no chão?

— Não sei. Mandei que preparassem uma cesta de piquenique.

— Vamos ver, então.

Hinata parecia estar se divertindo, sem dúvida a sua custa. Porém, uma vez que o bom humor fazia os olhos dela brilharem e um leve rubor cobrir seu rosto, ele podia tolerar isso.

A cesta continha uma manta azul. Uzumaki pegou-a e a estendeu sobre a grama.

— Agora o quê?

— Coloque a cesta no centro da manta, e nos sentamos.

Uzumaki apontou para Sally.

— E a nova algema? Onde ela fica?

Hinata ruborizou diante da escolha das palavras. Uzumaki gostava quando ela ruborizava. Fazia com que parecesse tão... pura.

— Sally se sentará em um dos cantos da manta — disse ela, enquanto ele posicionava a cesta no lugar adequado.

Hinata se ajoelhou, com o vestido verde a sua volta. Uzumaki a observou por um momento; o penteado perfeito, a curva delicada do pescoço enquanto examinava o conteúdo da cesta e tirava de lá uma garrafa de vinho. Engoliu em seco. Ele a desejava de novo, queria despi-la e beijar a pele macia.

— Não vai se sentar?

Ele se sentou, cruzando as pernas a sua frente. O que estava fazendo com aquela deusa da graça? E o que ela estava fazendo com ele?

— Está muito quieto — Hinata comentou, e lhe estendeu a garrafa de vinho. — E este é um excelente Cabernet.

— Combina com o faisão. Tenho um frasco de gim, se preferir.

— Vinho é esplêndido. — Tirando duas taças da cesta, ela as entregou a Uzumaki. — Agora sirva.

Ele procurou deixar de lado os devaneios. Estava se comportando como um aldeão tolo. O marquês Uzumaki não ficava encantado com mulheres, particularmente depois de tê-las levado para a cama. Conseguiu arrancar a rolha da garrafa.

— Um Cabernet é mais gostoso sobre a pele nua — ele observou —, mas já que isso não é possível agora, as taças terão de servir.

As taças tremeram um pouco nas mãos de Hinata enquanto ele as enchia.

— Você escolheu um dia adorável para o nosso piquenique — ela disse com a voz um pouco estridente.

— Ah, agora vamos falar sobre o tempo? — Uzumaki colocou a garrafa sobre a toalha e pegou uma das taças da mão de Hinata, roçando seus dedos. Parecia imperativo que a tocasse em cada oportunidade.

— O tempo é sempre um assunto seguro.- Ele tomou um gole do vinho.

— Um assunto seguro. Fascinante.- Hinata baixou os olhos.

— Não, é tolo.

Evidentemente ele dissera alguma coisa errada. Ser um cavalheiro era mais difícil do que imaginara.

— Não é. De verdade. Este é um território novo para mim. Normalmente neste momento em um piquenique eu estaria nu. Há outros assuntos seguros?

Ela lhe dirigiu um olhar cheio de suspeitas.

— O tempo é o mais seguro, já que todos sabem alguma coisa sobre ele. Moda é um tema controvertido, a não ser que alguém lamente a nova decadência de estilo e...

— Decadência. Gosto disso.- Hinata sorriu.

— Eu sei. E deplorar a valsa com a geração mais antiga é seguro, pela mesma razão. Falar mal de Bonaparte e dizer que a América não é um lugar civilizado são outros assuntos seguros.

— Então é mais seguro não gostar de nada.

Ela hesitou por um momento, tomando um gole exagerado de vinho.

— E não aprovar nada, e não fazer nada.

— Ah, Hinata... Eu não tinha ideia que era uma cínica. — Uzumaki tentou decifrar sua expressão. — Mas isso é apenas o que você diz para a seleção de idiotas que seu irmão lhe apresenta para angariar votos. Porque você, minha querida, é muito mais interessante do que a criatura sem graça que acabou de descrever.

Para sua surpresa, os olhos de Hinata se encheram de lágrimas. Antes que ele pensasse em como se desculparia por algo que dissera de errado, ela sorriu.

— Lorde Uzuamaki, acaba de me dizer uma coisa muito amável.

Ele mexeu na cesta para disfarçar seu embaraço.

— Que incomum da minha parte — resmungou, pegando um sanduíche. — Faisão?

O sol estava se escondendo atrás das árvores quando Hinata pediu a Uzumaki que consultasse seu relógio.

— Vinte para as quatro — disse ele, devolvendo o relógio ao bolso como se o objeto tivesse feito alguma coisa errada.

