Depois de quase um mês nem acreditei que finalmente havia voltado para casa. Foram dias cheios devido ás gravações do novo pv. Joguei as malas na cama, tirei os sapatos e joguei-os em um canto qualquer.

Aoi esteve se comportando normal comigo... normal demais. Tão normal que chegava a parecer levemente desprezo.Sempre evitando dirigir-me alguma palavra, e principalmente fazendo de tudo para não ficar um segundo se quer a sós comigo.

Isso estava realmente me incomodando.

Apesar de tudo eu dou razão á ele, afinal... eu a beijei.

Só de lembrar do ocorrido já sentia pontadas de dor na cabeça. Porque não havia apenas sido desagradável, foi desagradável na frente do Aoi!! A ultima pessoa que poderia ter visto algo assim.

Será que perdi ele de vez?

Precisava de alguém pra conversar.

Peguei o telefone e disquei o número do celular de Ruki, que de tanto ligar já havia decorado. Como de costume ele demora a atender, tem a mania de colocar o celular no bolso de mais difícil acesso.Deve ser por medo de perder.

-Oi Uruha!

-Oi Ruki.. sei que acabamos de voltar de viagem e imagino que esteja exausto assim como todos nós mas... será que não poderia vir aqui em casa?

-Hoje? Hm... acho que não tenho nada pra fazer.Posso ir sim.

-Ótimo, estou de esperando okay?

-Logo estarei a caminho!

Desliguei.

O fato de Ruki vir aqui em casa talvez me deixasse um pouco mais animado.Fazia muito tempo que ele não vinha. Antigamente ele frequentemente aparecia aqui.

Talvez fosse melhor dar uma ajeitada na casa já que iria receber alguém. Fazia meses que eu não a arrumava, e não é agradável receber alguém assim. Apressei-me a pegar a montanha de roupas que estava em cima do sofá jogando-a em cima da cama do meu quarto.

Afastei-me da cama e fiquei em pé, com as mãos na cintura observando os roupas com uma das sobrancelhas levantadas. Lembrei-me de que nunca fui bom em dobrar roupas. Talvez fosse melhor colocar tudo dentro do armário e chamar urgentemente a empregada. Trabalho doméstico nunca havia sido minha especialidade.

Ouvi o som da campainha e surpreendi-me com o pensamento da possibilidade de ser Ruki. Como é fisicamente possível alguém chegar assim tão rápido? Tá certo que ele mora certo mas não o suficiente para justificar essa rapidez.

Corri para abrir a porta e percebi que era realmente o vocalista.

Mas porque aquela expressão tão...triste?

-Oi Ruki, chegou rápido!!- Sorri e abri espaço para que ele adentrasse o apartamento.

-Oi Uruha! É que eu... estava na casa do Reita...

-Ah, entendo.- Reita morava praticamente em frente á minha casa. Apesar disso ele nunca tinha vindo aqui e eu nunca tinha ido lá.- Bom, sente-se! Eu... estava terminando de dobrar algumas roupas...

-Você, dobrando roupas Uruha?! - Arregalou os olhos deixando uma expressão espantada e ao mesmo tempo confusa em seu rosto, levou a mão á boca para tentar abafar um pequeno riso, sem sucesso.

-É!! Pare de rir!!- Dei um pequeno tapa em sua testa.-Se ri tanto de mim é porque sabe fazer! Venha me ajudar então!!

-O que??Mas eu sou visita, não posso fazer esses trabalhos domésticos!!

-Fala sério Takanori, visita é a ultima ciosa que você seria aqui em casa.Cê praticamente mora aqui! - disse sorrindo comicamente e mostrei-lhe a língua, em seguida segurando seu pulso e puxando-o para o quarto e apenas fiquei observando a expressão extremamente espantada do vocalista ao se deparar com a pilha de roupas.

-MEU DEUS URUHA!! SEU RELAXADO! - Ele apontou para as roupas e ficou nessa posição por alguns instantes. Parecia que ia ter um treco a qualquer momento.

-Acho que você não pode falar tanto assim. Da ultima vez que fui á sua casa suas roupas est-

-OKAY, OKAY!... eu te ajudo.-Ri ao receber a interrupção graças á vergonha que causei no vocalista. Ele odiava que eu tocasse no assunto do dia em que eu fui á sua casa e o vi tentando mexer na máquina de lavar já que sua empregada havia adoecido. Havia roupas para todo o canto, em cima das mesas, sofás, por toda a parte. E se você adentrasse a casa poderia ver uma grande quantidade de espuma saindo de sua lavanderia, e, uma figura ainda loira e baixinha em meio á ela.

Não que ele fosse um expert em dobrar roupas, mas em poucos minutos tudo estava dobrado e guardado organizadamente.

-Você não pretendia realmente dobrar essas roupas, pretendia Uruha?- lançou um olhar desconfiado a mim.Ele me conhecia o suficiente para saber que eu pretendia guardá-las assim mesmo.

