A rua era somente iluminada por alguns postes ainda acesos, as luzes das casas como de costume a essa hora da madrugada se encontravam todas desligadas. Silêncio. Ninguém anda na rua a essa hora. Porém, se naquele momento algum dos moradores de algum dos prédios daquela rua colocasse a cabeça para fora de sua janela, poderia reparar que havia algo fora do normal ocorrendo ali.

-Já disse para parar de me seguir,Uruha!

-E eu já disse que não irei parar até que escute o que tenho a dizer!

-Não quero ouvir nada que venha de você depois da cena que acabo de presenciar,não acha é muita cara de pau da sua parte não?!

-Não, porque não é!!Você entenderia se escutasse uma única palavra minha!

O moreno apenas parou, ofegante, olhou para trás e encarou o outro com os olhos carregados de lágrimas, nas quais estava lutando para não fazê-las escorregar por seu rosto. Já havia corrido bastante, o cansaço o impedia de continuar a correr, sentia uma espécie de repugnância toda vez que cruzava o olhar com o de Uruha. Por mais que não estivessem tendo nada sério, estava se sentido traído.

-Decidiu parar e me escutar finalmente? -Retomou o fôlego e jogou os cabelos para trás, fazendo o possível para não se aproximar muito do moreno para que ele não saísse correndo novamente.

-Para com isso Uruha.. eu.. eu não quero olhar pra você agora, me deixa em paz!- Abaixou a cabeça e enxugou as lágrimas com as costas da mão, virou-se na direção contrária a de Uruha e suspirou.-...vai lá consolar sua namoradinha, ela deve estar sozinha te esperando.- a ironia contida na última frase que foi dita antes do moreno por as mãos nos bolsos e calmamente começar a caminhar em direção á sua casa pesou na consciência do guitarrista loiro, que, apenas fechou os olhos, levou uma das mãos á cabeça e apertou um pouco a testa, que estava com uma pequena e incômoda dor. Suspirou. Desistiu de tentar falar com Aoi, virou as costas e voltou para casa.

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O final de semana que deveria ter sido para relaxar e descontrair foi extremamente estressante e mal aproveitado. Não tinha conseguido dormir direito revivendo em sua mente a cena que havia presenciado na casa de Uruha. Não sabia se estava certo ficar bravo com Uruha, que, aliás, já tinha ido 3 vezes em sua casa batendo insistentemente á sua porta, sem falar nas centenas de vezes que o telefone já havia tocado aquela tarde, afinal, a culpa não é dele de ser dono de tamanha perfeição a ponto de que se alguém um dia o tem, não se conforma em perder. Não se conforma em perder... Perder... Será que ele havia perdido ele? Ah, seria bom se ele chegasse a ser dono dele, mas parece que tudo isso não passou de uma diversão.

Espreguiçou-se, levantou do sofá sem muita vontade e foi até a cozinha procurar algo para comer, tinha que arranjar alguma coisa para se distrair, ficar pensando nisso não iria fazer bem para ele. Parou em frente à geladeira, abriu e ficou observando por alguns instantes até chegar à conclusão que precisava fazer algumas compras. Talvez essa fosse à chance de se distrair. Pegou um casaco e desceu para o mercadinho que ficava a uns 50 metros de sua casa.

Estava distraidamente comparando os preços de leite nas prateleiras do pequeno mercado quando repara que não muito longe de onde ele estava, encontrava-se a mesma menina da noite anterior, acompanhada com o empresário da banda. O que aquela menina pretendia fazer agora? Se algo acontecesse à banda ela iria levar algumas boas palmadas.

Mesmo sabendo que ouvir conversa dos outros é falta de educação, a curiosidade tomou conta do guitarrista fazendo-o escolher algum yogurte que estava próximo o bastante dos dois que conversavam ainda distraidamente, porém, não o bastante para que fosse reconhecido.

-Então, eu fui ontem a casa dele e fiz exatamente o que pediu.

-Ótimo, se esse romancezinho daqueles dois se espalhasse e formasse polêmica ia dar muito trabalho, e não estou afim de arcar com as conseqüências.- sorriu com satisfação para a jovem ainda muito bem agasalhada, e tirou do bolso uma pequena quantia de dinheiro entregando á moça. -Quero que conclua isso até o final da semana.

-Pode deixar comigo, se bobear, hoje mesmo o Uruha é meu novamente.

-Seu? Hahaha. Só te contratei para separar aquele casal homossexual, Makoto.

-Hã?Como assim?Só porque estou fazendo o favor para você de separá-los não quer dizer que não haja verdade em tudo aquilo!Eu o quero de volta sim. Porque não poderia?Tem algo contra eu ficar com Uruha?

-Pare de falar asneiras. Preciso ir, eu sou um homem ocupado.

-Sei... Mas diga, desde quando tem intimidade o bastante para charmar-me pelo primeiro nome?

Aoi ficou de boca aberta com o que acabara de ouvir... Então tudo isso não passara de um plano?? E pior, ele havia culpado somente Uruha por tudo, como fora infantil, jogado a culpa inteira nele sem ao menos saber de tudo, e pior, não ouvira uma única palavra que Uruha tinha para dizer, sendo que ele o perseguiu insistentemente aquela noite. E ainda depois mandou uma mensagem preocupado se não tinha pego uma gripe por correr no sereno. E foi nessa hora que o arrependimento bateu. Não podia largar as compras e correr para Uruha desmentindo tudo agora, tinha que pensar bem antes, não seria surpresa nenhuma se Uruha não acreditasse na história dele, mas então como?Bom, teria que pensar em um jeito logo, já que a jovem pretendia agir hoje novamente.

