NARUTO NÃO ME PERTENCE- E SIM A MASASHI KISHIMOTO
ESTA HISTÓRIA TAMBÉM NÃO- É UMA ADAPTAÇÃO DO LIVRO DE SUZANNE ENOCH!
― Eu me recuso a aceitar a corte de Shino Alvington em troca de seu lugar no Parlamento! — Hinata gritou, andando de um lado para o outro diante da lareira da sala.
Hiroshi ergueu os olhos do jornal por um instante antes de voltar a ler.
— Ele tem boa aparência e vem de uma boa família. Além disso, lorde Alvington me garante votos suficientes para derrotar Plimpton.
— Ele é um idiota! — ela explodiu. — E se veste como um babuíno! Não se importa que eu vá ser infeliz?
— Shino parece gostar de você, querida — a mãe comentou. — E tem de admitir que nunca escolheu ninguém por sua conta.
— Jamais escolheria alguém como Shino. Hiro, você nem sequer conversou comigo a esse respeito. Em vez disso, sou obrigada a esbanjar meu charme, ouvindo um idiota recitar um estúpido soneto, que nem mesmo era um soneto.
Hiroshi levantou os olhos do jornal outra vez.
— O marquês Uzumaki pareceu gostar da poesia.
— O marquês estava caçoando — Hinata rebateu. — Pelo amor de Deus! Eu também teria rido, se não estivesse ocupada demais tentando não vomitar. O jornal foi largado.
— Chega, Hina! Nada foi decidido ainda. Shino Alvington tem apenas expressado interesse por você. E ele é inofensivo. Uma aliança me ajudaria, e um casamento com ele pouco mudaria seu calendário social.
— Eu...
— Como mamãe disse, você teve cinco anos para encontrar alguém. Shino manteria, e até mesmo elevaria sua posição na sociedade, e pelo menos um de nós tem um uso para ele, o que é mais do que se pode dizer de outros conhecidos seus. Conversando outra vez com ele esta noite.
Hinata apontou o dedo para o irmão.
— Não vou me casar com ele. Prefiro ficar solteira — anunciou, saindo da sala.
No caminho, quase topou com Langley.
— Peço-lhe desculpas, srta. Hyuuga — disse o mordomo, embaraçado.
— Vou sair.
— Ótimo. Então também sairei.
Somente então ela notou quem estava ao lado do mordomo, esperando para ser anunciado. Uzumaki. Mesmo estando brava e desapontada com ele a ponto de querer gritar, seu corpo ainda reagia na presença do marquês. Seu coração disparou.
— Não vou sair com você.
— Mas tenho algo a lhe mostrar — ele murmurou, passando por Langley como se o mordomo tivesse deixado de existir.
Ele não podia estar tentando seduzi-la agora. Não depois do que fizera.
— Não vou.
Uzumaki tocou-a de leve no braço.
— Venha comigo — ele sussurrou, inclinando-se para encostar os lábios em seus cabelos. — Conheço todos os seus segredos, lembra?
Alguém estava correndo o risco de levar um soco.
— Eu odeio você — ela murmurou, e então olhou em direção à sala onde estivera. — Hiro, lorde Uzumaki, aquele que o apresentou a Wellington e acredita que você lhe deve um favor, deseja me levar ao Zoológico. Sally e eu voltaremos a tempo para o almoço.
Hiroshi resmungou alguma coisa que soou como um consentimento. Mandou Langley chamar Sally e seguiu para o vestíbulo, seguida pelo marquês. Todos pareciam felizes em determinar o curso inteiro de sua vida sem nem ao menos consultá-la. Seus protestos, seus gritos, nada fazia diferença.
— Deixe-me adivinhar — Uzumaki disse. — Estou interrompendo o agendamento de um passeio com Shino Alvington, por acaso?
Até o marquês percebera os planos de Hiroshi.
— Você me chantageou, obrigando-me a acompanhá-lo — ela resmungou —, mas não vou conversar com você.
— Como quiser, minha flor.
Sally desceu apressadamente a escada para se unir aos dois, e Hinata seguiu para a porta. Qualquer que fosse o plano dele, a presença da criada o impediria de tentar seduzi-la. E como ela queria mesmo sair daquela casa, até Uzumaki parecia útil no momento.
— Espero que fique impressionada. Trouxe uma carruagem enorme. Tem certeza de que não deseja incluir o mordomo e o jardineiro em nosso passeio?
Já que ela não falaria com ele, apenas aceitou a ajuda de um criado para subir no veículo. Percebeu que deveria ter perguntado aonde eles iriam antes de se decidir a não falar mais nada. Com a criada presente e com a família sabendo que ela voltaria para o almoço, contudo, ele não teria muito tempo para suas artimanhas. Ela lhe lançou um rápido olhar. Uzumaki poderia fazer muita coisa em pouquíssimo tempo. Ela aprendera isso em primeira mão no teatro.
Depois de quinze minutos, ficou óbvio que eles não estavam indo nem para o Zoológico nem para Hyde Park.
— Aonde estamos indo? — ela indagou, por fim.
— Pensei que não fôssemos conversar.
— Isto não é uma conversa. É uma pergunta sobre o nosso destino. Por favor, responda.
— Não. É uma surpresa.
Muito bem. Ele queria ser difícil. Bem, ela podia ser difícil também.
— Está lembrado do meu ódio por você?- Uzumaki acenou que sim, e seu olhar endureceu.
— Lembro-me de vários de seus comentários a meu respeito. Espero uma desculpa para cada um deles.
— Nunca.
— Nunca é um tempo longo demais, Hinata Marie.
— Precisamente.
Eles entraram em uma rua antiga, ladeada por árvores. Pouco depois, a carruagem em que estavam parou atrás de uma outra, negra e enorme. Uma sensação estranha a invadiu. Ela o raptara, e não podia encontrar uma razão para que ele não fizesse o mesmo com ela. A rua, calma e atualmente pouco frequentada, seria o cenário perfeito para isso.
Uzumaki prendeu as rédeas e saltou do veículo. Deu a volta e estendeu os braços para ajudá-la a descer. Hinata não queria tocá-lo porque, quando o fazia, não conseguia se lembrar do patife que ele era. Porém, precisaria aceitar a ajuda. Respirando fundo, levantou-se. Uzumaki colocou as mãos em sua cintura para colocá-la no chão.
— Solte-me — ela murmurou, com o olhar fixo em sua gravata. Não queria fitá-lo. Beijos e carícias e todo tipo de tolices se seguiriam, e ela estava brava demais com Uzumaki para permitir que isso acontecesse.
— Por ora — ele retrucou, soltando-a. — Vamos?- Sem esperar por uma resposta, ele se dirigiu para a maior das casas. Com a curiosidade vencendo a cautela, Hinata o seguiu. À porta, encontraram um senhor de idade, que mancava um pouco.
— Lorde Uzumaki, presumo? — ele perguntou, estendendo a mão para cumprimentá-lo.
— Sir Peter Ludlow. Obrigado por concordar em se encontrar comigo aqui.
— Não foi problema algum. — Ele olhou para Hinata. — O senhor e sua dama gostariam de visitar a casa?
— Sim, por favor — Uzumaki respondeu antes que ela pudesse falar algo e ofereceu-lhe o braço. — Obrigado mais uma vez.
Bem, ele certamente estava sendo educado. Com Sally vindo logo atrás, entraram na velha mansão. Os passos ecoaram no enorme espaço vazio, e Hinata apertou os dedos no braço de Uzumaki. Qualquer que fosse a intenção dele, não o deixaria sumir de sua vista até que eles saíssem dali.
— Como o senhor deve ter visto ontem — disse sir Peter —, a maior parte da mobília e das cortinas já estragou faz tempo, mas o chão está bom, e as paredes e o teto foram consertados após os danos causados pela chuva no último inverno.
— São quantos cômodos mesmo? — Uzumaki perguntou.
— Vinte e sete. Isso inclui duas salas de estar, a biblioteca, e a sala de refeições embaixo. O salão de baile e a sala de música ficam no terceiro andar, e a de jantar fica no final deste corredor. Há uma dúzia de quartos para os criados no andar de baixo, ao lado da cozinha e da despensa.
— Uzumaki... — disse Hinata, começando a imaginar se ele pensava mesmo em mantê-la prisioneira na enorme casa velha.
— Quietinha — ele murmurou. — Por que não vamos ver a sala de jantar?
Poucos metros adiante, sir Peter abriu uma porta dupla. A sala tinha um ar medieval, com espaço para talvez setenta e cinco convidados na imensa mesa retangular.
Uzumaki tirou um papel do bolso, assinou-o e o entregou a sir Peter. Hinata pensou ter visto o homem arregalar os olhos por um momento antes de aceitar o papel.
— Pode mandar seu advogado falar com o meu — ele disse, tirando uma chave do bolso. — E o senhor fica com isto agora.
O marquês pegou a chave e estendeu a mão.
— Obrigado, sir Peter.
— Eu lhe agradeço, meu rapaz. Gosto de um sujeito que não me faça barganhar. — Ele tocou no chapéu, despedindo-se de Hinata, — Bom dia, milady.
Logo que a porta se fechou, Hinata largou o braço de Uzumaki.
— Você obviamente quis que eu testemunhasse isso. Então, vamos lá, o que está acontecendo?
Uzumaki contraiu os lábios.
— Mande sua criada sair.
— Não.
— Então não lhe conto nada.
Ele falava a sério. Hinata o conhecia o suficiente para saber disso. Com uma careta, voltou-se para a criada.
— Sally, por favor, espere do lado de fora, mas volte daqui a cinco minutos.
Quando ela saiu, Hinata voltou sua atenção ao marquês.
— Muito bem, estamos sozinhos. E o que tiver em mente, apenas se lembre de que mereceu o que fiz com você.
Uzumaki a olhou por um longo momento.
— E você merece isto — ele disse, estendendo-lhe a chave. — Parabéns.
Hinata estremeceu, mas pegou a chave, em parte porque queria ser capaz de escapar caso ele tentasse prendê-la, em parte porque desejava tocá-lo.
— Está me dando uma casa velha?
— Não, Estou lhe dando um novo orfanato.
— O quê?
— Será mobiliado no estilo que escolher. E contará com a criadagem necessária, apesar de eu me sentir compelido a protestar contra a presença da sra. Natham.
Apertando a chave, Hinata fitou-o, abismada. Aquilo não fazia sentido. Ele finalmente escapara da obrigação de administrar um estabelecimento que detestava apenas para comprar outro?
— Por quê?
— Falei com o príncipe, mas ele não quer correr o risco de um escândalo com minha mudança de planos, pois a maldita história já foi publicada no jornal.
— Mas você odeia o orfanato. Por que vai passar por isso de novo?
Um sorriso surgiu em sua boca sensual.
— Eu disse que consertaria as coisas.
Seu coração batia com tanta força que temia que Uzumaki pudesse ouvi-lo.
— Então você fez isso... por mim?
— Sim.
— Não sei o que dizer, Uzumaki. Isto é... extraordinário.- Ele sorriu de novo.
— Mas? —- ele se adiantou, o velho cinismo surgindo em seu olhar. — Há alguma coisa. Posso ver em seu rosto.
— É que eu esperava que você tivesse feito isso pelas crianças, e não por mim.
— Maldição, Hinata! — ele explodiu. — Tudo o que faço tem de ser pela razão certa, ou sem motivo algum? Eu estou cansado e um pouco confuso com tudo isso; assim, por favor, explique por que eu não deveria estar fazendo isto por você.
— Eu...
— Explique por que acha que não merece isto — ele a interrompeu, aproximando-se dela. — Não era o que ia dizer?
— Uzumaki, eu...
—- Explique por que não deveria ser para você. — Ele tomou-lhe o rosto entre as mãos. — E explique por que você não deveria estar grata e por que eu não deveria beijá-la agora.
Ele roçou os lábios de Hinata.
— Estou grata — ela conseguiu dizer, controlando-se para não abraçá-lo. — Muito grata. Mas...
— Doce Lucífer, você me atormenta — Uzumaki sussurrou e a beijou.
Hinata não pôde responder a nenhuma outra pergunta porque estava ocupada demais beijando o marquês.
X
A Hinata que Uzumaki levou de volta para a casa dos Hyuuga estava bem mais falante do que no início do passeio.
— Acha que podemos dividir o grande salão em pequenas salas de aula? — ela perguntou.
Uzumaki observou-a por um instante.
— Sou o seu departamento de finanças. Você é quem toma as decisões. É só me pedir, e eu providenciarei tudo.
— Você sabe quanto isso vai custar, não é?
Uzumaki sorriu de leve, sentindo um agradável calor percorrer seu corpo.
— Você sabe?
—- Oh, eu sei que será um trabalho enorme, mas se contratarmos as pessoas certas, acho que conseguirei resolver.
Então, ela continuaria mantendo seu envolvimento com o orfanato em segredo. A angelical e rica Hinata seria uma bênção para os Alvington. Seu comportamento apropriado era ainda um bônus para o irmão, que a tornaria parte da barganha. A não ser que alguém interferisse no processo.
— Tenho certeza de que será capaz de cuidar de tudo, mas não me referi a isso.
— O que quis dizer, então?
— Tudo tem um preço, Hinata. Acha que estou disposto a gastar mais de vinte mil libras sem algum motivo?
— Mas... mas você disse que fez isso por mim.
A mágoa na voz dela o perturbou, mas ele se obrigou a prosseguir.
— Eu fiz, mas nada é de graça.- Hinata ergueu o queixo.
— Qual é o seu preço, Uzumaki?
— Conte tudo a sua família.
O sangue sumiu do rosto de Hinata e, por um instante, Uzumaki achou que ela fosse desmaiar. Segurou-a com firmeza. Talvez aquilo não fosse pelo bem dela, mas com certeza era pelo seu. Se afetasse a reputação dela de alguma forma, poderia mantê-la para si.
— O quê?
— Você me ouviu. — ele lançou um olhar para Sally. —- Conte a sua família que está doando seu tempo e dinheiro a um orfanato e, que graças ao seu intenso trabalho e dedicação, as crianças serão transferidas para um lugar melhor, onde poderão levar uma vida digna. E diga que pretende continuar devotando tempo a esse projeto.
— Uzumaki, eu não posso. — Balançou a cabeça, agoniada. — Você não entende. Hiroshi iria...
— Não precisa mencionar o meu nome, mas diga a ele o que está fazendo.
— Não.
— Então retiro a minha oferta.
— Não pode fazer isso!
Uzumaki curvou os lábios em um sorriso.
— Minha querida, posso fazer o que eu quiser. Ainda não se conscientizou disso?
— Você vai destruir a minha vida. — Hinata tremia. — Não percebe as consequências de sua exigência? Ou apenas não se importa? ― Por um momento, ele ficou em silêncio. Hinata tinha razão; ele sabia muito bem como Hiroshi reagiria se ela confessasse. Não deveria se importar. Ele fazia o tempo todo coisas para se divertir à custa de quem lhe devia algo. Aquilo não era diferente... exceto pelo fato de aparentemente ser.
— Então faça uma contraoferta — ele sugeriu, intimamente chamando-se de idiota. — O que você me daria no lugar dessa confissão?
— Não sei.
— Lamento, mas isso não soa tentador.
— Posso pelo menos pensar em alguma coisa?
— Tem vinte e quatro horas, minha querida. —- Ele voltou a olhar a criada.
— Se mencionar esta conversa a alguém, eu ficarei sabendo. E não quer que isso aconteça, certo, Sally?
A criada arregalou os olhos.
— Não, milorde.
— Achei que não quisesse.- Hinata o fitou, aliviada.
— Por favor, não ameace minha criada, lorde Uzumaki.