-Ruki, você tem uma idéia tão relaxada de mim!- Formei uma expressão comicamente triste no rosto em seguida caindo na gargalhada juntamente com o vocalista, que se dobrava de rir com o tamanho no beiço que eu tinha feito.

Já que tínhamos concluído as roupas, a próxima etapa era a comida... isso era realmente um problema!! Se eu não sei nem dobrar uma roupa imagine cozinhar! Peguei o telefone e liguei para uma entrega de pizzas, seria mais "seguro". Sentamos no sofá para aguardar a pizza.

-Então Uruha, qual seria o motivo de ter me chamado assim tão de repente?- Imaginei que ele iria entrar no assunto logo.Ruki é uma pessoa que sempre soube quando eu precisava de ajuda. Imagino que ele tenha percebido que eu não estava exatamente bem nas gravações, pois de vez em quando eu o pegava me olhando com um ar preocupado.

-Bem... eu precisava...desabafar.- abaixei a cabeça.- ...é sobre o Aoi.

-Humpf.- me olhou feio.- Eu imaginei que seria algo do gênero. Vocês mal se olharam durante as gravações e últimos ensaios!!

-Pois é agente... agente não tá mais junto.

-VOCÊS TERMINARAM?!

-Não agente... só não tá mais junto. - não tinha o que terminar, afinal.. agente não tinha nada. Nem precisei encarar o vocalista para perceber que o mesmo me olhava espantado. Suspirou para manter a calma, jogou-se no sofá quase deitando e começou a brincar com o acabamento da manga de sua blusa.

-Que coincidência, Uruha...-falou baixinho, quase inaudível.

-Como assim?- Temi o pior.Teriam ele e Reita...?

-Eu e Reita também não estamos mais juntos.- Se ajeitou sentando-se corretamente com um sorriso melancólico nos lábios, não querendo demonstrar tristeza.- Mas...me conte, porque vocês terminaram?! - Tava pra perceber que ele não queria trazer preocupação.

-Bem.. você se lembra da Makoto?

-Lembro sim.

-Ela veio me procurar esses dias dizendo coisas confusas como que me amava e queria voltar comigo...

-Não me diga que você v-

-NUNCA!!

-Ufa.- Suspirou aliviado - O que aconteceu então?

-Acabei a beijando na frente de Aoi. - Ruki estava de queixo caído. Me olhava com ar de espanto. Acho que essa seria a ultima coisa que ele esperava ouvir. - Digo... ela que me beijou!!

-Ah.. bom, mesmo assim... Uruha!! É completamente normal que Aoi não queira mais ficar com você depois disso!!

-Obrigado, mas disso eu já sabia.

-Tá desculpe-me. Quero dizer que... você já tentou se desculpar?

-Ele não faz questão de uma única palavra minha, Ruki.

-Entendo... Bom, nem sei o que dizer.

-Tudo bem, eu só queria poder contar isso pra alguém, eu tava prestes a explodir já. E você e o Reita... porque?

-A família não aceita.

-Puta que pariu...- me arrependi de ter usado uma expressão tão feia num momento como esses. A situação estava realmente delicada, pude ver os olhos de Ruki lacrimejarem.

Estava tão chocado que nem pude ouvir o som da campainha.

-Uruha eu acho que a pizza ch-

-Sabe Ruki... talvez a família do Reita só esteja chocada com a novidade e o Reita esteja com medo de ser rejeitado pela mesma... talvez ele só precise de um tempo, ele e também sua família. Se ele realmente gostar de você, o que eu acho que é muito provável, ele vai voltar atrás e vai superar qualquer coisa para poder ficar com você.

-Uruha...

Formaram-se grandes lágrimas nos olhos de Ruki, que apenas me abraçou forte em agradecimento, fazendo-me chorar também e retribuir aquele amigável abraço.

Ele era realmente um amigo que eu nunca vou querer magoar.

--

A luz forte que o lindo dia que estava fazendo naquela manhã emitia atingia diretamente meu rosto. Abri lentamente os olhos completamente a contra gosto e fui levantando devagar, permanecendo agora sentado. Observei minha volta e percebi que havia adormecido no sofá. Olhei a poltrona ao lado e pude visualizar a figura de Ruki encolhida em uma posição provavelmente desconfortável.

Aproximei-me e retirei as mexas de seu cabelo que cobriam seu rosto.Seu rosto infantil era realmente adorável.Ruki era mesmo muito bonito.

Me dei ao trabalho de pegá-lo no colo e levá-lo até o sofá para evitar que ele ficasse com alguma parte do corpo dolorida mais tarde.

A sala estava uma zona. A caixa de pizza com pedaços de restos da comida estava jogada no chão, havia copos e garrafas além claro dos desarrumados tapetes. Ah... deixa pra lá, afinal, o telefone da empregada eu já sabia de cor, ligaria para ela mais tarde.

