Aqui, mais um capítulo da tradução. Obrigada a todos que tem acompanhado e comentado. ;)
Voltar a pisar na plataforma 9 3/4, depois de tantos anos foi realmente uma sensação única, ainda mais por fazer isso como se fosse a primeira vez. Não podia evitar lançar olhadas de curiosidade para todos os lados, tentando gravar na memória cada detalhe, cada apito da locomotiva, cada riso, cada murmúrio, cada expressão de assombro dos filhos de muggles.
A primeira vez que pisei na plataforma, não me permiti olhar muito, depois de tudo, era um Malfoy e não devia demonstrar interesse por nada. Supõe-se que tudo deveria me parecer normal e não chamar minha atenção, assim, permaneci ao lado dos meus pais com o rosto sério e impassível, dominado ao mesmo tempo pela excitação com a aventura que ia começar e pelo nervosismo de me separar dos meus pais, como toda criança de onze anos.
Mas, agora era diferente, queria guardar a maior quantidade de recordações e sensações, talvez um dia fosse parar de novo em Azkaban.
- Ansioso? - Meu pai perguntou, ficando de cócoras para ficar da minha altura.
Pisquei, surpreendido, meu pai daquela vez tinha se limitado a me dar um aperto de mãos e me deixar ir sem mais nada.
- Muito. - Sussurrei.
- Assustado? - O olhei com os olhos abertos de assombro, mas ao ver seu sorriso fraco, me atrevi a dizer a verdade:
- Um pouco.
- Não deve ficar assustado, meu Dragão, lembre-se que é um Malfoy... os Malfoy não tem medo de nada. - Minha felicidade se esfumou, mas quase na mesma hora ele voltou a sorrir pra mim. - Eu também estava assustado... - Confessou-me em um sussurro. - A primeira vez que fui para Hogwarts, não queria decepcionar meu pai.
- Eu também não quero te decepcionar, papai. - Voltei a sussurrar, e ele tossiu um pouco para disfarçar o brilho de lágrimas que seus olhos haviam mostrado por um segundo.
- Jamais poderia me decepcionar, querido. - Tive vontade de gritar que sim, que o decepcionaria muito em breve, porque Potter e Granger me superariam em tudo, porque faria asneiras, porque só tinha onze anos e não queria voltar para Azkaban. Porque algum dia, em vez de ser o maior comensal, o segundo tenente de Voldemort, terminaria em sua cama, sendo sua puta.
- Seria...? - Disse com voz baixa, limpando minhas lágrimas, disfarçadamente, mas Lucius se adiantou e começou a enxugá-las com seus dedos.
- O que queria perguntar?
- Seria muito ruim para a imagem dos Malfoy se me abraçasse?
Lucius soltou uma gargalhada, e me apertou entre seus braços, e senti como beijavam eu cabelo, perto da nuca.
- Não seria tão mau. - Disse, com a voz quebrada, e o abracei ainda mais. Fechando os olhos e tentando guardar todos aqueles momentos para o futuro, momentos que antes tinha desejado viver.
Senti o apito do trem, e como Narcissa me puxava para ela enquanto me beijava abertamente.
- Aproveite o colégio, dragãozinho. - Me murmurou.
- Vou fazer isso. - Disse, sorrindo.
Vi a Lucius arrastando meu baú até as escadas do vagão mais próximo, e depois de deixar meu baú, me levantou em seus braço e me deixou ao lado do malão.
- Não deixe de escrever, Draco. - Disse-me, e o vi agitar a mãos, enquanto avançava na mesma velocidade baixa do trem sem deixar de me olhar. Seguiu ao lado do meu vagão até que a velocidade do trem já não permitiu, junto a ele, muitos outros pais faziam a mesma coisa, não pude deixar de sorrir como bobo, enquanto ele fazia isso. Essa despedida tinha sido muito diferente da primeira, tão fria e sem emoções.
- Te amo, papai. - Me ouvi sussurra antes de não poder mais vê-lo.
- Te amo, filho, cuide-se! - O ouvi gritar quando já não podia vê-lo.
Me virei rapidamente para o meu baú. Precisava de um banheiro com urgência. Quando me virei, vi a Potter que estava parado atrás de mim, em silêncio, olhando para fora do trem, com uma expressão serena. Passeou seu olhar por meu rosto durante alguns segundos.
Senti minhas bochechas esquentarem ao me ver tão exposto diante dele, com os olhos deixando lágrimas de emoção que não podia conter. Ele se virou tranquilamente e o vi se perder pelo corredor.