Eles chegaram à casa dos Hyuuga, e ele aproveitou a oportunidade para se inclinar e sussurrar no ouvido de Hinata.
— Eu a possuiria neste instante, se permitisse, Hinata. Ofereça-me o seu corpo.
— Tenho vinte e quatro horas para lhe dar uma resposta. — A voz de Hinata soou um pouco trêmula e o rubor voltou ao seu rosto.
— Não consegue me tirar de seus pensamentos, não é? — ele continuou em voz baixa enquanto Sally e o criado dele desciam da carruagem. — Você me deseja.
— Sim — ela murmurou, e então deixou que os criados a ajudassem a descer do veículo. — Obrigada pelo passeio ao Zoológico, lorde Uzumaki — falou em voz alta. —-Eu transmitirei ao meu irmão os seus cumprimentos.
Antes que ele pudesse descer e interceptá-la, Hinata já corria para a casa. Isso era bom, porque depois do que ela respondera, não tinha certeza de que conseguiria se comportar com algum decoro.
Enquanto a carruagem saía da rua, ele viu outra chegando. Shino Alvington.
Maldição!
X
Jansen abriu a porta da casa e entregou-lhe a correspondência. Haveria um baile na casa dos Hillary naquela noite, além de outros eventos sociais, e se Uzumaki quisesse sobreviver a tudo isso, precisava se deitar por pelo menos uma ou duas horas. Poderia ficar em casa e dormir, mas não queria perder qualquer chance de ver Hinata.
Aquilo não poderia durar muito, pois Hiroshi a casaria com Shino Alvington. E quando isso acontecesse, o que ele faria? Ficaria nas sombras, olhando para a janela de Hinata? Prejudicar a reputação dela ante os Alvington parecia sua melhor chance de mantê-la, mas isso faria o irmão tornar sua vida um inferno.
— Maldição — ele resmungou, jogando-se na cama.
Hinata consumia todos os seus pensamentos. O únicos momentos em que se sentia ele mesmo era quando estava ao lado dela e, ainda assim, quase não reconhecia o homem relativamente agradável e bem-humorado no qual se transformara. Devia ter enlouquecido. Caso contrário, nunca teria gastado todo aquele dinheiro em um orfanato, do qual seria o único benfeitor.
Porém, o novo orfanato parecia ser sua única garantia de continuar vendo-a com regularidade. Era isso ou se casar com ela.
Uzumaki empertigou-se.
Aquele era o pensamento mais ridículo que já tivera. Claro, estava obcecado por Hinata, reconhecia isso. Mas casamento? Se havia algo que sabia desde que descobrira como as mulheres podiam ser interessantes, era que seguiria o exemplo do pai. Viveria como um libertino até ficar velho, e então se casaria para ter um filho legítimo antes de morrer.
Não queria que Shino Alvington nem sequer a tocasse, mas casar-se com ela para evitar que isso acontecesse parecia uma atitude extrema. Tampouco tinha certeza de que Hinata aceitaria se casar com ele.
Sexo era uma coisa. Ninguém sabia que eles estavam se relacionando. Porém, sendo Hinata tão presa ao que era considerado decente, unir seu nome ao dele e deixar que todos soubessem que ela se casara com um patife com uma horrível reputação... Provavelmente ela iria preferir entrar para um convento, o que seria até pior do que um casamento com Alvington.
Cansado e frustrado, Uzumaki levantou-se da cama e começou a andar de um lado para o outro. O que ele estava fazendo? Como podia estar pensando naquelas coisas? Talvez isso se devesse ao fato de ela ser praticamente a única mulher que ele vira e tocara e com quem conversara em um mês. Era isso. Não estava acostumado com um relacionamento monogâmico, e essa situação inusitada abalara sua mente e seu corpo.
— Bom Deus — resmungou, massageando as têmporas e afundando em uma confortável cadeira diante da lareira.
Sabia que não conseguiria ir a lugar algum procurar outra pessoa. Desejava Hinata Hyuuga, e gastar suas energias em outro local não mudaria nada. Não, ele ficaria em casa e dormiria um pouco. Depois, frequentaria os eventos mais apropriados, na esperança de encontrar Hinata em um deles.
X
Hinata tocou o pingente de prata e diamante enquanto Sally ajeitava a gola de seu vestido. Era um pouco elaborado demais para uma festa pequena, mas ela se sentia tão feliz com o ato generoso de Uzumaki que queria usá-lo.
Ele salvara as crianças, mas algo mais importante acontecera; ele agira de forma diretamente oposta aos próprios interesses. E fizera isso por ela.
A mãe bateu à porta e entrou no quarto.
— Está usando o vestido de seda verde? Oh, sim, bom. Ele faz seus olhos brilharem mais.
— Não vou encontrar um marido na reunião literária de lady Bethson, mamãe — ela observou. — Portanto, dificilmente importa a roupa que eu estiver usando.
A mãe franziu o nariz.
— Não tenho idéia de por que Hiro ainda permite, que você compareça a essas festas sem sentido. Ele gosta muito de você, apesar de sua tendência a acreditar o contrário. Certamente, nenhum bem pode vir de um grupo de mulheres tolas e de velhos pretensiosos parafraseando gente morta.
— Ora, mamãe, a senhora não sabia que o primo de lady Bethson é ministro das Finanças do príncipe George? Estou cultivando a amizade dela por essa razão, para ajudar Hiro. E estou feliz em fazer isso, porque ela é uma pessoa adorável.
— Bem, Hinata, não se esqueça de que vamos tomar o desjejum com Hiro amanhã às nove horas.
Isso não podia ser nada bom. Uma ordem para comparecer ao café da manhã sugeria que Hiroshi lhe daria outro ultimato. Não se submeteria a muitos outros. Começara a perceber que, quando agia de acordo com suas convicções, sentia-se bem melhor. Perguntava-se o que seus familiares diriam caso lhes contasse que preferia a companhia de lorde Uzumaki à deles e que, mesmo brava com ele, gostava mais de Uzumaki do que de qualquer um dos homens que Hiroshi tentava impor-lhe por motivos políticos.
Claro que, quando pensava em Uzumaki, seu coração disparava. Tinha menos de dezoito horas para pensar em um modo de pagá-lo por ter procurado um novo orfanato. Sabia muito bem como desejava pagá-lo. Ele despertava um lado tão atrevido seu que ela mal conseguia acreditar. Porém, essa seria uma solução simples demais, independentemente do quanto fosse satisfatória. O que quer que decidisse fazer, tinha de ser algo bom para ele, algo que desse prosseguimento às lições a respeito de como ser uma boa pessoa, que ela trabalhara com tanto afinco para ensinar-lhe.
Quando Sakura foi buscá-la com sua carruagem para que fossem juntas à reunião, Hinata ainda não conseguira pensar em nada.
— Não fique preocupada — disse a amiga, sorrindo, quando se puseram a caminho. — Não vamos deixar as crianças em um daqueles lugares horríveis.
Hinata fitou-a. Tudo acontecera tão depressa que ela se esquecera de que Lucinda não sabia.
— Na verdade, tenho boas notícias. Uzumaki comprou outra casa para eles.
— Uzumaki... — Sakura se interrompeu, a expressão revelando claramente que ela achava que alguém enlouquecera.
— Sim. E é maravilhosa. Eles podem ficar todos juntos, e posso montar as salas de aula e escolher a mobília e a decoração que eu quiser. Oh, vai ser um lugar tão alegre!
— Espere um momento, Hina. O marquês Uzumaki destruiu um orfanato e então comprou outro?
— Bem, sim. Ele disse que tentou fazer com que o príncipe voltasse atrás, mas como o assunto já estava nos jornais, isso não foi possível. Então ele encontrou uma casa, levou-me para visitá-la e ofereceu a sir Peter Ludlow um preço tão bom que o barão concordou de imediato. E me deu a chave.
Sakura encarou a amiga por um longo tempo.
— Hina — ela disse, por fim —, se alguém souber que Uzumaki lhe comprou uma casa, você estará com a reputação arruinada.
Aquilo era em parte o que a excitava, mas nunca confessaria isso a Sakura. Ninguém poderia saber o que ela e Uzumaki andavam fazendo.
— Ele não fez isso por mim, e sim pelas crianças.
— Não é o que parece. Não creio que alguém possa acreditar em uma afirmação dessas. Você ouviu lorde Neji dizer que Uzumaki não faz nada de graça. E, considerando que ele está lhe dando uma casa de presente, todos vão pensar que você se tornou... amante dele.
Ela tinha se tornado amante dele, Hinata pensou. Sentiu o coração pesado. Ao ouvir Sakura falar daquela forma, tudo parecia sórdido. E se Uzumaki tivesse planejado acabar com sua reputação? Quando estivera preso na masmorra, ele dissera que ela seria a primeira pessoa de quem ele iria atrás. Mas isso seria... maldade.
— Não sou tão ingênua. — Hinata forçou um sorriso. — Se encontrar uma nova casa para as crianças envolver um risco para minha reputação, então assim será.
Tinha de ser assim. Claro, um relacionamento com Uzumaki sempre envolveria algum risco. Mas ele a deixara escolher a forma de pagamento, e mesmo a sugestão dele de que confessasse seu envolvimento com o orfanato, prejudicaria apenas seu relacionamento familiar. O restante da sociedade jamais saberia disso, e muito menos que ele lhe comprara uma casa.
— Não consigo entender você — Sakura disse.
— Talvez porque eu não esteja com tanto medo de cometer um erro agora. Pelo menos estou tentando fazer alguma coisa, em vez de ficar apenas reclamando do fato de ninguém achar que eu posso ser útil.
Sakura a olhou como se quisesse continuar a conversa, mas felizmente o cocheiro parou, e o criado abriu a porta. Hinata desceu, incerta de como responderia à próxima pergunta da amiga. Sakur provavelmente iria querer saber o que causara uma transformação tão grande nela, e ela só tinha uma resposta: Uzumaki. Mal podia esperar para vê-lo outra vez.
— Boa noite, srta. Hyuuga, srta. Haruno — lady Bethson cumprimentou as duas, enquanto se reuniam a um pequeno grupo na sala de estar.
— Lady Bethson — disse Hinata, feliz por estar em uma reunião tão diferente dos habituais chás políticos de sua tia Houton. Duas vezes por mês, lady Bethson reunia conhecidos para encontros literários. Nenhuma das amigas da tia estaria presente, porque seria uma noite devotada a discussões literárias, conversas onde se esperava que cada um usasse a própria mente.
— Bem, creio que estamos todos aqui — anunciou lady Bethson —, e assim podemos começar nossa leitura e discussão da peça Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare.
Todos pegaram seus textos e se acomodaram de forma a compartilhá-los com os que não o haviam levado. Apesar de a freqüência masculina ser escassa naquelas reuniões, Hinata tinha a sensação de que Uzumaki apreciaria uma noite como aquela. Ninguém era pretensioso, e todos eram inteligentes e cultos. Os que não eram nada disso ou tinham desistido de comparecer fazia muito tempo ou tinham deixado de ser convidados.
Nesse momento, o mordomo de lady Bethson entrou na sala e sussurrou alguma coisa no ouvido da condessa.
— Ora, que interessante... Mande-o entrar. — Enquanto todos os convidados observavam o criado sair, lady Bethson tomou um gole de seu vinho. — Parece que temos outro participante na reunião desta noite.
Enquanto ela falava, o marquês Uzumaki entrou na sala.
— Boa noite, lady Bethson — ele disse, curvando-se diante da condessa,
— Lorde Uzumaki. Que surpresa!
— Ouvi dizer que suas reuniões literárias são muito agradáveis. — Lançou um olhar para Hinata, que sentiu um imediato arrepio no corpo. — Por isso, pensei em impor a minha presença e me reunir aos senhores.
— Quanto mais participantes, melhor — lady Bethson firmou, rindo. Hinata procurou desviar o olhar, o que não estava adiantando, pois Sakura a observava com uma sobrancelha arqueada.
— O que foi? — ela sussurrou.
— Não estou dizendo nada —- a amiga retrucou no mesmo tom.
— Porque..
— Srta. Hyuuga, poderia compartilhar seu texto comigo? — Uzumaki estava em pé à frente dela, com um leve sorriso iluminando os olhos azuis. — Parece que não vim preparado.
Qualquer que fosse a intenção dele, Uzumaki estava se portando com muita elegância. Parecia que não o via fazia muito tempo, e não apenas algumas horas. Quando o olhar de Uzumaki se deteve em seus lábios, Hinata desejou imensamente que ele a beijasse.
— Naturalmente, milorde — ela respondeu, trêmula. Oh, Deus, um dos dois precisava manter o autocontrole, e ela obviamente não podia contar muito com Uzumaki para isso. — Estamos discutindo Sonho de uma Noite de Verão.
— Ah... — Ele se sentou no sofá ao lado de Hinata, conseguindo roçar o dorso de sua mão com os dedos. — "Montou no prólogo como em um potro xucro, que não para de correr. A moral é boa, milorde: não basta falar, mas saber falar."
Lady Bethson riu de novo.
— Um libertino culto. O senhor é cheio de surpresas, lorde Uzumaki.
Assim como a condessa. Não eram muitas as pessoas que tinham coragem de mencionar a reputação de Uzumaki para ele.
— Creio que as expectativas quanto a mim são tão baixas que eu acabo surpreendendo — ele retrucou. Lorde Quenton pigarreou.
— Apesar da presença de um homem mais jovem, eu me recuso a deixar de fazer o papel de Bottom.
Uzumaki arqueou uma sobrancelha.
— Eu prefiro Puck, de qualquer modo.
— Oh, meu Deus! — Lady Bethson deu outra risada. — Então, que se encarregue de Puck, lorde Uzumaki. Vamos continuar?
Apesar de aquela ser uma de suas comédias favoritas, Hinata teve dificuldade para se concentrar. Uzumaki se sentara tão perto que seus quadris se roçavam. Ele mantinha o livro de texto aberto, metade sobre os joelhos dele, metade sobre os dela. Quando se inclinava para ler as falas de Puck em sua voz baixa e grave, ela precisava conter o desejo desesperado de beijar-lhe a orelha.
Ela lia as partes de Lisandra e Titania, que felizmente não dialogavam com Puck. Manter a voz normal não era fácil, mesmo sem olhar para Uzumaki. E então ele tornou tudo ainda mais difícil.
— Como vai me pagar? — ele perguntou, enquanto os outros participantes interpretavam os demais papéis.
— Ainda não se passaram vinte e quatro horas.
— Mas me diga agora, ou vou deduzir que pretende me pagar com seus suaves seios e sua...
—Está bem. Eu... — Ela tentou desesperadamente pensar em alguma coisa. — Vou lhe arranjar um convite para o piquenique anual do general Haruno.
— O quê?- Era perfeito. Somente as pessoas mais interessantes eram convidadas.
— É muito exclusivo — ela acrescentou.
— Sei disso. Por que eu aceitaria um convite para uma festa onde serei ignorado?
— Não será ignorado...
— Então passará o dia a meu lado.
Ela começou a recusar, mas Hiroshi jamais estaria presente em um evento onde havia tantos liberais.
— Está bem.
As leituras prosseguiam. Uzumaki moveu a mão, escondida sob o livro de texto. Totalmente absorvida pela presença dele, Hinata quase pulou da cadeira ao sentir o toque suave entre suas coxas.
— Pare com isso —- ela murmurou, baixando a cabeça. Tentou afastar-lhe a mão, mas ele segurou sua saia, mantendo-a no lugar.
— Umedeça os lábios — ele sussurrou.
— Não.
Os dedos dele começaram a se dirigir a um ponto bastante sensível do corpo de Hinata.