Fui até a cozinha. Ainda estava meio desacordado, meus olhos estavam pesados. Fui até a frente de uma das prateleiras, fiquei na ponta dos pés para alcançar o pacote de café. Bom, acho que pelo menos meu café não é ruim, ao contrário de todo tipo de comida que já tentei um dia fazer.

Esquentei um pouco de água. Apanhei a chaleira e o pacote de pó de café na mão e fui até a frente da cafeteira. Coloquei ambas as coisas que estavam á minha mão em cima do balcão ao reparar que havia um resto de café sobrando dentro da pequena jarra. Era café extremamente forte e escuro... Aoi havia feito pra mim na nossa ultima ressaca juntos... ele costumava tomar café assim todos os dias...

Não conseguia mais segurar. A jarra que se encontrava em minhas mãos agora se encontrava no chão despedaçada. Rapidamente um grande número de lágrimas se formaram em meus olhos. Desabei no chão. Fiz inúmeros cortes nas palmas das mãos graças aos cacos de vidros. Por que? Porque eu tinha perdido? Tudo estava perfeito... eu estava tão feliz... poderia ficar daquele jeito para sempre!! Eu o amava, amava muito... eu o AMO muito!! Quero ele de volta.. só pra mim, só pra mim.

Ruki adentrou a cozinha. Acordou com o barulho da jarra se quebrando e me viu jogado no chão com as mãos sangrando esfregando-as no pouco de café que havia sobrado no chão, em seguida lambendo-as. Se apressou em me afastar dos cacos de vidro e me levou para a sala. Enxugou minhas lágrimas com a manga de sua blusa, e me abraçou, me abraçou com tanta força quanto nunca tinha abraçado antes. Parecia que ele podia sentir minha dor. Apenas o abracei de volta e o ouvi acompanhar-me naquele coral melancólico de soluços e lágrimas.

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Dias se passaram, semanas se passaram, e assim, meses se passaram.

Estávamos a apenas a alguns minutos dias do live Decomposition Beauty. Todos pareciam extremamente nervosos. Mas.. para mim, tudo era indiferente. Apesar de estar feliz por Ruki e Reita terem se acertado, e agora estavam tendo um concreto relacionamento, aquelas feridas causadas em minhas mãos naquele dia pareciam ainda não ter se curado. Porém, a dor não vinha dali.

Aoi ainda nem sequer olhava para mim.

A cada dia que passava eu só me sentia pior. Pensei que fosse possível esquecê-lo com o tempo, ou talvez que aos poucos a dor fosse passando. Mas foi muito pelo contrário. A cada dia que passa eu o amo cada vez mais, a cada dia que passa essa imensa dor só aumenta. Está chegando ao ponto do insuportável.

Eu não agüento mais isso.

O que eu mais quero no momento é tê-lo para mim.

É poder envolvê-lo em meus braços e ser envolvido. É poder tocá-lo e senti-lo, é poder abraça-lo e não precisar soltar tão cedo... O que eu quero é só mais uma chance.

Eu só quero mais uma chance para que possamos dar certo. Só quero mais uma chance para que nossa história tenha um final feliz. Quer poder voltar aqueles dias que tínhamos antes.

Quero poder acordar ao seu lado. Poder acariciá-lo e receber seu sorriso a cada pequena brincadeira. Quero poder ouvir sua bela voz sussurrando apenas para mim. Quero sentir novamente aqueles calafrios que só ele sabia me fazer ter.

Eu o desejo da maneira mais obsessiva á mais obscena. O desejo de todas as maneiras. Amo cada pedaço dele. Todas suas manias, cada detalhe de si. Ele é o único que a meu ver alcançou a perfeição. O único que eu seria capaz de me entregar de corpo e alma. Aquele que eu confiaria meu amor pro resto da vida. Se for parar pra pensar isso soa meio exagerado, porém, verdadeiro.

Não agüento mais isso.

Definitivamente não dá mais.

O show começou, tais pensamentos não paravam de rondar minha cabeça. Meus olhares não saíam da figura que se encontrava do outro lado do palco. Tão perto porém tão distante.

tempo estava passando, o show estava indo muito bem apesar de tudo. Já estávamos no meio dele e a platéia estava realmente animada, além do número de pessoas ser muito grande e todos estarem tocando e cantando muito bem.

Mas isso não foi o que me fez ganhar a noite.

No meio de uma das músicas percebi que Aoi cruzara seu olhar com o meu, e ele sorriu meigamente para mim.

Ah, que saudade de seu sorriso. Senti um quente dentro de mim, preenchendo-me. Como ele era adorável, toda essa "meiguice" dele realmente me encantava. Não dava mais pra segurar. Apenas me dirigi até perto dele, agarrei-o e o beijei.

-Eu te amo Aoi.

Continua...