A noite estava quente, quente como meu sangue em meio a guerra, e foi com esses pensamentos que os sonhos vieram. Bombas explodindo podiam ser ouvidas em todo o país, o campo de batalha se encontrava quente e abafado, o cheiro de sangue e pólvora recobria todo o ar, uma dessas bombas caiu extremamente perto de mim me deixando temporariamente desnorteado e sem audição, os soldados se escondiam atrás de ruínas e dentro de casas abandonadas, lança chamas estavam sendo utilizados para afastar nossos inimigos, o barulho me deixava confuso e eu sabia que tinha que procurar abrigo, mas algo me chamou a atenção, era um antigo orfanato, completamente abandonado e destruído, logo tudo entrou em câmera lenta, a única coisa que ainda estava de pé era a enorme porta de madeira, ao empurrá-la toda aquela destruição me atingiu como um soco, não havia mais nada inteiro, e bem ao longe, em baixo de uma das camas de ferro se encontrava o corpo de um menino, ele estava abraçado a um urso de pelúcia e em sua cabeça havia um capacete militar, sua infância fora roubada pela guerra.

Mas a imagem em si estava extremamente montada, havia algo errado, me aproximei lentamente absorvendo tudo ao meu redor e me inclinei para observar o urso aparentemente sem grandes estragos, mas de repente a pelúcia começou a sangrar, havia um gatilho transpassado no peito do urso que com certeza também deveria passar pelo peito da criança, e então houve a explosão, fragmentos da bomba vieram para meu rosto, a dor era dilacerante e eu só sabia gritar, então abri meus olhos e percebi que gritava enquanto Bella tentava me acalmar.

_ Tudo bem! Está tudo bem!

Logo o silêncio da noite preencheu meus ouvidos e então eu pude pensar novamente.

_ Foi só um sonho, não é nada. Deve ser a mudança, voltar pra casa tão rápido...

Minhas palavras foram interrompidas pelo barulho de um sino ao longe. Bella se levantou e começou a caminhar pelo quarto com certa pressa.

_ O que houve?

Ela não me olhou enquanto se cobria, apenas respondeu.

_ Geada.

Nos agasalhamos e saímos apressados do quarto encontrando trabalhadores correndo para fora, no meio da vinícula estavam grandes tudos com grandes labaredas de fogo saindo pelo topo sendo alimentadas por gás.

Senhor Aro estava com um cacho de uvas que continha uma fina camada de gelo em sua mão e analisava completamente focado, logo Charlie se aproximou dele e lhe estendeu o cacho.

_ O que acha Charlie?

Ele pegou uma única bolota de uva em sua mão e a esmagou analisando seu interior.

_ Ainda não atingiu o núcleo, podemos salvá-las.

Então se virou para todos os que estavam atrás dele.

_ Já, ainda dá tempo, vamos lá hombres.

Ele começou a caminhar apressadamente e pegou um par de arames retorcidos recobertos com um tido fino de tecido, lebravam-me asas de libélula. Então ele se dirigiu a mim.

_ Você sabe voar?

_ Se me ensinar.

_ Estamos para perder tudo, e quer que eu perca tempo ensinando você?!

Então virou-se de costas e começou a caminhar novamente. Bella me olhava com um pedido de desculpas e então começou a demonstrar como se fazia, com as asas de libélula eu deveria jogar o calor do fogo nas uvas para que não congelassem, era realmente como voar, logo Bella se posicionou a minha frente e começou a fazer o mesmo, seus movimento eram extremamente graciosos, era como uma borboleta abrindo suas asas pela primeira vez, todos os trabalhadores faziam os mesmos movimentos, mas a graciosidade estava apenas nela.

Ao longo da madrugada Bella e eu nos aconchegamos um no outro, ela se apoiou em meu peito e continuou a bater suas asas, Charlie nos observa ao longe, mas durante toda a jornada não falou mais nada a nós.

O dia amanheceu e com ele veio o calor do sol, deixando assim que os trabalhadores pudessem finalmente ir dormir, eu e Bella nos encaminhamos para o quarto, mas nós não iríamos dormir, estava na hora de voltar ao mundo real e ajeitar tudo.

Coloquei minhas roupas de viagem e arrumei minha mala sendo assistido pelos olhos atentos de Isabella, o silêncio estava me incomodando, e ela deve ter sentido o mesmo incomodo.

_ O ônibus não parte até às 11:00hs da manhã.

_ Até lá já é dia, todos estarão de pé, é melhor assim, menos perguntas.

Ela apenas balançou a cabeça em concordância e olhou em meus olhos.

_ Eu desejo toda a sorte.

_ Pra você também.

O galo começava a cantar e logo os muitos trabalhadores se levantariam, deveria haver um ou dois como testemunhas de minha fuga, seria perfeito. Me encaminhei para a saída do casarão com minha duas malas em mãos passando apenas por um dos empregados, tudo estava saindo conforme o planejado.

_ É o chamado das uvas que tira seu sono. Quando ela está madura, chama o homem.

De pé a poucos metros de mim, estava ele, Aro Swan. Ele se dirigiu para perto de mim e pegou minhas malas, logo o mesmo empregado se aproximou e ele lhe entregou as mesmas.

_ Leve isto.

A carta que iria colocar no correio na saída pesava dentro do meu bolso, e então ele se virou pra mim.

_ Me acompanhe, e traga o chocolate.

Peguei a maleta de mostruário e o segui, andamos até estarmos entre os enormes cachos de uva, e então ele começou a falar.

_ Sabe, todos dão conselhos de como cultivá-las, e os médicos dizem 'Senhor Aro, nada de comer chocolate, nada de sal e nada de charutos, e o menos possível de vinho', afinal, o que os médicos sabem sobre as necessidades da alma do homem? O que eles sabem? - Ele parou por um momento e me olhou respondendo a própria pergunta. - Nada. - Logo voltou a caminhar. - Me dê um desses chocolates sim?

Ele olhou atentamente todos os chocolates do mostruário e pegou um dos mais bonitos, elevou ao nível dos olhos, o analisou, retirou a réplica de aliança que o envolvia e em seguida me olhou.

_ É igual ao da minha neta.