— Você está úmida para mim?
Hinata rapidamente levou a língua aos lábios.
— Pare com isso. Sakura vai perceber.
As carícias foram interrompidas, mas ele não afastou a mão.
— Ela vai falar?
— Não, mas vai me perguntar. E então eu teria de explicar você, e não posso fazer isso.
Todos riram de alguma coisa, e ela riu também. Uzumaki não se moveu; Hinata sabia que toda sua atenção estava nela.
— E o que você explicaria a meu respeito? — ele murmurou, os lábios quase roçando seu ouvido.
Oh, como ela queria tocá-lo!
— Eu falaria sobre por que eu gosto de você. — Ela tentou normalizar a respiração. — Não faça com que eu me arrependa disso, Naruto. Por favor, tire a mão daí.
Ele voltou a segurar o livro, e Hinata conseguiu respirar outra vez. Isso não a fez deixar de desejar abraçá-lo e enchê-lo de beijos, mas pelo menos sabia que seria capaz de se controlar essa noite.
— Você gosta de mim — ele repetiu. — Que interessante. — Então ergueu a cabeça e leu a fala de Puck em voz alta, como se estivesse acompanhando atentamente a peça o tempo todo. — "Quem são os grosseiros que assim gritam tão perto do lugar em que repousa nossa rainha?"
Hinata não sabia como ele podia estar prestando atenção. Ela mal se lembrava de que havia outras pessoas na sala. E isso certamente não era favorável a sua boa reputação.
Aborrecido ao saber que a noite chegara ao fim, Uzumaki aceitou a segunda fatia de bolo. Se mais eventos sociais fossem interessantes como as reuniões de lady Bethson, ele não teria sido tão diligente ao evitá-los.
Bem mais interessante fora a conversa com Hinata Marie. Olhando na direção dela, viu que conversava com Sakura e a condessa. Com a peça, o jantar e a discussão finalizados, manter-se ao lado dela seria chamativo demais. Mas ela dissera que gostava dele; não porque tivessem se tornado amantes ou porque ele providenciara um novo prédio para os órfãos, mas por alguma outra razão que ela não definira.
Geralmente, os poucos elogios que recebia diziam respeito às suas habilidades como amante, ao fato de ele ser charmoso ou de ser mortal com uma pistola. Essas eram características que ele podia controlar e definir. A ideia de que alguém de fato gostasse dele parecia muito mais tênue e preciosa. E completamente inesperada.
Com uma última risada, Hinata e a srta. Haruno se levantaram. Colocando rapidamente o prato de bolo de lado, ele se uniu às duas.
— Preciso ir — disse ele, pegando a mão de lady Bethson —, ou dúzias de proprietários de clubes logo estarão organizando uma busca. Obrigado por aceitar a minha forçada presença, lady Bethson. A senhora nos proporcionou uma noite muito interessante.
A condessa ruborizou.
— Nossa próxima discussão será no dia doze, e tratará de A Peregrinação de Childe Harold, de Byron. Pode se considerar convidado, lorde Uzumaki.
— Eu ficarei feliz em comparecer. — Uzumaki ofereceu seus braços a Hinata e Sakura. — Posso acompanhá-las até a carruagem?
Ao contrário da srta. Haruno, cujo toque foi inseguros, Hinata não hesitou. Mesmo em público, ela o tocava com tranquilidade, sob as circunstâncias adequadas. Ele precisava apenas encontrar mais dessas circunstâncias.
— Hina me disse que o senhor fez uma aquisição fortuita — Sakura disse, enquanto caminhavam até sua carruagem.
Então ela sabia guardar segredos.
— Pareceu-me a coisa certa a fazer — ele retrucou, ajudando-a a entrar no veículo.
Quando chegou a hora de soltar a mão de Hinata, porém, ele não queria deixá-la ir.
— Boa noite, Uzumaki — ela murmurou, libertando seus dedos.
— Durma bem, Hinata Marie.
Quando a carruagem partiu, Uzumaki foi em busca de seu cavalo. Como dissera, a noite mal começara para os boêmios como ele, mas dessa vez preferia um conhaque em casa a uma mesa com cartas de baralho.
Jansen se surpreendeu ao abrir a porta.
— Milorde. Não esperávamos vê-lo tão cedo.
— Mudança de planos — ele resmungou, tirando o casaco.
— Quer que chame Pemberly?
— Não é necessário. Boa noite, Jansen.
— Boa noite, milorde.
Uzumaki subiu a escada e seguiu para seu quarto. O caos recomeçaria no dia seguinte, mas naquela noite, ele beberia um pouco e teria uma boa noite de sono.
Apesar do crepitar do fogo na lareira, o ar de seu quarto ainda estava frio quando ele abriu a porta. Alguém deixara a janela aberta.
— Como vai, milorde?
Uzumaki reconheceu a voz de imediato e se voltou, nada surpreso com a visão do garoto encostado à cabeceira da cama, as botas sujas deixando lama em seu caro tapete persa.
— Randall. — ele disse, jogando o casaco na cadeira mais próxima. — Não devia deixar a janela aberta.
— Achei que eu pudesse precisar sair correndo.
O menino mantinha a mão direita escondida debaixo dos travesseiros. Uzumaki mediu mentalmente a distância até a porta, o quarto de vestir e o garoto. Randall era o mais próximo.
― E por que isso seria necessário?
Randall empertigou-se e apontou uma pistola para ele.
— Achei que os criados poderiam aparecer depois que eu meter uma bala na sua cabeça.
Com os músculos tensos, Uzumaki sentou-se em uma das cadeiras entre a lareira e a cama.
— Você apenas tem uma tendência pelo crime, ou algo em particular o está perturbando? Há alvos mais fáceis do que eu.
— Eu disse para a srta. Hina que deveríamos ter enterrado o senhor no porão. Disse que nada de bom aconteceria se deixássemos o senhor ver a luz do sol de novo. A srta. Hina não entende que homens com dinheiro não se importam com gente como nós.
— Homens com dinheiro não são bons alvos, também. As pessoas que os matam terminam na forca.
O menino deu de ombros, e a arma não tremeu nas mãos dele. Uzumaki sabia que Randall não hesitaria um segundo para apertar o gatilho. Ainda bem que o garoto viera atrás dele, e não de Hinata.
— Se alguém tirasse o seu teto, o senhor também não mataria essa pessoa? Se passasse quase uma semana escutando os bebês chorar que vão perder suas camas e que terão de comer ratos e viver na sarjeta, o senhor não atiraria no homem responsável por isso, mesmo que fosse um nobre?
Uzumaki não conseguia culpá-lo.
— Sim, eu o mataria, a não ser que ele já tivesse uma solução em mente.
— Pode dizer o que quiser, mas isso não muda o que fez com a gente. Pode enganar a srta. Hina, mas nunca vai me enganar.
— Enganar quanto a quê?
Randall abriu a boca para responder, e Uzumaki se moveu. Saltando da cadeira, ele prendeu a pistola entre seu braço e as costelas e girou o corpo, lançando Randall ao chão. Pegou a arma com a mão livre, mas a manteve apontada para baixo.
— Venha comigo — ele disse.
O rapaz se sentou, esfregando o pulso.
— Maldição! Os nobres não podem fazer isso. Onde foi que aprendeu esse golpe?
— Você não é o primeiro sujeito que me aponta uma arma — Uzumaki disse secamente. — Levante-se.
— Não vou para a prisão!
— Agora é um bom momento para decidir isso.
— Eu não vou!- Uzumaki suspirou.
— Sem cadeia, masmorra, corrente ou algema. Mas, caso se comporte mal, talvez eu o acerte na cabeça, devolvendo o favor que você me fez.
Randall se levantou devagar.
— A srta. Hina pensou que eu tivesse matado o senhor. Eu tentei, mas o senhor tem uma cabeça dura.
Mantendo o rapaz a sua frente por precaução, eles desceram a escada e foram até o escritório. Os criados não tinham perdido tempo e deviam estar em suas camas, o que era bom para ele. Não precisava de que ninguém o visse praticamente mantendo um garoto sob a mira de um revólver.
— Sente-se ali — comandou, indicando uma cadeira junto à escrivaninha.
Ainda cheio de suspeitas, Randall obedeceu. Uzumaki escolheu a cadeira atrás da escrivaninha, colocou a pistola ao alcance de sua mão e empurrou um maço de papéis na direção do menino.
— A srta. Hina conseguiu realizar um milagre com você, ou devo ler o título no alto da página?
O garoto fez uma careta.
— Sei ler um pouco.
Escondendo sua surpresa, Uzumaki balançou a cabeça. Hinata aparentemente fizera um ou dois milagres.
— Então leia — ordenou, acendendo o lampião. Vagarosamente, Randall começou a tentar ler. Levantou a cabeça depois de cinco minutos.
— Qual é essa palavra?- Uzumaki se inclinou para ver.
— Anualmente. Significa que os impostos da propriedade serão recalculados uma vez ao ano. — Por um momento, ele observou a crescente frustração no rosto do menino enquanto tentava decifrar o que devia parecer uma língua estrangeira. — Quer que eu resuma?
— É sobre uma casa. Posso ver isso.
— Uma casa grande, com vinte e sete cômodos. Isso — ele apontou para os papéis — é um acordo de vinte e três páginas, com minha concordância em comprar a casa para acomodar menores sem a supervisão dos pais.
O espanto tomou conta do rosto de Randall. -— O senhor está comprando um orfanato novo?
— Sim.
— Por quê?- Uzumaki suspirou.
— A srta. Hina é muito persuasiva.
— Vai se casar com ela?
Tentando ignorar a sensação estranha em seu estômago diante da pergunta do garoto, ele deu de ombros.
— Provavelmente. — Uzumaki colocou os papéis de volta na pasta. — Agora vá para casa. E sugiro que não mencione a pistola nem a invasão a minha casa. Considerando que Hinata lhe entregou essa arma, ela poderia achar isso um pouco desagradável.
— Oh, sim. O senhor não é o demônio que eu imaginava, marquês. Estou feliz porque não atirei no senhor.
— Eu também.
Uzumaki manteve a pistola na mão enquanto acompanhava Randall até a porta dá frente. Quando fechou a porta, encostou-se nela. O incidente daquela noite não fora o mais perigoso que já enfrentara, mas mesmo assim fora perturbador.
Antes, quando se vira diante de uma pistola, normalmente empunhada por algum marido raivoso, não tinha se importado muito com o desfecho do embate. Naquela noite, porém, ele se importara. Não porque temia ser atingido por uma bala, mas porque sua morte impediria que ele realizasse a tarefa a que se predispusera, ou seja, possuir Hinata Marie Hyuuga. Em termos bem simples, ele não queria morrer porque encontrara alguma coisa, alguém, por quem queria continuar vivo.
Tirou a pistola do bolso para descarregá-la. Porém, estava vazia. Examinou-a. Pela aparência, a arma não estivera carregada. Hinata o mantivera prisioneiro com uma arma sem munição. Meneou a cabeça. Ela dissera que nunca o machucaria, e aparentemente estava dizendo a verdade. Ninguém jamais fizera algo assim para ele ou por ele antes. Por Deus, ela tinha coragem!
Isso, combinado com as boas intenções e a determinação de ver sempre o lado positivo de tudo e de todos, tornavam-na perigosa. E o único modo de se proteger era mantê-la ao seu lado.
Queria conversar com alguém sobre essa estranha revelação, mas qualquer pessoa em quem consideraria confiar era próxima de Hinata. Ficou no vestíbulo por mais um momento, em meio ao silêncio que reinava na casa. De repente, soube em quem podia confiar. Seguiu direto para o corredor onde ficavam os quartos dos criados.
— Jansen! — chamou, batendo na porta do mordomo. — Saia daí!
Logo depois, a porta se abriu. O mordomo, com a roupa desalinhada, apressou-se a ir até o corredor.
— Milorde! Precisa de alguma coisa?
— Venha comigo, Jansen — disse Uzumaki, girando nos calcanhares.
— Agora, milorde?
— Sim, agora.
— Muito bem, milorde.
Pegando uma vela na mesa do saguão, Uzumaki seguiu para a sala de refeições. Jansen parou à porta enquanto ele jogava algumas toras de madeira na lareira e acendia o fogo.
— Sente-se — ele disse, colocando a vela sobre a mesa.
— Vou ser dispensado, milorde? — Jansen perguntou, um pouco assustado. — Se assim for, gostaria de pelo menos estar com os meus sapatos.
Uzumaki sentou-se em uma cadeira e olhou para o mordomo.
— Bobagem. Se eu pretendesse dispensá-lo, teria escolhido uma melhor hora para fazer isso. Sente-se, Jansen.
Tossindo e se sentindo muito desconfortável, o mordomo entrou na sala com suas meias brancas e escolheu uma cadeira. Depois de hesitar, sentou-se.
Aquilo não ia funcionar, Uzumaki pensou. Jansen parecia um criminoso prestes a ser executado, e ele não tinha certeza se não provocaria um derrame no homem.
— Conhaque — murmurou. Jansen se levantou.
— Imediatamente, milorde.
— Sente-se. Eu vou pegar. Quer beber? — Levantando-se, ele foi até o carrinho de bebidas junto à janela.
— Eu?
— Pare de tremer. Parece um rato. Sim, você.
— Eu... bem... sim, milorde.
Uma vez que estavam sentados e relativamente confortáveis, Uzumaki tomou um grande gole de conhaque.
— Quero a opinião de alguém sobre um assunto — começou. — E escolhi você.
— Estou honrado, milorde. — O copo do mordomo já estava vazio, e Uzumaki se inclinou para enchê-lo de novo.
— Preciso de discrição. E honestidade.
— Naturalmente.
Agora vinha a parte mais difícil. Aquilo era ridículo. Não conseguia acreditar que estava pensando em tais coisas, muito menos considerando dizê-las em voz alta. E para o mordomo, ainda por cima.
— Estou pensando — ele começou bem devagar — em fazer algumas mudanças por aqui.
— Entendo.
— É que estou pensando em... — Uzumaki se deteve. As palavras simplesmente não saíam. Pigarreando, tentou outra vez. — Estou pensando em...
— Novas cortinas, milorde? Como o senhor disse que queria a minha mais honesta opinião, as cortinas, especialmente dos aposentos de baixo, estão bastante...
— Não me refiro às cortinas, e sim a algo muito mais importante.
— Uma casa nova, milorde? Soube por fonte segura que a casa de lorde Wenston estará à venda logo...
— Estou pensando em me casar.
Por um momento, o mordomo ficou em silêncio, boquiaberto.
— Eu... milorde, não me sinto qualificado a aconselhá-lo nesses assuntos.
— Não me diga isso. Diga-me apenas se pode me imaginar como um homem casado ou não.
Pará sua surpresa, o mordomo afastou o conhaque e se empertigou na cadeira.
— Milorde, não quero ultrapassar meus limites, mas tenho notado uma... mudança em seu comportamento nos últimos tempos. Porém, a questão sobre imaginá-lo casado ou não, apenas o senhor pode responder. E a dama em questão, naturalmente.
Uzumaki franziu a testa.
— Covarde.
— Isso também, milorde.
— Vá para a cama, Jansen. De que grande ajuda você foi!
— Sim, milorde. — O mordomo seguiu para a porta, e então parou. — Se me permite, talvez a pergunta que o senhor deva fazer a si mesmo é se estará mais feliz com uma esposa ou sem ela.
Jansen sumiu na escuridão do corredor, mas Uzumaki permaneceu onde estava, tomando seu conhaque. A questão não era casar-se, mas com quem. Ele seria mais feliz possuindo Hinata, ou vendo Shino Alvington fazer isso?