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Não sabia mais o que fazer para tentar fazer com que Aoi o ouvisse, já que ele não atendia a nenhum de seus telefonemas e se recusava a abrir a porta de sua casa para ele. Pensando bem, ele não tinha muito o que dizer, afinal ele não tinha feito nada! Pegou uma jaqueta qualquer de dentro do armário, vestiu rapidamente e saiu de casa. Não agüentava mais reclamar com as paredes.

Várias vezes se pegou imaginando se seria melhor tentar novamente bater na porta de Aoi, mas a essa altura talvez fosse melhor deixá-lo em paz, já que ele deixou bem claro que não estava para conversa no momento, principalmente com Uruha. Droga.

-Uruha? O que está fazendo aí?

Deu um pequeno pulo ao ouvir seu nome sendo chamado. A primeira pessoa que lhe veio á cabeça seria Aoi, mas ao se virar, deparou-se com a figura sorridente do vocalista.

-Ah, Ruki!Tava só dando uma volta... E você?-Talvez fosse essa a chance de pedir ajuda, a não ser que Ruki ficasse chocado demais sabendo disso e acabasse ficando amedrontado.

-Eu também, é que... Sei lá, não agüentava mais ficar em casa, e como eu tava sem nada pra fazer decidi dar uma volta.

-Ah sim. - isso não muito costumeiro dele, será que também havia acontecido alguma coisa?Talvez... Talvez fosse melhor desabafar com ele, quem sabe ele também não aproveitasse a oportunidade e se deixava ser ajudado. -Então... Se não tiver mais nada melhor pra fazer, porque não damos uma volta juntos?

-Eu adoraria!-Sorriu e se posicionou ao lado de Uruha, até começarem a andar sem rumo pelas ruas. Uruha ainda estava meio duvidoso e demorou até entrar no assunto.

-Sabe Ruki... Eu... Poderia pedir uma ajuda aí?

-Aconteceu alguma coisa?

-Bem... Pra falar a verdade, aconteceu. Escuta, antes de eu começar a falar terás que me prometer que não vai se amedrontar com nada, por que... Sei lá, você é meu amigo e... Eu confio em você e gostaria que me ajudasse.

-Pode ficar tranqüilo. No começo admito que fiquei meio chocado mas...acho que por experiências semelhantes comecei a aceitar numa boa.

-O que quer dizer com isso? - Rubor. Até o ultimo fio de cabelo. Como ele sabia sobre Aoi e ele? E... O que ele quis dizer com experiências semelhantes?Ele por acaso andou também se relacionando com um homem?... Seria Reita?

-Vi vocês na casa de praia. -Abaixou a cabeça para que o seu cabelo escondesse suas bochechas agora também ganhando um tom avermelhado. Mordia o lábio inferior com medo da reação do amigo a cada palavra que dizia.

-Ah... Hehehe. Você conseguiu me deixar sem graça agora. - Estava realmente envergonhado. Estava crente de que ninguém tinha suspeitado daquele episódio do chuveiro, porém, parece que estava errado.

-Bom, diga-me o que aconteceu então. - levantou a cabeça e sorriu com o intuito de fazer o amigo sentir plena confiança nele. Talvez fosse uma boa chance para pedir ajuda também...

Conversavam distraidamente, Uruha podia observar que Ruki ouvia atenciosamente cada palavra sua.

-E foi isso... E não sei mais que fazer para tentar fazê-lo olhar pra minha cara...

-Hum... É normal ele reagir desse jeito, Uruha.

-Por quê?

-Pelo simples fato dele gostar de você, ué. Porque mais outro motivo ele ficaria magoado?

-Eu... -Parou pra pensar na possibilidade e viu que realmente fazia muito sentido, porque quais outros motivos teria?-... Mas... Que acha que eu devo fazer?

-Dê um tempo a ele, tente falar com ele depois. Por enquanto acho que ele precisa de um pouco de paz.

-Talvez...

-Err... Aproveitando a ocasião, será que podia me ajudar também?Eu sei que não é um bom momento pra jogar meus problemas em você, mas... É que eu não agüento guardar isso pra mim.

-Claro!Pode falar sem problema algum.

-É que... Bem, a pouco eu disse que passei por algumas experiências semelhantes?Bom... É o Reita. Há um tempo atrás nós estávamos... Meio que tendo... Um caso - A cada palavra ele ficava cada vez mais ruborizado, não que pretendesse manter em segredo por muito tempo, mas... Era estranho contar algo do gênero a um amigo. -... Sabe, eu gosto dele, realmente gosto muito dele, mas... Ele parece não gostar,ultimamente ele não tem me dado muita atenção e..fico sem graça de perguntar se ele ainda quer algo comigo.

-Bom. Sinto informar-lhe, mas não tem outro jeito a não ser ir falar com ele, porque, você sabe antes de terem um caso vocês tem uma amizade, ele vai te compreender e fazer o possível para te ver bem.- Ruki apenas agradeceu e sorriu, recebendo outro sorriso de volta de Uruha, que levou uma de suas mãos ao cabelo de Ruki fazendo-lhes pequenos cafunés- E vê se me mantenha informado, se o Reita te magoar pode me chamar!

-Eu digo o mesmo.

Ambos passaram o dia aparentemente melhor depois dessa conversa que tiveram. Já estava quase escurecendo cada um seguiu seu rumo com destino a sua respectiva casa. Uruha chegara rápido, já que onde anteriormente estavam não era muito longe. Ao longe, pode observar alguém o aguardando na porta de entrada.

Continua...