Sacudi a cabeça e entrei no primeiro banheiro que encontrei e deixei minahs emoções transbordarem. Não sei quanto tempo estive ali, chorando como um estúpido. Não podia negar que sentia que meu amor por Lucius era imenso nesses momentos, que aquele Lucius frio que eu me lembrava desse dia, já não restava nada, substituído por esse pai que seguia o trem, como qualquer outro pai, sem se importar que seu cabelo se bagunçasse, deixando de aparentar o perfeito Malfoy que sempre devia ser, gritando que o amava... Esquecendo-se que os Malfoy não demonstram carinho em público.
Seria ruim que amasse a Lucius daquela maneira, sabendo que seu pai no futuro deixaria que esse monstro o tomasse?
- Não importa. - Disse-me com fúria. - O amo, quero amá-lo, não importa o que faça, com o que fez hoje, não importa nada.
Repeti isso a mim mesmo muitas vezes, tentando acreditar, me permitindo sonhar que tudo sempre seria daquele jeito.
- Odeio ter onze anos de novo. - Murmurei, limpando as lágrimas, lavei meu rosto com água fria durante muito tempo, já que não pude me lançar um glamour. Por que não podia? Esperei ali até que meus olhos já não se vissem tão vermelhos, e sai para o corredor.
Comecei a procurar uma cabine vazia, não queria estar com os meus amigos. Não queria começar a brigar com Potter tão cedo, queria me perder nos meus pensamentos e tratar de acalmar meus nervos, e a angústia que iam crescendo no meu interior conforme nos aproximávamos de Hogwarts.
Abri a porta da cabine, sem me lembrar que precisamente naquele estava o Menino-que-viveu. Os vi girar o rosto para mim, Potter levantou uma sobrancelha e olhou meu baú, e logo voltou a olhar meu rosto.
Não soube como as palavras tinham escapado da minha boca antes que eu pudesse evitar, é que estava me lembrando aquela vez...
- É verdade? - Perguntei. - Por todo o trem estão dizendo que Harry Potter está nessa cabine. - Não tinha me encontrado com ninguém, mas suponho que a fofoca já tinha corrido por todo o trem.
- Sim, me chamo Harry Potter. - Disse, me olhando com olhos semicerrados.
- Ei, Draco, estávamos te procurando por todos os lados. - Me virei com tanta pressa que até me desequilibrei por alguns segundos.
"Maldição", disse a mim mesmo, ali estavam Crabble e Goyle.
- Olá, rapazes. - Tentei que minha voz soasse fria e arrastada como sempre. Virei-me para Potter e Weasley. - Oh, esse é Crabble e esse é Goyle. - Disse, fingindo despreocupação. - Meu nome é Malfoy, Draco Malfoy.
Escutei uma tosse que Weasley soltou para disfarçar um risinho e não pude me controlar.
- Acha meu nome engraçado, não é? Não preciso perguntar quem você é. Meu pai me disse que todos os Weasley são ruivos...
- Continue. - Disse o ruivo, desafiando-me ao ver que eu tinha me calado de repente ao me lembrar que essa tinha sido a razão pela qual Potter tinha me rejeitado a primeira vez. - Diga.
- Só isso... que eram ruivos.
- E você também não precisava de apresentação, sabia? Um cabelo tão loiro e seu ar de menino do papai te identificam perfeitamente, pequeno comensal.
Senti como Crabble e Gloyle estalavam os dedos atrás de mim.
- Vão, vou logo. - Ordenei em voz fria, eles obedeceram imediatamente.
- Não vai dizer nada? - O ruivo me perguntou, parando muito perto de mim.
- Não, pode pensar o que quiser de mim. - Disse, e me virei para sair dali.
- Além de comensal, é um covarde?
Encolhi os ombros, peguei meu baú e sai, fechando a porta atrás de mim.
Procurei uma cabine vazia, encontrei uma no final do trem, fechei a porta com força e dei um chute no baú com raiva.
Isso não ia funcionar, tinha certeza disso, meu sobrenome me precedia onde eu fosse, sempre tinha carregado o estigma da participação do meu pai na primeira guerra contra o Lorde. Tinha me acostumado desde criança a só me reunir com os da minha classe social, porque a única vez que tinha tentando me aproximar de outra criança, ao seis anos de idade, sua mãe o havia afastado de mim, cuspindo aos meus pés, me chamando de cria de comensal.
Nunca tinha voltado a me lembrar daquilo com a dor que sentia nesse momento, sempre o fazia com raiva. E meu pai, agora eu compreendia, só tinha reagido tentando me defender.
- Vem, Draco, não vai querer se contaminar com esse sangue ruim. - Lucius tinha me levantado em seus braços, escondendo meu rosto em seu pescoço, é por isso que nunca tínhamos voltado ao Beco Diagonal para tomar sorvetes. - Só deve se juntar com as pessoas da nossa classe, são os únicos que sempre te aceitarão.
- Só queria brincar, papai. - Tinha dito, entre soluços. - O que eu fiz de errado?