A resposta não era um simples "sim" ou "não", ou a determinação de se comportar, ou de continuar vivendo como sempre fizera, porque a pergunta não era se seria feliz com ela, mas sim se sobreviveria sem ela.
X
Assim que Hinata viu os morangos frescos, soube qual era a intenção de Hiroshi. O irmão já estava sentado à mesa, tomando seu habitual café da manhã de torradas com mel e presunto fatiado. A sempre presente edição da manhã do London Times estava diante dele, mas ainda não fora aberta.
— Bom dia, Hina. Como foi sua reunião ontem?
Ela selecionou alguns poucos morangos e uma fatia de pão fresco.
— Bom dia, Hiroshi. Transcorreu tudo bem. Obrigada.
— O que discutiram?
Hinata levou o prato para a mesa e sentou-se. —. Onde está mamãe?
— Ela descerá em um minuto. Gomo estão os morangos?
Hinata queria jogá-los em cima do irmão. Ele era tão óbvio, fingindo ser educado e gentil para evitar uma discussão quando exigisse que ela se casasse com o idiota do Shino Alvington! É claro que ela brigaria de qualquer jeito, e terminaria fazendo exatamente o que ele queria, porque isso era o que sempre acontecia.
Bem, aprendera alguns truques recentemente, e com um experiente jogador. E tinha excelentes razões para seguir com seus planos, em vez de assumir os do irmão. Cinquenta e três razões, para ser mais exata, variando dos sete aos dezessete anos.
— Os morangos estão excelentes. Obrigado por tê-los encomendado.
Ele a fitou por um momento, com uma expressão de suspeita no olhar, mas logo continuou comendo.
Nesse momento, a mãe deles chegou e os beijou no rosto.
— Bom dia, meus queridos. É tão bom quando tomamos o café da manhã juntos. Deveríamos fazer isso com mais frequência.
Não grite, Hinata disse a si mesma. O que quer que eles digam, não grite.
— Sim, deveríamos. O que queria me dizer, Hiro?
— Em primeiro lugar, queria lhe agradecer pela ajuda que me deu esta temporada. Ajudou-me a fazer algumas conexões muito lucrativas.
— Sim, eu sei. Não foi nada.
— Hina, não dificulte as coisas.
— Não estou fazendo isso. Estou apenas concordando que fui útil.
Hiroshi franziu a testa.
— Vai me deixar terminar? Obrigado. Tem cometido também a sua cota de erros.
Ela assentiu, sabendo exatamente a que ele estava se referindo.
— Sim, e Uzumaki o apresentou a Wellington.
Langley mexeu-se em seu canto e, por um breve momento, Hinata pareceu ver um sorriso no rosto do contido mordomo. Pelo menos alguém estava do seu lado.
— Este não é o ponto.
— Posso lhe perguntar então qual é? Ontem simplesmente discutimos alternativas, ou ao menos foi o que disse.
— Uma aliança com lorde Alvington vai me assegurar votos suficientes para que eu assuma o posto de Plimpton no Parlamento. E, como sabe, venho procurando um bom pretendente para você há algum tempo. Gosto de você, Hina, e não cheguei a minha decisão sem pesá-la bem. — Ele se endireitou na cadeira. — Antes que comece a berrar, escute-me.
Hinata apertou as mãos.
— Estou escutando.
— Você... Está bem. — Hiroshi pigarreou. — Shino Alvington me confidenciou diversas vezes o quanto a adora, e que você será a companheira perfeita assim que ele assumir o lugar do pai como visconde.
— E o que ele acha de minha amizade com lorde Uzumaki? — Essa era a pergunta mais ousada que ela conseguiria fazer. A falta de moderação de Uzumaki ao expressar suas opiniões podia ser excelente, mas ela não tinha a mesma liberdade que ele.
— Não perco tempo pensando nisso — Hiroshi disse com voz dura. — É melhor você se preocupar em manter a sua reputação. Não somos apenas Shino e eu que precisamos aprovar essa união. Os Alvington não têm nenhum senso de humor no que se refere ao bom nome deles.
É mesmo? Ela suspeitara disso, mas ao escutar a afirmação de Hiroshi, começou a pensar em um plano.
— Então já está tudo acertado entre você e os Alvington?
— Você precisa se casar de qualquer maneira — a mãe interferiu. — Melhor que seja com alguém útil e inofensivo.
— Está bem.
Hiroshi arregalou os olhos.
— O que disse?
— Quem sou eu para discutir com meu irmão e minha mãe? Se vocês não têm os meus interesses em mente, quem teria?
— Fale a sério! — Hiroshi exigiu.
— Estou falando.
— Você se casará com Shino Alvington? Sem gritos e desmaios?
— Se ele me aceitar. — Antes que as coisas chegassem a esse ponto, ela precisava colocar um plano em ação. — Gostaria que ele fizesse o pedido. E seria bom que ele me cortejasse, em vez de apenas assinar um pedaço de papel.
— Providenciarei isso. — Hiroshi se levantou. — Tenho um compromisso. Estou confiando que cumpra a sua palavra, Hina.
Ela optou por apenas assentir, pois se respondesse poderia levantar mais suspeitas. Hiroshi se retirou, levando o jornal, e ela começou a pensar em possibilidades. Shino Alvington nunca a pediria em casamento se ela fizesse algo que contrariasse os valores de sua família. Assim, precisava apenas utilizar algumas das lições que Uzumaki lhe dera. Um pouco de irresponsabilidade manteria Shino afastado.
— Estou tão orgulhosa de você — afirmou a mãe, segurando sua mão. — Eu sabia que Hiro ia lhe arranjar um bom marido.
— Sim, eu serei muito feliz em um casamento por amor como este. —. Hinata terminou de comer o seu último morango e se levantou. — Se não se importa, vou dar uma volta com Sakura e Tenten.
— Entendo seu sarcasmo, minha querida. Mas eu lhe disse que encontrasse alguém antes que seu irmão voltasse da índia. Contudo, você insistiu em ficar às voltas com suas amigas e agora não tem mais escolha.
— Poderia ter, caso a senhora me apoiasse pelo menos uma vez na vida, em vez de ficar do lado de Hiro. Nunca se interessou em saber quais são os meus sonhos, ambições e desejos. Apenas presume que eu não os tenha. Não me importo em ajudar Hiroshi, mas não entendo por que tenho de ser a única a me sacrificar.
— Hina...
— Eu a verei no chá com lady Humphrey, mamãe.- Pegando seu chapéu e xale, ela saiu pela porta da frente, com Sally em seus calcanhares. Hina olhou para a criada quando chegou à rua.
— Vou apenas ver Sakura. Não precisa vir junto.
— O sr. Hyuuga me disse que deveria acompanhá-la sempre — Sally respondeu, sem jeito.
— Ele disse o motivo?
— Apenas me disse para assegurar que a senhorita se comportaria bem e para contar a ele se isso não acontecesse. — Meneou a cabeça. — Claro que eu nunca faria isso, srta. Hyuuga, mas o sr. Hyuuga me despediria se soubesse.
— Então ele não poderá saber, inventaremos alguma coisa para contar para ele; assim, você não se mete em encrenca, e ele não se enche de suspeitas. — Sentindo-se um pouco mais otimista do que durante toda a manhã, Hinata tocou a criada no braço. — E obrigada.
— De nada. Graças a Deus! Eu não sabia o que fazer.- Um cavalo aproximou-se e diminuiu o passo.
— Parece que sempre a encontro quando estou usando o meio de transporte errado — disse Uzumaki. — Não posso sugerir que você e sua criada subam em Cassius.
Respirando fundo, Hinata ergueu a cabeça. Com o chapéu azul que combinava com os cabelos loiros e o modo natural de sentar-se em uma sela, ele era a imagem do cavalheiro perfeito, levemente devasso. Algumas vezes chegava a pensar que ficaria feliz em simplesmente contemplar Uzumaki o dia inteiro.
— Bom dia — ela disse ao perceber que o encarava. Uzumaki desmontou e, segurando as rédeas com a mão esquerda, passou a caminhar ao lado dela.
— Bom dia. O que há de errado?
— Não há nada de errado. O que o leva a fazer essa pergunta?
— Nunca minta para mim, Hinata — ele disse com voz baixa, apesar de ter a expressão mais pensativa do que brava. — A sua honestidade parece ser a única coisa confiável no mundo.
— Céus! Não tinha ideia de que era tão importante — ela retrucou, forçando um sorriso. Droga! Ela precisava encontrar uma estratégia que impedisse seu casamento com Shino, e Uzumaki a distraía tanto que ela mal se lembrava do próprio nome quando ele estava por perto.
Ele deu de ombros.
— Somente para aqueles que sabem o valor de tais coisas. Vai me contar o que a está perturbando, ou devo puxá-la para trás daquela casa e renovar o nosso conhecimento?
— Uzumaki, fale baixo — ela resmungou, apontando discretamente para Sally, que os seguia alguns passos atrás.
O marquês apenas se aproximou mais.
— Faz quase uma semana que não me recebe em seu corpo, Hinata — ele sussurrou. — Estou me controlando demais.
— Você praticamente pôs a mão debaixo de minha saia ontem à noite — ela murmurou, sentindo uma onda de calor percorrê-la.
— E felizmente o livro cobria o meu colo, ou todos saberiam como eu a desejava.
Duas jovens passaram em uma pequena carruagem, e Hinata estremeceu. Se Uzumaki não sumisse dali bem depressa, logo alguém iria contar a Hiroshi com quem ela estava. Não conseguira ainda elaborar um plano, e não queria o irmão berrando com ela sem um bom motivo.
— Você precisa parar de dizer essas coisas. Eu... eu estou para me casar.
Uzumaki parou tão subitamente que ela ainda andou alguns metros sem notar que ele ficara para trás. Quando se virou para fitá-lo, a expressão dele fez com que seu coração gelasse.
— Uzumaki?
— Você concordou em se casar com Shino Alvington? — ele grunhiu, os olhos azuis exigindo uma resposta.
— Meu irmão acaba de me informar que serei pedida em casamento e terei de aceitar. Com o apoio de Alvington, ele assegura um lugar no Parlamento.
Ela não deveria dizer aquelas coisas, já que eram assuntos de família. Uzumaki, porém, saberia disso, de qualquer modo.
— E você concordou.
— Ele ainda não fez o pedido, mas sim, concordei.
— Que moça obediente! E presumo que seu irmão tenha expressado a sua gratidão.
— Pare de ser tão cínico, Uzumaki. Eles me encurralaram.
— Eles a tratam como se fosse um animal de estimação!
— Como ousa dizer isso? Está com raiva porque sabe que logo que eu me casar nós não... seremos mais amigos. Vá embora, Uzumaki. Pensei... Oh, vá embora. Certamente não está ajudando em nada, gritando comigo por fazer a coisa certa.
— A coisa certa? — ele repetiu.
— Por favor, vá embora.
Uzumaki queria dizer mais coisas, exigir saber por que ela não resistira, mas isso a levaria a odiá-lo. A não ser que ele lhe desse uma razão para recusar Shino, ela não o faria.
— Então eu lhe desejo um bom dia — falou, ríspido. Em seguida montou Cassius e foi embora a galope.
A ideia de nunca mais tocá-la, de ficar nas sombras durante as festas, olhando-a dançar com outro homem, sabendo que Shino Alvington poderia possuí-la quando quisesse... Céus! Ninguém aguentaria esse tipo de tortura.
—- Maldição! — Seu primeiro impulso foi encontrar o idiota, desafiá-lo para um duelo e matá-lo. Porém, por mais satisfatório que fosse, isso não lhe traria Hinata. E ainda seria forçado a deixar a Inglaterra, o que significava que não poderia nem vê-la mais.
Uzumaki diminuiu o galope quando se aproximou de seu destino, forçando-se a pensar. Hinata formulara as frases de uma maneira peculiar. Não dissera que o casamento estava acertado, mas que, quando o pedido fosse feito, ela teria de aceitar; não que ela tomara a decisão, mas que fora encurralada; não que queria que ele fosse embora, mas que ele não estava ajudando ao ficar ali.
Parou, desmontou e entregou Cassius a um criado. Obviamente Hinata não amava o bufão e, quando se casasse, não teria permissão para continuar com seu trabalho no orfanato. A questão era, o que ele poderia fazer para mudar as coisas?
O barulho de suas botas ecoou no corredor. Estava atrasado de novo, mas pelo menos se encontrava lá. Era tudo o que podia pensar em fazer, e no fim ainda parecia o melhor plano. Hiroshi Hyuuga arranjara um cunhado que o favoreceria. Se lhe fosse apresentada a oportunidade de escolher alguém que o favorecesse ainda mais, ele seria um tolo e um péssimo político se a deixasse escapar.
— Uzumaki? — lorde Neji murmurou quando ele subiu os degraus e assumiu seu lugar. — Que diabos está fazendo aqui?
— O meu dever — Uzumaki retrucou, acenando para o duque de Wycliffe. Era isso; precisava apenas se tornar um candidato melhor.
O conde Haskell levantou-se, com o rosto vermelho de raiva.
— Não vou tolerar sua presença aqui, marquês Uzumaki! — bradou. — Ou você sai, ou saio eu.
Uzumaki se levantou também.
— Lorde Haskell, o senhor comparece a esta casa há vinte e oito anos, contribuindo com seu conhecimento e doando seu tempo. Duas semanas atrás, eu o insultei por isso. Hoje, eu lhe peço desculpas. Se eu tivesse um décimo de sua sabedoria, seria um homem melhor.
O murmúrio no Parlamento era quase ensurdecedor, mas Uzumaki não prestou atenção. Se ele não conseguisse nem sequer se sentar com seus pares por uma hora, não merecia mesmo muita coisa.
— E espera que eu acredite que está sendo sincero, rapaz? — o conde retrucou.
— Não, milorde. Eu lhe peço que aceite as minhas desculpas. Lamento pelo meu comportamento.
Segurando a respiração, Uzumaki se inclinou, estendendo a mão para o velho conde. Fazia isso por Hinata, ele lembrou a si mesmo enquanto o homem o encarava. Podia fazer isso por ela. Faria qualquer coisa por ela.
— E se eu não aceitar as suas desculpas?
— Amanhã eu me desculparei novamente.
Com um suspiro, Haskell aceitou a mão estendida, e a audiência irrompeu em aplausos. O conde confiara nele, Uzumaki pensou, como poucos homens haviam feito antes. E o sentimento provocado por isso era agradável e inesperado.
— Obrigado. O senhor é mais bondoso do que eu mereço — disse Uzumaki, retornando ao lugar. — Tentarei fazer com que não se arrependa de sua generosidade.
— Está indo bem até agora — o velho conde observou, também voltando a se sentar.
A sessão continuou.
— O que deu em você? — Neji murmurou.
— Eu lhe direi quando descobrir — resmungou Uzumaki. Porém, ele já sabia. Com a boca seca, tomou um gole de água. De repente, soube por que estava tentando corrigir as coisas, por que permaneceria na Casa dos Lordes até o fim da sessão e por que compareceria a todas as outras sessões até o fim da temporada. E soube também por que faria qualquer coisa que tornasse possível o seu casamento com Hinata Marie Hyuuga. Ele a amava. Naruto Edward Uzumaki, o homem sem coração, amava uma mulher. E ele não se deteria diante de nada para conquistá-la.
Uzumaki não conseguiu deixar de sorrir. Bom Deus. Esperava que Hinata apreciasse o que tinha feito com ele. Por ela, ia se tornar um cavalheiro. E o engraçado era que, após cinco minutos de transformação, já a apreciava.
X
— Você conseguiu o convite? — Hinata perguntou, ansiosa.