Ela tampouco ficou animada ao descobrir que era tão tarde. O passeio fora tão agradável que ela nem mencionara o orfanato. Uzumaki lhe dera um mês para convencê-lo, e ela desperdiçara quatro horas. Caso se atrasasse, Hiroshi dificultaria ainda mais seus encontros com Uzumaki.

— Precisamos ir.

Com uma careta, ele se levantou e lhe ofereceu a mão.

— Suponho que raptá-la esteja fora de questão. — Ele se inclinou para sussurrar em seu ouvido: — Está bem, já tentamos alguma coisa assim, não foi?

— Pare com isso — ela protestou, porque o tom intimista da voz dele provocara arrepios em seu corpo.

Uzumaki guardou o resto do almoço na cesta e dobrou a manta antes de guardá-la.

— Suponho que não vá querer dar uma voltinha entre aqueles arbustos para...

— Uzumaki!

O marquês deu uma espiada em Sally.

— Para darmos um aperto de mão antes de irmos embora?

Claro que a criada sabia bem a que o marquês se referia, mas era uma pessoa discretíssima.

— Nenhum aperto de mão.

Hinata colocou a mão no braço dele ao deixarem Hyde Park. Mesmo com Uzumaki se comportando corretamente, ainda se sentia como uma gatinha caminhando ao lado de uma pantera. As unhas podiam estar recolhidas, mas ele era uma força a ser temida.

— Está sendo difícil me sentir com as mãos atadas, Hinata Marie.

Hinata sentiu um calor no corpo ao ver a expressão de desejo nos olhos de Uzumaki. Ela também o desejava. Durante o piquenique, sentira vontade de beijá-lo uma dúzia de vezes. Mais do que tudo, queria estar outra vez em seus braços.

— Quem mais seu irmão quer conhecer? — perguntou Uzumako.

— Wellington era a pessoa mais visada porque Hiroshi gostaria de ter um cargo no gabinete. Porém, já que ele perdeu o apoio de Gladstone, Alvington agora é quem poderá lhe garantir votos para conseguir um assento no Parlamento. Como você conseguiu convencer Wellington a falar com Hiroshi?- Uzumaki deu de ombros.

— Ouvi dizer que seu irmão desejava conhecer Wellington, e eu queria ver você. Wellington gosta muito de licor, e por acaso eu tenho em casa os melhores. Da ajuda de quem mais o seu irmão precisa? Posso arranjar.

Hinata parou abruptamente.

— E o que espera em troca disso?

— Mais tempo com você.

— Milady — Sally disse baixinho atrás dela —, o sr. Hyuuga.

Ela viu o irmão parado junto ao pórtico da frente, com o relógio de bolso na mão e uma careta no rosto.

— Oh, Deus!

— Não estamos atrasados — Uzumaki disse. — Ele age como um alcoviteiro. Devo lembrá-lo de que não é uma mulher da vida que ele agencia?

O tom era baixo, mas Hinata percebeu a raiva de Uzumaki. E por sua causa.

— Não vai dizer nada. Só vai piorar o humor dele, o que com certeza não vai me beneficiar.

— Talvez não, mas melhoraria bastante o meu. Não gosto que controlem o tempo que posso passar com alguém.

— Uzumaki, por favor...

— Não vou irritá-lo desta vez, mas, por favor, lembre-se de que estou me esforçando para me controlar.

Hinata sentiu uma enorme vontade de beijá-lo na boca, mas, se fizesse isso, Hiroshi desmaiaria.

— Não vou me esquecer.

— Acredito que tenham passado uma tarde agradável — disse Hiroshi, enfiando no bolso o relógio e descendo a escada da frente.

— Sim, foi ótima.

Ele pegou o braço livre de Hinata, mas Uzumaki não soltou o outro.

— Sua irmã é adorável.

— Oh, sim, ela é sempre muito simpática.- Hinata tossiu, desviando a atenção dos dois.

— Meu Deus, quantos elogios! Obrigada a ambos. E lhe agradeço pelo piquenique, milorde.

Com um suspiro, Uzumaki por fim soltou seu braço.

— Obrigado, srta. Hyuuga — ele retrucou. — E a senhorita estava certa.

— Sobre o quê?

— Sobre a luz do dia. É excepcional. Hyuuga, srta. Hyuuga.

— Uzumaki.

Quando o marquês se afastou, Hiroshi apertou o braço da irmã.

— O que foi aquilo? — ele perguntou, praticamente arrastando-a para dentro da casa.

Langley fechou a porta antes que ela pudesse espiar e ver se Uzumaki olhava ou não para trás. Não era importante, mas ela gostaria de saber se ele começava a sentir sua falta, e se continuava pensando nela quando estavam separados.