- Nada, meu dragão, nada. - Lucius tinha me sussurrado, tirando-me da Florish e Bottes rapidamente. - É minha culpa, não sua.
Levantei o rosto das minhas mãos e olhei pela janela, assombrado por ter lembrado completamente agora.
- Papai. - Susurrei.
Não sai da cabine até que os murmúrios foram diminuindo, e o fiz com desgana, ainda levava no pescoço a correntinha de ouro branco com o pingente de serpente que Potter tinha me dado em Azkaban. A apertei durante alguns segundos, me perguntando se funcionaria ao contrário, se aquele giratempo poderia me levar de novo para Azkaban.
Não me sentia com força, nem com vontade de seguir adiante com aquela aventura. A segunda oportunidade que Potter tinha me oferecido não funcionaria, sempre seria um Malfoy, de qualquer forma que fosse, terminaria na cama do Lorde, e mais tarde em Azkaban, não queria viver tudo aquilo de novo.
- Port... - Estive a ponto de murmurar o feitiço completo, quando escutei que uma voz me chamava no final do corredor.
- Estão chamando os do primeiro ano.
Levantei a vista e vi a Potter junto com Weasley, e eles me olhavam, um com uma expressão séria, e o outro com uma careta de nojo.
- Se não se apressar, te deixarão.
Apertei com força a correntinha, e logo a soltei com um suspiro.
Pelo menos deveria tentar, não?
- Foda-se, maldito Potter. - Reclamei e comecei a andar.
- Primeiro ano! Os do primeiro ano, por aqui! Tudo bem, Harry?
Evitei rodar os olhos, e me encaminhei com passo cansado para onde se encontrava o semi gigante.
- Venham, me sigam... Tem mais alguém do primeiro ano? Cuidado ao andar. Os do primeiro ano, me sigam!
Escorregando e tropeçando, seguimos o guarda-caça, o caminho continuava tão estreito e escuro quanto eu me lembrava. Ninguém falava, só escutávamos com mais clareza os choramingos de Longbottom, e me lembrei que tinha perdido seu sapo.
- Em um segundo terão a primeira visão de Hogwarts. - Hagrid gritou. - Assim que fizermos essa curva.
Escutei os múmurrios de assombro de todos, e ainda que tivesse visto mil vezes já, não pude evitar me sentir emocionado de poder ver de novo, a recordação tinha se perdido da minha mente naquela cela fria, um calor em meu estômago, me lembrou de que apesar de tudo, tinha sido feliz ali, e que foi meu refúgio, o único lugar onde poderia escapar da cama do Senhor Tenebroso.
Fiquei parado no lugar, com mil recordações acumuladas na minha cabeça, meu quarto nas masmorras, onde por fim pude chorar ao começar meu quinto ano, depois de ter passado pela cama do Lorde, a recordação do meu primeiro amor, dos primeiros beijos. A Torre de Astronomia... as brigas com Potter, as partidas de quadribol...
Caramba, tantas recordações.
- Todos subiram? - Uma mão se pousou no meu ombro, com o que parecia delicadeza, mas me fez dobrar um pouco os joelhos. - Está bem?
Levantei meu olhar, com lágrimas não derramadas na direção do guarda-caça, que franziu o cenho.
- Você é um Malfoy, não é?
Engoli saliva antes de assentir, tudo se reduzia a isso, se era um Malfoy ou não, assim que confirmasse, ele me desprezaria.
- Está se sentindo bem?
Encolhi os ombros, não podia falar, o nó na minha garganta era muito duro.
- Tudo bem. - Ele disse. - Venha comigo.
Colocou sua mão imensa nas minhas costas e me deu um empurrão até os botes, subiu em um e logo se virou para mim, me levantou como se eu fosse uma pluma e me sentou no mesmo bote que ele. Íamos apertados, e muitas vezes temi cair no lago, mas agradeci em silêncio a tentativa de me fazer companhia e me deixar seguro, não se importando com o meu sobrenome, ou pelo menos, quis acreditar nisso.
- Abaixem a cabeça. - Disse, quando os primeiros botes alcançaram os penhascos, o vi se dobrar de uma forma quase grotesca, e abaixei a cabeça. Os botes nos levaram através da mesma cortina de pedra que lembrava, e que escondia uma abertura larga. Avançamos pelo túnel escuro, até que chegamos no porto subterrâneo. Vi como todos iam saltando fora dos botes e subiam pelas rochas.
- Obrigada. - Murmurei antes de sair do bote.
- Não tem de quê. - Me disse com o mesmo tom.
Observei o semi gigante enquanto entregava o sapo a Longbottom e vigiava os que desciam do bote. Senti que já não o desprezava tanto, tinha sido bom comigo, apesar de eu ser um Malfoy.