— Sim, e não foi fácil. Meu pai faz muitas perguntas, e convencê-lo de que o marquês Uzumaki deveria ser convidado para esse piquenique... — Sakura suspirou.
— Eu lhe explicaria tudo, se pudesse, Saky.
— Não precisa me explicar nada. Acredito que esta seja outra parte da lição de comportamento para o seu aluno. Tudo o que posso dizer é que está assumindo um grande risco. Seu irmão está tão concentrado nos próprios objetivos que vai pensar que você está tentando colocar pedras no caminho dele. E aí, sabe-se lá o que ele pode fazer.
— Já fez.
— O quê? — Sakura encarou a amiga. — Agora, isso você tem de me contar. O que Hiroshi fez?
— Mesmo sem saber o que eu ando fazendo ou pensando, meu irmão tem a notável habilidade de colocar tijolos a minha frente — ela disse, e uma lágrima escorreu por seu rosto. — Não posso imaginar nada pior do que me casar com Shino Alvington. Você pode?
Sakura correu para buscar um licor para a amiga.
— Shino Alvington? — Ela balançou a cabeça. — Por causa das propriedades que o pai dele possui em West Sussex, eu presumo. Pelo amor de Deus! Seu irmão não sabe que vocês não combinam em nada?
Hinata tomou um gole de licor, desejando algo mais forte.
— Shino é um idiota, e Hiroshi acha que eu sou uma idiota também; portanto, formamos um par perfeito. — Ela suspirou. — O que não é inteiramente verdade, suponho. Shino é tão inofensivo, tão tolo... Já quer se casar quando mal o conheço.
— Isto é horrível. O que pretende fazer?
— Ainda estou elaborando um plano, mas está difícil. Não quero destruir as chances de Hiro entrar para o Parlamento. — Ela suspirou outra vez. — Isso não é estupidez da minha parte?
— Ora, você é uma boa irmã. Espero que ele reconheça isso, mais cedo ou mais tarde.
— Obrigada. Nesse meio tempo, vou colocar em prática algumas coisas que aprendi convivendo com Uzumaki. Se fui incapaz de transformá-lo em um cavalheiro, pelo menos ele me ensinou algumas coisas a respeito de ser escandalosa.
— Não pode arruinar a sua reputação, Hina. Nem mesmo para escapar de Shino Alvington.
— Não, mas posso chegar bem perto do limite. Naruto leva a vida de um modo... muito mais divertido do que imaginei ser possível. Excitante demais para o sr. Alvington.
— Naruto?
Hinata ruborizou. Manter em segredo o que ela sentia por Uzumaki já era suficientemente difícil sem que usasse o primeiro nome dele diante de outras pessoas.
— Uzumaki — ela se corrigiu. — Ele me pediu... algumas vezes eu o chamo...
Nesse instante, a porta da sala se abriu. Tenten, ainda tirando o chapéu, entrou apressada. —- Hina, graças a Deus está aí!
— O que aconteceu?
— Você conseguiu, foi isso o que aconteceu — disse a viscondessa, jogando o chapéu em uma cadeira. — É um milagre! Fui procurá-la em sua casa, mas Langley me disse que estaria aqui.
Pelo menos alguém estava feliz, Hinata pensou, vendo a animação da amiga. — Não tenho a menor ideia do que está falando, Ten.
— Estou falando de Uzumaki. Neji acaba de voltar da sessão matinal no Parlamento, e me contou a coisa mais extraordinária!
Assim que o nome de Uzumaki entrou em pauta, Hinata começou a sentir a cabeça mais leve. Tomou mais um gole de licor.
— O que ele fez agora?
— Ele compareceu à sessão do Parlamento hoje. E se desculpou com lorde Haskell por algum insulto que dirigiu ao conde da última vez em que esteve lá.
Hinata arregalou os olhos.
— Ele pediu desculpas a alguém?
— Como um cavalheiro, evidentemente. Neji me disse que Uzumaki também ficou até o fim da sessão, e que ele se ofereceu para fazer parte de um comitê para cuidar da reforma no que se refere ao trabalho infantil.
— Oh, Deus! — Hinata exclamou. Foi tudo o que conseguiu dizer. Queria poder sair correndo em busca de Uzumaki, abraçá-lo e beijá-lo. Ele tinha aprendido alguma coisa e, mesmo que isso não pudesse ajudá-la, ele poderia praticar o bem com outras pessoas. Procurou se conter, percebendo que as amigas ainda conversavam.
— ...casar-se com Shino Alvington — Sakura dizia.
— Não! Ele não enxerga que aquele idiota não serve para você? — Tenten perguntou, voltando-se para Hinata.
— Provavelmente não. Mas ele enxerga as vantagens que pode obter com essa união. Vai ter assegurado o seu lugar na Casa dos Comuns.
— Seria melhor que ele conseguisse o lugar por méritos próprios, e não pelos seus.
Hinata sorriu.
— Eu queria ter dito isso a ele.
— Sinta-se livre para pegar emprestada minha frase.- De repente, o que ela queria era pegar emprestada a vida de Tenten. Ela tinha um marido que a adorava, uma tia compreensiva, um primo com suficiente poder e status para que ninguém os arruinasse e uma tendência a apoiar causas que não eram consideradas adequadas para uma mulher.
Hinata tinha um libertino que parecia tanto gostar dela quanto querer arruiná-la, uma família que colocava os próprios interesses sobre os dela e que se preocupava em demasia com a opinião alheia, e um sonho sem esperanças de administrar um orfanato para crianças pobres com inteligência e potencial.
Ao mesmo tempo, Uzumaki possibilitara muito do que ela conseguira até o momento. Assim que ela o convencera de que não era uma garota tola em busca de atenção, sua ajuda e conselhos tinham sido inestimáveis. — O que você vai fazer? — Tenten perguntou.
— Ela vai usar alguns dos métodos de Uzumaki — Sakura respondeu antes que Hinata pudesse abrir a boca —, na esperança de que um pouco de pecado possa afugentar Shino, ou pelo menos os pais dele.
— Isso é muito arriscado, Hina — a amiga murmurou, preocupada. — Acredite em mim.
— Eu sei. — Hinata respirou fundo. — Na verdade, eu posso precisar da ajuda de vocês.
— Para se portar de forma escandalosa?
— Não. Para fingir que nada escandaloso está acontecendo. Pelo amor de Deus, se vocês me lançarem olhares de censura, estarei completamente arruinada.
Tanto Tenten quanto Sakura pareciam céticas. Elas por certo duvidavam de que ela elaborasse um plano que realmente funcionasse. Bem, ela mostraria às amigas. Afinal, tivera um excelente professor.
Sakura suspirou.
— Pode contar comigo para não reparar em nada de escandaloso que você fizer.
— Eu também farei minha parte — concordou Tenten. — Gostaria apenas que você pudesse ter tido tempo para celebrar seu sucesso com Uzumaki, em vez de se preocupar com essa estupidez.
Enquanto as amigas continuavam conversando, Hinata se perdeu em pensamentos. No dia seguinte, teria a companhia de Uzumaki por um dia inteiro, como prometera. Ela o veria de novo, e se comportaria mal. Por mais que parecesse tolo admitir após todo o tempo que passara tentando melhorá-lo, parte dela apreciava que o marquês Uzumaki fosse um libertino e que, de tempos em tempos, parecesse ser o seu libertino.
X
Uzumaki manobrou sua pequena carruagem na alameda, reunindo-se aos cavalos e veículos que tinham deixado a cidade para ir ao lugar onde aconteceria o tradicional piquenique do general Haurno, uma colina na saída de Londres. Tinha de admitir que o grupo que o general selecionara era pitoresco. Também tinha de admitir, enquanto acenava para lorde e lady Milton, que o olhavam, admirados, que se sentia um tolo.
Ninguém ali o convidava para seus almoços. Quando isso acontecia, ele certamente não fazia nada do que fizera dessa vez: enviar agradecimentos pelo convite, confirmando sua presença, e chegar na hora certa, com a intenção de permanecer até o final do evento.
Calculou que havia de quarenta a cinquenta convidados para o piquenique, além das dezenas de criadas e cocheiros.
— Você veio.
Ao som da voz de Hinata, toda aquela tolice é comportamento atípico perderam a importância.
— Você conseguiu me arranjar um convite — disse ele, encarando-a.
— Achei que ainda poderia estar bravo comigo.
— E ainda assim manteve sua parte do acordo.
Seus olhares se encontraram. Ela usava um vestido de musselina que combinava com a dos narcisos que coloriam a grama. Quando Hinata sorriu para ele, Uzumaki se esqueceu de respirar.
— Pelo que me lembro, ou eu conseguiria um convite ou me encontraria nua em sua cama — ela murmurou.
— Céus, estamos sendo francos hoje? — perguntou ele, oferecendo-lhe o braço. — Eu ainda ficaria feliz em lhe oferecer a segunda opção, se desejar.
Hinata ruborizou, e Uzumaki de repente se sentiu mais à vontade. Ela podia querer ser ousada, mas ainda era a Hinata comportada. Para sua surpresa, porém, ela aceitou seu braço.
— Talvez eu deva apresentá-lo a alguns convidados.- Aquilo era interessante. Com certeza, inesperado.
— De braço dado? — Ele arqueou as sobrancelhas. — Não que eu esteja reclamando, mas tinha a impressão de que somente poderíamos nos tocar quando ninguém nos visse. — Inclinou-se, aspirando o aroma dos cabelos de Hinata.
— Eu tenho uma dívida com você. Você disse que eu deveria ficar a seu lado hoje. Portanto, aqui estou eu.
— Apresente-me essas pessoas, então.
Eles atravessaram o gramado até onde a maioria dos convidados se reunira. Neji estava lá com a esposa, e Uzumaki reprimiu uma careta. Caçoara do visconde por ter sido domesticado, e ali estavam, no mesmo evento. E não pela primeira vez.
Oh, não, ele não fora domesticado. Estava ali porque queria ver Hinata, e porque aquilo poderia ser interessante. Um piquenique para a nata da sociedade, e ele fora convidado.
— General Haruno — Hinata chamou, aproximando-se do anfitrião —, o senhor já conhece lorde Uzumaki? Milorde, o general Kakashi Haruno.
— Uzumaki. Minha Sakura sugeriu que eu o convidasse. Divirta-se. — Ele deu uma olhadela em Hinata e voltou a fitá-lo. — Mas não demais, naturalmente.
— Obrigado, senhor.
Enquanto observava o general afastar-se para saudar os recém-chegados, ocorreu a Uzumaki que seu anfitrião acertara quanto ao segredo para que fosse bem-sucedido. Se quisesse tirar Hinata daquele idiota do Shino Alvington, precisava apenas se divertir um pouco menos. Com certeza, seria um desafio.
— Isso não foi assim tão terrível, não é? — Hinata sussurrou, aproximando-se um pouco mais.
— Não. — Observou os dedos dela ao redor de seu braço. — A propósito, o que está fazendo?
— O que quer dizer? Já lhe disse, fiz uma pro...
— Desde que nos conhecemos, você gastou a maior parte de seu tempo dizendo que não queria ter nada a ver comigo, Hinata Marie. O que aconteceu? Ou isto significa que decidiu continuar a nossa... amizade depois de se casar com Shino Alvington?
— Claro que não!
— Seria tão ruim? Ninguém saberia, Hinata. Apenas você e eu.
— Pare com isso. Nem mesmo sugira tais coisas. Eu jamais seria infiel ao meu marido.
— Mas e se eu não quiser que me deixe?- Ela o encarou.
— Então faça alguma coisa a esse respeito — ela disse baixinho, e tirou a mão do braço dele.
Uzumaki acompanhou-a com o olhar enquanto ela ia conversar com lorde e lady Uchiha. O que ela queria lhe dizer? Que deveria pedi-la em casamento? Estava preparado para isso, mas ela devia saber que Hiroshi jamais concordaria com uma união com alguém com a sua reputação.
Poderia raptá-la, é claro, como ela fizera com ele. Era mais do que intrigante a ideia de mantê-la cativa em sua mansão, vestida apenas com robes de seda. Ela provavelmente desfrutaria disso por algum tempo, até compreender que estava totalmente arruinada.
Um grande círculo vazio parecia ter se formado ao seu redor. O mesmo fenômeno acontecia na maior parte dos eventos respeitáveis aos quais comparecia, mas não era para ter acontecido nesse. Por isso, combinara com Hinata que ela ficaria a seu lado. As pessoas gostavam dela, mesmo que tivessem medo dele. Respirando fundo, seguiu-a. Comporte-se, lembrou a si mesmo. Por maior que seja a tentação, comporte-se.
— Por que o sorriso? — Tenten perguntou, beijando Hinata no rosto.
— Está um lindo dia. — Ela o passaria ao lado de Uzumaki.
Neji a cumprimentou, fazendo uma pequena reverência.
— Mesmo com o sol e os passarinhos, a noção de que eu seria forçado a um casamento com Alvington, o colarinho engomado, não me deixaria com vontade de sorrir.
— Neji! — Tenten olhou feio para ele.
— Por outro lado, sou um marido feliz. Portanto, quem sou eu para condenar qualquer outra união?
— Condene o quanto quiser. É verdade. — Hinata olhou a amiga encostada no ombro do marido, as mãos dadas, e sentiu uma ponta de inveja. Tentou afastar a imagem de como ficaria feliz caso Uzumaki e ela pudessem ficar juntos daquela forma.
— Você ainda não está casada, Hina — Tenten afirmou. — Seu irmão ainda pode recuperar o juízo.
— Poderíamos raptá-lo e forçá-lo a reconsiderar a decisão — disse Uzumaki, aproximando-se.
Como já se acostumara àqueles comentários, atribuiu à presença do marquês o calor que a percorreu.
— Duvido de que isso causasse algum efeito em Hiroshi.
O marquês deu de ombros e parou ao lado dela.
— Algumas vezes as pessoas nos surpreendem.
O mesmo impulso de tocá-lo que sentira na reunião de lady Bethson deixou-a trêmula. Então, lembrou-se da decisão de se comportar de forma imprópria.
— Sim, é verdade — Hinata retrucou, deslizando ambas as mãos pelo braço dele.
Os músculos dele ficaram tensos sob seus dedos, mas ele não se moveu.
— Então, será um rapto — falou, com a voz não muito firme.
Neji pigarreou.
— Eu queria lhe dizer, Uzumaki, que você conquistou o respeito de Haskell ontem, e de alguns dos outros também.
— Ou eu me desculpava ou começava uma briga, e eu estava usando meu melhor casaco.
Hinata olhou para o belo rosto de Uzumaki. Ele parecia desconfortável, como se não soubesse o que fazer com um elogio. E parecia sincero em relação ao que acontecera. Estava tão orgulhosa! E tinha tanta vontade de beijá-lo...
— Hinata?
— Sim? — O coração dela deu um pulo.
— Vai tirar sangue do meu braço se não o soltar.
Ela relaxou um pouco os dedos. Notou lorde e lady Huntley caminhando pelo gramado. A condessa era prima em segundo grau de Shino Alvington, e sabia ser muito leal à família. Nem Hiroshi nem os Alvington estariam presentes no piquenique; portanto, os Huntley eram a melhor chance que Hinata tinha de que a notícia de que acompanhara Uzumaki em um evento chegasse a Shino. Ela puxou o braço de Uzumaki.
— Vamos colher algumas flores, milorde — ela disse, esforçando-se para dar uma risadinha. — Os convidados sempre providenciam os enfeites das mesas.
Uzumaki a olhou como se ela tivesse perdido o juízo, mas assentiu.
— Flores. Claro, srta. Hyuuga. Vão nos acompanhar, Uchiha, lady Uchiha?