— Do que está falando?

— Do comentário sobre a luz do dia.

— Eu disse a ele que deveria sair mais durante o dia.

— Ah... — Hiroshi a soltou e seguiu para o escritório.

— Você também poderia aproveitar o conselho. -Ele olhou para trás.

— O quê?

— Poderia aproveitar mais a luz do dia.

— Apenas porque Uzumaki me apresentou a Wellington, não pense que vou me tornar amigo desse patife. Ele me fez um favor, e por isso eu permiti que fosse visto com você em um piquenique. Não se acostume. Não devo mais nada a ele.

Hinata suspirou.

— No caso de querer saber, ele se portou como um perfeito cavalheiro.

— Porque você agiu como uma dama. Suponho que devo congratulá-la nessa sua determinação de me irritar.

Hinata Hyuuga, advogada das massas oprimidas, almoçando com um homem que vai derrubar um orfanato. Não se ela pudesse evitar.

— Sim, Hiroshi — murmurou, seguindo para a sala de estar —, obrigada por me lembrar disso.

X

Uzumaki sentou-se a uma mesa de jogo no clube dos nobres.

— O que diabos é um chá político de damas?

O visconde Neji Uchiha, terminou de fazer sua aposta, endireitou-se na cadeira e estendeu a mão para pegar seu vinho do Porto.

— Tenho cara de dicionário?

— Está domesticado. —- Uzumaki pegou sua bebida. — , O que é esse chá?

— Não estou domesticado. Estou apaixonado. E você devia tentar isso. Não imagina como melhoraria a sua vida.

— Vou acreditar na sua palavra, obrigado. Mas se está apaixonado, o que está fazendo aqui? Onde está a sua esposa?

Neji esvaziou o cálice e o encheu de novo.

— Um chá político, eu creio, é uma arena onde as damas discutem como podem ajudar os homens em suas ambições políticas. E quanto a sua outra pergunta, não é da sua conta onde minha esposa está, e sugiro que a deixe fora disso.

Uzumaki notou o olhar tenso de Neji.

— Nunca olhei para sua mulher, Neji, e sabe bem disso. Se deseja brigar, estou à disposição, mas preferiria compartilhar uma bebida.

— Eu prefiro não fazer nem uma coisa nem outra com você, Uzumaki. Hina é minha amiga. Concorde em não procurá-la mais, e eu beberei com você.

Poucas semanas antes, Uzumaki não teria pensado duas vezes em contar a Neji e a quem quer que fosse que Hinata Marie gostara, e muito, de suas atenções. Mas naquela noite, sem querer analisar o motivo, não comentaria nada a respeito de sua intimidade com Hinata. Levantou-se.

— Nem uma coisa nem outra, então. Por esta noite.

Ele saiu do clube, deixando para trás os jogadores surpresos. Ficou imaginando o que tinha em mente para a inocente Hinata Hyuuga. Ela não era mais tão inocente, mas isso não era assunto de ninguém. Nem eles precisavam saber que ele ainda desejava o corpo dela, a sua voz, e até o seu sorriso quente e doce. Supunha que no chá das damas, político ou não, homens não entrassem, mas havia ainda a tal peça de Shakespeare no Drury Lane Theatre. Ele veria Hinata outra vez no dia seguinte, não importava quem não quisesse que isso acontecesse.

Seguiu para casa, espantado ao constatar que ainda era cedo. Como vinha acontecendo nas últimas noites, no entanto, não sabia bem o que fazer. Suas habituais distrações, como as casas de jogos e os clubes cheios de mulheres fáceis, já não o interessavam. Queria apenas uma mulher. Não iria descarregar o desejo frustrado em outra.

Sentiu um calor nas veias ao pensar em Hinata. A sensação o revigorou, tornando-o mais consciente, mais vivo do que ele se lembrava de ter se sentido em anos. Estar na presença dela, vendo-a, conversando e sendo incapaz de tocá-la como desejaria, era uma tortura estranha, e somente suportável porque prometera a si mesmo que a possuiria de novo.

Seu cavalo diminuiu o passo e parou, e Uzumaki percebeu que chegara às proximidades da Mansão Hyuuga de novo. Havia luz em uma janela apenas, e ele ficou pensando se Hinata também não conseguia dormir. Esperava que fosse assim, e que estivesse pensando nele.

Fez o garanhão seguir adiante. Qualquer que fosse o esforço, ele tornaria Hinata Hyuuga sua amante. Não queria ninguém mais, e não aceitaria que ela o recusasse. Mas agora sabia do que ela gostava, e simplesmente a convenceria.