— Venha — Hinata insistiu, puxando-o pelo braço —, antes que os outros colham as melhores flores.
Neji também não parecia seguro a respeito de seu estado mental.
— Hina, talvez Uzumaki prefira ficar...
— Vocês dois podem ir — Tenten interrompeu o marido. — É perfeitamente adequado. Vejam, até a sra. Mullen está colhendo narcisos com o general. Não precisam de um maçante casal como acompanhante.
O visconde arqueou a sobrancelha.
— Maçante?
Aparentemente, Uzumaki não queria ouvir a inevitável discussão, porque terminou cedendo e a acompanhou.
— Está completamente louca?
— Porque quero colher flores?
— Porque quer ser vista comigo, Hinata. Eu lhe disse para ficar a meu lado, mas isso não significa que devemos nos embrenhar na mata juntos. Se o seu irmão ficar sabendo...
— Não se importe com meu irmão — ela o interrompeu, aparentando mais confiança do que sentia. Estava caminhando em corda bamba, e se sentindo cada vez mais excitada. Teria sorte se não estivesse logo com a saia acima da cintura. — Apenas divirta-se, Naruto.
— Se o meu objetivo hoje fosse me divertir, estaríamos no meu quarto com as cortinas fechadas. Isso — apontou para os convidados —, eu estou apenas tolerando.
Hinata diminuiu o passo.
— Preferia não ter vindo?
Ele abriu aquele sorriso sensual.
— Se eu não tivesse vindo, estaria agora andando de um lado para o outro na minha sala de bilhar, desejando estar aqui.
— Por quê?
— Porque você está aqui. Por que mais seria?
— Eu... apenas não esperava... —- Sentiu o rosto esquentar quando ele se inclinou em sua direção.
— Não esperava que eu admitisse isso. Por que eu não deveria?
— Uzumaki...
— Naruto- ele a corrigiu
Oh, Deus! Talvez, se ela fingisse surpresa depois, pudesse beijá-lo sem ter a reputação totalmente arruinada. Valeria a pena, só para sentir os lábios dele sobre os seus, para abraçá-lo...
— Veja! Margaridas.
Movendo-se de forma abrupta, sem sua graça habitual, Uzumaki se desvencilhou dela e, virando-se, caminhou até um pequeno riacho. Respirando fundo, Hinata foi atrás dele. Havia algo errado. Ela queria ser beijada, e ele não fizera isso. Pior, ele praticamente fugira!
— São lindas, não? — ele indagou, arrancando algumas flores.
Hinata mordeu o lábio para conter o riso. Uzumaki estava nervoso.
— Céus! Não as raízes, apenas o caule com a flor.
Ele olhou para as flores e, após arrancar as raízes, estendeu-as para Hinata.
— Melhor?
— Ah... muito bom... Mas por acaso não tem uma faca?
— Tenho. — Ele retirou uma lâmina da bota.
Hinata engoliu em seco e ergueu os olhos da faca para a expressão divertida de Uzumaki.
— Você tinha isso quando estava no orfanato?
— E se eu tivesse?
— Obrigada por não ter usado.
Uzumaki apertou os lábios e desviou o olhar, como se estivesse pensando em alguma outra coisa.
— Eu não a tinha comigo. E, pensando nisso agora, fico feliz por isso. — Abaixou-se, cortou os caules de mais algumas margaridas e as entregou a Hinata. — Acho que minha vida teria sido muito diferente se eu estivesse armado.
— Então está... contente que eu o tenha raptado e acorrentado por uma semana no porão de um orfanato?
Uzumaki abriu um sorriso gentil, que Hinata jamais vira antes.
— Finalmente compreendi por que chamam aquele maldito lugar de Coração da Esperança. Porque, de alguma forma, alguém adivinhou que você e eu nos conheceríamos lá, Hinata Marie.
— Naruto, eu gostaria muito de beijá-lo neste minuto.
O sorriso de Uzumaki se alargou, e um brilho malicioso surgiu em seu olhar.
— Hinata, beijá-la é somente o começo do que eu gostaria de fazer com você agora. Mas não vou fazer nada.
Ela não conseguiu deixar de fazer uma careta.
— Por que não?
Ele a acariciou no rosto.
— Porque estou tentando me comportar.
—- Mas eu não quero me comportar. — O leve toque em seu rosto a deixara trêmula.
— Na grama macia seria... delicioso — ele murmurou, oferecendo-lhe o braço —, mas alguém poderia ver. O que eu quero de você não termina hoje, minha querida. E, por mais frustrante que seja comportar-se de forma apropriada, se isso é o necessário, é o que vou fazer.
Por um momento, ela não conseguiu falar. Uzumaki... Naruto... tinha mudado tanto que ela mal conseguia acreditar. E aparentemente mudara por sua causa.
— Você é muito amável algumas vezes — sussurrou. Mesmo não havendo esperanças para os dois, Hinata não estava pronta para admitir isso nem para si mesma, nem para ele. Não naquele dia.
O som da conversa em voz baixa despertara a atenção de lady Huntley, discretamente escondida ao lado do marido em meio a alguns arbustos. Felizmente, ela decidira colher flores naquele exato lugar.
— Você ouviu isso? — ela murmurou para o marido.
— Parece que Uzumaki está atrás da garota Hyuuga — ele resmungou, levantando-se e limpando a sujeira da roupa.
— Oh, é muito pior do que isso, tenho certeza. Acho que ele já a conquistou. E órfãos e um sequestro e sabe Deus o que mais. Precisamos avisar Alvington.
— Alvington? Por quê?
—- Ela é a moça com quem Shino vai se casar, pelo amor de Deus! Vamos, arrume-se logo.
— Estou tentando, minha querida.
X
Hinata deveria ter percebido que a emboscada fora preparada. No jantar mais enfadonho do ano, realizado em sua casa, contando com os conhecidos mais íntimos da família, ela percebia o olhar de todos voltados para si. Depois de ter passado o dia mais maravilhoso de sua vida, os interesses políticos do irmão e severidade dele apenas a lembravam de como gostava de ter Naruto Edward Uzumaki em sua vida.
Todos continuavam olhando para ela. Parecia estar recebendo mais atenção do que o normal. Assim que uma chance aparecesse, pediria licença e sairia da mesa. Até que Shino a pedisse em casamento e ela tivesse de enfrentar a realidade, ignorar a coisa toda e se comportar de maneira um pouco escandalosa parecia-lhe o melhor plano.
— Contaram-me hoje uma coisa extraordinária — disse lady Alvington, colocando seus talheres sobre a mesa.
Ao mesmo tempo, tia Houton fitou-a. O coração de Hinata disparou. Agora descobriria que os Huntley tinham reportado que ela conversara com Uzumaki o dia inteiro, que lhe dera o braço sempre que possível e que chegara a espantar uma joaninha dos cabelos dele. E Uzumaki, o terrível, o patife, o tiro certeiro com uma pistola, rira e assoprara o inseto de seus dedos.
— O que lhe contaram, milady? — Hiroshi quis saber.
— Quase hesito em dizer, exceto pelo fato de envolver diretamente alguém nesta mesa.
— Então deve mesmo dizer — insistiu Genevieve Hyuuga.
— Muito bem. — Lady Alvington inclinou-se e assumiu um tom de voz conspirador. — Aparentemente, o marquês Uzumaki esteve envolvido em um sequestro naquele orfanato que ele custeia. Foi por isso que desapareceu por uma semana.
Todo o sangue sumiu do rosto de Hinata. Lutando contra o pânico, ela procurou controlar a respiração, tentando não desmaiar. Oh, quem ouvira aquilo? Uzumaki jamais contaria a alguém. Ele prometera.
Agora todos estavam definitivamente olhando para ela. Ninguém parecia surpreso, e a tia era a única com um leve ar de compaixão no rosto. O que deveria fazer, mentir? Não. Isso apenas faria Uzmaki parecer ainda pior do que já o achavam, e ela não toleraria isso.
— Sei... alguma coisa sobre essa história — disse. — Parece pior do que foi. — Ela forçou uma risada, pegando sua taça de vinho. — Onde ouviu essa história, milady?
Hiroshi bateu com força o garfo no prato.
— De seus lábios, Hina.
— O quê?
— Imagine a minha surpresa quando lorde Alvington veio me visitar hoje à tarde com seus primos, lorde e lady Huntley. Eles ouviram você, minha querida irmã, no piquenique do general Haruno, dizendo várias... coisas impróprias para Uzmaki, incluindo o fato de que você queria beijar aquele... salafrário. Eu usaria um termo pior, mas há damas à mesa.
— Posso explicar? — ela perguntou, apesar de não ter ideia do que dizer, a não ser a verdade, até o ponto que ele conseguisse tolerar.
— Não, não pode. O que você estava pensando quando agiu dessa forma? Que iria se associar com aquele patife, e que eu não faria nada? Perguntei à nossa tia a respeito de suas ausências dos seus chás, e ela admitiu que você tem passado um bom tempo cuidando daqueles órfãos bastardos, desculpem a minha linguagem, senhoras, do Orfanato Coração da Esperança, exatamente o que está sob os cuidados de Uzumaki.- Evie olhou para a tia.
— A senhora contou? — Sua voz soou tão calma que a surpreendeu.
— Desculpe, Hina — a condessa murmurou. — Hiro já suspeitava. Não tive escolha.
— Felizmente, os Huntley foram direto até lorde Alvington e não espalharam a notícia — continuou Hiroshi. — E graças a Deus temos meios de corrigir esse fiasco antes que algum dano irreparável seja feito.
Por um momento, Hinata fechou os olhos, desejando estar em qualquer outro lugar. Uzumaki. Ela queria falar com Uzumaki. Ele teria uma solução para aquilo.
— E como pretende fazer isso?- Shino riu nervosamente.
— Depois de alguma discussão, e de um generoso acordo com seu irmão, eu concordei em aceitá-la como esposa.
O coração de Hinata pareceu parar. Ela sabia que isso poderia acontecer, mas parecia não estar preparada para escutar.
— Você "concordou" em se casar comigo? — repetiu, olhando para Shino.
— E eu concordei — Hiroshi declarou. — Somente nós sabemos desse episódio, e o anúncio de um casamento cessará qualquer especulação quanto à fraqueza de seu caráter.
— Mas eu não concordo! — Hinata respirou fundo. Já era hora de dar um basta. Se Hiroshi precisava de seis pessoas presentes quando a atacava, então ela era uma oponente à altura dele. — Vou gritar e espernear a cada passo do caminho e, quando as pessoas olharem para você, não vão admirar o seu talento político. Vão ver que tipo de tirano você é, e como usou horrivelmente sua irmã!
— Hina! — a mãe gemeu.
— É mais provável que as pessoas admirem a minha enorme paciência ao tentar discipliná-la. Obviamente tenho sido paciente demais, tolerando seu egoísmo e irresponsabilidade. Vá para o seu quarto, e não saia de lá enquanto não concordar em se comportar decentemente. Chega de órfãos, de compras com suas frívolas amigas e de conversas com Uzumaki!
Hinata colocou o guardanapo sobre a mesa e se levantou bem devagar.
— Qualquer que seja o seu pensamento ou o que tenham lhe dito, lembre-se de que nunca ouviu o meu lado da história. E poderia ter me perguntado, Hiroshi, antes de tentar me humilhar diante de nossa família e amigos. Você será um bom político, mas teria sido um irmão melhor se tivesse me perguntado, e se tivesse me ouvido. Boa noite.
Hinata subiu as escadas e chegou ao seu quarto, fechando a porta. Por um momento, preocupou-se apenas em respirar. Percebeu que estava mais com raiva do que aborrecida. Trancou a porta. Isso era melhor do que ouvir a chave sendo girada do lado de fora. Pelo menos desse modo, ela podia fingir que ainda tinha algum controle sobre a situação, sobre a sua própria vida.
Tentou acreditar nisso. Podia dizer "não". Nem mesmo Hiroshi poderia forçá-la a se casar contra sua vontade. Claro, como castigo ele a mandaria para a casa de West Sussex e se recusaria a permitir que se casasse com alguém de sua escolha. Também poderia cortar sua mesada, argumentando que ela falhara em seus deveres para com sua família; assim, ela não seria capaz de tentar viver em outro lugar ou fazer alguma outra coisa.
Pior ainda, porém, era pensar nas crianças. Uzumaki certamente não voltaria atrás em sua promessa de mudá-los para a nova casa, mas mesmo assim, falhara com elas. Pensariam que as abandonara, como todos na vida delas haviam feito.
— Não, não, não — ela se lamuriou, andando de um lado para o outro. Seis meses antes, se Hiroshi tivesse ordenado que se casasse com Shino Alvington, ela teria chorado e protestado, mas teria concordado.
Porém, não agora. Mudara muito. Fizera amizade com os órfãos e descobrira que podia melhorar a vida deles. Visitara outras instituições e vira que havia muito a ser feito. Descobrira como era estar nos braços de um homem e sentira-se importante ao ser alvo das atenções dele.
Abriu a janela, tentando ver se haveria uma forma de escapar de seu quarto. Nas histórias românticas que lera, sempre havia alguém esperando nas sombras pela donzela ou lhe trazendo uma escada.
Sentou-se na cadeira junto à janela. Claro, Hinata sabia o que queria fazer. Queria encontrar Uzumaki e convencê-lo a fugir com ela, ou pelo menos a escondê-la até que encontrassem alguma outra solução. Uzumaki, no entanto, apesar de ter mudado muito, detestava compromissos. Se ela aparecesse a sua porta, certamente lhe criaria um enorme problema.
E se ele apenas quisesse estar com ela quando ninguém os visse, quando o relacionamento não era nada complicado? Inclinou-se e fechou a janela. Se sua vida ia se tornar um pesadelo, pelo menos manteria a fantasia de amar o homem que Naruto Uzumaki estava se tornando. Não suportaria testemunhar e causar seu fracasso.
— Oh, Naruto... — murmurou. — O que vou fazer?
X
— Jansen!
O mordomo surgiu à porta.
— Milorde?
— Mande selar Cassius. E me arranje uma dúzia de rosas vermelhas.
— Sim, milorde. — O mordomo se retirou.
— Jansen!
A cabeça do mordomo reapareceu.
— Sim, milorde?
— Quero duas dúzias de rosas vermelhas.
— Muito bem, milorde.
Uzumaki arquivou seus documentos e calçou suas luvas. Já eram nove da manhã, graças ao tempo que perdera com o advogado. No dia anterior, Hinata dissera que planejava passar a manhã inteira na nova casa, tomando notas do que precisava ser comprado para deixar tudo pronto para as crianças.
Ele a encontraria lá. E, após o piquenique, achava que não teria muita dificuldade em convencê-la a se reunir a ele em um dos quartos por algum tempo. Se não a possuísse de novo, explodiria.
Em seguida, teria de conversar com Wellington a respeito de obter um posto em algum gabinete para Hiroshi Hyuuga.
— Voltarei na hora do almoço para assinar os papéis que Wiggins trará.
Jansen abriu a porta da frente.
— Muito bem, milorde. Aqui estão suas flores.
— Obrigado.
— Eu lhe desejo boa sorte, milorde, se não for muita ousadia.
Uzumaki riu enquanto montava seu cavalo.
— Não é, mas não faça disso um hábito.
A rua em que a nova casa ficava estava vazia, a não ser por umas poucas carruagens. Uzumaki estranhou a ausência da carruagem dos Hyuuga. Desmontou e encontrou a porta da frente fechada.
— Hinata? — ele chamou, a voz ecoando pelos cômodos vazios.
Obviamente ela não estava lá. Saint voltou a montar. O segundo local mais provável para encontrá-la era o orfanato. Portanto, seguiu para lá.
— Milorde — a governanta o saudou com uma reverência.
A mulher parecia não acreditar que ainda estivesse empregada, mas Uzumaki não queria que ela se animasse demais. Hinata gostava dela, e por isso ela ficaria. Mas esse era o limite de seu relacionamento com a Dama de Ferro.
— Sra. Natham, estou procurando a srta. Hyuuga. Ela está aqui?
— Não, milorde. As crianças perguntaram por ela, porque não a vemos há três dias.
— Muito bem. Obrigado. — Ele se voltou para sair.
— Milorde?
— Sim?
— O jovem Randall contou para as outras crianças uma história espantosa, sobre uma nova casa para todas elas. Estão excitadas, mas fico pensando se... Randall gosta de provocar, o senhor sabe.
— Randall está certo. — Uzumaki hesitou. — Creio que a srta. Hyuuga queira informar as crianças pessoalmente tão logo os papéis da compra da nova casa estejam todos assinados. Eu apreciaria que a senhora sugerisse às crianças que agissem como se estivessem surpresas quando ela lhes contar a novidade.
O sorriso da governanta suavizou suas duras feições.
— Com prazer, milorde. E obrigada, em nome das crianças, é claro.
— Claro, sra. Natham. Tenha um bom dia.
Era tão estranho, ele pensou, ao cavalgar em direção ao centro de Mayfair, que ver as pessoas felizes o fizesse sentir-se tão... contente. Exigiria uma explicação de Hinata sobre esse fenômeno assim que a encontrasse.
Viu a srta. Haruno e lady Uchiha justamente quando saíam da casa dos Haruno.
— Bom dia — cumprimentou, tirando o chapéu.
— Milorde — elas disseram, olhando uma para a outra.
— Estou procurando a srta. Hyuuga. Esperava encontrá-la esta manhã.
Sakura estremeceu.
— Ela disse ontem que tinha um... lugar para visitar hoje de manhã.
Uzumaki desmontou.
— Ela não está lá. Nem no outro lugar.
— Íamos ao museu hoje à tarde — disse lady Uchiha, pensativa —, mas ela mandou um bilhete, pedindo desculpas por não poder ir.
Tentando manter a calma, Uzumaki aceitou o bilhete que a viscondessa lhe entregava.
— Não explica por que cancelou o passeio — resmungou para si mesmo. Nunca a vira agir assim com as amigas.
— Tenho certeza de que o irmão simplesmente a mandou em uma de suas missões. — Apesar de suas palavras, lady Uchiha não parecia muito confiante.
Ambas as amigas sabiam dos planos de Hiroshi quanto a Hinata e Shino Alvington, e ele podia ver a preocupação nos olhos das duas. Os Alvington iam jantar com os Hyuuga na noite anterior. O coração de Uzumaki começou a bater mais forte, enchendo-o com aquela sensação desagradável com que não estava habituado, a preocupação.
—- Talvez devêssemos ir visitá-la, Ten — Sakura sugeriu. — Apenas para termos certeza de que ela está se sentindo bem.
Uzumaki mal as ouviu. Já montara Cassius.
— Não é necessário. Eu mesmo tratarei disso.- Alguma coisa estava errada. Apesar da pouca evidência que tinha, graças a sua experiência de vida, sabia disso. Queria galopar, mas como isso não seria elegante, seguiu em um trote rápido até a casa dos Hyuuga. O mordomo abriu a porta à primeira batida.
— Lorde Uzumaki. Bom dia.
— Gostaria de falar com a srta. Hyuuga, se ela estiver em casa — disse Uzumaki, incapaz de conter a impaciência de sua voz.
— Se o senhor esperar na sala de estar, milorde, eu falarei com ela.
Uzumaki soltou a respiração que estivera segurando. Ela estava em casa, afinal. Não fora arrastada para algum outro lugar ou obrigada a se casar com Shino Alvington antes que ele pudesse fazer alguma coisa para impedir isso.
Andou de um lado para o outro na sala; a necessidade de ver Hinata corria em suas veias como uma febre. Ela devia estar bem. Desceria a escada e diria a ele que tomara vinho demais no jantar da noite anterior e que simplesmente perdera a hora pela manhã.
— Uzumaki.- Ele se virou.
— Hyuuga — Os pelos de sua nuca se eriçaram. O que estava acontecendo ali era pior do que ele antecipara. Seja educado, lembrou a si mesmo. Hinata não iria contrariar totalmente os desejos do irmão em nada; assim, precisava conquistar Hiroshi para convencê-la de sua sinceridade. — Bom dia.
— Bom dia. Minha irmã não está se sentindo bem hoje. Lamento.
Ele não conseguiria vê-la!
— Nada sério, espero? — forçou-se a dizer.
— Não. Apenas uma dor de cabeça. Mas ela não pode receber ninguém.
— Muito bem. Então não vou ocupar o seu tempo, Hyuuga. — Uzumaki voltou para o vestíbulo e entregou as rosas para o mordomo. — Para a srta. Hyuuga.
— E Uzumaki... — o irmão de Hinata acrescentou, seguindo-o.
Apenas a presença de Hiroshi o impedia de subir a escada e de arrombar todas as portas até encontrar Hinata e se assegurar de que ela estava mesmo bem.
— O que foi?
— Minha irmã está noiva de Shino Alvington, e eu apreciaria, de cavalheiro para cavalheiro, que você mantivesse distância dela.
Uzumaki estremeceu. Quando ela mencionara isso antes, tratava-se apenas de uma possibilidade, de algo que ele pretendia impedir. A mulher por quem ele se apaixonara não ficaria noiva de outro homem. Não quando ele ainda não tinha tido uma chance de conquistá-la.
— Hinata concordou em se casar com Alvington?
— Naturalmente. Ela tem os interesses da família em seu coração. Bom dia, Uzumaki. Confio que não virá aqui outra vez.
Uzumaki parou à porta enquanto o mordomo a abria.
— Sabe, Hyuuga, eu costumava pensar que era o pior patife de Londres. Fico feliz em saber que estava errado. Parabéns. O título agora é seu.
— Se tivesse uma irmã, Uzumaki, você entenderia. Agora saia, e não volte mais.
Sair daquela casa foi a coisa mais difícil que ele já fizera. Sabia que Hinata estava ali, e que devia estar desesperadamente infeliz. Precisava vê-la. Precisava ajudá-la. Precisava fazer alguma coisa.
Uzumaki já tirara as rédeas de Cassius das mãos do criado de Hyuuga quando o mordomo apareceu de novo à porta.
— Você, seu mendigo! — gritou. — Não fique aborrecendo as nossas visitas. Sabe que a entrada dos criados é pelos fundos!
Uzumaki virou-se para onde o mordomo olhara. Não havia ninguém ali. Após fitá-lo, o homem desapareceu dentro da casa, batendo a porta.
Controlando o desejo de dar uma surra em Hyuuga, Uzumaki levou Cassius até a rua de baixo, onde encontrou um jovem, a quem deu uma moeda para que cuidasse do cavalo por algum tempo. Graças a Deus pelos mordomos!
Passando por trás da carruagem, conseguiu chegar sem ser visto aos fundos da casa. A porta da cozinha estava aberta, e o mordomo fez um sinal para que entrasse.
Os criados da cozinha pareciam furiosamente ocupados em fazer a limpeza àquela hora da manhã, mas se isso lhes desse uma desculpa para não vê-lo, não fazia objeção alguma.
— Obrigado — Uzumaki murmurou, seguindo o mordomo em direção a uma estreita escada nos fundos.
— Se o sr. Hyuuga pegar o senhor, temo que precisarei negar que tenha providenciado a sua entrada — o homem declarou. — Mas a srta. Hyuuga parece gostar muito do senhor, e nós gostamos dela. Ela não merece esse tratamento. Vá até o segundo andar. O aposento dela é a quarta porta à esquerda.
Uzumaki subiu a escada. Pelo menos, as ações do mordomo confirmavam suas suspeitas. Hinata não estava naquela situação por escolha.
O corredor estava deserto, e ele chegou facilmente à porta indicada. Batendo de leve, colocou o ouvido contra a madeira.
— Hinata?
— Vá embora, Hiroshi. Não vou falar com você!
— Hinata Marie —- ele chamou com a mesma voz baixa. — Sou eu. Uzumaki.
Ele a ouviu correndo para a porta.
— Naruto? O que está fazendo aqui?
— Não tem chave na fechadura — ele murmurou. — Sabe onde ela está?
— Eu me tranquei por dentro. Vá embora, Naruto. Agora. Você só vai piorar as coisas.- Uzumaki respirou fundo.
— Abra a porta, Hinata. Preciso falar com você.
— N... não.
— Então vou derrubá-la, e todos saberão que estou aqui. Abra antes que alguém me veja.
Após alguns instantes, Hinata abriu a porta. Uzumaki entrou no quarto e fechou-a em silêncio.
Oh, ela desejara a noite inteira vê-lo novamente! Agora Uzumaki estava ali, mas ela não via como ele poderia ajudá-la.
— Não deveria estar aqui. Se Hiroshi souber, ele me mandará para a casa de campo em um instante.
Ele a fitou por um momento antes de vencer a distância que os separava. Tomando nas mãos o rosto dela, inclinou-se e beijou-a com tanta suavidade e gentileza que quase a fez chorar.
— Seu querido irmão acabou de me expulsar daqui. — Beijou-a novamente, pensando que parecia fazer anos que não a via, e não apenas um dia. — Portanto, duvido que ele espere me encontrar em algum lugar nas redondezas.
— Então como você...
— Hiroshi jamais poderia ser tão ardiloso quanto eu, mesmo que tentasse. Conte-me o que aconteceu.
— Hiro descobriu sobre minhas atividades no orfanato e alguma coisa sobre nós dois, e decidiu que bastava. Shino Alvington concordou em se casar comigo, aparentemente por um dote generoso, e lorde Alvington concordou em garantir os votos de seu distrito para Hiroshi.
Uzumaki começou a andar de um lado para o outro, com o rosto sério.
— Então está feito. Assinado e selado, e você foi entregue. Eles perguntaram a você, Hinata? Alguém lhe perguntou o que você queria?
— Claro que não. Mas eu ultrapassei os limites da decência. Sabia que isso poderia acontecer.
— E aceita esse casamento?- Hinata respirou fundo.
— Gostaria que não tivesse vindo aqui, Naruto. É claro que não quero me casar com aquele idiota. Mas o que mais eu posso fazer?
— Saia daqui. Comigo. Agora.
Oh, Deus, ela quisera tanto ouvir aquilo!
— E a minha família?
— Eles a venderam. Não se preocupe com eles.
— Mas Uzumaki, eles são a minha família. Tentei tanto fazer uma diferença positiva. Se eu arruinar a carreira de Hiroshi, o que isso revela a meu respeito?
— Que você se desforrou.
— Eu não vivo por essa filosofia. — Deslizou os dedos sobre o peito dele, incapaz de resistir a tocá-lo.
Ele capturou sua mão, pressionando a palma contra o peito.
— Não vou permitir que se case com Shino Alvington — ele disse em uma voz soturna que Hinata nunca ouvira antes. — Esta é a minha filosofia.
Hinata sentia o coração acelerado de Uzumaki sob os dedos.
— Acredite em mim, se houvesse um modo de escapar dessa confusão, eu o faria. Mas não vou arruinar o nome de minha família. Meu pai tinha muito orgulho de quem era, e eu também tenho. E, apesar de eu querer odiar Hiroshi, ele é um bom homem; apenas está equivocado a respeito de algumas coisas.
— E quanto às suas crianças? — Uzumaki a puxou para mais junto de seu corpo. — Vai abandoná-las também?
— Você fará o que for preciso por elas, Uzumaki. — Uma lágrima deslizou por seu rosto, a primeira que ela se permitia desde que seu mundo desmoronara. — Eu vi o seu bom coração.
Uzumaki afastou-se abruptamente.
— Eu não tenho coração, Hinata. É por isso que eu... preciso... de você. Venha comigo agora. Eu lhe comprarei tudo o que quiser, eu a levarei aonde quiser. Abriremos orfanatos por toda a Europa, se assim o desejar. Apenas fique comigo.
Ela ouviu o desespero na voz dele, e a mágoa.
— Naruto, não posso — ela sussurrou. — Por favor, entenda.
Uzumaki ficou olhando para a janela por um longo tempo, com os músculos tão tensos que chegavam a tremer.
— Entendo — murmurou, por fim. — Hiroshi ganha um lugar no Parlamento, as crianças ficam bem cuidadas e você leva uma vida miserável e sem esperanças.
— Isso não é...
Ele se voltou para encará-la.
— Eu tratarei de assegurar as duas primeiras, mas nunca, nunca vou concordar com a última. — Ele a tomou nos braços e a beijou rudemente. — Eu a verei esta noite.
— Naruto, eu não...
— Hoje à noite.
Ele alcançou a porta. Temendo que ele pudesse tentar alguma coisa ainda mais drástica, Hinata o impediu de sair.
— Naruto, olhe para mim.- Respirando fundo, ele a fitou.
— Prometa-me que vai continuar no caminho que escolheu; que vai ser bom.
O marquês Uzumaki meneou a cabeça.
— Não. Você não vai se sentir como se tivesse feito um sacrifício por um bem maior no que diz respeito a mim, Hinata. Eu pretendo conseguir exatamente o que quero, mesmo que você já tenha desistido.
Com essas palavras, abriu a porta e saiu. Hinata ficou ali por um longo tempo, mas ele não voltou. Lentamente, ela virou a chave, trancando-se outra vez. Se ele voltasse à noite, não permitiria que entrasse. Se fizesse isso, nunca mais teria forças para deixá-lo ir embora.
Se existia uma coisa que Uzumaki sabia fazer era jogar sujo.
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— Eu preciso que uma mensagem seja entregue a Wellington imediatamente — avisou quando entrou em sua casa.
— Vou buscar Thomason. — Jansen apressou-se a ir atrás do criado enquanto o marquês seguia para o escritório.
Uzumaki foi até a escrivaninha, onde havia diversos convites. Quase uma dúzia, mais do que costumava receber. No fundo da pilha, encontrou o que estava procurando. Felizmente, já aceitara o convite para o baile dos Dorchester naquela noite. O que não lhe dava muito tempo.
Escreveu um bilhete para Wellington, oferecendo-lhe a última caixa de seu licor preferido, caso pudesse comparecer ao baile dos Dorchester com ele. Pedia também que o duque fizesse o grande favor de informar Hyuuga que gostaria que ele e a família estivessem presentes ao evento.
Quando Thomason apareceu para pegar o bilhete, Uzumaki o despachou de imediato, instruindo o criado a esperar uma resposta.
Por um momento, considerou enviar um bilhete similar para o príncipe, mas precisava de mais do que uma figura eminente; precisava de um posto no gabinete. Para conseguir um assento no Parlamento, seria necessário mais tempo; além disso, Alvington já tinha essa carta nas mãos. E o príncipe jamais tomava uma decisão rápida. E Uzumaki precisava obter resultados mais rápidos para Hyuuga do que Alvington conseguiria.
Thomason voltou em menos de trinta minutos.
— Foi rápido — disse Uzumaki. — Qual foi a resposta? O criado deu um passo para trás.
— O duque não estava em casa, milorde.
— Maldição! O mordomo disse onde ele poderia estar?
— Sim, milorde.
— Então, onde ele está? — Uzumaki indagou, impaciente.
— Calais.
— Calais — ele repetiu. — Na França.
— Sim, milorde. A caminho de Paris. Lamento. Eu posso ir atrás dele, se o senhor...
— Não. Pode sair. Preciso pensar.
— Sim, milorde.
Sem Wellington, Prinny parecia a única escolha. Porém, levando em conta o tempo que o príncipe levava para escolher o que vestir, convencê-lo a comparecer a uma festa em cima da hora parecia quase impossível. E Prinny não teria motivo para convidar Hyuuga.
Recomeçou a caminhar de um lado para o outro.
— Thomason!
Eles pareciam estar junto à porta, pois tanto o criado quanto Jansen entraram imediatamente no escritório.
— Sim, milorde? Terei de ir a Calais, afinal?
— Não. Quando Wellington partiu?
— Pela manhã. Ele queria estar à noite em Dover.
— Ótimo. Nada nos jornais sobre a sua partida até amanhã, então. Esperem aqui. — Ele voltou à escrivaninha e escreveu outro bilhete.
— Há alguma coisa que eu possa fazer, milorde? — Jansen perguntou.
— Não. Sim. Vou precisar de oito carruagens para esta noite. — Ele voltou sua atenção ao que escrevia. — Arranje dez. Eu as quero aqui às sete horas.
— Tratarei disso, milorde.
Finalmente, Uzumaki colocou o bilhete dentro de um envelope. O selo seria um problema. Depois de pensar um pouco, usou o próprio, e depois o alterou para que ficasse irreconhecível. Olhou então para o uniforme preto e vermelho que Thomason usava.
— Diabos! Você tem outro casaco?
— Milorde?
— Deixe para lá. Procure Pemberly antes de ir. Os criados de Wellington usam jaquetas totalmente pretas, não é?
— Sim, milorde.
— Tenho algo assim em meu guarda-roupa. Você agora está a serviço de Wellington, e levará a carta à casa dos Hyuuga. Não espere uma resposta. Um criado de Wellington não o faria.
— Sim, milorde.
— Está entendendo, Thomason? Deve convencê-los de que está a serviço de Wellington, de que ele está na cidade e de que você é importante a ponto de ter sido encarregado de levar a carta. Se não conseguir fazer isso, nada vai dar certo.
O criado balançou a cabeça.
— Eu entendo, milorde.- Uzumaki respirou fundo.
— Então vá procurar Pemberly.
Assim que o criado partiu, ele trocou de casaco para sair outra vez. O dia estava passando muito depressa, e ele tinha outra coisa a fazer. Três, na verdade.
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Por um momento, quando alguém bateu à porta, Hinata achou que Uzumaki voltara para raptá-la. Ela não resistiria. Não deveria ter recusado quando ele se oferecera para tirá-la dali. Ele tinha razão; não era justo que todos conseguissem o que queriam, exceto ela.
— Hina, abra a portal — Hiroshi berrou. A esperança caiu por terra.
— Nunca!
— Se eu tiver de entrar aí...
— Vai ter de derrubar minha porta, ou me trancar no porão.
Ouviu-o praguejar. Ele provavelmente não tinha ideia do que fazer quando ela não cedia.
— Wellington solicitou nossa presença no baile dos Dorchester hoje à noite — ele avisou após um momento.
— Eu não vou.
— Ele a acha encantadora, e quer dançar com você, Hina. E você vai. E dançará com Shino também, e nós começaremos a espalhar que logo estarão noivos.
Pular pela janela começava a parecer uma boa alternativa. Quando ela estava prestes a berrar de novo, lembrou-se do que Uzumaki dissera.
Eu a verei esta noite.
Será que tinha sido ele a arranjar o convite? Ele conhecia Wellington. Era uma possibilidade. Bem, pelo menos se ela saísse, poderia ver as amigas, e talvez conseguisse pensar em uma alternativa. E pediria a Skaura que fosse conversar com as crianças, para que soubessem que não tinham sido esquecidas.
— Eu irei ao baile, se me deixar ver minhas amigas.
— Contanto que eu permaneça a seu lado, pode ver quem quiser, exceto Uzumaki.
Hinata não respondeu a isso.
Como um ato de desafio pessoal, Hinata usou o pingente de diamante que Uzumaki lhe dera. Ninguém sabia o significado, senão eles dois. Talvez não devesse usá-lo, já que Uzumaki poderia interpretar aquilo como uma mensagem de que desejava ser resgatada, mas de alguma forma sentia-se mais forte internamente ao usar a jóia.
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— Hina! — Sakura chamou, abraçando-a com força tão logo eles chegaram ao baile. — Estávamos preocupadas com você. Está se sentindo bem?
Tenten sorriu quando Tenten e Neji se aproximaram.
— Eu...
— Lamento, mas minha irmã não está se sentindo muito bem — Hiroshi a interrompeu. — Emoção demais, suponho.
— Emoção? — Tenten repetiu, pegando a mão de Hinata. — Pelo quê?
— Bem, nós vamos anunciar daqui um ou dois dias no Times, mas Shino Alvington pediu Hinata em casamento, e ela aceitou.
Por um momento, as amigas apenas a fitaram.
— Parabéns, Hina — Sakura conseguiu falar. — Que surpresa.
— Realmente — Tenten ecoou, com o olhar fixo no rosto de Hinata. — Sabe, deveria contar isso a minha tia! — Dirigiu a Hiroshi um sorriso amigável que não tocou seus olhos. — A duquesa viúva de Wycliffe simplesmente adora Hina.
— Oh, sim! — Sakura agarrou o outro braço de Hinata, puxando a amiga. — Vamos contar a ela.
Enquanto as amigas a puxavam, Neji deu um passo à frente e colocou a mão no ombro de Hiroshi, tentando impedi-lo de seguir a irmã.
— Hyuuga, rapaz, eu já lhe contei...
Porém, Hiroshi se libertou e agarrou novamente o braço de Hinata.
— Como eu já lhes disse, minha irmã não está se sentindo bem. Viemos apenas a pedido de Wellington, e logo iremos embora.
Tenten franziu a testa.
— Mas...
— Lamento, mas vai ser assim.
Hinata percebeu que as amigas estavam ficando aborrecidas, e sorriu de leve antes que elas começassem a gritar com Hiroshi e criar um escândalo ali.
— Está tudo bem. Como Hiroshi disse, não estou me sentindo bem.
— Então... visitaremos você amanhã.- O irmão balançou a cabeça.
— Ela só vai começar a se sentir melhor na quinta-feira. Então vão poder visitá-la.
Claro. O anúncio já teria sido publicado no jornal, e os comentários sobre seu casamento estariam por toda a Londres. Ninguém seria capaz de fazer mais nada a respeito depois disso.
— Ah, lá está Shino — Hiroshi disse. — Você lhe prometeu esta dança, não foi, Hina?
Ela lançou-lhe um olhar de esguelha. O irmão esperava que ela fornecesse a corda para o próprio enforcamento?
— Não sei. Foi?
— Sim. — Hiroshi virou-se para as amigas dela. — Se nos derem licença.
Com relutância, ela o seguiu.
— Não estou vendo Shino Alvington.
— Ele deve aparecer na hora da valsa. Eu não ia deixar você contar a sua história para suas amigas.
Hinata suspirou amargamente.
— Você já venceu, Hiroshi. Precisa me ver infeliz o tempo todo?
— Não me deu razão para confiar em você.- Ela podia lhe dizer o mesmo.
— Por favor, apenas encontre Wellington para que você possa me exibir com ele, e então vamos embora.
— Não quero parecer ansioso demais.
— Se isso é tão importante, porque você não dança com ele?
— Sarcasmo não combina com você, minha irmã. Bem, como não sei se vai se comportar, vamos procurá-lo juntos.
Depois de quinze minutos de busca, tornou-se óbvio que o duque não estava ali. E Hinata tinha certeza de que Uzumaki tampouco comparecera. Sentiu o coração pesado.
Ela não esperava um resgate, mas vê-lo já significaria alguma coisa.
— Maldição! — Hiroshi resmungou quando voltavam para o salão cheio.
— Sim, parece que você foi dispensado. Posso apenas desejar o mesmo destino para mim.
— Agora chega! Vamos ficar apenas até a valsa. Depois, voltaremos para casa e você ficará trancada no seu quarto até quinta-feira.
Ela parou, forçando-o a fazer o mesmo.
— Já lhe ocorreu alguma vez que eu posso dizer "não", ou que posso ter um ataque no meio do salão, ou anunciar a altos brados que Uzumaki e eu somos amantes? O que acha que isso faria com a sua carreira?
— Isso me arruinaria.
— Oh, sim! E acredite ou não, eu preferiria isso a me casar com Shino. No entanto, apesar do que você fez comigo, acho que será um bom político e que fará algum bem para a população da Inglaterra. E é por isso que fiquei em silêncio.
— Pode ser bondosa o quanto quiser, agora que foi pega. Não fui eu quem andei por aí com Uzumaki ou estive sem acompanhante em um orfanato imundo em Covent Garden.
Hinata começou a responder, mas quando olhou para o rosto implacável do irmão, percebeu que jamais venceria. Ele nunca reconheceria os erros que cometera com ela. Mas havia algo que precisava dizer.
— O marquês Uzumaki é mais cavalheiro do que Shino jamais poderá pensar em ser. Você fez uma má escolha, Hiro, em todos os sentidos.
O irmão sorriu com ironia.
— Agora vai tentar me convencer de que enlouqueceu, não é? Veja, lá está Shino. Dance com ele, sorria, e então iremos embora.
— Acontece que neste instante eu prefiro passar algum tempo com o "colarinho engomado" a ter você do meu lado.
Ela encontrou Shino e o observou enquanto ele pegava sua mão e praticamente a lambia. Graças a Deus pelas luvas!
— Minha adorada Hina — ele murmurou, apertando seus dedos.
— Sr. Alvington, creio que devemos dançar a valsa.
— Deve me chamar de Shino.
— Prefiro não fazer isso — ela retrucou.
A valsa começou, e ele colocou a mão em sua cintura. A sensação a fez sentir-se mal e pensar no que seria sua vida depois que se casassem. A ideia de se deitar com ele, como fizera com Uzumaki... Fechou os olhos, estremecendo. Onde estava Naruto? Ele não sabia o quanto ela queria vê-lo? Ou pelo menos estar perto dele?
Nesse momento, as portas do salão se abriram. Hinata observou, espantada, as crianças invadirem o salão. Dez, vinte, outras tantas mais. Órfãos. Os seus órfãos.
Os convidados que estavam mais perto da porta começaram a recuar, assustados, e a orquestra parou de tocar.
— Pelo amor de Deus... — Shino balbuciou, empalidecendo. — É uma insurreição!
Ele não era o único a pensar que a classe humilde estava se amotinando. Lady Halengrove desmaiou, e muitos procuravam as saídas para os jardins.
Hinata, porém, estava olhando para o homem alto e moreno no centro do caos. Uzumaki. Ele segurava a pequena Rose no colo, e tinha a expressão calma, como se estivesse comprando luvas em Bond Street.
Conforme os órfãos se espalhavam, ela o viu sinalizando para eles. De imediato, tudo começou a fazer sentido. Lorde Alvington ficou encurralado contra a mesa de refrescos, enquanto Hiroshi se viu rodeado por Randall, Matthew e dois dos outros garotos mais velhos.
O que você está fazendo?, ela perguntou para Uuzmaki apenas movendo os lábios, ainda sem saber se ficava alegre ou embaraçada.
Ele não respondeu, indo direto até Hiroshi.
— Boa noite, Hyuuga.
A multidão ficou em silêncio, obviamente começando a perceber que não corria nenhum risco imediato.
—- Que diabos significa isso, Uzumaki? — Hiroshi esbravejou. — Eu já o avisei que...
Uzumaki tirou algo do bolso.
— Aqui. Você é agora o novo assistente do ministro das Finanças. — Uzumaki pressionou o documento contra o peito de Hiroshi. — Parabéns.
— Eu...
O marquês lhe deu as costas, buscando por Hinata. O coração dela disparou. Ele conseguira. Ele vencera Alvington na corrida para obter um cargo no governo para Hiroshi.
— Aqui — Uzumaki disse, colocando Rose nos braços de Shino.
— Você é meu papai? — perguntou a garotinha.
— Eu... ah... meu Deus, eu...- Uzumaki parou diante de Hinata.
— Olá — ele disse, suavemente. Ela mal conseguia respirar.
— Olá.
— Posso? — Ele tomou as mãos dela nas suas. — Eu trouxe as suas crianças.
— Estou vendo.
— Elas precisam de você.
Hinata percebeu que o salão estava em silêncio. Todos queriam ouvir cada palavra que diziam, mas ela não se importava. Uzumaki viera, e estava segurando suas mãos.
— Eu também preciso de você — ele continuou.
— Uzumaki...
— Naruto.
— Naruto, como conseguiu fazer isto?
Ele abriu aquele sorriso que a deixava com as pernas bambas.
— Você me deu a inspiração, e uma fonte. Sua amiga das reuniões literárias, lady Bethson, conseguiu o cargo para seu irmão. Sabe, Hinata, eu faria qualquer coisa para dar a você liberdade de escolha.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Hinata.
— Obrigada. Muito obrigada.
Uzumaki respirou fundo e então, para sua surpresa, ajoelhou-se.
— Eu menti para você antes — confessou, a voz baixa e um pouco trêmula. — Eu lhe disse que não tinha coração. Mas eu tenho. Apenas não sabia até conhecer você. Hinata, você é a minha luz. Minha alma anseia por você, e eu a amo com todo o coração que você despertou em mim. Eu... eu poderia viver sem você, mas eu não iria querer. Hinata Marie, vai se casar comigo?
As pernas de Hinata falharam, e ela caiu nos braços de Uzumaki, agarrando-o pelos ombros para que ele nunca mais saísse de perto dela.
— Eu te amo — sussurrou de encontro ao rosto dele.— Eu te amo tanto! Você me deu tudo.
— Somente porque você me mostrou como fazer isso. Case-se comigo.
— Oh, sim... Eu me casarei com você, Naruto!
Uzumaki sorriu novamente, enfiando a mão no bolso. Tirou de lá um pequeno estojo de veludo e o abriu diante dela. Era um anel, com um diamante no centro, rodeado de um coração em prata. Uzumaki colocou a jóia em seu dedo, antes de beijá-la. Vagamente, ela ouviu as crianças aplaudindo, e acabou rindo com os lábios perto dos dele.
— Eu tentei com afinco reformar você, mas devo admitir que nos últimos tempos desenvolvi um novo apreço por libertinos.
Ele se levantou e ajudou-a a fazer o mesmo, sem se afastar dela ou soltar-lhe a mão.
— Ótimo, porque não tenho certeza de conseguir me comportar de maneira apropriada no que se refere a você, minha querida.
Hinata avistou Tenten, Neji e Sakura rindo, e também riu, encostando-se no ombro de Uzumaki.
Você é a próxima, ela disse, movendo os lábios ao olhar para Sakura.
— Orquestra! — Uzumaki gritou. — Toque uma valsa.- Lady Dorchester, com o rosto pálido e com várias crianças penduradas em seus braços, entrou na pista de dança.
— O que isso significa? — exigiu. — Com um pedido de casamento não há problema, mas estas crianças não podem estar aqui!
— Por que não? — retrucou Uzumaki, girando Hinata nos braços e segurando-a mais perto do que mandava o decoro. — Todas elas sabem valsar!
FIM
Gente, THE END!
Muito obrigada por acompanharem essa adaptação do livro da maravilhosa Suzanne. Essa adaptação é a "parte 2" da serie, as partes 1 e 3 já estão postadas! basta dar uma passadinha no meu perfil e ler "A aposta" e depois "O segredo de Uchiha". A aposta é de NejiTen, e O Segredo de Uchiha de SasuSaku.
Kisses!
